segunda-feira, fevereiro 09, 2015

ENVELHECER A SORRIR



Na carruagem-restaurante, dois velhotes sentados face a face, tiram do bolso a mesma embalagem de remédio e dissolvem o pó nos respectivos copos de água. Depois, olham-se como dois cúmplices, e sorriem...
- Desculpe, mas não me diga que também sofre da coluna!...
- É verdade. E pelo que vejo, o senhor também.                   
- Exactamente. E não pode calcular o prazer que sinto...             
- Prazer? Olhe que a mim não me dá prazer nenhum.
- Perdão! Não me referia às dores, mas ao prazer de encontrar um colega...
- Pois foi o mesmo que pensei quando li o rótulo da sua embalagem!
- Artrose?                
- Acertou.
- Eu, bicos de papagaio...         
- Também tenho. Não sente de vez em quando uns estalidos?                           
- Ai que não sinto!... Se o comboio não fizesse tanto barulho até lhos fazia ouvir.        
- Eu, só p’ra médicos tem sido uma fortuna: chapas, análises e, por fim, receitaram-me estes pós.                           
- Exatamente o meu caso.                       
- Eu só senti melhoras uma vez. Estava deveras empenado e de tão desesperado fui a um armário que temos lá em casa, tirei uma caixa ao acaso... 
- E então?              
- Durante oito dias não soube o que eram dores. Depois, e ainda por acaso, voltei a ler a literatura e dei conta de que o papel estava trocado e que os supositórios eram para a gripe! Não lhe conto nada...                        
- Efeito psicossomático...                    
- Evidentemente!                        
- E quem sabe até se não seria a ginástica que fez ao pôr o supositório que lhe pôs a vértebra no lugar?                                   
- Também já pensei nisso...                                       
- Sabe, é que às vezes um gesto, uma posição diferente... E a propósito: para onde vai se não sou indiscreto?                                
- Olhe, vou fazer uma cura de lama, porque dizem que faz muito bem...              
- Tem graça. Eu também. Antigamente, quando o meu avô Marcelino ia muitas vezes ao médico e se queixava sempre da mesma coisa, o doutor mandava-o à merda! Agora, com todas estas modernices, mandam-nos fazer banhos de lama...                   
- A coisa não dá para rir, mas apetece dizer que nos tiraram da merda e nos meteram na lama...                                
- Coisas do progresso, Amigo! Antigamente era uma pobreza franciscana: sinapismos, papas de linhaça, ventosas, caldos de galinha... Até na morte éramos pobres! Hoje, morre-se rico... Veja a quantidade de Euros que um cristão engole em remédios antes de entregar a alma ao Criador!...                                  
- É verdade... Mas está na hora de tomarmos os nossos pozinhos...                                    
- Tem razão. Então à sua saúde!                  
- E à sua também!...


sexta-feira, fevereiro 06, 2015

À LAREIRA - A AULA DE PORTUGUÊS

À LAREIRA…
 A aula de português
Sem saber como nem porquê, dei comigo sentado numa cadeira da última fila de uma sala de aulas. Era uma Escola Secundária e a disciplina que estava a ser ministrada era a língua portuguesa.  
O "sôtor" não tinha nada daqueles mestres do meu tempo que eram assim mais "pesados" na idade e mais escrupulosos no vestir. Este vestia calça de ganga, e oficiava em mangas de camisa. Por falta de um botão, via-se um peito cabeludo onde luzia um fio prateado, na extremidade do qual baloiçava um berloque. Calçava sapatos de ténis que deviam ter nascido brancos mas que agora, a idade ou os maus tratos, tinham transformado num arco-íris rastejante....
Constava que a sua especialidade era a agricultura, pois possuía uma licenciatura num desses novos cursos, - Ciências Agrárias, se não estou em erro - mas em face da crise nesse sector, virou-se para o ensino e lá conseguiu umas aulas...de português!...
"Como já por várias vezes tenho afirmado - começou ele dirigindo-se à turma - quanto a mim, para que o aproveitamento na disciplina de português seja o desejado, devemos acabar com a ortografia. Acabando com ela, suprimem-se os erros ortográficos..."
Raciocínio sem contestação possível, pois se cortarmos o pescoço a qualquer fulano, ele não sofrerá mais de dores de cabeça, pensei eu cá p'ra mim.
"Os pequenos - continuou - não gostam de português, porque a maior parte das palavras não se escrevem como se pronunciam, ou se pronunciam de maneira diferente da que se escreve..."
Raciocínio foneticamente muito discutível, mas que deixei passar.
"A ortografia - insistiu - porque só uns tantos a praticam, é um elemento de segregação social. É até uma forma, camuflada, de racismo! Por isso, não só contribui para o empobrecimento cultural, pelo tempo que rouba e pelos sentimentos xenófobos que desperta, como também é responsável pelo enfraquecimento do espírito, tendo em conta o esforço que exige..."
Raciocínio de cariz político-partidário, que fingi não perceber. 
"Porque - continuou, já vermelho e a transpirar - a ortografia é nos nossos dias uma coisa arcaica; cheira a mofo e não tem cabimento numa sociedade de tecnologias avançadas. Vivemos quase meio século no cárcere do obscurantismo. Há mais de quatro décadas que dele nos libertaram!... Então por que esperamos para deitar no lixo as grilhetas que ainda nos prendem a esse passado, (que eu nem sequer conheci!...) mas que dizem ter sido sinistro e castrante, indolente e conservador?!..."
E foi então que me levantei para protestar. E desmenti com toda a força tão ilustre "pedagogo", explicando que no "tal passado que ele nem sequer tinha conhecido", a maior parte daqueles que faziam a quarta classe ficava a saber escrever correctamente o português. Sem erros ortográficos!
E fui posto na rua...
Que raio de sonho! Ou estaria eu a sonhar acordado?!...
 

AOS MEUS AMIGOS

 Por que escrevo
Ecrire, c’est une façon de parler sans être interrompu
Jules Renard
 Há dias em que quase somos submersos pelas vagas da nossa própria frustração. Sofremos ao remexer os arquivos da memória, e sofremos também quando imaginamos que o mundo e a vida poderiam ser de outra maneira. Dificilmente conseguimos fugir e tirar a máscara com que iludimos uma felicidade inatingível!
E é nesses momentos que eu sinto necessidade espiritual de me confessar, de confidenciar ao papel todas as minhas mágoas, as minhas angústias e a minha revolta por tantos silêncios e tantos sonhos que não consegui concretizar.
É a maneira de afastar para longe tudo o que a vida me negou, e é, também, simultaneamente, um hino em louvor do que ela me concedeu em troca. É assim como que uma mistura de lágrimas e sorrisos!
De lágrimas que foram secando com o passar dos anos e de sorrisos que nunca me abandonaram porque se apoiaram sempre nessa grande força interior, que é a Fé consubstanciada na satisfação de ter conseguido ultrapassar e vencer só, e sem desânimo, os obstáculos que a vida foi colocando no meu caminho. Por isso, escrever, é para mim como que uma confissão a sós – sem padre, mas com a presença invisível de Deus.
É uma espécie de diálogo sem vozes, em que a mesma personagem representa dois interlocutores, distantes no tempo, mas que durante anos, caminharam sempre lado a lado, acalentando os mesmos projectos, as mesmas ambições, os mesmos sofrimentos e também cultivando sempre as mesmas esperanças.
Como dizia há dias, neste turbilhão de ambiguidades e egoísmos, as pessoas estão de tal maneira acorrentadas com as grilhetas de que a sociedade actual se serve para as escravizar, que é cada vez mais difícil encontrar alguém com quem se possa manter uma conversa cujo assunto não seja relacionado com toda esta podridão e falta de dignidade que nos rodeia.
A moral do passado, odiosa, reaccionária, paternalista e castradora, foi enterrada. Porém, a outra moral, a nova, a boa, a ideal, a verdadeira, onde está?!... Talvez a resposta se encontre nos milhões ganhos à custa alheia e depositados em muita conta bancária. Não estou a dar lições nem tão pouco a desempenhar funções de moralizador de massas. Quem sou eu para o fazer!...
Eu estou apenas a falar baixinho. Só para mim. E porque em todos os dias morremos um pouco, escrevendo, eu vou aproveitando todos esses momentos, transformando cada um deles, num hino de louvor à vida.
Quando escrevo, vou sorvendo gulosamente todos os minutos desta passagem – desta vida que nos desgasta com os seus encantos e desencantos. Quando escrevo, encontro-me com o paradoxo que sou e com o outro eu da minha alma.
Escrevinhador de barba e cabelos brancos escrevo também para resistir à marginalização e não deixar morrer a criança da alma, a alegria de viver, a espontaneidade do sorriso e a fé que sempre me alumiaram.
Escreve-se a vida, as gentes, os tempos, mas o acto de escrever é sempre um acto solitário, sobretudo quando não nos movem interesses escondidos nem vinganças alheias e em que apenas denunciamos injustiças, lutando mais pelos outros do que por nós próprios. Neste tempo em que apenas se ouve a voz da conveniência, denunciar as injustiças é também como que rezar a Deus para que ponha cobro a tanta desumanidade.
Escrever é, em resumo, uma espécie de reflexão interior – uma renovação da chama da esperança e um regresso à inocência e à alegria da criança que tento conservar sempre viva dentro de mim.

 

 

sábado, janeiro 31, 2015

O COLÉGIO PORTUGUÊS DE KINSHASA


 
Na Diáspora portuguesa há factos que merecem ser divulgados, pois eles mostram à saciedade a grande capacidade de adaptação de criatividade e de amor à língua e às suas raízes de muitos milhões de portugueses espalhados pelo Mundo. Também só eles experimentaram e sentiram dentro do peito esse sentimento tão indescritível quão doloroso que é a saudade!...
A propósito, vou falar-vos hoje do Colégio Português de Kinshasa, fundado pelos portugueses ali residentes, em 25 de Fevereiro de 1947 com o nome de “Casa dos Portugueses”.
Em 9 de Abril de 1951 foi legalizada a sua personalidade civil e convocada a sua primeira Assembleia Geral para aprovação dos Estatutos e nomeação do primeiro Conselho de Administração. Funcionou até essa data e mesmo anteriormente a 1947, sob a forma de uma associação privada com uma direcção ad hoc.
Em 28 de Janeiro de 1954 a “Amicale Portuguesa” que era um clube recreativo e desportivo por excelência, - uma espécie de secção desportiva da Casa dos Portugueses - que durante anos com a sua valorosa equipa de futebol transformava as tardes de Domingo em quentes e entusiásticas manifestações do desporto-rei, foi integrada na Associação tendo sido nomeado para seu Presidente, Raul de Sousa, então Cônsul de Portugal na Embaixada de Portugal em Kinshasa.
Em 1972 foi inaugurada a primeira fase do bloco escolar destinada a aulas e instalação dos serviços administrativos. O corpo docente era constituído por professores idos de Portugal. Além das classes Infantil, Pré-primária, Primária Elementar e Ciclo Preparatório do Ensino Secundário, foi incluído nesse ano o Curso Geral dos Liceus, iniciando-se com o 1.º ano que se prolongaria até ao 3.º ano, antigo 5.º ano.
Para presidir aos exames deslocava-se a Kinshasa um elemento da Direcção dos Serviços de Inspecção e de Educação de Angola.
No ano escolar de 1971/1972 a frequência do Colégio em todos os escalões de ensino foi de 281 alunos, incluindo alguns angolanos.
Muito mais haveria a acrescentar acerca do Colégio Português de Kinshasa, mas apenas me refiro a esse ano lectivo por possuir elementos para o fazer, visto ter feito parte do Conselho de Administração.
E refiro-me hoje a este facto por sentir saudades desse tempo. E nessas ocasiões nada melhor do que folhear o livro de recordações e deixar voar a imaginação...

quarta-feira, janeiro 28, 2015

À PORTUGUESA


 

Às vezes passam-me coisas pela cabeça que se me atrevesse a confiá-las ao papel, de duas e uma: ou me colavam um rótulo de maluco na testa, encolhiam os ombros e não ligavam patavina, ou então eram capazes de me armar algum trinta e um que faziam com que ficasse mesmo doido a sério. Safa!...

«Então, cala a boca Manel e não te metas com esses proxenetas da política, porque, afinal, foste tu, eu, e os outros que contribuímos para que eles subissem aos lugares cimeiros que ocupam. Pensavas que bastava substituir as “rosas” por um “laranjal” - agora moribundo e invadido pela cochonilha e pela ferrugem – para termos uma nova mancha verde, sem ervas daninhas, sem podridão e sem parasitas?

Ingénuos que fomos, estúpido que és!... Já Alexandre Herculano há muitos anos escreveu que " a história política é uma série de desconchavos, de torpezas, de inépcias, de incoerências, ligadas a um pensamento constante - que é o de enriquecerem os chefes de partido..." E se nessa altura ele se referia apenas aos chefes, hoje há que incluir também todos os seguidores de suas excelências: familiares, amigos, afilhados, recomendados, amásias e demais pessoal, democraticamente ligado à nobre causa de enriquecer sem trabalhar.

Quanto a maneiras de pensar e agir, estamos conversados!

Político é político e interpretar o que dizem ou explicar o porquê daquilo que fazem, é um segredo da classe, embora quase sempre haja um cheirinho a dinheiro que se escapa pelo testo da panela... ou do tacho!

Desemprego, miséria, exclusão social, deficiências na Educação, na Justiça, na Saúde,  tudo isso é triste , tudo isso é verdade, mas passa ao lado de suas excelências.

O que é preciso, Manel, é distrair a malta e bem sabes que, para isso, nada melhor que um desafio de futebol entre os grandes ou um escandalozito entre a nossa elite, essa gente fina. E isso não falta…

E é assim que o país mais parece uma lotaria, em que uns nascem na lama e outros nas nuvens; em que uns morrem de fome e outros morrem de fartura.

Aproxima-se uma nova campanha de caça ao voto. Vem aí outra mudança? Não sei se já notaste, mas a fila dos putativos candidatos aos “tachos” já vai longa. Todos eles querem emprego, que não trabalho. Já há alfaiates a virar casacas. Na dúvida…

E todos, na nossa infinita e pacata desordem existencial, achamos todos esses “procedimentos” normais e nada mais fazemos do que encolher os ombros. E tu vais votar?…»

E eu, portuguesmente, limitei-me a encolher os ombros!...

 

AS MINHAS REFLEXÕES


 
Apesar de já ser longa a minha caminhada pelos trilhos da Vida, e apesar dos muitos obstáculos que já transpus, há dias em que me é difícil lidar com os embustes e as armadilhas que aparecem no percurso. E é então que esqueço o que me rodeia e dou asas à imaginação, que voa, rodopia, desce, sobe, sempre em torno do mesmo eixo - A Vida. A Vida no seu dia-a-dia cada vez mais materialista, mais cheio de risos amarelos, de sorrisos irónicos, de olhares de soslaio que mais parecem armas de agressão!

É assim a sociedade de hoje, competitiva, apressada, hipócrita e egoísta. Não há tempo sequer para uma introspecção serena e desapaixonada. Vive-se rodeado de uma corte de fingidos, de snobes, de manequins de plástico e de bonecas fúteis, cheias por fora e vazias por dentro. O que importa é aparentar uma imagem adaptada aos ventos que sopram - roupagens da moda, altivez a condizer, e esse ar de gente fina, com olhar distante, mas vistas curtas. Imitar, fazer de conta. Aparentar o que se não é. E não esquecer a regra fundamental da irmandade: bajular na frente e caluniar nas costas.

Tropeçamos a cada passo com abusos da riqueza. O esbanjamento e a ostentação sempre a correr, imprimem uma velocidade tal aos nossos neurónios, que somos obrigados a interromper o raciocínio para não enlouquecermos. Mas mesmo assim, frequentemente, não resistimos à tentação de perguntarmos a nós próprios, que trabalhámos uma vida inteira e continuamos a trabalhar, como é possível, angariar fortunas em tão curto espaço de tempo e, aparentemente, sem grande esforço?!...

Talvez seja esse mais um "milagre" desta sociedade, que criámos. Todos sem excepção. Uns por vontade própria, outros porque não tiveram coragem de se oporem, acomodando-se e sujeitando-se aos caprichos e desvarios dos mais fortes. Não há, pois, razões para queixas. Não há lugar para invejas, nem fundamento para acusações. Nem a Natureza, nem as leis que estiveram na formação da Civilização, têm quaisquer culpas. O Homem é o único culpado. Todos somos cúmplices. E não é por acaso que as nossas reacções a factos que deveriam ser denunciados, se ficam apenas por um simples encolher de ombros. É o egoísmo a mandar, é o comodismo a sobrepor-se à personalidade e a transformar-nos em "escravos modernos" às ordens de "novos senhores". Os abusos da tecnocracia e os excessos do capitalismo financeiro, ao mesmo tempo que criaram novas classes sociais, originaram também novas injustiças. Quando numa sociedade o dinheiro se sobrepõe à inteligência, à humildade, à solidariedade, e à generosidade, é caso para nos interrogarmos sobre o seu futuro. Esse futuro desejado por todos - um futuro com uma nova doutrina social justa e humanista, em que as pessoas estejam acima dos números…

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, janeiro 15, 2015

MUDANÇAS

 
Embora muitos, por razões diversas, não o confessem publicamente, o certo é que poucos serão os que no final de um ano e no começo de outro, não alberguem dentro de si uma réstia de esperança que lhes faz antever um novo ano diferente e melhor. Isso repete-se anualmente e transforma-se numa espécie de exorcização do sentimento de culpa por não termos sabido aproveitar as oportunidades que o ano velho nos concedeu e que nós não quisemos ou não soubemos pôr em prática.
E mesmo que estejamos convencidos, interiormente, que os 365 dias constituíram apenas e só, mais um ano que passou, a nossa vaidade exterior, exige que apregoemos alto e bom som que nada está perdido e que enquanto há vida há esperança!
Somos assim, ou sendo mais directo e sincero, eu sou assim!... No começo do ano, há sempre inúmeras coisas que me proponho mudar, substituir, remediar ou suprimir. Mas de adiamento em adiamento, de contemporização em contemporização, é sempre com esse tal sentimento de culpa que me despeço do 31 de Dezembro, e é também com essa réstia de esperança que, enfrento o primeiro dia do novo ano.
É um eterno recomeço – com os mesmos projectos, as mesmas determinações, as mesmas fraquezas, as mesmas bazófias, e reincidindo sempre, covardemente, na falta de cumprimento do que me propus fazer.
Tal como os nossos políticos... Muita treta, muito boas intenções, muitas promessas, muito discurso, mas melhorias...nicles!
Estou a referir-me, como acima disse, aos nossos queridos mandantes e afins que passaram o ano inteiro a buzinar-nos ao ouvido que faziam, que aconteciam, que mudavam, que baixavam, que reduziam... e finalmente, catrapus! Tudo vai aumentar! Foram 365 dias de acusações mútuas, de polémicas mesquinhas, de "casos", de falsas promessas, de auto-elogios, de jantaradas principescas, de viagens transatlânticas e agora, mal o ano começa, paga Zé e não bufes!
A subida dos preços e de tudo o que mais adiante se verá são a prova irrefutável de que, mais uma vez, fomos todos enganados por essa classe de homens que tudo promete na hora do voto, mas que tudo esquece quando instalada na cadeira do poder.
A palavra de ordem é dinheiro e mais dinheiro! Não o produto resultante do esforço de cada um, mas o dinheiro tout court, a nota do banco, que vem parar às mãos de muitos sem qualquer esforço.
Estamos em ano de eleições. E por que não usar a nossa única arma – o cartão de voto- para mudar de charlatães? Missão difícil se não impossível, pois como diz o provérbio, “muda-se de moleiro não se muda de ladrão.”

 

 

domingo, janeiro 04, 2015

"LES PORTUGAIS SERONT TOUJOURS GAIS!..."

Mais um ano que passou. Contabilidade encerrada. E nada de borracha, de correctores de escrita, ou outras astúcias para apagar. É tempo de balanço e análise das contas do passado.
E, de caminho, é também ocasião para parar um pouco e olharmos o saldo. Positivo ou negativo, ele aí está inscrito com tinta indelével no Deve e Haver do livro de cada um de nós.
 Há, no entanto, que reflectir sobre os desperdícios e sobre as más aplicações que fizemos. Não que esse facto possa modificar qualquer coisa já feita, como acima disse, mas para acautelar e reduzir a dimensão de futuros erros. É que nada há para orientar o nosso futuro como as lições que a vida nos dá...
E isso porque atravessamos um período em que quase todos os jovens se convencem que tudo o que sabem só nos livros se aprende. E que só eles são os detentores da moderna sapiência, - esse conjunto de saberes que por tão dispersos e tão mal orientados, tão confusos, tão teóricos e tão pouco práticos, cada vez estão mais desfasados da própria realidade.
Esquecem (ou não lhes ensinam?!) que a teoria sem a prática e a vivência sem a experiência abrem caminhos, mas não completam a aprendizagem. Só mais tarde quando chega o tempo de deitar contas à vida, de desfazer sonhos, de recordar frustradas ambições e examinar o fundo do saco, então sim!... Então é que se apercebem que, afinal o velho tinha razão! A palavra velho que seja tomada aqui no sentido colectivo e não pessoal, com é evidente.
Com esta divagação desviei-me do assunto desta crónica sobre o novo ano que vai começar. O que venho hoje dizer-vos é que o próximo Ano terá 12 meses, a Páscoa calhará a um Domingo, o Carnaval a uma Terça-feira, e o dia da preguiça continuará a ser a Segunda-feira. No que se refere à política manter-se-á o statu quo, isto é: os políticos em vez de governarem continuarão a governar-se; as festas e o foguetório suceder-se-ão a ritmos alucinantes; haverá ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres; a cultura será cada vez mais abstracta e inculta e o Zé pagante, para sobreviver, continuará a fazer das tripas coração.
E apesar de todas as falcatruas e todas as artimanhas dos nossos mandantes - ingénuos, conformados e eternos sebastianistas que somos-continuaremos a bater-lhes palmas na rua e a insultá-los no bem-bom da nossa casinha…Como diz um amigo meu que é chinês mas que fala francês, “Les portugais seront toujours gais!...”
Tenham um feliz Ano Novo e que a saúde não vos falte.
 
 

NATAIS


 
Ao folhear as páginas amarelecidas dos arquivos da minha memória, misturam-se recordações de vários Natais.
Na primeira, quase ilegível, surge o Natal da minha infância, com noites escuras e frias. Parece que ainda ouço o matraquear dos socos e tamancos na calçada a caminho da Missa do galo na pequena Capela, sem árvore de Natal, mas cheia de gente, numa mistura de surrobeco, xailes e capuchas. No ar o cheiro do incenso e, no altar, deitado numa simples almofada, o Deus Menino, risonho, faces rosadas, braços abertos, com os dedos dos pés já gastos de tantos beijos...
Os cânticos entoados com devoção e fervor, sem instrumentos musicais, o regresso a casa, descendo a correr a escaleira de lousa que levava à capelinha. E já em casa, abrigado do frio, à lareira, a minha alegria, ao ver os pinhões que saíam das pinhas postas à beira do brasido entre panelas de ferro e a trempe que sustentava a sertã onde minha Mãe fazia as filhós!
Os brinquedos, quando os havia, eram pobres, quase todos saídos da marcenaria de S. José. Eram de madeira, mas tanta alegria que proporcionavam! A avaliação da riqueza depende da inocência de quem a recebe. E a felicidade varia conforme a humildade.
Natais da minha infância, já tão longe, mas ainda tão presentes. Natais da minha infância, dos brinquedos de madeira, dos carrinhos de lata, das caixas de lápis de cor...
Natais da minha infância!.. Natais sem presentes. Natais pobres de brinquedos mas tão ricos de significado e calor. Natais que permanecem vivos e saudosos até que a morte os reconstrua do lado de lá da vida.
Outros Natais estampados nas folhas desbotadas são aqueles que passei longe da terra-mãe, da família, e dos filhos.
E um deles, – o mais triste dos meus Natais – passado sozinho, na solidão dos trópicos, longe de tudo e de todos.
Todo este arrazoado, como já devem ter percebido, para desejar um Bom Natal a todos.
A todos, mas em especial àqueles que lá longe, uns com alguma família, outros sozinhos, como eu em tempos, lutam por uma vida melhor e passam esta noite, este dia, recordando a família e a terra natal.
Uma noite e um dia cheios de felicidade, um dia bem vivido, um dia em que cada um se sinta feliz consigo, com a família e com aquilo que possui. Mesmo que seja pouco. A felicidade não decorre de possuir, mas de compreender.
Ao menos uma vez por ano, é bom que façamos uma pausa para despertar o sentimento de fraternidade - esse sentimento tão nobre, mas cada vez mais esquecido. Esse sentimento imprescindível para que na terra haja paz entre os homens de boa vontade.
Feliz Natal para todos vós!
 

 

sexta-feira, dezembro 19, 2014

IMPOSTOS

 
Dizia o saudoso filósofo e pensador Agostinho Silva que não pagava impostos "porque não sabia para onde iria o seu dinheiro...". Rematava o seu pensamento afirmando que quando lhe dissessem, e ele efectivamente visse como e onde era aplicada a sua contribuição, então pagaria. Dei comigo a pensar nessas palavras sábias quando há dias, mentalmente, estabelecia a comparação entre as carências com que se debatem os mais necessitados e o esbanjamento de dinheiro feito por muitos dos nossos mandantes fanfarrões.
De facto, e sem termos necessidade de nos deslocar para muito longe, verificamos que o exagero em festas e foguetório começa a mexer com os nervos de muita gente.
A propósito de tudo e de nada organizam-se as mais incríveis manifestações folclóricas que (ou será o meu anquilosado raciocínio a falsear a verdade?!), servem apenas para tapar olhos e desviar a atenção do povoléu das misérias com que é confrontado todos os dias.
Aliado a esse facto, o desleixo que impera na vigilância daqueles a quem pagamos para zelar pelo bem comum, é deveras revoltante! Para explicar melhor, e para aqueles que se quiserem dar a esse cuidado, observar uma brigada de funcionários do Estado quando efectue qualquer trabalho na via pública, é o exemplo mais flagrante de todo esse "faz-de-conta" que reina no País. Ninguém vigia ninguém e, dizem eles, filosoficamente, que o trabalho não é para se acabar, mas para se ir fazendo...
E enquanto os indiferentes e acomodados dizem que "sempre assim foi", os próprios visados queixam-se de que até trabalham de mais para os salários que auferem!
Entrementes, o Zé vai aturando todo este regabofe, acabando sempre por pagar a louça partida pelos elefantes que, constantemente, atravessam a loja.
Independentemente do juízo de valor que cada um possa fazer do que acima disse, não há dúvidas que este estado de coisas é gerador de grandes injustiças. Só os autistas não se dão conta de que o País vive uma fase de descalabro económico, agravada ainda mais pelo crescimento descontrolado de uma classe parasitária habilidosamente disfarçada sob os mais diversos e pretensos eventos culturais.
Por mais que afirmem o contrário não há outra via de salvação que não seja a do trabalho. Mas do trabalho que sirva o Homem e as suas comunidades e não o trabalho fingido de que o Homem se sirva apenas para gozo dos seus apetites e vaidades.
Retomando o mote desta crónica, seria de facto justo, honesto, transparente e democrático que o contribuinte soubesse para onde vão, e como são aplicados os dinheiros que deposita nos cofres do Estado. Utopia, claro!...  Mas se fosse possível, seriam muitas as surpresas. Ou talvez não.
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sexta-feira, dezembro 12, 2014

POR QUE NÃO NOS VENDEM ?

Não. Não estás só. Somos muitos. E em cada dia que passa, é mais um que se nos junta. Aumenta o número, mas nem por isso fazemos com que se lembrem de nós. Tens razão quando dizes que ao longo dos anos fomos adquirindo saber e experiência e que, por isso, possuímos um património que poderia contribuir para que a sociedade avançasse rumo ao futuro com mais firmeza, seriedade e segurança. Tens ainda razão quando dizes que constituímos o elo entre o passado e o futuro e que contribuímos para que o presente não seja esvaziado de memória, de valores e de orientação. É verdade!
Mas puseram-nos o rótulo de “velhos! “E alguns de nós são até considerados como um “peso”!... Olha o João, que troçava quando  nos nossos verdes anos ouvíamos  Brel cantar “Les Vieux” :  Les vieux ne rêvent plus, leurs lèvres s’ensommeillent, leurs pianos sont fermés / Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter / Les vieux ne bougent plus leurs gestes  ont trop de rides leurs monde est trop petit / Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit…(…) Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps...»  Pois é. O João dorme agora num Lar, até adormecer para sempre… Houve um tempo em que a experiência valorizava. Agora, muitas vezes, compromete e condena à solidão…
Dizias-me que “no Antigo Testamento o idoso era referido como transmissor da sabedoria que vinha de Deus, que no Livro do Génesis, no Deuteronómio, no da Sabedoria e no Eclesiástico, a velhice era considerada uma bênção, uma riqueza que devia agradecer-se…”
Mas os tempos mudaram, Zé. Os valores económicos esmagaram os valores espirituais e até culturais. O idoso não produz, não consome, só gasta…deixou, portanto, de figurar na coluna do “Haver”.
De vez em quando, lá nos vão atirando uns rebuçados disfarçados em cêntimos ou mostrando na televisão o avozinho que leva o neto à escola, …
Cambada de hipócritas! Se estorvamos, por que não nos vendem? Vem aí um Novo Ano, e ao ritmo acelerado que vai a venda dos “bens” do País, nós, que também somos Património, porque não nos trocam por alguns euros? Já pensaste no alívio que seria para a Segurança Social? E já pensaste na alegria e, sobretudo, no orgulho dos nossos tetranetos, quando lessem nos manuais escolares a saga dos seus antepassados que sacrificaram “carne e osso” pela salvação da Pátria? Ri-te, homem! Nada podemos fazer. Estamos velhos… e mal pagos. Mas, como dizia o outro a velhice é maravilhosa. Só é aborrecido é que ela acabe tão mal…
 

 

 

 

 

 

 

NÃO TÊM OUTRO NOME

 
Há dias, numa entrevista, quando o jornalista perguntava a um dos nossos “meninos de coro”, qual a receita que tinha usado para adquirir tamanha fortuna em tão curto espaço de tempo, o entrevistado, carinha de anjo papudo, respondia sem pestanejar:
- “ Com muito trabalho, muito suor e muitos sacrifícios. Não se esqueça que até andei descalço…”
A um outro figurão a quem perguntavam o que tinha a declarar pelo facto de ser acusado de estar envolvido numa “troca de agulhas” que conduziu ao descarrilamento de uma “pipa de massa” respondia com um sorriso angélico que “nada temia porque estava de consciência tranquila…”
Aqui estão dois casos que exemplificam o pensamento de uma certa classe de indivíduos que se passeia cá pelo rectângulo, que nunca trabalhou, que nada fez, mas que mercê do cargo que ocupou ou ocupa é hoje detentora de fortunas incalculáveis!
E não é preciso procurar muito, porque os exemplos estão à vista e ainda há pouco tempo as estatísticas nos diziam que, por cá, a percentagem de milionários não cessa de aumentar.
Enquanto de norte a sul uns indivíduos a que chamam de “ladrões” tentam forçar caixas do multibanco e aliviar as caixas registadoras de bombas de gasolina a poder de armas de fogo e marretas, outros, menos violentos e apenas com a ajuda de uma esferográfica, vão aforrando, desviando e avolumando as suas contas bancárias.
Acredito sinceramente que tanto a uns como aos outros, as duas expressões – “pé descalço” e “consciência tranquila” – assentem que nem uma luva, pois não há ninguém que não tenha andado de pé descalço quanto mais seja na praia ou quando vai para a cama.
Quanto a “consciência tranquila” e por força da profissão que ocupam, tanto uns como outros, esse sentimento íntimo que avisa e dá conhecimento das nossas acções, aprovando-as ou reprovando-as, é coisa que não devem possuir. Hoje consciência é coisa de pobre…
Aqui há uns tempos, os serviços cartográficos deram a notícia de que a superfície de Portugal tinha aumentado, pois após uma nova medição mais uns tantos quilómetros foram acrescentados ao rectângulo…
Na altura foi com surpresa e algum cepticismo à mistura, que “engoli “o alongamento. Hoje verifico que precisamos de muito mais espaço para albergar os tais figurões “do pé-descalço “e de “consciência tranquila.” E o que é terrivelmente assustador e escandaloso é que eles não param de aumentar dia após dia. E tudo legalmente… Ladrões!

 

 

ESCOLHAS

Nesta turbulência que nestes últimos tempos tem afectado a nossa cena política, a baixeza de alguns dos cidadãos que deviam constituir a "nata" da sociedade, transformou o País num lodaçal pestilento de indignidade e de podridão.
E o que mais me surpreende é que, perante tantos atentados à lei da honra tradicional, tal facto faz deles uma espécie de pára-raios onde todos descarregamos os nossos fracassos, as nossas desilusões e mesmo o nosso mau humor. Mas… mais nada!...
Estamos a habituar-nos a este cenário, e hoje, dizer mal dos políticos, não só alivia o stress como também é assunto para todas as conversas.
Fraco entretenimento é certo, mas com os exemplos que nos chegam do alto e a impossibilidade de inverter esta onda de “roubos” é difícil conter a revolta interior…e toca de imitar suas excelências, porque isto de ser honesto já foi chão que deu uvas!
Onde nós chegámos! Chegámos? Ainda não, porque, ao que parece, a procissão ainda vai no adro. Mas, convenhamos que é triste assistir a este descalabro moral, a esta falta de ética, a este desrespeito por tudo e por todos.
E é sobretudo triste e revoltante assistir a este apetite voraz em que ao ideal de servir a comunidade, se sobrepõe o espírito de rapina, essa fobia que faz com que, sem escrúpulos, nem olhando a meios, se pense unicamente em vantagens e benefícios pessoais.
O pelotão dos oportunistas não pára de engrossar - as benesses, os lucros duvidosos, as promoções injustas e os atropelos à Lei, correm lado a lado, embora sob bandeiras de cor diferente.
Há excepções à regra, bem o sabemos. Há gente honesta, há gente humana, há gente competente e há gente moralmente sã. Mas cada vez o seu número é mais reduzido.
Como pode o cidadão comum comportar-se digna e honestamente, quando os pontos de referência que devem pautar a sua conduta lhe mostram, precisamente, o contrário?
Numa espécie de naufrágio tudo está a afogar-se num mar de egoísmos, de cobiça e de estupidez. A herança que chegou até nós, qualquer que seja a interpretação que se lhe queira atribuir, é fruto do investimento generoso de muitas gerações que no-la legaram depois de muita renúncia, de muito suor e de muita lágrima. Mas essa herança está a ser roubada e vendida a retalho e ao desbarato. A corrupção, a impunidade, o desprezo pelas pessoas, a crueldade calculista, tudo isso levou à desvalorização da honra.
Eu que nasci português durante um período histórico que não escolhi, vou também chegar ao anoitecer sem o mesmo poder de escolha…
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A VELHINHA EUROPA


 
Os que costumam ler os meus rabiscos, já devem ter notado que sou um apaixonado por coisas antigas com especial interesse por tudo o que se relacione com a História, os usos ou os costumes dos Povos…
Há dias, numa ronda pela minha biblioteca, encontrei um antigo livro, já esfarrapado e com falta de algumas páginas, que despertou a minha curiosidade. Comecei a folhear e eis que dei com esta “pérola” centenária, que gostaria de partilhar convosco, não só pela sua pertinência como também por algumas coincidências.
Trata-se de um excerto de um livro escrito por volta de 1906 por um escritor inglês, William Stanley, com o título “The case of de fox”, páginas 30 a 34. Escreveu o autor:
«Em 1930 para fazer frente ao poderio dos Estados Unidos da América, formar-se-ão os Estados Unidos da Europa, cuja capital será Paris. Ali se reunirá o parlamento do qual sairão as leis para toda a comunidade europeia.
As discussões far-se-ão em inglês, pois este idioma será a língua universal.
Cada um dos antigos Estados terá uma assembleia legislativa especial encarregada de regular os assuntos internos. Todos os Estados se terão convertido em Republicas…»
Quase na mesma altura da profecia de William Stanley, um jornal estrangeiro publicava o seguinte texto: «O historiador e sociólogo francês, M. Anatole Leroy-Beaulieu que se encontra nos Estados Unidos proferindo várias conferências, afirmou na da Alliance Française, de Chicago, que era certa a formação dos Estados Unidos da Europa, acrescentando que mesmo que ela não se fizesse no século XX, ela era indispensável. Porém três nações europeias ficariam de fora: Grã-Bretanha, porque se combinaria com os Estados Unidos; Rússia, porque formaria uma grande nação por si só e a Turquia porque sem ficar materialmente excluída da federação, perderia a sua identidade nacional se a integrasse.
A União Europeia impor-se-á para fazer frente à agressão norte americana e ao “perigo amarelo”. Ainda segundo o conferencista, e segundo verificou, os Estados Unidos tinham a tendência de olhar para a Europa continental com a mesma consideração que sentem os filhos para com os pais caídos em decrepitude, cuja utilidade passou à história….».
É uma espécie de “premonição”, mas também a prova de que, um século depois, a velhinha e decrépita Europa continua o seu caminho e isso apesar dos maus-tratos por que tem passado...

EM JEITO DE CONFISSÃO

Há muita gente que tem medo de envelhecer. No meu caso, confesso que me sinto feliz por ter chegado a esta fase da vida. Ela dá-me a oportunidade de prosseguir o meu desenvolvimento tanto no aspecto pessoal como social.
E quanto não vale este livro ilustrado que é a memória com todas as experiências vividas?!...
É por isso que aceito o envelhecimento como uma fase da existência terrena de cada ser humano – encaro-o assim como que uma espécie de prolongamento de um projecto inacabado!
Agora que os sonhos se esfumaram, que as paixões se esvaziaram e que à euforia de outrora sucede a crua realidade do dia-a-dia, o tempo tem outro encanto, outro sabor e cada amanhecer é uma dádiva que aviva o sentimento da maravilha do ser humano na terra com toda a sua riqueza e diversidade.
E é também uma outra maneira de interiorizar a vida com a alegria de poder participar nas iniciativas que povoam o curso fértil da humanidade através da solidariedade e do voluntariado. 
Mas nem sempre é fácil. Numa sociedade computorizada e consumista em que se passa o tempo a premir teclas e botões num ritmo alucinante imposto pela informática e pela cibernética, só com força de vontade e determinação se consegue aguentar a corrida desgastante que a maquiavélica máquina exige.
É uma sociedade traiçoeira, esta em que vivemos!...
Ela não se compadece com ninguém, nem mesmo com aqueles que são testemunhas vivas dos laços de família ao longo de várias gerações.
O conflito entre elas agudiza-se em cada dia que passa. O individualismo selvagem e cruel anda à solta; a afirmação pessoal agride; a competição social destrói e a solidariedade entre as pessoas tende a desaparecer.
Por isso são várias as dificuldades com que o idoso se debate e é necessária uma grande força de vontade e uma fé inquebrantável para fazer a integração nessa nova sociedade, sem que tenhamos de abdicar dos princípios básicos daquela em que fomos criados.
Apesar de estarmos na era da globalização, não podemos esquecer que a Família continua a ser a célula básica da sociedade.
Durante estes últimos vinte anos foi talvez o período da minha vida em que se desenvolveu mais esta opção individual de reforçar o meu optimismo perante a vida. O envelhecimento não é uma doença nem uma incapacidade, que nos impeça de ter uma vida produtiva e feliz.
O diálogo entre gerações é essencial para prevenir a solidão e a exclusão social. Só por volta dos meus 60 anos é que comecei a martelar as teclas do computador. E os meus primeiros professores foram os meus netos…
 
 
 

sábado, novembro 29, 2014

EM DIA DE REFLEXÃO


Domingo pardacento e frio. Dia de recordar os que já partiram. Muita gente no Campo Santo. Muitas flores, muitas velas, orações e algumas lágrimas – de saudade e de remorsos também.
Lágrimas verdadeiras e sentidas por aqueles que partiram reconfortados com o carinho dos que ficaram, e de remorsos daqueles que em vida lho negaram…
Refiro-me aos homens e mulheres que em vida viveram sepultados no coração dos familiares como que amortalhados antecipadamente na frieza, na indiferença, no abandono, sofrendo carências de toda a ordem!
A melhor forma de celebrar as pessoas amadas é estimando-as em vida e não através de objectos decorativos de cariz religioso. É na sua vivência do dia-a-dia que devemos tratar com carinho aqueles que amamos.
Infelizmente, na sociedade consumista em que vivemos, as pessoas, a partir de uma certa idade são relegadas para segundo plano e muitas vezes abandonadas pelos seus familiares.
Mas há de tudo nesta multidão que põe flores, que acende velas, que ajoelha junto de campas rasas ou contempla orgulhosamente ricos mausoléus de mármore encimados por doiradas e reluzentes cruzes!
Mas é assim o nosso mundo. Um mundo de fingidos e de hipócritas. De Judas e de falsos Samaritanos.
O que importa é parecer. Mesmo que não se seja nem se possa vir a ser. Não há regras, não há códigos de conduta, nem cartilha que sirva de orientação. Cada qual se rege pelas suas próprias “convicções”… Que não podemos criticar. A liberdade de pensamento e de acção são bens inalienáveis de qualquer cidadão.  
Porém, com o amontoar dos anos aprendi que há sentimentos tão íntimos e pessoais que por uma questão de respeito por nós próprios, devemos evitar de os exteriorizar, guardando-os dentro de nós como pertença só nossa, como é o caso das nossas angústias e das recordações dos que nos deixaram.
E no meio daquela multidão dei comigo a reflectir nas palavras de Santo Agostinho: ‘Flores e lágrimas são alívio dos vivos, mas não refrigério dos mortos…»
Muitas vezes esses arranjos florais não são mais do que manifestações hipócritas à intenção dos vivos. Os mortos não falam, não vêem e é neste dia que muitos tentam “reabilitar-se perante os que ficaram, ofertando flores e choros como compensação de tudo o que lhes negaram enquanto vivos. E a esses basta uma simples cruz para simbolizar como foi a vida… 

LEVAR A VIDA A SORRIR


Julgo que o ser humano é o único organismo vivo que possui a capacidade de rir. O riso implica uma consciência. Nada daquilo que o homem inventou até agora é capaz de gracejar. Já viram, por exemplo, algum computador por mais avançada técnica que possua, que, por si só, seja capaz de rir?

O riso, no meu entender, está intimamente ligado à inteligência, a essa faculdade que nos foi concedida para podermos manifestar de maneira inequívoca a nossa existência no planeta que habitamos. O humor está intimamente ligado ao coração e é um meio de comunicação quando o diálogo se torna impossível e somos ultrapassados pela amplitude de um problema ou de uma situação.

Rir dos outros é sempre fácil. Mas rir de nós próprios torna-se mais difícil e chega a ser, para muitos, tarefa impossível.

Porém a auto-ironia é uma das melhores terapias e ajuda-nos a ter consciência dos nossos próprios defeitos, permitindo-nos, assim, que os corrijamos mais facilmente.

O nosso ego puxa quase sempre para o sério, mas o humor na maior parte dos casos anula essa seriedade e dá-lhe mais sentido de vida, mais cordialidade ao mesmo tempo que reforça a convivência e a integração na sociedade.

Ainda não há muito tempo, era raro ver um militar, um ditador, ou até um chefe religioso ostentar um rosto sorridente. Nessa época, o semblante austero, em certas circunstâncias, era obrigatório ou quase de lei.

E ainda restam resquícios dessa época e não é raro verificar ainda hoje tal situação, especialmente em alguns locais de culto. Já viram o rosto austero e sorumbático de muitos dos participantes? Tudo parece morte num local onde é suposto vivificar a fé?!...

Rir de si próprio e das nossas situações ridículas é a melhor maneira de sermos nós próprios e de assumirmos, por inteiro, a nossa verdadeira identidade como seres humanos que somos.

O humor desdramatiza, ajudando-nos a olhar e a observar com bonomia os comportamentos humanos, demonstrando-nos que os outros têm sobre nós apenas a importância que nós lhes quisermos dar.

Como costuma dizer-se, a vida é uma peça de teatro em que cada um de nós tem um rol a desempenhar. Por isso, façamo-lo com humor e boa disposição…

Com estes apertos de cinto é impossível baixar as calças. Mas mesmos se nos obrigarem a fazê-lo, façamo-lo com classe, com diplomacia – exibindo com determinação o anverso, e não expondo demasiado o reverso.

terça-feira, novembro 11, 2014

PROPÓSITOS DE UM AVÔ

O conflito entre gerações foi, ao longo dos séculos, sempre difícil de gerir e quase sempre impossível de evitar. Hoje, os confrontos são diários e preocupantes. Reportando-nos aos meios rurais, que melhor conhecemos, assistimos, por vezes, a comportamentos que deitam por terra todos os conceitos tradicionais que durante muito tempo pautaram a convivência familiar.
Houve um tempo em que a educação adquirida no seio da família era uma espécie de carapaça que permitia resistir a quaisquer investidas externas, fosse qual fosse a sua força ou proveniência. A obediência e o respeito constituíam a base da sua formação. Em qualquer família, da mais rica à mais humilde, eram esses os principais ingredientes usados na preparação do futuro. Tudo mudou, e em cada dia que passa, os solavancos da mudança provocam cada vez mais safanões na sociedade.
E vezes sem conta, é difícil determinarmos, com certeza, o verdadeiro culpado. No entanto - embora, por vezes, vejamos um mau comportamento num filho de pais moralmente exemplares - continuo a pensar que muitos dos problemas com que se debate a juventude têm a sua origem na família.
Porque a "engrenagem" a isso obriga, desde a mais tenra idade, as crianças são separadas da célula familiar, do carinho dos pais e do lar, e entregues a Jardins-de-infância, Infantários ou a Colégios. E nem em todos esses locais existem as condições próprias e humanas para as formar... 
Há ainda a acrescentar a essa situação, o caso de certos pais modernos que, por falta de tempo, tentam conquistar a afectividade dos filhos, fazendo-lhes todas as vontades, satisfazendo-lhes todos os caprichos, comprando-lhes, (mesmo com grandes sacrifícios) tudo o que os meninos exigem. 
Do somatório de tudo isto, não admira que a agressividade, a indisciplina, a propensão para brigas e o desrespeito pelos mais velhos sejam muitas vezes tidos por comportamentos normais da juventude do nosso tempo!
Nesta correria desenfreada, nesta insatisfação constante e com este egoísmo exacerbado que tomou conta da nossa sociedade, o conflito de gerações está a transformar-se cada vez mais num fenómeno sociológico de consequências imprevisíveis. Há já aqueles que situam o "Avô" na área da arqueologia e o considerem como parte integrante de um arquivo histórico e poeirento. Para muitos jovens, o "Avô" defende ideias reaccionárias, segue princípios desactualizados, ignora as novas tecnologias e, por isso mesmo, emperra o progresso! A sabedoria dos mais velhos é hoje ridicularizada e os mais novos afirmam-se os exclusivos detentores de toda a sapiência. Que assim seja!...
No entanto, e mesmo correndo o risco de ser acoimado de reaccionário ou de saudosista, continuo convencido de que a Escola coadjuva, mas nunca pode remediar o que faltou em casa. É em casa, no seio da Família, que deve começar a orientação dos homens do futuro. O que parece é que há cada vez menos famílias preparadas para levar a cabo essa complexa missão.