quinta-feira, junho 11, 2015

ESTE TEMPO EM QUE VIVEMOS


 
Estamos a viver tempos difíceis. E apesar de os nossos fazedores de milagres, que são os políticos, continuarem a prometer mundos e fundos e a fazer promessas em catadupa, a desconfiança - um dos sinais de alarme que podem contribuir para a decadência de um Povo - generalizou-se, nada pressagiando de bom.

As pessoas vivem umas com as outras, mas parecem esconder no seu interior uma profunda desilusão. Convivem, falam, brincam, mas sempre com um pé atrás, com disfarces invisíveis e com uma desconfiança mútua. Suportam-se e defendem-se umas das outras com diversificadas artimanhas – com deferências cínicas, com a exteriorização de riqueza que a maior parte das vezes não possuem, com licenciaturas duvidosas ou com a ostentação de uma sabedoria fictícia traduzida em chavões enferrujados adquiridos nesses alfobres de cola cartazes.

É um tempo do salve-se quem puder. Um tempo de indiferença e de inversão de valores com os ladrões a fingir de honestos, os oportunistas a ocupar o lugar dos competentes e os materialistas a escorraçarem os defensores do verdadeiro e puro idealismo.

O dinheiro corrompe as consciências, manipula a honestidade e faz com que se atraiçoem os amigos, construindo uma sociedade de traidores e de ladrões. O vale tudo adquiriu o estatuto de lei e funciona como tal. A roubalheira é uma espécie de pandemia, que se alastra a todos os sectores da vida nacional. A continuar assim, pouco faltará para que a honestidade seja considerada crime com todos os castigos inerentes à sua prática.

A sociedade está a abarrotar de doutores, de tecnocratas e de especialistas analfabetos. E toda esta plêiade de cérebros privilegiados não se cansa de apregoar a vinda de tempos e ideias novas, mas sem conseguir explicar os benefícios de toda essa mudança!

Estamos numa sociedade dominada pela falsidade e pelo egoísmo e em que as pessoas são cada vez mais atacadas por uma surdez propositada. Já ninguém acredita naquilo que ouve, pois são tantas as desilusões que o tempo de acreditar se esgotou. O que se vê com mais frequência é a dilatação do ventre e das contas bancárias desses fazedores de milagres, que referi no começo, e que quer chova quer faça sol, não deixam de se comportar como vedetas, como donos do Mundo!

Entretanto, a hipocrisia vai-se instalando paulatinamente neste lodaçal de cinismo, de bajulação e de desprezo pelos mais elementares princípios da moral e da ética.

A luta pelo mando, pela ambição e pela influência são as cores dominantes no cenário cinzento dos dias que passam. Entretanto e em nome dos “brandos costumes” cresce assustadoramente a procissão de vigaristas, que o Poder vai transformando em heróis…

 

 

 

 

 

 

 

UM CRIME NA SERRA


 
Isolado bem no alto da serra, lá ia sobrevivendo sem quaisquer ajudas do Estado. Mas também não havia dinheiro que pudesse pagar a tranquilidade e a paz de espírito de que desfrutavam naquele ermo. No seu mundo rural tudo tinha mudado e quase tudo era proibido. A tal “ASAE” & Associados tinham dado o golpe final...

Desconfiado de todas as modernices, entretinha-se a cultivar a terra ingrata, mas que lhe dava o sustento para a mulher e dois filhos e ainda para a criação de galinhas, porcos, patos, um chibo e duas cabras que lhe davam o leite para os miúdos. Na semana passada a sogra viera viver com eles e era mais uma boca a sustentar. Vida ingrata! De cada vez que ouvia notícias acerca dos ordenados e da vida despreocupada de certos “senhores” e afins, tinha ganas de lhes apertar os gasganetes!..

A última novidade trazida por um sobrinho informando-os de que nem animais da própria criação se podiam abater sem ser num matadouro, foi a gota de água: «Vão pró raio que os parta!...» E cada vez se agigantava mais a ideia que o perseguia há algum tempo. Estava decidido. Ia fazê-lo. A mulher sempre temente às leis e a Deus, tentava dissuadi-lo: «-Ó Francisco, tu já pensaste no que vais fazer?» «-É evidente que sim, mas diz lá como vamos fazer para dar de comer a todos?» - «- Não sei, mas matar assim…E se descobrirem?...»

- Se descobrirem que se lixem! Está tudo preparado e já não se pode recuar. O compadre Barnabé vai ajudar-me e vais ver que tudo há-de correr bem. Lembra-te que é para bem dos nossos filhos e até da tua mãe. Ninguém vai descobrir.

Bateram à porta. A mulher espreitou pela janela. Era a carrinha do compadre Barnabé. O Francisco deu um pulo na cadeira, pegou na enorme faca que tinha afiado há pouco, e saiu porta fora.

De manhã os filhos notaram a falta do pai. «Foi trabalhar e só vem noite dentro», disse-lhes a mãe. E era já alta noite quando a porta se abriu de mansinho. Era o regresso. Entrou o Francisco seguido do compadre Barnabé, sorridentes, camisas ensanguentadas e cada um com seu saco às costas. O saco do Francisco estava roto e pelo rasgão saia uma perna da vítima…

A mãe, aflita, perguntou: «Têm a certeza de que ninguém vos viu?!...» Foi Barnabé, já habituado, pois já não era o primeiro que liquidava, que respondeu: - «-Calma! Não esteja nervosa. O servicinho foi feito como manda a praxe. Mas que belo bicho, comadre. Criado com batatas e hortaliça cá destas nossas courelas, que belos presuntos vamos ter, sem corantes nem conservantes - o tradicional e genuíno produto que ainda se encontra nos lugares mais recônditos do nosso Portugal. Nem os do Alentejo, criados com bolota, têm o mesmo gosto!...»

sábado, maio 23, 2015

OS LADRÕES DO MEU TEMPO



Penso que não há ninguém que, de vez em quando, consiga resistir ao desejo de revisitar o passado e recordar factos e figuras que dele fizeram parte.
Fiz há dias uma dessas viagens imaginárias e fui parar à minha aldeia. Numa das ruas mais antiga e por detrás de um espigueiro em ruinas, quem me salta à imaginação? O Bernardino…
O Bernardino era mais ou menos da minha idade. Só que mais forte. Corpulento, sempre risonho, era – usando a linguagem de hoje – um gajo porreiro.
Porém, naquela altura, a sua profissão já não era nada bem vista e o mais simples trabalho que fizesse trazia-lhe complicações. E ele, como todos nós, tinha de trabalhar para comer. E trabalhava dia e noite. Mas mais de noite…
Nos intervalos, nos momentos livres, dormia em qualquer sítio: no vão de uma escada, numa casa abandonada ou num palheiro. Todos esses lugares lhe serviam. Não gostava do barulho. Adorava o silêncio e era um acérrimo defensor do escuro.
Para executar as suas tarefas, usava as mais rudimentares ferramentas e arrostava os maiores perigos. Além disso não tinha sindicato que o defendesse, não tinha direito a férias, e nessa altura também ainda não existiam os subsídios dos malandros, nomeadamente o Rendimento Social de Inserção.
Por vezes eram todos contra ele: a população, os polícias… e até a Justiça, que já naquela altura nada tinha de imparcial. Defendia ferozmente os “clientes” visitados e condenava sempre o visitante – o Bernardino. E foi a pensar nele, com um pé no começo do século vinte, (altura em que ele exerceu a sua actividade) e outro neste, em que estamos, tentei imaginar como seria o Bernardino de hoje, o Bernardino versão moderna, século vinte e um!
E então, imaginei-o sentado ao volante de um “topo de gama”, bem vestido, rolando pela auto-estrada, telemóvel colado ao ouvido e sorriso nos lábios…
Um Bernardino à la page – sem gazua, sem pé-de-cabra, sem escada de corda e servindo-se apenas da ferramenta que usam agora os da sua profissão – uma simples esferográfica!
Como as coisas mudaram, como os métodos evoluíram e quão bonito é o progresso. Que aconteceria ao Bernardino se hoje fosse possível ressuscitá-lo? Quem sabe se não seria condecorado pela sua “honestidade”?
 Ah!...Esquecia-me de vos dizer que num dia em que o “trabalhinho” não correu bem, o Bernardino foi preso e condenado a muitos anos de prisão, que teve de cumprir integralmente numa enxovia húmida e sem luz. Como eram pobres e mal compreendidos os ladrões do meu tempo!...












 

sábado, maio 16, 2015

PAPEIS AMARELECIDOS


 
Faz hoje, dia 8 de Maio de 2015, setenta anos que terminou a segunda Guerra Mundial. A notícia da assinatura da rendição correu o mundo na manhã do dia 8. Truman, nos Estados Unidos; Churchill, no Reino Unido; e de Gaulle, na França, anunciam oficialmente o fim da guerra às 15 horas. A partir de então, o dia 8 de Maio tornou-se a data-símbolo da vitória sobre a Alemanha nazista. Recordo-me desses tempos difíceis devido ao racionamento de bens e lembro-me também das artimanhas a que tinham de recorrer os lavradores, - cuja produção era contabilizada pela mão dos regedores - para lhes fugir e venderem os produtos sem que a IGA (Intendência geral dos Abastecimentos) uma espécie de ASAE de hoje, tivesse conhecimento!... 

Muito havia a dizer sobre isso, mas encontrei hoje, por acaso, uns papéis já amarelecidos nos quais rabisquei a euforia vivida após o conflito. Nos anos 50, vivia-se a todo o gás, tentando recuperar o tempo perdido. Com as sopas em pacote chega ao Velho Mundo a coca-cola. Começa a falar-se no aspirador e as meias de nylon fazem a sua aparição. Em França – de onde tinha mais notícias, através dos jornais, embora chegados com atrasos de meses – a indústria automóvel atingia as 190 mil unidades produzindo, entre outros, um carro que acabaria por seduzir a Europa, a Renault 4. Em 54, – tenho anotado – no salão das "Arts Ménagers" em Paris, podia fazer-se a barba de graça com a máquina de barbear eléctrica, made in USA!

Era o tempo dos três "Dês" – "Drôles de Moeurs, Drôles de Modes e Drôle d’Espoque! Mas era também a grande festa da literatura francesa com Sartre, Mauriac, Camus, Gide e da ousadia de Françoise Sagan com "Bonjour Tristesse". E com Minou Drouet que publica poemas de amor aos 7 anos e Roberto Benzi que dirige em calção as mais famosas orquestras! Era o tempo dos prodígios! E continuo a folhear...Martine Carol, Brigitte Bardot, são duas "bombas" que explodem e cujas ondas de choque chegam a atingir os "States". O cinema marca pontos: Jean Marais, Eddie Constantine, aliás, Lemy Caution, Louis Jordan, Belmondo, Charrier, Gérard Philipe, apaixonam multidões de admiradoras. Edith Piaf reina no music-hall e quando canta «é a chuva que cai, é o vento que sopra, é a luz da lua que estende o seu manto», no dizer de Cocteau. De Bruxelas chegam Brassens, Bécaud e Brel que vêm justar-se a Yves Montand, Aznavour, e a tantos outros. Do outro lado do Atlântico é Sidney Bechet com "Petite Fleur" e os seus novos ritmos de jazz "New Orléans" que faziam vibrar a juventude, que escutava, bebendo laranjada. E paro de folhear...

São pedaços de papel amarelecido, escritos na solidão dos trópicos, à luz da "Petromax", ouvindo os ruídos indefinidos da floresta virgem, e sorvendo o perfume inebriante das orquídeas selvagens, como há dias referi num texto sobre uma das minhas caminhadas.

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

sábado, maio 09, 2015

ESCREVINHADOR DE CABELOS BRANCOS

 
Escrevinhador de  cabelos brancos
Ecrire, c’est une façon de parler sans être interrompu
Jules Renard
Há dias em que quase somos submersos pelas vagas da nossa própria frustração. Sofremos ao remexer os arquivos da memória, e sofremos também quando imaginamos que o mundo e a vida poderiam ser de outra maneira. E é nesses momentos que eu sinto necessidade espiritual de me confessar, de confidenciar ao papel todas as minhas mágoas, as minhas angústias e a minha revolta por tantos silêncios e tantos sonhos que não consegui concretizar. É a maneira de afastar para longe tudo o que a vida me negou, e é, também, simultaneamente, um hino em louvor do que ela me concedeu em troca. É assim como que uma mistura de lágrimas e sorrisos. De lágrimas que foram secando com o passar dos anos e de sorrisos que nunca me abandonaram porque se apoiaram sempre nessa grande força interior, que é a Fé consubstanciada na satisfação de ter conseguido ultrapassar e vencer só, e sem desânimo, os obstáculos que a vida foi colocando no meu caminho. É uma espécie de diálogo sem vozes, em que a mesma personagem representa dois interlocutores, distantes no tempo, mas que durante anos, caminharam sempre lado a lado, acalentando os mesmos projectos, as mesmas ambições, os mesmos sofrimentos e também cultivando sempre as mesmas esperanças.
Neste turbilhão de ambiguidades e egoísmos, as pessoas estão de tal maneira acorrentadas com as grilhetas de que a sociedade actual se serve para as escravizar, que é cada vez mais difícil encontrar alguém com quem se possa manter uma conversa cujo assunto não seja relacionado com toda esta podridão e falta de dignidade que nos rodeia. A moral do passado, odiosa, reaccionária, paternalista e castradora, foi enterrada. Porém, a outra moral, a nova, a boa, a ideal, a verdadeira, onde está?!... Talvez a resposta se encontre nos milhões ganhos à custa alheia e depositados em muita conta bancária. Não estou a dar lições. Quem sou eu para o fazer!
Estou apenas a falar baixinho. Só para mim. E porque em todos os dias morremos um pouco, escrevendo, eu vou aproveitando todos esses momentos, transformando cada um deles, num hino de louvor à vida. Quando escrevo, vou sorvendo gulosamente todos os minutos desta passagem – desta vida que nos desgasta com os seus encantos e desencantos. Quando escrevo, encontro-me com o paradoxo que sou e com o outro eu da minha alma.
Escrevinhador de barba e cabelos brancos escrevo também para resistir à marginalização e não deixar morrer a criança da alma, a alegria de viver, a espontaneidade do sorriso e a fé que sempre me alumiaram. Escrever é, em resumo, uma espécie de reflexão interior – uma renovação da chama da esperança e um regresso à inocência e à alegria da criança que tento conservar sempre viva dentro de mim.
 

DO TEMPO QUE PASSA

 
 Sempre gostei muito de ler. Houve um período na minha vida em que, além de minha mulher, a minha companheira favorita era a leitura. Não tínhamos vizinhos, vivíamos isolados em plena floresta tropical numa casa coberta com colmo e rodeada de seringueiras e cafezeiros.   
Do Mundo, as notícias chegavam-nos através da Rádio na banda das “ondas curtas” que por vezes se tornavam “curtíssimas”, pois a audição era péssima.…
Não tínhamos luz eléctrica e às seis da tarde a noite caía. Havia, por isso, necessidade de ocupar o tempo – as longas noites de África. A leitura era o nosso refúgio. À luz da “Coleman” ou da “Petromax”…
Em 1951 entrei para o «Clube do Livro» da Bélgica, e de mês a mês lá chegava o barco com os víveres, as cartas e os livros!
E, como costuma dizer-se, “devorava-os”! Tomava notas. Exprimia a minha opinião, a lápis, nos espaços em branco. Ora concordava com as ideias expressas, ora era contra. Já nesse tempo fazia parte dos que apadrinham o conceito de que um livro tem sempre dois autores: o que o escreve e aquele que o lê. Nalguns, as minhas notas quase faziam desaparecer algumas das frases do autor. Infelizmente, quase todos foram queimados aquando do despertar dessa onda de “liberdade” que varreu o Continente negro na década de sessenta. 
Há dias, encontrei na minha estante, um dos que escapou à fúria dessa turbamulta: «Les Saints vont en Enfer», de Gilbert Cesbron, escritor francês. Foi o primeiro que encomendei, e que motivou esta minha crónica de hoje. Um livro que gerou bastante polémica nesses longínquos tempos, mas que acabou por se afirmar e se tornar uma obra de referência do escritor.
E é, porque, o seu conteúdo tem muito a ver com o que penso e com a minha maneira de estar na vida, – sobretudo quando denuncio injustiças e defendo o povo do qual, honrosamente, faço parte, – que traduzi, à intenção dos leitores, um pequeno excerto, que é uma espécie de premonição dos tempos em que vivemos: «Eis um livro que vai desagradar a muita gente. Mas será que a prudência é, ainda, uma virtude? Num mundo em que aqueles que falam a mesma língua não se conseguem fazer perceber sem um intérprete; num tempo em que os mediadores são assassinados e a honra esquartejada, eu não quero ser de nenhum partido. O que vi entre os seus membros é mais do que suficiente para que tome esta decisão. Assim eu nunca deixarei a mão dos homens no meio dos quais eu cresci….»
Esses homens que, sozinhos, sem quaisquer ajudas, percorreram os escuros caminhos da vida, lutaram, enfrentaram ventos contrários, mas que são livres, porque não devem a ninguém, aquilo que são e o pouco que têm. 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAMINHADAS

Esta minha caminhada começou em 14 de Abril de 1951 apenas com dois participantes. Os anos foram passando e, entretanto, juntaram-se mais dois caminheiros. Éramos, então, quatro. E quase isolados do Mundo, sob o calor tórrido dos trópicos, partilhámos as nossas vidas, os nossos afectos e fruímos de uma felicidade sem igual!
Foram dias, meses, anos de manhãs de sol quente com o perfume das orquídeas selvagens e com a seiva da juventude a borbulhar na mente e a desenhar em arabescos indecifráveis projectos de um futuro utópico.
Era naquele tempo sem tempo, - a Primavera da Vida - no tempo das flores em que os frutos começam a  crescer…
E por falar em crescimento, e apesar de tantos anos passados, ainda tenho na mente as gargalhadas estridentes e o chorar, por vezes birrento, dos meus meninos!
Mas como acontece com a Natureza, a Vida tem também os seus caprichos, as suas mudanças, os seus ciclos.
E à medida que o tempo foi passando, o percurso foi mudando, umas vezes com subidas íngremes, outras com descidas bruscas e inesperadas. E quão difícil foi subir umas ou descer outras!
Mas nem sempre é noite. Há sempre o dia que se segue. E em momentos de aflição, de desânimo e até de desespero, a determinação falou mais alto e dentro de mim, qualquer coisa de inexplicável despertou, ajudando-me sempre a erguer e a prosseguir o caminho.
E sessenta e quatro anos depois aqui estou. Agora mais acompanhado. De dois que éramos, quatro que fomos, somos agora, apesar de algumas desistências, uma dúzia!
E quantos sacrifícios, quantas lágrimas, quantos sorrisos, quantas renúncias, mas também quantas alegrias, e quanto orgulho!...
Começar do nada sem ajudas de ninguém e apenas com o nosso próprio suor e trabalho, ser livre, sem peias de qualquer espécie é coisa difícil de fazer compreender a muita gente deste nosso mundo de hoje - um mundo egoísta, invejoso, hipócrita, cheio de falsos profetas, ávido de dinheiro fácil, mais dado à preguiça do que ao trabalho, mais inclinado para gastar do que para angariar.
Sessenta e quatro anos!...
Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial – industrializou a esperança, fazendo-a funcionar até ao limite da exaustão.
E se multiplicarmos sessenta e quatro anos por doze meses, verificamos que o somatório dá para qualquer ser humano se cansar… Mas é então aí que entra o milagre. O da renovação. Que me leva a pedir mais uma fatia para saborear conjuntamente com toda a equipa.
 
 

 

 

ANTÓNIMOS QUE SÃO SINÓNIMOS


 
Na semana passada, quando assistia a uma sessão no Parlamento em que os nossos “eleitos” se insultavam mutuamente, lembrei-me de um livro que li há muitos anos e que, salvo erro, foi escrito por um filólogo japonês.
Segundo ele, na origem da maioria dos conflitos ideológicos, estão a incerteza e a diversidade dos conceitos atribuídos por uns e por outros às palavras com que se exprimem.
Muitas vezes basta substituir uma palavra por outra, até por um sinónimo menos débil ou mais forte, para que os efeitos produzidos sejam diferentes e até mesmo opostos.
A propósito lembrei-me de dois pacatos e discretos substantivos que entraram no vocabulário de várias línguas com a humilde função de designar uma posição genericamente relativa a espaço: esquerda e direita.
No começo, situar-se à esquerda ou à direita não implicava qualquer significado especial, salvo num contexto de deferência em que ficar à direita da pessoa que recebe era prova de maior consideração. O que ainda é válido.
Mas veio depois a deturpação. E segundo consta, ela data de finais do século XVIII, das sessões da Convenção francesa em que na Sala da Pela, os Jacobinos (mais refilões) se sentavam à esquerda dos Girondinos (mais moderados) que se sentavam à direita. Daí parece ter surgido o significado político de direita e de esquerda. E foi a deturpação. Ou pior – a politização!
E como neste Mundo tudo gira à volta de convenções, lá se convencionou que na “esquerda” estavam os patifes e na “direita” os bonzinhos. A princípio a coisa parece ter resultado, mas com o rolar dos anos tudo mudou e apesar de a esquerda continuar a ser a mais caceteira e arrogante a direita, muitas vezes não lhe fica atrás. 
A máxima “todos diferentes, mas todos iguais” funciona a todo gás nas lides políticas e no Parlamento é indigna e desonesta a maneira como os nossos “eleitos” se engalfinham uns nos outros.
Foi o caso da sessão a que assisti e que motivou estes meus rabiscos de hoje. Confesso que me senti envergonhado e triste por ser tão baixo o nível dos que representam o País.
Numa altura em que tanto precisamos de bons exemplos para elevar a nossa escala de valores e fazer subir a nossa auto-estima, o que presenciamos é uma luta encarniçada entre gente irresponsável, mais preocupada em aumentar as suas contas bancárias do que, propriamente, em tentar resolver os graves problemas do País.
Politicamente falando, e radicalismos à parte, esquerda e direita são palavras sinónimas. Não há diferença entre elas. Ou entre eles – os que dizem ser de um ou do outro lado. Salvo raríssimas excepções, ambos defendem apenas e só os seus interesses pessoais. Desafio os leitores a provar o contrário…
 
 
 

sexta-feira, abril 17, 2015

RESPOSTA A "O MEU GINÁSIO" .. de um citadino, claro!


CRÓNICAS & COMENTÁRIOS

 João Ventura da Costa

O meu ginásio
 O senhor Director deste jornal, pessoa que muito estimo e respeito e que acumula o cargo com o de marido da senhora minha Mãe, escreveu, há umas semanas, um artigo sobre a sua preparação física, feita, nas suas palavras, num ginásio muito diferente dos que existem nas cidades.

A ideia geral do artigo era, pareceu-me, enaltecer as virtudes do exercício feito a vergar a mola nas tarefas rurais e menosprezar a manutenção do corpo quando feita num ginásio duma grande cidade, de Lisboa por exemplo.

Não gosto de me envolver em polémicas com colegas da escrita, especialmente quando isso significa meter-me com o tipo que me paga estas crónicas (a peso de ouro, diga-se de passagem); contudo, desta vez senti-me atingido pelo texto, irritado com aquele arrazoado de superioridade rural e, vai daí, elaborei todo um esquema para provar a falsidade do pressuposto.

Um primeiro ponto, desde logo, nos separa: graças à evolução civilizacional que só as mentes brilhantes que habitam nas grandes cidades permitem, nós, os citadinos, os verdadeiros “homos sábios”, há muito que pusemos de lado o uso de instrumentos de tortura da idade média!

Instrumentos, de cuja intensa utilização o senhor Director faz gala: é a forquilha, a barra de ferro, a picareta, o machado, o serrote e o farpão! Entre outros! Com quase noventa anos e ainda agarrado a instrumentos tão retrógrados, de tão má memória? É obra!

Suprema lata quando escreve eu exercitando os músculos dos braços puxando a máquina (que é eléctrica, esqueceu-se o senhor de dizer….) e ela tinha que empurrar o carro de mão (que nem é eléctrico, nem a gasolina….) e fazer flexões dos membros e do tronco….”.

Valha-me o nosso senhor da paciência! É claro que a sua alma gémea também tinha que frequentar aquilo que o senhor diz ser um ginásio! Mas é por medo, é por puro medo e até me arrepio só de o imaginar atrás dela, o farpão em riste, impedindo-a de ir descansar ou de recolher ao doce e suave recato do sofá, na sala.

Pois bem senhor Director deixe-me dizer-lhe o seguinte: o seu ginásio, em comparação com o meu, com o da cidade, é uma treta! É que não há comparação! E olhe que o comprovei usando um método científico recentíssimo, não lhe explico porque o meu amigo não ia entender patavina, é só para gente com muita urbanidade, tangencial ou secante, de índole e carácter pioneiros e coisas do género, conversa tipo um candidato a candidato que dá pelo nome de Sampaio.

Eis o resultado: em cinco horas consecutivas de intensa poda de arbustos, de alucinado desbaste de ervas daninhas e dum furioso corte de relva, nem uma ponta de suor na minha camisa! Nem tão-pouco um aumento na elasticidade das falanges, quanto mais das falangetas. Dores nas costas? Puf…nem sei o que isso é!

Infelizmente tenho que terminar. A Maria precisa da minha ajuda, ela sim é que ficou muito maltratada, está, como o senhor diz “num molho”! Coitadinha, não admira, sozinha durante todas aquelas horas de exercício rural.

domingo, abril 12, 2015

A ARCA E O NOÉ PORTUGUÊS

 
Foram tantas as injustiças denunciados pelos indígenas, que obrigaram o Criador a agir. E então, Deus, chamou o Noé português e disse-lhe: “Vou fazer chover continuamente até que o “Rectângulo” desapareça do mapa. Dou-te seis meses para construíres uma Arca onde guardarás um casal de cada ser vivo que habite o rectângulo. “Muito bem”, disse Noé a tremer. E Deus continuou: “Dentro em breve começará a chover e é bom que te despaches…
Passados dois meses a chuva começou a cair, e Deus, por entre uma nuvem, avistou Noé a chorar sobre um penedo, mas não viu qualquer vestígio da Arca.
E então Deus perguntou: “Noé, onde está a Arca”? E Noé respondeu: “Peço-te perdão, meu Deus, tenho feito o possível, mas tenho tido grandes contratempos: em primeiro lugar o plano que deste para a construção não foi aprovado, porque não respeitava as normas da Troika. A seguir o Banco que me financiava faliu. Depois tive uma grande discussão com a protecção civil que obrigou a juntar ao plano um sistema de aspersão em caso de incêndio na Arca. A seguir o meu vizinho fez queixa às autoridades por estar a construir a Arca em terreno não contemplado no PDM. Com as madeiras para a construção tive também grandes dificuldades, porque as árvores que queria cortar serviam de abrigo a uma ave rara, o papagaio, que faz parte do bando, que faz saraus no Palratório Nacional e cuja espécie está protegida.
Surgiu depois um imprevisto com o sindicato dos carpinteiros a respeito de horas suplementares e só consegui contratar seis que estavam no Fundo de Desemprego. Outra contrariedade surgiu quando comecei a querer capturar os animais. Tive de fazer várias reuniões com a Sociedade Protectoras dos bichos e com os ecologistas, que teimavam em não os deixar aprisionar.
Quando tudo parecia estar em ordem recebi do Ministério do Ambiente uma carta intimando-me a apresentar um mapa com o sítio da inundação e os eventuais prejuízos para a Natureza. Mandei-lhe um globo terrestre onde indicava São Bento e parece que ficaram satisfeitos. Agora mesmo recebi ordem para me apresentar no Ministério do Trabalho, porque não respeitei a quota de emprego e só contratei velhotes, os únicos que quiseram trabalhar.
Por fim, o Governo avisou que vai confiscar todo o material que está no estaleiro com o pretexto de que os direitos de autor não foram pagos ao primeiro construtor.
Por tudo isto, meu Deus, por todos estes atrasos, só daqui a cinco meses conseguirei ter a Arca pronta…”   
De repente o céu tornou-se limpo e azul, o sol começou a brilhar e um arco-íris apareceu com toda a sua beleza. Noé, esperançado, sorriu. “Meu Deus, através deste sinal celeste, quererás dizer-me que já não vais fazer desaparecer o meu País?” E Deus respondeu: “Não, Noé! Não o vou destruir, porque os homens que vós escolhestes para governar, já o fizeram…”
 

quinta-feira, abril 02, 2015

O MEU GINÁSIO

 
Estou, como costuma dizer-se, “num molho”. E por quê?... - quererão saber os leitores mais curiosos. Eis a resposta: porque, hoje, sábado, 28 do mês de Março do ano da graça de dois mil e quinze, pela primeira vez, ‘fiz’ ginásio!
É verdade que é um ginásio diferente daqueles das cidades. É assim a modos que um ginásio rural. Não tem aqueles acessórios com nomes esquisitos e estrangeiros, mas nele também se pode tratar do físico da mesma maneira e usando processos naturais.
O único acessório que não é nacional, é uma máquina de cortar relva de marca inglesa, porque os restantes são todos feitos cá no rectângulo e alguns já os meus avós usavam para conservar o esqueleto em boa forma.
A forquilha, a pá, o ancinho, a barra de ferro, a picareta, a enxada, o machado, o sacho, o serrote, a tesoura da poda, o farpão, são alguns dos apetrechos que se perfilam aqui nesta minha área de manutenção. Esqueci-me de mencionar o carro de mão que é também, e ao mesmo tempo, um transporte e um instrumento de desporto.
Cerca das nove da matina eu e a minha alma gémea, vestidos a preceito, começámos o treino - eu exercitando os músculos dos braços puxando a máquina, e ela com o carro de mão, onde esvaziava a relva cortada, fazia flexões dos membros e tronco, e a seguir despejava os resíduos num monturo destinado ao processo de curtimenta.
De vez em quando interrompíamos este exercício e percorríamos a distância entre a parte relvada e o fundo do quintal, exercício este, que não só servia para descontrair, mas também para nos refrescarmos colhendo e comendo uma laranja do pomar.
Durante o ano, sobretudo a partir da Primavera, esta prática é semanal e todos os outros utensílios que atrás mencionei são utilizados noutros exercícios adequados ao seu desempenho.
Hoje, por exemplo, a pá e o sacho foram também utilizados num exercício de remoção de terras trazidas pela enxurrada o que obrigou, com várias insistências, a flexionar o tronco e a desenferrujar a “mola”.
De igual modo a tesoura da poda, ao ser utilizada para aparar alguns arbustos da sebe obrigou as falanges, falanginhas e falangetas a contorções que lhes avivaram a elasticidade.
O sol quis também associar-se e, acalorado, deu uma ajuda, fazendo com a transpiração escorresse esqueleto abaixo, deixando manchas no vestuário, ao extravasar as toxinas contidas no organismo.
E assim, durante algumas horas, fomos tratando do físico, terminando os meus exercícios com uma espécie de sessão de halteres erguendo e baixando o machado amiudando lenha para ajudar a acender o fogão nas manhãs e noites frias que ainda vamos ter…
Agora podem fazer uma ideia, ainda que ténue, de como me sinto. Dói-me tudo. E se estou a descrever a minha manhã de “exercício físico” é para demonstrar que na aldeia também podemos dar-nos ao luxo de “fazer ginásio”. É verdade que nos sai do corpo, mas poupamos na carteira e fazemos uma limpeza aos pulmões, inalando esta mistura de ar puro do campo e da serra.

 

  

 

 

   

 

 

 

 

 

AS PEQUENAS COISAS

 
Hoje é sábado, o Sol aquece, e aqui estou eu no meu habitual cantinho, ao ar livre, a ver o pulsar da aldeia. Grande azáfama. Os tractores passam em frente, na estrada, a caminho dos campos onde os agricultores vão plantar as suas batatas, o cebolo, as alfaces, semear feijão e proceder aos demais trabalhos próprios da época.
Hoje de manhã também plantei um pessegueiro e embora seja já um pouco fora da época espero que vingue e que ainda possa comer os seus deliciosos frutos - aqueles pêssegos carecas que têm um cheirinho característico e que resistem, sem pesticidas, a essas pragas que agora por aí proliferam. Ontem foi a vez de dois abacateiros pequeninos em substituição de outros que a geada queimou.
Dias encantadores, estes, de sol traiçoeiro, mas que depois de um Inverno frio e chuvoso nos vem agasalhar a alma e devolver a boa disposição. Há pouco fui até ao fundo do quintal e em todas as plantas há sinais de renovação. Pequenos borbotos indiciam a chegada da Primavera. As andorinhas já riscam o céu e o chilrear da passarada é a música de fundo desta colorida manta que começa a cobrir o meu quintal.
Como é bela a minha aldeia! O local onde demos os primeiros passos...Mesmo no Inverno, quem fica insensível à primeira camada de geada numa bela manhã estranhamente azul e quieta, que deixa tudo branco? Que encantamento esse que ainda hoje perdura no arquivo poeirento das minhas recordações!
Que sensação de bem-estar agora ao contemplar estes verdes campos, assistir ao nascer do dia, ver o brilho das gotas de água nas plantas que, como lágrimas, rolam pelas folhas, acariciadas pelos raios do Sol que desponta! 
E na Primavera, manhã cedo, abrir a janela e respirar essa mistura de perfumes da Natureza ouvindo o chilrear da passarada – essa sinfonia ímpar que reboa no manto verde dos campos?! E o grito estridente e temeroso do melro que ali bem perto procurava alimento e foge? E aquele silêncio misterioso do dia quando acorda ainda envolto na neblina da manhã!
E há tantas outras coisas insignificantes que nos deliciam: uma criança que ri na casa ao lado, as dolentes badaladas de um sino lá longe; o canto do galo do vizinho, um amigo que passa na rua e nos dá os bons dias; o cheiro característico exalado pela terra seca borrifada por uns pingos de chuva...
Costuma dizer-se que a felicidade não mora longe de nós, mas vive escondida no nosso interior, disfarçada em pequenos nadas.
Haverá melhor bálsamo – tão simples, tão fácil de comprar e tão eficaz – para minimizar as amarguras e as arrelias do dia-a-dia, reforçar a paz interior e dar força para continuar a caminhada, do que essas pequenas coisas em que tropeçamos constantemente?!...
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NO COMEÇO DE MAIS UM DIA

 
Esta manhã, quando cortava a barba, vi, de repente, uma cara que eu conhecia de qualquer parte e que me fitava ainda com os olhos ensonados. - «Mas eu conheço-te...» - disse baixinho cá pra comigo não fosse minha mulher ouvir e pensar que eu começava a tresler logo no começo do dia. Depois, com calma, arregalei os olhos e surpreso, mas sorridente, fixei a imagem. E então o espelho reflectiu uma cara ensaboada, o braço no ar e a máquina de barbear parada junto ao nariz. Era eu!...
E sorri. E ao sorrir, as rugas do rosto fizeram-se mais notadas, e os olhos humedeceram-se levemente. E numa espécie de diálogo virtual com o espelho, interpelei a imagem. E como num rosário, - rosário da vida, com estações e mistérios – lá fomos desfiando as contas já puídas pela erosão do tempo, e já desbotadas pelos sóis que as alumiaram, e que depois as escureceram: - emoções, anseios, alegrias, tristezas, esperanças, desilusões, de todos os ingredientes de que é feita a vida, elas tudo guardam. São símbolos vivos de muita coisa que já morreu!
Perdido nesta divagação íntima e silenciosa, deixei que a lâmina penetrasse mais fundo na pele. E voltei à realidade, regressei ao Presente. A imagem que o espelho reflectia era já diferente. Era a actual. Uma cara enrugada e carrancuda. Apenas uma réstia de um sorriso antigo tinha ficado esquecido no canto do olho...
O tempo não pára! E é talvez por isso que a nossa convivência com ele nem sempre é pacífica. Por vezes o relacionamento torna-se mesmo difícil. Sobretudo, quando na esperança de o fazermos parar, o corpo nos atraiçoa, reavivando as marcas que a passagem dos anos deixou. 
Espelho meu, espelho meu... O tempo não pára! Os anos passaram a correr e, a certa altura, é preciso assumir, com coragem e resignação, os estragos que eles deixaram na sua passagem.
Envelhecer é uma arte. E, como todas as artes, é preciso cultivá-la. Gostar dela. Admitir as suas limitações e brincar com elas. Cada idade tem os seus encantos. O que acontece é que muitas vezes não os sabemos procurar. Sucede também que, ao afirmarmos tudo saber pela experiência adquirida, cavamos um fosso à nossa volta. E somos rejeitados. As novas gerações são avessas a conhecimentos baseados na prática e na experiência. É a teoria que impera. Não adianta remar contra a maré...  
Envelhecer é uma arte. E nesta sociedade materialista em que vivemos ou a cultivamos e a renovamos constantemente, evoluindo e adaptando-nos aos novos ventos que sopram ou corremos o risco de cair no isolamento - essa ilha perdida no mar imenso que é a indiferença!
A boa disposição e o bom humor são ajudas imprescindíveis. Não esqueçamos que o riso é como o limpa brisas do automóvel: - mesmo sem conseguir parar a chuva, ele permite que continuemos a viagem...

sábado, março 07, 2015

LEITURA E INTERPRETAÇÃO

 
 Como muitas vezes tenho dito, não é fácil escrever para o jornal ou melhor dizendo, não é fácil encontrar assunto que cative a atenção ou o interesse do leitor.
As novas tecnologias, ainda que sinal de progresso, diminuíram o número daqueles que liam para reflectir e dos que procuravam na leitura a sua fonte de ensinamentos.
Hoje o cidadão moderno vê as «gordas» e passa os olhos sobre os títulos sem se interessar pelo seu conteúdo.
Há, no entanto, excepções, mas grande parte dos leitores prefere o sensacionalismo bacoco a leituras que o obriguem a “mastigar” para compreender o que lêem. A leitura da palavra escrita impõe um modo de construir pensamento que é um pouco diferente das demais fontes de informação.
Além disso, a leitura é também uma evasão. Num bom livro podemos substituir o herói, viajar, conhecer outros países, vestir trajes doutras gentes e recuar a outras épocas e ver as coisas de forma diferente.
Podemos também, através de diversos autores, fazer comparações entre épocas, culturas e outras maneiras de viver.
Enfim, a leitura é uma espécie de conversação, um diálogo com um interlocutor desconhecido com o qual podemos partilhar segredos e adquirir conhecimentos que não conseguiríamos de outra maneira.
Infelizmente, nesta época que estamos a viver, o tipo de comunicação predominante é a televisiva que conduz, muitas vezes, à desfragmentação entre a realidade e a ilusão, entre o imediatismo e o mediatismo. Num mundo de gente a correr e em que se pretende fazer crer que os ponteiros dos relógios rodam cada vez mais depressa, não há tempo para ler um livro optando-se por essa via de conhecimento (por vezes duvidoso) pois não requere nem aprendizagem nem qualquer espécie de esforço.
Daí resulta que, tecnologicamente falando, não há dúvida que vivemos num mundo privilegiado, mas também é verdade que bombardeados de informações tão variadas quão duvidosas, não conseguimos assimilá-las e muito menos interpretá-las correctamente. Daí a minha convicção de que dessa falta de as poder assimilar e da incapacidade de as saber interpretar surja uma espécie de empobrecimento cultural que afecta não só a leitura da vida como a do Mundo.
O mundo moderno exige-nos inúmeras competências, uma delas é o conhecimento perfeito da nossa língua, e isso não se refere apenas a uma boa comunicação verbal, mas também à capacidade de entender aquilo que lemos. Ler e saber interpretar aquilo que lemos é essencial para compreendermos a realidade em que vivemos.
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, fevereiro 28, 2015

EU E OS MEUS BOTÕES

 
Sempre divididos entre trabalho e paixão vamos vivendo e morrendo em cada dia que passa. Somos peças de uma engrenagem que nos arrasta e à qual não podemos escapar. À medida que o tempo passa, que o progresso transforma e que a ciência não pára de nos surpreender, pigmeus impotentes que somos, resta-nos apenas esperar e acreditar na tal réstia de sonho que há-de vir iluminar a nossa vida. A esperança é sempre a última a morrer...
Embora calejado pelos anos, nem por isso deixo de ser vulnerável às investidas da solidão, do desespero e da angústia.
É difícil, nos tempos que correm, resistir a tanta inquietação e a tantas dúvidas. A multidão que nos rodeia e cuja linguagem gira à volta de competitividade e de ganância, onde tudo é jogo e espectáculo, obriga-me muitas vezes a escolher a solidão como porto de abrigo e espaço de reflexão. Convivemos uns com os outros, cruzamo-nos na rua quase sem nos saudarmos e de rostos carrancudos, olhar perdido e pensamento absorto, lá nos vamos movimentando nesta sociedade de sorrisos de circunstância e de aparências duvidosas. E inventamos conversas. E partilhamos as nossas vidas...Mas lá bem no fundo vivemos sós, abjurando dessa maneira a nossa autenticidade pessoal.
E é por isso que, por vezes, eu sinto necessidade de me esconder, de procurar a solidão para aí construir um mundo diferente... E é quase sempre à noite que o faço. Sobretudo, quando me confesso a mim próprio e estabeleço o diálogo com o outro. Aquele outro cuja imagem, embora desfocada, me chega através dos meus netos.
E a noite, talvez porque é escura, permite fazer viagens ao passado sem que ninguém veja; permite que as lágrimas deslizem sem que sejam vistas; e permite ainda incursões até à parte mais escondida e íntima do nosso ser, onde guardamos as mais ternas e saudosas recordações!
A noite é também como que um refúgio que serve para nos libertarmos das frustrações do dia e escaparmos, ainda que por instantes, ao ramerrão dessas multidões despreocupadas e solitárias...
Depois de um longo percurso cimentado com suor e lágrimas, não é fácil equilibrar os dois pratos da balança – passado e presente – e manter o fiel no devido lugar. É que, com tanta "conquista" e com o derrube de tanta barreira e de tantos tabus, é difícil compreender tanta insatisfação, tanta exigência, tanto desapego ao trabalho, tanta irresponsabilidade e tanta falta de humanismo! Há quem diga que o passado em vez de libertar e apontar o futuro, carimba, etiqueta, ajuíza, condena. Mas também como diz o poeta, “não há machado que corte a raiz ao pensamento...»
 
 

A BRIGADA DO CROQUETE


Muito se tem escrito e falado acerca de Confrarias disto, daquilo e daqueloutro, porém nada tenho lido sobre a “Brigada do Croquete”, que é também uma Instituição de cariz folclórico e relacionada com práticas pantagruélicas e libações báquicas.
Sem desprimor para as demais, esta é, no meu entender, a Instituição portuguesa mais democrática, portanto a mais popular e a mais aberta - a mais democrática porque a ela todos podem ter acesso, seja nobre ou plebeu, doutor ou analfabeto; mais popular, porque não há hierarquias, não há chefes nem vice-chefes; e a mais aberta, porque as suas mais importantes reuniões têm entrada grátis.
As “Brigadas do Croquete” existem de Norte a Sul do País e ao contrário do que acontece com outras associações do género, não são regidas por espartilhados estatutos ou quaisquer regulamentos.
No entanto isso não impede que os seus membros não cumpram determinadas regras. Por exemplo, a sua assiduidade é exemplar! 
A sua presença é mais frequente em acontecimentos de índole política, pois como sabemos, há muita gente que tem a barriga no cérebro e o Croquete desempenha um elevado poder sedutor e ao mesmo tempo anestesiante no que diz respeito à percepção instintiva da ciência política.
Assim, à mais pequena inauguração, à mais insignificante requalificação e até mesmo à reinauguração de um fontanário já inaugurado, os seus membros nunca faltam.
E mesmo quando o vento sopra do quadrante oposto, eles não falham, porque nos seus guarda-fatos há sempre fatiotas especiais a condizer com a cor da organização do acontecimento.
Os membros da “Brigada do Croquete” não são esquisitos. Em questões de paparoca eles são polivalentes - e tanto alinham no croquete como numa boa sardinhada ou numa feijoada ornamentada com fatias de porco no espeto.
Os membros da “Brigada do Croquete”, geralmente, não têm clube ou se o têm não usam emblema. Batem palmas em todos os “encontros”, porque no final são eles que ganham, pois vão comendo à custa do Orçamento e como diz o ditado,” ou comem todos ou não há moralidade”...
E por falar em moralidade, os membros da “Brigada do Croquete” não são de intrigas, pois nunca criticam nem os assuntos discutidos nem aqueles que os discutem...
E não o fazem, porque nunca ouvem patavina do que se diz durante a arenga. Uns, porque aparecem apenas na altura de dar ao dente e outros, porque estão já a pensar no croquete, na sardinhada ou no porco no espeto.
Chamem-lhes tolos...

O SEMPITERNO PROBLEMA


 
Lembro-me de que no tempo em que me começava a crescer a barba, portanto naquele tempo da dita dura (agora ela é mole!...) fazia parte, no começo da caça ao voto, a organização de grandes comezainas ou manifestações de homenagem onde se pedia aos Zés a recandidatura de venerandas figuras que, aliás, já estavam escolhidas.
Manda a verdade que vos diga que numa dessas acções preparatórias, fui também convidado e presenteado com uma viagem à cidade invicta onde um dos putativos candidatos fazia a sua campanha. Assisti a parte da arenga e tenho ainda presente a tónica dominante dos discursos inflamados que pediam esse “sacrifício “aos futuros eleitos de cujos serviços a Pátria não prescindia!
Muitas palmas, vivas a isto e àquilo e, por fim, os eternos candidatos lá aceitavam o “sacrifício” em nome dos superiores interesses da Nação e da vontade expressa por toda aquela gente que, espontaneamente viera de perto e de longe esperançada em melhores escolhas...
Nesta altura o estralejar das palmas era mais forte e prolongado, os “vivas” eram mais roucos, mais profundos, e os elogios andavam de boca em boca, qual deles o mais hipócrita.
Mas, como disse no começo, se tais práticas se passavam quando era ainda imberbe, hoje grande parte dos putativos candidatos não consegue libertar-se desses rituais
Reparem só como se repetem as mesmas manhas, as mesmas promessas, os mesmos cenários e como usam a barriga como chamariz para angariar votos e depois de toda essa fantochada, como eles aceitam esse “sacrifício” em nome do povo, da terra ou até da Pátria!
A diferença com o “antigamente” está nas benesses que auferem, desde o carro do Estado, passando pelo ordenado, pela reforma no fim de alguns mandatos, nos prémios de reintegração e nas somas astronómicas que gastam, e etc., etc.
Nas campanhas são milhares de euros na promoção da sua imagem, percorrem milhares de quilómetros nos seus carros topo de gama, organizam festas, contratam bandas, tudo isso embrulhado em promessas que jamais cumprem!
Na minha maneira de pensar classifico os políticos em três categorias: o político por ideal, o político por amor à terra e o político por interesse. Ainda segundo a minha avaliação, o político por ideal, escafedeu-se; o político por amor à terra está em vias de extinção e o político por interesse ou dinheiro, é o que mais abunda e prolifera cá no rectângulo.
Vem este meu escrito de hoje a propósito de um cartaz de 1949, data da viagem a que acima me refiro, que encontrei na minha velha arca, e que tem escrito em letra grande “ A República precisa de ti”.
Mais de meio século depois a República continua a precisar de alguém…Mas de alguém que a sirva e não se sirva dela.