sábado, julho 30, 2016

O PRINCÍPIO


 
Chamava-se Arquimedes e segundo rezam os livros, teria nascido no ano 212 a.C. em Siracusa, a mais bela cidade da Grécia Antiga, na Itália e foi matemático, físico, engenheiro, inventor e astrónomo grego.
Embora poucos detalhes da sua vida sejam conhecidos, foi considerado um dos principais cientistas da Antiguidade Clássica, tendo feito inúmeros trabalhos no âmbito das ciências que dominava.
Enunciou vários princípios, mas aquele de que hoje vou falar é o da Hidrostática, que foi deturpado como se aperceberão à medida que a leitura for decorrendo...
Mas para quem não conhece a história da descoberta desse princípio aqui vai ela tal como ma contaram. Estava Arquimedes de Siracusa a tomar banho na sua própria tina (e sem que ninguém lhe tivesse oferecido flores) sentiu um impulso!...
Intrigado e desorientado, levantou-se do banho, voltou a sentar-se, apalpou, remexeu... até que descobriu o tal princípio, aquele que estudámos e diz que "Todo corpo mergulhado num fluido em repouso sofre, por parte do fluido, uma força vertical para cima, cuja intensidade é igual ao peso do fluido deslocado pelo corpo”.
Mas o progresso e a evolução, que nada poupa mudou-lhe o significado e com a cumplicidade das novas tecnologias e da galopante onda de modernidade que tudo transforma, o enunciado do princípio de Arquimedes, foi sendo adulterado até que um dia alguém se lembrou de o democratizar!
E foi nessa altura que os políticos entraram em cena... E então o princípio subiu os degraus do Parlamento, foi motivo de acalorado debate, sofreu alterações pouco ortodoxas, mas, no entanto, a maioria lá conseguiu livrar-se do referendo reclamado pela oposição!
E a proposta foi aprovada por unanimidade...
Terminada a sessão, e ao sair do hemiciclo, o princípio, não só trazia fatiota nova – uma espécie de indumentária camaleónica - mas também o enunciado original tinha sido mudado e adaptado para condizer com a democraticidade vigente, ficando assim redigido: - «todo o cidadão que tem a sorte de mergulhar na política beneficia de um empurrão de baixo para cima, que se traduz sempre num montante de euros superior, tanto ao trabalho como ao seu coeficiente intelectual…»
Consta que houve rebuliço nas galerias do areópago, mas logo o presidente mandou que fossem evacuadas.  E todo o público ou seja, todos os mexilhões saíram, ficando apenas os da casa...E desde então o Povo rebaptizou-o e passou a chamar-lhe o princípio dos «Arquimerdas» …
E assim, o que a hidrostática perdeu em originalidade, ganhou a política em majestade… Uma majestade mal cheirosa, claro está!

 

A TOQUE DE CAIXA


 Os pregões da revolução dos cravos com os quais se anunciava que, «o povo é quem mais ordena” serviram apenas para criar falsas e efémeras esperanças. Já Salazar dizia que «não se pode governar contra a vontade do povo», mas apesar de todos os solavancos ideológicos por que temos passado, agora como então, a pergunta continua sem resposta. O que é a “vontade do Povo”?
Será, como diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o fundamento da autoridade dos poderes públicos? Teoricamente talvez, porque na verdade, na prática, assim não acontece. Ainda ninguém conseguiu fazer a destrinça. Foi-se a ditadura e com o advento da democracia foram muitos os que acreditaram que a partir daí se poderia definir e explicar o sentido da expressão. Puro engano. Quem assim pensou esqueceu-se que qualquer sistema de governo tem as suas subtilezas, os seus disfarces e os seus embustes. Daí que no sistema democrático, para contornar a situação, convencionou-se que vontade popular é a que resulta da contagem das cruzes nos papelinhos saídos da caixa a que funebremente se deu o nome de urna. Mas não existe qualquer verdade no denominado sufrágio universal. O que há, isso sim, é uma verdade convencional. E isso porque hoje mais do que em tempo algum avança-se ou recua-se mercê de uma série de convenções.
Como no passado, também no presente o povo vota, mas não manda; o povo paga, mas não sabe para onde vai o seu dinheiro; o povo sofre, refila... e cansado e rouco, acaba por desistir. Então e a tal vontade popular? Uma simples figura de retórica. Um ornamento que serve apenas para enfeitar os discursos hipócritas e ocos dos mandantes. E como o mal já vem de longe e não se consegue fazer a destrinça entre verdade e vontade, manda quem pode, obedece quem deve. E Isto apesar de todos sabermos que o que convém à minoria que governa nunca coincide com a maioria dos que não governam. É dos livros e não queiram convencer-me de que - nesse capítulo - há formas de governo diferentes. Cada Governo, qualquer que seja a ideologia, tem de fazer sempre referência à tal ‘vontade do Povo’, sem nunca saber o que realmente isso é. E ainda há quem diga que somos pequenos! Só se for no juízo. Porque na arte de "meter a mão na massa" somos os maiores. Governados por umas dúzias de cidadãos - muito bem protegidos por "pequenas verdades convencionais" - cá vamos vivendo, assistindo impotentes a "desvios" sistemáticos de milhões.
O último da lista, o da CGD, que dizem ser de quatro mil milhões e que o Povo vai ter de pagar, mostra bem que seja qual for o Governo em funções e ao contrário da canção, o povo não é «quem mais ordena», mas quem é mais ordenhado. Mesmo com a teta a sangrar. E a «toque de Caixa».

 

 

 

 

 

 

 

OS QUE FOGEM À MORTE


 
Nas sociedades primitivas o homem, praticamente sem qualquer utensílio para se defender dos animais selvagens, contava apenas com a sua força física e a sua inteligência.
Esta última, que é a faculdade de pensar e reflectir, fazia com que ele se distinguisse das outras criaturas, concedendo-lhe também decisivas vantagens na luta pela vida, que diariamente tinha de travar.
Na sociedade moderna, o homem, possuindo tudo quanto é necessário para se defender não só dos animais selvagens como também dos seus semelhantes, não precisa de recorrer, nem à sua força física, nem à sua inteligência. Basta-lhe apenas premir um botão!
Por aqui podemos avaliar a sua evolução e concluir que o que ele perdeu em qualidades humanas ganhou-o em práticas selvagens - uma espécie de "compensação" que é, como quem diz, uma outra forma de regressar à barbárie. 
Vem isto a propósito, já não digo do que se passa pelo mundo, mas mais especificamente do que se está a passar bem perto de nós com esses milhares de pessoas, homens, mulheres e crianças que fogem da guerra, e que acabam por sucumbir nas ondas revoltas do mar.
Creio que deve haver muito pouca gente que saiba avaliar o sofrimento, a angústia e o estado de espírito dessas centenas de milhares de refugiados que a televisão nos mostra e que, deixando tudo, tentam apenas escapar à morte!
Por mais filmes que se vejam, por mais livros que se folheiem, por mais histórias que se ouçam, aqueles que nunca viveram esses dramáticos momentos, não podem compreender a luta que se trava no íntimo de cada um desses seres humanos.
É uma luta tão dolorosa, uma mistura de sentimentos tão contraditórios que se torna difícil explicar. É um doloroso combate interior travado em duas frentes e com duas implacáveis opções - ficar ou partir!
São momentos, são horas e, por vezes, dias de dúvidas e de hesitações. São momentos de infindável angústia, de dilacerante ansiedade e de revolta mal contida.
São marcas que apesar do correr do tempo, ficam sempre gravadas no subconsciente, como dores adormecidas, mas que, ao mais pequeno corte, logo sangram. Deixar a casa que se construiu e todo o resto que durante anos se granjeou mercê de muito trabalho, muitos sacrifícios, muitas renúncias e partir por vezes apenas com a roupa que vestimos, é como ferida que não cicatriza.   
Quando eu também fugia da onda selvática de um exército com impulsos primitivos, nunca poderia imaginar, que mais de meio século depois assistiria, na Europa, a esse lancinante drama, dos que fogem da morte!

 

 

COMPARAÇÕES


 
Há dias, quando procedia à arrumação de uma estante de livros onde se amontoam, indiscriminadamente, obras de todas os estilos literários, passou-me pelas mãos um que li já há muitos anos, mas do qual ainda guardo algumas recordações embora que um pouco desbotadas pelo tempo.
 Não sei se convosco se passa a mesma coisa, mas comigo isso acontece muitas vezes: ao ver a capa e ao folhear um livro que li há décadas, vêm-me à memória certas passagens que ficaram gravadas e que passados todos esses anos ainda perduram na mente!
Há, com certeza, uma explicação científica para o caso, mas como não gosto de entrar por caminhos que não conheço, nem de me arvorar em pretenso sabichão, aceito a “coisa” com naturalidade, e contento-me com aquela velha máxima que diz que os velhos vivem das recordações do passado.”
Sei bem que isso é treta, pois nem só das recordações se vive. E se fosse verdade, e no caso de as poder transformar em notas, eu teria na minha conta bancária um saldo tão gordo como a de qualquer magnata do petróleo ou do príncipe mais rico das Arábias! 
Mas voltando ao começo destes rabiscos, referia-me eu às famosas “Viagens de Gulliver”, onde o autor, Jonathan Swift, nos conta as aventuras de um homem que ao longo das suas viagens passou por um país cujos cidadãos eram de pequena estatura e depois por outro, todo ele povoado por gigantes.
É uma sátira bastante dura contra as instituições sociais e tanto nos pigmeus de Liliput como nos gigantes de Brobdingnag, Swift não deixa de zurzir forte e feio, apontando as suas falsidades, as suas paixões, as mesmas hipocrisias e os mesmos vícios.
E foi a pensar nessa passagem do livro que esse sinal gráfico, essencialmente feminino, que é a interrogação, curiosa, esticou o pescoço e me bisbilhotou ao ouvido: - não estaremos nós também agora a viver sob o signo de Gulliver? E levado por aquela pertinente hipótese, aí estou eu a conjecturar e a pensar baixinho: - no nosso percurso histórico, a situação em que nos encontramos, não será, de facto, um tudo-nada parecido com Brobdingnag e Lilliput? Gigantes de um lado e pigmeus do outro?!...
Que eu me lembre, o autor não se refere ao número de habitantes existentes quer num país quer no outro, isto é, não aponta o número, nem dos gigantes, nem dos pigmeus. Mas, mantendo a suposição acima enunciada, entre nós não haverá mais pigmeus do que gigantes?
Ainda bem que cheguei ao fim do meu espaço, pois já estava a enveredar pelo mesmo caminho do autor e pronto a zurzir também, e à minha maneira, nesses parasitas gigantes que tudo tentam para nos esmagar…

 

CRÓNICA ZAROLHA


Crónica zarolha

Crónica zarolha porque estou a escrever só com um ‘farol’, pois o outro está em descanso devido à substituição de uma ‘lâmpada’ polivalente que faz de mínimos, médios e máximos. Peço, por isso, desculpais antecipadas se neste meu arrazoado de hoje houver falhas ou a escrita desfilar em ziguezagues. E a propósito de mais ‘farol’, menos ‘farol’, deixem-me que faça aqui um elogio, ainda que póstumo, ao nosso grande poeta Camões, o poeta erudito do Renascimento, que só com um dos ‘faróis’, escreveu os Lusíadas, essa obra poética considerada a epopeia portuguesa por excelência, composta por dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos, de uma perfeição geométrica inigualável!  
Grande homem este nosso Camões que com um só olho e além do escrever essa grande epopeia, ainda nos mostrou a sua valentia e coragem quando, num naufrágio, conseguiu salvar o manuscrito segurando-o com um a das mãos e nadando com a outra!
Muitas vezes falamos de percalços que acontecem com os outros, mas só quando eles nos batem à porta é que lhes damos o verdadeiro valor. No dia que se seguiu à intervenção dei de imediato ordens para que procurassem na minha biblioteca “Os Lusíadas” e vou relê-los, mal atinja a capacidade total da visão.
Mas deixando o nosso Camões em paz e referindo-me especificamente ao caso em apreço, digo-vos que isto de “carros” velhos é o que tem. De repente, seja numa curva ou numa recta, mal o indígena se precata lá vai o esqueleto para o estaleiro!
Mas nem tudo é mau e, quanto a mim, se não fossem estes “incidentes de percurso” julgo que a vida se tornaria monótona e não daríamos valor à saúde e a todas as alegria e bons momentos que ela nos proporciona quando a usufruímos em pleno.
Diz um antigo provérbio que tanto na cadeia como no hospital todos nós temos um pedaço. E se a realidade nos mostra essa verdade, aquele outro ditado que diz que é num e noutro desses locais onde se conhecem os verdadeiros amigos não o é menos. É nessas ocasiões em que a amizade é posta à prova e se revelam os sentimentos das pessoas que nos rodeiam.
É nesses momentos em que nos sentimos tão frágeis que necessitamos desse bálsamo que nos alivia a alma e nos dá coragem para continuar a caminhada. Isso é, sem exprimir lamechices ou mendigar atenções, apenas apontar o nosso dever, a nossa maneira de estar perante a sociedade e mais especificamente de devolver ao nosso semelhante o sentimento de amizade, que julgamos recíproco. Em poucos dias verifiquei que era mais rico do que o que pensava, pois o carinho e as provas de amizade desinteressada e espontânea de que fui alvo tiveram mais valor do que um volumoso monte de notas do Banco…   

quinta-feira, maio 26, 2016

OS LIVROS NÃO ENSINAM TUDO


Os livros não ensinam tudo

Penso que ninguém de bom senso ignora que o País atravessa um momento difícil, um momento tão conturbado e enigmático que é difícil prever o que nos reserva o futuro.

Assim, perante esta complexidade de problemas, é natural que se exija a todos os que detêm cargos de chefia uma preparação aprofundada para que possam desempenhar cabalmente a sua missão orientadora e exemplar.

Não menosprezando o papel preponderante dos “canudos” é inegável que sem uma passagem pela Universidade da Vida, – onde se aprende, praticando – qualquer cidadão, por mais dotado que seja, não consegue adquirir uma preparação adequada que lhe permita enfrentar e resolver os problemas do dia-a-dia cujas soluções são cada vez mais difíceis de encontrar.

Para complementar o que teoricamente se aprendeu nos livros, é necessária prática e sobretudo muita experiência. Quem nunca teve dificuldades financeiras na vida, não sabe avaliar as necessidades dos que são obrigados a contar diariamente os tostões. Quem sempre geriu o dinheiro dos outros não sabe avaliar o que ele custa a ganhar, e quem nunca teve necessidade de trabalhar para comer, pode, à vontade, dar-se ao luxo de nada fazer!...

Isto para dizer que grande parte dos nossos governantes não tem a experiência necessária para desempenhar o lugar que ocupa.

A maioria dos responsáveis desconhece a verdadeira realidade do País no seu todo. A sua visão queda-se, muitas vezes, pelo que vêem da janela do seu confortável gabinete ou pelo que lhes relatam os seus assessores, eles também desconhecedores das mais aflitivas e imediatas dificuldades com que se debatem os cidadãos mais carenciados.

Uma das maiores exigências do tempo que atravessamos é responder à questão social. Para que a sociedade seja harmoniosa e justa é necessário que ela esteja motivada para o trabalho, para a criatividade, para a correcta distribuição da riqueza, para a igualdade de oportunidades entre os cidadãos.

Em vez de uma sociedade materialista e desumanizada dominada pela política, pelo futebol e pela ganância de enriquecer sem escrúpulos, é urgente construir uma sociedade orientada por valores e princípios morais que se oponham a exageros mediáticos e tecnocráticos do nosso tempo. É claro que estou a transcrever para o papel aquilo que realmente penso e que me é ditado pela minha experiência da vida. Nada mais!

Aliás, numa sociedade dominada pelo lucro e pelo egoísmo, haverá “herói” que consiga fazer-se ouvir por essa gente bem instalada na vida, prepotente, cega pelo dinheiro que lhe fez trocar os ditames de consciência por uma avultada e redonda conta bancária?

 

A VIDA É TÃO CURTA!...


Não há dúvida que a vida é exageradamente curta para a gozarmos e para armazenarmos todos os ensinamentos que ela nos proporciona. O homem não vive o tempo suficiente para realizar todos os seus sonhos e para ver concretizados todos os seus anseios.
De facto, só a partir de uma certa idade – quando as paixões já não perturbam o nosso raciocínio; quando a ambição se queda pela tranquilidade da família e do lar: quando já não nos espicaçam sentimentos de vaidade, de protagonismo, de supremacia, de emulação ou de lascívia, – só a partir de uma certa idade, dizia, é que damos conta de quão efémera é a nossa passagem pela terra. Só então damos conta do pouco que sabemos e do muito que ainda poderíamos ter aprendido!
Só então nos apercebemos do tempo que desperdiçámos em futilidades; do tempo que esbanjámos com coisas mesquinhas; de tanta coisa bonita que ao longo da vida nos rodeou e que não vimos ou que não vivemos; de tanto julgamento errado que fizemos e de tanta coisa boa que jogámos porta fora!...
A vida é curta… Somos um pedaço de muitos pedaços. E se é verdade que todos os dias morremos um pouco, mesmo assim é difícil mentalizarmo-nos e pensar que devemos viver cada dia como se fosse o último.
Às vezes, nestas meditações, nestas minhas viagens aos arquivos da minha memória, quando subo as escadas, parece-me ouvir passos lá fora. Detenho-me a meio, paro de subir e espero que alguém bata à porta… Ninguém. Talvez um sonho antigo que vinha visitar-me, mas por ser já tarde, se arrependeu e desapareceu na escuridão dos tempos… E então faz-se silêncio dentro de mim: como num filme antigo, a preto e branco, perpassam-me pela mente imagens desbotadas: - silhuetas, caras de meninas velhas, de cabelos brancos, olhos papudos, mas com sorrisos tão ternos e francos que até disfarçam as rugas! É a utopia a querer sobrepor-se à realidade. É uma espécie de réstia de sol que entra pelas frinchas de uma casa velha e que vem até à lareira apagada, como que num desafio, tentando reavivar as labaredas do passado…
Como artista em rocha disforme, de martelo e cinzel em punho, assim os anos vão esculpindo as nossas vidas, modelando as nossas ideias, aprofundando a nossa consciência espiritual. A vida é curta, mas há que alongá-la. Fica a receita: Junte um arrátel de Fé, um pouco de utopia, um tudo-nada de ficção, meia porção de realidade e uma mão cheia de esperança. Mexa, utilize aquele fogo que “arde sem se ver”, e sirva… E não se esqueça: sorria sempre.

À GUISA DE PARÁBOLA


O Instituto da Meteorologia tinha anunciado que seria pouca a chuva, nessa semana, mas S. Pedro que não pensava da mesma maneira fez com que em poucas horas os rios transbordassem... E em poucos dias foi tanta a água vinda do céu que várias aldeias ficaram submersas!
Alarmadas, as Autoridades decidiram tomar as medidas que se impõem em tais circunstâncias. Num dos povoados quando o carro da Protecção civil chegou, encontrou apenas a maior beata da aldeia, a Zefa, que, teimosa, mesmo com a água pelos joelhos, recusava sair dali: «Que não! Que podiam ir embora, porque ela ficava. Não tinha medo, pois rezava muito e Deus viria salvá-la...»
O motorista insistiu, o seu ajudante explicou as consequências que poderiam advir se ficasse, e como não conseguiram demovê-la, deram meia volta e abalaram.
No dia seguinte o barco pneumático que foi mandado em seu socorro, encontrou-a sentada no parapeito de uma janela do segundo andar, balanceando as pernas e já com os pés submersos.
E como tinha acontecido com o motorista, assim aconteceu com o “marinheiro” que esbarrou na mesma teimosia: «Ouça cá, seu almirante, ou se vai embora ou eu furo-lhe essa espécie de odre de vinho. Deixe-me em paz! Eu sei nadar e acima de tudo Deus não abandonará uma devota como eu! Faça-se ao largo e passe bem!...»
No terceiro dia somente os ramos das árvores emergiam da massa líquida que cobria o vale. A casa quase se não via, mas quando o helicóptero a sobrevoou, o piloto pode ainda ver a sua proprietária agarrada à antena da televisão, rindo e fazendo gestos obscenos. Desceu um pouco mais e viu-a apontar para o Céu, como que explicando que Deus a ajudaria… E nessa mesma noite, a beata Zefa morria afogada. E chegou ao Paraíso. Descalça, encharcada, aproximou-se do refulgente trono de Deus, mas em vez de uma aparência feliz por se encontrar em ambiente celestial, era de tristeza e de desagrado o seu semblante. E Deus apercebendo-se disso, perguntou: «Zefa, minha filha, porquê essa tristeza e esse rancor que vejo nos teus olhos?» «Senhor! Estou triste e zangada, porque me senti por Vós abandonada... Vós deixastes que eu perecesse como simples e vil pecadora. Eu que sempre em Vós confiei…»
«Basta, mulher de pouca fé!» – retorquiu Deus. - «Que ingratidão, minha filha. Como és cega e descrente! Então não te apercebeste que mandei três anjos, – o motoristas, o marinheiro e o piloto – em teu socorro?...»
E foi só então que a beata Zefa compreendeu que rezar não basta e que a sabedoria suprema com que Deus conduz todas as coisas é incompreensível para qualquer mortal.

 

 

 

RESPOSTA A UM "DEMOCRATA"


 
Se não acredita ou tem medo de fantasmas, não continue a leitura. Amarfanhe o jornal e pelo sim pelo não, meta-o no forno e queime-o. E não se esqueça de lavar e desinfectar as mãos!
Tudo isso porque hoje vou ser obrigado a falar de vultos de mortos, de assombrações e de almas do outro mundo… Não é por morbidez que o faço. Sou obrigado a isso. Bastou ter mencionado na minha última crónica o nome de um morto – o de Salazar - para que um “democrata” escondido sob um endereço electrónico falso me mimoseasse com a seguinte mensagem: «Senhor cronista: Pensei que já tinha despido a casaca de fascista, mas é com tristeza que verifico que isso não acontece. O senhor nem evocando Abril evita falar nessa figura macabra e tenebrosa que continua a idolatrar. Um filho da democrata.»   
Penso já ter dito várias vezes que as cartas ou mensagens anónimas têm apenas como único destino o cesto dos papéis, o lixo.
No entanto, esta é uma excepção e recupero-a, pois o seu autor corre perigo de vida e tem necessidade urgente de um exorcismo. Não por mim que nada sei dessas práticas, mas por um técnico competente que lhe meta na cabeça, nem que seja com uma picareta, que as pessoas que morrem, por mais evocações que lhes façamos, não voltam, nem embrulhadas em lençóis...  Aliás, caso isso fosse possível, julga que o dito cujo, teria prazer em voltar ao reino dos vivos? Ele que morreu pobre sentir-se-ia bem ao levantar a pedra tumular e ver-se no meio de muitos filhos da pátria, anafados, esguichando euros por todos os poros, bem enfarpelados, sapato luzidio e ele de bota grossa, sem um tostão no bolso?
Pare lá com esse seu complexo, homem! Deixe de acreditar em fantasmas. Vá a um exorcista e de caminho compre uns óculos bem graduados. Conhece aquela estória da vidraça? Não conhece? Então eu vou conta-la: «Um casal recém-casado foi morar para um bairro tranquilo nos arredores de uma pequena cidade do interior. De manhã enquanto tomavam café, a mulher reparou através da janela numa vizinha que pendurava lençóis no varal e comentou com o marido: «Que lençóis tão sujos! Se tivesse intimidade com ela perguntava-lhe se queria que eu a ensinasse a lavar a roupa!» O marido não fez comentários. O caso repetiu-se por vários dias e sempre que havia roupa a enxugar a acusação repetia-se – «a vizinha não sabia lavar a roupa!» Passado um mês a mulher ficou surpreendida ao ver os lençóis brancos, branquíssimos, estendidos na corda! «Finalmente – disse para o marido - aprendeu a lavar a roupa. Será que outra vizinha a ensinou?» Então o marido calmamente respondeu: – Não, não foi isso. Eu é que hoje me levantei mais cedo e lavei os vidros da nossa janela!»
Fiz-me compreender? Só mais um conselho: quando mandar mais mensagens não assine: filho da democracia. É que essa “senhora” anda tão mal acompanhada e por caminhos tão tortuosos e escuros que a sua filiação pode ser mal interpretada…    

 

 

 

ABRIL DE PROMESSAS MIL...


 
Passados quarenta e dois anos, as comemorações do 25 de Abril têm vindo a perder o entusiasmo e a participação iniciais, sendo agora festejadas mais de forma institucional do que popular.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e não são os fantasmas do passado nem a invocação de velhos medos que restituem a essa data o entusiasmo e a esperança que já teve. Hoje são outros e bem mais reais os medos que nos atormentam!
Se o vírus da famigerada e hipotética “pesada herança” de Salazar acabou por ser extirpado, o mesmo não sucedeu com o vírus que veio com os milhões de Bruxelas. Não obstante o “empurrão” que deu ao País, também nele introduziu muitas doenças, – corrupção, vaidades, riquezas fáceis, compadrio, injustiças, assimetrias sociais – são doenças cujos antídotos estão longe de ser encontrados.
A juntar a esses flagelos, o exercício de cargos políticos deixou de obedecer a convicções e tornou-se num simples jogo de interesses pessoais de grupos organizados, mais dependentes dos dinheiros públicos do que do seu trabalho ou da própria e obrigatória militância.
Os dois pilares que servem de base à Sociedade – a Família e a Escola – deixaram de ter o seu papel preponderante na educação e cultura das gerações vindouras. Enquanto os professores têm medo de estar na escola, os pais, por seu turno, demitem-se das suas responsabilidades, chegando muitas vezes a ser cúmplices do mau comportamento dos filhos. Reivindica-se muito, e produz-se cada vez menos. Perderam-se os hábitos do trabalho e a caça ao subsídio transformou-se no desporto mais apetecido. Sucedem-se os governos e os que por eles passam, quando são substituídos, se perderam uma “pasta”, logo lhes oferecem uma “posta”!... Já alguma vez se deram ao trabalho de ver onde se encontram e quanto ganham todos os “ex-qualquer coisa que exerceram cargos na governação? Já alguma vez tentaram saber quanto somam as faraónicas reformas e mordomias dos ex-presidentes, e as injustas, mas gordas reformas de ex-deputados alguns ainda jovens e com folhas de serviço quase em branco? E já viram alguns desses senhores, – que enchem a boca com solidariedade e ajuda aos que precisam – darem o exemplo e distribuir uma fatia dessas suas benesses pelos pobres?!... É verdade que o Pais está em crise. Mas crise maior é aquela em que se encontra a alma portuguesa. E essa falta de orgulho nacional e o desprezo pelos feitos da nossa gloriosa existência secular estão a reduzir ainda mais a pouca esperança que ainda restava quanto ao nosso futuro como nação livre e independente. Quarenta e dois anos depois o que resta dessa madrugada cheia de esperanças, de promessas mil e da «Terra da Fraternidade»?!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Abril de promessas mil…

Passados quarenta e dois anos, as comemorações do 25 de Abril têm vindo a perder o entusiasmo e a participação iniciais, sendo agora festejadas mais de forma institucional do que popular.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e não são os fantasmas do passado nem a invocação de velhos medos que restituem a essa data o entusiasmo e a esperança que já teve. Hoje são outros e bem mais reais os medos que nos atormentam!

Se o vírus da famigerada e hipotética “pesada herança” de Salazar acabou por ser extirpado, o mesmo não sucedeu com o vírus que veio com os milhões de Bruxelas. Não obstante o “empurrão” que deu ao País, também nele introduziu muitas doenças, – corrupção, vaidades, riquezas fáceis, compadrio, injustiças, assimetrias sociais – são doenças cujos antídotos estão longe de ser encontrados.

A juntar a esses flagelos, o exercício de cargos políticos deixou de obedecer a convicções e tornou-se num simples jogo de interesses pessoais de grupos organizados, mais dependentes dos dinheiros públicos do que do seu trabalho ou da própria e obrigatória militância.

Os dois pilares que servem de base à Sociedade – a Família e a Escola – deixaram de ter o seu papel preponderante na educação e cultura das gerações vindouras. Enquanto os professores têm medo de estar na escola, os pais, por seu turno, demitem-se das suas responsabilidades, chegando muitas vezes a ser cúmplices do mau comportamento dos filhos. Reivindica-se muito, e produz-se cada vez menos. Perderam-se os hábitos do trabalho e a caça ao subsídio transformou-se no desporto mais apetecido. Sucedem-se os governos e os que por eles passam, quando são substituídos, se perderam uma “pasta”, logo lhes oferecem uma “posta”!... Já alguma vez se deram ao trabalho de ver onde se encontram e quanto ganham todos os “ex-qualquer coisa que exerceram cargos na governação? Já alguma vez tentaram saber quanto somam as faraónicas reformas e mordomias dos ex-presidentes, e as injustas, mas gordas reformas de ex-deputados alguns ainda jovens e com folhas de serviço quase em branco? E já viram alguns desses senhores, – que enchem a boca com solidariedade e ajuda aos que precisam – darem o exemplo e distribuir uma fatia dessas suas benesses pelos pobres?!... É verdade que o Pais está em crise. Mas crise maior é aquela em que se encontra a alma portuguesa. E essa falta de orgulho nacional e o desprezo pelos feitos da nossa gloriosa existência secular estão a reduzir ainda mais a pouca esperança que ainda restava quanto ao nosso futuro como nação livre e independente. Quarenta e dois anos depois o que resta dessa madrugada cheia de esperanças, de promessas mil e da «Terra da Fraternidade»?!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 
Abril de promessas mil…
Passados quarenta e dois anos, as comemorações do 25 de Abril têm vindo a perder o entusiasmo e a participação iniciais, sendo agora festejadas mais de forma institucional do que popular.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e não são os fantasmas do passado nem a invocação de velhos medos que restituem a essa data o entusiasmo e a esperança que já teve. Hoje são outros e bem mais reais os medos que nos atormentam!
Se o vírus da famigerada e hipotética “pesada herança” de Salazar acabou por ser extirpado, o mesmo não sucedeu com o vírus que veio com os milhões de Bruxelas. Não obstante o “empurrão” que deu ao País, também nele introduziu muitas doenças, – corrupção, vaidades, riquezas fáceis, compadrio, injustiças, assimetrias sociais – são doenças cujos antídotos estão longe de ser encontrados.
A juntar a esses flagelos, o exercício de cargos políticos deixou de obedecer a convicções e tornou-se num simples jogo de interesses pessoais de grupos organizados, mais dependentes dos dinheiros públicos do que do seu trabalho ou da própria e obrigatória militância.
Os dois pilares que servem de base à Sociedade – a Família e a Escola – deixaram de ter o seu papel preponderante na educação e cultura das gerações vindouras. Enquanto os professores têm medo de estar na escola, os pais, por seu turno, demitem-se das suas responsabilidades, chegando muitas vezes a ser cúmplices do mau comportamento dos filhos. Reivindica-se muito, e produz-se cada vez menos. Perderam-se os hábitos do trabalho e a caça ao subsídio transformou-se no desporto mais apetecido. Sucedem-se os governos e os que por eles passam, quando são substituídos, se perderam uma “pasta”, logo lhes oferecem uma “posta”!... Já alguma vez se deram ao trabalho de ver onde se encontram e quanto ganham todos os “ex-qualquer coisa que exerceram cargos na governação? Já alguma vez tentaram saber quanto somam as faraónicas reformas e mordomias dos ex-presidentes, e as injustas, mas gordas reformas de ex-deputados alguns ainda jovens e com folhas de serviço quase em branco? E já viram alguns desses senhores, – que enchem a boca com solidariedade e ajuda aos que precisam – darem o exemplo e distribuir uma fatia dessas suas benesses pelos pobres?!... É verdade que o Pais está em crise. Mas crise maior é aquela em que se encontra a alma portuguesa. E essa falta de orgulho nacional e o desprezo pelos feitos da nossa gloriosa existência secular estão a reduzir ainda mais a pouca esperança que ainda restava quanto ao nosso futuro como nação livre e independente. Quarenta e dois anos depois o que resta dessa madrugada cheia de esperanças, de promessas mil e da «Terra da Fraternidade»?!...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 




 

 

 

 

sábado, abril 23, 2016

PONTAPÉS

Pontapés
Aqui há tempos um estudo feito pelo Centro Europeu de Pesquisa de Assuntos Sociais sobre “As paixões do futebol” concluía que, na Europa, os portugueses são mais viciados no sexo do que na bola e que quatro em cada cinco indígenas preferem o sexo a um bom jogo de futebol!
Nunca acreditei muito nos resultados dessas consultas de opinião e então neste caso, tenho muitas reservas e dúvidas quanto às conclusões do referido estudo.
A euforia que se viveu aqui na minha cidade quando a nossa equipa subiu à Liga de Honra, reforça ainda mais a minha certeza de que os portugueses, tanto no sexo como na bola são os maiores!
Só quem não lê revistas cor-de-rosa, não vê, em cada esquina, o entusiasmo dos namorados ou não assiste a certos programas de alguns dos nossos canais televisivos é que pode duvidar da minha afirmação…   
Mas falando agora apenas de bola, não há dúvidas de que não há melhor narcótico para adormecer o Zé do que o futebol.
Mas vem de longe este fenómeno. Se fizermos uma digressão através dos tempos, encontramos em todas as épocas exemplos das reacções dessas multidões desportivas.
Desde a antiguidade, passando pela Idade-Média até aos nossos dias, o fenómeno repete-se embora com roupagens diferentes.
O comportamento psicológico dos adeptos pouco tem variado e a síntese do especialista brasileiro Inezil Marinho é bem elucidativa: «O torcedor é em geral um indivíduo habitualmente morigerado, que trabalha durante toda a semana, cumpre fielmente as suas obrigações, obedece às ordens dos seus superiores e é incapaz de ofender ou agredir alguém (…) Mas quando na multidão, como um dos integrantes da claque, sofre transformação radical. É capaz de dirigir os maiores insultos ao árbitro ou aos jogadores da equipa adversária, atirar-lhes garrafas ou pedras e é até capaz de agredi-los (…) Não raciocina com lucidez e é vítima de grande número de erros de percepção pela paixão que o domina, pelo partidarismo que o impede de analisar os factos como são…»
Com esta citação não quero, evidentemente, “vestir” toda aquela gente que apoia e sofre com a nossa equipa e que alimenta até ao fim a esperança de um final feliz. Esses são credores de toda a minha estima e admiração e com eles partilho o mesmo sonho.
Devo afirmar, no entanto, que me alegra o facto de ver que há cada vez mais adeptos do pontapé!

Só é pena que eles, os pontapés, se fiquem apenas pela bola, porque e politicando um pouco, há por aí muitos a merecê-los. Bem merecidos e num sítio que eu cá sei...  

É A VIDA!...

É a vida!...
Num destes Domingos soalheiros fui convidado por um Amigo para almoçar num restaurante típico, daqueles cuja ementa se tem mantido ao longo dos anos e onde se come um arroz de cabidela e um frango no churrasco como em nenhum outro!
Não fora a marcação antecipada, teríamos de esperar horas, tal era a fila de clientes. Estacionamento cheio e a maior parte dos popós era topo de gama. Nos restaurantes por onde passámos idem, aspas, aspas, muitos carros, muita gente fazendo fila na entrada…Crise? Qual crise qual carapuça! E queixamo-nos de que não há dinheiro, que temos uns políticos da treta, que isto cada vez está pior…Somos é mal-agradecidos!
Mal o sol espreita lá do alto e aí está a malta na rua a esquecer tudo o que nos apoquenta nos dias sombrios em que de lápis em punho tentamos fazer esticar os euros.
Somos um Povo ímpar: matreiro, fingido, queixinhas, bazófia e sobretudo sempre bem-disposto! Não foi por acaso que os franceses nos colaram aquele rótulo nas costas – “Les portugais sont toujours gais”! (Os portugueses estão sempre contentes).  Cantando e rindo, ambidextros que somos, tanto se nos dá cumprimentar com a direita como esbofetear com a esquerda. Somos pau para toda a colher. Esquisitices não são connosco. Desde que nos abriram a porta da democracia, ainda não deixamos de correr. Para onde, parece que ninguém sabe. Mas isso pouco interessa. Mas brincamos com tudo: com a vizinha, com o dinheiro, com a bola, com as palavras, com os ministros, com a tropa, e quando não temos com que brincar, brincamos, sozinhos, ao faz-de-conta. Se não SOMOS, tentamos fazer que SOMOS. O que é preciso é dar nas vistas. E como sempre tivemos queda para a imitação, daí a forjar um "estatuto social próprio", é um ver se te avias...
No meu tempo quem não tivesse licença de isqueiro ou de uso e porte de arma era considerado um bisbórria. Hoje acontece o mesmo a quem não possuir um ‘certificado de importância’ – um canudo, um bólide topo de gama ou uma casa com piscina interior e jacúzi. Educação e cultura basta aquela que se adquire nas reuniões do partido, ou nos beberetes das inaugurações, bebendo uísque barato e comendo pastéis de bacalhau. No entanto e apesar de todas as tropelias e dos “cortes cegos” que nos têm feito, continuamos a ter quase tudo o que tem os parceiros da União: - drogados, egoísmo, ricos muito ricos, pobres cada vez mais pobres, desempregados, traficantes, larápios vadios e até gente graúda nessas listas do “Panamá Papers”.
Mas voltando ao começo da conversa e ao mar de gente que enche os locais de comes-e-bebes nestes Domingos de sol, a rapaziada parece tudo esquecer…até as dívidas que não fez, mas que tem de pagar!
Como disse um dia um dos nossos chefes máximos – É a vida!...






A FAMÍLIA


O individualismo apossou-se da sociedade de hoje. Os valores, as convicções e até mesmo as tradições são desprezados e trocados por interesses pessoais. Por vezes convenço-me que se está a educar mais para o endeusamento do ter, do que para a valorização do ser.
Penso, por isso, que a Família é a melhor tábua de salvação e a maior fortaleza espiritual para combater esse mal. Os tempos que correm não ajudam aqueles que procuram preservar os valores da honestidade, do carácter, da amizade e da entreajuda.
Muitas vezes as contrariedades da vida fragilizam-nos e levam-nos ao desânimo e ao desespero. E é nesses momentos de angústia que encontramos na Família o medicamento adequado para combater os males que nos afligem. A confiança em nós próprios renasce, a esperança renova-se e ficamos mais fortes para enfrentar os reveses do dia-a-dia. 
A vida é um desafio e nesta sociedade cheia de armadilhas, a Família é o grande amparo que nos pode ajudar a ultrapassar as desilusões que sofremos. Entalado entre o niilismo e o desespero, o homem vai perdendo os valores de referência. Torna-se urgente mudar este estado de coisas e não transformar o homem num “escravo” da tecnologia. Num Mundo desumanizado, o progresso, por vezes, torna-se factor de retrocesso. Com tanta inteligência virtual, ao mesmo tempo que escondemos a realidade destruímos a cultura geral…
O progresso que se pretende tem de ser humanizado e têm de ser fortalecidos os laços que unem a Família. Ela tem de continuar a ser a célula mãe, o pilar da sociedade, assim como a escola tem de continuar a ser um lugar de preparação para o exercício da verdadeira cidadania. Só partindo desses pressupostos será possível construir uma sociedade mais justa, mais solidária e harmoniosa.
Quando falo na Família estou a referir-me àquele conjunto de seres humanos que sente, que pensa e que age ligado pelos mesmos sentimentos, entrelaçado pelos mesmos afectos, onde a honestidade, o respeito, a humildade, o carinho e os restantes valores morais e espirituais norteiam as suas vidas. Só essa união entre pessoas poderá fazer frente aos grupos organizados que tratam o povo como um rebanho e que, propositadamente, e porque lhes interessa não o protegem das feras, dos poderosos…
O mundo precisa de uma nova cultura do espírito e de uma nova doutrina de solidariedade que seja aplicada na prática e não apenas em teoria. O mundo precisa de valores de referência que “humanizem” o próprio homem. E só no seio de famílias como aquela a que acima me referi se pode gerar uma força de alma capaz de levar de vencida essa tarefa. Não será fácil, mas com uma Escola onde há mais funcionários do que educadores, só a Família poderá repor a lei da honra tradicional e ‘criar homens de um só rosto e de um só parecer’… Homens que lutem para tornar a sociedade limpa e inteligente, fecundada pelo esforço de todos e dirigida pelos melhores, com o único desejo de trabalhar para o bem comum.













QUE HERANÇA PARA OS NOSSOS NETOS?


Se, por hipótese ou exercício de imaginação, dividíssemos o português falado em dois escalões, acontecer-nos-ia termos de um lado o «português erudito» em que é feio arrotar e do outro o português corrente em que toda a malta se entende, mesmo quando arrota...
Isto para concluir que na nossa como em qualquer outra sociedade coabitam, pelo menos, duas classes distintas, cada uma delas com comportamentos diferentes.
No entanto, ao longo da História dos povos há momentos em que esses comportamentos se devem unificar para resolver problemas que determinam a continuidade desses mesmos povos.       
Por isso, com erudição ou sem ela, quando se diz que é preciso «apertar o cinto», é sinal de que algo vai mal. E que todos o devem apertar - os que arrotam e os outros. Diariamente, os jornais, a rádio e a televisão vão dando conta do agravamento da situação. Mas também mostram que nem todos se querem convencer de que chegou de facto a hora do «aperto». E por estranho que pareça, os que deveriam dar o exemplo, parecem cada vez mais apostados em continuar a delapidar o pouco que já nos resta, gastando onde não devem, e deixando que a degradação se apodere e ponha fim a sectores que constituem os pilares da Nação.
A envergadura do mal que enfrentamos atinge tais proporções que exige que o País se una numa comunhão consciente para fazer o que é necessário, restaurando valores perdidos, reactivando recursos destruídos e solucionando problemas sociais. O rol de misérias resultante do encerramento de infra-estruturas produtivas de norte a sul do País, obriga a que os políticos esqueçam divergências ideológicas, interesses próprios e particulares, e se mantenham unidos com uma única e prioritária finalidade: - a recuperação do País e a restauração da confiança perdida.
Como tenho dito ao longo dos anos, não há nos meus rabiscos qualquer pretensão de querer endireitar o mundo e muito menos a de fazer passar mensagens alarmistas e catastróficas. Nada disso! O que escrevo é o que sinto. E é também muitas vezes um grito de revolta - a revolta dos que levaram uma vida inteira a trabalhar e que agora, quase no fim da caminhada, se vêem de mãos vazias ou obrigados a trabalhar...e muitas vezes para os que nada fizeram, nada fazem, mas tudo têm.
Sem rigor, sem disciplina e sem trabalho não há País que consiga sobreviver. Temos vivido em permanente festa, sem grandeza, sem honra, sem ideais que justifiquem os encargos que a Nação suporta.
Só unidos em espírito e trabalho, poderemos continuar Portugal. Sou, por natureza, optimista, mas a continuar neste clima de euforia, tentando escamotear a realidade do dia-a-dia, duvido que os nossos netos se orgulhem do futuro que lhes deixarmos como herança.


    









sexta-feira, abril 01, 2016

DÍVIDAs


 
Somos uns queixinhas incorrigíveis! Queixamo-nos de tudo… E da chuva, porque chove; e do sol, porque faz calor; e do frio, porque caiu geada; e das costas por causa do vento suão; e dos ossos por causa da humidade; e dos bicos-de-papagaio, das artroses, do preço dos combustíveis, da carestia da vida …enfim, é como que num rosário, em que, de tanto queixume, as contas estão tão puídas, que os dedos mal se apercebem do seu deslizar!
Quanto a queixarmo-nos dos políticos que nos saíram na rifa, aí a coisa fia mais fino. Vejam os nossos irmãos brasileiros como estão na iminência de uma indigestão por causa de uma caldeirada dos ditos, perdão, de lulas!
Mas voltando cá ao nosso querido rincão e às queixinhas, sobretudo no capítulo da política, é bom saber que foi sempre assim, foram sempre os mais desfavorecidos a pagar a conta. Nada do que acontece agora, é novo.
Ainda há liberdade de barafustar, de lhes chamar nomes feios, mas não mudamos nada. Já assim era há 146 anos!...
Vejam as semelhanças lendo o texto inserido no Jornal “A Lanterna” de 17 de Dezembro de 1870: “O governo português anda mendigando em Londres um novo empréstimo. Os nossos charlatães financeiros não sabem senão estes dois métodos de governo: Empréstimos e Impostos.
Por um lado, o governo mandou para as cortes uma carregação de propostas tendentes todas a aumentar de tributos; por outro lado, o governo vai negociar um empréstimo no estrangeiro; é dinheiro emprestado e dinheiro espoliado. Pede-se primeiro aos agiotas para pagar às camarilhas; depois tira-se ao povo para pagar aos agiotas!
E ao passo que se trata de um empréstimo em Londres, negoceia-se outro empréstimo com os bancos nacionais. Este tem cara de dívida flutuante interna e é para pagamento de dívida consolidada externa! Este empréstimo que nos está às costas para pagamento no fim de três meses sai na razão de 13,2%! E no fim não é dinheiro aplicado em nenhum melhoramento público; é só dinheiro para pagar juros da dívida!
É a dívida a endividar-nos cada vez mais! É a dívida a crescer para pagar as sinecuras do estado! É a dívida a multiplicar-se para não faltarem à corte banquetes, festas, caçadas, folias!
Esta situação é terrível e tanto mais que ela exige para se não agravar, de sacrifícios com que o país não pode e que de mais não deve fazer, quando eles são apenas destinados às extravagâncias da corte e ao devorismo do poder, no qual se inscreve agora o novo subsídio aos pais da pátria!”
Como leram, podemos continuar a queixar-nos do tempo, da dor nas costas, dos bicos de papagaio, da crise, mas dos políticos, de nada vale. É tempo perdido. É sina nossa. Desde que Egas Moniz, o Aio; teve a triste ideia de usar a corda como gravata e ir ali ao lado, a Espanha, pagar uma dívida que não fez, ficámos condenados a seguir o seu exemplo…Paga Zé, e não bufes!

 

 

 

 

 

 

EM BUSCA DA FELICIDADE


 
Todos nós sabemos que ser feliz é um dos mais antigos direitos da humanidade. E também sabemos que não há ninguém que não mereça auferi-lo. Há, no entanto, quem pense nunca poder alcançar esse dom.
E isso resulta de uma certa insatisfação e de um conceito errado do que é a felicidade. O homem foi criado para ser feliz e seria insensato imaginar um Deus cujo prazer consistisse em submetê-lo a contínuas desgraças.
Essa ideia seria demasiado humana para ser divina e, quando assim pensamos, estamos a fazer um Criador à imagem da nossa imbecilidade e à semelhança da nossa estupidez. Porém, a causa, é bem diferente. Neste mundo estereotipado em que vivemos, a felicidade deixou de ser um ideal do indivíduo para ser uma aspiração das multidões. Todos querem ser felizes da mesma maneira. Convencionou-se que não há felicidade sem automóvel, sem uma casa repleta de electrodomésticos, de electrónica, de móveis de estilo, de livros caros (mas que nunca se lêem), de imitações de objectos e de quadros antigos (dos quais não se sabe falar), sem roupas e calçado de marcas badaladas... enfim, e para resumir, sem todos esses sinais exteriores de riqueza que por aí se vêem. Quanto a boas maneiras, civilidade, educação ou cultura, tudo isso é secundário. O que é preciso é ter dinheiro. E como nem todos o podem ter para se fazerem passar por aquilo que não são, daí a "infelicidade" de muitos. Uma infelicidade que gera invejas, revoltas e que, infelizmente, está a transformar a sociedade num viveiro de insatisfeitos, de egoístas e de falsários. Há na terra milhões de pessoas a sonhar a mesma coisa e a desejar os mesmos bens. E é assim que os espíritos simples se asfixiam numa atmosfera de estupidez. E são cada vez mais os que não conseguem viver fora desse esquema. Cada vez se deseja possuir mais. Cresce dia a dia a inveja pelo vizinho. A ânsia de "também querer ser" aumenta no sentido inverso do "querer fazer". Atropelam-se os princípios mais sagrados para chegar mais depressa a um lugar que se cobiça, mas que não se merece. O que mais interessa é "parecer". É uma luta feroz e constante entre aquilo que se tenta aparentar e a verdadeira realidade daquilo que se é.
Parece que fica assim, mais ou menos, traçado, ainda que com pálidas pinceladas, o retrato daquele que quer ostentar coisas superiores aos seus recursos e à sua mentalidade. E é esse, de facto, o protótipo do verdadeiro infeliz. E é tão fácil ser feliz! Contentarmo-nos com o que temos e orgulharmo-nos de sermos, apenas, como somos, é já o começo da felicidade. Mas o que muitos procuram é ser mais do que os outros. E isso é impossível, porque os outros nunca são, na realidade, tão felizes como nós julgamos.

 

EU E OS MEUS BOTÕES


 
Nunca foram tantas e tão fáceis as possibilidades que hoje temos de estabelecermos contactos com tanta gente!...
O avanço da tecnologia tem-nos brindado com os mais díspares e sofisticados meios de interacção entre pessoas. Quer por intermédio das redes sociais, quer por outros meios, nunca foi tão simples “criar amizades” com outros habitantes espalhados pelo planeta Terra! 
No entanto, parece que estamos cada vez a distanciar-nos mais do “próximo” afastando-nos de familiares e amigos. As redes de comunicação levam-nos muitas vezes a tornarmo-nos íntimos de gente estranha, que não conhecemos, mas a quem confiamos, por vezes, toda a nossa vida.  Influenciados por personalidades ou mitos “forjados” pelos meios de comunicação, - nomeadamente a televisão - sentimos um profundo pesar colectivo pela morte de uma dessas personagens e ficamos por vezes, quase insensíveis pela perda de um parente próximo ou de um amigo!
É minha convicção de que, arrastados por essa tendência, estamos a “desaprender de gostar” de quem devíamos, transpondo esse sentimento para gente estranha. O poder da comunicação rápida e fácil faz com que nos aproximemos desses “ídolos” distantes, enquanto a realidade concreta nos afasta daqueles que diariamente nos rodeiam e acarinham.
Essa cultura individualista e consumista do mundo contemporâneo desfaz os vínculos de irmandade e faz muitas vezes com que esqueçamos as pessoas ou o grupo ao qual pertencemos.
Assim, contaminados por essa cultura de banalização de certos valores e com esse bombardeamento diário, tornamo-nos dependentes e obrigados a conviver com esse estado geral de ansiedade, de medo e de desconfiança. Pouco a pouco vamo-nos moldando a uma ética que recusa e nega a ideia do “próximo”, a existência daquele que temos a nosso lado ou do que realmente nos rodeia...
O nosso “próximo”, aquele que vive paredes meias connosco, ignora-se. Não precisamos de ninguém. Desde que tenhamos bens materiais, títulos, prestígio social, novos brinquedos tecnológicos, esse “próximo” não existe, desconhece-se.
No meio de tudo isto a principal vítima é a Família, o pilar central da sociedade. Não há conversa entre os seus membros, cresce a insensibilidade, a indiferença e a intolerância. Não há diálogo. E como consequência directa desaparecem os afectos, que são a concretização da dignidade humana.
Culpa-se a globalização e os mais pessimistas agitam o fantasma da decadência. Será alguma dessas afirmações verdadeira ou a culpa será de nós próprios na ânsia de querermos ir cada vez mais longe com o objectivo  de nos tornarmos  deuses de qualquer coisa?...