segunda-feira, setembro 12, 2016

VEM AÍ O IMPOSTO METEOROLÓGICO

Vem aí o Imposto Meteorológico!
Já dizia Napoleão que “em política, o absurdo não é um obstáculo”. E a prova disso é, quanto a mim, a recente lei que prevê o aumento do IMI para casas cuja localização seja considerada privilegiada sob o ponto de vista da incidência do Sol ou da paisagem que delas se desfruta. E a coisa não fica por aqui…
Segundo um infiltrado que há anos mantenho no circuito político, os prestidigitadores da governança cá do rectângulo, preparam-se, para lançar mais um novo imposto. E agora calem-se os que andam por aí a dizer que os nossos políticos não têm ideias. Ai que não têm!... Quando se trata de encontrar “fontes” de rendimento, são tantas as que fervilham naqueles iluminados crânios, que nem lava a sair de cratera de vulcão!
É verdade. Baseando-se no nosso clima que é um dos melhores desta velhinha e decrépita Europa, os tosquiadores deste rebanho à beira mar tresmalhado, preparam-se para criar um novo imposto, a que será dado o nome de Imposto Meteorológico!
E vejam a astúcia dos pegureiros: calcularam uma temperatura média de base, e por cada grau acima, cada um dos habitantes da região onde se verifique uma subida pagará uma taxa de 1 Euro equivalente ao “excesso calórico”. Nas áreas que não atingem a média estabelecida, por cada “grau abaixo”, pagará o indígena uma taxa da mesma importância, equivalente ao «desequilíbrio térmico».
Mesmo processo para os dias de chuva: cálculo da humidade média e taxa de higrometria aplicada aos «mais» e aos «menos» na mesma proporção.
No Inverno, o diploma refere-se também ao dispêndio com o aquecimento, surgindo neste capítulo a mesma desigualdade entre cidadãos do mesmo País. Com efeito o preço do gasóleo, do gás e da electricidade será mais elevado no Sul e mais baixo no Centro e no Norte. Em Beja, por exemplo, o litro, o quilo ou o quilovátio, respectivamente, serão mais caros do que em Viseu, na Guarda ou em Vila Real, pois os habitantes da cidade alentejana terão muito menos necessidade de aquecimento do que os indígenas das faldas do Caramulo, da Estrela ou do Marão!...
E esse imposto só ainda não foi anunciado, porque, logo que dele teve conhecimento, o Instituto de Meteorologia e Geofísica, que detém o monopólio das condições climatéricas para Portugal e Ilhas Adjacentes, ter-se ia oposto veementemente classificando-o de «um acto absolutamente inconcebível, porque a maioria terráquea, não significa, de maneira alguma, maioria absoluta no que diz respeito aos Astros!»



PAPAGAIOS E POKÉMONS


Realizou-se há pouco, numa das ilhas do Arquipélago das Canoras, um Congresso Internacional de Ornitologia, cujo tema versava sobre “A importância dos papagaios na Sociedade virtual dos Pokémons.”
Causou grande surpresa no auditório a intervenção do conhecido e controverso ornitólogo português Jerry Ngonza, ao apresentar uma variedade de psitácidas pouco conhecida e à qual deu o nome de “Lissabonae Papagaius”.
Perante uma assistência que o escutava de boca aberta o orador discorreu horas a fio sobre as características ímpares da ave portuguesa.
Segundo o enviado especial da RTP (Radio Transmission of Parrots) foi tão convincente a intervenção do delegado lusitano, que os expoentes máximos da Ornitologia Internacional mostraram de imediato vontade de visitar o nosso País para presenciarem «in loco», a coabitação penosa, mas palradora, dos diversos bandos no hemiciclo do Palratório Nacional.
Ao apresentar a ave trepadora portuguesa, Ngonza atribui-lhe predicados jamais encontrados noutras famílias de psítacos, acrescenta o relato do enviado especial português: “Sem necessidade de um «habitat» específico, podendo manter-se em liberdade quase ilimitada, aclimatando-se a diferentes e variadas matizes, a nova espécie distingue-se ainda das suas congéneres pela sua invulgar capacidade de imitação da voz humana.
Tais características contribuem para que num futuro próximo o «Papagaio de Lisboa» suplante todos os seus semelhantes, desde o «Amazona Palmarum», passando pelo “Erythecus” africano e acabando no “Golias” da Índia…”
Enquanto alguns congressistas reconheciam ser o nosso País aquele que alberga os melhores e mais exímios exemplares da arte de papaguear, outros viram no «Lissabonae Papagaius” apesar da sua aparência exterior e da sua bela plumagem, uma espécie condenada à extinção, vítima da sua exagerada bazófia e da sua cansativa verborreia.
Em qualquer dos casos, e apesar das divergências e pontos de vista discordantes da parte de alguns congressistas, uma sondagem final do repórter reforça a ideia inicial de que serão muitos os turistas que no mês de Agosto visitarão Portugal. Mais do que qualquer promoção turística, a curiosidade dos congressistas e acompanhantes fará com que a afluência de visitantes registe números jamais alcançados!
De facto, acompanhar presencialmente a convivência entre as diferentes espécies de aves que, de cristas eriçadas, quase se “depenam”,  tem outro “sabor” do que vê-las, via TV, no respectivo Canal.
Além disso, o Palratório Nacional, parece ser o local ideal para apanhar Pokémons. E como sabemos, cá no rectângulo, agora, «o que é virtual, é que é bom.» 
















Papagaios e Pokémons
Realizou-se há pouco, numa das ilhas do Arquipélago das Canoras, um Congresso Internacional de Ornitologia, cujo tema versava sobre “A importância dos papagaios na Sociedade virtual dos Pokémons.”
Causou grande surpresa no auditório a intervenção do conhecido e controverso ornitólogo português Jerry Ngonza, ao apresentar uma variedade de psitácidas pouco conhecida e à qual deu o nome de “Lissabonae Papagaius”.
Perante uma assistência que o escutava de boca aberta o orador discorreu horas a fio sobre as características ímpares da ave portuguesa.
Segundo o enviado especial da RTP (Radio Transmission of Parrots) foi tão convincente a intervenção do delegado lusitano, que os expoentes máximos da Ornitologia Internacional mostraram de imediato vontade de visitar o nosso País para presenciarem «in loco», a coabitação penosa, mas palradora, dos diversos bandos no hemiciclo do Palratório Nacional.
Ao apresentar a ave trepadora portuguesa, Ngonza atribui-lhe predicados jamais encontrados noutras famílias de psítacos, acrescenta o relato do enviado especial português: “Sem necessidade de um «habitat» específico, podendo manter-se em liberdade quase ilimitada, aclimatando-se a diferentes e variadas matizes, a nova espécie distingue-se ainda das suas congéneres pela sua invulgar capacidade de imitação da voz humana.
Tais características contribuem para que num futuro próximo o «Papagaio de Lisboa» suplante todos os seus semelhantes, desde o «Amazona Palmarum», passando pelo “Erythecus” africano e acabando no “Golias” da Índia…”
Enquanto alguns congressistas reconheciam ser o nosso País aquele que alberga os melhores e mais exímios exemplares da arte de papaguear, outros viram no «Lissabonae Papagaius” apesar da sua aparência exterior e da sua bela plumagem, uma espécie condenada à extinção, vítima da sua exagerada bazófia e da sua cansativa verborreia.
Em qualquer dos casos, e apesar das divergências e pontos de vista discordantes da parte de alguns congressistas, uma sondagem final do repórter reforça a ideia inicial de que serão muitos os turistas que no mês de Agosto visitarão Portugal. Mais do que qualquer promoção turística, a curiosidade dos congressistas e acompanhantes fará com que a afluência de visitantes registe números jamais alcançados!
De facto, acompanhar presencialmente a convivência entre as diferentes espécies de aves que, de cristas eriçadas, quase se “depenam”,  tem outro “sabor” do que vê-las, via TV, no respectivo Canal.
Além disso, o Palratório Nacional, parece ser o local ideal para apanhar Pokémons. E como sabemos, cá no rectângulo, agora, «o que é virtual, é que é bom.» 
















EM JEITO DE MEMÓRIA


Apesar de o passado ser construído por uma cadeia de acontecimentos, nem todos os seus elos são iguais. Nem todos eles desempenharam igual papel, nem todos prenderam” da mesma maneira – enquanto uns deram poesia às coisas, outros ensarilharam-se e, muitas vezes, emperraram a continuidade do trajecto.
Mas é dos primeiros, daqueles que me prenderam à vida com ternura, que me fizeram sonhar, que depois me acordaram para enfrentar a realidade e a seguir me colocaram no caminho da responsabilidade, são esses elos, esses momentos, que mais gosto de recordar. Ao lembrá-los, é quase como que ingerir uma poção mágica que me dá ânimo e traz de volta quimeras e sonhos. É uma espécie de pausa, uma interrupção no percurso e um repouso tranquilo rodeado da utopia que ainda me resta…
Mas, às vezes, a desilusão é mais forte, e há dias ou momentos em que sinto necessidade de me isolar, de fugir deste baile de interesses, deste materialismo galopante, desta falta de ética no comportamento das pessoas. Cansa-me este jogo do quotidiano feito de competições e de indiferenças, de hipocrisias e de cinismos, de subtilezas e de astúcias, de vigaristas transformados em heróis…
Pouco falta para que até a esperança pague imposto!
Num mundo construído sob o signo do dinheiro e em que tanto se fala em solidariedade, entristece-me que ela não seja aplicada na prática. O ter é mais importante que o ser…
Falta mais alma, mais responsabilidade, mais altruísmo, mais espiritualidade pois só assim poderá ser vencida esta crescente desumanização a que, passivos e indiferentes, assistimos todos os dias.
É preciso acreditar, persistir e não ter medo de expor a nossa Fé. É necessário proclamar e exibir os valores que herdámos dos nossos pais  que selavam um compromisso com uma palavra de honra ou um aperto de mão.   
Às vezes, perante tanta injustiça, tanta falta de valores, tanto desrespeito pelos pobres, apetece-me gritar e acusar tudo e todos… 
A angústia, a dor, o grito, a poesia, tudo isso é uma espécie de religiosidade e mistério que faz parte da minha já longa caminhada. De vez em quando é a emoção que me invade… E foi isso que aconteceu há dias ao ver-me rodeado pela família e por amigos a comemorar mais um aniversário. 















AS TRÊS IDADES


Todos nós temos três idades: a idade que está no do B. I. ou no cartão de cidadão, a idade que aparentamos e a idade com que nos sentimos.
Esta última é, sem dúvida, a mais verdadeira, aquela de que devemos servir-nos para continuar a caminhada. Seguindo esse raciocínio, são necessários três números para nos definir. Por exemplo, quanto a mim, considero-me um 90-80-70!
Descodificando: do primeiro número, atribuo metade a cada perna; o segundo, – que é geralmente o número com que os meus amigos me presenteiam de vez em quando – penduro-o no espelho só para me divertir com o outro “senhor” careca e de cara enrugada, que a lâmina de vidro polida reflecte; o último número, o setenta, é o que se sobrepõe aos outros dois. É o “combatente” aquele que, sempre vigilante, tenta impedir que o primeiro, o mais gordo, – o 90 – me esmague sob o seu peso!
E é assim com esta espécie de triângulo numérico às costas, que continuo a fazer o meu dia-a-dia. Evidentemente que para pôr em prática esta “filosofia” é necessária a ajuda de vários factores: saúde, tolerância, paz interior, humildade, boa disposição e, sobretudo muita Fé!
Li há dias num texto de um escritor italiano que a velhice seria o calvário da vida. Concordei em parte, pois chegar a velho sem saúde, sem ninguém que olhe por nós e entregue apenas à solidão, deve ser, de facto, um enorme e triste calvário!
Pelo contrário, ter a sorte de envelhecer com saúde, com uma boa família por perto e os amigos em redor, é uma bênção de Deus.
É certo que quando olho os lugares vazios dos familiares ou dos amigos que partiram, há sempre uma dor pungente que me invade. O coração bate mais forte, mas apenas por uns momentos. Depois, estranhamente, tranquiliza-se e parece conformar-se perante a inexorável lei da vida.
À dor que me invade nesses instantes ora se sucedem recordações e saudade, ora me agitam sonhos de esperança que me transportam para longe – uma viagem em que o mistério do tempo tanto me acusa como me reconcilia com Deus.
E então é a Ele que me entrego. É a Ele que peço perdão pelos momentos em que a revolta me dominou e me fez esquecer a Sua infinita bondade.
E é a Ele que agradeço tudo aquilo que me tem dado até hoje: alegrias, tristezas, sofrimentos e sobretudo o dom da fé – essa força invencível que ‘faz cantar os mártires na morte…’
Todas as coisas boas ou ruins que passei na vida foram lições que aprendi. As ruins guardo-as na memória e as boas, guardo-as no coração...
Divaguei, e fugi do assunto. Mas vou parar por aqui, porque os dois últimos conjuntos de algarismos começam já a discutir e podem zangar-se, abalar, e deixar o 90 a falar sozinho….



















As três idades
Todos nós temos três idades: a idade que está no do B. I. ou no cartão de cidadão, a idade que aparentamos e a idade com que nos sentimos.
Esta última é, sem dúvida, a mais verdadeira, aquela de que devemos servir-nos para continuar a caminhada. Seguindo esse raciocínio, são necessários três números para nos definir. Por exemplo, quanto a mim, considero-me um 90-80-70!
Descodificando: do primeiro número, atribuo metade a cada perna; o segundo, – que é geralmente o número com que os meus amigos me presenteiam de vez em quando – penduro-o no espelho só para me divertir com o outro “senhor” careca e de cara enrugada, que a lâmina de vidro polida reflecte; o último número, o setenta, é o que se sobrepõe aos outros dois. É o “combatente” aquele que, sempre vigilante, tenta impedir que o primeiro, o mais gordo, – o 90 – me esmague sob o seu peso!
E é assim com esta espécie de triângulo numérico às costas, que continuo a fazer o meu dia-a-dia. Evidentemente que para pôr em prática esta “filosofia” é necessária a ajuda de vários factores: saúde, tolerância, paz interior, humildade, boa disposição e, sobretudo muita Fé!
Li há dias num texto de um escritor italiano que a velhice seria o calvário da vida. Concordei em parte, pois chegar a velho sem saúde, sem ninguém que olhe por nós e entregue apenas à solidão, deve ser, de facto, um enorme e triste calvário!
Pelo contrário, ter a sorte de envelhecer com saúde, com uma boa família por perto e os amigos em redor, é uma bênção de Deus.
É certo que quando olho os lugares vazios dos familiares ou dos amigos que partiram, há sempre uma dor pungente que me invade. O coração bate mais forte, mas apenas por uns momentos. Depois, estranhamente, tranquiliza-se e parece conformar-se perante a inexorável lei da vida.
À dor que me invade nesses instantes ora se sucedem recordações e saudade, ora me agitam sonhos de esperança que me transportam para longe – uma viagem em que o mistério do tempo tanto me acusa como me reconcilia com Deus.
E então é a Ele que me entrego. É a Ele que peço perdão pelos momentos em que a revolta me dominou e me fez esquecer a Sua infinita bondade.
E é a Ele que agradeço tudo aquilo que me tem dado até hoje: alegrias, tristezas, sofrimentos e sobretudo o dom da fé – essa força invencível que ‘faz cantar os mártires na morte…’
Todas as coisas boas ou ruins que passei na vida foram lições que aprendi. As ruins guardo-as na memória e as boas, guardo-as no coração...
Divaguei, e fugi do assunto. Mas vou parar por aqui, porque os dois últimos conjuntos de algarismos começam já a discutir e podem zangar-se, abalar, e deixar o 90 a falar sozinho….



















REFLEXÃO


Aceitar com confiança e resignação os percalços e os momentos difíceis com que, por vezes, somos confrontados, são a maneira mais eficaz para minorar a nossa ansiedade e simplificar o nosso dia-a-dia.  
É certo que por vezes a vida nos põe perante situações angustiantes e de extrema complexidade que quase nos roubam a nossa capacidade de raciocinar. Mas é precisamente nessas alturas que é posta à prova a nossa força interior, aquela mola invisível que muitas vezes deixamos enferrujar por falta de uso.
Quando tudo nos corre de feição, esquecemo-la, não nos servimos dela diminuindo assim a sua elasticidade e subestimando a sua amplitude. Ao proceder dessa maneira, mais difícil se torna despertá-la para a distender e nos servirmos dela nos momentos de amargura. Por isso é necessário mantê-la sempre em bom estado de conservação, e isso só se consegue se acreditarmos em nós próprios e confiarmos nos dons com que Deus mos dotou para fazer face às adversidades.
Há também quem desconheça essa força interior e em vez de fazer uso dela procure ajuda exterior. No entanto, a maior parte dos nossos problemas reside na arte de saber acordar essa força que dorme no interior de nós mesmos. E a maneira mais eficaz para esse despertar consiste em estimular os nossos sentimentos…
Fui há dias visitar um amigo que se encontra no hospital. Ao percorrer os corredores, e numa espreitadela furtiva pelas camas alinhadas nas enfermarias, olhando os doentes, (alguns bastante mal) espontaneamente, uma prece silenciosa, rompeu a atmosfera de dor e sofrimento que me envolvia e subiu até Deus num agradecimento mudo, mas sincero.
Não há melhor bênção do que a saúde! Mas, distraídos que andamos, só nesses lugares é que lhe damos o real valor. Porquê tanto egoísmo, tanto ódio, tanta inveja e tanta revolta?
 Com tudo isto queria eu dizer que se na vida de cada um de nós há situações verdadeiramente inevitáveis, outras há – a que poderíamos até chamar de facultativas – às quais podemos muito bem fugir ou evitar…
Todos sabemos que a vida é uma teia urdida com as mais variadas dificuldades. Mas para melhor a suportar, para melhor vivermos, para termos paz, tranquilidade, e um pouco de bem-estar, por que não procurar combater as nossas angústias, os nossos medos e as nossas contrariedades recorrendo a esse legado espiritual, esse dom que Deus nos concedeu?
Não é a Fé um incomensurável poder que alimenta a vida? Ter Fé e procurar nela a humildade a tolerância e o perdão, é como que renovar a vontade de viver em paz com nós próprios, reforçar a nossa auto-estima e, implicitamente, partilhar o nosso bem-estar com os que nos rodeiam. 


 
 







sábado, julho 30, 2016

O PRINCÍPIO


 
Chamava-se Arquimedes e segundo rezam os livros, teria nascido no ano 212 a.C. em Siracusa, a mais bela cidade da Grécia Antiga, na Itália e foi matemático, físico, engenheiro, inventor e astrónomo grego.
Embora poucos detalhes da sua vida sejam conhecidos, foi considerado um dos principais cientistas da Antiguidade Clássica, tendo feito inúmeros trabalhos no âmbito das ciências que dominava.
Enunciou vários princípios, mas aquele de que hoje vou falar é o da Hidrostática, que foi deturpado como se aperceberão à medida que a leitura for decorrendo...
Mas para quem não conhece a história da descoberta desse princípio aqui vai ela tal como ma contaram. Estava Arquimedes de Siracusa a tomar banho na sua própria tina (e sem que ninguém lhe tivesse oferecido flores) sentiu um impulso!...
Intrigado e desorientado, levantou-se do banho, voltou a sentar-se, apalpou, remexeu... até que descobriu o tal princípio, aquele que estudámos e diz que "Todo corpo mergulhado num fluido em repouso sofre, por parte do fluido, uma força vertical para cima, cuja intensidade é igual ao peso do fluido deslocado pelo corpo”.
Mas o progresso e a evolução, que nada poupa mudou-lhe o significado e com a cumplicidade das novas tecnologias e da galopante onda de modernidade que tudo transforma, o enunciado do princípio de Arquimedes, foi sendo adulterado até que um dia alguém se lembrou de o democratizar!
E foi nessa altura que os políticos entraram em cena... E então o princípio subiu os degraus do Parlamento, foi motivo de acalorado debate, sofreu alterações pouco ortodoxas, mas, no entanto, a maioria lá conseguiu livrar-se do referendo reclamado pela oposição!
E a proposta foi aprovada por unanimidade...
Terminada a sessão, e ao sair do hemiciclo, o princípio, não só trazia fatiota nova – uma espécie de indumentária camaleónica - mas também o enunciado original tinha sido mudado e adaptado para condizer com a democraticidade vigente, ficando assim redigido: - «todo o cidadão que tem a sorte de mergulhar na política beneficia de um empurrão de baixo para cima, que se traduz sempre num montante de euros superior, tanto ao trabalho como ao seu coeficiente intelectual…»
Consta que houve rebuliço nas galerias do areópago, mas logo o presidente mandou que fossem evacuadas.  E todo o público ou seja, todos os mexilhões saíram, ficando apenas os da casa...E desde então o Povo rebaptizou-o e passou a chamar-lhe o princípio dos «Arquimerdas» …
E assim, o que a hidrostática perdeu em originalidade, ganhou a política em majestade… Uma majestade mal cheirosa, claro está!

 

A TOQUE DE CAIXA


 Os pregões da revolução dos cravos com os quais se anunciava que, «o povo é quem mais ordena” serviram apenas para criar falsas e efémeras esperanças. Já Salazar dizia que «não se pode governar contra a vontade do povo», mas apesar de todos os solavancos ideológicos por que temos passado, agora como então, a pergunta continua sem resposta. O que é a “vontade do Povo”?
Será, como diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o fundamento da autoridade dos poderes públicos? Teoricamente talvez, porque na verdade, na prática, assim não acontece. Ainda ninguém conseguiu fazer a destrinça. Foi-se a ditadura e com o advento da democracia foram muitos os que acreditaram que a partir daí se poderia definir e explicar o sentido da expressão. Puro engano. Quem assim pensou esqueceu-se que qualquer sistema de governo tem as suas subtilezas, os seus disfarces e os seus embustes. Daí que no sistema democrático, para contornar a situação, convencionou-se que vontade popular é a que resulta da contagem das cruzes nos papelinhos saídos da caixa a que funebremente se deu o nome de urna. Mas não existe qualquer verdade no denominado sufrágio universal. O que há, isso sim, é uma verdade convencional. E isso porque hoje mais do que em tempo algum avança-se ou recua-se mercê de uma série de convenções.
Como no passado, também no presente o povo vota, mas não manda; o povo paga, mas não sabe para onde vai o seu dinheiro; o povo sofre, refila... e cansado e rouco, acaba por desistir. Então e a tal vontade popular? Uma simples figura de retórica. Um ornamento que serve apenas para enfeitar os discursos hipócritas e ocos dos mandantes. E como o mal já vem de longe e não se consegue fazer a destrinça entre verdade e vontade, manda quem pode, obedece quem deve. E Isto apesar de todos sabermos que o que convém à minoria que governa nunca coincide com a maioria dos que não governam. É dos livros e não queiram convencer-me de que - nesse capítulo - há formas de governo diferentes. Cada Governo, qualquer que seja a ideologia, tem de fazer sempre referência à tal ‘vontade do Povo’, sem nunca saber o que realmente isso é. E ainda há quem diga que somos pequenos! Só se for no juízo. Porque na arte de "meter a mão na massa" somos os maiores. Governados por umas dúzias de cidadãos - muito bem protegidos por "pequenas verdades convencionais" - cá vamos vivendo, assistindo impotentes a "desvios" sistemáticos de milhões.
O último da lista, o da CGD, que dizem ser de quatro mil milhões e que o Povo vai ter de pagar, mostra bem que seja qual for o Governo em funções e ao contrário da canção, o povo não é «quem mais ordena», mas quem é mais ordenhado. Mesmo com a teta a sangrar. E a «toque de Caixa».

 

 

 

 

 

 

 

OS QUE FOGEM À MORTE


 
Nas sociedades primitivas o homem, praticamente sem qualquer utensílio para se defender dos animais selvagens, contava apenas com a sua força física e a sua inteligência.
Esta última, que é a faculdade de pensar e reflectir, fazia com que ele se distinguisse das outras criaturas, concedendo-lhe também decisivas vantagens na luta pela vida, que diariamente tinha de travar.
Na sociedade moderna, o homem, possuindo tudo quanto é necessário para se defender não só dos animais selvagens como também dos seus semelhantes, não precisa de recorrer, nem à sua força física, nem à sua inteligência. Basta-lhe apenas premir um botão!
Por aqui podemos avaliar a sua evolução e concluir que o que ele perdeu em qualidades humanas ganhou-o em práticas selvagens - uma espécie de "compensação" que é, como quem diz, uma outra forma de regressar à barbárie. 
Vem isto a propósito, já não digo do que se passa pelo mundo, mas mais especificamente do que se está a passar bem perto de nós com esses milhares de pessoas, homens, mulheres e crianças que fogem da guerra, e que acabam por sucumbir nas ondas revoltas do mar.
Creio que deve haver muito pouca gente que saiba avaliar o sofrimento, a angústia e o estado de espírito dessas centenas de milhares de refugiados que a televisão nos mostra e que, deixando tudo, tentam apenas escapar à morte!
Por mais filmes que se vejam, por mais livros que se folheiem, por mais histórias que se ouçam, aqueles que nunca viveram esses dramáticos momentos, não podem compreender a luta que se trava no íntimo de cada um desses seres humanos.
É uma luta tão dolorosa, uma mistura de sentimentos tão contraditórios que se torna difícil explicar. É um doloroso combate interior travado em duas frentes e com duas implacáveis opções - ficar ou partir!
São momentos, são horas e, por vezes, dias de dúvidas e de hesitações. São momentos de infindável angústia, de dilacerante ansiedade e de revolta mal contida.
São marcas que apesar do correr do tempo, ficam sempre gravadas no subconsciente, como dores adormecidas, mas que, ao mais pequeno corte, logo sangram. Deixar a casa que se construiu e todo o resto que durante anos se granjeou mercê de muito trabalho, muitos sacrifícios, muitas renúncias e partir por vezes apenas com a roupa que vestimos, é como ferida que não cicatriza.   
Quando eu também fugia da onda selvática de um exército com impulsos primitivos, nunca poderia imaginar, que mais de meio século depois assistiria, na Europa, a esse lancinante drama, dos que fogem da morte!

 

 

COMPARAÇÕES


 
Há dias, quando procedia à arrumação de uma estante de livros onde se amontoam, indiscriminadamente, obras de todas os estilos literários, passou-me pelas mãos um que li já há muitos anos, mas do qual ainda guardo algumas recordações embora que um pouco desbotadas pelo tempo.
 Não sei se convosco se passa a mesma coisa, mas comigo isso acontece muitas vezes: ao ver a capa e ao folhear um livro que li há décadas, vêm-me à memória certas passagens que ficaram gravadas e que passados todos esses anos ainda perduram na mente!
Há, com certeza, uma explicação científica para o caso, mas como não gosto de entrar por caminhos que não conheço, nem de me arvorar em pretenso sabichão, aceito a “coisa” com naturalidade, e contento-me com aquela velha máxima que diz que os velhos vivem das recordações do passado.”
Sei bem que isso é treta, pois nem só das recordações se vive. E se fosse verdade, e no caso de as poder transformar em notas, eu teria na minha conta bancária um saldo tão gordo como a de qualquer magnata do petróleo ou do príncipe mais rico das Arábias! 
Mas voltando ao começo destes rabiscos, referia-me eu às famosas “Viagens de Gulliver”, onde o autor, Jonathan Swift, nos conta as aventuras de um homem que ao longo das suas viagens passou por um país cujos cidadãos eram de pequena estatura e depois por outro, todo ele povoado por gigantes.
É uma sátira bastante dura contra as instituições sociais e tanto nos pigmeus de Liliput como nos gigantes de Brobdingnag, Swift não deixa de zurzir forte e feio, apontando as suas falsidades, as suas paixões, as mesmas hipocrisias e os mesmos vícios.
E foi a pensar nessa passagem do livro que esse sinal gráfico, essencialmente feminino, que é a interrogação, curiosa, esticou o pescoço e me bisbilhotou ao ouvido: - não estaremos nós também agora a viver sob o signo de Gulliver? E levado por aquela pertinente hipótese, aí estou eu a conjecturar e a pensar baixinho: - no nosso percurso histórico, a situação em que nos encontramos, não será, de facto, um tudo-nada parecido com Brobdingnag e Lilliput? Gigantes de um lado e pigmeus do outro?!...
Que eu me lembre, o autor não se refere ao número de habitantes existentes quer num país quer no outro, isto é, não aponta o número, nem dos gigantes, nem dos pigmeus. Mas, mantendo a suposição acima enunciada, entre nós não haverá mais pigmeus do que gigantes?
Ainda bem que cheguei ao fim do meu espaço, pois já estava a enveredar pelo mesmo caminho do autor e pronto a zurzir também, e à minha maneira, nesses parasitas gigantes que tudo tentam para nos esmagar…

 

CRÓNICA ZAROLHA


Crónica zarolha

Crónica zarolha porque estou a escrever só com um ‘farol’, pois o outro está em descanso devido à substituição de uma ‘lâmpada’ polivalente que faz de mínimos, médios e máximos. Peço, por isso, desculpais antecipadas se neste meu arrazoado de hoje houver falhas ou a escrita desfilar em ziguezagues. E a propósito de mais ‘farol’, menos ‘farol’, deixem-me que faça aqui um elogio, ainda que póstumo, ao nosso grande poeta Camões, o poeta erudito do Renascimento, que só com um dos ‘faróis’, escreveu os Lusíadas, essa obra poética considerada a epopeia portuguesa por excelência, composta por dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos, de uma perfeição geométrica inigualável!  
Grande homem este nosso Camões que com um só olho e além do escrever essa grande epopeia, ainda nos mostrou a sua valentia e coragem quando, num naufrágio, conseguiu salvar o manuscrito segurando-o com um a das mãos e nadando com a outra!
Muitas vezes falamos de percalços que acontecem com os outros, mas só quando eles nos batem à porta é que lhes damos o verdadeiro valor. No dia que se seguiu à intervenção dei de imediato ordens para que procurassem na minha biblioteca “Os Lusíadas” e vou relê-los, mal atinja a capacidade total da visão.
Mas deixando o nosso Camões em paz e referindo-me especificamente ao caso em apreço, digo-vos que isto de “carros” velhos é o que tem. De repente, seja numa curva ou numa recta, mal o indígena se precata lá vai o esqueleto para o estaleiro!
Mas nem tudo é mau e, quanto a mim, se não fossem estes “incidentes de percurso” julgo que a vida se tornaria monótona e não daríamos valor à saúde e a todas as alegria e bons momentos que ela nos proporciona quando a usufruímos em pleno.
Diz um antigo provérbio que tanto na cadeia como no hospital todos nós temos um pedaço. E se a realidade nos mostra essa verdade, aquele outro ditado que diz que é num e noutro desses locais onde se conhecem os verdadeiros amigos não o é menos. É nessas ocasiões em que a amizade é posta à prova e se revelam os sentimentos das pessoas que nos rodeiam.
É nesses momentos em que nos sentimos tão frágeis que necessitamos desse bálsamo que nos alivia a alma e nos dá coragem para continuar a caminhada. Isso é, sem exprimir lamechices ou mendigar atenções, apenas apontar o nosso dever, a nossa maneira de estar perante a sociedade e mais especificamente de devolver ao nosso semelhante o sentimento de amizade, que julgamos recíproco. Em poucos dias verifiquei que era mais rico do que o que pensava, pois o carinho e as provas de amizade desinteressada e espontânea de que fui alvo tiveram mais valor do que um volumoso monte de notas do Banco…   

quinta-feira, maio 26, 2016

OS LIVROS NÃO ENSINAM TUDO


Os livros não ensinam tudo

Penso que ninguém de bom senso ignora que o País atravessa um momento difícil, um momento tão conturbado e enigmático que é difícil prever o que nos reserva o futuro.

Assim, perante esta complexidade de problemas, é natural que se exija a todos os que detêm cargos de chefia uma preparação aprofundada para que possam desempenhar cabalmente a sua missão orientadora e exemplar.

Não menosprezando o papel preponderante dos “canudos” é inegável que sem uma passagem pela Universidade da Vida, – onde se aprende, praticando – qualquer cidadão, por mais dotado que seja, não consegue adquirir uma preparação adequada que lhe permita enfrentar e resolver os problemas do dia-a-dia cujas soluções são cada vez mais difíceis de encontrar.

Para complementar o que teoricamente se aprendeu nos livros, é necessária prática e sobretudo muita experiência. Quem nunca teve dificuldades financeiras na vida, não sabe avaliar as necessidades dos que são obrigados a contar diariamente os tostões. Quem sempre geriu o dinheiro dos outros não sabe avaliar o que ele custa a ganhar, e quem nunca teve necessidade de trabalhar para comer, pode, à vontade, dar-se ao luxo de nada fazer!...

Isto para dizer que grande parte dos nossos governantes não tem a experiência necessária para desempenhar o lugar que ocupa.

A maioria dos responsáveis desconhece a verdadeira realidade do País no seu todo. A sua visão queda-se, muitas vezes, pelo que vêem da janela do seu confortável gabinete ou pelo que lhes relatam os seus assessores, eles também desconhecedores das mais aflitivas e imediatas dificuldades com que se debatem os cidadãos mais carenciados.

Uma das maiores exigências do tempo que atravessamos é responder à questão social. Para que a sociedade seja harmoniosa e justa é necessário que ela esteja motivada para o trabalho, para a criatividade, para a correcta distribuição da riqueza, para a igualdade de oportunidades entre os cidadãos.

Em vez de uma sociedade materialista e desumanizada dominada pela política, pelo futebol e pela ganância de enriquecer sem escrúpulos, é urgente construir uma sociedade orientada por valores e princípios morais que se oponham a exageros mediáticos e tecnocráticos do nosso tempo. É claro que estou a transcrever para o papel aquilo que realmente penso e que me é ditado pela minha experiência da vida. Nada mais!

Aliás, numa sociedade dominada pelo lucro e pelo egoísmo, haverá “herói” que consiga fazer-se ouvir por essa gente bem instalada na vida, prepotente, cega pelo dinheiro que lhe fez trocar os ditames de consciência por uma avultada e redonda conta bancária?

 

A VIDA É TÃO CURTA!...


Não há dúvida que a vida é exageradamente curta para a gozarmos e para armazenarmos todos os ensinamentos que ela nos proporciona. O homem não vive o tempo suficiente para realizar todos os seus sonhos e para ver concretizados todos os seus anseios.
De facto, só a partir de uma certa idade – quando as paixões já não perturbam o nosso raciocínio; quando a ambição se queda pela tranquilidade da família e do lar: quando já não nos espicaçam sentimentos de vaidade, de protagonismo, de supremacia, de emulação ou de lascívia, – só a partir de uma certa idade, dizia, é que damos conta de quão efémera é a nossa passagem pela terra. Só então damos conta do pouco que sabemos e do muito que ainda poderíamos ter aprendido!
Só então nos apercebemos do tempo que desperdiçámos em futilidades; do tempo que esbanjámos com coisas mesquinhas; de tanta coisa bonita que ao longo da vida nos rodeou e que não vimos ou que não vivemos; de tanto julgamento errado que fizemos e de tanta coisa boa que jogámos porta fora!...
A vida é curta… Somos um pedaço de muitos pedaços. E se é verdade que todos os dias morremos um pouco, mesmo assim é difícil mentalizarmo-nos e pensar que devemos viver cada dia como se fosse o último.
Às vezes, nestas meditações, nestas minhas viagens aos arquivos da minha memória, quando subo as escadas, parece-me ouvir passos lá fora. Detenho-me a meio, paro de subir e espero que alguém bata à porta… Ninguém. Talvez um sonho antigo que vinha visitar-me, mas por ser já tarde, se arrependeu e desapareceu na escuridão dos tempos… E então faz-se silêncio dentro de mim: como num filme antigo, a preto e branco, perpassam-me pela mente imagens desbotadas: - silhuetas, caras de meninas velhas, de cabelos brancos, olhos papudos, mas com sorrisos tão ternos e francos que até disfarçam as rugas! É a utopia a querer sobrepor-se à realidade. É uma espécie de réstia de sol que entra pelas frinchas de uma casa velha e que vem até à lareira apagada, como que num desafio, tentando reavivar as labaredas do passado…
Como artista em rocha disforme, de martelo e cinzel em punho, assim os anos vão esculpindo as nossas vidas, modelando as nossas ideias, aprofundando a nossa consciência espiritual. A vida é curta, mas há que alongá-la. Fica a receita: Junte um arrátel de Fé, um pouco de utopia, um tudo-nada de ficção, meia porção de realidade e uma mão cheia de esperança. Mexa, utilize aquele fogo que “arde sem se ver”, e sirva… E não se esqueça: sorria sempre.

À GUISA DE PARÁBOLA


O Instituto da Meteorologia tinha anunciado que seria pouca a chuva, nessa semana, mas S. Pedro que não pensava da mesma maneira fez com que em poucas horas os rios transbordassem... E em poucos dias foi tanta a água vinda do céu que várias aldeias ficaram submersas!
Alarmadas, as Autoridades decidiram tomar as medidas que se impõem em tais circunstâncias. Num dos povoados quando o carro da Protecção civil chegou, encontrou apenas a maior beata da aldeia, a Zefa, que, teimosa, mesmo com a água pelos joelhos, recusava sair dali: «Que não! Que podiam ir embora, porque ela ficava. Não tinha medo, pois rezava muito e Deus viria salvá-la...»
O motorista insistiu, o seu ajudante explicou as consequências que poderiam advir se ficasse, e como não conseguiram demovê-la, deram meia volta e abalaram.
No dia seguinte o barco pneumático que foi mandado em seu socorro, encontrou-a sentada no parapeito de uma janela do segundo andar, balanceando as pernas e já com os pés submersos.
E como tinha acontecido com o motorista, assim aconteceu com o “marinheiro” que esbarrou na mesma teimosia: «Ouça cá, seu almirante, ou se vai embora ou eu furo-lhe essa espécie de odre de vinho. Deixe-me em paz! Eu sei nadar e acima de tudo Deus não abandonará uma devota como eu! Faça-se ao largo e passe bem!...»
No terceiro dia somente os ramos das árvores emergiam da massa líquida que cobria o vale. A casa quase se não via, mas quando o helicóptero a sobrevoou, o piloto pode ainda ver a sua proprietária agarrada à antena da televisão, rindo e fazendo gestos obscenos. Desceu um pouco mais e viu-a apontar para o Céu, como que explicando que Deus a ajudaria… E nessa mesma noite, a beata Zefa morria afogada. E chegou ao Paraíso. Descalça, encharcada, aproximou-se do refulgente trono de Deus, mas em vez de uma aparência feliz por se encontrar em ambiente celestial, era de tristeza e de desagrado o seu semblante. E Deus apercebendo-se disso, perguntou: «Zefa, minha filha, porquê essa tristeza e esse rancor que vejo nos teus olhos?» «Senhor! Estou triste e zangada, porque me senti por Vós abandonada... Vós deixastes que eu perecesse como simples e vil pecadora. Eu que sempre em Vós confiei…»
«Basta, mulher de pouca fé!» – retorquiu Deus. - «Que ingratidão, minha filha. Como és cega e descrente! Então não te apercebeste que mandei três anjos, – o motoristas, o marinheiro e o piloto – em teu socorro?...»
E foi só então que a beata Zefa compreendeu que rezar não basta e que a sabedoria suprema com que Deus conduz todas as coisas é incompreensível para qualquer mortal.

 

 

 

RESPOSTA A UM "DEMOCRATA"


 
Se não acredita ou tem medo de fantasmas, não continue a leitura. Amarfanhe o jornal e pelo sim pelo não, meta-o no forno e queime-o. E não se esqueça de lavar e desinfectar as mãos!
Tudo isso porque hoje vou ser obrigado a falar de vultos de mortos, de assombrações e de almas do outro mundo… Não é por morbidez que o faço. Sou obrigado a isso. Bastou ter mencionado na minha última crónica o nome de um morto – o de Salazar - para que um “democrata” escondido sob um endereço electrónico falso me mimoseasse com a seguinte mensagem: «Senhor cronista: Pensei que já tinha despido a casaca de fascista, mas é com tristeza que verifico que isso não acontece. O senhor nem evocando Abril evita falar nessa figura macabra e tenebrosa que continua a idolatrar. Um filho da democrata.»   
Penso já ter dito várias vezes que as cartas ou mensagens anónimas têm apenas como único destino o cesto dos papéis, o lixo.
No entanto, esta é uma excepção e recupero-a, pois o seu autor corre perigo de vida e tem necessidade urgente de um exorcismo. Não por mim que nada sei dessas práticas, mas por um técnico competente que lhe meta na cabeça, nem que seja com uma picareta, que as pessoas que morrem, por mais evocações que lhes façamos, não voltam, nem embrulhadas em lençóis...  Aliás, caso isso fosse possível, julga que o dito cujo, teria prazer em voltar ao reino dos vivos? Ele que morreu pobre sentir-se-ia bem ao levantar a pedra tumular e ver-se no meio de muitos filhos da pátria, anafados, esguichando euros por todos os poros, bem enfarpelados, sapato luzidio e ele de bota grossa, sem um tostão no bolso?
Pare lá com esse seu complexo, homem! Deixe de acreditar em fantasmas. Vá a um exorcista e de caminho compre uns óculos bem graduados. Conhece aquela estória da vidraça? Não conhece? Então eu vou conta-la: «Um casal recém-casado foi morar para um bairro tranquilo nos arredores de uma pequena cidade do interior. De manhã enquanto tomavam café, a mulher reparou através da janela numa vizinha que pendurava lençóis no varal e comentou com o marido: «Que lençóis tão sujos! Se tivesse intimidade com ela perguntava-lhe se queria que eu a ensinasse a lavar a roupa!» O marido não fez comentários. O caso repetiu-se por vários dias e sempre que havia roupa a enxugar a acusação repetia-se – «a vizinha não sabia lavar a roupa!» Passado um mês a mulher ficou surpreendida ao ver os lençóis brancos, branquíssimos, estendidos na corda! «Finalmente – disse para o marido - aprendeu a lavar a roupa. Será que outra vizinha a ensinou?» Então o marido calmamente respondeu: – Não, não foi isso. Eu é que hoje me levantei mais cedo e lavei os vidros da nossa janela!»
Fiz-me compreender? Só mais um conselho: quando mandar mais mensagens não assine: filho da democracia. É que essa “senhora” anda tão mal acompanhada e por caminhos tão tortuosos e escuros que a sua filiação pode ser mal interpretada…    

 

 

 

ABRIL DE PROMESSAS MIL...


 
Passados quarenta e dois anos, as comemorações do 25 de Abril têm vindo a perder o entusiasmo e a participação iniciais, sendo agora festejadas mais de forma institucional do que popular.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e não são os fantasmas do passado nem a invocação de velhos medos que restituem a essa data o entusiasmo e a esperança que já teve. Hoje são outros e bem mais reais os medos que nos atormentam!
Se o vírus da famigerada e hipotética “pesada herança” de Salazar acabou por ser extirpado, o mesmo não sucedeu com o vírus que veio com os milhões de Bruxelas. Não obstante o “empurrão” que deu ao País, também nele introduziu muitas doenças, – corrupção, vaidades, riquezas fáceis, compadrio, injustiças, assimetrias sociais – são doenças cujos antídotos estão longe de ser encontrados.
A juntar a esses flagelos, o exercício de cargos políticos deixou de obedecer a convicções e tornou-se num simples jogo de interesses pessoais de grupos organizados, mais dependentes dos dinheiros públicos do que do seu trabalho ou da própria e obrigatória militância.
Os dois pilares que servem de base à Sociedade – a Família e a Escola – deixaram de ter o seu papel preponderante na educação e cultura das gerações vindouras. Enquanto os professores têm medo de estar na escola, os pais, por seu turno, demitem-se das suas responsabilidades, chegando muitas vezes a ser cúmplices do mau comportamento dos filhos. Reivindica-se muito, e produz-se cada vez menos. Perderam-se os hábitos do trabalho e a caça ao subsídio transformou-se no desporto mais apetecido. Sucedem-se os governos e os que por eles passam, quando são substituídos, se perderam uma “pasta”, logo lhes oferecem uma “posta”!... Já alguma vez se deram ao trabalho de ver onde se encontram e quanto ganham todos os “ex-qualquer coisa que exerceram cargos na governação? Já alguma vez tentaram saber quanto somam as faraónicas reformas e mordomias dos ex-presidentes, e as injustas, mas gordas reformas de ex-deputados alguns ainda jovens e com folhas de serviço quase em branco? E já viram alguns desses senhores, – que enchem a boca com solidariedade e ajuda aos que precisam – darem o exemplo e distribuir uma fatia dessas suas benesses pelos pobres?!... É verdade que o Pais está em crise. Mas crise maior é aquela em que se encontra a alma portuguesa. E essa falta de orgulho nacional e o desprezo pelos feitos da nossa gloriosa existência secular estão a reduzir ainda mais a pouca esperança que ainda restava quanto ao nosso futuro como nação livre e independente. Quarenta e dois anos depois o que resta dessa madrugada cheia de esperanças, de promessas mil e da «Terra da Fraternidade»?!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Abril de promessas mil…

Passados quarenta e dois anos, as comemorações do 25 de Abril têm vindo a perder o entusiasmo e a participação iniciais, sendo agora festejadas mais de forma institucional do que popular.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e não são os fantasmas do passado nem a invocação de velhos medos que restituem a essa data o entusiasmo e a esperança que já teve. Hoje são outros e bem mais reais os medos que nos atormentam!

Se o vírus da famigerada e hipotética “pesada herança” de Salazar acabou por ser extirpado, o mesmo não sucedeu com o vírus que veio com os milhões de Bruxelas. Não obstante o “empurrão” que deu ao País, também nele introduziu muitas doenças, – corrupção, vaidades, riquezas fáceis, compadrio, injustiças, assimetrias sociais – são doenças cujos antídotos estão longe de ser encontrados.

A juntar a esses flagelos, o exercício de cargos políticos deixou de obedecer a convicções e tornou-se num simples jogo de interesses pessoais de grupos organizados, mais dependentes dos dinheiros públicos do que do seu trabalho ou da própria e obrigatória militância.

Os dois pilares que servem de base à Sociedade – a Família e a Escola – deixaram de ter o seu papel preponderante na educação e cultura das gerações vindouras. Enquanto os professores têm medo de estar na escola, os pais, por seu turno, demitem-se das suas responsabilidades, chegando muitas vezes a ser cúmplices do mau comportamento dos filhos. Reivindica-se muito, e produz-se cada vez menos. Perderam-se os hábitos do trabalho e a caça ao subsídio transformou-se no desporto mais apetecido. Sucedem-se os governos e os que por eles passam, quando são substituídos, se perderam uma “pasta”, logo lhes oferecem uma “posta”!... Já alguma vez se deram ao trabalho de ver onde se encontram e quanto ganham todos os “ex-qualquer coisa que exerceram cargos na governação? Já alguma vez tentaram saber quanto somam as faraónicas reformas e mordomias dos ex-presidentes, e as injustas, mas gordas reformas de ex-deputados alguns ainda jovens e com folhas de serviço quase em branco? E já viram alguns desses senhores, – que enchem a boca com solidariedade e ajuda aos que precisam – darem o exemplo e distribuir uma fatia dessas suas benesses pelos pobres?!... É verdade que o Pais está em crise. Mas crise maior é aquela em que se encontra a alma portuguesa. E essa falta de orgulho nacional e o desprezo pelos feitos da nossa gloriosa existência secular estão a reduzir ainda mais a pouca esperança que ainda restava quanto ao nosso futuro como nação livre e independente. Quarenta e dois anos depois o que resta dessa madrugada cheia de esperanças, de promessas mil e da «Terra da Fraternidade»?!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 
Abril de promessas mil…
Passados quarenta e dois anos, as comemorações do 25 de Abril têm vindo a perder o entusiasmo e a participação iniciais, sendo agora festejadas mais de forma institucional do que popular.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e não são os fantasmas do passado nem a invocação de velhos medos que restituem a essa data o entusiasmo e a esperança que já teve. Hoje são outros e bem mais reais os medos que nos atormentam!
Se o vírus da famigerada e hipotética “pesada herança” de Salazar acabou por ser extirpado, o mesmo não sucedeu com o vírus que veio com os milhões de Bruxelas. Não obstante o “empurrão” que deu ao País, também nele introduziu muitas doenças, – corrupção, vaidades, riquezas fáceis, compadrio, injustiças, assimetrias sociais – são doenças cujos antídotos estão longe de ser encontrados.
A juntar a esses flagelos, o exercício de cargos políticos deixou de obedecer a convicções e tornou-se num simples jogo de interesses pessoais de grupos organizados, mais dependentes dos dinheiros públicos do que do seu trabalho ou da própria e obrigatória militância.
Os dois pilares que servem de base à Sociedade – a Família e a Escola – deixaram de ter o seu papel preponderante na educação e cultura das gerações vindouras. Enquanto os professores têm medo de estar na escola, os pais, por seu turno, demitem-se das suas responsabilidades, chegando muitas vezes a ser cúmplices do mau comportamento dos filhos. Reivindica-se muito, e produz-se cada vez menos. Perderam-se os hábitos do trabalho e a caça ao subsídio transformou-se no desporto mais apetecido. Sucedem-se os governos e os que por eles passam, quando são substituídos, se perderam uma “pasta”, logo lhes oferecem uma “posta”!... Já alguma vez se deram ao trabalho de ver onde se encontram e quanto ganham todos os “ex-qualquer coisa que exerceram cargos na governação? Já alguma vez tentaram saber quanto somam as faraónicas reformas e mordomias dos ex-presidentes, e as injustas, mas gordas reformas de ex-deputados alguns ainda jovens e com folhas de serviço quase em branco? E já viram alguns desses senhores, – que enchem a boca com solidariedade e ajuda aos que precisam – darem o exemplo e distribuir uma fatia dessas suas benesses pelos pobres?!... É verdade que o Pais está em crise. Mas crise maior é aquela em que se encontra a alma portuguesa. E essa falta de orgulho nacional e o desprezo pelos feitos da nossa gloriosa existência secular estão a reduzir ainda mais a pouca esperança que ainda restava quanto ao nosso futuro como nação livre e independente. Quarenta e dois anos depois o que resta dessa madrugada cheia de esperanças, de promessas mil e da «Terra da Fraternidade»?!...