quinta-feira, junho 05, 2014

OS COBARDES E AS REDES SOCIAIS

 
Sempre gostei de pessoas com personalidade. Pessoas que não são susceptíveis de mudar por conveniência ou por interesse, que são directas, imparciais, pessoas que não usam a hipocrisia para camuflar as suas ideias.
Talvez porque muito cedo tive necessidade de encarar a vida sozinho e tomar decisões nem sempre fáceis, gosto de gente com personalidade forte, de opiniões firmes, que não se deixam manipular facilmente e que não se escondem atrás de estereótipos ou máscaras.
Não gosto de gente que viva de fingimentos, que se recuse a encarar a realidade, que confunda sinceridade com afrontamento, que se julgue dona da verdade e que use o seu pretenso poder como arma para atingir os seus semelhantes.
Gosto de gente que cultive a humildade, essa virtude hoje tão esquecida e, por vezes, até usada em sentido pejorativo, pois há gente que associa humildade a pobreza. Puro engano…
A humildade não é património de nenhuma faixa socioeconómica. Humilde é aquele que assume os seus direitos e obrigações, mas que assume também os seus erros e as suas culpas.
A humildade faz com que a pessoa reconheça as suas próprias limitações e seja, de facto, o que realmente é. A humildade é um sentimento que se adquire lentamente pelo trabalho interior. Ninguém é pior ou melhor do que os outros, estamos todos ao mesmo nível e todos podemos aperfeiçoar-nos ao longo dos anos.
Não gosto de pessoas hipócritas ou fingidas que usam a máscara conforme o papel que querem desempenhar, mas sempre no intuito de prejudicar o seu semelhante.
O hipócrita muitas vezes finge possuir boas qualidades apenas para ocultar os seus defeitos e desempemhar melhor o seu rol perante esta nossa actual sociedade moderna, hipócrita, capitalista e consumista em que vivemos e que disfarçadamente nos vai roubando a dignidade, o caracter e os restantes valores que ainda nos restam.
Todas estas considerações a propósito do lado perverso das redes sociais que permitem que gente sem escrúpulos e escondida por detrás de um nome falso tentem espanhar veneno, desvirtuando factos, adulterando ideias e desseminando boatos na intenção de criar um clima de desconfiança, de suspeição e de ódio. 
Por detrás do anonimato insulta-se, calunia-se,  manipulam-se factos e tudo para criar situações que muitas vezes geram raiva e violência. A intoxicação de cérebros sempre existiu, mas agora com as redes sociais, escondendo-se sob o anonimato, os cobardes encontraram nelas uma maneira rápida e fácil de dar largas aos seus instintos de baixeza e  de malvadez. São uma espécie de praga de difícil exterminação. Há, no entanto, que ir tantando desmascarar o maior número possível.
 

 

 

 



 

OPINIÃO PRÓPRIA


 

Este título para reforçar o conteúdo desta minha crónica de hoje e para que fique bem claro que ela explicita apenas e só a minha opinião. Usando da liberdade de expressão a que tenho direito, o meu desabafo traduz unicamente aquilo que eu próprio sinto. Quaisquer outras interpretações que dela sejam feitas são da responsabilidade de quem as fizer, que não da minha.
Trata-se da minha opinião acerca de Eleições!...Depois de tanta desilusão e de tanto arrependimento confesso que cheguei a uma encruzilhada e não sei o que fazer, não sei em que partido votar!...
E a interrogação agiganta-se à medida que os dias vão passando: Votar em que partido? Votar no partido do Governo que fez e votou uma lei que extinguiu a minha freguesia que após 27 anos, e depois de uma separação litigiosa, poderia rivalizar, no seu crescimento e modernidade, com algumas pequenas vilas do País?
Votar em qualquer partido da oposição que apesar de condenar essa lei absurda, se ficou pelas intenções e nada mais fez do que dar o seu apoio moral, mas sempre, e como diz o ditado, com “um olho no cigano e outro no burro”?  
Neste emaranhado de interesses pessoais, neste egoísmo reinante e nesta corrida desesperada em busca da conquista de um lugar ao sol atropelando na passagem os que vivem na sombra, não é fácil tomar uma decisão de acordo com a nossa consciência! 
Mas o problema não é novo… Contudo, possui, hoje como ontem, flagrante actualidade, e nunca será despiciendo analisá-lo à luz do passado e do presente par permitir fazer comparações.
Já no dizer de Almeida Garrett: «de todas as dificuldades da administração e governo de um povo, a mais difícil é a escolha das pessoas; nessa falham todos os dias os mais espertos, tão fácil é o iludirem-nos aparências, tão difícil conceituar dos homens e do seu interior, pois todos os dias há erros fatais, funestíssimos enganos.»
Além-fronteiras é um francês, Gaston Jèze, professor de direito público de renome, que nos diz «que é preciso ter muita imaginação e fechar os olhos e tapar os ouvidos para falar em vontade popular, expressa livre e claramente pelo sufrágio…»
hoje como ontem o problema mantem-se. Uns votam por gratidão, por amizade, por imitação ou por estupidez. Há outros ainda que votam por medo…medo de perder o lugar ou as regalias que adquiriram.
Como não me revejo em nenhum desses casos continuo sem saber em que partido votar…
 
 
 
 
 
 
 

 

 

sábado, maio 17, 2014

QUE DEMOCRACIA É ESTA?

 A minha crónica da semana passada tinha a ver com factos explicados na reportagem inserida nessa edição acerca da polémica que se instalou na União de Freguesias do Barreiro e Tourigo, mormente com a tentativa de dissuadir o porta-voz do “Movimento Cívico do Tourigo e Pousadas” de se pronunciar na Assembleia da Câmara Municipal.
Não vou entrar em pormenores uma vez que a referida reportagem é bem explícita quanto aos factos que motivaram o diferendo existente.
No entanto, permitam-me que transcreva um pequeno excerto do que escrevi neste Jornal em 09 de Agosto de 2012: «…) Ora sendo a totalidade das Freguesias da mesma cor política (PSD) tal como a Câmara, que detém a maioria, isso não tornaria mais fácil encontrar consenso para propor ao Governo uma solução para o concelho, em vez de receber dele o figurino com o seu corte e costura? A quem cabe a responsabilidade da inacção? Quase apetece perguntar por onde anda a Comissão Política Concelhia que detém as Freguesias? O Povo pode não ter cursos, mesmo esses da era moderna, mas não é burro.»
E agora pergunto: Que razões políticas ou outras motivaram a extinção de uma Freguesia com 600 eleitores e com todos os serviços necessários à sua continuidade? Para quem não sabe, aqui fica um “inventário” desses serviços: uma Igreja Matriz com Salão Paroquial/Casa Mortuária; uma Escola Básica; um Jardim de Infância; uma Oficina de Serralharia e Canalização; uma de Carpintaria; um Salão de Cabeleireiro Unissexo; duas Padarias- a Touricon e a Regional; um Centro Social com Apoio Domiciliário e Centro de Dia; um Centro Cultural e Desportivo com Agência de todos os Jogos da Santa Casa; uma Caixa Multibanco; um Centro Cultural nas Pousadas; um Estabelecimento de venda de leitões assados; uma Farmácia; um Restaurante; um Comércio de Mercearias e outros; um Estabelecimento de Alfaiataria com um Pronto-a-Vestir; três Empresas de Comércio de Madeiras; uma de Materiais de Construção; um Posto de venda de Combustíveis; uma Zona de Lazer com Bar, piscina e pavilhão de eventos; um Campo de futebol de onze; um Polidesportivo, Balneários bem apetrechados; uma Associação Folclórica- AFERT, que tem promovido grandes e importantes eventos com um Rancho e um Grupo de Cavaquinhos; uma Estação de Arte Rupestre no Valeiro da Ferradura…e até um cemitério onde repousam os nossos antepassados e para onde também iremos um dia.
O consenso a que então me referia foi o que está à vista – a extinção pura e simples da Freguesia sem sequer haver qualquer diálogo com as populações. Agora, politicamente, não há culpados. E se alguém reclama o que lhe é devido, ainda tentam impedir que a sua voz seja ouvida publicamente!  
Comemoraram-se há pouco os quarenta anos de Democracia. Mas qual Democracia? A do Povo ou a dos políticos?....
Manuel Ventura da Costa in Jornal de Tondela de 15 de Maio de 2014

 

 

 

 

sábado, maio 10, 2014

INDIGNAÇÃO

Continua ainda a haver muitos ingénuos que olham para os mandantes como se eles fossem uma espécie de deuses intocáveis. E refiro-me a todos eles. Desde o topo da pirâmide ao mais baixo posto de chefia.
Uma vez “investidos” no cargo, fazem-se donos e senhores da “coutada”. De repente, esquecem que somos nós – primeiro com o nosso voto e depois com os nossos impostos - que fazemos com que eles se eternizem nos lugares que ocupam. Esquecem também que as obras que fazem, somos nós que as pagamos… Daí que logicamente quando pagamos, queremos ser bem servidos. E justamente recompensados. Não com dinheiro, mas pelo menos com o cumprimento daquilo que prometeram quando os elegemos.
Não obstante haver quem bata palmas na rua e refile dentro de casa, outros - como é o meu caso - estão no seu pleno direito de, com honestidade e sem demagogias, denunciar publicamente as injustiças ou as desigualdades de que são testemunhas.
Neste lodaçal de hipocrisias e mentiras em que estamos atascados, e embora sejamos cada vez menos os que não têm rabos-de-palha, devemos saber fazer a diferença não nos deixando enganar por mercenários da política que tudo fazem para nos calar quando exercemos o nosso direito de denunciar situações que vão de encontro às suas ardilosas combinações ou mexem com planos previamente arquitectados entre eles.
Salvo raras excepções estamos a ser governados por gente vaidosa, arrogante, egoísta e interesseira, que tem em conta apenas, e só, os seus interesses pessoais.
Houve um tempo em que se dizia que antes de fazer algo de menos correcto se devia pôr a mão na consciência - nossa conselheira. Esse tempo passou e agora em vez da voz da consciência é a dos interesses pessoais que impera…
No entanto, a honra continua a ser a nossa identidade. Mesmo que seja um bem imaterial e incomparável, é também insubstituível. Perdê-la, é perder a nossa referência como seres humanos.
Já no tempo da ditadura os políticos diziam que não se pode governar contra a vontade do Povo. Foi-se a ditadura e com o advento da democracia foram muitos os que acreditaram que a partir daí se passasse da teoria à prática. Puro engano. O Povo continua a ser ignorado e ludibriado por gente sem escrúpulos.    
Hoje, por falta de espaço, não é possível exemplificar com factos uma dessas recentes e indecorosas manobras numa tentativa de fazer calar a voz do Povo. Entretanto, e por agora, aqui fica registada a minha indignação.
 

ANTIGAMENTE A ESCOLA ERA RISONHA E FRANCA

 Há dias, falando de ensino e de comportamentos, quando citei como termo de comparação a primeira frase do poema de Acácio Antunes que serve de título à minha crónica de hoje, talvez influenciada por estes ventos de Abril, grande parte dos presentes quase me amaldiçoou!
A frase, embora usada já sem aquela carga pejorativa que lhe foi atribuída por altura da revolução dos cravos, ainda não deixa, por vezes, de causar um certo incómodo pelos resquícios de verdade que ainda encerra.
Hoje, ao proferi-la em público, é-se muitas vezes rotulado de saudosista, reaccionário, velho do Restelo, fascista, e eu sei lá de que mais... E com muita razão. Digo eu...
Quando e onde é que existiu uma escola tão franca e tão alegre como a de hoje?
Quando é que ela foi tão franca, tão livre, tão aberta, tão acessível e tão porreira como a de hoje? E quando e em que reinado é que os estudantes se riam tanto, brincavam e se divertiam, à grande e à portuguesa, nas aulas?
E quando é que eles tanto se evidenciaram a berrar e a contestar como o fazem agora? E quando é que lhes foi permitido dizer tanta asneira, insultar os professores, e fazer da indisciplina uma lei?!...
Agora... Claro! Por isso, que não venham esses velhos saudosistas e carunchosos, azucrinar-nos a cabeça com essas coisas velhas e relhas da educação, do bom comportamento, da civilidade e do respeito...
Fora com esses princípios castradores tais como, o da compostura pessoal, o da disciplina, o do sentido da responsabilidade, o da delicadeza e o do respeito pelos mais velhos!
Lixo com tudo isso! O tempo em que o professor tinha a última palavra, já lá vai! Chegou finalmente "a era do aluno". Chumbar?... O mestre que se cuide!
Que importa se não se sabe somar, dividir ou subtrair? E será crime dar pontapés na gramática ou escrever chouriço com três xis?
O que esses velhos saudosistas têm é inveja! É por isso que de vez em quando se lembram de abardinar o sistema e dizer mal desta cultura da vida airada que é bué.. Hoje a malta o que quer é curtir.
E esses cotas não compreendem, porque no tempo deles era tudo uma cambada de melgas, não havia pintas. Antigamente o clima era cagativo e foleiro. Agora é baril!  E então quando a bejeca vaza quase ininterruptamente até às botifarras, é uma desbunda baril!...
Nesse dia “acusaram-me” de ser saudosista. E sou. Não no sentido ideológico que estava subjacente à “acusação”, mas sim com base na pura essência da doutrina da saudade… Isto é, no que diz respeito à educação, ao respeito e aos valores morais que me ensinaram quando pequeno.
 

 

PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA...


Nos fins do século dezassete e começos do século dezoito, os portugueses foram motivo de troça para todos os estrangeiros devido à sua mania dos óculos. O escritor, La Brue, no seu livro Voyage à Cacheu, descreve um salteador alentejano que antes de aperrar o seu bacamarte, «ata às orelhas os seus grande óculos portugueses de presilha de coiro...»
Mais escritores se referiram ao assunto e até Montesquieu, o príncipe dos impertinentes do seu tempo, escreve no seu livro, Lettres Persanes, que a importância e o carácter dos portugueses «se ostentavam principalmente de duas maneiras: pelos óculos e pelo bigode... (...) O português e o espanhol usam vidraças nos olhos porque pensam que os óculos conferem àqueles que os usam um ar de sapiência e de intelectualidade...»
Os óculos, pelo que nos contam os livros, eram como que um distintivo de superioridade intelectual, um luxo e uma maneira de ostentar qualidades que muitas vezes os seus portadores não possuíam. Uns óculos encavalitados no nariz de qualquer «palerma» ou de qualquer «estúpido» eram uma espécie de tira-nódoas ou um diploma que, numa primeira fase branqueava a incompetência, e na segunda conferia um certificado de erudição e sapiência. Falsos, evidentemente...
Esta lengalenga toda para vos dizer que comparo muito essa mania dos óculos dos séculos XVII e XVIII, à actual «moda» do «dê erre", pois por detrás dele esconde-se muita ignorância, muita vaidade, muita soberba e muita prepotência!
A doutorice é, no nosso país, uma epidemia. Qualquer técnico e seja qual for o sector profissional em que trabalha, o que ambiciona é ser tratado por doutor ou engenheiro.
Se formos para o sector público, então aí o contágio dá-se tão rapidamente que nem há período de "incubação". Há casos em que o «recruta», graças à cunha ou ao tráfico de influências, entra por uma porta e quase sem ter tempo para abotoar os botões da farda, sai pela outra já "pendurado" num dos respectivos distintivos: o de doutor ou o de engenheiro!...
Que fique bem claro que não estou a referir-me aos doutores verdadeiros, porque esses, - uns por modéstia, outros porque não querem misturas- não gostam que os tratem por aquilo que verdadeiramente são. Refiro-me, isso sim, a esses “doutoraços” incompetentes, cheios de vaidade e vazios de conteúdo, que se passeiam por aí… Fazem lembrar os balões dos arraiais de Verão – basta uma pequena subida de “temperatura” para que estoirem!
Lembram-se da fábula de La Fontaine, que conta a história do “Sapo e do Boi”?!...
 

 

 

PÁSCOA


 
Festejar mais uma Páscoa é para mim como que um presente, um favor divino, uma graça, até talvez imerecida!
Mas é também um compasso de espera neste meu peregrinar pela vida; é a concessão de uma espécie de paragem para melhor reflectir sobre o seu sentido e as razões da Fé.
Talvez porque a Natureza ajuda ou algo de mais invisível me invade, estes dias que precedem a Ressurreição despertam um sentimento de esperança e alegria que fazem com que esqueça o peso dos anos... 
É assim como que um recobrar do ânimo, um retemperar de forças, um reconforto moral, tudo consubstanciado num sincero e sentido hino de louvor e graças a Deus pela ajuda e companhia prestadas neste já longo percurso pelos traiçoeiros e sinuosos caminhos da Vida.
O mundo em que vivemos está em constante mutação e muitas vezes acossado pela dúvida, interrogo-me se será mesmo verdade que quanto mais vivemos menos sabemos!... 
O que nos ensinaram ontem dizem-nos hoje que é mentira! E se quisermos adaptar-nos a essa nova "filosofia", temos que esquecer quase tudo o que nos ensinaram ou aprendemos. Eu, por mim, não quero! E não quero porque são muitas as contradições e poucas as certezas...
É por isso que, constantemente me esforço por fazer uma adaptação controlada sem, contudo, cortar as amarras que me ligam aos valores tradicionais da honra e da moral que me moldaram e que me fizeram chegar até aqui sem desonra e com muito orgulho.
E é, sobretudo, nestes dias e momentos diferençados, - mais convidativos a uma profunda e séria reflexão - que encontro na Fé a força para continuar e a certeza de que continuo no caminho certo.
A Páscoa é o tempo de criar espaços de amor e perdão; é o tempo de nos sentirmos o irmão de cada homem e de tentar tornar a vida mais humana. É também a quadra apropriada para um balanço, uma avaliação do nosso procedimento para com os outros: todos erramos, todos cometemos ofensas. Há que assumir o mal que fazemos e perdoar com humildade, sem rancor ou ostentação. O mundo em que vivemos está cheio de falsos pregadores e de vilões disfarçados de santos. Os tentáculos da hipocrisia não cessam de se estender e, muitas vezes, assiste-se à prática de uma "religião" onde a vaidade e o espectáculo usurpam o lugar reservado ao recolhimento e à devoção. No entanto, para quem já viveu a verdadeira experiência da Fé, nada disso a enfraquece, e o Mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, reforça-a ainda mais.
 
 

ESTE PAÍS É BOM PARA QUEM?


 
A frase é frequente, e raro é o dia em que não a ouçamos nas suas duas versões – uma referindo-se a velhos e outra à geração mais nova.
Enquanto uns afirmam que o País não é para velhos, outros dizem o mesmo em relação aos mais jovens… Mas afinal, em que ficamos? Para quem é que este País é bom?  
Há dias, quando matutava no assunto, eis que, de repente, - como raio de sol que espreita por uma nesga de uma nuvem negra- um jornal diário dissipou as minhas dúvidas e obtive a resposta.
E só não disse Eureka, porque sou contra plágios e estrangeirismos e também porque não quis perturbar o sono eterno do sábio grego. E exclamei para com os meus botões: Achei!...Finalmente descobri para quem este País é bom…
Este País é bom para os que mandam, para os que os acompanham e sobretudo para todos os ex-governantes e afins. Para esses, Portugal é um paraíso terrestre.
Catrogas, Cardonas, Pereiras, Penas, Pintos, Macedos, Mateus, etc., etc., são alguns desses privilegiados que lá do alto dos seus chorudos salários contemplam com indiferença esses milhões de pessoas que tentam sobreviver com ordenados e pensões de miséria.
Dos sete, se tomarmos como exemplo o ex-ministro Catroga que auferiu em 2013 um salário mensal de cerca de 35 mil euros, facilmente encontraremos a razão pela qual chegámos à situação em que nos encontramos. Mas, e infelizmente, há ainda muitos outros a receber quantias exorbitantes como é o caso dos gestores de várias Empresas do Estado.
Como é possível tanta injustiça? Como é possível deixar que muitos morram de fome e outros ganhem salários de nababos?
Como conseguem viver os que trabalham e ao fim do mês recebem o salário mínimo ou os idosos que auferem uma pensão mensal que não ultrapassa os 300 euros?
Qualquer generalização é injusta e até odiosa, Mas é impossível não ficarmos indignados perante tamanho insulto aos milhões de pobres que tentam sobreviver por esse País fora.
Estamos fartos de ouvir falar de solidariedade e verificar que na prática a palavra é apenas uma figura de retórica, usada pela classe política para emoldurar os seus longos e ocos discursos.
Esses ícones de um Mundo irreal e injusto que a máquina-política guindou ao pódio – muitas vezes sem esforço próprio ou merecimento justificado- deveriam ter um pouco mais de dignidade e de nobreza. Mas não têm. Hoje vivemos num mundo de famosos, de heróis fictícios, alguns falsos, fabricados pela política e pelos órgãos de comunicação social.
E é para muitos desses que Portugal é bom!...

 

 

 

 
 
 

 

UM CONSELHO A DONA TEODORA


 

Não conheço a Senhora de nenhum lado. Por isso não lhe quero mal, não vou insultá-la, não vou contrariá-la, nem tão pouco a vou criticar. Dona Teodora não é culpada,porque quando propôs a criação de uma taxa a incidir nos levantamentos de dinheiro de contas onde os cidadãos recebem os salários e as pensões, estava em êxtase. Não estava cá...  
Presumivelmente estava envolta numa aura beatífica, um daqueles momentos místicos, a que só os escolhidos conseguem elevar-se!
E voava! E, em círculos, como águia que espreita a presa no solo, só alcançava pequenos seres indefesos, vulneráveis, que nada podiam contra as suas aduncas garras. Mas voava sobre territórios longínquos…
Voava muito longe do País em que há mais de dois milhões de pobres; mais de 700 mil famílias que não conseguem pagar os seus empréstimos à banca; mais de 500 mil pessoas com os salários penhorados e segundo um inquérito recente do Instituto Nacional de Estatística, onde há 1.961.122 casos de pessoas actualmente no limiar da pobreza!
A Dona Teodora estava noutro País. Num País muito longínquo, num país-paraíso. Num País onde não falta o dinheiro. Onde a população é constituída apenas por “filhos da pátria” - Ministros, Directores Gerais, Deputados, Assessores e Afins. Um País em que todos os dias é “sábado à noite”, sempre em festa, em que não há preocupações; num País de privilegiados que ao fim de 3 ou seis anos, os mandantes têm uma reforma choruda, enquanto um cidadão do outro, tem de trabalhar 40 anos, para ter uma pensão de miséria; num País em que os Ministros, Assessores e Afins têm salários principescos e benesses inimagináveis, enfim, num País em que apenas os esbanjamentos dariam para matar a fome a milhões de pessoas!
E aqui estão dois Países diferentes. O primeiro que é o real e o segundo, que é o da realeza, aquele em que levita Dona Teodora.
E foi no segundo que ela se baseou para fazer a proposta, profetizando que “seria um incentivo à poupança”…Talvez no País dela, porque no real não há dinheiro para comer quanto mais para constituir qualquer pé-de-meia!
Dona Teodora acha que a ideia é excepcional e que não “existe em lado nenhum…”
Que lhe faça bom proveito e apresse-se a registar a patente dessa sua ideia tão brilhante, quanto injusta. Mas permita-me, Dona Teodora, que lhe dê um conselho: combine com o seu motorista e venha conhecer o País real. Venha ver com os seus próprios olhos como sobrevivem aqueles a quem quer agravar ainda mais a situação de miséria em que vivem.
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, abril 23, 2014

UMA CAMINHADA DE SESSENTA E TRÊS ANOS!...


Mais um ano nesta caminhada a dois. Dia 14 de Abril de 1951 – 14 de Abril de 2014 – sessenta e três anos! Logo no inicio do caminho fomos implantando marcos para assinalar a nossa passagem - primeiro dois, que depois se multiplicaram e hoje, juntos, fazemos catorze. Sessenta e três anos! É muito tempo! É muito caminho andado. Graças a Deus, sem grandes ou nenhuns percalços. Que para o ano estejamos como hoje é o que pedimos a Deus

domingo, abril 13, 2014

UM CONSELHO A DONA TEODORA

DA EDUCAÇÃO E BOAS MANEIRAS


 
Como terão já deduzido através dos meus arrazoados semanais, não simpatizo muito com gente arrogante, sobretudo com alguns daqueles a quem concedemos o “estatuto” e que através dos nossos impostos lhes pagamos o salário e outras coisas mais…  
Há por aí gente a ocupar cargos e a polir o assento de certas cadeiras, cuja educação e boas maneiras são coisas que nunca lhes ensinaram ou que não quiseram aprender.  
Não pensem que estou a reclamar ou pedir tratamento especial. Estou a falar como povo que sou. Completamente despido de quaisquer outros predicados ou funções que em certas ocasiões possa ter ou representar. Há na sociedade normas mínimas de convivência que devem ser respeitadas e há também maneiras de estar e de proceder que não devem ser esquecidas, mormente e como acima disse, por aqueles para quem uma quota-parte dos nossos impostos serve para no fim do mês lhes pagar o salário. Que muitos nem merecem…
Não sei quem disse uma vez que a educação e as boas maneiras constituíam uma vitória sobre a animalidade. Houve mesmo quem lhes chamasse uma espécie de “civilização de costumes.”
Além de se ostentar o rótulo de civilizado, de doutorado ou de outro qualquer produto desta nova sociedade, é necessário também possuir, ainda que minimamente, uns polvilhos de boa educação.
Ela é, indubitavelmente, uma estrutura social que serve de base ao estreitamento das relações entre os homens. E é ela que não deixa e se opõe a que o social se sobreponha ao individual. Por mais que se seja, há sempre que respeitar o outro que não é!...
É essa a regra do saber viver em sociedade, de conciliar o civilizado com o educado, que faz com que nasça e se forme o verdadeiro membro duma sociedade equilibrada, humanizada e moralmente completa. A educação e as boas maneiras constituem, ao mesmo tempo, um código da comunicação entre os homens.
Há quem não faça caso dessas “funções sociais”, mas o certo é que sem o seu cultivo e sem a sua prática, a civilidade em breve cederá o lugar à incivilidade que por sua vez fará com que a civilização se transforme em animalidade. Talvez pareça exagerada esta minha maneira de encarar o papel das relações humanas tomando-as como alicerce da educação e das boas maneiras. Mas é bom que não esqueçamos que é da mistura desses dois ingredientes que nasce a humildade. E ser humilde para além de ser uma virtude, é uma das características das grandes personalidades.
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, abril 06, 2014

domingo, março 30, 2014

HOMENS ILUSTRES DO TOURIGO

 
Padre Inácio Ferreira Viegas
 “ (…) De 1900 a 1910 instituíram-se escolas masculinas em Botulho, Muna, Ermida, Tondela, Sangemil; escolas femininas em Mouraz, Parada, Sangemil, Janardo, Vilar, Muna, Guardão, Múceres e Tondela, e escolas mistas em Tourigo, Muna, Alvarim, Póvoa de Rodrigo Alves, Ribeira, Várzea de Lobão e Fial22.
Para além do ensino público, ensinava-se, também, em casas e escolas particulares – no Barreiro, pelo Padre Inácio Ferreira Viegas; em Tondela, no Externato Tondelense, pelos professores José Lopes Coelho, José Gonçalves da Cruz e João Martins de Almeida23 e, mais tarde, na casa da professora Maria da Encarnação Ramos, onde se ministrava não só o ensino primário como, em alguns casos, a preparação para a admissão aos liceus e ao magistério. (…)”
In “O Ensino das Primeiras Letras no concelho de Tondela, 1772-1910 – António Manuel Matoso Martinho
 
O Padre Inácio Ferreira Viegas, o Padre Mestre, como era conhecido, esteve à frente de um Colégio aqui no Tourigo – o Colégio do Padre Mestre - que funcionou na casa do Cónego Maximino, casa que ainda existe embora tenha sido sujeita a algumas modificações arquitectónicas. Inácio Pereira Viegas era “um dos Padres-Mestres mais eruditos e mais acreditados em toda a Beira junto do qual fizeram os seus estudos preparatórios jovens estudantes que mais tarde se notabilizaram.
Nessa casa estiveram também, em 1970, as religiosas da Ordem da Imaculada Conceição – Irmãs Concepcionistas.  

HOMENS ILUSTRES DO TOURIGO


HOMENS ILUSTRES DO TOURIGO

 
Dr. Maximino de Matos Carvalho
 Para enriquecimento da História do Tourigo, recordamos aqui um outro ilustre touriguense, doutorado, que na segunda metade do século dezanove também se distinguiu e deu aulas de Medicina na Universidade de Coimbra.
Referimo-nos ao médico Maximino de Matos Carvalho, que foi Lente nessa Instituição de Ensino Superior como reza a lista de “Lentes” dessa época. O termo “Lente” já era usado na altura da fundação da Universidade em Portugal e é sinónimo de Professor Catedrático, correspondendo ao topo da carreira docente universitária.
Maximino de Matos Carvalho era irmão de D. José Manuel Carvalho que foi Bispo de Macau, Timor e Angra do Heroísmo e também natural da nossa aldeia de Tourigo.
 

HOMENS ILUSTRES DO TOURIGO

 
 

Bispo D. José Manuel de Carvalho: 1844-1904

 

D. José Manuel de Carvalho (1844-1904), foi o 18º Bispo de Macau (1897 a 1902). Nasceu no então lugar de Tourigo (Tondela), concluiu o curso do Seminário em Viseu e foi ordenado sacerdote em 1867. Na Universidade de Coimbra formou-se em Direito no ano de 1871 sendo depois professor do Liceu e no Seminário daquela cidade.
Por iniciativa do conselheiro Jacinto Cândido da Silva, então Ministro da Marinha e Ultramar e antigo colega universitário, foi apresentado a 4 de Fevereiro de 1897 para o lugar de bispo de Macau. Foi confirmado para o lugar por breve do papa Leão XIII datado de 19 de Abril de 1897. Foi sagrado a 29 de Agosto daquele ano, embarcando seguidamente para Macau. Durante o seu bispado, dividiu Timor Português, naquela altura dependente da Diocese de Macau, em dois missões centrais ou vicariatos gerais (Lahane e Soibada), em 1900. Nesse mesmo ano, consagrou a diocese ao Sagrado Coração de Jesus. Apoiou as actividades religiosas, educacionais e assistenciais oferecidas à diocese pelas Filhas Canossianas da Caridade, que se expandiram para Hainão em 1901. Abriu uma nova missão portuguesa em Heung-shan. Tanto Hainão como Heung-shan, que eram territórios chineses livres da ocupação portuguesa, estavam sob jurisdição eclesiástica da Diocese de Macau. Regressou a Lisboa por motivos de saúde, onde chegou a 8 de Abril de 1901, seguindo depois para os Açores. Morreu em 1904.

in Boletim Diocesano de Vizeu, Agosto de 1897 (reproduzido no jornal Eco Macaense 27.02.1898)

 

sexta-feira, março 21, 2014

À GUISA DE PARÁBOLA


 
Era grande a confusão que se vivia em todo o País e numa reunião de emergência com o Monarca e os seus conselheiros, Apístolas, que era o mais velho e o mais sábio, levantou-se e disse:
«- Majestade! Vós que tendes o poder, porque não dissolveis o Palratório dos “Duzentos e Trinta”?
Porque não punis os seus membros por terem traído os sermões que fizeram? Não foram eles que transformaram o Reino numa espécie de Jardim Zoológico?
Então, em vez de homens, por que não escolheis dentre essa bicharada, três deles? Por exemplo, um macaco, um papagaio e um burro?
O macaco emite sons incompreensíveis, sem nexo gesticulando continuamente; o papagaio repetirá as suas parvoíces e o burro limitar-se-á a abanar as orelhas e a acenar com a cabeça numa imitação flagrante dos vossos contribuintes…»
E perante a perplexidade do auditório, Apístolos continuou:
«- Indo as coisas do Império tão mal, a situação não piorará com a nomeação de um símio, de um psítaco e de um solípede. Se os homens políticos nada valem, nada fazem, mas são vingativos, por que não os substituir por outras criaturas sem valor, mas inofensivas?
Vede como os homens escolhidos pelo povo para defender os seus direitos traíram a sua confiança, desbarataram enormes somas de dinheiro e agora à míngua de reservas, escravizam esse mesmo povo, tirando-lhe o pouco que ainda lhe restava. Vede como o nosso património está a ser vendido ou hipotecado em troca de mais dinheiro para que essa tribo de homens sem profissão continue a viver sem trabalhar, a comer à tripa forra, a gastar sem limites, sujeitando o povo às mais desumanas e miseráveis condições de vida. A agricultura e as indústrias, essas fontes sólidas de riqueza, chegaram à última decadência. O povo mais jovem emigra, mas o mais velho, porque não pode, sobrevive, afrontando dificuldades sem fim. Os embaraços do tesouro aumentam, avolumando-se a dívida pública. Os efeitos morais de toda essa situação não foram nada benéficos e o ócio, o luxo e a corrupção instalaram-se em todo o território. 
Por tudo isso, Majestade, pensai na alegria do vosso Povo se tomardes essa decisão. Os vossos bons e leais súbditos abençoar-vos-ão por os terdes livrado dessa praga que quase ensandeceu o Reino…»
E então, a multidão, surpreendida pela ousadia de Apístolas grudou os olhos na boca do “todo-poderoso” esperando a reacção àqueles sábias palavras… Entretanto, a porta abriu-se e três homens vestidos de negro, pertencentes à “TRÍADE”, entraram no areópago, prenderam Apístolas e condenaram-no às galés... E assim, o medo calou o povo!
Com tudo isso, diz ainda o cronista, os vícios constitucionais amoleceram a têmpera das antigas virtudes e até o patriotismo acabou por se estiolar, levando os súbditos a admitir, sem qualquer relutância, a perspectiva de uma submissão a outro qualquer país estrangeiro. 
 
 
 

RAIZES

 
Hoje lembrei-me de meus Avós maternos: de minha Avó Umbelina e de meu Avô Ezequiel. Não me perguntem porquê. Não sei explicar….
E recreei aquele quadro que tantas vezes vi: os dois sentados na cozinha onde, na lareira, três panelas de ferro, daquelas antigas, com três pés, ferviam. De uma delas escorria, pelo seu bojo, uma espécie de baba, que apagava as brasas quando chegava à pedra da lareira.
Minha Avó, tenaz em punho, apanhava-as e metias num pote de barro preto que estava junto a uma arca onde se guardava a lenha. Terminada a recolha de todas as brasas, minha Avó punha o testo na panela e, como é evidente, elas apagavam-se e ficavam de reserva para, no dia seguinte, serem novamente utilizadas juntamente com outra lenha. No poupar é que vai o ganho…
Num canto, uma trempe que servia para suportar a frigideira quando havia qualquer coisa a fritar e uma vasilha em barro preto, a chocolateira, como lhe chamavam, para fazer o café. Café que era uma mistura onde predominava a cevada. Era interessante como a Avó preparava a beberagem: enchia o recipiente de água, punha ao lume e quando estava prestes a ferver, deitava duas colheres da mistura, metia uma brasa incandescente dentro, tirava, esperava que a borra assentasse no fundo e estava o café pronto a ser bebido!    
Meu Avô cofiava as suas compridas barbas brancas e parecia absorto na contemplação das espirais de fumo que subiam, rodopiavam e desapareciam depois pela velha chaminé. A seus pés, a Cartuxa, a gata já velhinha, dormia tranquilamente.
Numa saleta contígua à cozinha havia uma enorme mesa antiga com uma grande gaveta onde se guardava a broa e, por vezes, num prato, um pedaço de entremeada de porco, com muita gordura e que era um dos manjares de meu Avô. E com que satisfação ele saboreava o petisco. Chegava do quintal, dirigia-se à saleta, cortava uma fatia de broa e um naco de carne com o seu canivete que sempre o acompanhava, sentava-se no escabelo já todo picado do caruncho e dava gosto, então, vê-lo deliciar-se com o manjar, regado com uma caneca de vinho da sua lavra!
Levantava-se depois, cofiava as longas barbas sacudindo ao mesmo tempo as migalhas que pudessem ter ficado da bucha e começava então outro ritual – a feitura do cigarro.
Uma onça de tabaco holandês, um livrinho de mortalhas, e eis o Avô a enrolar o tabaco no papelinho. Duas voltas entre o polegar e o indicador, uma passagem com a língua à guisa de cola pela dobra… e cigarro na boca.
Duas pancadas na rodinha de metal que roçava a pederneira e pronto… cigarro a arder normalmente.
Meu Avô Ezequiel era um homem corpulento, que com a sua estatura, longas barbas brancas e o nariz adunco, fazia lembrar um rabino!
Voltarei brevemente com outras recordações do meu Avô das barbas…
 
 

NUM MUNDO DE FICÇÃO


 

 
Neste mundo andamos todos com o tempo controlado. Mais dia, menos dia e, às vezes, sem tempo de fazer a mala, lá vai o indígena de viagem… E tanto pode levar uma carta de recomendação para S. Pedro, como uma carrada de processos arquivados para alimentar as fornalhas do Inferno!
Vem isto a propósito dos cuidados que devemos ter com a alimentação que fazemos. Como se não bastassem já as terríveis doenças que não têm cura, os "cientistas" de serviço ameaçam-nos agora com os venenos que diariamente ingerimos.
Dizem eles que desde a carne de vaca e do mercúrio dos peixes do mar, passando pelos pesticidas dos legumes, pelos metais pesados escondidos na água que bebemos, pelos nitritos da carne de porco, pelas gorduras saturadas dos fritos,  pelo colesterol da manteiga, pelas hormonas dos galináceos, andamos a meter cá para dentro coisas tão perigosas que é inevitável a explosão!...
Em face de todos esses perigos, e não só porque foi sempre meu desejo morrer velho e são, mas também porque quero adiar o mais possível a tal "viagem", decidi adoptar, como medida de precaução, as regras adequadas. Portanto, nada de carne de vaca... Apenas a de boi; peixe do mar, nem vê-lo... Apenas o enlatado; água, só para tomar banho... Para o resto, vinho; carne de porco, não entra na salgadeira... Somente a de porca; gorduras saturadas, nem pensar, porque fritos só com azeite virgem; manteiga, só ao pequeno-almoço e carne de aves só a de patos bravos que é o que mais abunda por aí...
No capítulo das sobremesas e por questões orçamentais, substituímos muitas delas pelo queijo. E perguntar-me-ão vossências: - "Mas por quê o queijo?” A que eu responderei: - Porque além de ser rico em cálcio e fortalecer os ossos, diz um ditado antigo que, quem comer muito, torna-se esquecido... E, meus senhores, nos tempos que correm, o esquecimento é o melhor e mais barato antídoto contra a loucura que nos rodeia!
Quanto ao ambiente, tomámos também as nossas precauções. Nada de cuspir para o ar... Antes fazê-lo para o chão. Contra a poluição, contra cheiros e gases, e no intuito de contribuir para uma atmosfera mais pura, erradicámos da alimentação os farináceos e, mais especificamente, o feijão. No jardim, e para adubar as roseiras, em vez de esterco, estamos a praticar a adubação virtual, espalhando, sobre a terra, mãos-cheias de promessas - um processo que além de estar na moda é muito mais barato... Podem estas medidas de nada servirem para adiar a partida para a outra banda. No entanto, porque vivemos num país fictício, há que alimentar sempre a esperança de que a ficção se converta em realidade!... 
 
 
 

INTERROGAÇÕES

 
 
 
Sempre a mesma interrogação a agigantar-se… Valerá a pena continuar a expor publicamente os receios que, interiormente, me atormentam face aos acontecimentos deste nosso complicado quotidiano?
Valerá a pena apontar e denunciar os males que corroem a nossa sociedade? Valerá a pena, neste nosso pequeno mundo materialista e desumanizado, dominado pelo egoísmo, pelo dinheiro, pela política e pelo futebol, denunciar injustiças?
Valerá a pena falar de pobreza, de exclusão social, de irresponsabilidade, de prepotência, de abuso de poder, de descriminação, de incompetência e de falta de humanismo? 
Valerá a pena chamar a atenção dos que têm tudo, e convidá-los a partilhar as sobras, com os que nada têm?
Valerá a pena, ir aos livros já esfarrapados da minha Universidade, – que foi a da Vida – folheá-los, e apontar exemplos, citar experiências, transcrever capítulos inteiros de factos vividos em que o trabalho, a humildade, a perseverança, o respeito, a educação e a honra foram os elementos criadores de homens íntegros, responsáveis, cumpridores, amantes da Verdade, da Justiça e da Moral?
Conseguirei penetrar no coração empedernido dos que vivem em mansões onde nada falta, e acordá-los, convidando-os a espreitar a miséria, o frio e a fome dos milhares de homens mulheres e crianças que vivem ou que se escondem nas ruas, por vezes, debaixo de um pedaço de cartão?
Valerá a pena apontar como urgente e imperiosa a necessidade da conjugação dos esforços de todos para uma total humanização nos sectores da vida nacional, mormente na saúde, na justiça, na educação e na segurança social?
Serei capaz de convencer os que mandam, fazendo com que exerçam o seu trabalho com inteligência, humanismo, justiça e com espírito de isenção e partilha?
Valerá a pena apelar aos que ocupam os mais altos cargos, aos que detêm o poder de decisão para que saiam dos seus confortáveis gabinetes de Lisboa e venham até ao País real, – não de fugida para inaugurar um chafariz ou um quilómetro de alcatrão – mas com tempo suficiente para se inteirarem do difícil dia-a-dia de muitos dos que neles vão votaram?!...
O drama das democracias reside essencialmente na infidelidade aos valores cristãos que lhes servem de alicerce. Presentemente, o que acontece é que enquanto se valoriza o dinheiro, assiste-se à vertiginosa desvalorização da honra e da moral. Daí estas minhas interrogações e, por vezes, a minha revolta perante tanta injustiça, tanta falta de escrúpulos e, sobretudo, tanta falta de seriedade e de vergonha.
 
 

 

 

 

 

 

O INCONSEGUIMENTO DO GOVERNO


 
Toda a gente sabe que o discurso político é, provavelmente, tão antigo quanto a vida do ser humano em sociedade. Já na Grécia antiga, o político era o cidadão da "pólis" (cidade, vida em sociedade), que, responsável pelos negócios públicos, decidia tudo em diálogo na "agora" (praça onde se realizavam as assembleias dos cidadãos), mediante palavras persuasivas. Daí o aparecimento do discurso político, baseado na retórica e na oratória, orientado para convencer o povo.
Este conceito tem vindo a esvaziar-se ao longo dos tempos e actualmente o discurso político é, na maior parte das vezes, um monólogo geralmente incompreendido pelo povo.
No meu tempo - no “antigamente” - dizia-se que Salazar mantinha o povoléu na ignorância para melhor o endrominar. Agora, que quase todos os cidadãos são doutores ou engenheiros, que todos sabem ler, escrever e contar,(?) há que inventar um novo vocabulário de maneira a que os “enteados” não percebam o que “os filhos da pátria” querem dizer nas suas manhosas lengalengas.
Por enteados queiram vossências saber que me refiro aos reformados que trabalharam uma vida inteira e agora vêem a sua mísera pensão retalhada e aos velhos, cuja reforma quase não chega para pagar a conta da Farmácia.
Mas voltando aos discurso, agora como nesses longínquos tempos, há que saber seduzir o “rebanho”, prometer-lhes verdes pastagens na ocasião apropriada, mas já com a ideia preconcebida de mandar fazer a “tosquia” logo que haja necessidade de angariar dinheiro.
E por falar em “rebanho”, hoje como ontem, e apesar de muito se falar em mudanças, “os carneiros”, tal os de Panúrgio, continuam a seguir em fila rumo ao abismo…
Mas vem este intróito, já um pouco longo, a propósito do vocabulário usado numa entrevista a uma rádio por uma senhora que se reformou ou a reformaram aos 42 anos depois de ter estado dez anos no Tribunal Constitucional e que agora ocupa o cargo de Presidente da Assembleia da República, auferindo uma pensão equivalente a 19 salários mínimos!
As palavras proferidas por Dona Assunção durante a sua arenga mostram à saciedade e duma maneira sui generis que a sabedoria do velho provérbio que nos diz que “com papas e bolos se enganam os tolos “ continua actual e com especial pertinência no discurso político.
Abram alas os lexicólogos e deixem passar estas novas sumidades que por detrás de palavras inexistentes nos dicionários, descaracterizando a nossa língua, renegando Fernando Pessoa, tentam dessa maneira camuflar todos os fracassos e todas as injustiças que têm cometido ao longo da sua governança. 
Ninguém deve ter percebido o que sua excelência quis dizer na sua, mas felizmente que o “inconseguimento” “frustracional” e o seu “soft power sagrado”, não conseguiram que o egoísmo e sobretudo a castração se propagasse em termos colectivos…
Mais um episódio a juntar a outros, e que nos vem mostrar que o “inconseguimento” do “ingoverno” é “frustracional” e castrador e que toda esta “palradela” serve também para nos “indeprimir”!...