sábado, abril 23, 2016

A FAMÍLIA


O individualismo apossou-se da sociedade de hoje. Os valores, as convicções e até mesmo as tradições são desprezados e trocados por interesses pessoais. Por vezes convenço-me que se está a educar mais para o endeusamento do ter, do que para a valorização do ser.
Penso, por isso, que a Família é a melhor tábua de salvação e a maior fortaleza espiritual para combater esse mal. Os tempos que correm não ajudam aqueles que procuram preservar os valores da honestidade, do carácter, da amizade e da entreajuda.
Muitas vezes as contrariedades da vida fragilizam-nos e levam-nos ao desânimo e ao desespero. E é nesses momentos de angústia que encontramos na Família o medicamento adequado para combater os males que nos afligem. A confiança em nós próprios renasce, a esperança renova-se e ficamos mais fortes para enfrentar os reveses do dia-a-dia. 
A vida é um desafio e nesta sociedade cheia de armadilhas, a Família é o grande amparo que nos pode ajudar a ultrapassar as desilusões que sofremos. Entalado entre o niilismo e o desespero, o homem vai perdendo os valores de referência. Torna-se urgente mudar este estado de coisas e não transformar o homem num “escravo” da tecnologia. Num Mundo desumanizado, o progresso, por vezes, torna-se factor de retrocesso. Com tanta inteligência virtual, ao mesmo tempo que escondemos a realidade destruímos a cultura geral…
O progresso que se pretende tem de ser humanizado e têm de ser fortalecidos os laços que unem a Família. Ela tem de continuar a ser a célula mãe, o pilar da sociedade, assim como a escola tem de continuar a ser um lugar de preparação para o exercício da verdadeira cidadania. Só partindo desses pressupostos será possível construir uma sociedade mais justa, mais solidária e harmoniosa.
Quando falo na Família estou a referir-me àquele conjunto de seres humanos que sente, que pensa e que age ligado pelos mesmos sentimentos, entrelaçado pelos mesmos afectos, onde a honestidade, o respeito, a humildade, o carinho e os restantes valores morais e espirituais norteiam as suas vidas. Só essa união entre pessoas poderá fazer frente aos grupos organizados que tratam o povo como um rebanho e que, propositadamente, e porque lhes interessa não o protegem das feras, dos poderosos…
O mundo precisa de uma nova cultura do espírito e de uma nova doutrina de solidariedade que seja aplicada na prática e não apenas em teoria. O mundo precisa de valores de referência que “humanizem” o próprio homem. E só no seio de famílias como aquela a que acima me referi se pode gerar uma força de alma capaz de levar de vencida essa tarefa. Não será fácil, mas com uma Escola onde há mais funcionários do que educadores, só a Família poderá repor a lei da honra tradicional e ‘criar homens de um só rosto e de um só parecer’… Homens que lutem para tornar a sociedade limpa e inteligente, fecundada pelo esforço de todos e dirigida pelos melhores, com o único desejo de trabalhar para o bem comum.













QUE HERANÇA PARA OS NOSSOS NETOS?


Se, por hipótese ou exercício de imaginação, dividíssemos o português falado em dois escalões, acontecer-nos-ia termos de um lado o «português erudito» em que é feio arrotar e do outro o português corrente em que toda a malta se entende, mesmo quando arrota...
Isto para concluir que na nossa como em qualquer outra sociedade coabitam, pelo menos, duas classes distintas, cada uma delas com comportamentos diferentes.
No entanto, ao longo da História dos povos há momentos em que esses comportamentos se devem unificar para resolver problemas que determinam a continuidade desses mesmos povos.       
Por isso, com erudição ou sem ela, quando se diz que é preciso «apertar o cinto», é sinal de que algo vai mal. E que todos o devem apertar - os que arrotam e os outros. Diariamente, os jornais, a rádio e a televisão vão dando conta do agravamento da situação. Mas também mostram que nem todos se querem convencer de que chegou de facto a hora do «aperto». E por estranho que pareça, os que deveriam dar o exemplo, parecem cada vez mais apostados em continuar a delapidar o pouco que já nos resta, gastando onde não devem, e deixando que a degradação se apodere e ponha fim a sectores que constituem os pilares da Nação.
A envergadura do mal que enfrentamos atinge tais proporções que exige que o País se una numa comunhão consciente para fazer o que é necessário, restaurando valores perdidos, reactivando recursos destruídos e solucionando problemas sociais. O rol de misérias resultante do encerramento de infra-estruturas produtivas de norte a sul do País, obriga a que os políticos esqueçam divergências ideológicas, interesses próprios e particulares, e se mantenham unidos com uma única e prioritária finalidade: - a recuperação do País e a restauração da confiança perdida.
Como tenho dito ao longo dos anos, não há nos meus rabiscos qualquer pretensão de querer endireitar o mundo e muito menos a de fazer passar mensagens alarmistas e catastróficas. Nada disso! O que escrevo é o que sinto. E é também muitas vezes um grito de revolta - a revolta dos que levaram uma vida inteira a trabalhar e que agora, quase no fim da caminhada, se vêem de mãos vazias ou obrigados a trabalhar...e muitas vezes para os que nada fizeram, nada fazem, mas tudo têm.
Sem rigor, sem disciplina e sem trabalho não há País que consiga sobreviver. Temos vivido em permanente festa, sem grandeza, sem honra, sem ideais que justifiquem os encargos que a Nação suporta.
Só unidos em espírito e trabalho, poderemos continuar Portugal. Sou, por natureza, optimista, mas a continuar neste clima de euforia, tentando escamotear a realidade do dia-a-dia, duvido que os nossos netos se orgulhem do futuro que lhes deixarmos como herança.


    









sexta-feira, abril 01, 2016

DÍVIDAs


 
Somos uns queixinhas incorrigíveis! Queixamo-nos de tudo… E da chuva, porque chove; e do sol, porque faz calor; e do frio, porque caiu geada; e das costas por causa do vento suão; e dos ossos por causa da humidade; e dos bicos-de-papagaio, das artroses, do preço dos combustíveis, da carestia da vida …enfim, é como que num rosário, em que, de tanto queixume, as contas estão tão puídas, que os dedos mal se apercebem do seu deslizar!
Quanto a queixarmo-nos dos políticos que nos saíram na rifa, aí a coisa fia mais fino. Vejam os nossos irmãos brasileiros como estão na iminência de uma indigestão por causa de uma caldeirada dos ditos, perdão, de lulas!
Mas voltando cá ao nosso querido rincão e às queixinhas, sobretudo no capítulo da política, é bom saber que foi sempre assim, foram sempre os mais desfavorecidos a pagar a conta. Nada do que acontece agora, é novo.
Ainda há liberdade de barafustar, de lhes chamar nomes feios, mas não mudamos nada. Já assim era há 146 anos!...
Vejam as semelhanças lendo o texto inserido no Jornal “A Lanterna” de 17 de Dezembro de 1870: “O governo português anda mendigando em Londres um novo empréstimo. Os nossos charlatães financeiros não sabem senão estes dois métodos de governo: Empréstimos e Impostos.
Por um lado, o governo mandou para as cortes uma carregação de propostas tendentes todas a aumentar de tributos; por outro lado, o governo vai negociar um empréstimo no estrangeiro; é dinheiro emprestado e dinheiro espoliado. Pede-se primeiro aos agiotas para pagar às camarilhas; depois tira-se ao povo para pagar aos agiotas!
E ao passo que se trata de um empréstimo em Londres, negoceia-se outro empréstimo com os bancos nacionais. Este tem cara de dívida flutuante interna e é para pagamento de dívida consolidada externa! Este empréstimo que nos está às costas para pagamento no fim de três meses sai na razão de 13,2%! E no fim não é dinheiro aplicado em nenhum melhoramento público; é só dinheiro para pagar juros da dívida!
É a dívida a endividar-nos cada vez mais! É a dívida a crescer para pagar as sinecuras do estado! É a dívida a multiplicar-se para não faltarem à corte banquetes, festas, caçadas, folias!
Esta situação é terrível e tanto mais que ela exige para se não agravar, de sacrifícios com que o país não pode e que de mais não deve fazer, quando eles são apenas destinados às extravagâncias da corte e ao devorismo do poder, no qual se inscreve agora o novo subsídio aos pais da pátria!”
Como leram, podemos continuar a queixar-nos do tempo, da dor nas costas, dos bicos de papagaio, da crise, mas dos políticos, de nada vale. É tempo perdido. É sina nossa. Desde que Egas Moniz, o Aio; teve a triste ideia de usar a corda como gravata e ir ali ao lado, a Espanha, pagar uma dívida que não fez, ficámos condenados a seguir o seu exemplo…Paga Zé, e não bufes!

 

 

 

 

 

 

EM BUSCA DA FELICIDADE


 
Todos nós sabemos que ser feliz é um dos mais antigos direitos da humanidade. E também sabemos que não há ninguém que não mereça auferi-lo. Há, no entanto, quem pense nunca poder alcançar esse dom.
E isso resulta de uma certa insatisfação e de um conceito errado do que é a felicidade. O homem foi criado para ser feliz e seria insensato imaginar um Deus cujo prazer consistisse em submetê-lo a contínuas desgraças.
Essa ideia seria demasiado humana para ser divina e, quando assim pensamos, estamos a fazer um Criador à imagem da nossa imbecilidade e à semelhança da nossa estupidez. Porém, a causa, é bem diferente. Neste mundo estereotipado em que vivemos, a felicidade deixou de ser um ideal do indivíduo para ser uma aspiração das multidões. Todos querem ser felizes da mesma maneira. Convencionou-se que não há felicidade sem automóvel, sem uma casa repleta de electrodomésticos, de electrónica, de móveis de estilo, de livros caros (mas que nunca se lêem), de imitações de objectos e de quadros antigos (dos quais não se sabe falar), sem roupas e calçado de marcas badaladas... enfim, e para resumir, sem todos esses sinais exteriores de riqueza que por aí se vêem. Quanto a boas maneiras, civilidade, educação ou cultura, tudo isso é secundário. O que é preciso é ter dinheiro. E como nem todos o podem ter para se fazerem passar por aquilo que não são, daí a "infelicidade" de muitos. Uma infelicidade que gera invejas, revoltas e que, infelizmente, está a transformar a sociedade num viveiro de insatisfeitos, de egoístas e de falsários. Há na terra milhões de pessoas a sonhar a mesma coisa e a desejar os mesmos bens. E é assim que os espíritos simples se asfixiam numa atmosfera de estupidez. E são cada vez mais os que não conseguem viver fora desse esquema. Cada vez se deseja possuir mais. Cresce dia a dia a inveja pelo vizinho. A ânsia de "também querer ser" aumenta no sentido inverso do "querer fazer". Atropelam-se os princípios mais sagrados para chegar mais depressa a um lugar que se cobiça, mas que não se merece. O que mais interessa é "parecer". É uma luta feroz e constante entre aquilo que se tenta aparentar e a verdadeira realidade daquilo que se é.
Parece que fica assim, mais ou menos, traçado, ainda que com pálidas pinceladas, o retrato daquele que quer ostentar coisas superiores aos seus recursos e à sua mentalidade. E é esse, de facto, o protótipo do verdadeiro infeliz. E é tão fácil ser feliz! Contentarmo-nos com o que temos e orgulharmo-nos de sermos, apenas, como somos, é já o começo da felicidade. Mas o que muitos procuram é ser mais do que os outros. E isso é impossível, porque os outros nunca são, na realidade, tão felizes como nós julgamos.

 

EU E OS MEUS BOTÕES


 
Nunca foram tantas e tão fáceis as possibilidades que hoje temos de estabelecermos contactos com tanta gente!...
O avanço da tecnologia tem-nos brindado com os mais díspares e sofisticados meios de interacção entre pessoas. Quer por intermédio das redes sociais, quer por outros meios, nunca foi tão simples “criar amizades” com outros habitantes espalhados pelo planeta Terra! 
No entanto, parece que estamos cada vez a distanciar-nos mais do “próximo” afastando-nos de familiares e amigos. As redes de comunicação levam-nos muitas vezes a tornarmo-nos íntimos de gente estranha, que não conhecemos, mas a quem confiamos, por vezes, toda a nossa vida.  Influenciados por personalidades ou mitos “forjados” pelos meios de comunicação, - nomeadamente a televisão - sentimos um profundo pesar colectivo pela morte de uma dessas personagens e ficamos por vezes, quase insensíveis pela perda de um parente próximo ou de um amigo!
É minha convicção de que, arrastados por essa tendência, estamos a “desaprender de gostar” de quem devíamos, transpondo esse sentimento para gente estranha. O poder da comunicação rápida e fácil faz com que nos aproximemos desses “ídolos” distantes, enquanto a realidade concreta nos afasta daqueles que diariamente nos rodeiam e acarinham.
Essa cultura individualista e consumista do mundo contemporâneo desfaz os vínculos de irmandade e faz muitas vezes com que esqueçamos as pessoas ou o grupo ao qual pertencemos.
Assim, contaminados por essa cultura de banalização de certos valores e com esse bombardeamento diário, tornamo-nos dependentes e obrigados a conviver com esse estado geral de ansiedade, de medo e de desconfiança. Pouco a pouco vamo-nos moldando a uma ética que recusa e nega a ideia do “próximo”, a existência daquele que temos a nosso lado ou do que realmente nos rodeia...
O nosso “próximo”, aquele que vive paredes meias connosco, ignora-se. Não precisamos de ninguém. Desde que tenhamos bens materiais, títulos, prestígio social, novos brinquedos tecnológicos, esse “próximo” não existe, desconhece-se.
No meio de tudo isto a principal vítima é a Família, o pilar central da sociedade. Não há conversa entre os seus membros, cresce a insensibilidade, a indiferença e a intolerância. Não há diálogo. E como consequência directa desaparecem os afectos, que são a concretização da dignidade humana.
Culpa-se a globalização e os mais pessimistas agitam o fantasma da decadência. Será alguma dessas afirmações verdadeira ou a culpa será de nós próprios na ânsia de querermos ir cada vez mais longe com o objectivo  de nos tornarmos  deuses de qualquer coisa?...

 

 

 

sexta-feira, março 04, 2016

ELA AÍ ESTÁ!...


Houve um tempo, - e já lá vão tantos anos!... – em que os mais velhos me falavam dasua vinda, como se tratasse de uma coisa grave. Alguns, mais íntimos, quando a ocasião se proporcionava, tentavam mentalizar-me: «Ninguém escapa, homem, e lá virá o tempo em que, sem dares conta, ela aparecerá…» E logo a seguir, com uma pitada de humor, acrescentavam os mais crentes em oráculos: «E mais de pressa do que  julgas!...»

Nessa altura eu estava na minha Primavera e nesses verdes anos não há tempo para pensar e muito menos para nos preocuparmos com o futuro ou ter medo dele. Era um tempo em que via sempre o céu azul, em que o Sol sorria todos os dias lá no alto, só cresciam flores à minha volta e eu fazia de todos os dias um “sábado à noite”!
Não havia Futuro, só o Presente contava. Era um tempo sem interrogações. Tudo deslizava em roda livre pela bonita e plana estrada da juventude sem que fosse preciso pedalar muito. Era a época dos sonhos, dos contos de fada, do perfume do amor – “esse fogo que arde sem se ver”, no dizer do poeta. Mas entretanto…
Entretanto os anos foram-se acumulando, acumulando, até que um dia, numa manhã de Inverno, reflectida no espelho, ela sussurrou carinhosamente: «Cá estou!...»
E lá estava o seu rosto. Olhos inchados, provavelmente atraentes no passado, mas agora escondidos por detrás de grossas lentes aprisionadas em aros de metal luzidio; da farta cabeleira de outrora, restavam, apenas nas têmporas, cabelos brancos, dispersos, qual estriga de linho pronta a ser colocada na roca; na fronte e no pescoço, rugas, muitas rugas, sulcos por onde passaram, como em leito de rio, – em grosso caudal ou em passeio tranquilo – mágoas, alegrias...
E as mãos? A pele enrugada, as veias salientes e os dedos trementes não conseguiam esconder toda uma vida de lutas, de canseiras, de incertezas, de lágrimas... e também de muitas alegrias. E como aquele rosto me fascinava!
O seu sorriso trocista, a ingenuidade do seu olhar infantil como que a pedir desculpa de pecado que não se cometeu, atraíam-me… E como de feitiço se tratasse, ali fiquei por instantes, olhando o espelho. O tempo parecia não ter pressa. E, cúmplices, ali ficámos os dois, contemplando e tentando adivinhar a história daquele rosto. Um esboço de sorriso disfarçava as rugas e a vontade de viver adivinhava-se no luzir dos olhos papudos. E tanta, tanta alegria naquele olhar cansado, mas tão feliz!
Baixei os olhos e vi-a tentando esconder-se timidamente como que a pedir desculpa pela sua intrusão na minha existência. E sorrimos. E talvez com medo de me perder ou de que me zangasse, Dona Velhice abraçou-me com tanta força que desde esse dia nunca mais nos separámos. E desde então e como devem já ter notado, andamos sempre de braço dado...

DESABAFO



Todos sabemos que além da crise monetária, outras crises, mormente a de valores, se instalaram um pouco por toda a parte - em casa, na escola, no escritório, na igreja… A crise está em tudo onde a comunidade exige o esforço de cada um para construir o bem de todos.
E acreditem - não é com pessimismos e má disposição que conseguiremos ultrapassar todo esse estado de coisas!...
Às vezes ponho-me a observar o semblante das pessoas que giram à minha volta e o que vejo é uma espécie de tristeza, de desânimo, estampados nos seus rostos…Há situações em que pergunto a mim mesmo se essa apreciação não terá a ver com a diferença de idade ou com qualquer outro preconceito escondido, que me impede de me ‘aclimatar’ a este modo de vida actual!
Mas penso que não, pois apesar de a partir de certa idade não podermos recuperar “coisas” perdidas, podemos sempre e quando queremos, alargar os nossos horizontes de aprendizagem e moldarmo-nos aos hábitos e costumes que nos cercam. Nunca é tarde, nem há idades para aprender. É sempre tempo de enriquecer, quer os conhecimentos quer a maneira de viver num mundo diferente daquele de onde viemos. O velho aforismo de que «burro velho não aprende línguas» virou (como se diz no Brasil) e agora diz-se «cavalo velho, capim novo», isto é, actualização, modernidade, estar na moda… É difícil, eu sei. Mas não impossível…
O que penso é que, muitas dessas pessoas se julgam infelizes, porque nunca tiveram dificuldades, porque tudo lhes caiu do céu e jamais tiveram necessidade de reagir, de pensar e por isso, são incapazes de enfrentar os seus problemas, as suas adversidades com determinação e coragem. Desistem covardemente sem o menor respeito pela sociedade a que pertencem e a quem devem a sua existência. Voltam as costas aos escolhos que encontraram no caminho e tornam-se egoístas, invejosos, maldizentes e por vezes até difamadores. O que lhes interessa é a completa satisfação do seu ego a curto prazo. E não olham a meios…
E assim deixam de enfrentar a Vida. Deixam de lutar. Anulam-se a si próprios. Face a essa situação não admira que as decepções, os desgostos e as amarguras da Vida atinjam tais proporções que acabam, quase sempre, por fazer deles as vítimas do desespero que eles próprios criaram.
Reforçando o que acima disse, muitos julgam-se infelizes, porque desistiram de lutar, e estão sempre à espera de que os outros lutem por eles… Não fazem, mas exigem que façam. Não têm, mas exigem que lhes dêem…
Vivemos no reinado de el-rei D. Dinheiro. Todos querem ser ricos. Se é o seu caso, deixe de chupar limão. Sorria. Aliás, ‘tristezas não pagam dívidas’, que era o lema do meu tetravô, que era pobrete, mas alegrete…

 

EXCELÊNCIA


 
Sempre que sai um e entra outro, costumo escrever uma carta ao responsável que se senta na cadeira que Vossa Excelência agora ocupa. Mas como nunca recebi resposta e desconfiando dos chefes de gabinete em geral e das secretárias em particular, resolvi aproveitar este espaço que me é cedido neste Jornal para lhe enviar um agradecimento pessoal, público e intransmissível.
Aqui estou, pois, a agradecer-lhe penhoradamente o aumento que fez o favor de me conceder, elevando o valor da minha pensão que, entre nós, - e falando de contribuinte para governante – era mesmo uma vergonha! De facto, mais de meio século a trabalhar - sem nunca me ter sentado à mesa do orçamento, pagando sempre os meus impostos, e sem nunca ter “abichado” um cargo apadrinhado - a pensão que recebia, era uma autêntica injustiça!...
V. Exa., embora tarde, quis dar uma lição aos seus predecessores e zás!... Reparou o mal, e mostrou que de facto vivemos em democracia e que o povo também conta... Em verdade, se alguns conseguem um montão de notas em poucos anos, subvenções vitalícias, reformas faraónicas e coisa e tal, porque é que o Zé pagante, o Zé-trabalhador não há-de ter direito também a ser lembrado?
Por isso e como ia dizendo, Excelência, o aumento que me concedeu, - os 0,60 cêntimos de aumento por mês vão fazer-me um jeitão!
Ainda não pensei o que irei fazer com eles, mas sou capaz de aceitar a sugestão de minha mulher, a quem aumentaram também mais ou menos a mesma quantia. A sua opinião é de que, juntamente com os nossos colegas - contemplados com a mesma importância - se erga, em frente da Assembleia da República, uma estátua ao “Mentiroso”, assente num pedestal com a forma de um saco…de promessas!
Claro que isto é um desabafo, pois todos sabemos que é sempre o mexilhão que se lixa e que na terra de cegos quem tem olhos é rei, sobretudo quando se entra nos “terrenos da política”. No meu tempo de menino e moço – princípios do século XX - já se dizia que o nosso grande Camões morreu pobre, porque tinha trocado os “Lusíadas” pela política…
Mas falando agora a sério. Sua Excelência não se sente incomodado, nem um poucochinho, por ter feito tanta promessa e não ser capaz de cumprir as mais ingentes, sobretudo no campo social?
Não acha que a história dos 60 cêntimos além de ser uma injustiça é também um ultraje aos pobres e aos velhos que têm uma pensão de miséria?!...
Gostaria de continuar a conversa, mas acabou o meu espaço. Até breve.

 

 

DESAFAFOS


À guisa de comparação

Há dias quando fazia um balanço sobre as artimanhas de que os políticos se servem para ludibriar o Zé pagante, lembrei-me de uma historieta que ilustra bem esse condão, que é muito usado por alguns dos nossos “zelosos” servidores ou ex- servidores da Pátria:
«Um político com uma choruda reforma e ainda com a famigerada ‘Subvenção Vitalícia’, conduzia o seu BMW a alta velocidade quando um polícia de trânsito de serviço na cidade o mandou parar.
- O senhor ia a uma velocidade acima da permitida. A sua carta de condução, por favor.
- Não tenho, caducou…
- Então mostre-me os documentos do carro.
- O carro não é meu.
- Abra o porta-luvas, se faz favor.
- Não posso, tem um revólver que usei para roubar este carro.
O agente já bastante preocupado:
- Abra o porta- bagagens!
- Nem pensar! Lá dentro está o corpo da dona deste carro, que eu matei no assalto.
O guarda vendo-se diante de tais circunstâncias resolveu chamar o seu superior. Chegado ao local o oficial superior dirige-se ao ex-político:
- Habilitação e documento do carro por favor!
- Estão aqui senhor Capitão. Como vê o carro está em meu nome e a carta está válida.
- Abra o porta-luvas! – pede o Capitão.
E o político na reforma e com “Subvenção Vitalícia”, serenamente:
- Como vê, só tem alguns papéis.
- Abra o porta bagagens!
- Aqui está... Como vê está vazio.
O Capitão um pouco constrangido:
- Deve estar a acontecer algum equívoco: o meu subordinado disse – me que não tinha carta, que não era o dono do carro, que o tinha roubado, que tinha um revólver no porta-luvas e que tinha o corpo de uma mulher morta no porta bagagens…
E então o político reformado e com “Subvenção Vitalícia”, respondeu com toda a serenidade:
- Como vê, senhor Capitão, esse militar deve ser maluco…Só faltou dizer-lhe que eu conduzia com excesso de velocidade!...»
A comparação pode, talvez parecer um pouco desajustada, mas se atentardes bem nas artimanhas dos nossos “filhos da pátria” no intuito de endrominar o Zé Povinho, encontrareis muitas semelhanças com o procedimento usado na historieta.

 

terça-feira, fevereiro 02, 2016

O AVANÇO DA TECNOLOGIA


Li, há dias, numa revista da especialidade, que muito em breve todos os meios de transporte, quer aéreos, quer terrestres, poderão circular sem a ajuda de qualquer piloto ou motorista.
Não há dúvidas que o futuro pende cada vez mais para a abstracção e à medida que o tempo vai passando, a tecnologia avança, fazendo com que, em cada dia que passa, o ser humano seja substituído por mais uma dessas inovações tecnológicas.
Com as passadas gigantes da robótica e da inteligência, com toda esta automação como irá ser o futuro, sobretudo, no que diz respeito ao lugar do homem na sociedade?
Talvez tal facto seja encarado pelos mais novos sem grandes sobressaltos, mas para aqueles que, como eu, nasceram e cresceram no tempo dos antigos transportes – como a zorra, o carro de bois, a charrete e o automóvel Ford T, etc. etc. – confesso, que esses “agentes digitais inteligentes” me levam a grandes e inconclusivas reflexões!...
E é por isso que quando esta realidade tecnológica me baralha e me impede de acompanhar a rápida evolução a falta da possibilidade intelectual de compreender o mundo em que vivo, rebobino o meu filme a preto e branco, que está ainda gravado na memória, sento-me no velho cadeirão e assisto ao desfilar das imagens:
E lá está o lavrador de tamancos manchados com bosta de vaca, aguilhada no ombro, soga na mão, guiando o carro de bois; o ferreiro de mãos negras e de cara sarapintada, malhando o ferro na bigorna; o merceeiro de bata cinzenta e lápis atrás da orelha, fazendo um cartucho de papel almaço e aviando o freguês; o padre vestido a preceito, gola da labita puída pelo rígido cabeção, conversando com o regedor; o médico, chamado à pressa, malinha na mão, sempre sorridente, incutindo esperança; o advogado de falas compassadas e modos afáveis, tentando conciliar dois habitantes desavindos por questões de extremas em pinhais; a professora, exigente na aprendizagem dos alunos, fazendo da profissão um sacerdócio; o funcionário público, de mangas postiças, as famosas mangas-de-alpaca, ainda imbuído dos verdadeiros princípios da sua missão de servir e o administrador, bota cardada, conversando com alguns habitantes da aldeia no exercício do seu cargo, mais por honra do que por dinheiro…
Interrompi a rodagem da velha fita de celulóide e, recordando as personagens do velho filme, tentei fazer uma comparação com as da actualidade no seu constante avanço tecnológico. Impossível!...
E tão impossível como comparar o carro de bois do Ti Zé Manel com um automóvel sem motorista ou o trabalho do Ti Zé Ferreiro com um robot da Auto Europa!
Mas nada há que fazer para suster o avanço da tecnologia, alguma, inibidora da socialização….Mesmo em casa, quando concluímos que os nossos netos conhecem melhor os seus amigos virtuais do que os elementos que constituem a família…




PREGAR NO DESERTO


Todas as semanas para escrever a minha crónica semanal, o que me vem à memória, é discorrer sobre os variados acontecimentos deste nosso complicado quotidiano. Mas assalta-me logo a mesma interrogação – valerá a pena?
Valerá a pena apontar e denunciar os males que corroem a nossa sociedade? Valerá a pena, neste nosso pequeno mundo materialista e desumanizado, dominado pelo egoísmo, pelo dinheiro, pela política e pelo futebol, denunciar injustiças? Valerá a pena falar de pobreza, de exclusão social, de irresponsabilidade, de prepotência, de abuso de poder, de descriminação, de incompetência e de falta de humanismo? 
Valerá a pena chamar a atenção dos que têm tudo, e convidá-los a partilhar as sobras, com os que nada têm?
Valerá a pena, ir aos livros já esfarrapados da minha Universidade, – que foi a da Vida – folheá-los, e apontar exemplos, citar experiências, transcrever capítulos inteiros de factos vividos em que o trabalho, a humildade, a perseverança, o respeito, a educação e a honra são os elementos criadores de homens íntegros, responsáveis, cumpridores, amantes da Verdade, da Justiça e da Moral?
Conseguirei penetrar no coração empedernido dos que vivem em palácios onde nada falta, e acordá-los, convidando-os a espreitar a miséria, o frio e a fome dos milhares de homens mulheres e crianças que vivem ou que se escondem nas ruas, debaixo de um pedaço de cartão?
Valerá a pena apontar como urgente e imperiosa a necessidade da conjugação dos esforços de todos para uma total humanização nos sectores da vida nacional, mormente na saúde, na justiça, na educação e na segurança social?
Serei capaz de convencer os que mandam, fazendo com que exerçam o seu trabalho com inteligência, humanismo, justiça e com espírito de isenção e partilha?
Valerá a pena apelar aos que ocupam os mais altos cargos, aos que detêm o poder de decisão para que saiam dos seus confortáveis gabinetes de Lisboa e venham até ao País real, – não de fugida – mas com tempo suficiente para se inteirarem do difícil dia-a-dia de muitos dos que neles votaram? O drama das democracias reside essencialmente na infidelidade aos valores cristãos que lhes servem de alicerce. Presentemente, o que acontece é que enquanto se valoriza o dinheiro, assiste-se à vertiginosa desvalorização da honra e da moral. Advêm daí os meus desencontros com os tempos em que vivemos e a certeza de que o que escrevo possa servir para melhorar seja o que for…







EDUCAÇÃO E INSTRUÇÃO


Há ainda muita gente que confunde educação com instrução. O significado das duas palavras é muito diferente, embora ambas, e em conjunto, sejam essenciais para a formação e desenvolvimento do ser humano.
Enquanto a educação se rege por certas normas e regras que nos indicam a maneira de nos comportarmos perante os cidadãos e perante a sociedade, a instrução habilita-nos a adquirir diversos conhecimentos que melhor podem ajudar a nossa vivência na terra. São, pois, duas palavras que se complementam, mas que nem sempre andam de braço dado.
Assim como há pessoas ignorantes muito bem-educadas, há também gente muito sabedora, mas que, de educação, nem rastos!... E, infelizmente é essa classe que constitui hoje a maioria da nossa sociedade.
É sabido que tanto no capítulo da instrução como no da educação, o País está a atravessar um período bastante conturbado em que os defeitos, as carências e o desleixo são por demais conhecidos.
As crianças, desde que nascem são, por natureza, irrequietas. Por isso, se desde a mais tenra idade as suas travessuras não forem devidamente acompanhadas e controladas, arriscamo-nos a formar seres defeituoso que poderão mais tarde ser prejudiciais não só à sociedade como também a si próprios.
Sem pretender entrar no campo fácil de dar conselhos, já por várias vezes aqui tenho dito nada ter contra a irreverência dos jovens e compreendo, perfeitamente, a insegurança e a incerteza que cada vez mais lhes marca o panorama da sobrevivência.
Mas ser irreverente não é manifestar comportamentos reprováveis que muitas vezes ferem susceptibilidades, sobretudo daqueles, a quem, pelo menos, devemos um mínimo de respeito. Abordando especificamente o capítulo da educação, no meu entender, certos pais, são os principais culpados dos deploráveis comportamentos com que diariamente deparamos e que são protagonizados pelos seus "mimados" filhinhos em que a má educação se revela no mais insignificante gesto ou atitude.
Pode o menino ser um prodígio, um "crânio”, mas se não tiver educação, não passa disso mesmo, isto é, falta-lhe o verdadeiro sentido de viver e de conviver. As crescentes exigências da avassaladora e perigosa sociedade de consumo, nada têm a ver com o percurso natural da existência, pois ele é o regulador de incontroláveis anseios e até de sonhos de grandeza irrealizáveis que a nada conduzem e que, pelo contrário, atrofiam o verdadeiro sentido de viver.
Torna-se cada vez mais premente a necessidade de conciliar esses dois “ingredientes” pois só dessa união resultará a formação de indivíduos aptos a cumprir os seus deveres como cidadãos íntegros, civilizados e responsáveis.




sábado, janeiro 02, 2016

O MEU NOME É "DOIS MIL E DEZASSEIS"


O meu nome é “Dois mil e dezasseis”

Nasci há pouco. E foi um nascimento difícil. E muito longo… Os quatro Esculápios que assistiram ao parto perderam muito tempo até chegarem a um consenso quanto à minha vestimenta política, pois como era canhoto e só havia indumentárias para destros, a confecção demorou o seu tempo.
Não sei ainda como, nem qual vai ser o meu percurso, pois os dozes envelopes com o itinerário, mantêm-se fechados e, cada um deles vai ser aberto apenas no final de cada mês.
Quer isto dizer que nasci com os olhos fechados e que irei abri-los, lentamente, à medida que os meses forem chegando ao fim…
Desde já apelo aos que nos governam para que reflictam sobre o momento crucial que o Mundo atravessa presentemente. Apesar de nada estar ainda perdido, é tempo de prevenir, de acautelar e de não facilitar.     
Nesta nossa velhinha Europa, que foi berço de civilizações, reina hoje a confusão e sucedem-se as indefinições. De nada têm valido as constantes cimeiras, encontros, acordos e compromissos. No sistema de relações entre Estados e Povos flutua numa nuvem de incertezas e inseguranças cujos contornos se apresentam impossíveis de delimitar. Este latente mal-estar geral de que nos dão conta todos os dias os meios de comunicação vem aumentado progressivamente a frustração das massas sociais, que estão desiludidas pelo não cumprimento das promessas que lhes foram feitas.
Por desconhecimento político ou outro, pensaram certas elites que a solução passava por juntar num único ramalhete o modo de ser e de estar de cada Povo, aplicando a todos as mesmas regras, tornando assim mais fácil a resolução dos problemas de cada um deles!
Como se tem verificado essa solução não se apresenta do mesmo modo e com as mesmas implicações a todos os povos. Assim acontece com Portugal, pois essa união não se apresenta aos portugueses da mesma maneira que aos alemães, franceses ou outros.
No estado nada animador em que Portugal se encontra, e apesar dos optimismos fáceis dos que, a tempo, souberam acomodar-se não é tempo para ilusões. O “deixa-andar” pode ser cómodo, mas é perigoso e a acção impõe-se com uma urgência que cresce todos os dias.
Todos sabemos que estamos a ser colonizados por povos sem história, mas com alto grau tecnológico. Estamos a ser vítimas dos fanáticos do materialismo.
Por tudo isso e sem deixar de cumprir quaisquer internacionalismos assumidos, se quisermos continuar Portugal está na hora de todos fazermos  um sincero e profundo apelo ao “sentido do nacional”.
A História nem sempre é feita de fatalidades. Ela deixa sempre uma margem – embora estreita- de escolha e de decisão.

 

FELIZ ANO NOVO


 

FELIZ ANO NOVO
Sincera ou hipocritamente, é de bom-tom, no começo de cada Ano, quer por intermédio de um postal, quer verbalmente, desejarmos uns aos outros, muitas felicidades e muitas coisas boas.
Não tenho dúvidas de que quando os nossos tetravôs criaram este hábito lhe tivessem vestido um manto branco, ornamentado com pérolas de pureza e de sinceridade. Não duvido...
Porém, à medida que os anos foram passando, as nódoas foram maculando a túnica e, de branco, de pureza, e de sinceridade, pouco ou quase nada resta. Aliás, o mesmo tem acontecido a muitas outras práticas antigas que se têm vindo a abastardar, desaparecendo depois, envoltas na poeira levantada pela correria desenfreado do progresso.
Mas apesar disso, e com a teimosia e desfaçatez que caracterizam o homem deste fim de milénio, e arrastados que somos, também, por essa onda que a todos envolve, continuamos a observar os mesmos ritos, num faz-de-conta muito bem conseguido, onde não faltam os escritos laudatórios, os sorrisos amarelos e as hipócritas e, por vezes, as bem assentes palmadinhas nas costas. Tudo exibido e exteriorizado num cenário a condizer, isto é: um cenário com pinceladas de falsa emoção onde não faltam salpicos de ironia, e uns borrifos de solidariedade à mistura. É assim que manda a praxe! Ou, dito por outras palavras, - e, se quisermos ir beber a inspiração à fonte inesgotável das acrobacias da política - é assim que manda "o tradicionalmente correcto".
Nesta época de transformações que estamos a atravessar, em que interessa mais mostrar o que queremos parecer do que aquilo que, na realidade, somos, nada melhor que esconder sob o manto espesso da hipocrisia a nossa verdadeira identidade. E daí esta febre de disfarçar com figuras e palavras a ruindade que nos vai na alma... FELIZ ANO NOVO!...
Frase e desejos que depois deste intróito um nadinha cínico, os leitores não vão aceitar com certeza. E têm razão. Aliás, "Em um Mundo tão avarento de bens, onde apenas se encontra com um bom-dia, ter obrigação de dar bons-anos, dificultoso empenho! E na minha opinião cresce ainda mais esta dificuldade, porque isto de dar bons-anos, entendo-o de diferente maneira do que comummente se pratica no Mundo. Os bons anos não os dá quem os deseja, senão quem os assegura. A quantos se desejaram nesta vida, a quantos se deram os bons anos, que os não lograram bons, senão mui infelizes? Segue-se logo, própria e rigorosamente falando, que não dá os bons anos quem só os deseja, senão quem os faz seguros..."
São palavras do Padre António Vieira proferidas no Sermão dos Bons Anos, pregado na Capela Real em Lisboa no ano de 1642. Não transcrevi o excerto acima, com o intuito de arranjar apoios ou desculpas para o que escrevi no começo. Se citei o nosso ilustre orador isso ficou a dever-se a uma pura coincidência. É que, presentemente, são "Os Sermões" que ocupam a minha mesa-de-cabeceira. E porque sou também um dos "infectados" com o vírus da síndroma do "tradicionalmente correcto", aqui reforço os meus votos. A vós, leitores, a escolha de os aceitarem ou não.

É NATAL!...


É NATAL!...

E cada vez o Natal é menos Natal!
Bem sei que nem todos estarão de acordo comigo, mas o verdadeiro Natal, aquele Natal humilde e silencioso, o Natal do Menino Jesus desapareceu.
O que se festeja em seu lugar é o homem que a Coca-Cola vestiu de vermelho, com um gorro a condizer, umas barbas brancas, um saco às costas e um nome – “Pai Natal”!...
O “outro” Natal, o do Menino Jesus, não se coadunava com a operação comercial e consumista que todos os anos dá origem a esbanjamentos desproporcionados!
Não vou, por isso, falar de Natal, mas contar-vos uma espécie de parábola -  a das  quatro velas.
Na Igreja da minha aldeia há uma coroa – a Coroa do Advento. Nela há quatro velas que ardem lentamente. Quando há dias lá fui rezar, era tal o silêncio, que pude ouvir o que diziam umas às outras:
Disse uma:
«Eu sou a Paz, mas as pessoas não conseguem manter-me acesa e penso que em breve eu me apagarei…»
A chama foi diminuindo pouco a pouco até que se apagou.
A segunda disse:
«Eu sou a Fé, mas, infelizmente, eu sei que estou a mais. Ninguém quer saber de mim. Portanto não vejo motivo para que continue a alumiar quem não quer ver…»
Entretanto, a porta abriu-se, uma leve brisa soprou mais forte e a vela apagou-se!
E, então, disse a terceira, tristemente:
«Eu sou a solidariedade e o Amor, mas não tenho força para continuar acesa. As pessoas não me ligam e não compreendem quanto sou importante – ser solidário, amar a Deus, ao próximo, tudo isso esquecem…»
E sem mais, a chama extinguiu-se.
De repente, pela porta semi-aberta, entrou uma criança. Quando viu as três velas apagadas, exclamou: «Mas o que é isto? Vocês deveriam estar todas acesas. Quem vos apagou? …» E começou a chorar.
E então a quarta vela falou, e disse:
«Não chores! Enquanto eu conservar a minha chama, poderei sempre acender as velas que se apagaram… Eu sou a Esperança!»
Ouvindo isso, a criança, com os olhitos ainda húmidos, mas brilhantes pegou na vela da esperança e acendeu as outras…
Que a esperança nunca se apague, e que cada um de nós saiba ser essa ferramenta que a criança necessita para manter bem acesas as velas da Paz, do Amor, da Fé e da Solidariedade!  
Bom Natal para todos.

 

TODOS IGUAIS


Todos iguais
Quando se atinge uma certa idade, acontece com frequência lembrarmo-nos de factos passados há muitos anos e esquecermo-nos de episódios da véspera. A ciência tem uma explicação para isso, mas como não tenho espaço, nem conhecimentos para entrar em detalhes, vou directo ao assunto...
Quando há dias, por intermédio do meu pequeno ecrã, assistia à reposição da conhecida comédia " As Traquinices da Democracia", lembrei-me de um livro que li há muitos anos e que foi escrito, salvo erro, por um filólogo japonês. Segundo ele, na origem da maioria dos conflitos ideológicos, estão a incerteza e a diversidade dos conceitos atribuídos por uns e por outros às palavras com que se exprimem. É verdade... Muitas vezes basta substituir uma palavra por outra, até por um sinónimo, menos débil ou mais forte, para que os efeitos produzidos sejam diferentes e até mesmo opostos.
O caso mais flagrante é o de dois pacatos e discretos substantivos que entraram no vocabulário de várias línguas com a humilde função de designar uma posição apenas de espaço em relação a outra coisa. São eles, esquerda e direita. Situar-se "à esquerda" ou "à direita", não implicava, no começo, qualquer significado especial, salvo no caso cerimonial em que ficar à direita da pessoa que recebe, era prova de maior consideração do que ficar à esquerda. Mas veio depois a deturpação. E de longe... Parece que de finais do século XVIII, das sessões da Convenção francesa, em que, na Sala da Pela, os Jacobinos (de ideias mais avançadas) se sentavam à esquerda dos Girondinos, (mais moderados) que se sentavam à direita. Daí teria surgido o significado político de "direita" e de "esquerda".    
De então para cá o verdadeiro significado das duas palavras foi adulterado, politizado, o que nos leva hoje a poder afirmar que se trata de um verdadeiro fenómeno de propaganda política. Fenómeno, porque, por mais que tentemos, não conseguimos determinar com exactidão, e na prática, nem onde acaba a esquerda nem onde começa a direita. Uma confusão levada da breca!...
E como tudo na terra gira à volta de convenções, lá se convencionou que os da "esquerda" eram uns patifes, uns salafrários, enquanto os da "direita" eram uns "gajos porreiros", bonacheirões, conservadores e amantes de tudo o que é bom! Intelectuais... só na esquerda! Na direita apenas "atrasados mentais," saudosistas bolorentos, cheirando a naftalina...
A princípio, a coisa resultou. Mas depois... Depois, a velha máxima, "todos diferentes, todos iguais", tornou-se uma realidade. E tantos os patifes e salafrários da esquerda como os bonacheirões e bolorentos da direita, começaram todos a afinar pelo mesmo diapasão, e a lutar pela mesma causa... Uma causa em que, por enquanto, a bandeira ainda ostenta, no meio, um símbolo dourado do  EURO…
Costuma dizer-se que a política é a segunda mais velha profissão do mundo. Mas não acham que é muito parecida com aquela que dizem ter sido a primeira?

 

  

A GENEROSIDADE DOS QUE MENOS TÊM

A generosidade dos que menos têm

Participei, mais uma vez, como voluntário, na campanha de recolha de alimentos promovida pelo Banco Alimentar contra a Fome.
Pude, durante essas horas, confirmar e reforçar a ideia que tinha acerca da generosidade do nosso Povo!
É comovente presenciar alguns casos e é com um certo incómodo e até com uma espécie de sentimento de vergonha interior que assistimos a gestos de altruísmo de pessoas que não conseguem disfarçar a limitação dos seus recursos e que nos dão lições de solidariedade partilhando o pouco que têm com aqueles que nada possuem!
É inegável que vivemos momentos complicados. Momentos terríveis. Momentos de incertezas, de angústias, momentos de crise… Mas, apesar disso, de onde vem esta capacidade de ser solidário, este sentimento de partilha que envolve esta gente e a leva a repartir parte dos seus poucos recursos com os mais necessitados?
O que representará como privação e sacrifício para aquela velhinha o facto de abdicar de uma lata de atum, das três que comprou, e que depositou no carrinho da recolha de donativos?
E que lição tirar do gesto daquele idoso, vergado pelos anos, aparentando uma vivência pouco desafogada, entregando um pacote de arroz, e desculpar-se a seguir, como que culpado de qualquer crime cometido, por não poder dar mais?
São estes e outros exemplos que nos fazem meditar e que nos levam a concluir que, afinal, não somos aquilo que deveríamos ser e que muitas vezes, o nosso altruísmo não passa de um mero gesto de hipocrisia à intenção dos que nos rodeiam.
São estes e outros exemplos que nos mostram que não precisamos de ter muito para dar e que muitas vezes vivemos apenas para fora, aparentando qualidades e dons que não possuímos.
Não é possível ser feliz quando, ao nosso lado, estão aqueles que o não são. Todos têm direito ao bem e só a felicidade partilhada é fonte de festa e de alegria. O verdadeiro amor está no facto de dar o que se não tem. E foi isso que muitas vezes me foi mostrado, nesse dia, ao longo das horas em que fazia o meu voluntariado. Por mais anos que vivamos, a Vida está constantemente a dar-nos ensinamentos e a mostrar-nos que temos sempre muito que aprender... Extraordinários exemplos de fraternidade, de entreajuda, de entrega, de partilha e de verdadeira solidariedade!
Que belas e marcantes lições dessas gentes, deste Povo com pequenos recursos, talvez de cultura rudimentar, mas de tão grandes corações!

 

 

 

 

"PORTUGAL, HOJE ÉS NEVOEIRO"


«Portugal, hoje és nevoeiro...»
«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer-
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Portugal, hoje, és nevoeiro...

É a hora!»

Fernando Pessoa escreveu sob o título "Nevoeiro" o poema que acabais de ler. Li-o pela primeira vez, longe da Pátria, por altura do 25 de Abril de 1974, num livro enviado por um amigo que o sublinhou com tinta verde...
Reencontrei-o agora e voltei a lê-lo. E, coisa curiosa: talvez por obra do tempo... da tinta - verde que era - apenas uma mancha baça enquadra os versos!
Parece que é sina nossa. De tempos a tempos acreditamos ainda que D. Sebastião vai chegar rodeado por uma auréola de justiça.
Porém, os tempos mudaram! Os santos também fazem greve, acabaram-se os milagres, e Portugal continua a entristecer e...
«Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.»
Portugal é um país de resistentes e estas cogitações vêm-me à memória quando penso no país que nos querem impor... O povo sente-se desprotegido face a um Estado que tudo lhe exige e nada lhe dá em troca. No Portugal profundo, no país real, no interior, instala-se a desconfiança. Confrontada com tanta impunidade e tanta injustiça, esta gente simples não confia mais nos homens do leme. A tirania dos abutres abafa o grito dos pacientes que, apesar de tudo, ainda não perderam a fé. Mas a paciência vai-se esgotando e a revolta começa já a inflamar os mais pacíficos...
«Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Portugal, hoje és nevoeiro ...»

ESQUERDA VOLVER


 Esquerda, volver!...

Há muitos, muitos anos, e embora já se não note por fora por causa da ferrugem acumulada nas dobradiças, também assentei praça.
Bons tempos, esses, os do curso de milicianos, no antigo “Lanceiros 2” na Calçada da Ajuda, em Lisboa. 
Na altura havia ainda poucos esquadrões motorizados e o de Lanceiros 2, o Esquadrão a cavalo, era uma “tropa a sério”. Quer chovesse quer fizesse sol lá íamos para Monsanto. Os exercícios eram bastante violentos, os instrutores não brincavam em serviço, e não eram nada meigos.
A malta do Quartel de Infantaria do outro lado da Calçada chamava-nos “quebrados impróprios”, porque, como diziam, quando em cima dos burros, era maior o “numerador” do que o denominador! 
Lembrei-me da frase do título, dessa “voz de comando”, a propósito da nomeação de hoje, do novo Governo, que é uma reviravolta, uma «esquerda, volver...» com tanta força e sonoridade como aquela que um dos cornetins espalhava pela “parada”, e que até fazia estremecer os vidros das velhas janelas do Quartel...
É de facto uma «esquerda, volver...» histórica, esta que começa hoje, dia 24 de Novembro de 2015!
É uma espécie de “terramoto” cujas réplicas vão ainda sentir-se por muito tempo e com intensidades muito variáveis, pois segundo as notícias, são muitas as desafinações entre o “quarteto”, o que vai dificultar a afinação da orquestra no seu conjunto. É a vida, como dizia o outro. Há mudanças de cadeiras, derrubam-se uns e entronizam-se outros!    
Mas que se desiludam aqueles que julgam ou alimentam ainda a esperança de que a “coisa” vai mudar para melhor!
Como todos sabem, quem vai governar é forte na arte de distribuir e fraco na de produzir. E para distribuir é preciso haver. E não há. Sobretudo dinheiro...
Portanto, há que trabalhar, produzir, economizar e não esbanjar. Mas será que os homens que vão governar-nos terão a noção de que o factor principal para pôr o País nos carris é o trabalho? E que para que isso aconteça, serão necessários, nos comandos, homens competentes, capazes e conhecedores da realidade? Homens íntegros, resistentes a pressões, isentos, que sirvam e não se sirvam, e cujo passado seja exemplar?
Não irão os novos governantes seguir esse maldito e já enraizado hábito político de fazer uma “varredela” a eito, uma espécie de vingança cega, e esquecer o povo, esses cidadãos anónimos que após uma vida de sacrifícios e canseiras merecem agora, no fim da caminhada, que alguém se lembre deles? E como a esperança é a última a morrer, como vaticinou Bandarra, o sapateiro: «Augurai, gentes vindouras / Que o Rei que daqui há-de-vir / Vos há-de tornar a vir / Passadas trinta tesouras / Dará fruto em tudo santo / Ninguém ousará negá-lo / O choro será regalo; / E será gostoso o pranto.»

 

             

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Papéis desbotados

Já muitas vezes vos tenho aqui falado dela, da minha velha arca. De vez em quando abro-a, remexo, folheio os papéis amarelecidos, e com as mãos também elas envelhecidas, faço uma visita ao passado.
Alguns livros por que estudei, lá estão como que a recordar esse tempo distante e diferente – uns sem capa, outros com folhas descoladas ali dormem, assistindo às modernas reformas, indiferentes ao correr do tempo misturados com papéis decrépitos, cheios de anotações e de muitas rasuras feitas com lápis de variadas cores. \Às vezes, e porque já são tantos, sinto vontade de rasgar alguns, de os queimar... Mas desisto sempre!
Eles representam os meus (já poucos) cabelos brancos, as minhas rugas, as veias salientes das minhas mãos que o tempo tingiu de castanho-escuro. Papéis amarelecidos. Fotografias desbotadas. Cartas…
«Velhas cartas…Antigas confidências…
Recordações de tudo que se quis:
Que avivam do passado as ocorrências
- E a mocidade quanta coisa diz!...

Velhas cartas… Desfile de sequências…
Devaneios que, outrora, amando, fiz,
Pois o tempo transforma em reticências
Palavra e gesto … o que me fez feliz!

Releio-as uma a uma… Que ansiedade!
Adormecido mundo que desperta,
Que me envolve no manto da saudade.

E, hoje, minha existência é tão deserta,
Que revejo o fulgor da mocidade,
Como se fosse a derradeira oferta.»
E são estes papéis sem cor – este amontoado de coisas velhas, essas sebentas rabiscadas, esse “querer” sem “crer” de outrora – que fazem com que, de vez em quando, ao sentir-me perdido e baralhado no meio de todo este turbilhão de loucuras e incertezas, me fazem subir as escadas, ir ao sótão, abrir a minha velha arca…e sonhar um pouco!
Não sou poeta, mas confesso que sou um pouco saudosista, na verdadeira acepção do termo. E as saudades são uma espécie de sonho, uma poesia abstracta... E para mim um sonho se não é poesia, é metade da realidade...