
Senhor Governador:
Na impossibilidade de o fazer pessoalmente, porque V. Exa. não iria querer perder o seu precioso tempo com o Zé-ninguém que sou, e também porque apesar de se chamar Constâncio é, no meu entender, uma pessoa bastante “inconstante”, portanto difícil de saber em que “onda” está, resolvi enviar-lhe esta carta.
Sei de antemão que não se dará ao trabalho de a ler, mas o simples facto de a escrever, de extravasar o que me vai na alma, são como que uma espécie de lenitivo, um desabafo para esta mágoa que sinto ao ver desmoronar-se o Portugal que também ajudei a edificar e só Deus sabe com que sacrifícios!
Depois, senhor Governador, cheguei a um ponto que não sei em quem acreditar…
Será que os boateiros (o senhor incluído) têm razão quando dizem que isto de finanças vai mal, ou pelo contrário nadamos num “mar de rosas”, num mar de dinheiro, em que “uns tantos” se podem dar ao luxo de o gastar à tripa forra?
Este aperto do cinto, este sufoco em que a maior parte dos portugueses vive não será a consequência das vossas leviandades, das vossas faltas de escrúpulos, da vossa vaidade, da vossa incompetência e da vossa irresponsabilidade?
A ser verdade o que li nos jornais, admite-se que em ano e meio o Banco de Portugal tenha gasto com a frota de automóveis a quantia de 1,2 milhões de euros?
Será admissível que uma Instituição que deveria dar o exemplo de contenção desbarate tanto dinheiro com popós topo de gama, das mais variadas marcas e com os mais refinados extras para satisfazer a vaidade dos funcionários?
E é honesto também que passados três anos essas viaturas, de elevado preço possam ser adquiridas pelo seu utilizador apenas por dez por cento do custo inicial?!...
Apesar do meu calhambeque ser já do século passado, não foi a inveja que me levou a escrever.
Foi a revolta, a raiva e o desespero ao ver este velho Portugal a afundar-se devido a um punhado de sabotadores que não cessam de lhe fazer buracos no casco, sem que ninguém, com os pés bem assentes na terra, tenha coragem para estancar esta espécie de “hemorragia programada”!
Todos os dias e de todos os sectores o sangue jorra... É uma sangria constante. E ninguém acode ao moribundo. Pelo contrário. Todos tentam sugar até à última gota!
No Parlamento, na altura da apresentação do relatório anual do Banco de Portugal ao ser questionado acerca de ordenados da administração e quando respondeu dizendo «que trazer aspectos pessoais para a discussão seria ter uma visão errado do país», logo deu para ver que o significado do país a que se referiu não era Portugal, mas apenas e só o vosso país, o pais dos vossos interesses pessoais!
Bem sei que não é só nessa Instituição que há “atentados” à pobreza em que o dinheiro deitado pela porta fora, mataria a fome a muita gente. E o que ainda mais me revolta é que não tenho conhecimento de que nenhum desses senhores que quase todos os dias vêm à Televisão dizer que é preciso apertar o cinto, tenha dado o exemplo, prescindindo, em favor dos pobres, de parte do supérfluo que lhe entra pela porta dentro sem grande esforço.
O que digo nesta carta é o que muitos pensam, mas não ousam dizê-lo. Uns, por causa dos seus “rabos-de-palha”, outros porque poderiam prejudicar o filho, a filha, a nora, o genro, o neto, o compadre, eu sei lá que mais, que comem do mesmo gamelão.
E é por isso que há uns tempos a esta parte se têm vindo a formar, paralelamente, duas classes distintas, uma e outra a posicionarem-se nos dois extremos. Se folhearmos a História encontraremos casos semelhantes. Como alguém disse num discurso dos findos de 1832: “Na economia pública um povo não é feliz, ou desgraçado, na razão do muito que paga, mas sim na razão do bom ou mau uso que se faz do seu dinheiro…»
Publicado no Jornal de Tondela em 21-7-2005
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