sábado, fevereiro 28, 2015

O MEU TIO ZÉ


De vez em quando sinto necessidade de me abstrair deste rebuliço que me rodeia, do barulho do bater de asas destes abutres, desta injusta distribuição de dinheiros públicos e de toda esta promiscuidade que em cada dia que passa mais profundamente se entranha na nossa sociedade.
E então refugio-me no meu sótão – esse compartimento cada vez com menos luz, com muitas teias de aranha, muito pó e montes de recordações desbotadas pelo tempo.
Mas faço-o sempre pé ante pé, não vá acordar algum fantasma desses de que ainda hoje muita gente tem medo – o tal “antigamente”!
Mas sosseguem os mais ferrenhos defensores das novas práticas de governar, pois não vou entrar por aí. Aliás e como diz o ditado, quanto mais se mexe nela...
Hoje e talvez porque um familiar ocupou uma dessas funções, venho falar-vos do Regedor e do cabo de ordem. Claro que muitos dos que me lêem desconhecem completamente essas personagens, que em tempos idos pouparam muito dinheiro às gentes dos meios rurais.
O Regedor e o seu auxiliar eram antigamente sinónimos de poder e de respeito. Entre 1836 e 1940 foram uma espécie de representantes da administração central junto de cada freguesia e aldeia. Garantiam a boa aplicação das leis e dos regulamentos administrativos e exerciam a autoridade policial no território da freguesia. Em cada povoação havia um cabo de ordem, que era geralmente uma pessoa de boa reputação, respeitadora e respeitada, que podia apaziguar qualquer discórdia ou desentendido entre os habitantes.
Não havia, nessa altura, a nível de freguesia, qualquer autoridade policial e o Regedor e os respectivos auxiliares eram obrigados a gerir os conflitos entre os seus concidadãos. Quaisquer questões entre os respectivos habitantes eram resolvidas por eles. Nesses tempos eram frequentes as desavenças motivadas pelas partilhas de água de regadio e era a esses “funcionários públicos” que competia a sua resolução. Nas festas quando havia cenas de pancadaria o Regedor podia até proceder à detenção das pessoas em causa até à chegada da Guarda.
Assisti ainda a alguns casos desses e recordo-me ainda da importância e do respeito que inspiravam esses “funcionários públicos”. Durante a II Grande Guerra o Regedor fazia também o controlo da produção agrícola, colhendo as quantidades de cereais, vinho, azeite, e como não havia muita comida tinha de haver racionamento e era ele que ficava incumbido de distribuir as senhas por cada família. O Regedor e o cabo de ordem eram figuras respeitadas que serviam o Estado sem auferirem qualquer ordenado, trabalhavam, de facto, pro bono e isso apesar de, por vezes, os seus serviços lhes ocuparem o tempo todo…
Evidentemente que isso era no “antigamente” nesse tal tempo em que o dinheiro ainda não era rei, mas em que a honestidade e a dedicação à causa pública eram a base da sociedade. Ai Tio Zé, Tio Zé, se cá voltasses e visses estes comilões de agora…
 
 
 
 

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

A ESCOLA E O FUTURO

 
O futuro de um País passa, imprescindivelmente, pelas salas e recreios da Escola. É aí que começam a formar-se as pequeninas almas que amanhã constituirão os homens do futuro. A seguir aos pais é ao professor, – que ensina as primeiras letras e constrói a ponte entre a casa paterna e a Vida – que compete a difícil tarefa de edificar os pilares que permitam essa passagem. É uma profissão que não pode ser comparada com outra qualquer. Ela é uma arte, um sacerdócio! Infelizmente, assim não acontece. O desempenho do professor como formador de homens de amanhã tem vindo a degradar-se continuamente.A luta que todos os dias se trava pela obtenção de um emprego, faz com que o número de "professores amadores" seja cada vez mais elevado e a qualidade do ensino e da educação ministrados, desça em proporção.
Instruir e educar eram outrora princípios pelos quais se regiam os mestres. Hoje, se muitos seguem ainda essa norma, grande parte desconhece-a completamente. São disso frequentes e flagrantes os exemplos que se nos deparam no dia-a-dia. Aqueles que já ultrapassaram o meio século sabem bem que a instrução andava sempre de braço dado com a educação. O professor, ao mesmo tempo que instruía, educava. Quando a criança se apresentava na escola com uma educação rudimentar, desconhecendo algumas das regras do comportamento social, o professor, preparado para complementar essa lacuna, preenchia-a, ensinando-lhe esses princípios básicos conjuntamente com as primeiras letras.
Não possuo qualificação suficiente para imitir juízos sobre a justiça das reivindicações e das queixas que não cessam de ser feitas, quer por parte de educadores, quer de educandos.
Tenho no entanto uma certeza que creio ser igual à de milhares de outros cidadãos: muita coisa corre mal no que diz respeito ao sistema de educação adoptado entre nós. Dizem muitos que o novo homem, assim como as estruturas institucionais se devem moldar às exigências das Técnicas modernas e que o computador e a Internet são as ferramentas essenciais para essa nova prática. Há mesmo quem preconize que será esta última a resolver todos os problemas das famílias!...
Ninguém pode negar que a evolução da ciência e da técnica trouxeram à Sociedade grandes benefícios. Mas também ninguém pode tentar esconder que ao longo desse processo o Homem tem sido – embora com algumas excepções – desumanizado e despido da tradicional tessitura moral que lhe vestiram no berço. Daí que as Instâncias competentes devam providenciar no sentido de que o professor-máquina, não usurpe o lugar ao professor-pessoa, competente e íntegro. Só assim se poderão preservar os mais ricos valores de um Povo

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

EM NOITE DE INSÓNIA


Em noite de insónia
Li, há muitos anos, e tantos que já me não lembro do nome do autor, que «o sono é a antecâmara da morte....» E será então por isso que os velhos dormem pouco temendo que o tal “fantasma da gadanha” que incessantemente lhes ronda a porta, os apanhe desprevenidos e os ceife no meio de algum sonho cor-de-rosa?...
Não sei. Mas, a mim, não é o medo que me sobressalta, nem o pressentimento de qualquer coisa ruim que se aproxime e me possa fazer mal. Não é nada disso, porque a lei a que temos de obedecer tem a assinatura de Deus. E basta-me essa convicção para não ter medo...
Mas durmo pouco. Talvez porque o corpo já não precisa de tantas horas de repouso. Acordo muitas vezes a horas mortas, olho o relógio, e quando a manhã ainda vem longe e o sono teima em não voltar, parece que as horas se tornam ainda mais compridas... Lá fora tudo é silêncio e quietude!
Até o relógio da torre em que outrora a maçaneta martelava o sino, e as badaladas nos iam avisando da passagem do tempo, está agora calado, emudecido, porque na sociedade moderna a lei a isso obriga. São noites de insónia, de angústia, de temores.
De vez em quando, no sossego nocturno, até os estalidos da madeira dos móveis, lembram alguém que bate à porta, que quer entrar, que quer fugir da noite. Também a brisa fria que sopra lá fora, faz rodopiar as folhas que se deslocam, e cujo barulho se assemelha a passos de gente que se aproxima. E imagino a escuridão misteriosa e imprevisível. Ao longe, o uivo de um cão traz de volta crendices e medos de infância...
E é nessa espera infindável que invejo os santos! Invejo-os, porque no seu isolamento, todos os medos se diluem, e os altares servem de cama, pois é lá que adormecem as almas que estão em paz com Deus.
Noites longas, infindáveis, silenciosas...
Porém, quando esses silêncios trazem consigo recordações, então, de olhos fechados, deixo-me levar nas asas do pensamento. E como o sonho alimenta o gosto pela vida, ando às voltas dentro de mim, percorro caminhos já percorridos, visito locais já visitados, recordo, volto atrás, vou ao sótão, revolvo montanhas de pó, sempre na esperança de encurtar as horas. E continuo rodando pelos caminhos da vida, ora subindo, ora descendo, ajudado por um sorriso ou travado por um lamento.
De repente, no silêncio da noite, um galo cantou... Abro os olhos e por uma frincha da persiana, o espreguiçar da manhã anuncia-se por um fio de luz que beija a renda do lençol. Acabou-se a noite. Mais um dia...
Não obstante os defeitos que me pesam na alma e os pecados que antes de me penitenciar envenenam os dias de angústia, cada amanhecer reforça mais a minha fé, e faz de mim um homem verdadeiramente feliz!


EM NOITE DE INSÓNIA


Em noite de insónia
Li, há muitos anos, e tantos que já me não lembro do nome do autor, que «o sono é a antecâmara da morte....» E será então por isso que os velhos dormem pouco temendo que o tal “fantasma da gadanha” que incessantemente lhes ronda a porta, os apanhe desprevenidos e os ceife no meio de algum sonho cor-de-rosa?...
Não sei. Mas, a mim, não é o medo que me sobressalta, nem o pressentimento de qualquer coisa ruim que se aproxime e me possa fazer mal. Não é nada disso, porque a lei a que temos de obedecer tem a assinatura de Deus. E basta-me essa convicção para não ter medo...
Mas durmo pouco. Talvez porque o corpo já não precisa de tantas horas de repouso. Acordo muitas vezes a horas mortas, olho o relógio, e quando a manhã ainda vem longe e o sono teima em não voltar, parece que as horas se tornam ainda mais compridas... Lá fora tudo é silêncio e quietude!
Até o relógio da torre em que outrora a maçaneta martelava o sino, e as badaladas nos iam avisando da passagem do tempo, está agora calado, emudecido, porque na sociedade moderna a lei a isso obriga. São noites de insónia, de angústia, de temores.
De vez em quando, no sossego nocturno, até os estalidos da madeira dos móveis, lembram alguém que bate à porta, que quer entrar, que quer fugir da noite. Também a brisa fria que sopra lá fora, faz rodopiar as folhas que se deslocam, e cujo barulho se assemelha a passos de gente que se aproxima. E imagino a escuridão misteriosa e imprevisível. Ao longe, o uivo de um cão traz de volta crendices e medos de infância...
E é nessa espera infindável que invejo os santos! Invejo-os, porque no seu isolamento, todos os medos se diluem, e os altares servem de cama, pois é lá que adormecem as almas que estão em paz com Deus.
Noites longas, infindáveis, silenciosas...
Porém, quando esses silêncios trazem consigo recordações, então, de olhos fechados, deixo-me levar nas asas do pensamento. E como o sonho alimenta o gosto pela vida, ando às voltas dentro de mim, percorro caminhos já percorridos, visito locais já visitados, recordo, volto atrás, vou ao sótão, revolvo montanhas de pó, sempre na esperança de encurtar as horas. E continuo rodando pelos caminhos da vida, ora subindo, ora descendo, ajudado por um sorriso ou travado por um lamento.
De repente, no silêncio da noite, um galo cantou... Abro os olhos e por uma frincha da persiana, o espreguiçar da manhã anuncia-se por um fio de luz que beija a renda do lençol. Acabou-se a noite. Mais um dia...
Não obstante os defeitos que me pesam na alma e os pecados que antes de me penitenciar envenenam os dias de angústia, cada amanhecer reforça mais a minha fé, e faz de mim um homem verdadeiramente feliz!


VELHO?.... NÃO!...


Chegou-me pelo correio uma carta sem remetente e sem qualquer outra indicação. Em reforço, um telefonema anónimo indicando que uma cópia tinha sido enviada para a Redacção. Dentro do sobrescrito, apenas uns versos. Sem autor e sem data. Tenho por hábito e princípio dar um único destino às cartas anónimas – o cesto dos papéis.
No entanto, hoje, vou abrir uma excepção, e vou publicar o seu conteúdo. Por dois motivos. O primeiro relaciona-se com o facto de, ao publicá-lo, levar o seu autor a reivindicar a posse; o segundo  tem a ver com uma questão de identificação: se eu fosse poeta diria exactamente a mesma coisa. É o que penso e o que sinto. Sou eu a falar. É o meu pensamento vestido de letras…

«Não! Eu nunca serei um velho.
Por tudo aquilo que sinto,
E quando me vejo ao espelho,
Ele me diz que não minto.

Podem dizer: Que vaidoso!
Natural, a idade avança,
Acontece, quando o idoso
Se torna outra vez criança…

Não, não é gabarolice,
É forte disposição,
Pois não pode haver velhice,
Quando há paz no coração.

Vou saboreando este gosto,
Serenamente, com calma,
Conservando no meu rosto,
Esta paz que me vai na alma.

Quando a vida estiver finda,
Já dentro do meu caixão,
Eu direi sempre, sempre e ainda,
Morto, sim, mas velho, NÃO!...»

O título desta minha crónica de hoje foi roubado. Não o fiz deliberadamente e estou pronto a devolvê-lo a quem o escreveu. Mas por tão bem e por tão fielmente ter traduzido os meus sentimentos, e apesar de anónimo, para o autor, o meu bem-haja!



PREPOTÊNCIA E INFALIBILIDADE



Um dos traços de personalidade que sempre odiei e que está na minha lista-negra é a prepotência.
Tive sempre muita dificuldade em conviver ou trabalhar com pessoas prepotentes, mas infelizmente o que mais se vê por aí nestes tempos, são esses exemplares presunçosos, egoístas e geralmente mal formados.
O principal problema da prepotência é que ela parte de um princípio absolutamente improvável.
O prepotente julga-se sempre o mais apto, o melhor, o mais capacitado, o mais conhecedor seja qual for a área em que exerce a sua influência. Muitos deles conseguem até ser “mais” e “melhores” em várias áreas simultaneamente!
E isso é o que mais revolta me causa!
Um dos postulados mais básicos da filosofia já diz que, quanto mais se sabe, mais se sabe que não se sabe nada ou, dito de outra maneira, quanto mais conhecimento se adquire, mais se tem a noção de que ainda se tem muito que aprender.
Ultimamente tenho percebido que uma segunda característica da prepotência é tão ou mais danosa do que essa condição de “sabe-tudo”. É a infalibilidade. Os prepotentes acreditam que são infalíveis.
Eles nunca erram. Ou, se erram, nunca é culpa deles. E tenho notado que essa característica nem sempre vem acompanhada do tradicional “sabe-tudo” da prepotência.
Devo ter sido educado de forma errada mas, para mim, errar faz parte do processo de aprender.
Nenhuma criança começa a caminhar quando completa 9 meses de idade.
Tudo isso faz parte de um processo: a criança começa por gatinhar, por dar quedas, por se levantar, manter-se uns instantes de pé e só depois de algum tempo consegue manter o equilíbrio e, finalmente atingir o modo normal da locomoção.
Durante a minha já longa caminhada tenho notado que aqueles que querem aprender a correr depressa subestimando a marcha do companheiro do lado, geralmente acabam, de facto, por chegar primeiro, mas enchem-se de tanta sapiência e imprimem tanta velocidade aos seus passos que, terminam o “percurso” sozinhos, sem amigos que os aplaudam.  

Aprender a ser um cidadão de corpo inteiro é um processo contínuo de crescimento. E esse crescimento deve ser acompanhado de muita compreensão, de muito respeito pelos outros e sobretudo de muita humildade.
Prepotência e Infalibilidade


Um dos traços de personalidade que sempre odiei e que está na minha lista-negra é a prepotência.
Tive sempre muita dificuldade em conviver ou trabalhar com pessoas prepotentes, mas infelizmente o que mais se vê por aí nestes tempos, são esses exemplares presunçosos, egoístas e geralmente mal formados.
O principal problema da prepotência é que ela parte de um princípio absolutamente improvável.
O prepotente julga-se sempre o mais apto, o melhor, o mais capacitado, o mais conhecedor seja qual for a área em que exerce a sua influência. Muitos deles conseguem até ser “mais” e “melhores” em várias áreas simultaneamente!
E isso é o que mais revolta me causa!
Um dos postulados mais básicos da filosofia já diz que, quanto mais se sabe, mais se sabe que não se sabe nada ou, dito de outra maneira, quanto mais conhecimento se adquire, mais se tem a noção de que ainda se tem muito que aprender.
Ultimamente tenho percebido que uma segunda característica da prepotência é tão ou mais danosa do que essa condição de “sabe-tudo”. É a infalibilidade. Os prepotentes acreditam que são infalíveis.
Eles nunca erram. Ou, se erram, nunca é culpa deles. E tenho notado que essa característica nem sempre vem acompanhada do tradicional “sabe-tudo” da prepotência.
Devo ter sido educado de forma errada mas, para mim, errar faz parte do processo de aprender.
Nenhuma criança começa a caminhar quando completa 9 meses de idade.
Tudo isso faz parte de um processo: a criança começa por gatinhar, por dar quedas, por se levantar, manter-se uns instantes de pé e só depois de algum tempo consegue manter o equilíbrio e, finalmente atingir o modo normal da locomoção.
Durante a minha já longa caminhada tenho notado que aqueles que querem aprender a correr depressa subestimando a marcha do companheiro do lado, geralmente acabam, de facto, por chegar primeiro, mas enchem-se de tanta sapiência e imprimem tanta velocidade aos seus passos que, terminam o “percurso” sozinhos, sem amigos que os aplaudam.  

Aprender a ser um cidadão de corpo inteiro é um processo contínuo de crescimento. E esse crescimento deve ser acompanhado de muita compreensão, de muito respeito pelos outros e sobretudo de muita humildade.

ENVELHECER A SORRIR



Na carruagem-restaurante, dois velhotes sentados face a face, tiram do bolso a mesma embalagem de remédio e dissolvem o pó nos respectivos copos de água. Depois, olham-se como dois cúmplices, e sorriem...
- Desculpe, mas não me diga que também sofre da coluna!...
- É verdade. E pelo que vejo, o senhor também.                   
- Exactamente. E não pode calcular o prazer que sinto...             
- Prazer? Olhe que a mim não me dá prazer nenhum.
- Perdão! Não me referia às dores, mas ao prazer de encontrar um colega...
- Pois foi o mesmo que pensei quando li o rótulo da sua embalagem!
- Artrose?                
- Acertou.
- Eu, bicos de papagaio...         
- Também tenho. Não sente de vez em quando uns estalidos?                           
- Ai que não sinto!... Se o comboio não fizesse tanto barulho até lhos fazia ouvir.        
- Eu, só p’ra médicos tem sido uma fortuna: chapas, análises e, por fim, receitaram-me estes pós.                           
- Exatamente o meu caso.                       
- Eu só senti melhoras uma vez. Estava deveras empenado e de tão desesperado fui a um armário que temos lá em casa, tirei uma caixa ao acaso... 
- E então?              
- Durante oito dias não soube o que eram dores. Depois, e ainda por acaso, voltei a ler a literatura e dei conta de que o papel estava trocado e que os supositórios eram para a gripe! Não lhe conto nada...                        
- Efeito psicossomático...                    
- Evidentemente!                        
- E quem sabe até se não seria a ginástica que fez ao pôr o supositório que lhe pôs a vértebra no lugar?                                   
- Também já pensei nisso...                                       
- Sabe, é que às vezes um gesto, uma posição diferente... E a propósito: para onde vai se não sou indiscreto?                                
- Olhe, vou fazer uma cura de lama, porque dizem que faz muito bem...              
- Tem graça. Eu também. Antigamente, quando o meu avô Marcelino ia muitas vezes ao médico e se queixava sempre da mesma coisa, o doutor mandava-o à merda! Agora, com todas estas modernices, mandam-nos fazer banhos de lama...                   
- A coisa não dá para rir, mas apetece dizer que nos tiraram da merda e nos meteram na lama...                                
- Coisas do progresso, Amigo! Antigamente era uma pobreza franciscana: sinapismos, papas de linhaça, ventosas, caldos de galinha... Até na morte éramos pobres! Hoje, morre-se rico... Veja a quantidade de Euros que um cristão engole em remédios antes de entregar a alma ao Criador!...                                  
- É verdade... Mas está na hora de tomarmos os nossos pozinhos...                                    
- Tem razão. Então à sua saúde!                  
- E à sua também!...


sexta-feira, fevereiro 06, 2015

À LAREIRA - A AULA DE PORTUGUÊS

À LAREIRA…
 A aula de português
Sem saber como nem porquê, dei comigo sentado numa cadeira da última fila de uma sala de aulas. Era uma Escola Secundária e a disciplina que estava a ser ministrada era a língua portuguesa.  
O "sôtor" não tinha nada daqueles mestres do meu tempo que eram assim mais "pesados" na idade e mais escrupulosos no vestir. Este vestia calça de ganga, e oficiava em mangas de camisa. Por falta de um botão, via-se um peito cabeludo onde luzia um fio prateado, na extremidade do qual baloiçava um berloque. Calçava sapatos de ténis que deviam ter nascido brancos mas que agora, a idade ou os maus tratos, tinham transformado num arco-íris rastejante....
Constava que a sua especialidade era a agricultura, pois possuía uma licenciatura num desses novos cursos, - Ciências Agrárias, se não estou em erro - mas em face da crise nesse sector, virou-se para o ensino e lá conseguiu umas aulas...de português!...
"Como já por várias vezes tenho afirmado - começou ele dirigindo-se à turma - quanto a mim, para que o aproveitamento na disciplina de português seja o desejado, devemos acabar com a ortografia. Acabando com ela, suprimem-se os erros ortográficos..."
Raciocínio sem contestação possível, pois se cortarmos o pescoço a qualquer fulano, ele não sofrerá mais de dores de cabeça, pensei eu cá p'ra mim.
"Os pequenos - continuou - não gostam de português, porque a maior parte das palavras não se escrevem como se pronunciam, ou se pronunciam de maneira diferente da que se escreve..."
Raciocínio foneticamente muito discutível, mas que deixei passar.
"A ortografia - insistiu - porque só uns tantos a praticam, é um elemento de segregação social. É até uma forma, camuflada, de racismo! Por isso, não só contribui para o empobrecimento cultural, pelo tempo que rouba e pelos sentimentos xenófobos que desperta, como também é responsável pelo enfraquecimento do espírito, tendo em conta o esforço que exige..."
Raciocínio de cariz político-partidário, que fingi não perceber. 
"Porque - continuou, já vermelho e a transpirar - a ortografia é nos nossos dias uma coisa arcaica; cheira a mofo e não tem cabimento numa sociedade de tecnologias avançadas. Vivemos quase meio século no cárcere do obscurantismo. Há mais de quatro décadas que dele nos libertaram!... Então por que esperamos para deitar no lixo as grilhetas que ainda nos prendem a esse passado, (que eu nem sequer conheci!...) mas que dizem ter sido sinistro e castrante, indolente e conservador?!..."
E foi então que me levantei para protestar. E desmenti com toda a força tão ilustre "pedagogo", explicando que no "tal passado que ele nem sequer tinha conhecido", a maior parte daqueles que faziam a quarta classe ficava a saber escrever correctamente o português. Sem erros ortográficos!
E fui posto na rua...
Que raio de sonho! Ou estaria eu a sonhar acordado?!...
 

AOS MEUS AMIGOS

 Por que escrevo
Ecrire, c’est une façon de parler sans être interrompu
Jules Renard
 Há dias em que quase somos submersos pelas vagas da nossa própria frustração. Sofremos ao remexer os arquivos da memória, e sofremos também quando imaginamos que o mundo e a vida poderiam ser de outra maneira. Dificilmente conseguimos fugir e tirar a máscara com que iludimos uma felicidade inatingível!
E é nesses momentos que eu sinto necessidade espiritual de me confessar, de confidenciar ao papel todas as minhas mágoas, as minhas angústias e a minha revolta por tantos silêncios e tantos sonhos que não consegui concretizar.
É a maneira de afastar para longe tudo o que a vida me negou, e é, também, simultaneamente, um hino em louvor do que ela me concedeu em troca. É assim como que uma mistura de lágrimas e sorrisos!
De lágrimas que foram secando com o passar dos anos e de sorrisos que nunca me abandonaram porque se apoiaram sempre nessa grande força interior, que é a Fé consubstanciada na satisfação de ter conseguido ultrapassar e vencer só, e sem desânimo, os obstáculos que a vida foi colocando no meu caminho. Por isso, escrever, é para mim como que uma confissão a sós – sem padre, mas com a presença invisível de Deus.
É uma espécie de diálogo sem vozes, em que a mesma personagem representa dois interlocutores, distantes no tempo, mas que durante anos, caminharam sempre lado a lado, acalentando os mesmos projectos, as mesmas ambições, os mesmos sofrimentos e também cultivando sempre as mesmas esperanças.
Como dizia há dias, neste turbilhão de ambiguidades e egoísmos, as pessoas estão de tal maneira acorrentadas com as grilhetas de que a sociedade actual se serve para as escravizar, que é cada vez mais difícil encontrar alguém com quem se possa manter uma conversa cujo assunto não seja relacionado com toda esta podridão e falta de dignidade que nos rodeia.
A moral do passado, odiosa, reaccionária, paternalista e castradora, foi enterrada. Porém, a outra moral, a nova, a boa, a ideal, a verdadeira, onde está?!... Talvez a resposta se encontre nos milhões ganhos à custa alheia e depositados em muita conta bancária. Não estou a dar lições nem tão pouco a desempenhar funções de moralizador de massas. Quem sou eu para o fazer!...
Eu estou apenas a falar baixinho. Só para mim. E porque em todos os dias morremos um pouco, escrevendo, eu vou aproveitando todos esses momentos, transformando cada um deles, num hino de louvor à vida.
Quando escrevo, vou sorvendo gulosamente todos os minutos desta passagem – desta vida que nos desgasta com os seus encantos e desencantos. Quando escrevo, encontro-me com o paradoxo que sou e com o outro eu da minha alma.
Escrevinhador de barba e cabelos brancos escrevo também para resistir à marginalização e não deixar morrer a criança da alma, a alegria de viver, a espontaneidade do sorriso e a fé que sempre me alumiaram.
Escreve-se a vida, as gentes, os tempos, mas o acto de escrever é sempre um acto solitário, sobretudo quando não nos movem interesses escondidos nem vinganças alheias e em que apenas denunciamos injustiças, lutando mais pelos outros do que por nós próprios. Neste tempo em que apenas se ouve a voz da conveniência, denunciar as injustiças é também como que rezar a Deus para que ponha cobro a tanta desumanidade.
Escrever é, em resumo, uma espécie de reflexão interior – uma renovação da chama da esperança e um regresso à inocência e à alegria da criança que tento conservar sempre viva dentro de mim.

 

 

sábado, janeiro 31, 2015

O COLÉGIO PORTUGUÊS DE KINSHASA


 
Na Diáspora portuguesa há factos que merecem ser divulgados, pois eles mostram à saciedade a grande capacidade de adaptação de criatividade e de amor à língua e às suas raízes de muitos milhões de portugueses espalhados pelo Mundo. Também só eles experimentaram e sentiram dentro do peito esse sentimento tão indescritível quão doloroso que é a saudade!...
A propósito, vou falar-vos hoje do Colégio Português de Kinshasa, fundado pelos portugueses ali residentes, em 25 de Fevereiro de 1947 com o nome de “Casa dos Portugueses”.
Em 9 de Abril de 1951 foi legalizada a sua personalidade civil e convocada a sua primeira Assembleia Geral para aprovação dos Estatutos e nomeação do primeiro Conselho de Administração. Funcionou até essa data e mesmo anteriormente a 1947, sob a forma de uma associação privada com uma direcção ad hoc.
Em 28 de Janeiro de 1954 a “Amicale Portuguesa” que era um clube recreativo e desportivo por excelência, - uma espécie de secção desportiva da Casa dos Portugueses - que durante anos com a sua valorosa equipa de futebol transformava as tardes de Domingo em quentes e entusiásticas manifestações do desporto-rei, foi integrada na Associação tendo sido nomeado para seu Presidente, Raul de Sousa, então Cônsul de Portugal na Embaixada de Portugal em Kinshasa.
Em 1972 foi inaugurada a primeira fase do bloco escolar destinada a aulas e instalação dos serviços administrativos. O corpo docente era constituído por professores idos de Portugal. Além das classes Infantil, Pré-primária, Primária Elementar e Ciclo Preparatório do Ensino Secundário, foi incluído nesse ano o Curso Geral dos Liceus, iniciando-se com o 1.º ano que se prolongaria até ao 3.º ano, antigo 5.º ano.
Para presidir aos exames deslocava-se a Kinshasa um elemento da Direcção dos Serviços de Inspecção e de Educação de Angola.
No ano escolar de 1971/1972 a frequência do Colégio em todos os escalões de ensino foi de 281 alunos, incluindo alguns angolanos.
Muito mais haveria a acrescentar acerca do Colégio Português de Kinshasa, mas apenas me refiro a esse ano lectivo por possuir elementos para o fazer, visto ter feito parte do Conselho de Administração.
E refiro-me hoje a este facto por sentir saudades desse tempo. E nessas ocasiões nada melhor do que folhear o livro de recordações e deixar voar a imaginação...

quarta-feira, janeiro 28, 2015

À PORTUGUESA


 

Às vezes passam-me coisas pela cabeça que se me atrevesse a confiá-las ao papel, de duas e uma: ou me colavam um rótulo de maluco na testa, encolhiam os ombros e não ligavam patavina, ou então eram capazes de me armar algum trinta e um que faziam com que ficasse mesmo doido a sério. Safa!...

«Então, cala a boca Manel e não te metas com esses proxenetas da política, porque, afinal, foste tu, eu, e os outros que contribuímos para que eles subissem aos lugares cimeiros que ocupam. Pensavas que bastava substituir as “rosas” por um “laranjal” - agora moribundo e invadido pela cochonilha e pela ferrugem – para termos uma nova mancha verde, sem ervas daninhas, sem podridão e sem parasitas?

Ingénuos que fomos, estúpido que és!... Já Alexandre Herculano há muitos anos escreveu que " a história política é uma série de desconchavos, de torpezas, de inépcias, de incoerências, ligadas a um pensamento constante - que é o de enriquecerem os chefes de partido..." E se nessa altura ele se referia apenas aos chefes, hoje há que incluir também todos os seguidores de suas excelências: familiares, amigos, afilhados, recomendados, amásias e demais pessoal, democraticamente ligado à nobre causa de enriquecer sem trabalhar.

Quanto a maneiras de pensar e agir, estamos conversados!

Político é político e interpretar o que dizem ou explicar o porquê daquilo que fazem, é um segredo da classe, embora quase sempre haja um cheirinho a dinheiro que se escapa pelo testo da panela... ou do tacho!

Desemprego, miséria, exclusão social, deficiências na Educação, na Justiça, na Saúde,  tudo isso é triste , tudo isso é verdade, mas passa ao lado de suas excelências.

O que é preciso, Manel, é distrair a malta e bem sabes que, para isso, nada melhor que um desafio de futebol entre os grandes ou um escandalozito entre a nossa elite, essa gente fina. E isso não falta…

E é assim que o país mais parece uma lotaria, em que uns nascem na lama e outros nas nuvens; em que uns morrem de fome e outros morrem de fartura.

Aproxima-se uma nova campanha de caça ao voto. Vem aí outra mudança? Não sei se já notaste, mas a fila dos putativos candidatos aos “tachos” já vai longa. Todos eles querem emprego, que não trabalho. Já há alfaiates a virar casacas. Na dúvida…

E todos, na nossa infinita e pacata desordem existencial, achamos todos esses “procedimentos” normais e nada mais fazemos do que encolher os ombros. E tu vais votar?…»

E eu, portuguesmente, limitei-me a encolher os ombros!...

 

AS MINHAS REFLEXÕES


 
Apesar de já ser longa a minha caminhada pelos trilhos da Vida, e apesar dos muitos obstáculos que já transpus, há dias em que me é difícil lidar com os embustes e as armadilhas que aparecem no percurso. E é então que esqueço o que me rodeia e dou asas à imaginação, que voa, rodopia, desce, sobe, sempre em torno do mesmo eixo - A Vida. A Vida no seu dia-a-dia cada vez mais materialista, mais cheio de risos amarelos, de sorrisos irónicos, de olhares de soslaio que mais parecem armas de agressão!

É assim a sociedade de hoje, competitiva, apressada, hipócrita e egoísta. Não há tempo sequer para uma introspecção serena e desapaixonada. Vive-se rodeado de uma corte de fingidos, de snobes, de manequins de plástico e de bonecas fúteis, cheias por fora e vazias por dentro. O que importa é aparentar uma imagem adaptada aos ventos que sopram - roupagens da moda, altivez a condizer, e esse ar de gente fina, com olhar distante, mas vistas curtas. Imitar, fazer de conta. Aparentar o que se não é. E não esquecer a regra fundamental da irmandade: bajular na frente e caluniar nas costas.

Tropeçamos a cada passo com abusos da riqueza. O esbanjamento e a ostentação sempre a correr, imprimem uma velocidade tal aos nossos neurónios, que somos obrigados a interromper o raciocínio para não enlouquecermos. Mas mesmo assim, frequentemente, não resistimos à tentação de perguntarmos a nós próprios, que trabalhámos uma vida inteira e continuamos a trabalhar, como é possível, angariar fortunas em tão curto espaço de tempo e, aparentemente, sem grande esforço?!...

Talvez seja esse mais um "milagre" desta sociedade, que criámos. Todos sem excepção. Uns por vontade própria, outros porque não tiveram coragem de se oporem, acomodando-se e sujeitando-se aos caprichos e desvarios dos mais fortes. Não há, pois, razões para queixas. Não há lugar para invejas, nem fundamento para acusações. Nem a Natureza, nem as leis que estiveram na formação da Civilização, têm quaisquer culpas. O Homem é o único culpado. Todos somos cúmplices. E não é por acaso que as nossas reacções a factos que deveriam ser denunciados, se ficam apenas por um simples encolher de ombros. É o egoísmo a mandar, é o comodismo a sobrepor-se à personalidade e a transformar-nos em "escravos modernos" às ordens de "novos senhores". Os abusos da tecnocracia e os excessos do capitalismo financeiro, ao mesmo tempo que criaram novas classes sociais, originaram também novas injustiças. Quando numa sociedade o dinheiro se sobrepõe à inteligência, à humildade, à solidariedade, e à generosidade, é caso para nos interrogarmos sobre o seu futuro. Esse futuro desejado por todos - um futuro com uma nova doutrina social justa e humanista, em que as pessoas estejam acima dos números…

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, janeiro 15, 2015

MUDANÇAS

 
Embora muitos, por razões diversas, não o confessem publicamente, o certo é que poucos serão os que no final de um ano e no começo de outro, não alberguem dentro de si uma réstia de esperança que lhes faz antever um novo ano diferente e melhor. Isso repete-se anualmente e transforma-se numa espécie de exorcização do sentimento de culpa por não termos sabido aproveitar as oportunidades que o ano velho nos concedeu e que nós não quisemos ou não soubemos pôr em prática.
E mesmo que estejamos convencidos, interiormente, que os 365 dias constituíram apenas e só, mais um ano que passou, a nossa vaidade exterior, exige que apregoemos alto e bom som que nada está perdido e que enquanto há vida há esperança!
Somos assim, ou sendo mais directo e sincero, eu sou assim!... No começo do ano, há sempre inúmeras coisas que me proponho mudar, substituir, remediar ou suprimir. Mas de adiamento em adiamento, de contemporização em contemporização, é sempre com esse tal sentimento de culpa que me despeço do 31 de Dezembro, e é também com essa réstia de esperança que, enfrento o primeiro dia do novo ano.
É um eterno recomeço – com os mesmos projectos, as mesmas determinações, as mesmas fraquezas, as mesmas bazófias, e reincidindo sempre, covardemente, na falta de cumprimento do que me propus fazer.
Tal como os nossos políticos... Muita treta, muito boas intenções, muitas promessas, muito discurso, mas melhorias...nicles!
Estou a referir-me, como acima disse, aos nossos queridos mandantes e afins que passaram o ano inteiro a buzinar-nos ao ouvido que faziam, que aconteciam, que mudavam, que baixavam, que reduziam... e finalmente, catrapus! Tudo vai aumentar! Foram 365 dias de acusações mútuas, de polémicas mesquinhas, de "casos", de falsas promessas, de auto-elogios, de jantaradas principescas, de viagens transatlânticas e agora, mal o ano começa, paga Zé e não bufes!
A subida dos preços e de tudo o que mais adiante se verá são a prova irrefutável de que, mais uma vez, fomos todos enganados por essa classe de homens que tudo promete na hora do voto, mas que tudo esquece quando instalada na cadeira do poder.
A palavra de ordem é dinheiro e mais dinheiro! Não o produto resultante do esforço de cada um, mas o dinheiro tout court, a nota do banco, que vem parar às mãos de muitos sem qualquer esforço.
Estamos em ano de eleições. E por que não usar a nossa única arma – o cartão de voto- para mudar de charlatães? Missão difícil se não impossível, pois como diz o provérbio, “muda-se de moleiro não se muda de ladrão.”

 

 

domingo, janeiro 04, 2015

"LES PORTUGAIS SERONT TOUJOURS GAIS!..."

Mais um ano que passou. Contabilidade encerrada. E nada de borracha, de correctores de escrita, ou outras astúcias para apagar. É tempo de balanço e análise das contas do passado.
E, de caminho, é também ocasião para parar um pouco e olharmos o saldo. Positivo ou negativo, ele aí está inscrito com tinta indelével no Deve e Haver do livro de cada um de nós.
 Há, no entanto, que reflectir sobre os desperdícios e sobre as más aplicações que fizemos. Não que esse facto possa modificar qualquer coisa já feita, como acima disse, mas para acautelar e reduzir a dimensão de futuros erros. É que nada há para orientar o nosso futuro como as lições que a vida nos dá...
E isso porque atravessamos um período em que quase todos os jovens se convencem que tudo o que sabem só nos livros se aprende. E que só eles são os detentores da moderna sapiência, - esse conjunto de saberes que por tão dispersos e tão mal orientados, tão confusos, tão teóricos e tão pouco práticos, cada vez estão mais desfasados da própria realidade.
Esquecem (ou não lhes ensinam?!) que a teoria sem a prática e a vivência sem a experiência abrem caminhos, mas não completam a aprendizagem. Só mais tarde quando chega o tempo de deitar contas à vida, de desfazer sonhos, de recordar frustradas ambições e examinar o fundo do saco, então sim!... Então é que se apercebem que, afinal o velho tinha razão! A palavra velho que seja tomada aqui no sentido colectivo e não pessoal, com é evidente.
Com esta divagação desviei-me do assunto desta crónica sobre o novo ano que vai começar. O que venho hoje dizer-vos é que o próximo Ano terá 12 meses, a Páscoa calhará a um Domingo, o Carnaval a uma Terça-feira, e o dia da preguiça continuará a ser a Segunda-feira. No que se refere à política manter-se-á o statu quo, isto é: os políticos em vez de governarem continuarão a governar-se; as festas e o foguetório suceder-se-ão a ritmos alucinantes; haverá ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres; a cultura será cada vez mais abstracta e inculta e o Zé pagante, para sobreviver, continuará a fazer das tripas coração.
E apesar de todas as falcatruas e todas as artimanhas dos nossos mandantes - ingénuos, conformados e eternos sebastianistas que somos-continuaremos a bater-lhes palmas na rua e a insultá-los no bem-bom da nossa casinha…Como diz um amigo meu que é chinês mas que fala francês, “Les portugais seront toujours gais!...”
Tenham um feliz Ano Novo e que a saúde não vos falte.
 
 

NATAIS


 
Ao folhear as páginas amarelecidas dos arquivos da minha memória, misturam-se recordações de vários Natais.
Na primeira, quase ilegível, surge o Natal da minha infância, com noites escuras e frias. Parece que ainda ouço o matraquear dos socos e tamancos na calçada a caminho da Missa do galo na pequena Capela, sem árvore de Natal, mas cheia de gente, numa mistura de surrobeco, xailes e capuchas. No ar o cheiro do incenso e, no altar, deitado numa simples almofada, o Deus Menino, risonho, faces rosadas, braços abertos, com os dedos dos pés já gastos de tantos beijos...
Os cânticos entoados com devoção e fervor, sem instrumentos musicais, o regresso a casa, descendo a correr a escaleira de lousa que levava à capelinha. E já em casa, abrigado do frio, à lareira, a minha alegria, ao ver os pinhões que saíam das pinhas postas à beira do brasido entre panelas de ferro e a trempe que sustentava a sertã onde minha Mãe fazia as filhós!
Os brinquedos, quando os havia, eram pobres, quase todos saídos da marcenaria de S. José. Eram de madeira, mas tanta alegria que proporcionavam! A avaliação da riqueza depende da inocência de quem a recebe. E a felicidade varia conforme a humildade.
Natais da minha infância, já tão longe, mas ainda tão presentes. Natais da minha infância, dos brinquedos de madeira, dos carrinhos de lata, das caixas de lápis de cor...
Natais da minha infância!.. Natais sem presentes. Natais pobres de brinquedos mas tão ricos de significado e calor. Natais que permanecem vivos e saudosos até que a morte os reconstrua do lado de lá da vida.
Outros Natais estampados nas folhas desbotadas são aqueles que passei longe da terra-mãe, da família, e dos filhos.
E um deles, – o mais triste dos meus Natais – passado sozinho, na solidão dos trópicos, longe de tudo e de todos.
Todo este arrazoado, como já devem ter percebido, para desejar um Bom Natal a todos.
A todos, mas em especial àqueles que lá longe, uns com alguma família, outros sozinhos, como eu em tempos, lutam por uma vida melhor e passam esta noite, este dia, recordando a família e a terra natal.
Uma noite e um dia cheios de felicidade, um dia bem vivido, um dia em que cada um se sinta feliz consigo, com a família e com aquilo que possui. Mesmo que seja pouco. A felicidade não decorre de possuir, mas de compreender.
Ao menos uma vez por ano, é bom que façamos uma pausa para despertar o sentimento de fraternidade - esse sentimento tão nobre, mas cada vez mais esquecido. Esse sentimento imprescindível para que na terra haja paz entre os homens de boa vontade.
Feliz Natal para todos vós!
 

 

sexta-feira, dezembro 19, 2014

IMPOSTOS

 
Dizia o saudoso filósofo e pensador Agostinho Silva que não pagava impostos "porque não sabia para onde iria o seu dinheiro...". Rematava o seu pensamento afirmando que quando lhe dissessem, e ele efectivamente visse como e onde era aplicada a sua contribuição, então pagaria. Dei comigo a pensar nessas palavras sábias quando há dias, mentalmente, estabelecia a comparação entre as carências com que se debatem os mais necessitados e o esbanjamento de dinheiro feito por muitos dos nossos mandantes fanfarrões.
De facto, e sem termos necessidade de nos deslocar para muito longe, verificamos que o exagero em festas e foguetório começa a mexer com os nervos de muita gente.
A propósito de tudo e de nada organizam-se as mais incríveis manifestações folclóricas que (ou será o meu anquilosado raciocínio a falsear a verdade?!), servem apenas para tapar olhos e desviar a atenção do povoléu das misérias com que é confrontado todos os dias.
Aliado a esse facto, o desleixo que impera na vigilância daqueles a quem pagamos para zelar pelo bem comum, é deveras revoltante! Para explicar melhor, e para aqueles que se quiserem dar a esse cuidado, observar uma brigada de funcionários do Estado quando efectue qualquer trabalho na via pública, é o exemplo mais flagrante de todo esse "faz-de-conta" que reina no País. Ninguém vigia ninguém e, dizem eles, filosoficamente, que o trabalho não é para se acabar, mas para se ir fazendo...
E enquanto os indiferentes e acomodados dizem que "sempre assim foi", os próprios visados queixam-se de que até trabalham de mais para os salários que auferem!
Entrementes, o Zé vai aturando todo este regabofe, acabando sempre por pagar a louça partida pelos elefantes que, constantemente, atravessam a loja.
Independentemente do juízo de valor que cada um possa fazer do que acima disse, não há dúvidas que este estado de coisas é gerador de grandes injustiças. Só os autistas não se dão conta de que o País vive uma fase de descalabro económico, agravada ainda mais pelo crescimento descontrolado de uma classe parasitária habilidosamente disfarçada sob os mais diversos e pretensos eventos culturais.
Por mais que afirmem o contrário não há outra via de salvação que não seja a do trabalho. Mas do trabalho que sirva o Homem e as suas comunidades e não o trabalho fingido de que o Homem se sirva apenas para gozo dos seus apetites e vaidades.
Retomando o mote desta crónica, seria de facto justo, honesto, transparente e democrático que o contribuinte soubesse para onde vão, e como são aplicados os dinheiros que deposita nos cofres do Estado. Utopia, claro!...  Mas se fosse possível, seriam muitas as surpresas. Ou talvez não.
.    
 
 

 

 

sexta-feira, dezembro 12, 2014

POR QUE NÃO NOS VENDEM ?

Não. Não estás só. Somos muitos. E em cada dia que passa, é mais um que se nos junta. Aumenta o número, mas nem por isso fazemos com que se lembrem de nós. Tens razão quando dizes que ao longo dos anos fomos adquirindo saber e experiência e que, por isso, possuímos um património que poderia contribuir para que a sociedade avançasse rumo ao futuro com mais firmeza, seriedade e segurança. Tens ainda razão quando dizes que constituímos o elo entre o passado e o futuro e que contribuímos para que o presente não seja esvaziado de memória, de valores e de orientação. É verdade!
Mas puseram-nos o rótulo de “velhos! “E alguns de nós são até considerados como um “peso”!... Olha o João, que troçava quando  nos nossos verdes anos ouvíamos  Brel cantar “Les Vieux” :  Les vieux ne rêvent plus, leurs lèvres s’ensommeillent, leurs pianos sont fermés / Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter / Les vieux ne bougent plus leurs gestes  ont trop de rides leurs monde est trop petit / Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit…(…) Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps...»  Pois é. O João dorme agora num Lar, até adormecer para sempre… Houve um tempo em que a experiência valorizava. Agora, muitas vezes, compromete e condena à solidão…
Dizias-me que “no Antigo Testamento o idoso era referido como transmissor da sabedoria que vinha de Deus, que no Livro do Génesis, no Deuteronómio, no da Sabedoria e no Eclesiástico, a velhice era considerada uma bênção, uma riqueza que devia agradecer-se…”
Mas os tempos mudaram, Zé. Os valores económicos esmagaram os valores espirituais e até culturais. O idoso não produz, não consome, só gasta…deixou, portanto, de figurar na coluna do “Haver”.
De vez em quando, lá nos vão atirando uns rebuçados disfarçados em cêntimos ou mostrando na televisão o avozinho que leva o neto à escola, …
Cambada de hipócritas! Se estorvamos, por que não nos vendem? Vem aí um Novo Ano, e ao ritmo acelerado que vai a venda dos “bens” do País, nós, que também somos Património, porque não nos trocam por alguns euros? Já pensaste no alívio que seria para a Segurança Social? E já pensaste na alegria e, sobretudo, no orgulho dos nossos tetranetos, quando lessem nos manuais escolares a saga dos seus antepassados que sacrificaram “carne e osso” pela salvação da Pátria? Ri-te, homem! Nada podemos fazer. Estamos velhos… e mal pagos. Mas, como dizia o outro a velhice é maravilhosa. Só é aborrecido é que ela acabe tão mal…