quinta-feira, abril 17, 2008

Insónias



Há cinquenta e sete anos que tenho a mesma cozinheira. De mútuo acordo, além de tratar da paparoca, ela também passa a roupa, cose as meias, pregas os botões, escolhe as camisas que devo vestir, as gravatas que devo enrolar ao pescoço e, como já devem ter adivinhado, com toda esta promiscuidade, também me dá ordens. É ela quem manda, ponto final, parágrafo!
Por mais que lhe diga que não quero comidas fortes à noite, ela insiste e ainda ontem às sete da noite lá estava, sobre a mesa, uma açorda de marisco a piscar-me o olho… Refilei e a resposta foi a do costume: «Ó homem, se te faz mal, não comas…» Mas, (maldita gula!...) comi. Resultado: voltas e mais voltas na cama e sono… nicles!
Experimentei todas as artimanhas para que as pálpebras se fechassem e mesmo o truque de contar carneiros não resultou. A certa altura tive até a sensação de que o quarto estava cheio dos ditos lanígeros! Não havia dúvidas, Morfeu estava zangado comigo.
Levantei-me, e pé ante pé dirigi-me ao quarto que me serve de escritório. Não sei se já alguma vez vos disse que o considero como uma espécie de “esconderijo”. Sob o pretexto de que estou a trabalhar, consigo fazer com que ninguém me incomode. Se de vez em quando me batem à porta, basta eu levantar o braço para ela se fechar de novo… Bem sei que nem sempre “a minha chefe” acredita que eu esteja de facto a trabalhar a sério, mas lá faz de contas e assim evitamos a troca de algumas palavras menos meigas… Mas é ali naquele cantinho que me sinto rei e senhor.
Mas voltando à minha “espertina”, mal abri a porta do meu refúgio deparei com um cenário deveras insólito: na pequena mesa, mesmo em frente ao computador, as letras do alfabeto, estavam todas reunidas.
Do A até ao Z lá estavam elas e um pouco mais longe o K , o W, e o Y , com ar desconfiado pareciam aguardar qualquer decisão… A princípio pensei que se tratava das letras do teclado. Mas não. Elas mexiam-se sozinhas e não precisavam de dedos para se movimentarem. Eram mesmo as do alfabeto. Havia também alguns acentos gráficos e sinais de pontuação, mas o mais empertigado e que me pareceu mais nervoso foi ponto de interrogação.
Dos acentos, o til, era o mais descontraído. Das letras, as mais revoltadas pareceram-me o “C “e o “P”. Não me contive e quis saber o que se passava. Respondeu-me o ponto de admiração: «Que se tratava de um plenário convocado a pedido de algumas letras do alfabeto revoltadas com a sua despromoção com a entrada do novo acordo ortográfico. As mais furiosas eram o “C” e o “P”. O “C” não se conformava por o terem suprimido da acção e o “P” reivindicava o seu lugar no baptismo…A entrada do “K” do “W” e do “Y” estava também a ser contestada…»
Instintivamente olhei para a estante dos dicionários e quando pensei na “revolução” que os esperava, perdi o sono de vez. E num acto de solidariedade para com as consoantes que foram suprimidas de certas palavras, comecei a “martelar” furiosamente o teclado do computador, expressando assim, acordado, o meu protesto contra o acordo.

sexta-feira, abril 11, 2008

Senhor Ministro




Excelência
Todos os anos, por ocasião do aumento das pensões, costumo escrever-lhe uma carta. E, apesar de até à data não ter recebido qualquer resposta, teimoso que sou, aí vai mais uma.
Ainda pensei em não lha mandar este ano. Mas quando vi e ouvi o seu secretário de Estado, um tal Pedro Marques, empoleirado no seu galho e acoitado sob o manto da irresponsabilidade pronunciar aquele chorrilho de patacoadas, então não me contive…Como quem atira rebuçados a miúdos, o fulanito queria, todos os meses e durante catorze, enviar 68 cêntimos aos idosos pensando que com isso estava a fazer uma obra de caridade! Com que então se pagassem o aumento extraordinário aos velhotes em Dezembro, eles gastavam-no todo de uma só vez?!...
É preciso não conhecer minimamente as condições de vida em que vivem os milhões de pobres do País para proferir tais insanidades!... Saberá o Senhor Marques que, nalguns casos, para muitos reformados o aumento se traduz nuns míseros cêntimos por dia? Saberá que a pensão de muitos idosos não chega para pagar a conta na farmácia? Saberá o Sr. Pedro que muitos deles trabalharam mais de meio século sem nunca se terem sentado à mesa do orçamento, pagando sempre os seus impostos e nunca “abicharam” um cargo apadrinhado, como é o seu caso?
Se alguns figurões conseguem um montão de notas em poucos anos sem nada fazer, é porque, como diz o ditado, “na terra de cegos quem tem olho é rei...” O nosso Camões morreu pobre talvez porque só tinha um, e em vez da política optou pelos “Lusíadas”. E lixou-se... Dizem que morreu à fome e, paradoxo dos paradoxos, muitos, agora, enchem a boca com o seu nome…
No meu caso e falando de aumentos, não sei ainda o que irei fazer com o meu e o de minha mulher. Mas sou capaz de aceitar a sugestão da patroa que é de constituir uma espécie de fundo de poupança que nos permitiria nas próximas eleições ter dinheiro suficiente para comprar uma lata de tinta preta e pincéis para nos deliciarmos a borrar, nos cartazes de propaganda, as “fuças” dos novos pretendentes ao trono.
Deixe-me também dizer-lhe, Excelência, e reforçando o que acima escrevi acerca do seu secretário, que não seria pior arranjar-lhe outro cargo, pois ele não tem sensibilidade para o que ocupa. Não acha que o que ele disse foi como que um ultraje aos pobres e aos velhos que recebem uma miséria?
Em contrapartida e apesar de a percentagem ser menor, os ricos, porque auferem pensões “astronómicas", agradecem-lhe. Mas não esqueça que os pobres são muito mais. E que o seu número não cessa de aumentar. Cuidado. Nunca ouviu dizer que a “fome não tem lei?...”
Todos nós sabemos que o mal vem de trás. Mas o exemplo deve vir de cima. E não vem... Os esbanjamentos não param. Disfarçados, é certo, mas continuam. Aos pequenitos já nem o cartão de eleitor lhes vale, pois por mais que escolham, menos acertam. É indiscutível que atravessamos uma crise muito grave. Porém, são sempre os que menos têm e que mais precisam, que a pagam... E o senhor Ministro, mais uma vez, exemplificou bem essa dolorosa, imoral e triste realidade!...

domingo, março 30, 2008

Sorria



Para mim, o remédio para andar sempre bem-humorado consiste em aceitarmos as coisas tal como elas se nos apresentam fingindo que era assim que nós as desejávamos. Penso também que se o homem das cavernas tivesse sabido rir, a História teria tomado um rumo muito diferente.
Até mesmo o nosso primeiro Rei se em vez das palavras feias que dizem ter dito à mãe soltasse uma estridente gargalhada, estou certo que a nossa gasolina não estaria tão cara e Zapatero teria tido mais votos nas últimas eleições!
Perante toda esta balbúrdia e insubordinação que alastra por todo o rectângulo só há uma única arma para lhe fazer face – o riso! Só com uma espontânea gargalhada se pode fazer frente a todas estas "criancices" da nossa gente graúda.
A antiga maneira de dividir a nossa fauna em bons e maus, sinceros e falsos, velhos e novos, sábios e analfabetos, passou à história. Agora, cá no cantinho instaurou-se uma nova era com quatro categorias de indivíduos: - os que mandam, os que fingem que trabalham, os que trabalham de verdade, e os "outros".
Na categoria dos que mandam podem incluir-se não só os donos do poder como também aqueles que por misteriosas artes e manhas se tornaram donos e senhores de fortunas incalculáveis. Na categoria dos que fingem trabalhar, estão aqueles cujos salários lhes "caem" na conta logo a partir do meio do mês; na dos que trabalham de verdade, a percentagem não pára de diminuir e segundo as estatísticas é uma classe em vias de extinção.
Restam os "tais outros", que são os mais felizes: - são alérgicos ao trabalho e não pagam impostos. Ou recebem o RMG, ou estão no desemprego. Ambos, normalmente, fazem uns biscates por fora o que lhes permite viver sem problemas. Criticam o governo em casa, batem palmas na rua, mas a sua ideologia tem mais a ver com dinheiro do que com ideias. Riem-se de todos: dos que mandam, dos que fingem trabalhar e dos que trabalham. Dos que mandam, porque lhes comem as papas na cabeça; dos que fazem de conta que trabalham, porque sabem fingir melhor, e dos que trabalham porque, sem nada fazer, recebem ordenado. Um autêntico reino do riso. Por isso ninguém de bom senso pode levar a sério tanto disparate. E como não podemos lutar contra tantos acomodados e tantos comodistas, resta-nos, como arma, o riso. Riamos, pois, e cultivemos o humor. É a única maneira de prevenir, além de outras doenças menores, as perigosas úlceras nervosas e as fatais doenças cardíacas. Em vez de dar murros na mesa, ria à gargalhada, caro leitor. Nem sempre é fácil, eu sei. Mas já pensou que se o dinheiro fosse só para os inteligentes, os bons lugares para os competentes, a popularidade para os honestos, acha que poderíamos continuar a existir como País?!... É a história da carteira e da consciência. Mas não se esqueça que carteira e consciência são coisas bem distintas. É preferível, por isso, sonhar de vez em quando do que ter pesadelos constantemente.

sexta-feira, março 21, 2008

L'Art de vieillir

Vieillir, se l'avouer à soi même et le dire
tout haut, non pas pour voir protester les amis,
mais pour y conformer ses goûts et s'interdire
ce que la veille encore on se croyait permis.

Avec sincérité, dès que l'aube se lève,
se bien persuader qu'on est plus vieux d'un jour ;
à chaque cheveu blanc, se séparer d'un rêve
et lui dire tout bas un adieu sans retour.

Aux appétits grossiers, imposer d'âpres jeunes,
et nourrir son esprit d'un solide savoir,
devenir bon, devenir doux, aimer les fleurs,
aimer les jeunes, comme on aima l'espoir.

Se résigner à vivre un peu sur le rivage,
tandis qu’ils vogueront sur les flots hasardeux,
craindre d'être importun sans devenir sauvage,
se laisser ignorer tout en restant près d'eux.

Vaquer sans bruit aux soins que tout départ réclame,
prier et faire un peu de bien autour de soi,
sans négliger son corps, parer surtout son âme,
chauffant l'un aux tisons, l'autre à l'antique Foi.
Puis un beau soir, discrètement, souffler la flamme
de sa lampe et mourir parce que c'est la loi.
Jean Fabié

sábado, março 15, 2008

Ave Maria

Ave Maria
Ave Maria
Ceux qui souffrent viennent à toi
Toi qui as tant souffert
Tu comprends leurs misères
Et les partages
Marie courage
Ave Maria
Ave Maria
Ceux qui pleurent sont tes enfants
Toi qui donnas le tien
Pour laver les humains
De leurs souillures
Marie la pure
Ave Maria
Ave Maria
Ceux qui doutent sont dans la nuit
Maria
Éclaire leur chemin
Et prends-les par la main
Ave Maria
Ave Maria, Ave Maria
Amen

Charles Aznavour

sexta-feira, março 07, 2008

Politicamente incorrecto



Politicamente incorrecto
É corrente ouvir dizer – quando alguém se refere à classe política – que cada povo tem os políticos que merece. Admitindo, por hipótese, que a afirmação é verdadeira, que pecado teríamos nós cometido para que Deus nosso Senhor, nos tivesse dado como penitência aturar as traquinices de alguns dos políticos que se sentam nas cadeiras do Parlamento?
Li não sei quando nem em que livro que “a política é como o haxixe que enriquece os que o vendem e embrutece os que o fumam...”
Acho que não pode haver melhor definição para essa “arte”. Os que a praticam percorrem os caminhos da vida em carruagem de primeira classe; os que têm de se sujeitar às suas normas ficam apáticos e embrutecidos devido às exageradas doses de demagogia que inalam sempre que ouvem suas excelências.
Aqueles que na sexta-feira passada viram através da televisão ou leram nos jornais a troca de “mimos” havida entre o Governo e a Oposição (?) devem ter ficado apalermados e ao mesmo tempo esclarecidos quanto à decência, respeito e educação de cada um dos intervenientes na “batalha”. Uma vergonha!...
O Parlamento é, como todos nós sabemos, o espelho da Nação. É ali que se devem discutir os destinos do País, os males de que enferma e os remédios a prescrever para erradicar ou atenuar tais doenças.
Mas o que ali se vê é simplesmente o contrário. Do País não se fala. E se, por acaso, isso acontece, em vez de procurar antídotos para a doença e alívios para o paciente, logo toda a “família” desvia o debate, abandona o interesse nacional e o hemiciclo transforma-se num um lavadouro público.
Insultos, insinuações maldosas, palavras e expressões pouco próprios para o local, enfim, uma falta de decoro tal que, quando vemos, lemos ou ouvimos tais disparates, logo nos assalta uma pergunta: - Com gente desta como pode o País sair do lodaçal em que se encontra?!...
Sem querer entrar pelos caminhos sinuosos e controversos das ideologias,
nem evocar ou elogiar o passado fazendo dele emblema, devo esclarecer que fui criado no tempo em que ainda éramos camponeses. Camponeses pobres, tementes a Deus e educados no respeito àqueles que também se faziam respeitar. E que se respeitavam uns aos outros. Tempos ingratos, esses. Tempos difíceis, de muito trabalho e pouco dinheiro. Mas talvez por isso, de mais respeito, de mais educação, de mais humildade e de menos vaidade e prepotência.
Como é sabido, não morro de amores pela classe política e, por isso, há quem tente, de vez em quando, colar-me nas costas, à sorrelfa, alguns rótulos: saudosista e velho resmungão são os mais frequentes. Podem continuar a chamar-me mais nomes, porque além de ter as costas largas, nem todas as vozes chegam ao Céu, como diz o ditado.

quinta-feira, março 06, 2008

Na velha capela

Em busca de ajuda

É aqui em silêncio profundo,
À luz da lâmpada cintilante,
Que sinto a força dum outro mundo
Que está longe e muito distante…

Além, dentro daquele Sacrário
Que a luz da lâmpada ilumina,
Está simbolizado um Calvário,
Uma força suprema, divina.

Sou indigno de ver-te tão perto
A Ti luz de bondade e amor.
Sou pecador, mas estou certo
Que tens o coração aberto
Para acalentar a minha dor!

13/12/1948

Para além da Morte...

A dor que lentamente vai minando
Este meu pobre corpo decadente,
É cada vez mais forte, mais pungente,
À medida que o tempo vai passando.

Pouco a pouco meu mal vai aumentando
Num constante minar de corpo doente
Até que o sofrimento me demente
E, pobre louco, a morte vá buscando.

Eu sei como acabar este tormento:
Bastava apenas um dor mais forte
E, logo após… eterno esquecimento!

Um veneno, uma bala, um simples corte...
Que bom morrer assim, em um momento,
Se não houvesse vida além da morte!...

Aveiro, 1948

Mulheres da rua






A horas mortas
Por ruas tortas
Elas bocejam…
Esperam confiantes,
Os seus amantes
Que depois as beijam.
Vendendo o seu corpo
Por preço vil
Habitam cabanas
Um triste covil.
Mostram-se se ao mundo
Com prazer
E num beco imundo
Fazem amor
A valer.
Almas tristes
Despedaçadas,
Elas vendem-se
Pelas estradas.
Um dia que passa
Não tem valor.
Despreocupadas
Nuca cansadas
-Tristeza das gentes!...
Brincam inocentes
Com o amor.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Provérbios



Enganam-se todos aqueles que pensam que tento, através dos meus rabiscos, dar lições de moral ou ministrar a catequese a quem quer que seja. Nada disso. Soube sempre, durante a vida, assumir com humildade a minha ignorância e tento sempre não pisar o risco do círculo que delimita o meu saber. Muitas vezes tropeço em assuntos que mereceriam ser "arejados", mas porque ultrapassam os meus conhecimentos, retiro-os com jeito do caminho, e passo à frente.
Serve, por isso, este preâmbulo, para pôr as coisas no seu devido lugar informando alguns leitores de que os meus escritos não passam de simples e despretensiosos desabafos. Diz o ditado que "quem não deve não teme" e, por tal facto, penso poder expressar o que sinto cá dentro.
Também não escrevo por vaidade ou em busca de protagonismo, pois como diz também outro ditado "se queres viver tranquilo não acendas muitas luzes no teu caminho"... E é o que faço. E como os tempos já não permitem que se use o pau de marmeleiro, remédio antigo, mas eficaz, resigno-me, e aconchego-me bem sossegado no meu cantinho e, de vez em quando, no silêncio da noite, sem incomodar ninguém, entretenho-me a deitar, borda fora, todo este meu inconformismo acumulado. E escrevo. E confio ao papel o que me vai na alma…
Hoje, por exemplo, ao ouvir as reacções dos vários partidos políticos às palavras proferidas pelo Bastonário da Ordem dos Advogados acerca da corrupção, – esse espécie de sarna que grassa pelo País – mais uma vez tive a confirmação, com bastante tristeza, de que caminhamos a largos passos para a decadência total. De uma forma ou de outra todos sacodem a água do capote. Reina a hipocrisia no reino da Papagália. Todos palram, todos se esquivam, e ninguém tem culpas no cartório, embora o "assunto" tenha sido ventilado vezes sem conta. Mas... todos unidos, todos inocentes. Uns santinhos…
Os nossos valores que assentavam nos princípios da Fé Cristã, do Patriotismo e da Família, pouco a pouco, vão desaparecendo. É o preço que temos de pagar pelo progresso, dizem os entendidos. É assim a Democracia, arengam os outros – aqueles que dela se servem para enriquecer sem esforço, servindo-se dos "buracos" nas leis, alguns deixados propositadamente para eventuais "fugas".
E já repararam que esta maneira de governar só defende os interesses do grande capital e vai retirando aos mais pequenos, não só o produto do seu próprio trabalho como também os direitos e regalias conquistados ao longo de séculos? O que será preciso acontecer para que os burocratas do Terreiro do Paço, abandonem os seus gabinetes climatizados onde se fecham para decretar medidas teóricas, e venham conhecer o verdadeiro País?
E por que não vêm?!... Não de fugida, como é hábito, para inaugurar ou reinaugurar uns quilómetros de betão, mas para ficar algum tempo e poderem inteirar-se das reais necessidades de quem vive longe de tudo...
Mas voltando às palavras do Bastonário da Ordem dos Advogados que motivaram este desabafo de hoje, estou certo de que à semelhança do que tem vindo a acontecer há anos com as inúmeras denúncias sobre o mesmo caso, tudo não passará de simples "fumaça", pois os lobos não se comem uns aos outros. E isso durará enquanto houver "caça" miúda que se apanha com facilidade. E já agora, para terminar, permitam-me que cite mais um provérbio, o da semana passada: «É preciso tirar o dinheiro aos pobres. Eles têm pouco, mas são muitos..."

domingo, fevereiro 17, 2008

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Chefes


Chefes
Não sei se conhecem a história. Ela é velhinha como eu, mas vou contá-la outra vez, mesmo que, ao fazê-lo, corra o risco de que muitos não lhe achem graça nenhuma. Mas não faz mal. Ela aí vai…
Era uma vez um homem que entrou numa loja de passarada para comprar um papagaio. Deu uma volta pelo estabelecimento, olhou os vários palradores expostos para venda e dirigiu-se ao encarregado:
- Quanto custa este pássaro aqui, ó amigo? - Esse, respondeu o interpelado, custa 500 Euros. - É caro o passaroco, respondeu o comprador. -E este aqui? - Esse custa 1.000 euros, freguês, retorquiu o vendedor. - Tanta diferença no preço – estranhou o hipotético adquirente. - É que esse tanto fala português, como francês, alemão ou inglês, explicou por sua vez o dono da passarada. - Então e aquele além? - Aquele vai prós 1.500 euros, mas além de falar várias línguas, sabe também atender o telemóvel…
- E o último lá ao fundo, à direita? - Ah! Esse é pássaro para 2.500 Euros!... Ena pá! E o que faz ele para custar assim tanto dinheiro? - Lá isso não lhe sei dizer, respondeu o vendedor. Mas logo explicou: - O que sei dizer é que aqui na loja todos os outros lhe chamam chefe…
Os que acharam graça podem continuar a ler. Os outros, deixem a leitura, mas não joguem o jornal para o chão. Ponham-no no papelão para ser reciclado.
Antigamente, os jornais, no fim de lidos, tinham vários préstimos: ou rasgavam-se em pedaços e levavam-se para a “casinha”onde serviam para aquilo que imaginam; ou guardavam-se para servir de esteira para pôr a fruta no sótão; ou as mulheres que vendiam sardinha de porta em porta serviam-se deles para embrulhar as ditas; ou os merceeiros poupavam o papel almaço e faziam cartuchos onde metiam o arroz que depois pesavam… e havia até quem os usasse para calafetar as portas e as janelas no Inverno. Vejam lá!...
Assim, o jornal, além da leitura e depois desta terminada, tinha ainda muitos outros préstimos, como atrás se exemplifica. Eram outros tempos e os jornais dessa época não traziam tantos “explosivos” escondidos nas suas páginas. Eram, se quiserem, jornais “biológicos”!
Mas voltemos à história que deu origem a este borrão de hoje. E volto aos papagaios e aos chefes, para vos dizer que somos de facto um País de chefes. Muitos chefes. Chefes como o papagaio da história que nada fazem, nada valem, mas que…por artes de berliques e berloques foram promovidos e colaram-lhe nas costas uma etiqueta de chefe. E ele há chefes por todo o lado. E são tantos que qualquer dia não há quem trabalhe, porque chefe é chefe, e chefe não trabalha. E se hoje me lembrei da história, é porque quando ouço os nossos “chefões” falar de produtividade, de profissionalismo, de competição, lembro-me sempre do papagaio do qual o vendedor nada sabia a não ser que lhe chamavam chefe!...

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Ladrões




Como já tenho escrito várias vezes, sou ainda do tempo em que os ladrões eram pobres. Se alguns dormiam debaixo de telha, a maior parte tinha de se acoitar sob o vão de uma escada, num canto de uma velha casa abandonada ou num palheiro distante do povoado onde dormitavam nos intervalos dos “trabalhinhos”.
Era difícil a sua vida naqueles tempos!...
Trabalhavam, sobretudo, a coberto da noite e usavam as mais rudimentares ferramentas, enfrentavam os mais variados perigos, não tinham sindicato que os defendesse e acabavam muitas vezes nas masmorras húmidas duma cadeia comarcã. Vida difícil!...
Todos lhes eram hostis e a sociedade desse tempo defendia ferozmente os interesses do roubado e estava-se marimbando com a sorte do autor do roubo.
E isso era uma injustiça flagrante, pois as proezas arriscadas e por vezes perigosas do ladrão em nada se comparavam com a pacatez e indolência do roubado. E injustiça tanto mais grave quanto era certo que o roubado tinha a seu favor, não só as Companhias de Seguros, como a acção da polícia e a cumplicidade dos magistrados. Acrescente-se ainda que os ladrões faziam parte de uma classe onde não existia a palavra “greve”, pois se a “propriedade é o roubo”, sem ladrões desapareceriam os proprietários, os tribunais, os magistrados e seria o crescimento incontrolável do desemprego, coisa de que não se falava então…
Mas, mudam-se os tempos… e tudo isso pertence ao passado. Foram-se os “pés de cabra”, as gazuas, os alicates e hoje basta uma esferográfica para fazer o “trabalhinho”!
O roubo entrou definitivamente nos nossos costumes com regras e até com estatuto de associação. Hoje é o “desporto” mais em voga e o mais lucrativo – os ladrões são ricos e a profissão estende-se a todas as classes. E quanto maior for o furto, mais importância adquire o seu autor. Há até alguns que possuem títulos nobiliárquicos, sem falar das “excelências” e de outros títulos honoríficos que precedem o nome de muitos desses novos profissionais da ladroagem.
E que ninguém tenha dúvidas, porque a este ritmo tudo leva a crer que graças ao avanço das ciências, da tecnologia e às mil interpretações da moral, só terá futuro quem tiver feito estágio ou adquirido um diploma dessa profissão!
Os velhos tempos acabaram… E volto a citar Almada Negreiros: «É tão indecente estar sóbrio no meio de bêbados, com é indecente estar bêbado no meio de gente sóbria…».
Perceberam?!... Se não perceberam, estou às vossas ordens para explicar.

sábado, dezembro 29, 2007

Fiquei triste, minha senhora!...


(Texto escrito e publicado em 16 de Julho de 2004)
A recente decisão do senhor Presidente da República de não convocar eleições antecipadas, para além do terramoto político que provocou, permitiu também que ficássemos com uma ideia, ainda que pálida, de algumas personalidades que gravitam nas altas esferas da vida política portuguesa.
Poderia citar várias, mas a que mais surpresa me causou pelo chorrilho de impropérios e pela agressividade como criticou o mais alto Magistrado da Nação, foi, sem dúvida a secretária nacional do PS, Ana Gomes.
Talvez pela maneira como desde pequeno me ensinaram e depois me habituei a admirar e louvar a sensibilidade feminina, confesso que me constrangeu ainda mais a maneira desbocada (perdoem o termo) como proferiu aquelas palavras à intenção do Presidente da Republica.
Daqueles olhos que eu vi há anos verter lágrimas de alegria aquando do processo da independência de Timor, brotaram agora autênticas chispas de raiva e de ódio não contidos.
Fiquei triste, minha senhora!...
Fiquei triste por ser obrigado a substituir aquela sua patriótica, afável, enérgica e humana imagem que guardava dentro de mim, por esta outra de agora – olhar desvairado, cara deformada pelo rancor e boca sequiosa de vingança.
Nas derrotas, e para os que não sabem perder, o orgulho pessoal e a convicção de superioridade, cerra-lhe os olhos e faz com que percam a noção de uma das mais nobres virtudes dos seres humanos – a humildade!
Ser humilde, saber enfrentar as contrariedades da vida, além de virtude é também uma característica das grandes personalidades. E eu sempre pensei que a senhora pertencia ao número delas. Mas enganei-me…
Quando a ideologia e o sereno juízo dos factos são substituídos por reacções puramente afectivas, facciosas e intolerantes, perde-se por completo a noção das coisas. E foi o que aconteceu…
Lá bem no fundo, e passada que foi a vaga de revolta que lhe tolheu o discernimento, deve ter reconhecido, minha senhora, que a sua atitude e o seu comportamento, não foram, minimamente, compatíveis com o lugar que ocupa.
Um democrata verdadeiro nunca perde o norte, quer quando a frustração lhe bate à porta quer quando a sorte lhe entra pela janela…
Fiquei triste, minha senhora!...
Fiquei triste, porque – e repito-me – dos olhos que vi brotar lágrimas de alegria, e da boca que ouvi palavras de grande elevação patriótica, vi agora sair fulminantes faíscas de ódio e palavras arrogantes, rancorosas, impregnadas de prepotência e de má educação…

Vaticínios




No fim de mais um ano que não nos deixa boas recordações, e no começo de outro que segundo já predizem os oráculos não vai ser nada melhor, não sei, francamente, o que hoje vos hei-de dizer quanto à maneira como se irá comportar o figurão que aí vem – o 2008…
Para já, e sem que isso constitua desrespeito ou concorrência desleal para com os nossos astrólogos oficiais, eu aventurar-me-ia a prever para 2008 um ano decisivo, isto é, um ano do “ vai ou racha”.
Dito por outras palavras: ou os nossos políticos começam a fazer uma espécie de recruta no país profundo para conhecer as suas verdadeiras necessidades dando, ao mesmo tempo, exemplos de trabalho aos indígenas ou então continuaremos na mesma cegarrega e arriscamo-nos a ser incorporados no país vizinho, como aliás, já o vaticinou o nosso Nobel.
Em qualquer dos casos, quer chova quer faça sol, os mandantes, esses, estão-se nas tintas. Quer a coisa vá bem quer não, nada perdem, porque há sempre dinheiro para eles. E por mais perigosas que sejam as suas piruetas no trapézio da governação, há sempre por baixo a rede do Zé que em caso de queda os catapulta para outros trampolins.
«É a vida! …» Como costumava dizer um dos nossos ex-mandantes, o tal das “paixões” que se escapuliu e se despediu à la française, mas que hoje está bem na dita cuja!
Mas foi sempre assim. Não julguem que por agora termos auto-estradas com portagens, “metro”, TV por cabo, telemóveis da 4.ª geração, Internet, brevemente TGV, um aeroporto ainda sem lugar certo, que as coisas mudaram!... Ora leiam, (mudem apenas as datas) o que escreveu em finais do século dezoito o nosso Fialho de Almeida:
«Na ratoeira do tempo ainda ignobilmente está a agonizar 1889, e já ao faro do queijo, o ratinho de 90 se prepara a esfuziar pela portinhola do cárcere, a sua cabeça aguda e chata de roedor. (…) - «Ele aí vem 1890!... Com o mesmo parlamento a esbarrondar de intrigas e ambiciúnculas corriqueiras, a mesma bobagem turva nas cumeeiras do Estado; a mesma inanidade nos tipos, a mesma falta da iniciativa nos caracteres, e esterilidade idêntica nos ventres das mulheres, nos cérebros dos homens, e na cornucópia sôfrega dos argentários. 1890, é mais um acto desta farsada da vida em que os homens se entrechocam como Polichinelos, sem o respeito que salvou a geração dos nossos Avós, e sem o desprezo que foi longos anos a grande força cívica dos nossos Pais. – Rato de esgoto passa depressa, e livra-nos de ti…»
Por isso, percam as esperanças os ingénuos, os que ainda acreditam nas palavras de políticos. De nada vale escrever, falar, barafustar, praguejar ou reivindicar. Eles não nos ouvem. Ergam as mãos ao Céu – aqueles que, como eu, acreditam – e peçam a Deus muita saúde, paz e alegria, porque cá em baixo ninguém nos ouve.

Feliz Natal


Feliz Natal
Neste mundo apressado e frenético em que vivemos, só as crianças, na sua inocência e simplicidade e com a pureza que brota dos seus corações, continuam a transmitir a mensagem de esperança, de solidariedade, de paz e de amor que há mais de dois mil anos, esse Menino veio trazer ao Mundo.
Os homens, numa luta contínua e ambiciosa, – primeiro na terra, depois nos mares, nos ares e agora nos espaços interplanetários, pouco a pouco, se foram esquecendo de si próprios.
E por mais paradoxal que isso pareça, quanto mais o homem avança e mais descobre, mais ele se apaga e mais a sua imagem original se desvanece nessa corrida vertiginosa que a vida lhe impõe. Preso na automatização que criou, ele tende cada vez mais a transformar-se numa simples peça de uma engrenagem maldita, da qual jamais poderá libertar-se.
Dei comigo a pensar em tudo isto num hipermercado rodeado pela multidão frenética, apressada e eufórica que por entre atraentes brinquedos, inúmeras iguarias, e tentadoras embalagens de prendas, se acotovelava ao som do "Jingle Bell" facturado em jeito de rock e lançado pelos alto-falantes espalhados por todos os cantos.
Um outro mundo, esse!... Um mundo mágico e fantasmagórico, tornado ainda mais quimérico e irreal pelo piscar intermitente de miríades de luzinhas coloridas. À música, juntava-se a algaraviada daquele formigueiro que, em longas filas, carrinhos a abarrotar, esperava a sua vez. Novos, menos novos e muitas crianças – um ror de gente!
Comparações com o Natal da minha infância? Impossíveis... Nem parecenças com aquele Natal tranquilo, quase sem brinquedos! Uma noite diferente envolta no perfume da resina das pinhas a aquecer junto à lareira para extrair os pinhões; os estalidos do troco que ardia; as panelas de ferro de três pés onde, conjuntamente, coziam as batatas, as couves e o bacalhau para a ceia; as filhós de farinha de trigo que minha Mãe tão bem fazia... e que tão bem sabiam lambuzadas com o mel das nossas colmeias!...
E o presépio, na velha capela, revestido com heras e musgo onde um menino gorducho, de faces rosadas, com um dos dedos do pé já partido, parecia sorrir? E a Missa, e depois a fila para beijar o Menino; e as ofertas que se depositavam num açafate de vime; e os cânticos, ainda sem instrumentos musicais; e depois o regresso a casa, agasalhados nas samarras, nas capuchas de burel ou nos xailes de merino? E aquele matraquear dos socos e dos tamancos nos degraus luzidios da escadaria de loisa...
Mas tudo mudou!... No entanto, e porque o Natal «é a festa de uma criança que acabou de nascer», ela pressupõe sempre um recomeço que muitas vezes é um reviver do passado. Um encontro com o presente. Com muitos sonhos à mistura. E muitas recordações. Nunca ouviram dizer que os velhos passam o tempo a recordar?!...
Um santo e feliz Natal para vós todos.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Peadelos


Pesadelos
Sem saber como nem porquê, dei comigo sentado numa cadeira da última fila da sala de aulas da minha neta mais nova…
O "sôtor" não tinha nada daqueles mestres do meu tempo que eram assim mais "pesadotes" na idade e mais escrupulosos no vestir. Este vestia calça de ganga, e oficiava em mangas de camisa. Por falta de um botão, via-se um peito cabeludo onde luzia um fio prateado, na extremidade do qual baloiçava um berloque. Calçava sapatos de ténis que deviam ter nascido brancos, mas que, agora, a idade ou os maus tratos, tinham transformado num arco-íris rastejante. Mas era, na linguagem da minha neta, um professor porreiraço...
Constava que a sua especialidade era a Agricultura, pois possuía uma licenciatura num desses novos cursos, – Ciências Agrárias, se não estou em erro – mas em face da crise nesse sector, virou-se para o ensino e lá conseguiu umas aulas...de português!...
Estava eu nestas conjecturas quando o mestre começou a aula:
«Como já por várias vezes tenho afirmado – começou ele dirigindo-se à turma – quanto a mim, para que o aproveitamento na disciplina de português seja o desejado, devemos acabar com essa parte da gramática a que chamam ortografia. Acabando com ela, suprimem-se os erros ortográficos..."
Engoli em seco, mas achei uma certa lógica no raciocínio, pois se cortarmos o pescoço a qualquer fulano, ele não sofrerá mais de dores de cabeça pensei eu cá p'ra mim.
"Os pequenos – continuou – não gostam da disciplina de português, porque a maior parte das palavras não se escrevem como se pronunciam, ou se pronunciam de maneira diferente da que se escrevem..."
Raciocínio foneticamente muito discutível, mas que deixei passar…
"A ortografia – insistiu – porque só uns tantos a praticam, é um elemento de segregação social. É até uma forma, camuflada, de racismo! Por isso, não só contribui para o empobrecimento cultural, pelo tempo que rouba e pelos sentimentos xenófobos que desperta, como também é responsável pelo enfraquecimento do espírito, tendo em conta o esforço que exige..."
Raciocínio de cariz político-partidário, que fingi não perceber…
"Porque – continuou, já vermelho e a transpirar – a ortografia é, nos nossos dias, uma coisa arcaica que cheira a mofo e não tem cabimento numa sociedade de tecnologias avançadas. Vivemos quase meio século no cárcere do obscurantismo. Há mais de duas décadas que dele nos libertaram!... Então por que esperamos para deitar no lixo as grilhetas que ainda nos prendem a esse passado, (que eu nem sequer conheci!...) mas que dizem ter sido sinistro e castrante, indolente e conservador?!..."
E foi então que me levantei e, revoltado, agarrei o ilustre “pedagogo” pelos colarinhos e expliquei-lhe em altos berros que no "tal passado que ele nem sequer tinha conhecido", a maior parte daqueles que faziam a quarta classe ficava a saber escrever correctamente o português, sem erros ortográficos!...
Entretanto apareceu um “segurança” – é assim que agora são designados os homens a que outrora, nos colégios, se chamavam “ prefeitos” – e sem mais aquelas, pegou-me por um braço e pôs-me na rua. Mas não parei de espernear e foi só quando minha mulher me deu um safanão que eu acordei…

sexta-feira, novembro 16, 2007

SOLILÓQUIOS...

No silêncio da noite
Na quietude da noite, tonalidade da música quase no zero, aqui estou a escrever sem saber bem por que o faço. Talvez pela necessidade de esvaziar esta arca velha, de desabafar, de fugir de mim mesmo, de me afastar daquilo que me rodeia, me incomoda, e criar à minha volta um mundo novo, tranquilo, sem pressas e sem competições.
Utopia?... Que o seja, mas sinto muitas vezes essa necessidade de reinventar esse outro mundo e esquecer aquele por que passei.
E nesse desejo, nessa ânsia, muitas vezes, sem me aperceber, esqueço-me de mim mesmo e invento outra personagem. Totalmente diferente. Uma silhueta, uma espécie de fantasma que pouco dura e que acaba por desaparecer submersa nas vagas da minha própria imaginação.
É difícil “fugir” da aparência, da fachada, da máscara com que disfarçamos uma felicidade que nunca atingimos. É sempre difícil se não impossível despir completamente a indumentária que vestimos ao longo de muitos anos.
E é também difícil localizarmos no nosso imaginário aquele momento mágico em que nos foi oferecida a ocasião de optar, de escolher o rumo certo, aquele que agora, depois desta longa distância percorrida, pensamos teria sido o ideal...
Mas será que alguma vez na nossa adolescência nos apercebemos desse momento enigmático, dessa encruzilhada de caminhos que a vida nos mostrou para podermos escolher o tal rumo certo?!...
É curioso como apesar de todos estes anos de peregrinação por este vale de lágrimas, esta ânsia de reinventar um outro caminho que não o percorrido, continue, de vez em quando, a atravessar-se no caminho dos meus pensamentos, colocando dúvidas e interrogações difíceis de satisfazer!
É curioso também que mesmo numa idade avançada se continue a sonhar e a ter pesadelos. Sobretudo pesadelos, porque os sonhos, quanto a mim, têm uma grande lógica interna e uma grande coerência interior. Eles permitem-nos, enquanto duram, alimentar esperanças e dão-nos também alento para reforçar a nossa auto-estima ainda que envoltos num manto diáfano e enganador....
É que todos nós temos virtudes e defeitos tornando-se por isso, e à medida que o tempo vai passando, mais importante consciencializarmo-nos da nossa imperfeição.
Bem sei que nesse turbilhão de ideias, nesse emaranhado de interrogações e sem possibilidade de voltar atrás, nos resta apenas dominar os sentimentos e substituir as tendências negativas pelas tendências positivas, lutando e, reeducando-nos para atingir a felicidade. Não a felicidade completa, mas aquele estado de alma que nos proporciona todos os dias a alegria de viver em paz connosco, sem ódios, sem remorsos, sem alimentar sentimentos de inveja pelo vizinho do lado, que é mais poderosos e rico.
Às vezes ando às voltas dentro de mim e, algum tempo depois, consciente de que por mais voltas que dê não encontro já a tal encruzilhada de que acima falei, tento recriar, baseado no passado, um caminho diferente. Porém, como o passado, não se refaz, não se recria, mas também não se pode abjurar, volto ao ponto de partida – às interrogações, às reticências e às vírgulas das várias situações por que passei. E é sempre com um sentimento de saudade que termino estas minhas incursões que muitas vezes faço a esse tempo longínquo embora por vezes me apareçam figuras monstruosas que se movem numa dança endiabrada como que atribuindo-me culpas de coisas de que já não me lembrava... Ou faço por não me lembrar.

domingo, novembro 04, 2007

Recordando meu pai

Duas datas numa lápide
De repente, sentimos que a noite se aproxima. O Sol desaparece por detrás da serra e os seus raios, de várias cores, pincelam o horizonte fazendo inveja aos mais célebres pintores!
A passarada procura os abrigos e, sopradas pela brisa fresca do anoitecer, as folhas rodopiam e caem das árvores formando no caminho um tapete de variadas cores.
É Outono!
Há ouriços no chão com castanhas a espreitar, há nozes escondidas nas ervas secas e aqui e além, no laranjal, um amarelo esverdeado de um fruto sobressai por entre as frondosas copas verdes. A groselheira, ramos vergados, carregados de frutos, em cachos, quase a tocarem na terra, parece querer rivalizar com o azevinho, também ele, mostrando os seus ramos crivados de bolinhas vermelhas.
É Outono!
Há um cheiro diferente no ar. O fumo das chaminés espalhadas pela aldeia anuncia que o frio já chegou. Abrandou a azáfama no povoado, fizeram-se as colheitas, descamisaram-se as espigas, secaram-se, guardaram-se nos espigueiros, cortaram-se as palhas, semearam-se as ervas, e agora é tempo de repouso.
É Outono!
Há magustos por todos os lados, começa a matança do porco, mas hoje foi um dia especial – dia de Todos os Santos, dia de romagem aos cemitérios. Velas, lamparinas modernas, coloridas, pois o progresso substituiu as vulgares velas de cera por canudos de cores diversas que deturpam um local que deveria ser de recolhimento e de simplicidade e o transformam numa feira de competições e vaidades.
Flores, muitas flores. Naturais, artificiais... mas quase todas compradas. As dos jardins próprios, juntos de casa, já não se usam e é de bom-tom dizer-se à vizinha o seu preço e quase sempre o local da compra.
E não há sepultura pobre, embora os restos mortais de muitos dos que nelas repousam o tivessem sido em vida. Pobres de tudo. Não só de comida, mas sobretudo de carinhos, atenções e de respeito.
E há lágrimas, muitas lágrimas. Umas de saudade, mas muitas também de remorsos do carinho que se poderia ter dado e não deu; do tempo que se poderia ter dispensado e não se dispensou; da paciência que se deveria ter tido, da companhia que se deveria ter feito, do simples sorriso que se não devolveu. E há também lágrimas fingidas…
Teríamos muitas surpresas se pudéssemos ler o que se passa no interior de muitos que no dia de hoje se alinham ao longo das pedras tumulares. Quantos não choram apenas e só para que os outros os vejam?
Quantos pensam que podem agora pagar, com flores, todas as faltas que tiveram para com os seus entes queridos, enquanto vivos?
“Flores e lágrimas são alívio dos vivos, mas não refrigério dos mortos” – disse Santo Agostinho.
E neste Outono, e neste dia, como é doloroso evocar alguém que não conhecemos em vida, mas cuja lembrança constantemente nos acompanha! É uma mistura de saudade tão pungente e de tristeza tão dorida que não se consegue explicar. Sente-se e connosco vive...até chegar também a nossa segunda data.

Porreiro, pá!...

“Porreiro, pá!...”
Continuo a acreditar que somos, de facto, um povo extraordinário. Somos pau para toda a colher. Temos uma pachorra incomensurável e um desmedido arcaboiço para encaixar os mais incríveis disparates.
Cá dentro, bem no fundo do nosso “eu”, somos de tudo um pouco: paternalistas, brincalhões, descomplexados, cultivadores acérrimos do nacional-porreirismo e, essencialmente, os descendentes directos de uma árvore genealógica com muitas e diferentes ramificações. Do seu vetusto tronco, saíram muitos e variados ramos de cores diferentes, formando frondosa e matizada copa. E, em País de ameno clima, de brandos costumes, à sua sombra e à socapa, uma diversificada e duvidosa casta vai-se acoitando das intempéries da vida, graças a uma cumplicidade bem disfarçada. Somos, por isso, um amálgama de gente bizarra – de homens ingénuos e perdulários, de heróis destemidos, de arrojados piratas, de intrépidos marinheiros, de refinados falsários, de rudes campónios, de ilustres fidalgos, de brasonados ilustres, de vigaristas inveterados, de exímios palhaços, de inimitáveis actores de comédia e também de gente piedosa, bem instalada na vida, que sob o manto da solidariedade e do bem comum vai tosquiando o gado miúdo – a ralé – que, resignada, vai lambiscando o pouco que o graúdo lhe deixou, mas sempre sorridente e acomodada, batendo palmas na rua e insultando os mandantes no conforto do lar, pantufas nos pés, e janelas fechadas. É que as paredes têm ouvidos e os bufos estão sempre de orelha atenta, pé ligeiro e língua pronta a esguichar o veneno da denúncia. Mas somos os maiores! Em tudo. Escutem o que dizem os mandantes, leiam os jornais, ouçam os comentadores da TV, atentem no que dizem os analistas encartados, os profetas em estágio, e logo verão que assim é.
Ainda agora, na Cimeira de Lisboa, como pomposamente chamaram à reunião dos 27, noticiaram os jornais, disseram os organizadores e completaram os noticiários na televisão que luxo assim, só em Portugal – conseguimos atrair a fina-flor da Europa, e fazer com que os melhores hotéis esgotassem a capacidade; que houvesse jantaradas que nem Pantagruel teria sido capaz de imaginar; que os carros topo de gama fizessem alterar o trânsito da capital; que em cada esquina houvesse um polícia... Enfim, um sucesso tão grande que os representantes dos países presentes renderam-se ao nosso engenho e arte e não tiveram outro remédio senão assinar o tal Tratado! Isto sem falar no efeito persuasor da mochila “uma ideia renovadora que aposta nas energias renováveis,” que deixou os visitantes de boca aberta! E dava gosto vê-los, mochila às costas, satisfeitos por terem assinado o “instrumento que ajuda a UE a sair de uma crise política que a atrofia”, como disse um eurodeputado português.
Custos da Cimeira? Migalhas! Vêm aí os “Fundos”... Já imaginaram uma “torneira” a debitar 10 milhões de euros por dia? Não é “porreiro pá”?...