Sexta-feira, Maio 25, 2012

DESABAFO


Por que será que este sentimento de fuga me invade cada vez com mais intensidade? Será a necessidade de esvaziar esta arca velha, de desabafar, de fugir de mim mesmo, de afastar o pensamento de toda esta balbúrdia que me rodeia e me incomoda e de criar à minha volta, um mundo novo, com gente a sorrir, sem pressas e sem competições? Utopia?!... Que o seja, mas sinto muitas vezes esse impulso de reinventar outro mundo!
E nesse desejo, nessa ânsia, muitas vezes, sem me aperceber, esqueço-me de mim mesmo e invento outra personagem. Totalmente diferente. Uma silhueta quase irreconhecível, uma espécie de fantasma, que pouco dura e que acaba por desaparecer submersa nas vagas da minha própria imaginação.
É difícil fugir da aparência, da fachada, da máscara com que disfarçamos uma felicidade que nunca atingimos. É sempre difícil se não impossível despir completamente a indumentária que vestimos ao longo de muitos anos.
E é também difícil localizarmos no nosso imaginário aquele momento mágico em que nos foi oferecida a ocasião de optar, de escolher o rumo certo, aquele que agora, depois desta longa distância percorrida, pensamos teria sido o ideal... 
Mas será que alguma vez na nossa adolescência nos apercebemos desse momento enigmático, dessa encruzilhada de caminhos que a vida nos mostrou para podermos escolher o tal rumo certo?!...
É curioso como apesar de todos estes anos de peregrinação por este vale de lágrimas, esta ânsia de reinventar um outro caminho que não o percorrido, continue, de vez em quando, a atravessar-se nos meus pensamentos, colocando dúvidas e interrogações difíceis de satisfazer!
É curioso também que mesmo numa idade avançada se continue a sonhar e a ter pesadelos. Sobretudo pesadelos, porque os sonhos, quanto a mim, têm uma grande lógica interna e uma grande coerência interior. Eles permitem-nos, enquanto duram, de alimentar esperanças dando-nos alento e reforçar ainda que ficticiamente, a nossa auto-estima.
Todos nós temos virtudes e defeitos tornando-se por isso, e à medida que o tempo vai passando, mais importante consciencializarmo-nos das nossas imperfeições. Bem sei que nesse turbilhão de ideias, nesse emaranhado de interrogações e sem possibilidade de voltar atrás, nos resta apenas dominar os sentimentos e substituir as tendências negativas pelas tendências positivas, lutar, reeducando-nos para a felicidade. Não a felicidade completa, mas aquele estado de alma que nos proporciona todos os dias a alegria de viver em paz connosco, sem ódios, sem remorsos, sem alimentar sentimentos de inveja pelo vizinho do lado que é mais poderosos e rico.
Às vezes ando ás voltas dentro de mim, e mesmo consciente de que por mais voltas que dê não vou para lado nenhum, tento recriar, baseado no passado, um caminho diferente. Porém, como o passado, não se refaz, não se recria, mas também não se pode abjurar, volto ao ponto de partida – às interrogações, às reticências. E é sempre com elas, com reticências  que termino estas minhas incursões àqueles momentos, a esse tempo que parou no tempo – ao meu tempo de menino…






Sexta-feira, Maio 11, 2012

RABISCANDO...


Apesar de ter tido bons mestres, se me pedissem para escolher aquele que mais e melhor me ensinou, eu responderia sem hesitação que foi na escola da vida que mais aprendi.

E foi nos seus bancos, espalhados um pouco por toda a parte – em casa, no campo, longe da Pátria, trabalhando, desesperando, esperançado, desiludido, mas sempre confiante, que compilei a sebenta com as mais importantes lições que me têm ajudado a passar de ano. E com boa média!...
E durante essas aulas, quase sem me aperceber, e à medida que o tempo se ia escoando ora sob um céu pardacento, ora sob um céu azul sem nuvens, as folhas foram-se enchendo, e o livro da minha existência foi-se avolumando.
Hoje, as suas páginas constituem este aglomerado de factos que sou, repartido em três volumes já escritos- Primavera, Verão e Outono.
O outro, o Inverno, já vai muito adiantado, mas continuo a trabalhar nele afincadamente, tentando superar com paciência e optimismo o que já me vai faltando em talento!
E, dia-a-dia, linha por linha, sozinho, neste cubículo, nesta espécie de cafarnaum, cá vou passando o tempo rabiscando, amontoando emoções, sentimentos, a maior parte para escárnio de novos e consumo de velhos.
Mas não esmoreço, nem me dou por vencido. Nesse aspecto sigo as palavras de um escritor francês cujo nome não me ocorre agora, mas que já mencionei noutros textos. Disse ele que “escrever é falar sem ser interrompido.” E é a adopção dessa espécie de lema que me dá ânimo, que me dá força para extravasar, através do papel, o que me vai na alma.  
Quando se chega a uma certa idade começam a escassear as pessoas com as quais poderíamos trocar impressões ou simplesmente cavaquear. Não é recente tal facto, mas nos tempos que correm e em que a tecnologia tenta por todas as maneiras possíveis e inimagináveis apossar-se do homem e até escravizá-lo, primeiro dá-se atenção à máquina e só depois ao homem!..
E então quando se trata de velhos, essa falta de tempo ou de paciência atira-nos para as prateleiras, onde, se não estivermos atentos, depressa e só o pó se encarrega de nos visitar.
E é muitas vezes por isso, para não me deixar transformar em mera relíquia ou objecto de estimação visitado apenas por qualquer espanador ocasional, que estabeleço este monólogo com o papel…ou melhor, com a máquina!
Quando quero livrar-me dos ecos deste palavroso e nauseabundo lixo político que me fere os tímpanos, desligo e entretenho-me a rabiscar.









Domingo, Abril 29, 2012

DRAMAS DO NOSSO QUOTIDIANO

Eram para aí seis da manhã quando saiu. O dia estava chuvoso e frio, daqueles dias que apetece ficar em casa. Não à lareira, porque não tinha lenha, mas para ficar enrolado na manta a enganar o frio e a olhar pelo buraco do plástico que, à míngua de dinheiro, servia de vidro na janela que dava para a rua. Há dois anos que estava desempregado. Graças aos vizinhos lá ia sobrevivendo com a mulher e os dois filhos. Deixara de fumar, porque “quem não tem dinheiro, não tem vícios”, disse-lhe a mulher. E largou o cigarro. Mas naquele dia o que lhe apetecia era um cigarrito. Com o anúncio do Jornal amarrotado no bolso e na esperança de conquistar o lugar, precisava de qualquer coisa para lhe acalmar os nervos. Lembrou-se de tomar um café, mas se o fizesse, o dinheiro não chegaria para o autocarro. Desistiu e continuou a caminhar até à paragem sempre a pensar como seria o amanhã com um bom emprego e dinheiro no bolso no fim do mês!... Ao chegar, e como havia já uma grande fila, resolveu continuar a andar. Não estava muito longe e sempre ia aquecendo os pés. E, de contente, até cantarolou umas canções, coisa que há muito não fazia. O trabalho que pediam no anúncio era o que fazia no emprego em que trabalhara umas dúzias de anos. Não lhe faltava experiência e chegou mesmo a convencer-se que o lugar seria dele. E os projectos começaram a invadirem-lhe a mente: o primeiro salário seria para pagar a dívida na mercearia. Depois viria a saúde. Os miúdos precisavam de ir ao médico e a mulher andava há tempos a queixar-se duma dor no peito. Iria também. A seguir daria uma volta na casa. Chovia no quarto dos garotos, as janelas não tinham vidros, e compraria também roupa e calçado. Pagaria as facturas atrasadas da luz, compraria um frigorífico novo… Ah! E compraria mochilas para os filhos levarem os livros para a escola…Enfim, graças a Deus, esperava-o uma vida nova! Entretanto chegou à Empresa que tinha posto o anúncio e onde, com certeza, iria concretizar o seu sonho, arranjar amigos e, quem sabe, subir até de posto! Sentia-se já em terreno familiar. Deu os bons dias à menina da recepção, disse ao que ia, mostrou o anúncio e, solícito, ia obedecendo aos pedidos da funcionária: bilhete de identidade, composição familiar, experiência… Mas de repente uma nuvem negra interpôs-se entre os dois: - «Tenho muita pena – disse ela – mas a idade…» E ele nem queria acreditar! Então com cinquenta anos era já considerado inútil à sociedade? E todos os sonhos morreram. Começou então a percorrer as ruas para matar o tempo até que a noite chegasse…Queria entrar em casa sem que ninguém o visse e, às escuras, chorar à vontade.

SUPERSTIÇÕES

Segundo me confidenciou um amigo, – que milita na ala esquerda por via dos euros, mas que tem o coração mais à direita do que o mais direitista dos cidadãos – parece que só de pronunciar ou escrever o seu nome, pode contrair-se uma espécie de doença incurável ainda mais mortífera do que a provocada pelo mais desconhecido e terrificante vírus! São vários os nomes atribuídos aos “portadores”desse “mal”, mas os intelectuais fazedores de rótulos atribuíram-lhe um que no seu entender simboliza o que há de pior e mais contaminante sobre a terra: - salazaristas! Claro que eu não acredito nessas patranhas de contaminação, mas é sempre bom, (permitam-me a metáfora) calçar luvas, munir-se de pinças, pôr uma máscara, e estar preparado para o pior, não vá o diabo tecê-las. Apesar de o homem estar morto, enterrado, com sete palmos de terra por cima, a avaliar pelo medo que ainda suscita no imaginário de muita gente, nunca é de mais tomar as devidas precauções. Esta espécie de “agoiro” já vem de longe, mas ultimamente raro é o dia em que não se evoque o seu apelido – uns para o incensar outros para o denegrir. Embora a “borracha” e as “tintas” de Abril tenham conseguido apagar, disfarçar ou esbater um pouco as sete letras do nome, nem assim as “consciências” (ou as conveniências?!...) de alguns deixam de atribuir ao falecido todas as desgraças por que temos passado nestes últimos anos. Mudaram-se nomes de pontes, de ruas, suprimiram-se livros na escola, cortaram a cabeça do seu busto, mas nem assim o seu fantasma deixou de perseguir uma boa parte dos habitantes cá do rectângulo! De vez em quando e a pretexto de escamotear qualquer trafulhice ou no intuito de desviara a atenção ou anestesiar o Zé para mais uma tosquia, “desenterra-se” o homem e aí vai disto... Agora, o “fogo” voltou a reacender-se. Serviu de rastilho o facto de o autarca de Santa Comba Dão, João Lourenço, anunciar o lançamento de uma marca de vinho à qual vai dar o nome de “Memórias de Salazar, ligando “um nome conhecido em todo o mundo aos produtos da terra”. Ainda segundo o mesmo a ideia visa também angariar fundos para a “recuperação da área urbana do Vimieiro ligado ao património que lhe pertencia…” Por mais que tente compreender a razão de tanto burburinho sempre que se fala no falecido, ainda não consegui saber quais os proventos resultantes de tanto barulho! Incapazes de trabalhar para construir um futuro melhor, essa gente passa o tempo a fazer interpretações infantis, tentando desvirtuar o passado. Tudo o que de bem ou de mal se diga ou escreva acerca do homem que nos legou a “pesada herança” não apagará o seu nome das páginas da História. E tudo o que se tem dito, escrito ou ouvido, quer a favor, quer contra, tem apenas servido para espevitar a curiosidade daqueles que apenas conheciam a música de ouvido… Hoje, porém, muitos já sabem ler a pauta, interpretar as notas e fazer comparações. E é justamente por isso, para evitar comparações, que muita gente não quer, não gosta, nem está interessada em que certas facetas da sua vida sejam conhecidas. «Antes de deixar o Poder quero sacudir os bolsos e de todo esse tempo que estive à frente dos destinos da Nação, nem mesmo pó eu quero levar…» – disse um dia Salazar. E como o disse, assim o fez. E, essa frase, actualmente, incomoda muita gente…

Sábado, Abril 28, 2012

OS PEQUENOS DITADORES


O País está atulhado deles. Há-os por todo o lado. Grandes e pequenos. Intelectuais e analfabetos. E existem tanto na esquerda como na direita.
No Governo, na Assembleia da República, nas Secretarias de Estado, na Justiça, na Saúde, nos Sindicatos, nas Fundações, nas Comissões de Inquérito, nos Municípios, na Imprensa, nas Escolas e em todos os lugares onde lhes cheire a poder, eles espalham-se e escondem-se por todo o lado como piolho em costura!
Saímos de uma Ditadura maior para ditaduras menores, mais disfarçadas, mas não menos nefastas…
E são essas pequenas ditaduras que geram sentimentos de medo por parte dos subalternos que, por sua vez, criam à sua volta, e em simultâneo, climas de bajulação e de denúncias.
Com medo de se perder o emprego, o estatuto ou os privilégios, lisonjeia-se o chefe e denuncia-se o colega.
Não há moral, não se respeita a ética, e ignoram-se os ditames de consciência – a integridade que deve caracterizar qualquer ser humano desaparece.
Muita gente vê o autoritarismo apenas sob a perspectiva do Estado enquanto opressão do poder político. Mas isso não é totalmente assim.
O autoritarismo é uma manifestação de egoísmo que pode manifestar-se em qualquer sector da sociedade, dependendo apenas do alto conceito que cada um atribua a si mesmo. A ambição, a vaidade, o protagonismo e a supremacia em relação ao semelhante, pode desencadear esse sentimento
Um lugar de chefia é, geralmente, a rampa de lançamento mais usada para a propulsão do prepotente.
Há instituições particulares que apesar da sua fachada democrática e da sua orientação pedagógica e científica, apresentam, por intermédio do seu chefe, um carácter opressivo.
E, paradoxalmente, é nessas instituições em que a liberdade, a sinceridade, o respeito mútuo, a civilidade e o diálogo deveriam, acima de tudo, sobrepor-se a qualquer outra forma de actuação.
Esses pequenos ditadores consideram-se profetas de um novo Mundo e exercem os seus cargos como de feudos se tratasse, erguendo muralhas e fossos de protecção e usando o poder que a função lhes confere para reforçar a sua vaidade pessoal e o domínio sobre os outros.
E há casos em que eles não só exercitam a sua prepotência sobre aqueles que gravitam à sua volta como também tentam estender os seus tentáculos para o exterior. Com sucesso algumas vezes, mas muitas mais sem conseguirem atingir o seu objectivo. No primeiro caso porque o alvo se presta a chantagem, no segundo porque há ainda quem não tema quaisquer represálias sejam elas de carácter ideológico, profissional ou meramente pessoal.
O pequeno ditador, geralmente, não é inteligente. Mas é esperto. E é narcisista, hipócrita, vingativo, manhoso, mas covarde quando atacado frontalmente. Não sei se algum dos meus leitores já alguma vez foi alvo dessa casta de indivíduos. Se não, acautelem-se.





GENTES PACÍFICAS IGNORADAS

Antigamente o bilhete de identidade de grande parte das aldeias portuguesas do interior era constituído por uma Capela e por uma Escola.
A capela, onde geralmente aos domingos se celebrava a missa e se reuniam todos os habitantes e a Escola onde, de pequenino, se aprendiam as primeiras letras.
Com a junção de algumas formaram-se depois esses espaços geográficos que são as Freguesias com a sua Igreja Matriz e outros serviços, que a certa altura desempenharam um papel preponderante na vida nacional, sobretudo nos meios rurais.
Citando apenas um exemplo, houve um tempo em que o exame da 3.ª classe era feito na Escola da Freguesia, sem falar já na História desses aglomerados dispersos pelo País que eram anotados pelos párocos, nos livros de registo das Paróquias.
Mas, como é evidentemente, com o evoluir dos tempos a vida tudo mudou e pouco a pouco a aldeia começou a descaracterizar-se, tendo contribuído muito para isso a falta de visão futura dos governantes ao retirarem competência e serviços às aldeias em favor dos grandes aglomerados urbanos.
Assistiu-se em seguida ao êxodo das populações rurais que cada vez mais isoladas, e mais necessitadas dos mais elementares meios de sobrevivência, se viram obrigadas a rumaram às grandes urbes onde se fixaram e quase esqueceram as suas raízes.
Mas só quem vive em meios rurais pode avaliar o papel desses homens que estão à frente das Freguesias rurais, que lidam diariamente com as aspirações e os problemas dos habitantes e que muitas vezes lhes exigem soluções que ultrapassam a esfera das suas competências e atribuições. Eles são, de facto, uns verdadeiros «heróis da democracia»!
Mal pagos, por vezes mal interpretados, e quase sempre «bodes expiatórios» do não cumprimento de promessas de outros, são eles que à frente destes pequenos espaços geográficos dão o verdadeiro exemplo de abnegação e solidariedade, servindo, a troco de nada, o povo que os elegeu.
Agora que se fala muito na extinção ou fusão de Freguesias é de suma importância que essas decisões, a consumarem-se, sejam analisadas caso a caso e freguesia por freguesia. É urgente fixar as populações do interior, diminuindo as assimetrias entre a cidade e o campo. É urgente revitalizar o mundo rural, pois a ruralidade representa ainda a consciência da nossa verdadeira identidade cultural, com os seus valores, as suas tradições e as suas maneiras de viver, mais humanas, mais fraternas e mais solidárias. Não podem por isso os políticos voltar as costas ao país real e abandonar esses homens e mulheres que trabalham e cultivam os campos. É com essa gente humilde e simples, essa gente que se conforma com as alterações do clima que por vezes lhes destrói numa hora, o trabalho de dias e meses, que devemos aprender a lição da Fé e da esperança.
Uma lição que nos torna mais humanos, mais fraternos e nos aproxima mais de Deus. É esse o mundo dos que habitam os meios rurais. Um mundo de gente pacífica e, talvez por isso, quase sempre mais desfavorecida e ignorada.





A REVOLTA DO ALFABETO

A princípio, quando vi o ajuntamento, pensei tratar-se de uma greve, mas como não havia megafones, bandeirinhas nem dísticos do “povo unido” e não lobriguei nenhum dos nossos bolorentos e habituais síndicos, vi que devia tratar-se apenas de uma reunião normal.
Contei-as e eram vinte e três, mas havia três que estavam um pouco mais longe e tinham um ar de quem está ansioso aguardando qualquer coisa nova.
Todas se mexiam constantemente sem, no entanto, se afastarem do lugar que ocupavam. Faziam lembrar o teclado do meu computador e só quando me aproximei mais é que dei conta de que se tratava de facto das letras do alfabeto.
Todas juntas pareciam, à primeira vista, uma espécie de bicharocos que abundam naquele tapete húmido da floresta virgem dos países tropicais e que, de vez em quando, põem a cabeçorra de fora!
Do A até ao Z lá estavam todas, e aquelas três de que acima falei, o K, o W e o Y, continuavam afastadas e desconfiadas talvez com receio de não serem bem recebidas pelas 23 que há muito faziam parte do conjunto que rege a nossa escrita.
Os acentos gráficos passeavam à volta das letrinhas e o que me pareceu mais agitado foi o hífen que parecia nervoso e apreensivo. O til fazia vénias por ter sido poupado e parecia não ter nada a ver com a situação que se estava a viver.
Não pude conter-me mais e perguntei o que se passava. Respondeu-me o ponto de admiração dizendo tratar-se de um plenário convocado a pedido de algumas letras do alfabeto furibundas com a sua despromoção com a entrada do Novo Acordo Ortográfico.
As que mais reclamavam eram o Cê e o Pê e segundo me confidenciou o hífen, – ele também descontente por o terem afastado de algumas ligações – não se conformavam.
A primeira, o Cê, porque afirmava que, para além de outros casos, uma acção apenas com cê cedilhado perdia a sua verdadeira identidade e a sua tradicional força para agir.
A segunda, o Pê, argumentava também que das muitas supressões a que fora sujeito, a sua ausência no baptismo, era a mais grave, pois ia de encontro aos sentimentos de qualquer cristão que se preze!
Entretanto o Dáblio e o Ípsilon, mantinham-se na expectativa e aguardavam a sua entrada no novo conjunto das 26 letras do novo Alfabeto.
Estava eu observando todos estes comportamentos quando, lá ao longe, avistei uma fila de calhamaços de várias cores que avançavam na minha direcção e cujas folhas tremelicavam assustadas – eram os Dicionários numa demonstração de solidariedade, pois também eles iriam ser substituídos por uma nova geração…
Não consegui assistir ao fim de toda aquela barafunda para contar como tudo acabou, porque o telefone tocou e eu acordei!...




































O MEU ZURRO


Já este ano falei sobre o assunto. Mas, porque há dias e de Norte a Sul do País as ruas se encheram de “grevistas”, eu continuo sem saber quais os benefícios que advieram do protesto tanto para os protestantes como para o País.
Aliás é minha convicção de que muitos dos que participaram no movimento, fizeram-no mais por arrasto do que por convicção pessoal. Não cabe na cabeça de ninguém de bom senso que no estado actual em que financeiramente nos encontramos, é saindo à rua, gritando e dizendo mal de tudo e de todos, que contribuímos para inverter essa situação.
Quando se faz parte de uma multidão, ninguém pertence completamente a si mesmo – «tem-se menos elevação nos sentimentos, menos firmeza na vontade, menos valor sob todos os pontos de vista, do que quando se pensa, sente e age isoladamente.» E, dessa maneira corre-se o risco de se deixar arrastar e apaixonar por visões confusas, que não correspondem nem ao que seria melhor nem aquilo que se pretende quando somos apenas nós mesmos a pensar. As multidões abafam e dominam a personalidade dos homens que nelas se enquadram e que muitas vezes até os desumanizam.
Sabemos que o fosso entre as desigualdades sociais se avoluma cada vez mais, mas é bom não esquecer que os mentores das greves, aqueles que enchem a boca com “o bem-estar do nosso Povo” nem sempre têm isso em vista.
Houve ainda há pouco eleições e foi eleito, democraticamente, um Governo que herdou do anterior uma situação financeira tão catastrófica quanto imoral – catastrófica pela sua incidência ruinosa no que respeita ao futuro, e imoral pelas injustiças praticadas contra os que menos têm em favor dos que têm em demasia.
Esquecer tais factos e não unirmos esforços para inverter a situação desastrosa em que nos encontramos é o mesmo que fecharmos os olhos, é sermos irresponsáveis a ponto de esquecermos que estamos a contribuir para um tenebroso futuro das gerações vindouras em que já estão incluídos os nossos filhos e os nossos netos.
Como acontece com uma educação mal adaptada que deforma rapidamente a mentalidade de um povo, o mesmo se verifica com comportamentos que aumentam o descontentamento, avolumam as paixões, radicalizam-nas, e fazem com que o bom senso escasseie, e a razão deixe de desempenhar a sua função de fiel da balança.
Nestes momentos de perturbação em todos os sectores da vida nacional são sempre os mais carenciados a pagar a factura. Os mentores dessas manifestações, os eventuais ou verdadeiros responsáveis nada sofrem e assistem contentes às manifestações e aos insultos da turbamulta. No difícil momento que o País atravessa, mesmo ressalvando os direitos que todos têm em reivindicar, as greves a que temos assistido ultimamente são mais a expressão de um egoísmo desmedido, de uma vergonhosa luta política, do que de uma verdadeira questão de justiça social.
Diz-se que vozes de burro não chegam ao céu, mas como zurrar ainda não paga imposto, aqui fica, em jeito de opinião, o meu zurro.





Domingo, Abril 15, 2012

UM FRENTE A FRENTE MATINAL


Aquela cara não me era estranha!...Então, ainda com os olhos ensonados, disse baixinho, não fosse a minha chefe ouvir e pensar que eu começava a tresler logo no começo do dia: «Eu conheço-te!...» Depois, com calma, arregalei os olhos e surpreso, mas sorridente, fixei a imagem. E então o espelho reflectiu uma cara ensaboada, o braço no ar e a máquina de barbear parada junto ao nariz. Era eu!.....
E sorri. E ao sorrir, as rugas do rosto fizeram-se mais notadas, e os olhos humedeceram-se levemente. E numa espécie de diálogo virtual com o espelho, interpelei a imagem. E como num rosário, – rosário da vida, com estações e mistérios!... – lá fomos desfiando as contas já puídas pela erosão do tempo, e já desbotadas pelos sóis que as alumiaram, e que depois as escureceram - emoções, anseios, alegrias, tristezas, esperanças, desilusões - todos os ingredientes de que é feita a vida, elas tudo guardam. São os símbolos vivos de muita coisa que já morreu!
Perdido nesta divagação íntima e silenciosa, deixei que a lâmina penetrasse mais fundo na pele. E voltei à realidade, regressei ao Presente. A imagem que o espelho reflectia era já diferente. Era a actual. Uma cara enrugada e carrancuda. Apenas uma réstia de um sorriso antigo tinha ficado esquecido no canto do olho...
O tempo não pára! E é talvez por isso que a nossa convivência com ele nem sempre é pacífica. Por vezes o relacionamento torna-se mesmo difícil. Sobretudo, quando na esperança de o fazermos parar, o corpo nos atraiçoa, reavivando as marcas que a passagem dos anos deixou.
O tempo não pára! Os anos passaram a correr e, a certa altura, é preciso assumir, com coragem e resignação, os estragos que eles deixaram na sua passagem.
Envelhecer é uma arte. E, como todas as artes, é preciso cultivá-la. Gostar dela. Admitir as suas limitações e brincar com elas. Cada idade tem os seus encantos. O que acontece é que muitas vezes não os sabemos procurar. Sucede também que, ao afirmarmos tudo saber pela experiência adquirida, cavamos um fosso à nossa volta. E somos rejeitados. As novas gerações são avessas a conhecimentos baseados na prática e na experiência. É a teoria que impera. Não adianta remar contra a maré. Envelhecer é uma arte. E nesta sociedade materialista em que vivemos ou a cultivamos e a renovamos constantemente, evoluindo e adaptando-nos aos novos ventos que sopram ou corremos o risco de cair no isolamento – essa ilha perdida no mar imenso que é a indiferença. A boa disposição e o bom humor são ajudas imprescindíveis. Não esqueçamos que o riso é como o limpa brisas do automóvel: - mesmo sem conseguir parar a chuva, ele permite que continuemos a viagem...






Sábado, Março 17, 2012

SONHO

Num dia triste de chuva e vento
Deixei ir meu pensamento
Em romagem de saudade…
Trouxe um saco de lembranças
Cheio de risos de crianças –
Recordações da mocidade!

Abri o saco com jeito
E depois contra meu peito,
Esquecendo o meu destino,
Acalentei essas quimeras
Doutros tempos, doutras eras
Sonhando que era menino!...

Sábado, Fevereiro 25, 2012

CARNAVAL


On peut rire de tout, mais pas avec tout le monde.
Pierre Desproges

Primeiro pensou em mascarar-se de Ministro, mas a mãe dissuadiu-o do intento: - «Nem penses nisso, filho. Já pensaste na figura ridícula que farias, qualquer que fosse a cara do que escolhesses?»
Anacleto reflectiu, reconsiderou, e resolveu então disfarçar-se de ladrão. No meio de tantos, era mais fácil passar despercebido...
Muniu-se de um velho saco de campismo, pôs dentro uma pistola-metralhadora em plástico, um velho alicate, um pé de cabra enferrujado, e ei-lo na rua. Mas logo ao virar da esquina, eis que surge uma farda: - «Em nome da Lei, abra lá o saco!...» E, apalermado, Anacleto, obedeceu. Abriu, e não conseguiu convencer a "autoridade" de que se tratava apenas de um disfarce: - «Com todo este arsenal onde vais, ó velhinho?!... Vá, andor, p'rá esquadra... e já!»
E naquilo que ele julgou ser a esquadra, a voz rouca do homem fardado: - «Chefe, aqui tem um figurão que apanhei agora mesmo...» Anacleto tentou falar, mas logo o outro se adiantou: - «Cala a boca. Só falas quando eu disser..». E, então, aquele que dava pelo nome de Chefe, começou a tirar do saco o material: - «Com toda esta sofisticada panóplia, com certeza que ias assaltar o Banco de Portugal, não?!..». Mas Anacleto arriscou: - «Mas chefe, eu sou um homem honesto e fiz tudo isto por ser Carnaval...» E a resposta não se fez esperar: - «Senhor agente chame aí o quebra-ossos que aqui o nosso amigo está a mangar com a tropa...» Mas a ordem foi suspensa, porque a cara do "preso" inspirava, de facto, compaixão. E o Chefe deixou que ele falasse. E ele expôs, calmamente, o seu caso, a sua brincadeira... E o homem dos galões achou até piada e quando se preparava para repreender o seu subordinado pela sua falta de tacto, notou algo de estranho: - «Ouça cá, ó soldado, o seu número de matrícula? Você não pertence a esta esquadra...» E o homem, confuso: - «Sabe, é que eu também não sou polícia... Como hoje é Domingo Gordo...» E o Chefe ameaçador: - «Com que então a brincarem aos polícias e ladrões?!... Bonito. Muito grave. Muitíssimo grave. Abuso de autoridade...Isto vai custar-vos caro!...»
E desatou a rir. E a chorar de tanto rir, lá conseguiu explicar: - «Nenhum de nós os três é aquilo que parece. Eu também não sou Chefe. O uniforme que trago vestido, é alugado. Como é Domingo Gordo...»
Claro que esta crónica é própria da quadra que atravessamos. Não quero, no entanto, deixar de lembrar que há muitas semelhanças entre a minha ficção e certas situações que quase diariamente presenciamos. É tão grande a confusão que reina actualmente cá no rectângulo que é muito difícil conseguirmos fazer a destrinça entre o que é falso e o que é verdadeiro...