quarta-feira, janeiro 08, 2014
sábado, janeiro 04, 2014
QUEM SABE RESPONDER?!...
Adão e Eva, o par
inicial,
Segundo o que na
Bíblia tenho lido,
Foram expulsos do Éden
terreal
Por comerem do fruto
proibido.
Mas o que o Mundo
ignora, creio eu,
É qual dos dois,
Adão, melhor achou:
Se aquele paraíso que
perdeu,
Se o outro paraíso
que encontrou…
sexta-feira, janeiro 03, 2014
segunda-feira, dezembro 16, 2013
SONHOS
Aqui estou na quietude da noite,
tonalidade da música quase no zero, a escrever sem saber bem por que o faço.
Será pela necessidade de esvaziar esta
arca velha, de desabafar, de fugir de mim mesmo, de afastar o pensamento de
toda esta balbúrdia que me rodeia e me incomoda? Ou de criar à minha volta, um
mundo novo, com gente a sorrir, sem pressas e sem competições?
Utopia? Que o seja, mas sinto muitas
vezes essa necessidade de reinventar esse outro mundo e esquecer aquele que me
rodeia.
E nesse desejo, nessa ânsia, muitas
vezes, sem me aperceber, esqueço-me de mim mesmo e invento outra personagem.
Totalmente diferente. Uma silhueta quase irreconhecível, uma espécie de
fantasma, que pouco dura e que acaba por desaparecer submersa nas vagas da
minha própria imaginação.
É difícil fugir da aparência, da
fachada, da máscara com que disfarçamos uma felicidade que quase nunca
atingimos. É sempre difícil se não impossível despir completamente a
indumentária que vestimos ao longo de muitos anos.
E é também difícil localizarmos no nosso
imaginário aquele momento mágico em que nos foi oferecida a ocasião de optar,
de escolher o rumo certo, aquele que agora, depois desta longa distância
percorrida, pensamos teria sido o ideal...
Mas será que alguma vez na nossa
adolescência nos apercebemos desse momento enigmático, dessa encruzilhada de
caminhos que a vida nos mostrou para podermos escolher o tal rumo certo?!...
É curioso como apesar de todos estes
anos de peregrinação por este vale de lágrimas, esta ânsia de reinventar um
outro caminho que não o percorrido, continue, de vez em quando, a atravessar-se
no meu caminho colocando dúvidas e interrogações difíceis de satisfazer.
É curioso também que mesmo numa idade
avançada se continue a sonhar e a ter pesadelos. Sobretudo pesadelos, porque os
sonhos, quanto a mim, têm uma grande lógica interna e uma grande coerência
interior. Eles permitem-nos, enquanto duram, alimentar esperanças dando-nos
alento e reforçar ainda que ficticiamente, a nossa auto-estima... Todos nós
temos virtudes e defeitos tornando-se por isso, e à medida que o tempo vai
passando, mais importante consciencializarmo-nos das nossas imperfeições.
Bem sei que nesse turbilhão de ideias,
nesse emaranhado de interrogações e sem possibilidade de voltar atrás, nos
resta apenas dominar os sentimentos e substituir as tendências negativas pelas
tendências positivas, lutar, reeducando-nos para a felicidade.
Não a felicidade completa, mas aquele
estado de alma que nos proporciona todos os dias a alegria de viver em paz
connosco, sem ódios, sem remorsos, sem alimentar sentimentos de inveja pelo
vizinho do lado que é mais poderosos e rico. Às vezes ando ás voltas dentro de
mim e mesmo consciente de que por mais voltas que dê não vou para lado nenhum,
tento recriar, baseado no passado, um caminho diferente. Porém, como o passado,
não se refaz, não se recria, mas também não se pode abjurar, volto ao ponto de
partida – às interrogações, às reticências…
E
é sempre com um ponto final que termino estas minhas incursões àqueles
momentos, a esse tempo que parou no tempo – ao meu tempo de criança.
DIVAGAÇÃO
Há
dias em que a desilusão é mais forte e, então, isolamo-nos dentro de nós mesmos
e damos asas à imaginação. E o pensamento voa, rodopia, desce, sobe, sempre em
torno do mesmo eixo que é a Vida. A vida, este dia a dia cada vez mais
materialista, mais cheio de risos amarelos, de sorrisos irónicos, de olhares de
soslaio que mais parecem armas de agressão...
É
assim a sociedade de hoje, competitiva, apressada, hipócrita e egoísta. Não há
tempo sequer para uma introspecção serena e desapaixonada. São muitos os
deuses, e os santos escondem-se por se sentirem deslocados no meio de tanta
falsidade e ostentação.
Vive-se
rodeado de uma corte de fingidos, de snobes, de manequins de plástico e de
bonecas fúteis, cheias por fora e vazias por dentro. O que importa é aparentar
aos olhos dos vizinhos e conhecidos, uma imagem adaptada aos ventos que sopram
- roupagens da moda, altivez a condizer, e esse ar de gente fina, com olhar
distante... e vistas curtas! Imitar, fazer de conta. Aparentar o que se não é,
e não esquecer a regra fundamental da irmandade: bajular na frente e caluniar
nas costas.
Perante
esbanjamentos loucos não resistimos à tentação de perguntarmos a nós próprios, -
que trabalhámos uma vida inteira e continuamos a trabalhar - como é possível,
angariar fortunas em tão curto espaço de tempo e, aparentemente, sem grande
esforço?!...
Talvez
seja esse mais um "milagre" desta nova sociedade convencional que
todos nós criámos. Todos sem excepção. Uns por vontade própria, outros porque
não tiveram coragem de se opor, acomodando-se e sujeitando-se aos caprichos e
desvarios dos mais fortes. Não há, pois, razões para queixas. Não há lugar para
invejas, nem fundamento para acusações. Nem a Natureza, nem as leis que
estiveram na formação da Civilização, têm quaisquer culpas. O Homem é o único
culpado. Todos somos cúmplices. E não é por acaso que as nossas reacções a
factos que deveriam ser denunciados se ficam apenas por um simples encolher de
ombros. É o egoísmo a mandar, é o comodismo a sobrepor-se à personalidade e a
transformar-nos em "escravos modernos" às ordens de "novos
senhores". Os abusos da tecnocracia e os excessos do capitalismo
financeiro, ao mesmo tempo que criaram novas classes sociais, originaram também
novas injustiças.
E
quando numa sociedade o dinheiro se sobrepõe à inteligência, à humildade, à
solidariedade, e à generosidade, é caso para nos interrogarmos sobre o futuro.
O tal futuro de que tanto se fala e que é já amanhã. O futuro para o qual será
necessária uma nova doutrina social e humanista que dê resposta aos novos
problemas sociais, que entretanto foram surgindo. E não será tarefa fácil quando
até na feitura das leis intervêm interesses particulares e a sua promulgação se
faz na ânsia da obtenção de contrapartidas.
O MUNDO RURAL E A CULTURA AUTÁRQUICA
A nossa sobrevivência como
Nação depende da criação de uma sociedade mais justa, mais solidária e mais
humana.
Para isso, e em primeiro lugar,
a ciência política tem de ser alicerçada em valores e princípios sólidos
passando a ser uma ciência dinâmica com o principal objectivo de promover o bem
comum e a justiça social.
Só pelo caminho da
solidariedade poderemos acentuar as desigualdades e as assimetrias entre as
regiões, tornando-se por isso urgente investir na humanização da sociedade, na
dignificação da pessoa humana e, sobretudo, na revitalização do mundo rural. Nestes
últimos anos o nosso País transformou-se numa economia de serviços com uma
grande concentração urbana e económica junto do litoral.
Desertificou-se o interior
rural e descapitalizou-se a antiga classe média tradicional. Torna-se por isso urgente
fixar as populações rurais e combater eficazmente as suas inúmeras e injustas desigualdades
sociais.
Para que tal se concretize o
Estado através das autarquias deverá ajudar directamente as famílias rurais que
se encontram descapitalizadas e os planos directores municipais ou de
desenvolvimento local deverão contribuir para a revitalização das aldeias
fazendo com que as suas gentes se mantenham ou regressem às terras das suas
origens.
E isso só se consegue se
optarmos por um estado social e por uma economia humana que defenda políticas
de solidariedade que dêem novas esperanças aos injustiçados e aos excluídos do
progresso.
A descapitalização de muita
gente ligada à agricultura e a pobreza crescente exigem políticas humanistas e
sociais que restituam a dignidade aos trabalhadores do mundo rural.
Temos de descer à realidade
palpável do quotidiano das famílias rurais e procurar as soluções concretas para
resolver os seus verdadeiros problemas. E é nesse aspecto que os sucessivos
governos têm falhado.
O interior está cada vez mais
abandonado e a agricultura não pode ser o parente pobre da nossa economia. A
agricultura familiar precisa de protecção e não pode ficar à mercê da sociedade
de mercado sem o mínimo de organização. Urge implementar uma política para o
Mundo Rural, defender e ajudar as populações que sempre viveram e trabalharam
no campo, criando, ao mesmo tempo condições para que os mais jovens se fixem
nas terras de origem.
As autarquias devem reger-se por
uma cultura própria, humanista e solidária em que as pessoas estejam primeiro e
que a política seja praticada como uma ciência dinâmica ao serviço das pessoas
e do bem-comum. Hoje quem se candidata a
um cargo público tem de trazer consigo a educação, a formação, a capacidade de
diálogo e sobretudo a humildade intelectual. Os gestores do futuro têm de ser
humanistas e olhar a política como um acto de solidariedade. É minha convicção
que o novo elenco municipal possui os predicados necessários para a aplicação
de uma cultura autárquica que vise servir a causa pública e a melhoria de vida
dos cidadãos. Sem quaisquer discriminações…
quarta-feira, novembro 13, 2013
PARAFRASEANDO...
A luta pela sobrevivência é
cada vez mais renhida. E sendo o direito de viver um dos mais sagrados, não
admira que os povos tomem cada vez mais consciência de que toda a gente tem,
por direito natural, um lugar ao sol.
E nessa vontade incontida de
encontrar esse lugar soalheiro, o mal é que, nos tempos que correm, tanto os
povos como a s pessoas, tentam conquistá-lo levados por um sentimento de egoísmo
tão feroz e dominador que não lhes deixa tempo disponível para a prática da
verdadeira solidariedade e altruísmo.
Toda a gente sabe que as
expressões direito dos povos e bem
comum não passam de sofismas e ambiguidades usadas pela classe política
nacional para adormecer os ingénuos que
ainda acreditam nesses manipuladores de consciências.
Vivemos numa Sociedade
apostada num ânsia desmedida de prazeres e de proventos de ordem material. São
muitas as diferenças entre as suas classes e enquanto a mais desfavorecida
trava uma luta inumana para a sua sobrevivência, as outras, com mais ou menor
sofreguidão, participam numa corrida desenfreada com o único objectivo de
açambarcar a Vida para que dela possam matar a sua voraz fome de riqueza e de
domínio.
E o mais curioso e irónico é
que esse demoníaco jogo, essa sede de lucros quer entre as classes quer entre
as nações, tem sempre como “trunfo” essas ingénuas expressões direito dos povos e bem comum.
O Homem vai assim consumindo
nessa vertigem de loucura, e quase sem se aperceber, os momentos de felicidade
que a Vida lhe poderia oferecer se cultivasse os nobres sentimento de partilha
e de solidariedade.
É tão grande a vontade de
obter um cargo bem remunerado, que nem sequer se põe a questão da capacidade
profissional. Os exemplos abundam, mas os mais flagrantes acontecem no campo da
política em que a qualificação e a experiência de nada servem para a atribuição
de cargos, alguns com chorudas remunerações.
Mais do que um diploma ou a
possessão de conhecimentos científicos, literários, artísticos ou filosóficos,
um simples cartão de um partido ou a cunha de um bom padrinho bastam para catapultar
qualquer semi-analfabeto a um cargo superior!
A esta inversão de valores
junta-se a degradação do sistema, acabando este binómio por estabelecer uma
espécie de cumplicidade de que resultará mais tarde ou mais cedo a lei do vale tudo.
Diz-se alto e bom som que o
país está à beira da falência, da ruina. E tudo indica que assim seja. No
entanto, nesta nossa democracia caquéctica com um grupo de partidos que não se
entende, mas que luta mutuamente em defesa do seu “estatuto”, é fácil concluir
qual será o nosso destino como nação. A Imprensa traz-nos diariamente notícias
de desvios de dinheiros, subornos e outras negociatas. Por vezes, de gente que
ocupa altos cargos. De vez em quando, um figurão vai preso, mas não se passa
disso…
Às vezes apetece-me
parafrasear Almada Negreiros e dizer para com os meus botões que «é tão
criminoso ser ladrão no meio de gente honesta, como ser honesto no meio de
ladrões…»
«O POVO É SERENO...»
Os
leitores já se devem ter apercebido da minha paixão pela nossa história antiga,
mormente por documentos que traduzam o pulsar da nossa sociedade ao longo dos
asnos.
De tudo
o que tenho lido acabo sempre por concluir que o comportamento do nosso Povo e
dos mandantes através dos séculos, pouco ou nada tem mudado e, quanto a mim,
será muito difícil se não impossível esperar uma mudança dessa ancestral
mentalidade.
Há
várias explicações para o nosso pacifismo perante os algozes, mas todas elas
não passam de meras suposições e nada mais.
E, a
propósito, atentem no que se passa presentemente à nossa volta e leiam um
excerto de um texto de Guerra Junqueiro escrito em 1896, há precisamente cento
e dezassete anos. Escreveu ele, referindo-se aos Zés desse tempo e aos
respectivos mandantes:
"Um
povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo,
burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes
de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois
que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia
ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um
povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua
inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro
em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma
burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o
bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que,
honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e
sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à
falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa
sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente
inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do
executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado
absoluto pela abdicação unânime do País.
A
justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela
saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes,
vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas
palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo
zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no
parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Como os
leitores podem verificar, este texto, escrito há mais de um século, está
actualíssimo e mostra à saciedade, que por mais voltas que o Mundo dê, não mudamos.
Os mandantes são iguais e «o povo é sereno, é só fumaça…” Lembram-se deste estribilho
de um ex-ministro no “Verão Quente de 1975”?
NO SILÊNCIO DA NOITE
Vivemos numa
sociedade tão competitiva, egoísta, invejosa e apressada que quase ninguém
arranja tempo para um recolhimento interior. São poucos os que sacrificam uns
minutos da correria para reflectir, não só no caminho percorrido, mas também na
forma e no comportamento que devem adoptar na etapa desconhecida que falta
percorrer.
Sempre com o vizinho à perna ou mesmo
lado a lado, percorrem-se quilómetros muitas vezes sem trocar palavra, mas
alimentando sempre na mente o desejo de chegar primeiro.
É assim a vida do dia-a-dia.
Materialista e competitiva. Invejosa e apressada.
A cada passo, sobretudo nos grandes meios,
cruzamo-nos com rostos chorosos, melancólicos que denunciam a ferocidade das
lutas que se travam bem no fundo das suas almas.
São batalhas quase sempre motivadas
por afrontas, por injustiças, desigualdades, e também pelo materialismo
reinante nesta nossa sociedade actual que maltrata os honestos e privilegia os
trapaceiros.
E nesta amálgama de sentimentos e de
confusões são poucos os que conseguem escapar imunes às garras do pessimismo,
do desânimo e do desespero!
Como é difícil conservar o optimismo
num mundo em que as lutas não cessam e em que tudo se move, tudo se decide e
tudo se consegue a poder de dinheiro! Muitos vivem alegres ou tristes consoante
o saldo da sua conta bancária…
Tudo se vende, tudo se compra. Não há
escrúpulos. Luta-se mais pelo Ter do que pelo Ser. Quando se tem, não importa o
que se é. Não há barreiras. Não se respeitam valores, hierarquias ou
sentimentos. O saldo do Banco funciona como um tira-nódoas…
E nada resiste a esse elixir: ofensas,
calúnias, falcatruas, prepotência, injustiças, tudo isso desaparece após a sua
aplicação. Muitas vezes, até a voz da consciência, impotente, emudece!
Talvez pela idade, em cada dia que
passa, as minhas reflexões sobre a vida, tornam-se mais frequentes. E quanto
mais profunda é essa reflexão, mais me convenço de que a afirmação cristã da
vida é o caminho que nos concede mais dignidade humana e nos traz mais
tranquilidade espiritual nesta sociedade em que o consumismo a todos tenta
transformar em escravos do supérfluo.
Vai alta a noite, mas continuo a
escrever. Deixo-me arrastar pela escrita e mesmo convencido que não vou a lado
nenhum, que nada mudo, que ninguém “converto”, aqui continuo. E vou escrevendo,
esquecendo o peso dos meus Invernos, pensando na Primavera, e trocando os
encontrões do dia-a-dia por um pequeno nada da vida, por uma réstia de sonho.
sexta-feira, setembro 27, 2013
UMA REFLEXÃO QUE SE IMPÕE
Dentro de alguns dias, eis-nos de novo a
dobrar o papelinho para depositar na caixinha a que, não sei por quê, se
continua a chamar, morbidamente, urna...
Lá estaremos, então, a escolher os
nossos representantes autárquicos, aqueles que no nosso entender melhor
defenderam ou poderão defender os nossos interesses.
Vamos todos. É um direito que temos. E é
a única arma que possuímos para fazermos valer a nossa liberdade. Usemo-la...
Quando não votamos, deixamos que os
outros decidam por nós; perdemos esse poder de decisão própria, e ficamos à
mercê daqueles que votaram, decidindo à sua maneira, muitas vezes manipulados e
industriados por estranhos, que nem sequer conhecem a nossa terra.
Ao não exercer o direito de votar, o
cidadão deposita a sua liberdade no vazio, deixando o caminho aberto a ideias
estranhas, muitas vezes até totalmente divergentes das suas.
Não se trata, nestas eleições, de eleger
senhores bem vestidos, bem nutridos e bem-falantes, que uma vez eleitos
esquecem completamente os interesses dos que neles votaram.
Trata-se, isso sim, de "votar
povo". Devemos por isso eleger cidadãos competentes, sérios, honestos que
se nos afigurem capazes de continuar ou melhorar as nossas condições de vida,
lutando pelo desenvolvimento e pelo nosso bem-estar.
Nas Autárquicas não deve haver
"direitas nem esquerdas". O que há a ter em conta são as pessoas. A
capacidade de empreender e de gerir, conjuntamente com a honestidade e o
verdadeiro conhecimento das necessidades do concelho ou da freguesia em que
residem, são as qualidades a ter em conta para a escolha.
Só quem vive em aldeias rurais do
interior sabe dar valor ao trabalho do presidente de Junta. Quando devotado ao
cargo, ele é uma espécie de faz-tudo e, muitas vezes, é ainda mal compreendido
por não poder solucionar problemas que ultrapassam a esfera das suas
competências.
É atendendo a tudo isso que é necessário
escolher um cidadão cujo perfil englobe não só as qualidades acima expostas,
mas também uma apreciável dose de abnegação, espírito de sacrifício e,
sobretudo, muita tolerância e muita paciência.
Façamos uma escolha acertada. Não nos
deixemos seduzir nem pelo folclore, nem pelas promessas "gordas"...
«Nunca se mente tanto como antes de uma
eleição, durante uma guerra ou depois de uma caçada...» - disse em tempos - e com razão- um célebre diplomata e político alemão.
A CAÇA AO VOTO
Diz
um antigo provérbio que “com papas e bolos se enganam os tolos”. De facto, quem
estiver atento às manobras políticas que giram à nossa volta, logo dará conta
da veracidade do rifão. É o papaguear do costume…
Quase
todos os políticos continuam, nas suas intervenções escritas, orais ou
televisivas a fazer crer que no cenário político actual há, entre os partidos a
que pertencem uma luta pela hegemonia ideológica de cada um deles. Mentira!...
Toda
essa lengalenga não passa de conversa fiada que tem como objectivo principal
conquistar a simpatia de quem os ouve na mira de obter votos que os catapultem
aos lugares cimeiros da governação.
Com
a repetição dos mesmos erros, dos mesmos procedimentos, das mesmas artimanhas,
os partidos políticos que temos vão se transformando em simples grupos de
homens evidenciando todos a mesma ambição pelo poder, servindo-se sempre da falaciosa
promessa de fazerem “mais e melhor do que o seu antecedente”.
Assistimos
assim, e vinda de todos os quadrantes políticos, à desvirtuação descarada do
sistema democrático em que, na teoria, todos se dizem defensores do bem comum,
da solidariedade, da justiça social, quando na prática todo esse jogo se traduz
no mesmo engodo para atrair os incautos,
Se
reflectirmos um pouco sobre o "discurso político" com que os
malabaristas da política todos os dias nos martelam os ouvidos, facilmente
descobrimos que a diferença reside apenas nas siglas.
O
objectivo é igual, o bombo continua a ser o mesmo e os meios e processos de
fazer e de interpretar em nada diferem.
A
escolha dos servidores do estado que se devia fazer pela competência e pela
seriedade, passou a fazer-se tendo apenas em conta as cores
"clubistas" sem respeitar, por vezes, os mais elementares critérios
de selecção.
Apoiados
em aparelhos de marketing e fulanização sabiamente enroupados, usando uma
linguagem a que chamam economicista, que os leigos (aqueles que ainda
trabalham) não compreendem, vai aumentando o número dos que nada sabem, mas que
mais ganham.
Essa
prática de amontoar protegidos vai crescendo dia após dia. E todos eles salvo
raras excepções o que procuram é mais riqueza, melhores condições de vida e
mais desafogo económico.
Se
os estribilhos das “canções” dos vários partidos divergem na letra, eles são, apenas
e só uma versão diferente, da mesma música. E apesar de quase todos os
executantes da banda pouco perceberem da dita e tocarem apenas de ouvido, cada
vez é maior a sua apetência pelas “notas” que a Troika nos vai emprestando a
troco de enormes sacrifícios, que são suportados apenas pelos que mais precisam
e menos têm.
Com
o decorrer dos anos mais convencido fico de que, em eleições, não se discutem
ideias – combatem-se homens e procuram-se êxitos espectaculares, desorientando
e confundindo as consciências.
O AMOR
Os leitores que conhecem o número de Invernos que transporto no meu
saco de viagem vão, com certeza, rir-se do título desta minha crónica de hoje. Mas
é verdade, amigos. O amor não envelhece. É sempre menino…
Existem muitos amores, mas existe sempre um amor especial que não
se pode definir e que muitas vezes nos transcende, que não admite passado nem
futuro. Uma marca cósmica que muitas vezes se torna difícil de descobrir no
emaranhado das tempestades do coração.
Mas afinal o que é o Amor?
Folheei páginas e páginas de livros velhos e esfarrapados, e foi
num livro do século passado que encontrei uma referência a esse estado de alma,
a essa metamorfose que transforma os meninos em homens e os homens em meninos.
Segundo a descrição que li, depois de demorados e minuciosos
estudos, dois reputados cientistas chegaram à conclusão de que o Amor é uma
doença mental e física, uma espécie de bacilo que ainda não foi identificado. É
assim como que uma espécie de veneno que tanto pode matar como salvar. E é
tanta a sua influência que, frequentemente incita ao crime…mas também tem feito
muitos milagres!
O Amor é uma das heranças mais perigosas que recebemos do passado,
mas que continua a ser perpetuada e alimentada por poetas, literatos e por
todos nós em geral.
E são várias as interpretações: há quem lhe chame uma doença; há
quem o defina como um impulso repentino com consequências imprevisíveis, e há
ainda quem afirme que o Amor é como uma droga que cria um estado de dependência!
Em tempos recuados esses “bichinho “chegou até a ser classificado
como um “civilizador” porque sabia adoçar a grosseria dos costumes primitivos.
Mas era também o temor dos homens e dos deuses. Conta-se que Júpiter prevendo
os males que ele poderia causar, quis obrigar Vénus a separar-se dele!...
Muitos o amaldiçoaram também e lhe chamaram a cicuta da vida…
Porém tal como acontece com todos os venenos conhecidos pela
ciência, o veneno do Amor pode também produzir efeitos benéficos.
Mas eu volto a insistir e a perguntar: mas afinal o que é o amor?
De todas as definições que tenho lido, é nas palavras de
Saint-Exupéry que encontro a melhor: «O amor é não sei o quê, que vem não sei
de onde e que acaba não sei quando…»
O que é certo, e como diz um provérbio africano, «quando se ama, nunca é de noite…» E este “amar” não
diz apenas respeito à mulher, mas a tudo o que fazemos na vida, quando o
fazemos com amor.
sexta-feira, setembro 06, 2013
PORTUGAL A ARDER
Há anos, e apesar da lengalenga dos
nossos políticos a respeito da prevenção de incêndios, o resultado está à vista
- culturas queimadas, habitações destruídas, corpos calcinados e centenas de
hectares ardidos. Assistimos assim ao desaparecimento de grande parte da nossa
floresta. Montes verdejantes vão-se transformando em autênticas paisagens
lunares e se alguma coisa ainda nos resta, podemos agradecê-lo à boa vontade, à
coragem e à abnegação dos nossos Soldados da Paz, motivados apenas por
sentimentos de solidariedade e de altruísmo.
Todos nós sabemos que estes fogos de Verão
não se podem apagar com paliativos de última hora. O combate aos incêndios
florestais do Verão deve começar no Inverno... E não com discursos palavrosos e
ocos com que os nossos sapientíssimos políticos tentam endrominar os ingénuos.
A abertura de caminhos e aceiros, a construção de pontos de água são factores
fundamentais muitos falados em inaugurações e campanhas, mas completamente
esquecidos quando se trata da sua concretização.
Sendo a prática de atear fogos um puro
acto de terrorismo e até de terrorismo planeado, não só os culpados como os
cúmplices, deveriam ser castigados com penas que desmotivassem a execução de
tamanhos crimes. Porém, o que se verifica, é que, na maior parte dos casos, a
pretexto de qualquer tara mental (quase sempre inexistente!), culpado e cúmplices,
depressa são postos em liberdade. Os fogos combatem-se com água, mas também com
medidas repressivas. E parece que isso não é assim compreendido pelos
responsáveis. Não haverá, à semelhança do que acontece com outras práticas escuras
que por aí abundam, a cumplicidade de poderosos
com braço comprido?
Os incendiários são presos, mas são logo
postos em liberdade, porque sofrem de perturbações mentais ou são indivíduos
“traumatizados” pela droga ou pelo álcool. É assim que funciona a justiça.
Já no longínquo Verão de 2000, o
ministro, Fernando Gomes, distribuiu pelos pastores um binóculo, um boné, um
casaco e um telemóvel e promoveu-os a "guardiões da floresta". A
operação custou 125 mil euros em material e mais 25 mil para chamadas. Quem
ficou a ganhar foi quem vendeu o Kit, porque de resultados práticos nunca ouvi
falar. Treze anos depois nada se aprendeu e se formos ver o que as Autarquias
gastaram em prevenção, facilmente encontramos a explicação para tanta morte e
tanta desgraça!
Há dinheiro para festas, inaugurações, e
outros divertimentos, mas não para abrir aceiros ou construir pontos de água
nos locais mais apropriados das matas. Em 2000, quem lucrou foi quem vendeu os
Kits. Hoje são as Empresas que alugam helicópteros e aviões. Morrem bombeiros,
ardem matas, culturas, habitações, fica gente na miséria, mas ninguém é responsável.
Uma espécie de fatalismo está a criar-se na maior parte das mentes portuguesas.
Somos um povo de acomodados. Não sabemos até quando, mas as revoluções não
começam todas da mesma maneira.
PORTUGAL A ARDER
Há anos, e apesar da lengalenga dos nossos políticos a respeito da prevenção de incêndios, o resultado está à vista - culturas queimadas, habitações destruídas, corpos calcinados e centenas de hectares ardidos. Assistimos assim ao desaparecimento de grande parte da nossa floresta. Montes verdejantes vão-se transformando em autênticas paisagens lunares e se alguma coisa ainda nos resta, podemos agradecê-lo à boa vontade, à coragem e à abnegação dos nossos Soldados da Paz, motivados apenas por sentimentos de solidariedade e de altruísmo.
Todos nós sabemos que estes fogos de Verão não se podem apagar com paliativos de última hora. O combate aos incêndios florestais do Verão deve começar no Inverno... E não com discursos palavrosos e ocos com que os nossos sapientíssimos políticos tentam endrominar os ingénuos. A abertura de caminhos e aceiros, a construção de pontos de água são factores fundamentais muitos falados em inaugurações e campanhas, mas completamente esquecidos quando se trata da sua concretização.
Sendo a prática de atear fogos um puro acto de terrorismo e até de terrorismo planeado, não só os culpados como os cúmplices, deveriam ser castigados com penas que desmotivassem a execução de tamanhos crimes. Porém, o que se verifica, é que, na maior parte dos casos, a pretexto de qualquer tara mental (quase sempre inexistente!), culpado e cúmplices, depressa são postos em liberdade. Os fogos combatem-se com água, mas também com medidas repressivas. E parece que isso não é assim compreendido pelos responsáveis. Não haverá, à semelhança do que acontece com outras práticas escuras que por aí abundam, a cumplicidade de poderosos com braço comprido?
Os incendiários são presos, mas são logo postos em liberdade, porque sofrem de perturbações mentais ou são indivíduos “traumatizados” pela droga ou pelo álcool. É assim que funciona a justiça.
Já no longínquo Verão de 2000, o ministro, Fernando Gomes, distribuiu pelos pastores um binóculo, um boné, um casaco e um telemóvel e promoveu-os a "guardiões da floresta". A operação custou 125 mil euros em material e mais 25 mil para chamadas. Quem ficou a ganhar foi quem vendeu o Kit, porque de resultados práticos nunca ouvi falar. Treze anos depois nada se aprendeu e se formos ver o que as Autarquias gastaram em prevenção, facilmente encontramos a explicação para tanta morte e tanta desgraça!
Há dinheiro para festas, inaugurações, e outros divertimentos, mas não para abrir aceiros ou construir pontos de água nos locais mais apropriados das matas. Em 2000, quem lucrou foi quem vendeu os Kits. Hoje são as Empresas que alugam helicópteros e aviões. Morrem bombeiros, ardem matas, culturas, habitações, fica gente na miséria, mas ninguém é responsável. Uma espécie de fatalismo está a criar-se na maior parte das mentes portuguesas. Somos um povo de acomodados. Não sabemos até quando, mas as revoluções não começam todas da mesma maneira.
A PROPÓSITO DE LEITURA
Sempre
gostei muito de ler. Houve um período na minha vida em que, além de minha
mulher, a minha companheira favorita era a leitura.
Não
tínhamos vizinhos, vivíamos isolados em plena floresta tropical numa casa
coberta com colmo e rodeada de seringueiras.
Do
Mundo, as notícias chegavam-nos através da Rádio na banda das “ondas curtas” que
por vezes se tornavam “curtíssimas”, pois a audição era péssima.
Não
tínhamos luz eléctrica e às seis da tarde a noite caía. Havia, por isso,
necessidade de ocupar o tempo – as longas noites de África. E a leitura era o
nosso refúgio. À luz da “Coleman” ou da “Petromax”…
Em
1951 entrei para o «Clube do Livro» da Bélgica, e de mês a mês lá chegava o barco
com os víveres, as cartas e os livros!
E,
como costuma dizer-se, “devorava-os”! Tomava notas. Exprimia a minha opinião, a
lápis, nos espaços em branco. Ora concordava com as ideias expressas, ora era
contra.
Já
nesse tempo fazia parte dos que apadrinham o conceito de que um livro tem sempre
dois autores: o que o escreve e aquele que o lê. Nalguns, as minhas notas quase
faziam desaparecer algumas das frases do autor. Infelizmente, quase todos foram
queimados aquando do despertar dessa onda de “liberdade” que varreu o
Continente negro na década de sessenta.
Há
dias, encontrei na minha estante, um dos que escapou à fúria dessa turbamulta: «Les Saints vont en Enfer», de Gilbert
Cesbron.
E
foi esse que motivou esta minha crónica de hoje. Um livro que gerou bastante
polémica nesses longínquos tempos, mas que acabou por se afirmar e se tornar
uma obra de referência do escritor.
E
é porque até só o prefácio tem muito a ver com o que penso e com a minha
maneira de estar na vida, – sobretudo quando denuncio injustiças e defendo o
povo do qual honrosamente faço parte – que traduzi, à intenção dos leitores, um
pequeno excerto:
«Eis um livro que vai desagradar a muita
gente. Mas será que a prudência é, ainda, uma virtude?
Num
mundo em que aqueles que falam a mesma língua não se conseguem fazer perceber
sem um intérprete; num tempo em que os mediadores são assassinados e a honra
esquartejada; neste século em que reina a cruz sem o Cristo, eu não quero ser
de nenhum partido. O que vi entre os seus membros é mais do que suficiente para
que tome esta decisão. Assim eu nunca deixarei a mão dos homens no meio dos
quais eu cresci….»
Inteligentes
que são, os meus leitores compreenderão o que quero dizer… e o porquê das
alfinetadas de algumas das minhas crónicas.
sexta-feira, agosto 30, 2013
INCÊNDIO NA SERRA DO CARAMULO
Há
alguns dias que desde o nascer do sol até às 20 horas, a minha casa é
sobrevoada por aviões “Canadair” e helicópteros que fazem o vaivém entre a
barragem da Aguieira, onde se abastecem de água, que depois vão despejar na
Serra do Caramulo onde um incêndio lavra, matando, queimando e destruindo tudo
o que encontra pela frente.
Centenas
de Bombeiros e várias Corporações vindas de todo o País encontram-se no local.
Há, infelizmente, até agora três mortos no combate ao incêndio: uma bombeira de
Alcabideche, um bombeiro do Estoril e uma da Corporação de Carregal do Sal, todos jovens.
Há
também dois bombeiros hospitalizados com prognóstico reservado.
São
20 horas do dia 30 de Agosto de 2013 e, segundo informações da Protecção Civil,
o fogo estaria dominado.
O
fumo tem sido intenso e às 19 horas parece ser já de noite. O cheiro a queimado
entra pelas janelas e as faúlhas caem por todo o lado.
domingo, agosto 25, 2013
SANGUE NA ESTRADA
Apoiada
numa “aranha” a velhinha estava junto à passadeira. Olhar suplicante esperava
que algum automóvel abrandasse para que pudesse atravessar a estrada. Quando
chegou a minha vez, parei, e fiz sinal à anciã para passar. Entretanto, alguém
buzinou atrás de mim. Olhei pelo retrovisor e fiquei estupefacto: uma senhora
gesticulava e pelos movimentos da boca percebi que me dirigia “elogios” por ter
parado! Voltei a olhar. E então, vendo que a olhava, levou o dedo à testa
naquele gesto que todos conhecem… Incrível como uma jovem tem atitudes
destas!...
Tentei
decorar a matrícula ou seguir o carro, mas infelizmente não consegui uma coisa
nem outra. É que gostaria de lembrar àquela jovem senhora que, um dia, talvez
ela poderá ter também necessidade que alguém pare para ela atravessar a
estrada….
Não
sei se já se aperceberam, mas o automóvel modifica de tal maneira o
comportamento de certos indivíduos, que ficamos por vezes perplexos vendo a
transformação que se opera neles quando por vezes nos ultrapassam a grande
velocidade e nos olham com desdém, como se fossem verdadeiros donos e senhores
da estrada, e nós uns empecilhos ou uns atrasados mentais. E é tão evidente
essa transformação que chego a convencer-me que esses kamikazes do volante confundem carta de condução com uma autorização
legal que lhes confere o direito de a transformarem numa “ licença para matar!“
Muitos
dos indivíduos que vemos por detrás daquela rodinha que dá pelo nome de
volante, não conduzem: - são suicidas disfarçados, desconhecedores das mais
elementares regras do Código da Estrada. Consciente ou inconscientemente eles
distraem-se brincando não só com a própria vida, como também com a dos que
cumprem e respeitam rigorosamente as normas da condução.
Era
comum ouvir-se, aqui há anos, que a culpa era das estradas, porque estreitas e
de piso irregular. Para outros, a acusação recaía sobre os veículos, pois o
nosso parque automóvel era dos mais velhos do Mundo e, assim, as máquinas que
circulavam nas nossas rodovias eram velhos calhambeques ou caranguejolas
multicores, que gingando e fumegando, lá iam atroando os ares com as suas
estridentes buzinas, semeando o pânico e a morte.
Hoje
tudo isso foi ultrapassado e tanto o estado das estradas como as
características dos veículos mudaram completamente. No entanto e apesar de tudo
isso a taxa de sinistralidade em Portugal continua a ser uma das mais elevadas
de Europa. Aumentam-se as multas, triplicam-se os efectivos das Brigadas de
Trânsito, adquirem-se novos equipamentos de fiscalização, mas os resultados são
nulos e cada vez se morre mais nas estradas portuguesas. A semana passada
ilustra de forma inequívoca essa realidade.
E
a sinistralidade continuará enquanto não se adoptar uma pedagogia adequada para
acabar de vez com a falta de educação e civismo dos condutores portugueses. Não
vai ser fácil. Mas é urgente que se pense nisso. Nenhuma outra solução
resultará.
INSTRUIR E EDUCAR
A
boa educação, a delicadeza e as boas maneiras, caldeadas num cadinho com um
tudo-nada de cultura, traçavam, outrora, o perfil do mais comum dos Cidadãos.
Havia
depois os outros que, numa escala com números mais altos, constituíam a nata da
sociedade, onde se perfilavam as mais variadas profissões -juízes, médicos,
advogados, políticos e professores, faziam parte desse leque de indivíduos que,
na sua generalidade, inspiravam uma certa confiança e ditavam os padrões de
valores a seguir.
Sem
menosprezo para qualquer um dos citados, vou hoje falar-vos do Professor. E
isso porque, nesta Sociedade de hoje em que todos parecem apostados numa ânsia
desvairada de obtenção de prazeres e de lucros fáceis, continua a descurar-se,
completamente, a formação das gerações vindouras.
Se
é verdade que existem algumas excepções, e há ainda famílias em que os pais
sabem ensinar os filhos e incutir-lhes os valores da boa educação, do sentido
da responsabilidade, da disciplina e do respeito pelos mais velhos, a maior
parte dos nossos jovens desconhece, por completo, as mais rudimentares regras
desses padrões.
Não
vou aqui entrar em pormenores, nem tão pouco arvorar-me em moralista. Nada
disso. Já transpus muita barreira, já cai muitas vezes, levantei-me outras
tantas e não é agora, com o Sol quase no ocaso, que vou invadir terrenos
alheios e, quixotescamente, lutar contra essa fortaleza inexpugnável que é a Nova Escola.
O
que pretendo com este desabafo de hoje, é prestar uma sincera homenagem de
agradecimento e gratidão, ainda que póstuma (e bem póstuma!...), à minha
Professora da instrução primária, que fazia da sua profissão uma arte e um
sacerdócio. Instruir e educar, era a sua divisa. A Escola era o complemento do lar,
e o que não se trazia de casa era ensinado na sala de aulas. Era assim que era
construído o travejamento social do mundo de amanhã.
"O
magistério deve ser uma profissão vocacional; não há pior mestre que o animado
por simples fins lucrativos, nem pior pedagogia do que a aquela que é praticada
sem amor..."
Nesta
citação está a resposta para muitas das situações que se vivem actualmente nas
nossas Escolas.
Academicamente,
posso não ser a pessoa abalizada para tal conclusão. No entanto, o meu CV – o “Certificado
de Velhice” – um diploma que a velhice me conferiu e que foi obtido não em
aulas teóricas, mas em aulas práticas e vividas, autoriza-me a fazê-lo.
sábado, agosto 10, 2013
O CASAMENTO DE DONA VÍRGULA
Não
é muito numerosa a família, mas os membros que formam a copa da sua árvore
genealógica são indispensáveis, sobretudo no campo das Letras e até das Leis…
Um
dia, um dos seus membros, DONA VÍRGULA, tomou-se de amores pelo ACENTO CIRCUNFLEXO e
apesar da opinião desfavorável do PONTO
DE INTERROGAÇÃO, que punha no
enlace algumas RETICÊNCIAS, o casamento foi marcado, tendo ficado combinado
que a cerimónia se realizaria num grande espaço pertencente à matriarca, que
dava pelo nome de PONTUAÇÃO.
Porém,
na véspera do casamento, aconteceu o inesperado: Uma alcoviteira, cujo nome não
foi revelado, veio noite dentro, informar DONA
VÍRGULA de que o seu
amado se tinha enamorado de outra mulher de duvidosa fama, conhecida no meio,
pelo estranho nome de CEDILHA!
Não
podendo conter a raiva, DONA VÍRGULA, mandou chamar o traidor a fim de lhe pedir
explicações, pois não era fêmea que se deixasse enxovalhar aos olhos de toda a sua
tribo. Logo que ele entrou no salão, DONA
VÍRGULA, esguichando
ódio por todos os poros, virou-se para as aias e gritou-lhes: abram ASPAS!...
E
com as janelas abertas, talvez motivada pelos cheiros das flores vindos do
quintal, DONA VÍRGULA ficou mais calma, mandou fechar ASPAS e ficou só com
o ACENTO CIRCUNFLEXO.
E
começou então a conversa entre os dois:
-
Não imaginas como estava contente por entrar, finalmente, no teu PARÊNTESIS, -
começou DONA VÍRGULA.
- DONA VÍRGULA, Senhora
minha- interrompeu o ACENTO
CIRCUNFLEXO… Mas a traída
não o deixou continuar:
-
Cala-te, traidor! Não negues. Eu sei tudo, até o seu nome. Chama-se CEDILHA e
não sei como é que tu me trocaste por esse apêndice do C, que, por vezes, dá
lugar a equívocos malcheirosos, transformando a caça em caca…
De
repente ouviu-se um grande tropel e entraram na sala de rompante o ACENTO AGUDO, o
ACENTO GRAVE e logo atrás o PONTO
DE INTERROGAÇÃO, que com as RETICÊNCIAS tentaram pôr água na fervura, que é como quem diz,
acalmar DONA VÍRGULA e livrar o ACENTO
CIRCUNFLEXO daquela
situação complicada.
Este
último, usando os seus dotes de para chuva, ainda tentou
alertar os recém- chegados para o facto de DONA
VIRGULA estar a ser
intransigente e não querer ouvi-lo. Tudo em vão. MADAME VÍRGULA, pôs
ACENTO
GRAVE e rompeu
o casamento…
Anos
depois, o TRAÇO DE UNIÃO levou DONA
VÍRGULA ao altar onde a
esperava o PONTO…. E, nesse dia, consomou-se a união do PONTO e VIRGULA pondo
um PONTO FINAL em toda a confusão que se tinha gerado na unida família
da PONTUAÇÃO…
OS AVÓS
Assinalou-se no passado dia 26 de Julho
o Dia dos Avós. À parte algumas iniciativas levadas a cabo pela Igreja Católica,
não houve, por parte do Governo, qualquer gesto ou cerimónia para assinalar a
efeméride.
Quanto a nós seria legítimo que tivesse
havido da parte de quem manda, no mínimo, uma comemoração simbólica que
chamasse a atenção para o valor do enorme potencial dos idosos e para o reconhecimento e apoio que necessitam e merecem
da Sociedade e do Estado.
No Antigo Testamento o idoso era
apontado como o exemplo para os mais novos – era uma espécie de correia de
transmissão da sabedoria que vinha de Deus e da experiência que a vida lhe
tinha ensinado.
Com efeito, ao longo dos anos, – quando
os seus alicerces estão bem assentes na rocha firme da moral – o homem vai
acumulando saberes, conhecimentos e valores que, reunidos, constituem um
valioso património.
Com o andar do tempo e à medida que os
sonhos se esfumam, que as paixões se esvaziam, e que à euforia de outrora
sucede a crua realidade da vida, o idoso é um inesgotável manancial de
ensinamentos. Nele foram desaguando, pouco a pouco, a experiência dos anos e a
naturalidade das virtudes.
É esse conjunto de regras e preceitos,
esses valores morais, afectivos e religiosos, os pilares da família que deveriam servir de
argamassa para tentar colmatar os rombos existentes nesta sociedade
computadorizada e consumista, desumanizada pelo automatismo, pela informática e
pela cibernética. Seria esse o fermento que contribuiria para a formação de uma
sociedade mais justa, mais solidária, mais experiente e mais humanizada.
Infelizmente não é isso o que
acontece...
O homem sábio, do bom conselho, embora
ainda exista, é posto de parte. Na sociedade actual não há lugar nem paciência
para velhos. Os valores económicos aniquilaram os valores espirituais e
culturais.
Como de peças velhas se tratasse – muito
embora o seu trabalho tivesse contribuído para a edificação daquilo a que se
chama civilização moderna, os idosos são
marginalizados e lançados para o ferro
velho, sem escrúpulos, sem respeito e sem dignidade!
Todo aquele que trabalhou honestamente e
adquiriu saber não só na área profissional como também em termos de cultura, de
bom senso, de prudência e de lucidez, é um livro cheio de conselhos e
ensinamentos que merece ser folheado.
Celebrar o Dia dos Avós é comemorar a
experiência de vida, maturidade e a sabedoria dos que são considerados segundos
pais. E em qualquer parte há sempre uns Avós nos quais os netos têm, muitas
vezes, a única referência de estabilidade, de afecto e de carinho.
sexta-feira, julho 26, 2013
NO COMEÇO DE MAIS UMA ETAPA
A
partir de certa idade parece que o tempo passa mais depressa, que passa a
correr, sem quase nos apercebermos.
Parece
que os anos, à semelhança dos bólides modernos, circulam a uma velocidade tal,
que nem dá tempo para apreciar a paisagem.
É
como se viajássemos numa cápsula com janelas de vidros foscos donde apenas se
vê o desfilar de sombras, a passagem de objectos sem contornos definidos, a
sucessão de imagens fantasmagóricas – tudo isso perpassando ao som do barulho
infernal das preocupações do dia-a-dia que nos contagiam e se apossam das
nossas mentes.
Nesta
sociedade materialista que nos comanda e escraviza, nada podemos fazer para nos
libertarmos desta engrenagem maldita a que por obra e graça do progresso fomos
acorrentados. Elos da mesma cadeia, parte do mesmo todo, giramos à volta do
mesmo eixo e sofremos a influência dos mesmos ventos.
Toda
esta corrida desenfreada da vida moderna roubou-nos a paz de espírito, a
religiosidade do silêncio de outrora e o sonho de sermos interiormente livres,
o sonhos da criança que fomos!
E
assim vai passando o tempo. Veloz, indiferente à nossa insatisfação, aos nossos
desenganos, às nossas frustrações e aos nossos queixumes. É assim o jogo
quotidiano da própria vida, feito de competições e indiferenças!
Mas
mesmo assim todos os dias fazemos planos, todos os dias gizamos projectos,
todos os dias acalentamos esperanças, mesmo correndo o risco de ver o sonho
transformado em pesadelo!... Mas é a voz da esperança a incutir
"alma" no vazio da crescente desumanização; é um convite para
reforçar, – neste tempo sem tempo em que vivemos – o hino à vida, fazendo
ressuscitar o sonho perdido por intermédio de uma poesia humanista e
solidária...
Falo
de poesia, mas não sou poeta. O poeta é aquele que sente de outra forma. O
poeta não se faz, o poeta nasce. O verdadeiro poeta aprofunda sentimentos e
vivências e faz descobrir nas pequenas coisas grandes coisas, mostrando-nos
que, afinal, o que somos e o que fazemos tem uma razão de ser mais profunda do
que aquilo que pensamos. Há quem diga que a poesia é o homem. E como o homem
tem sempre uma paixão a construir, um sonho a desabrochar, um combate a travar
ou uma felicidade a atingir, a poesia tudo isso contém: amor, emoção, luta,
esperança – uma amálgama de religiosidade e de mistério que são, afinal, os
ingredientes de que é feita a vida. O tempo voa. Foge... Mas não será o tempo
um aliado que Deus nos deu? Não é ele que dá consistência e valor às coisas?
Quanto mais tempo passa, menos doem os desgostos... Façamos então dele um
poema. Aliás, como disse o poeta, «uma hora não é uma hora. É um vaso cheio de
perfumes, de sons, de projectos, de alegrias e de esperanças...»
MANTER A ROTA
O tempo, apesar de ser um grande
escultor, nunca volta atrás para fazer retoques ou modificar seja o que for na
obra que esculpiu. No entanto, confesso que embora o "passado" seja
para mim um ponto de referência, também não gostaria de voltar a vivê-lo.
No interior daqueles que chegaram a
homens sem nunca terem sido meninos, há marcas do passado que jamais se
diluirão e que acabam, mais tarde, por servir de lenitivo, de compensação e até
de refúgio, sejam quais forem os sobressaltos e os desencontros das nossas vidas.
Por mais que queiramos não conseguimos nunca apagar esses traços, essas pegadas
que marcaram o começo da nossa existência. Há sempre um episódio que perdura
eternamente - uma vontade insatisfeita, uma aspiração que realizámos, um
castigo injusto, uma paixão infantil, um sonho que se desfez e muitas
esperanças também!
E é quando a caminhada já vai longa,
quando a intensidade das paixões diminuiu, quando as horas deixaram de nos
escravizar e as modernas encruzilhadas da vida nos confundem, é então que
procuramos o tal refúgio. E nele reflectimos, meditamos, analisamos e, quase
sem querer, voltamos atrás e recordamos...
E é nesses momentos mágicos, quando o
silêncio impera e refreia o pensamento, que a imaginação, à rédea solta, viaja
no tempo, segue as pegadas e perde-se no sótão poeirento das nossas memórias...
Mas nem sempre o reencontro com o
passado é pacífico. A vida não volta à infância e muitas vezes as lutas que
interiormente travamos por querermos adaptar as aivecas do antigo arado à
moderna charrua do tractor, só nos trazem desgostos e frustrações. São lutas
inglórias...
É que a diferença entre os marcos de
pedra do passado e as balizas electrónicas do presente é abismal. Incomensurável!...
Protagonista dessas pelejas, muitas
vezes, mesmo antes de começar, deponho as armas, tão diferentes se me afiguram
os métodos do combate e as armas do "inimigo"!
Ademais, não se pode parar o tempo.
Temos de viver uns com os outros e é difícil escapar às atmosferas sociais do
tempo que passa. Sem renunciar ao passado, tento ser homem do presente. Mas
sempre com a aldeia de antigamente a pular-me no coração. Aquela aldeia de
olhos postos em Deus, em que se fechava um negócio com um aperto de mão e uma
palavra de honra. Foi nesse mundo que me fiz homem, que aprendi a partilhar,
que aprendi a cumprir a doutrina da solidariedade, do respeito mútuo, da lei da
honra. Ali interiorizei para sempre o valor da amizade e a cultura dos
princípios da moral sem necessidade de folhear volumosos livros nem estudar
complicados tratados de filosofia política ou outra. E agora, que a embarcação
começa a desmantelar-se, agarro-me aos pedaços que resistiram às tempestades e
vestindo o colete da Fé, tento manter a rota neste mar alteroso e traiçoeiro em
que vivemos.
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