Não.
Não estás só. Somos muitos. E em cada dia que passa, é mais um que se nos
junta. Aumenta o número, mas nem por isso fazemos com que se lembrem de nós.
Tens razão quando dizes que ao longo dos anos fomos adquirindo saber e
experiência e que, por isso, possuímos um património que poderia contribuir
para que a sociedade avançasse rumo ao futuro com mais firmeza, seriedade e
segurança. Tens ainda razão quando dizes que constituímos o elo entre o passado
e o futuro e que contribuímos para que o presente não seja esvaziado de
memória, de valores e de orientação. É verdade!
Mas
puseram-nos o rótulo de “velhos! “E alguns de nós são até considerados como um
“peso”!... Olha o João, que troçava quando nos nossos verdes anos ouvíamos Brel cantar “Les Vieux” : Les
vieux ne rêvent plus, leurs lèvres s’ensommeillent, leurs pianos sont fermés /
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter / Les
vieux ne bougent plus leurs gestes ont
trop de rides leurs monde est trop petit / Du lit à la fenêtre, puis du lit au
fauteuil et puis du lit au lit…(…) Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un
jour et dorment trop longtemps...» Pois
é. O João dorme agora num Lar, até adormecer para sempre… Houve um tempo em que
a experiência valorizava. Agora, muitas vezes, compromete e condena à solidão…
Dizias-me
que “no Antigo Testamento o idoso era referido como transmissor da sabedoria
que vinha de Deus, que no Livro do Génesis, no Deuteronómio, no da Sabedoria e
no Eclesiástico, a velhice era considerada uma bênção, uma riqueza que devia
agradecer-se…”
Mas
os tempos mudaram, Zé. Os valores económicos esmagaram os valores espirituais e
até culturais. O idoso não produz, não consome, só gasta…deixou, portanto, de
figurar na coluna do “Haver”.
De
vez em quando, lá nos vão atirando uns rebuçados disfarçados em cêntimos ou
mostrando na televisão o avozinho que leva o neto à escola, …
Cambada
de hipócritas! Se estorvamos, por que não nos vendem? Vem aí um Novo Ano, e ao
ritmo acelerado que vai a venda dos “bens” do País, nós, que também somos
Património, porque não nos trocam por alguns euros? Já pensaste no alívio que
seria para a Segurança Social? E já pensaste na alegria e, sobretudo, no
orgulho dos nossos tetranetos, quando lessem nos manuais escolares a saga dos
seus antepassados que sacrificaram “carne
e osso” pela salvação da Pátria? Ri-te, homem! Nada podemos fazer.
Estamos velhos… e mal pagos. Mas, como dizia o outro a velhice é maravilhosa.
Só é aborrecido é que ela acabe tão mal…
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