DESABAFO
Eram para aí seis da manhã quando saiu. O dia estava chuvoso e frio, daqueles dias que apetece ficar em casa. Não à lareira, porque não tinha lenha, mas para ficar enrolado na manta a enganar o frio e a olhar pelo buraco do plástico que, à míngua de dinheiro, servia de vidro na janela que dava para a rua. Há dois anos que estava desempregado. Graças aos vizinhos lá ia sobrevivendo com a mulher e os dois filhos. Deixara de fumar, porque “quem não tem dinheiro, não tem vícios”, disse-lhe a mulher. E largou o cigarro. Mas naquele dia o que lhe apetecia era um cigarrito. Com o anúncio do Jornal amarrotado no bolso e na esperança de conquistar o lugar, precisava de qualquer coisa para lhe acalmar os nervos. Lembrou-se de tomar um café, mas se o fizesse, o dinheiro não chegaria para o autocarro. Desistiu e continuou a caminhar até à paragem sempre a pensar como seria o amanhã com um bom emprego e dinheiro no bolso no fim do mês!... Ao chegar, e como havia já uma grande fila, resolveu continuar a andar. Não estava muito longe e sempre ia aquecendo os pés. E, de contente, até cantarolou umas canções, coisa que há muito não fazia. O trabalho que pediam no anúncio era o que fazia no emprego em que trabalhara umas dúzias de anos. Não lhe faltava experiência e chegou mesmo a convencer-se que o lugar seria dele. E os projectos começaram a invadirem-lhe a mente: o primeiro salário seria para pagar a dívida na mercearia. Depois viria a saúde. Os miúdos precisavam de ir ao médico e a mulher andava há tempos a queixar-se duma dor no peito. Iria também. A seguir daria uma volta na casa. Chovia no quarto dos garotos, as janelas não tinham vidros, e compraria também roupa e calçado. Pagaria as facturas atrasadas da luz, compraria um frigorífico novo… Ah! E compraria mochilas para os filhos levarem os livros para a escola…Enfim, graças a Deus, esperava-o uma vida nova! Entretanto chegou à Empresa que tinha posto o anúncio e onde, com certeza, iria concretizar o seu sonho, arranjar amigos e, quem sabe, subir até de posto! Sentia-se já em terreno familiar. Deu os bons dias à menina da recepção, disse ao que ia, mostrou o anúncio e, solícito, ia obedecendo aos pedidos da funcionária: bilhete de identidade, composição familiar, experiência… Mas de repente uma nuvem negra interpôs-se entre os dois: - «Tenho muita pena – disse ela – mas a idade…» E ele nem queria acreditar! Então com cinquenta anos era já considerado inútil à sociedade? E todos os sonhos morreram. Começou então a percorrer as ruas para matar o tempo até que a noite chegasse…Queria entrar em casa sem que ninguém o visse e, às escuras, chorar à vontade.
Segundo me confidenciou um amigo, – que milita na ala esquerda por via dos euros, mas que tem o coração mais à direita do que o mais direitista dos cidadãos – parece que só de pronunciar ou escrever o seu nome, pode contrair-se uma espécie de doença incurável ainda mais mortífera do que a provocada pelo mais desconhecido e terrificante vírus! São vários os nomes atribuídos aos “portadores”desse “mal”, mas os intelectuais fazedores de rótulos atribuíram-lhe um que no seu entender simboliza o que há de pior e mais contaminante sobre a terra: - salazaristas! Claro que eu não acredito nessas patranhas de contaminação, mas é sempre bom, (permitam-me a metáfora) calçar luvas, munir-se de pinças, pôr uma máscara, e estar preparado para o pior, não vá o diabo tecê-las. Apesar de o homem estar morto, enterrado, com sete palmos de terra por cima, a avaliar pelo medo que ainda suscita no imaginário de muita gente, nunca é de mais tomar as devidas precauções. Esta espécie de “agoiro” já vem de longe, mas ultimamente raro é o dia em que não se evoque o seu apelido – uns para o incensar outros para o denegrir. Embora a “borracha” e as “tintas” de Abril tenham conseguido apagar, disfarçar ou esbater um pouco as sete letras do nome, nem assim as “consciências” (ou as conveniências?!...) de alguns deixam de atribuir ao falecido todas as desgraças por que temos passado nestes últimos anos. Mudaram-se nomes de pontes, de ruas, suprimiram-se livros na escola, cortaram a cabeça do seu busto, mas nem assim o seu fantasma deixou de perseguir uma boa parte dos habitantes cá do rectângulo! De vez em quando e a pretexto de escamotear qualquer trafulhice ou no intuito de desviara a atenção ou anestesiar o Zé para mais uma tosquia, “desenterra-se” o homem e aí vai disto... Agora, o “fogo” voltou a reacender-se. Serviu de rastilho o facto de o autarca de Santa Comba Dão, João Lourenço, anunciar o lançamento de uma marca de vinho à qual vai dar o nome de “Memórias de Salazar, ligando “um nome conhecido em todo o mundo aos produtos da terra”. Ainda segundo o mesmo a ideia visa também angariar fundos para a “recuperação da área urbana do Vimieiro ligado ao património que lhe pertencia…” Por mais que tente compreender a razão de tanto burburinho sempre que se fala no falecido, ainda não consegui saber quais os proventos resultantes de tanto barulho! Incapazes de trabalhar para construir um futuro melhor, essa gente passa o tempo a fazer interpretações infantis, tentando desvirtuar o passado. Tudo o que de bem ou de mal se diga ou escreva acerca do homem que nos legou a “pesada herança” não apagará o seu nome das páginas da História. E tudo o que se tem dito, escrito ou ouvido, quer a favor, quer contra, tem apenas servido para espevitar a curiosidade daqueles que apenas conheciam a música de ouvido… Hoje, porém, muitos já sabem ler a pauta, interpretar as notas e fazer comparações. E é justamente por isso, para evitar comparações, que muita gente não quer, não gosta, nem está interessada em que certas facetas da sua vida sejam conhecidas. «Antes de deixar o Poder quero sacudir os bolsos e de todo esse tempo que estive à frente dos destinos da Nação, nem mesmo pó eu quero levar…» – disse um dia Salazar. E como o disse, assim o fez. E, essa frase, actualmente, incomoda muita gente…

Num dia triste de chuva e vento