sábado, janeiro 02, 2016

FELIZ ANO NOVO


 

FELIZ ANO NOVO
Sincera ou hipocritamente, é de bom-tom, no começo de cada Ano, quer por intermédio de um postal, quer verbalmente, desejarmos uns aos outros, muitas felicidades e muitas coisas boas.
Não tenho dúvidas de que quando os nossos tetravôs criaram este hábito lhe tivessem vestido um manto branco, ornamentado com pérolas de pureza e de sinceridade. Não duvido...
Porém, à medida que os anos foram passando, as nódoas foram maculando a túnica e, de branco, de pureza, e de sinceridade, pouco ou quase nada resta. Aliás, o mesmo tem acontecido a muitas outras práticas antigas que se têm vindo a abastardar, desaparecendo depois, envoltas na poeira levantada pela correria desenfreado do progresso.
Mas apesar disso, e com a teimosia e desfaçatez que caracterizam o homem deste fim de milénio, e arrastados que somos, também, por essa onda que a todos envolve, continuamos a observar os mesmos ritos, num faz-de-conta muito bem conseguido, onde não faltam os escritos laudatórios, os sorrisos amarelos e as hipócritas e, por vezes, as bem assentes palmadinhas nas costas. Tudo exibido e exteriorizado num cenário a condizer, isto é: um cenário com pinceladas de falsa emoção onde não faltam salpicos de ironia, e uns borrifos de solidariedade à mistura. É assim que manda a praxe! Ou, dito por outras palavras, - e, se quisermos ir beber a inspiração à fonte inesgotável das acrobacias da política - é assim que manda "o tradicionalmente correcto".
Nesta época de transformações que estamos a atravessar, em que interessa mais mostrar o que queremos parecer do que aquilo que, na realidade, somos, nada melhor que esconder sob o manto espesso da hipocrisia a nossa verdadeira identidade. E daí esta febre de disfarçar com figuras e palavras a ruindade que nos vai na alma... FELIZ ANO NOVO!...
Frase e desejos que depois deste intróito um nadinha cínico, os leitores não vão aceitar com certeza. E têm razão. Aliás, "Em um Mundo tão avarento de bens, onde apenas se encontra com um bom-dia, ter obrigação de dar bons-anos, dificultoso empenho! E na minha opinião cresce ainda mais esta dificuldade, porque isto de dar bons-anos, entendo-o de diferente maneira do que comummente se pratica no Mundo. Os bons anos não os dá quem os deseja, senão quem os assegura. A quantos se desejaram nesta vida, a quantos se deram os bons anos, que os não lograram bons, senão mui infelizes? Segue-se logo, própria e rigorosamente falando, que não dá os bons anos quem só os deseja, senão quem os faz seguros..."
São palavras do Padre António Vieira proferidas no Sermão dos Bons Anos, pregado na Capela Real em Lisboa no ano de 1642. Não transcrevi o excerto acima, com o intuito de arranjar apoios ou desculpas para o que escrevi no começo. Se citei o nosso ilustre orador isso ficou a dever-se a uma pura coincidência. É que, presentemente, são "Os Sermões" que ocupam a minha mesa-de-cabeceira. E porque sou também um dos "infectados" com o vírus da síndroma do "tradicionalmente correcto", aqui reforço os meus votos. A vós, leitores, a escolha de os aceitarem ou não.

É NATAL!...


É NATAL!...

E cada vez o Natal é menos Natal!
Bem sei que nem todos estarão de acordo comigo, mas o verdadeiro Natal, aquele Natal humilde e silencioso, o Natal do Menino Jesus desapareceu.
O que se festeja em seu lugar é o homem que a Coca-Cola vestiu de vermelho, com um gorro a condizer, umas barbas brancas, um saco às costas e um nome – “Pai Natal”!...
O “outro” Natal, o do Menino Jesus, não se coadunava com a operação comercial e consumista que todos os anos dá origem a esbanjamentos desproporcionados!
Não vou, por isso, falar de Natal, mas contar-vos uma espécie de parábola -  a das  quatro velas.
Na Igreja da minha aldeia há uma coroa – a Coroa do Advento. Nela há quatro velas que ardem lentamente. Quando há dias lá fui rezar, era tal o silêncio, que pude ouvir o que diziam umas às outras:
Disse uma:
«Eu sou a Paz, mas as pessoas não conseguem manter-me acesa e penso que em breve eu me apagarei…»
A chama foi diminuindo pouco a pouco até que se apagou.
A segunda disse:
«Eu sou a Fé, mas, infelizmente, eu sei que estou a mais. Ninguém quer saber de mim. Portanto não vejo motivo para que continue a alumiar quem não quer ver…»
Entretanto, a porta abriu-se, uma leve brisa soprou mais forte e a vela apagou-se!
E, então, disse a terceira, tristemente:
«Eu sou a solidariedade e o Amor, mas não tenho força para continuar acesa. As pessoas não me ligam e não compreendem quanto sou importante – ser solidário, amar a Deus, ao próximo, tudo isso esquecem…»
E sem mais, a chama extinguiu-se.
De repente, pela porta semi-aberta, entrou uma criança. Quando viu as três velas apagadas, exclamou: «Mas o que é isto? Vocês deveriam estar todas acesas. Quem vos apagou? …» E começou a chorar.
E então a quarta vela falou, e disse:
«Não chores! Enquanto eu conservar a minha chama, poderei sempre acender as velas que se apagaram… Eu sou a Esperança!»
Ouvindo isso, a criança, com os olhitos ainda húmidos, mas brilhantes pegou na vela da esperança e acendeu as outras…
Que a esperança nunca se apague, e que cada um de nós saiba ser essa ferramenta que a criança necessita para manter bem acesas as velas da Paz, do Amor, da Fé e da Solidariedade!  
Bom Natal para todos.

 

TODOS IGUAIS


Todos iguais
Quando se atinge uma certa idade, acontece com frequência lembrarmo-nos de factos passados há muitos anos e esquecermo-nos de episódios da véspera. A ciência tem uma explicação para isso, mas como não tenho espaço, nem conhecimentos para entrar em detalhes, vou directo ao assunto...
Quando há dias, por intermédio do meu pequeno ecrã, assistia à reposição da conhecida comédia " As Traquinices da Democracia", lembrei-me de um livro que li há muitos anos e que foi escrito, salvo erro, por um filólogo japonês. Segundo ele, na origem da maioria dos conflitos ideológicos, estão a incerteza e a diversidade dos conceitos atribuídos por uns e por outros às palavras com que se exprimem. É verdade... Muitas vezes basta substituir uma palavra por outra, até por um sinónimo, menos débil ou mais forte, para que os efeitos produzidos sejam diferentes e até mesmo opostos.
O caso mais flagrante é o de dois pacatos e discretos substantivos que entraram no vocabulário de várias línguas com a humilde função de designar uma posição apenas de espaço em relação a outra coisa. São eles, esquerda e direita. Situar-se "à esquerda" ou "à direita", não implicava, no começo, qualquer significado especial, salvo no caso cerimonial em que ficar à direita da pessoa que recebe, era prova de maior consideração do que ficar à esquerda. Mas veio depois a deturpação. E de longe... Parece que de finais do século XVIII, das sessões da Convenção francesa, em que, na Sala da Pela, os Jacobinos (de ideias mais avançadas) se sentavam à esquerda dos Girondinos, (mais moderados) que se sentavam à direita. Daí teria surgido o significado político de "direita" e de "esquerda".    
De então para cá o verdadeiro significado das duas palavras foi adulterado, politizado, o que nos leva hoje a poder afirmar que se trata de um verdadeiro fenómeno de propaganda política. Fenómeno, porque, por mais que tentemos, não conseguimos determinar com exactidão, e na prática, nem onde acaba a esquerda nem onde começa a direita. Uma confusão levada da breca!...
E como tudo na terra gira à volta de convenções, lá se convencionou que os da "esquerda" eram uns patifes, uns salafrários, enquanto os da "direita" eram uns "gajos porreiros", bonacheirões, conservadores e amantes de tudo o que é bom! Intelectuais... só na esquerda! Na direita apenas "atrasados mentais," saudosistas bolorentos, cheirando a naftalina...
A princípio, a coisa resultou. Mas depois... Depois, a velha máxima, "todos diferentes, todos iguais", tornou-se uma realidade. E tantos os patifes e salafrários da esquerda como os bonacheirões e bolorentos da direita, começaram todos a afinar pelo mesmo diapasão, e a lutar pela mesma causa... Uma causa em que, por enquanto, a bandeira ainda ostenta, no meio, um símbolo dourado do  EURO…
Costuma dizer-se que a política é a segunda mais velha profissão do mundo. Mas não acham que é muito parecida com aquela que dizem ter sido a primeira?

 

  

A GENEROSIDADE DOS QUE MENOS TÊM

A generosidade dos que menos têm

Participei, mais uma vez, como voluntário, na campanha de recolha de alimentos promovida pelo Banco Alimentar contra a Fome.
Pude, durante essas horas, confirmar e reforçar a ideia que tinha acerca da generosidade do nosso Povo!
É comovente presenciar alguns casos e é com um certo incómodo e até com uma espécie de sentimento de vergonha interior que assistimos a gestos de altruísmo de pessoas que não conseguem disfarçar a limitação dos seus recursos e que nos dão lições de solidariedade partilhando o pouco que têm com aqueles que nada possuem!
É inegável que vivemos momentos complicados. Momentos terríveis. Momentos de incertezas, de angústias, momentos de crise… Mas, apesar disso, de onde vem esta capacidade de ser solidário, este sentimento de partilha que envolve esta gente e a leva a repartir parte dos seus poucos recursos com os mais necessitados?
O que representará como privação e sacrifício para aquela velhinha o facto de abdicar de uma lata de atum, das três que comprou, e que depositou no carrinho da recolha de donativos?
E que lição tirar do gesto daquele idoso, vergado pelos anos, aparentando uma vivência pouco desafogada, entregando um pacote de arroz, e desculpar-se a seguir, como que culpado de qualquer crime cometido, por não poder dar mais?
São estes e outros exemplos que nos fazem meditar e que nos levam a concluir que, afinal, não somos aquilo que deveríamos ser e que muitas vezes, o nosso altruísmo não passa de um mero gesto de hipocrisia à intenção dos que nos rodeiam.
São estes e outros exemplos que nos mostram que não precisamos de ter muito para dar e que muitas vezes vivemos apenas para fora, aparentando qualidades e dons que não possuímos.
Não é possível ser feliz quando, ao nosso lado, estão aqueles que o não são. Todos têm direito ao bem e só a felicidade partilhada é fonte de festa e de alegria. O verdadeiro amor está no facto de dar o que se não tem. E foi isso que muitas vezes me foi mostrado, nesse dia, ao longo das horas em que fazia o meu voluntariado. Por mais anos que vivamos, a Vida está constantemente a dar-nos ensinamentos e a mostrar-nos que temos sempre muito que aprender... Extraordinários exemplos de fraternidade, de entreajuda, de entrega, de partilha e de verdadeira solidariedade!
Que belas e marcantes lições dessas gentes, deste Povo com pequenos recursos, talvez de cultura rudimentar, mas de tão grandes corações!

 

 

 

 

"PORTUGAL, HOJE ÉS NEVOEIRO"


«Portugal, hoje és nevoeiro...»
«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer-
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Portugal, hoje, és nevoeiro...

É a hora!»

Fernando Pessoa escreveu sob o título "Nevoeiro" o poema que acabais de ler. Li-o pela primeira vez, longe da Pátria, por altura do 25 de Abril de 1974, num livro enviado por um amigo que o sublinhou com tinta verde...
Reencontrei-o agora e voltei a lê-lo. E, coisa curiosa: talvez por obra do tempo... da tinta - verde que era - apenas uma mancha baça enquadra os versos!
Parece que é sina nossa. De tempos a tempos acreditamos ainda que D. Sebastião vai chegar rodeado por uma auréola de justiça.
Porém, os tempos mudaram! Os santos também fazem greve, acabaram-se os milagres, e Portugal continua a entristecer e...
«Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.»
Portugal é um país de resistentes e estas cogitações vêm-me à memória quando penso no país que nos querem impor... O povo sente-se desprotegido face a um Estado que tudo lhe exige e nada lhe dá em troca. No Portugal profundo, no país real, no interior, instala-se a desconfiança. Confrontada com tanta impunidade e tanta injustiça, esta gente simples não confia mais nos homens do leme. A tirania dos abutres abafa o grito dos pacientes que, apesar de tudo, ainda não perderam a fé. Mas a paciência vai-se esgotando e a revolta começa já a inflamar os mais pacíficos...
«Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Portugal, hoje és nevoeiro ...»

ESQUERDA VOLVER


 Esquerda, volver!...

Há muitos, muitos anos, e embora já se não note por fora por causa da ferrugem acumulada nas dobradiças, também assentei praça.
Bons tempos, esses, os do curso de milicianos, no antigo “Lanceiros 2” na Calçada da Ajuda, em Lisboa. 
Na altura havia ainda poucos esquadrões motorizados e o de Lanceiros 2, o Esquadrão a cavalo, era uma “tropa a sério”. Quer chovesse quer fizesse sol lá íamos para Monsanto. Os exercícios eram bastante violentos, os instrutores não brincavam em serviço, e não eram nada meigos.
A malta do Quartel de Infantaria do outro lado da Calçada chamava-nos “quebrados impróprios”, porque, como diziam, quando em cima dos burros, era maior o “numerador” do que o denominador! 
Lembrei-me da frase do título, dessa “voz de comando”, a propósito da nomeação de hoje, do novo Governo, que é uma reviravolta, uma «esquerda, volver...» com tanta força e sonoridade como aquela que um dos cornetins espalhava pela “parada”, e que até fazia estremecer os vidros das velhas janelas do Quartel...
É de facto uma «esquerda, volver...» histórica, esta que começa hoje, dia 24 de Novembro de 2015!
É uma espécie de “terramoto” cujas réplicas vão ainda sentir-se por muito tempo e com intensidades muito variáveis, pois segundo as notícias, são muitas as desafinações entre o “quarteto”, o que vai dificultar a afinação da orquestra no seu conjunto. É a vida, como dizia o outro. Há mudanças de cadeiras, derrubam-se uns e entronizam-se outros!    
Mas que se desiludam aqueles que julgam ou alimentam ainda a esperança de que a “coisa” vai mudar para melhor!
Como todos sabem, quem vai governar é forte na arte de distribuir e fraco na de produzir. E para distribuir é preciso haver. E não há. Sobretudo dinheiro...
Portanto, há que trabalhar, produzir, economizar e não esbanjar. Mas será que os homens que vão governar-nos terão a noção de que o factor principal para pôr o País nos carris é o trabalho? E que para que isso aconteça, serão necessários, nos comandos, homens competentes, capazes e conhecedores da realidade? Homens íntegros, resistentes a pressões, isentos, que sirvam e não se sirvam, e cujo passado seja exemplar?
Não irão os novos governantes seguir esse maldito e já enraizado hábito político de fazer uma “varredela” a eito, uma espécie de vingança cega, e esquecer o povo, esses cidadãos anónimos que após uma vida de sacrifícios e canseiras merecem agora, no fim da caminhada, que alguém se lembre deles? E como a esperança é a última a morrer, como vaticinou Bandarra, o sapateiro: «Augurai, gentes vindouras / Que o Rei que daqui há-de-vir / Vos há-de tornar a vir / Passadas trinta tesouras / Dará fruto em tudo santo / Ninguém ousará negá-lo / O choro será regalo; / E será gostoso o pranto.»

 

             

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Papéis desbotados

Já muitas vezes vos tenho aqui falado dela, da minha velha arca. De vez em quando abro-a, remexo, folheio os papéis amarelecidos, e com as mãos também elas envelhecidas, faço uma visita ao passado.
Alguns livros por que estudei, lá estão como que a recordar esse tempo distante e diferente – uns sem capa, outros com folhas descoladas ali dormem, assistindo às modernas reformas, indiferentes ao correr do tempo misturados com papéis decrépitos, cheios de anotações e de muitas rasuras feitas com lápis de variadas cores. \Às vezes, e porque já são tantos, sinto vontade de rasgar alguns, de os queimar... Mas desisto sempre!
Eles representam os meus (já poucos) cabelos brancos, as minhas rugas, as veias salientes das minhas mãos que o tempo tingiu de castanho-escuro. Papéis amarelecidos. Fotografias desbotadas. Cartas…
«Velhas cartas…Antigas confidências…
Recordações de tudo que se quis:
Que avivam do passado as ocorrências
- E a mocidade quanta coisa diz!...

Velhas cartas… Desfile de sequências…
Devaneios que, outrora, amando, fiz,
Pois o tempo transforma em reticências
Palavra e gesto … o que me fez feliz!

Releio-as uma a uma… Que ansiedade!
Adormecido mundo que desperta,
Que me envolve no manto da saudade.

E, hoje, minha existência é tão deserta,
Que revejo o fulgor da mocidade,
Como se fosse a derradeira oferta.»
E são estes papéis sem cor – este amontoado de coisas velhas, essas sebentas rabiscadas, esse “querer” sem “crer” de outrora – que fazem com que, de vez em quando, ao sentir-me perdido e baralhado no meio de todo este turbilhão de loucuras e incertezas, me fazem subir as escadas, ir ao sótão, abrir a minha velha arca…e sonhar um pouco!
Não sou poeta, mas confesso que sou um pouco saudosista, na verdadeira acepção do termo. E as saudades são uma espécie de sonho, uma poesia abstracta... E para mim um sonho se não é poesia, é metade da realidade...

sexta-feira, novembro 13, 2015

SEBASTIÃO COMO TUDO, TUDO,TUDO...


O alarido começou com a doença das vacas loucas, com os nitrofuranos dos frangos, com os nitritos da carne de porco e agora com a carne vermelha e carne processada, como salsichas, fiambre, bacon ou presunto.
Os investigadores da Organização Mundial da Saúde colocaram a carne processada na “lista negra” dos produtos ou substâncias para as quais existem “provas suficientes” que os ligam ao aparecimento do cancro. Portanto, nada de salga, de fumeiro, fermentação ou outros processos para melhorar o sabor ou a sua conservação.
São cíclicos estes alarmes e, quanto a mim, por detrás deles há sempre qualquer coisa de suspeito. Não duvido que não haja motivo para acautelar a ingestão exagerada de certos produtos, mas tentar condicionar ou até mesmo proibir o seu consumo, creio que é ir demasiado longe em questões de alimentação. Aliás, não somos todos iguais e generalizar dá sempre origem a erros de avaliação.
Diz um ditado popular que “de médico e louco, cada um tem um pouco”. E é verdade. Não sou médico de porta aberta, mas sem desprimor para as normas dos verdadeiros discípulos de Hipócrates, muitas vezes “visto a bata” para dosear o “combustível” da minha máquina. E salvo algumas excepções nada ou quase nada faz mal, quando se evitam os excessos. A sabedoria popular é rica em ensinamentos sobre a alimentação e aqui vos deixo alguns provérbios que, quando cumpridos, podem diminuir drasticamente a conta da farmácia…
Começamos pelo que diz que “mata mais a gula do que a espada” e que “para longa vida, regra e medida no beber e na comida”. Deve também respeitar-se a hora do dia a que se comem certos alimentos, pois “a laranja de manhã é ouro, à tarde prata e à noite mata”. Já agora fique a saber que “comida sem sal, a doentes não faz mal” e que “quem come salgado, bebe dobrado”. Lembre-se também de que “para ter saúde tem de ter pouca cama, pouco prato e muito sapato”, pois “mais vale romper sapatos do que lençóis”. E quanto a bebidas não esqueça que “nada faz como o vinho se tomado com tino”, mas não esqueça de moderar a sua ingestão porque “onde entra o vinho sai a razão” e “depois de beber cada um diz seu parecer”. Lembre-se ainda de que “tabaco, vinho e aguardente tornam o são em doente” e de que “pão de hoje, carne de ontem e vinho de outro verão, fazem o homem são.” E por falar em alimentação, em proibições, em cuidados e cautelas, vou deixar-vos com a letra da canção do “Sebastião come tudo, tudo, tudo”, que espero a saibam trautear:
Sebastião come tudo,tudo,tudo,
Sebastião come tudo sem colher,
Sebastião fica todo barrigudo
E por fim dá beijinhos na mulher.

 

 

A PLEONASMITE


 
Nunca ouviu falar de “pleonasmite"? Se não ouviu, preste atenção antes que seja tarde. A “pleonasmite” é uma “doença” que atinge muita gente. É uma “doença” congénita para a qual não se conhecem por enquanto nem vacinas nem antibióticos. É, por isso, uma “doença” que não tem cura, mas que não mata. O que necessita é de ser controlada, pois incomoda bastante os que convivem com o paciente. O sintoma aparece nas conversas, quando se verbalizam pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objectivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.

Leia este exemplo: “Quando “subi pra cima”, tudo bem; mas depois quando “desci pra baixo” escorreguei. Tentei “entrar para dentro” de casa, mas tive uma “surpresa inesperada” quando meti a mão no bolso e não tinha a chave...

O leitor já se apercebeu de que também sofre dessa “doença”?!...Acha que não sofre?!...

Então nunca disse que estava a “recordar o passado”?

Está a ver que nem sempre esteve atento aos “pequenos detalhes”? Lembra-se de quando faleceu o marido da D. Floripes e lhe deu os “sentidos pêsames” disse cá fora que a “viúva do falecido” estava muito triste?

E quando alguém lhe disse que achou o contrário, não disse que era a sua “opinião pessoal” baseada em “factos reais”?

Também não disse que aquela “doença má” que vitimou o falecido tinha vindo sem “aviso prévio” e que isso acontece a “todos sem excepção”?

Também não me disse há dias que um supermercado estava a tentar atrair clientes com “ofertas gratuitas”? Há tempos, quando fez obras em sua casa e eu lhe perguntei se estavam prontas, lembra-se de que me disse que faltavam apenas os “acabamentos finais”?

E também não me disse que amanhã ia ao cinema ver um filme que “estreia pela primeira vez”?

E há pouco não disse que tinha a “certeza absoluta” de já o ter visto e que até sabia o nome do “principal protagonista”?

E aquando do incêndio na Serra me disse “vi com os seus próprios olhos” que a floresta “ardia em chamas” apesar de se ter juntado uma “multidão de pessoas”? Lembra-se? Por tudo isso, “já agora” siga o meu conselho, “não adie para depois” e comece a “encarar de frente” essa “doença”.

Não faça como “há dois anos atrás” que disse que ia começar a sua “própria biografia” e depois não a fez porque teve de “sair para fora”, para o estrangeiro?!...

Corrija-se ou então esqueça este texto. Porque afinal de contas eu posso também estar só “maluco da cabeça".

SAUDADES E REMORSOS


 
Por mais vertiginosa que seja a marcha a que se desloca a carruagem da nossa existência ela não consegue fugir às regras previamente estabelecidas. E é assim que, de vez em quando, ela abranda e pára. E nessa paragem, a porta abre-se, e um dos passageiros, sem qualquer dos seus pertences é intimado a abandonar a composição...

Aguarda-o uma velha desdentada, rosto macilento, olhos esbugalhados, garras aduncas e gadanha em punho. Silenciosa, desenrola o pergaminho, percorre a lista fatal e, indiferente ao que se passa à sua volta, faz a chamada. Pronuncia um nome. E aponta com o dedo: «Tu, desce, porque é aqui que termina a tua viagem!...»

E não há desculpa ou pretexto que valha. É assim a Morte - imprevisível, tirânica e inexorável. Ninguém escapa ao seu chamamento. No palácio do rico ou na choupana do pobre, no dia indicado na Lei, ela bate à porta, e mesmo sem permissão, ela entra e leva consigo o "passageiro".

E é sobretudo nestes dias, - dia de Todos os Santos e Dia de Fiéis defuntos - que se recordam aqueles que já partiram. É uma festa inseparável, uma espécie de comunhão entre vivos e mortos.

Rezar pelos defuntos é como que desbravar o caminho que um dia iremos percorrer. É a nossa crença na Ressurreição e na Vida para além da morte.  

Os Egípcios, quando ofereciam grandes banquetes, costumavam expor à vista dos seus convidados um esqueleto de madeira com a seguinte legenda: «Comei, bebei e diverti-vos, mas não esqueçais que um dia sereis iguais a ele...»

Interpretação diferente davam os primeiros cristãos à morte, considerando o dia em que ela bate à porta, o dies natalis - o dia do nascimento. Morre-se para os homens, mas nasce-se para a Eternidade!   

Dia de Todos os Santos, Dia dos Fiéis defuntos. Nestes dias, enchem-se os cemitérios. Muitas flores, muitas velas, muitas orações e muitas lágrimas - umas de saudade, outras de remorso.

Mas não seriam muitas delas mais apropriadas para aqueles que estão como que amortalhados na frieza, na indiferença, no abandono, sofrendo carências de toda a ordem e por isso antecipadamente sepultados no coração dos vivos? 

E não haverá muitos que com lágrimas e flores pretendem fazer crer aos que ainda estão em vida, aquilo que não deram aos seus que já morreram!...

Como dizia o Santo: «Flores e lágrimas são alívio dos vivos, mas não refrigério dos mortos...«

 

 

O BURRO E AS MOSCAS


A certa altura da nossa recente história surgiu cá no rectângulo uma casta de indivíduos que talvez por não terem sido favorecidos na inteligência, foram compensados na esperteza. E nesse capítulo, o da esperteza, eram uns verdadeiros craques, autênticas sumidades. Um dia, cinco deles, bem-falantes e bem vestidos, juntaram-se e criaram cinco associações cujo objectivo era viver à custa do esforço alheio. Como eram muitos os burros que pacificamente pastavam nas verdes planícies do condado, a escolha recaiu na criação de uma empresa de compra dos ditos.

Propaganda feita e começou a caça dos jumentos, pois muitos andavam perdidos ou entretidos a pastar nas policromadas montanhas deste bonito jardim à beira mar encalhado. O preço de cada azémola foi fixado em 5 euros. Em breve foram comprados centenas de asnos e postos a trabalhar, fazendo girar essas várias geringonças espalhadas pelo país e às quais se dão variados nomes…

Sempre rodando, de olhos tapados e de sol a sol, os quadrúpedes em breve trouxeram grandes benefícios aos seus donos e senhores, que paulatinamente iam enriquecendo. A certa altura como os jericos começassem a escassear, uns por cansaço, outros por velhice, o preço foi aumentado para o dobro e cada novo elemento era pago a 10 euros. E foram compradas centenas de asnos...

Mas quando os Zés diminuíram o esforço na procura, decidiram os chefes que se aumentasse o preço de cada jerico para 10 euros. E todos voltaram à caça. Entretanto os animais começaram a rarear e os cinco “sócios” escafederam-se! Antes, porém, deram ordens ao tesoureiro para aumentar para 50 euros o preço a pagar por cada azémola, caso a oferta diminuísse. Mal os dois partiram, o tesoureiro, mais esperto e com a bolsa mais vazia, fez uma proposta ao pessoal:

“Olhem cá! Que tal se eu vos vendesse todos os burros a 30 euros e vocês os vendessem depois ao chefe a 50? Que dizem vocês?»

Toda a gente concordou. Reuniram todas as economias e compraram centenas e centenas de jumentos, pagando 30 euros por cada animal...

Mas como os seus “chefes”, o tesoureiro também desapareceu. E com os bolsos bem cheios. E só ficaram burros por todo o lado…

E terminou a história. O leitor percebeu?!...

Lembra-se do ditado que diz que «em terra de cegos quem tem olho é rei?» E de que «quem não quer ser burro não se deixa albardar?» Pense em tudo isso e encontrará alguns dos motivos que originaram a barafunda em que nos meteram. Quanto a burros…lembre-se daquela outra máxima que diz «que só as moscas mudam, porque o burro é sempre o mesmo…»

 

 

MAIS UM OUTONO


 
Matreiro, ele aí está!... Quente no começo e vestindo roupa de Verão, o Outono parecia querer enganar-nos. E talvez porque não gostou de ter sido mal interpretado por se ter apresentado com trajes que não eram seus, enfureceu-se, e fez trinta por uma linha – ludibriou os meteorologistas, trocou as voltas aos patrões da moda e acelerou a corrida às farmácias.

Depois, mais calmo, voltou às raízes, fez cara de mau, e aí o temos pardacento, vingativo, soprando forte, trovejante, chuvoso e frio!...

Mas, como nas etapas da vida, as estações do ano têm, também, cada uma, as suas belezas e os seus atractivos próprios. Como um pintor que mistura na sua paleta várias cores para fazer um belo quadro, assim o Outono pintalgou a Natureza com belos e variegados tons!...

A propósito, e agora que não chove, venham comigo dar uma volta pelo meu quintal: Olhem a beleza daquela mistura de cores, de todo o cambiante das folhas das videiras, além, na parreira. Apreciem este gigantesco porco-espinho que é o castanheiro, com os seus ouriços, alguns de boca aberta, rindo, mostrando os dentes – as castanhas!

Vejam aqui as romãs, coradas, macias, como a tez de um bebé recém-nascido. Ali à direita, vejam a groselheira com os seus frutos vermelhos – o supermercado da passarada!

Lá ao fundo, o azevinho e as suas bolinhas: umas verdes, outras acastanhadas, outras cores do carmim… A nogueira, carregada de frutos, alguns com o invólucro ainda verde, outros já abertos com as nozes prestes a cair! 

E aqui a contrastar com o despontar de novos frutos, o fim das rosas com a queda das pétalas que juncam o chão e fazem um tapete multicolor e viscoso. O princípio e o fim. Como na vida. Uns nascem e outros morrem!...

E este cheiro característico das uvas em decomposição, que ao misturar-se com esta fragrância que se exala da terra fecundada pela chuva, produz em nós uma sensação de tão indizível bem-estar e de tanta espiritualidade que se torna impossível descrever?!...

E a carícia deste brando vento vindo da Serra do Caramulo que faz estremecer as folhas das laranjeiras e desprender as gotas de água que caem na terra como lágrimas de alegria e de reconhecimento pela chuva, a riqueza que veio do Céu!

Encham os pulmões com este ar puro e sorvam esta brisa fresca e saudável que tonifica o corpo e reconforta a alma!

É Outono, caem as folhas. Na Natureza como na Vida, há sempre Deus. Há fim, e há recomeço. Há sempre beleza. Há encanto, e há sempre um sonho que se desfaz, e uma esperança que renasce...

quarta-feira, outubro 07, 2015

SONHOS




Mal cheguei à rua, apossou-se de mim um sentimento muito estranho, uma espécie de pressentimento de que qualquer coisa de muito extraordinária tinha acontecido. Havia muita gente a agitar bandeiras, gritando, esbracejando, os automóveis passavam a buzinar, enfim, um burburinho dos diabos. Avancei um pouco receoso, parei no quiosque da esquina, olhei o jornal que habitualmente costumo comprar e quando vi a primeira página não quis acreditar!...
Percorri então os títulos dos outros e, em letras garrafais, todos anunciavam coisas surpreendentes. E comecei a ler:
Aumento das reformas dos pobres; pacto entre todos os partidos com vista a tirar o país da crise; redução em 50% dos funcionários públicos; corte no número de deputados e nos seus salários; serviço de saúde grátis para quem aufere pensões baixas; despolitização da Justiça; reformulação na Educação; combate à corrupção de gravata; introdução da Cartilha Maternal de João de Deus nos infantários para o ensino do português; mobilização de todos os cidadãos inscritos nos Centros de Emprego para procederem à reflorestação da área ardida; prisão perpétua para os incendiários; criação de uma escola de formação profissional para políticos e afins; subsídio para os agricultores que mostrem desejo de cultivar terras abandonadas; fiscalização apertada a todos os que ostentem sinais exteriores de riqueza; cancelamento de todas as reformas e outras benesses a pessoas que exerceram cargos políticos ou afins; repatriamento de todos os profissionais que tiveram de emigrar e colocação nos respectivos lugares; duplicação do orçamento da Cultura; interdição a todos os governantes de terem outros trabalhos paralelos…
Nem acreditava no que estava a ler. Finalmente o bom senso imperou.
De repente alguém me bateu no ombro:
- Acorda, homem! São sete horas! Ontem, domingo, ficaste colado à televisão à espera do resultado das eleições, deixaste os trabalhos do Jornal a meio e hoje, não sei como vais ter tempo…
Era minha mulher, previdente como sempre, a chamar-me à realidade.
Levantei-me estremunhado. Barba, banho, pequeno-almoço e ala moço que se faz tarde. 
E aqui estou nesta segunda-feira, dia 5 de Outubro, que já foi feriado nacional, mas que já não é, - e que segundo consta nem o Presidente faz a habitual discursata - a manifestar a minha frustração…O “sonho comanda a vida?” Tretas. Porém, no dizer de Pessoa, “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.”
E nós já temos tão pouco…

OS MASCARADOS


Vivemos num mundo de mentiras, de falsos sentimentos, de fingimentos estudados, de elogios interesseiros e de atitudes hipócritas.
Adulamos o chefe actual, falamos mal do que lhe antecedeu, do que ele fez, menorizamos o que ele deixou, mas sempre no intuito de nos autopromover e de criar à nossa volta um protagonismo ainda que passageiro, fictício e bacoco!
Fazemos tudo para alimentar o nosso ego, desvalorizando o do amigo que nos deu a mão para subirmos na escala social. Vale tudo nesta luta desenfreada em busca de um lugar no pódio!
Somos, por vezes, uma espécie de marionetas, sem movimento próprio, mas irequitas, atrevidas e palradoras, graças ao ventriluquo e exímio manipulador dos cordões atados a todas as partes do corpo. Fazemos vénias, dizemos disparates, fazemos gestos obescenos, mas porque somos marionetas, nada nos fica mal.
Criamos filmes, pintamos os cenários à nossa maneira, incarnamos personagens irreais e sempre com a pretensão de sermos únicos, de sermos diferentes, de sermos os melhores e receber os aplusos de uma plateia de gente amorfa, que só assite ao “espectáculo”, porque tiveram bilhetes à borla!
Numa sociedade como a nossa que é movida a dinheiro, até os anões conseguem igualar pessoas de estatura normal - a política tem saltos altos para disfarçar a pequenez.         
E é nessa sociedade que somos obrigados a viver. Mesmo sem partilhar desses “ideais”, dessas mentalidades ilusórias somos vítimas dessas mentes perversas e, sem escolha, somos obrigados a conviver com indivíduos mal formados, gananciosos, sem escrúpulos e que não hesitam em trair, em caluniar, em mentir, chegando a abdicar das suas raizes para conquistar um lugar à sombra da umbrela do Poder!
Com uma folha de serviço em branco, sem nada terem feito pela sociedade, pelo seu semelhantes, ei-los arvorados em modernos “samaritanos”, vestindo o manto de “cristâos novos” para melhor poderem impingir a sua falsa doutrina…
E constroem infernos, maldizem, deturpam, caluniam, mas sempre autoconvencidos de que são os melhores, os salvadores, os redentores de uma sociedade utópica que só existe nas suas pequenas e ocas cabecinhas.
Vivem para apontar erros alheios, mas são incapazes de se olharem no espelho e reconhecerem os seus. Todos temos defeitos, ninguém é perfeito, mas há pessoas que se sentem tão acima dos outros, que não param um instante para se autoavaliarem e assumirem o mal que se esconde por detrás da postiça máscara de perfeição que usam.
Há quem os trate de palhaços, mas eu prefiro chamer-lhes mascarados!


segunda-feira, agosto 31, 2015

"CHÁ" e DINHEIRO

“Chá” e dinheiro
Reza a História que por volta do século XVII, a filha do nosso rei D. João IV, ao contrair matrimónio com Carlos II de Inglaterra, - e a juntar à cidade de Bombaim, na Índia, que levava como dote - levou também o hábito de tomar chá, hábito até aí desconhecido em terras de Sua Majestade britânica.   
Muito embora tenham sido os ingleses os "inventores" do chá das cinco, foram no entanto os portugueses que trouxeram a planta do Oriente e a introduziram na Europa. A princípio, a bebida proveniente da infusão das folhas do arbusto, era só privilégio das casas mais abastadas cá do Reino. Tomar chá conferia assim um certo estatuto de nobreza que, ao longo dos tempos se foi divulgando até que a expressão "tomar chá" começou a ser sinónimo de educação e boas maneiras...
Estou daqui a ver a cara de escárnio de alguns leitores que consideram “essa coisa” de etiqueta e boas maneiras como resquícios do passado, daquele passado que as suas fanatizadas mentes não admitem seja lembrado!
Bom proveito lhes faça tal interpretação, mas cá p'ra mim continuo a pensar que a vida social só faz sentido quando é regulada por princípios de conduta que permitam distinguir o homem civilizado do homem das cavernas. Não porque ele não mereça o devido respeito, mas ou se evolui verdadeiramente em todos os sectores da sociedade ou se continua a comer com as mãos e a limpar o ranho à costa da mão. Recuo em que, evidentemente, ninguém está interessado...
Mas vem este prólogo a propósito do "vale tudo" que reina por aí, a começar pela classe dirigente que chega ao ponto de não saber comportar-se com frontalidade, nem conservar o aprumo e a compostura que o desempenho dos cargos que ocupa lhe impõe. À mais pequena escaramuça, estala o verniz, e assistimos, por vezes, a situações deveras caricatas para não dizer vergonhosas.
O “chá” que se possa ter tomado em pequeno ajuda muito, mas não basta. É preciso, pela vida fora, continuar a aperfeiçoar o nosso comportamento e saber enfrentar, civilizadamente, todas as situações.
Para baralhar ainda mais e usando armadilhas sofisticadas, apareceu el-rei D. Dinheiro que sem escrúpulos nem preconceitos se infiltrou em todos os sectores e se tornou senhor absoluto. E passa-se por cima de tudo e de todos. É uma espécie de salvo-conduto.
Tudo se compra e tudo é permitido. Compram-se empregos, títulos, nobreza... E até consciências! A afabilidade, a cortesia, o «bom dia», a «boa tarde», o «se faz favor», e outras formas de civilidade caíram em desuso. Nada disso interessa. A importância do cidadão passou a ser “avaliada” ou pelo lugar que ocupa (muitas vezes mal!) ou pela sua conta bancária. O dinheiro passou a ser uma espécie de lixívia, um tira-nódoas cada vez mais usado...


ELES AÍ ESTÃO !...



Sorridentes, bronzeados, barrigudos, palradores e descontraídos, ei-los que chegam. É o regresso dos nossos ilustríssimos e denodados filhos da pátria que depois de um descanso merecido (?) vêm de novo ocupar as almofadadas cadeiras dos seus confortáveis, luxuosos e climatizados departamentos.
É a “rentrée” política! Não sei por que apareceu no nosso tão rico vocabulário este francesismo. O que sei é que nos tempos que correm é de bom-tom usar essa expressão. Parece que ela confere aos que a pronunciam um certo ar de intelectualidade e sapiência! Puro fingimento, claro, mas como hoje “o parecer” é mais importante do que “o ser”, são muitas as vantagens da camuflagem.
Seja como for, o certo é que há ainda muitos ingénuos que depositam neste regresso dos nossos mandantes muitas esperanças convencidos de que eles vêm de facto com vontade de melhorar as coisas! Mentira. E é lamentável que ainda se não tenha percebido que é necessário e urgente operar uma revolução que se traduza numa mudança de mentalidades. É urgente que se deixe de falar tanto na tal “rentrée” política e se fale antes e mais na “rentrée” de todos nós. 
É que, inadvertidamente ou por comodismo vamos adiando dia após dia a nossa efectiva “rentrée”, a nossa entrada ou seja a exigência dos nossos direitos de contribuintes. Pagamos, cumprimos, mas não denunciamos as injustiças ou as arbitrariedades de que somos vítimas. Há muita gente que quando se queixa, o faz apenas para amigos e sempre em voz baixa, quase em segredo. Parece existir uma “barreira” que os impede de reivindicar o que lhes é devido em troca dos impostos que pagam. Há dias quando alguém se queixava de ter sido mal recebido num serviço público e o aconselhávamos a que denunciasse o caso por escrito, a resposta que obtivemos ilustra bem o círculo vicioso em que vivemos:- Ah! Isso não, porque tenho lá gente de família a trabalhar e isso poderia prejudicar-lhes a carreira...       
É este o País em que vivemos! Um país de comprometidos; um país em que famílias inteiras chegam a ocupar e dirigir uma repartição completa; um país de cunhas, de padrinhos, de troca de favores, de vergonhoso e descarado compadrio. Por tudo isso não serão os políticos, qualquer que seja a cor da camisola que enverguem, a pôr termo a este monopólio de benesses e de lugares públicos e a toda esta falta de competência e de brio profissional que reina por aí.
Só a nossa “rentrée”, o nosso regresso aos tradicionais valores da honra e da moral, e um combate sem tréguas denunciando por escrito os abusos do poder, a prepotência, a falta de civismo e a corrupção, poderá pôr fim a esta onda de anarquia que dá origem a todo este regabofe que reina de norte a sul do país. Se hoje não participarmos nesse combate, não poderemos queixar-nos do que possa surgir amanhã. E, por vezes, a cumplicidade também é crime.


A CRISE


Houve um tempo em que aqui na nossa Europa Ocidental, sabíamo-nos mais prósperos e com melhor nível de vida, à excepção de outros países, como a América do Norte, a Austrália, o Japão e, evidentemente, os do Golfo Pérsico. Éramos mais pobres do que os suíços, que os noruegueses, mas mais ricos do que os chineses. E isso era para cada um de nós tão normal como o facto de o nosso céu ser um dos mais azuis do Mundo!
Além disso julgávamo-nos mais civilizados, mais educados, mais cultos e mais tolerantes que todos os outros povos do mundo. A nossa vida era boa e mantínhamos as nossas tradições com orgulho e até, por vezes, com uma vaidade exagerada.
Porém, a certa altura, os dias felizes de tanta prosperidade passaram a ser menos felizes e com muito menor prosperidade…
E deu-se o reverso. As empresas começaram a fechar, o desemprego aumentou. E então os governantes começaram a explicar o inexplicável, fazendo promessas para a resolver e criar empregos. E continuaram a prometer, mas sempre com os desempregados a aumentar, o dinheiro para viver a escassear e a frustração e o desespero a apossar-se dos mais pobres.
E então chegámos a esta situação que todos conhecem. E com a nossa tradicional bonomia adoptamos a teoria do senhor Pangloss que afirmava que as coisas acontecem, porque têm mesmo que acontecer...
E a todo esse emaranhado complexo de problemas por que estamos a passar, de ordens e contra-ordens, de originalidades que nunca imaginámos, - como a de pôr na rua o ladrão e mandar a julgamento o polícia, que se atreveu a prendê-lo - a todo este emaranhado de coisas, repito, se deu o nome de crise, que tudo abrange e explica tudo o que de mau nos acontece. E ordena-se o corte de vinhas, de oliveiras; obrigam-se os pescadores a deitar o pescado ao mar; desincentivam-se os agricultores a semear, tudo isso porque a fartura é antieconómica!...
Enquanto isso, as populações de chamado “interior” são esquecidas e os já escassos sinais de “civilização” que ainda existem, - escolas, postos de saúde, correios, etc. – são suprimidas ou deslocalizados para as cidades onde tudo se concentra.
Por tudo e por nada e obedecendo ao Progresso do cimento armado, construíram-se auto-estradas que serpenteiam o País, - algumas sem tráfico que justifique a sua existência – há festas, há certames, há exposições, há inaugurações e as Finanças, sem bússola, batem no mexilhão, porque na rocha ninguém lhe toca. É a crise! E é inútil gritar, combatê-la, porque os seus tentáculos espalharam-se pelo País inteiro…
E há ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. É a crise. E se há culpados, não há julgamento. Os Tribunais só julgam pequenos delitos! 





quinta-feira, agosto 20, 2015

AMANHÃ PODE JÁ SER TARDE...


 

Eis uma frase que adoptei como lema na década de 60 e que ainda hoje me serve de guia. Em 1965 escrevi-a num papel e mandei-a copiar para uma chapa de ferro, que depois, e à guisa de brasão, encimei com uma casa em miniatura, no interior da qual coloquei uma lâmpada, que irradia luz.

Como na língua do País onde então me encontrava não existia o til, o copista substitui-o por um acento circunflexo.

Na altura pensei corrigir o erro, mas perante o sorriso de satisfação do “artista” quando me entregou a “obra”, desisti de o fazer. Afinal a gralha até tinha a sua piada, pois o amanhâ com o chapéu ficaria mais protegido das “intempéries” da vida!

Durante anos o “brasão” manteve-se afixado numa espécie de pátio da casa onde habitei. Era um espaço interior a céu aberto, com canteiros de flores e duas buganvílias, uma branca e outra vermelha.

Era lá que tomávamos o pequeno-almoço naquelas manhãs quentes e peganhentas de África!

Hoje, “o meu lema” encontra-se em destaque por cima da minha lareira – o meu refúgio no Inverno, pois como vos tenho dito, sou um friorento como não deve haver igual.

Mas, como tudo na vida, a divisa em questão tem uma história: Logo no início dos meus trabalhos no Continente Negro, e apesar de me encontrar num dos locais mais recônditos daquele País, longe de tudo e de todos, o primeiro dinheiro que ia ganhando, aplicava-o em variados utensílios de casa e em livros.

Passados alguns anos pode dizer-se que tinha tudo o que é necessário numa casa -utensílios de uso diário, uma biblioteca onde podia esclarecer dúvidas, um rádio, por intermédio do qual, em onda curta, ouvia as notícias da Pátria distante, e até, confesso, coisas supérfluas…

No entanto, muitas vezes privávamo-nos de utilizar o que tínhamos para não estragar ou para, eventualmente, nos acompanhar aquando do regresso definitivo!

Guardávamos tudo quase religiosamente. Até que um dia… ficámos reduzidos à roupa que tínhamos vestido. Perdemos tudo!

As convulsões políticas na região fizeram com que ficassem apenas as paredes da casa…

E eis o motivo por que a partir daquela data nunca mais deixei o certo pelo duvidoso, isto é, nunca mais deixei de sorver todos os momentos da vida e sempre que posso, “vivo o “hoje” como se fosse o último dia da minha vida”, porque... «Amanhâ pode já ser tarde...!»

 

 

 

 

 

 

 

A PROPÓSITO DO NOSSO QUOTIDIANO


 
Como todos sabem, as parábolas são narrativas que usam alegorias para transmitir lições morais. Por isso, hoje, dei férias aos meus neurónios e vou tentar contar-vos uma que, penso eu, se encaixa, perfeitamente no actual contexto do dia-a-dia lusitano.

«Havia um rei que estava desesperado, porque não conseguia um novo arrecadador de impostos.

- Não há, neste país, uma pessoa honesta que possa arrecadar os impostos sem roubar dinheiro? - Lamentava-se ele.

E depois de pensar por alguns momentos chamou o seu conselheiro mais sábio e explicou-lhe o problema.

E o conselheiro deu a sua opinião:

-Peço a Vossa Majestade que publique um pregão, anunciando que estais procurando um novo arrecadador e deixai o resto por minha conta.

O anúncio foi feito e naquela mesma tarde, o salão do palácio encheu-se de gente. E vieram todos: grandes, pequenos, gordos, magros, velhos ou jovens, e todos elegantemente vestidos, menos um pobre homem vestido com roupas amarrotadas e bastante gastas. Os demais riam-se dele e cochichavam entre si:

- O rei não vai escolher para seu arrecadador um pobre homem como este, mal vestido, uma espécie de vagabundo….

 Entretanto chegou o sábio conselheiro e disse-lhes:

- O rei está à vossa espera, mas para chegar até aos seus aposentos, deverão passar por este corredor. Como ele é muito estreito só pode passar um de cada vez.  O corredor era, de facto, muito escuro e estreito e todos tinham de caminhar apoiando suas mãos nas paredes para não se perderem ou não se machucarem. Finalmente todos chegaram diante do rei e este, sem conhecer qual o estratagema do conselheiro cochichou-lhe:

- E agora o que faço?

- Com vossa permissão, Majestade, eu vou chamar a charanga para que toque uma música e depois vou pedir a todos os pretendentes ao cargo, que dancem…

 O rei achou muito estranho, mas fez o que o conselheiro lhe disse. Todos os homens se esforçavam em dançar com elegância, mas o resultado era um desastre. Parecia que tinham pés de chumbo. Apenas o homem mal vestido dançava com uma leveza invejável. Os outros quase não se moviam…

Então, o conselheiro dirigiu-se a ele, mostrando-lhe o dançarino pobre e disse-lhe: - É este é o vosso novo arrecadador - e explicou: Coloquei no corredor, estreito e escuro, montões de moedas e jóias. Este foi o único que não encheu seus bolsos com elas. Por isso dança tão levemente….»

O rei, finalmente, encontrou uma pessoa honesta. E se cá na Lusitânia experimentássemos o estratagema?