segunda-feira, setembro 12, 2016

VIVER A VIDA QUE A MORTE É CERTA


Fui e continuo a ser um apaixonado pelos escritores franceses. E isso porque durante três décadas da minha vida, - entre os 24 e os 55 anos - foram os seus livros que me serviram de companhia. De um deles, “Un Art de Vivre” de André Maurois, retive uma frase que tento adoptar, não como antídoto eficaz contra a velhice, mas como uma espécie de retardador da sua chegada.
A certa altura do livro escreveu o autor que «o verdadeiro mal da velhice não é o enfraquecimento do corpo, mas a indiferença da alma».
Acredito que esta pequena frase seja motivo de troça por parte de muita gente, mas no meu caso pessoal, como crente que sou e pelas experiências vividas, penso que nela está o segredo que me leva a gostar cada vez mais da vida.
Sou, como sabem todos aqueles que me conhecem, um homem que transporta um pesado bornal de Invernos e a maior parte vividos sem guarda-chuva.
Já passei por muitas situações - boas e más. Mas nessas minhas andanças pela vida nunca ocupei um lugar de destaque, nunca fiz um grande gesto pela humanidade, nunca me evidenciei por qualquer feito ou causa e também nada fiz para que me transformasse num herói. E o meu maior orgulho é poder dizer alto e bom som que nunca comi com talheres do Estado...
No entanto penso que tenho o direito de, pelo menos, “sonhar” com mais uns anitos, porque gosto da vida e de tudo o que ela me tem proporcionado até hoje. Não quero adormecer para sempre. Não quero deixar os que me são queridos, as árvores e as flores do meu quintal.
Quem disse que já estou a mais e que não faria falta a ninguém? E mesmo que não fizesse, onde está escrito que isso é motivo para deixar a vida? Quem pensa assim? Os meus herdeiros? Não, porque já lhes dei tudo o que tinha e eles sabem. Os meus inimigos? Esses também não, porque como diz o ditado “ vozes de burro...”    
Também segundo a opinião do meu médico a “coisa” não está assim tão má que não possa durar mais uns anitos. Portanto...
É curioso! Quando cheguei aos sessenta, disse cá pra comigo: até aos setenta ainda faltam dez. Depois aos setenta, baixinho, pedi para chegar aos oitenta. Agora, que já cheguei aos noventa, esta minha vontade de viver continua cada vez mais forte.
E como é bela esta caminhada! Como é maravilhosa a Vida quando a lapidamos com o cinzel da humildade, a polimos com fraternidade e a vivemos com amor, rodeados pela família e amigos verdadeiros, sem ganância, sem ódios, nem invejas!...
E como julgo também ter esse direito...vou arejar os neurónios. Até breve!



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