quarta-feira, agosto 12, 2009

CARTAS SEM "SÊ-LO"...



Senhor Professor:

Já uma vez me referi a V. Exa. aquando da inauguração, em Guimarães, da estátua do nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques.
Lembro-me de que na altura – e a propósito de o povo ter acusado Mestre Cutileiro de ter feito “um busto estilizado e não figurativo de um ser humano com uma espada e um escudo” –, fiquei admirado por não terem consultado o Professor, pois como seu biógrafo poderia dar uma ideia sobre as “parecenças” do Fundador.
Descrevi eu então o Professor como um homem multifacetado, polivalente e furta-cores.
Este episódio situa-se em meados de 2001, mas já nessa altura, mesmo que o tivesse adjectivado com o “furta-cores”, nunca pensei que as suas qualidades miméticas fossem assim tão poderosas.
É obra, Professor!...
Mudar de cor tão facilmente e com tanta descontracção, é façanha que não lembraria ao mais prestigiado e ousado camaleão! Mas “Ousar” faz também parte do seu curriculum, já que prefaciou o livro com o mesmo nome da autoria de Garcia Pereira do PCTP-MRPP. Nos primórdios do CDS acompanhei-o e assisti algumas vezes aos seus comícios que eram sempre baseados na democracia cristã – o alicerce do Partido que fundou.
E quem diria então, senhor Professor, que com esse peso e num movimento tão subtil e descontraído, conseguiria dar tamanho salto e mudar-se com armas e bagagem para o lado oposto da barricada?!...
Depois de ter abandonado sem quaisquer escrúpulos, morais ou políticos o Partido que fundou – e naquela sua outra cambalhota na corrida com Mário Soares para Belém, – parece que estou ainda a ver e a ouvi-lo exclamar, que quem não votasse em si era a mesma coisa que votar nos vermelhos!
Que desconcertante e incompreensível é toda esta série de mudança de convicções e de metamorfoses, Professor!
Talvez compreendesse esse mimetismo e essa facilidade de mudar de ideologia e de cor se se tratasse de um jovem ainda com a personalidade em fase de amadurecimento, perdido nesta barafunda de interesses, de vaidades e de ganâncias.
Agora que isso aconteça com uma personalidade que já ocupou altos cargos, inclusive, num Organismo internacional, confesso que nem com sais de frutas consigo “digerir” tão insólito procedimento.
É pena não haver na política uma espécie de “Olimpíadas” circenses onde fossem atribuídas medalhas de ouro aos melhores e mais meritórios e consagrados artistas – aos engolidores de espadas, aos acrobatas, aos contorcionistas, aos equilibristas, aos faquires, aos palhaços…
É pena, dizia eu, pois não faltariam concorrentes e o professor com certeza que não sairia do chapiteau com as mãos a abanar… Talvez até saísse com uma medalha de cada modalidade, quem sabe?!...
Mas falando agora mais a sério, Professor, entristece-me o facto de em cada dia que passa se avolumarem cada vez mais as minhas dúvidas quanto à reposição, no nosso Portugal, da lei da honra tradicional, viril e desinteressada, criadora de homens de um só rosto e de um só parecer, de antes quebrar que torcer…
Um País sem homens de carácter, sem ideal, e dominados apenas pela sede do lucro ou do protagonismo, não pode ter longa vida. Poderá até morrer. E com homens da sua estirpe, não faltarão coveiros para o enterrar.
P.S. Acabam de me informar de que foi nomeado para nos representar no estrangeiro. Um prémio pela cambalhota julgo eu. Será que agora, no novo posto, irá finalmente manter-se firme e hirto ou irá continuar as piruetas até “ousar” atingir o outro extremo?!...
Prudência Professor, pois como diz o ditado, o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro….
Publicado no Jornal de Tondela em 06 DE Março de 2005

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