terça-feira, novembro 11, 2014

RIR ANTES QUE CHEGUE O IMPOSTO


 
A acreditar na doutrina de ilustres pensadores, de filósofos de renome e de outros seus seguidores, um País em que, pelo menos, oitenta por cento da sua população não ria a bom rir, pode ser considerado uma necrópole de seres vivos!
Entre nós, e segundo uma avaliação muito pessoal, o riso está em queda livre, e dos trinta por cento que ainda riem, grande parte é constituída por políticos, futebolistas e trafulhas…
O que me admira, é que o “Executivo”, – que é um autêntico alfobre de contadores de anedotas – não tenha ainda tomado medidas para combater esta espécie de “sinistrose” endémica!
Mobilizam-se todos os meios de propaganda para incentivar o investimento monetário, mas ninguém pensou ainda em investir no mercado do riso. Isento de IVA, sem necessitar de receita médica, além de ser ainda mais barato do que os “genéricos”, é também a melhor arma para enfrentar o dia-a-dia que cada vez se torna mais difícil de gerir.
Um amigo meu que, nas horas vagas, se dedica ao estudo das antigas formas de humorismo, dizia-me há dias que o célebre general de Napoleão antes de pronunciar a tal palavra de cinco letras que ficou conhecida por palavra de Cambrone teria exclamado (não se sabe bem porquê!...) «Les portugais sont toujours gais!...»
Aqui está mais uma razão para não deixar cair por terra os nossos pergaminhos, a nossa fama de outrora. Aliás, não podemos também esquecer, que em cada página da nossa História antiga, é raro não aparecer um humorista!... Isto para já não falar da nossa História recente em que todas as páginas são democraticamente hilariantes!...
Posto isto, a minha sugestão iria para a criação de mais um curso universitário, onde se ensinassem apenas as várias maneiras de fazer rir o pagode - uma espécie de terapia do riso. Com todo o pessoal a rir, muitas coisas mudariam no país, sobretudo no capítulo da saúde. Não dizem que «rir é o melhor remédio?» Lembram-se da história daquele velhinho que viveu muitos anos porque ria muito e morreu a rir? Leiam o que me contou a neta: «Meu Avô riu sempre muito. À aproximação dos cem anos, começou a rir mais, e ria por tudo e por nada. E como o riso é contagioso, todos nós ríamos com ele e divertíamo-nos muito. Num Domingo, acordou ainda mais sorridente e não foi possível fazer-lhe a barba, de tal maneira o seu corpo era sacudido por acessos de riso que impediam qualquer aproximação da navalha de barbear. De tanto rir, as lágrimas deslizavam em catadupas pelo seu rosto enrugado. Depois, cerca do meio-dia, começou a olhar-nos de uma forma estranha, apontando com o dedo e rindo a bandeiras despregadas. De repente, notámos que ele não se mexia. Foi o fim!... O Avô conservava ainda um sorriso nos lábios, mas ia já a caminho dos anjinhos…»
E choraram?-perguntei. «Então acha que chorar por uma homem que morreu a rir, é coisa de gente séria?» – respondeu a neta sorridente.
 

sábado, outubro 18, 2014

SETENTA ANOS DEPOIS...


 

(A propósito do 6.º encontro do “Tomaz Ribeiro”)

Já muitas vezes vos tenho aqui falado da minha velha arca. De vez em quando abro-a, remexo, folheio os papéis amarelecidos, e com as mãos também já envelhecidas faço uma visita ao passado.

Alguns livros por que estudei, lá estão como que a recordar esse tempo distante e diferente – uns sem capa, outros com folhas descoladas, ali dormem misturados com papéis decrépitos, cheios de anotações e de muitas rasuras indiferentes ao correr do tempo e às modernas reformas.

Às vezes, e porque já são tantos, sinto vontade de rasgar alguns, de os queimar... Mas desisto sempre! Eles representam os meus (já poucos) cabelos brancos, as minhas rugas, as veias salientes das minhas mãos que o tempo tingiu de castanho-escuro. Papéis amarelecidos. Retratos desbotados. Pétalas de flores ressequidas. Cartas…

 

«Velhas cartas…Antigas confidências…

Recordações de tudo que se quis:

Que avivam do passado as ocorrências

- E a mocidade quanta coisa diz!...

 

Velhas cartas… Desfile de sequências…

Devaneios que, outrora, amando, fiz,

Pois o tempo transforma em reticências

Palavra e gesto … o que me fez feliz!

 

Releio-as uma a uma… Que ansiedade!

Adormecido mundo que desperta,

Que me envolve no manto da saudade.

 

E, hoje, minha existência é tão deserta,

Que revejo o fulgor da mocidade,

Como se fosse a derradeira oferta.»

 

E são estes papéis sem cor – este amontoado de coisas velhas, essas sebentas rabiscadas, esse “querer” sem “crer” de outrora – que fazem com que, de vez em quando, ao sentir-me perdido e baralhado no meio de todo este turbilhão de loucuras e de incertezas, me fazem subir as escadas, ir ao sótão, abrir a minha velha arca…e sonhar um pouco!

Não sou poeta, mas sou um fervoroso adepto dessa mistura de filosofia e de religiosidade que é a saudade. E as saudades são uma espécie de sonho, uma poesia abstracta... E para mim, esse sonho, se não é poesia, é metade da realidade...

 

sexta-feira, setembro 12, 2014

A PROCISSÃO


 
Diz-nos a experiência, que por mais graus académicos que um individuo possua, tal facto não quer dizer que reúna os requisitos e a competência necessários para desempenhar esse difícil cargo que é o de administrar e gerir dinheiros. E quando se trata de dinheiros públicos maior ainda se torna o grau de exigência requerido.

Embora existam indivíduos que nascem já com um apurado sentido de gestão, a maior parte só pode adquiri-lo mediante vários factores, nomeadamente através da vivência de determinadas situações de carência às quais é preciso juntar muita experiência e prática da vida. Acresce ainda dizer que a honestidade e o brio profissional são também complementos que não devem ser esquecidos.

É muito fácil trabalhar com o dinheiro dos outros e com ele fazer grandes “obras”, muitas vezes transmitindo aos menos atentos ou aos mais ingénuos uma imagem de benemérito quando afinal o dinheiro com que foram feitas nos saiu do próprio bolso!

E nesse contexto existem duas espécies de gestores políticos – uma constituída por pessoas que de facto estão empenhadas em melhorar as condições de vida dos seus munícipes, outra, a mais numerosa, que gasta o dinheiro à toa, em jantaradas, em beberetes, em compras supérfluas e outros acontecimentos, sem olhar a prioridades de qualquer espécie.

Diz um antigo ditado que o exemplo vem de cima, subentendendo-se do enunciado, que o que é bom deve ser imitado pelos que estão mais baixo. Infelizmente o ditado prostitui-se ou obrigaram-no a prostituir-se e só se copia o que é mau. Assim se o Terreiro do Paço dá esse mau exemplo por que não praticá-lo também?

Há dias, a Imprensa fez-nos saber que o Governo que “decreta lá da capital” ia dar popós novos a 56 chefes de gabinete das pastas ministeriais gastando com essa “dádiva” mais de um milhão de euros!

Uma bagatela para um País cuja maior parte dos habitantes anda de calças na mão!...

Em face deste exemplo, que razão assiste, aos cidadãos contribuintes desta Parvónia que em que cada dia que passa mais serviços civilizacionais lhe são roubados, para criticar qualquer dos nossos políticos que num gesto altruísta e de alto sentido solidário, oferecem de vez em quando uma sardinhada e uns copos de tinto ou umas “bejecas” à malta?!

Pensem nisto, meus amigos, e em vez de os criticar juntem-se a essa “procissão” que não cessa de “engrossar”.

E porque nada se pode fazer contra esse “engrossamento”, ide prá fila, pois sempre ireis “petiscando” qualquer coisa… 

 

 

 

 

 

 

 

A ENXERGA


 
Um dos nossos notáveis poetas, que foi Guerra Junqueiro, autor de várias obras, entre elas Os Simples, era também senhor de uma admirável veia satírica que o levou a escrever vários panfletos de combate político. Lembro-me, a propósito, de que na minha adolescência, uma das suas obras, A Velhice do Padre Eterno, figurava no catálogo dos livros cuja leitura era proibida pela autoridade pontifical.

Escusado será dizer que o livro passou de mãos em mãos e apesar de muito esfarrapado, quase todos os que comigo romperam os fundilhos das calças nos bancos do Colégio Tomás Ribeiro, o leram. Fruto proibido…

Se hoje evoco o poeta de Freixo de Espada à Cinta é porque li há dias, num excerto de um dos seus opúsculos políticos, uma frase que apesar de ter já sido escrita há muitos anos mantém ainda uma actualidade desconcertante. Escreveu ele que «a política é uma enxerga podre cheia de percevejos...»

Não acham que a mensagem que a frase encerra continua pertinente e actual? A enxerga é a mesma. Pode não cheirar mal, mas a factura dos desodorizantes é elevadíssima!

Os percevejos, esses famigerados e fedorentos bichinhos que só atacavam de noite, foram substituídos por outros parasitas que atacam a qualquer hora e em qualquer sítio…

São os chamados doutores da política - esses pretensos defensores do povo que se arranham e insultam em público e que depois se juntam e se empanturram à volta de mesas recheadas dos mais requintados e exóticos manjares!

Não vale a pena entrar em pormenores, mas é bom que reflictamos um pouco naquele "sacudir a água do capote" por parte de quase todos os que deviam assumir a responsabilidade (ainda que indirecta) dos erros que têm sido cometidos.

Atente-se ainda no que se tem dito e feito, corrido e saltado, para encontrar um bode expiatório para justificar esta crise que, afinal foi provocada deliberadamente por essa máquina infernal da política!

Quanto a mim tudo isto não passa de uma constante e hipócrita encenação. E tanto os que nos governam como os que lhes fazem oposição não acreditam nem naquilo que dizem, nem naquilo que fazem. Vivem a sonhar. E, entretanto, o País, sem dono, parece estar à venda. Vem aí a liquidação total. E o trespasse...

Por isso não se admirem se um dia, ao acordar, e ao olharem para a “torre de menagem”, depararem com um sujeito desconhecido, a hastear uma bandeira, que não a nossa…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, agosto 24, 2014

A HIDROSTÁTICA E A POLÍTICA

 
Cerca de duzentos anos antes de Jesus Cristo, viveu um homem cujo saber se repartia por várias áreas – matemática, física, geometria e engenharia.
Chamava-se Arquimedes e dizem velhos manuscritos que ele tinha residência em Siracusa, uma cidade da grande ilha da Sicília, nessa altura, creio eu, sob o domínio dos Romanos.
Arquimedes fez inúmeros trabalhos no âmbito das ciências que dominava, tendo calculado as áreas da parábola, da elipse, da esfera e do cilindro. Estabeleceu também a o valor de “pi” que, como os leitores sabem, é o símbolo que representa a razão constante entre o perímetro do círculo e o comprimento do seu diâmetro.
Enunciou ainda vários princípios, mas os que ainda hoje são mais conhecidos e usados, embora com designações diferentes, são o da Estática e o da Hidrostática – o primeiro por causa daquela barra a que se chama alavanca, e o segundo porque diz respeito à flutuação.
Mas o progresso e a evolução fizeram das suas…
O da alavanca passou a ter vários sinónimos: cunha, compadrio, influência, recomendação e é hoje de grande importância na vida dos portugueses.
O outro, que teria sido descoberto pelo sábio quando tomava banho na sua tina, não deixa de ter uma singularidade ímpar. É que, mesmo sem ninguém lhe ter oferecido flores, o sábio sentiu um impulso!... E, desorientado, levantou-se, voltou a sentar-se, apalpou, remexeu … até que descobriu, finalmente, o princípio!...
Porém e como acima dissemos, com a cumplicidade das novas tecnologias e da galopante onda de modernidade que tudo transforma, o enunciado do princípio de Arquimedes, foi-se adulterando até que alguém se lembrou de o democratizar!
E foi nessa altura que os políticos entraram na dança…
E então o princípio subiu os degraus do Parlamento, foi motivo de acalorado debate, sofreu alterações pouco ortodoxas, mas, no entanto, lá conseguiu livrar-se do referendo reclamado pela oposição.
Terminada a sessão, e ao sair do hemiciclo, o princípio, não só trazia fatiota nova – uma indumentária furta-cores, género carapaça de camaleão – mas também um enunciado democrático a condizer: «todo o cidadão que tem a sorte de mergulhar na política, beneficia de um empurrão de baixo para cima, que se traduz sempre num montante de euros superior, tanto ao trabalho como ao seu coeficiente intelectual…»
Desde então o Povo rebaptizou-o e passou a chamar-lhe o princípio dos «Arquimerdas»…
E assim, o que a hidrostática perdeu em equilíbrio, ganhou a política em majestade… Uma majestade mal cheirosa, claro está!...
 

NEM O CLIMA ESCAPA

 
Hoje venho alertar aqueles que ficaram surpreendidos pelo anúncio do novo imposto sobre telemóveis, tablets e caixas descodificadoras de televisão “parido” pelos ex-cola-cartazes, jotinhas, betinhos e afins, que a “coisa” não vai ficar por aqui. Outras armadilhas estão já na forja…
Não há dinheiro que bonde para acudir a todas as excentricidades dos nossos mandantes e há que diversificar a tosquia. Enquanto houver lã, a tesoura não vai parar de cortar.
Segundo informações de um infiltrado que de vez em quando me dá umas dicas sobre as manigâncias dessa classe parasitária, uma nova extorsão estaria em estudo para ser aplicada muito em breve.
Tratar-se-á da criação de mais uma carga fiscal que vai incidir sobre o clima e que será designada por “Imposto Meteorológico”. Baseado no nosso clima, que é um dos melhores da EU, esta será a invenção mais estrambólica dos tosquiadores deste rebanho à beira mar tresmalhado!
E reparem na maneira ardilosa como as cabecinhas pensadoras do Terreiro do Paço evocaram Neptuno para criar ondas e lixar o mexilhão!...
Em primeiro lugar calcularam uma temperatura média de base. Depois, e para cada grau acima, cada habitante da região em que se verifique a subida, pagará uma taxa de 1 euro, equivalente ao «excesso calórico».  Nos locais que não atinjam a média estabelecida, por cada grau a menos, o indígena pagará uma taxa da mesma importância, equivalente ao «desequilíbrio térmico».
Mesmo processo para os dias de chuva: cálculo da humidade média e taxa de higrometria aplicada aos “mais” e aos “menos”, na mesma proporção.
No Inverno o diploma refere-se também ao dispêndio com o aquecimento, surgindo, neste capítulo, a primeira desigualdade entre cidadãos do mesmo País – o preço do gasóleo de aquecimento, do gaz e da electricidade será mais elevado no Sul e mais baixo no Centro e Norte. Em Beja, por exemplo, o litro, o quilo ou o quilovátio, respectivamente, serão mais caros do que em Viseu, Guarda ou Vila Real, porque os habitantes da cidade alentejana terão muito menos necessidade de aquecimento do que os indígenas das faldas do Caramulo, da Estrela ou do Marão!
O imposto não estaria ainda em vigor porque o Tribunal Constitucional ainda não se teria pronunciado sobre a queixa apresentada pelo Instituto do Mar e da Atmosfera. Este organismo que como se sabe detém o monopólio das condições climatéricas para Portugal continental e Ilhas adjacentes, denunciou a sua ilegalidade por constituir uma intromissão abusiva da Política na Geofísica.
 

 

AS ETAPAS DA VIDA

 
Há na vida de cada um de nós acontecimentos marcantes que quando os vivemos, nos fazem recuar no tempo e nos conduzem ao início do caminho percorrido.
E à medida que os anos se vão acumulando parece ter mais sabor essa imaginária viagem de regresso ao princípio da caminhada!
Apesar de o passado ser construído por uma cadeia de acontecimentos, nem todos os seus elos são iguais. Nem todos eles desempenharam igual papel, nem todos prenderam da mesma maneira – enquanto uns deram poesia às coisas, outros ensarilharam-se e, muitas vezes, emperraram a continuidade do trajecto.
Mas é dos primeiros, daqueles que me prenderam à vida com ternura, que me fizeram sonhar, que depois me acordaram para enfrentar a realidade e a seguir me colocaram no caminho da responsabilidade, – são esses elos, esses momentos, que mais gosto de recordar. Ao lembrá-los, é quase como que ingerir uma poção mágica que me dá ânimo e traz de volta quimeras e sonhos!
É uma espécie de pausa, uma interrupção no percurso e um repouso tranquilo rodeado da utopia que ainda me resta…
Mas, às vezes, a desilusão é mais forte, e há dias ou momentos em que sinto necessidade de me isolar, de fugir deste baile de interesses, deste materialismo galopante, desta falta de ética no comportamento das pessoas. Cansa-me este jogo do quotidiano feito de competições e de indiferenças, de hipocrisias e de cinismos, de subtilezas e de astúcias, de vigaristas transformados em heróis…Pouco falta para que até a esperança pague imposto!
Num mundo construído sob o signo do dinheiro e em que tanto se fala em solidariedade, entristece-me que ela não seja aplicada na prática. O ter é mais importante que o ser…
Falta mais alma, mais responsabilidade, mais altruísmo, mais espiritualidade pois só assim poderá ser vencida esta crescente desumanização a que, passivos e indiferentes, assistimos todos os dias.
É preciso acreditar, persistir e não ter medo de expor a nossa Fé. É necessário proclamar e exibir os valores que herdámos dos nossos pais  que selavam um compromisso, com uma palavra de honra.   
Às vezes, perante tanta injustiça, tanta falta de valores, tanto desrespeito, sobretudo pelos mais carecidos, apetece-me gritar e acusar tudo e todos… 
Porém, é a família, os amigos, mas sobretudo os filhos e os netos que contrabalançam esta revolta interior e me ajudem a ultrapassar tudo isso e a ir tentando adaptar-me a esta nova visão de encarar a vida…
 

 

 

 

DO SONHO À REALIDADE


Estava na sala, pantufas nos pés, recostado no sofá, quando bateram à porta. Pouco passava da meia-noite...
Fiquei um pouco intrigado dado o avançado da hora, mas sem outra alternativa, porque estava só, levantei-me, fui até à porta e perguntei quem era e qual o pretexto da visita.
À minha interrogação respondeu alguém com voz rouca, uma voz cujo timbre me pareceu familiar: 
«- Sou o Tempo, e venho trazer-lhe a sua prenda anual. Venho a desoras, pois eu não tenho horários e ando sempre a girar…
Abri a porta, mandei entrar e o mensageiro continuou:
- Este ano a prenda vem disfarçada de substantivo feminino e, como se pode ler tanto da esquerda para a direita, como da direita para a esquerda, os “homens das gramáticas” deram-lhe o nome de capicua – 88!..
Este número, meu caro senhor, o número 8, agora duplicado, e de acordo com as leis pitagóricas continua a ser uma espécie de enigma, que como todos os enigmas, é muito difícil de desvendar.
É mágico este algarismo!...
É um número que começou a ser desenhado na Índia. No começo era uma espécie de rabisco em ziguezague. A sua forma foi evoluindo, a sua imagem gráfica foi-se afastando da inicial, pois era muito parecida com a do 5, e adquiriu depois uma aura especial, uma espécie de magia...
Veja o senhor que os Chineses até lhe atribuem propriedades benévolas: é o número da prosperidade, da fortuna e da riqueza. Números de telefone, matrículas de automóveis e até os bilhetes das lotarias terminados em 8 ou 88 valem fortunas!  
No género humano a sua duplicação transcende a matéria e é responsável pela conexão entre os planos físico e espiritual.
A sua repetição – a tal capicua – quando se trata de datas de nascimento é considerada de bom augúrio para todos aqueles que acalentam o sonho de atingir os cem anos de longevidade!
E eu sei, meu caro senhor, que é esse o seu sonho...»
Bruxo!... Foi o que me apeteceu responder…
Porém, contive-me e em vez disso limitei-me a agradecer, manifestando-lhe o meu desejo de o ver novamente na mesma data em 2015.
Acompanhei o mensageiro até à porta e quando estendi o braço para a fechar, toquei no copo que estava na mesinha de cabeceira… e acordei!...
O barulho dos cacos também acordou minha mulher, que quis saber o que tinha acontecido.
- Nada de especial, foi mais um. Mais um copo… metaforizei.
Ele há sonhos que até parecem reais!...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 

MEMÓRIAS

Ontem andei pela parte antiga da minha aldeia. Fui revisitar o bairro que, antigamente, era habitado pela “nobreza”, por gente rica que detinha o “poder” e a quem todos tiravam o chapéu.
E ali me quedei olhando aquelas casas, aquelas paredes velhas, aqueles telhados em ruínas, aqueles portões ferrugentos e aquelas árvores antigas.
Há bem pouco tempo a palmeira da minha juventude ainda lá estava. Teimosa, já quase sem ramos, ela ali se mantinha a desafiar o tempo, como que a atestar a antiguidade e o simbolismo do famoso largo.
Recordo ainda as variadas cores das flores das cameleiras que espreitavam por detrás dos altos muros da quinta, enfeitados, na Primavera, pelos rendilhados de flores das glicínias! …  
Mesmo ao lado, a Farmácia… E lá “estava” o farmacêutico, amante da caça e sábio apicultor, rodeado de frascos com rótulos em letra barriguda, alinhados em prateleiras de armários envidraçados. 
Um balcão carunchoso, uma balança da época e um cepo de madeira, esburacado, onde se anichavam os pesos.
Ao lado, um almofariz, alfaia essencial para misturar e triturar os ingredientes que o médico tinha rabiscado na receita. Frasco daqui, frasco dacolá, pó deste, mais pó daquele, pesa, junta, tritura, mexe… e receita aviada!
Ainda não existiam os antibióticos, as penicilinas e outros que tais e, por isso, todos os medicamentos eram “sãos”: além dos preparados, as papas de linhaça, os sinapismos, os xaropes de fabrico caseiro, eram os remédios mais usados naquele tempo!...
Mas havia menos doenças. Era raro ver-se por aqui o médico. E quando vinha era um acontecimento que atraía toda a pequenada da povoação. Todos iam vê-lo chegar no seu automóvel, “coisa” rara naquele tempo. Quando o chamavam para uma povoação na Serra, como não havia caminho próprio, traziam um burro ou um cavalo para o levar…
Outra rua ali. Antiga, estreita, feita à medida dos carros de bois e que vai até à velha escola. A minha escola. Em tudo diferente da escola de hoje. Mais austera, mais exigente, mas (que me perdoem os mestres de agora…) talvez mais escola no que à língua materna diz respeito.
Olho agora em frente. A Igreja e o casario moderno. E tudo muda. Casas novas que contrastam com as velhas aqui ao lado. É quase como que uma ruptura com o passado. São casas novas, ainda sem uma história como a daquelas que lá no Fundo da Rua, aos poucos, se vão desmoronando.

A HERANÇA

 
Há dias, quando procurava assunto para preencher o meu espaço semanal, deparei com uma passagem de um texto de 1870, das Farpas, que acho ser o espelho desta realidade que estamos a viver. Ora leiam:
«O influente ordinariamente é proprietário; foi cavador de enxada, enriqueceu, tem ambições, quer ser da junta da paróquia, da junta dos repartidores e mais tarde, num futuro glorioso, vereador! Já não usa jaqueta nem tamancos. Tem umas casas pintadas de amarelo, um par de luvas pretas e fala na soberania nacional. Na véspera das eleições todos o vêem montado na sua mula, pelos caminhos das freguesias ou, nos dias de mercado, misturado entre os grupos: fala, gesticula, grita, tem pragas e anedotas. Dispõe de 200 ou 300 votos: são os seus criados de lavoura, os seus devedores, os seus empreiteiros, aqueles a quem livrou os filhos do recrutamento, a bolsa do aumento de décima ou o corpo da cadeia. A autoridade acaricia o influente, passa-lhe a mão por cima do ombro, fala-lhe vagamente no hábito de Cristo. Tudo o que ele pede é satisfeito, tudo o que ele lembra é realizado. As leis curvam-se, ou afastam-se para ele passar. As suas fazendas não são colectadas à justa: é o influente! Os criminosos por quem ele pede são absolvidos: é o influente! Livra do recrutamento, pede baixas, solta presos, tudo se lhe consente: é o influente! Se a lei proíbe os arrozais ele pode tê-los: é o influente! Se há uma medida proibindo o porte de armas, ele é exceptuado: é o influente! Só ele caça nos meses defesos: é o influente! Só a sua rua é calçada: é o influente!
Se algum dia, leitores das Farpas, encontrardes o influente, tirai-lhe o vosso chapéu: ele domina, e a sua tirania assenta sobre a coisa que, apesar de ser a mais lodosa, é ainda a mais sólida – a corrupção!»
Se mudardes os nomes, se actualizardes alguns vocábulos, se retocardes o quadro com umas pinceladas de tecnologia, misturando um maior número de cores partidárias, tereis à vossa frente a imagem da sociedade de hoje talvez mais colorida, mas mais corrompida e mais acomodada do que a de 1870!...
O “influente” de hoje que dá por outro nome, mas que também não foi cavador de enxada, nem usa jaqueta, nem tamancos, aí está, bem instalado, nas mais diversas áreas da governação e afins…
Ao contrário de outras profissões, a dele não precisa de formação profissional. Quase todos trocaram as suas vocações profissionais por uma mais lucrativa e é por isso que a sociedade portuguesa está enxameada de mandantes amadores, com predominância de gente arrogante, desconhecedora do país, desonesta e incompetente.
Diz um provérbio chinês “que quando o peixe apodrece, a primeira coisa a cheirar mal, é a cabeça”. Infelizmente e como é o caso da situação vigente, os factos indiciam o seu alastramento a todo “o corpo.” Por mim, que segundo as normas da modernidade já ultrapassei o prazo de validade, as consequências pouco me afectarão. Mas os vindouros? Que País lhes deixaremos como herança?

QUEM NOS DEFENDE



Quem nos defende? Quem vem em defesa do mundo rural? Quem defende estes homens de mãos calejadas e estes velhos que sobrevivem com pensões de miséria? Quem põe cobro à desertificação das nossas aldeias, impedindo o encerramento dos mais elementares serviços?
Temos vindo a assistir a uma espoliação sistemática, injusta e arbitrária do pouco que já restava no interior do país. Nalgumas aldeias restam apenas paredes e velhos. Os novos fugiram. Não há Centros de Saúde, Estação de Correio, Escolas e demais serviços públicos. Tudo foi deslocalizado…  
Fizeram-se contas a votos e esqueceram-se as pessoas. Incentivou-se o abandono do interior e criou-se a cultura de demissão e de irresponsabilidade que contagiou a sociedade rural e fez dela uma vítima do eleitoralismo desenfreado dos partidos políticos.
Esqueceu-se a floresta que era o mealheiro do agricultor onde, em maré de infortúnio, ele ia buscar dinheiro não só para a sua subsistência como também para educar os filhos.
As terras nas quais se cultivava milho, trigo, centeio, e todo o género de hortaliças e legumes estão a monte, abandonadas às silvas. Falou-se muito em ordenamento de território, mas desordenou-se o país. O que se fez foi apostar nos locais onde se ganham e se perdem eleições, contribuindo para que o interior se transforme num deserto.
Este Governo, como os anteriores, em vez de aprender com os erros, vai continuar a sacudir a água do capote, a imputar culpas ao passado e a demitir-se do seu verdadeiro objectivo, que é governar com isenção, honestidade, regendo-se pela justiça e igualdade entre todos.
Mas poderemos assacar as culpas de todas estas desigualdades, de todas estas injustiças somente àqueles em quem votámos? Não seremos também nós, cidadãos comuns, os culpados por nos acomodarmos à situação? Não seremos também culpados porque desistimos de lutar e exercer em plenitude a nossa cidadania, fazendo da força que nos confere a democracia um instrumento de mudança e de resolução dos problemas?
O que aconteceu com a extinção da Freguesia do Tourigo que foi feita à revelia das populações vai acontecer de novo com a Escola que conta com 31 alunos? Vai adoptar-se o mesmo critério sem previamente avaliar as vantagens e desvantagens da sua extinção? E os pais dos alunos não vão contestar esta injustiça que vai afastar os filhos da casa paterna e tornar mais difícil a sua educação e vigilância? E as Autoridades concelhias e locais vão ficar-se apenas pelas contestações protocolares e de duplo sentido?
Que os mandantes do Terreiro do Paço desconheçam que os alunos da Escola do Tourigo têm mais do que um professor e têm um refeitório a escassos metros e todos os requisitos para uma boa qualidade de ensino, ainda se compreende. Agora que que os Autarcas, tanto da Câmara Municipal como da União das Juntas de Freguesias, conhecendo essa realidade, não lutem para que não se cometa mais uma injustiça, isso é que é imperdoável!
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, junho 29, 2014

QUANDO É O DINHEIRO A MANDAR

 
A turbulência política, social e económica é a nota dominante do dia-a-dia português. E nada indica que essa turbação tanto nas coisas como nos espíritos tenha o fim à vista.
É tão confuso este ambiente de ordens e contra-ordens, de afirmações e de desmentidos, de leis e de contra leis, de reticências e de ziguezagues, que o caminho da razão, do bom senso, e da justiça parece ser cada vez mais difícil de reencontrar.   
Diziam os nossos Avós que «onde todos mandam, ninguém manda, onde todos falam ninguém se entende e onde todos roubam, não há ladrões...» E por mais que isso nos custe a admitir, o certo é que, entre nós, e em cada dia que passa, o verdadeiro conceito do antigo ditado está a tornar-se cada vez mais evidente.
Há situações em que é difícil saber quem manda. E se aprofundarmos bem, acabamos por concluir que mandam todos - mandam os políticos do governo, mandam os da oposição, mandam os deputados da maioria, mandam os da minoria, mandam os secretários, mandam os subsecretários, mandam os presidentes, mandam os tesoureiros, tudo manda, minha gente!
Quanto a falar, todos falam, e embora poucos digam alguma coisa de jeito, ninguém se entende porque cada qual quer fazer prevalecer o seu ponto de vista. Certo ou errado, não importa...
No que diz respeito à última parte do ditado, ao roubo - alto e pára o baile! O roubo é façanha dos pequenos. Os grandes, não roubam, "desviam"!... E a nova estratégia que dá pelo nome da tal famosa e badalada engenharia financeira, que em dois tempos e quatro movimentos faz do mais famigerado ladrão, o mais impoluto dos cidadãos. E assim vamos vivendo «no melhor dos mundos possíveis», subscrevendo a afirmação de um senhor chamado Pangloss que, - não sei se com alguma coerência e razão – sustentava que tudo acontece porque tem mesmo de acontecer.
E assim, talvez por fatalismo ou falta de coragem, ninguém reage. É o deixa andar. Quanto mais confusão melhor. O país é uma espécie de terreno inculto em que o matagal esconde a mais variada e esquisita fauna – uma espécie de reino da bicharada. E aí o bicho homem passou a ser avaliado não pela sua competência, pela sua honestidade, pelo seu aprumo moral e intelectual, mas só e apenas porque pertence a uma determinada classe de privilegiados para a qual, quanto mais trabalhamos, mais nos é exigido...
A contrastar com os principescos salários e inúmeras benesses dessa classe, deparamos com pensões de miséria de milhões de portugueses que tentam sobreviver. A ganância e a luta pelo dinheiro deram origem a um desprezo total pelos designados códigos de honra. Hoje o dinheiro compra tudo – “a honestidade dos homens é regulada por uma tarifa. Cada consciência tem o seu preço...” e o dinheiro comanda a vida. Talvez a comparação seja exagerada, mas Roma caiu quando à produção de riqueza útil, sucedeu o reinado do dinheiro fácil com toda a sua habitual comitiva de arbitrariedades e injustiças.  
 

 

AS LAGARTAS E A COUVE


 
Logo nos começos do século vinte o nosso grande caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro querendo estabelecer uma comparação entre a prática da política desse tempo e a condição porcina, desenhou na primeira página do primeiro número da Revista "A Paródia", uma porca deitada com uma dezena de leitões agarrados às suas tetas.
Segundo testemunhos da época toda a gente percebeu.
Anos mais tarde, em 1923, outro caricaturista glosava o tema e na mesma revista desenhou uma porca, mas já de pé, com os porquinhos mais crescidos todos a comer do gamelão.
Também os contribuintes desse tempo perceberam a alusão, mas consta que a comparação das duas caricaturas os deixou pensativos quanto ao crescimento e sofreguidão dos bichos!…
É que, enquanto na primeira os bacorinhos estavam deitados e chupavam na teta, na segunda já todos estavam de pé e comiam com voracidade, agora de uma grande e mesma pia!
Nos anos cinquenta, George Orwell, com o "Triunfo dos Porcos “actualizava o tema, colocando um "porco-lider"a dominar os seus súbditos porcos, com o autoritarismo próprio de todo o mandante que se preza.
Por último, a série televisiva dos Simpsons apresentou-nos os políticos na figuração de porcos, mostrando-nos os senadores surpreendidos no Senado a comer hamburgers com recheio de dólares temperados com lobies e limpando depois as trombas à bandeira estrelada, como de simples guardanapo se tratasse...
Tudo isto para vos mostrar e dizer que muito embora a caricatura de Bordalo tenha evoluído ao longo dos anos, passando de livro a filme e de filme a desenho animado, isso não significa que a sua mensagem se tenha diluído com o tempo, apesar da tecnologia moderna tentar fazer tudo para que isso acontecesse. Mas foi o contrário que aconteceu!
Modernizaram-se as instalações, fez-se o apuramento da raça, procedeu-se à automatização das tetas, mas quanto “a mamões”, quartel em Abrantes – tudo como dantes. A história repete-se!...
A percentagem de reprodução aumentou sem haver necessidade de recorrer à inseminação artificial e os leitõezinhos continuam a engordar, não só com o líquido da teta materna, mas agora também com "rações" que vieram e vêm do estrangeiro, cujo preço inflacionado e acrescido de juros, estamos a pagar com língua de palmo!
E porque já vai longa esta rabiscada, termino, fazendo minhas as palavras do Zé-Povinho, - numa caricatura de Bordalo, no número 14 da "Paródia “de 18 de Abril de 1900 - pensativo, sentado, fazendo um cigarro, e olhando as lagartas que pouco a pouco iam roendo a couve: " Eu cá por mim...pff!

DIA DA CRIANÇA


 
 
Como já vai longe o barco da minha infância! Mas lá dentro, agarrada ao homem de barba e cabelos brancos, há ainda aquela esperança que nunca morre - é a criança que pula, a criança que ri, a criança que sonha.
Comemorou-se ontem o Dia da Criança. E talvez por isso esta minha necessidade de falar, de brincar, de sonhar, de voltar atrás no tempo. E nem sei por que o faço. Talvez a necessidade de confessar-me a mim próprio. Ou talvez a vontade de voltar a sonhar, de tentar reviver esse tempo sem tempo, esse tempo sem passado nem futuro...
Esse tempo sem preocupações, sem medos, sem hipocrisias e sem temores. E nesta romagem de saudades "voltei" à escola, àquele edifício térreo que ainda existe e que é agora o "Jardim de Infância". Como tudo mudou - desde as brincadeiras, aos trajes. Desde a lousa, do lápis de pedra, ao papel A4 e às esferográficas!
E separado por um fosso de mais de oito décadas, emocionado, ali permaneci algum tempo enquanto, lentamente, a bobina do filme da vida  ia rodando...
Entretanto, um petiz, passou por mim a correr, pôs a língua de fora e fez aquele gesto do boneco do fiado que se via antigamente em quase todas as mercearias das aldeias. Fruto do tempo. Ou do progresso?!  Talvez as duas coisas. E impotentes para modificar seja o que for temos de habituar-nos a esta "nova maneira de educar". Muito se fala das chagas da sociedade actual: droga, prostituição divórcios, enfim, de todos esses males que estão minar a célula familiar. Detecta-se o mal, mas não há remédio para o erradicar. A "explosão" escolar que se verificou, esbarrou não só com a carência de infra-estrutura eficientes na orgânica dos respectivos serviços, mas também com a falta de recursos humanos. Daí este "angustiante drama de quantidade" e o "pungente drama da qualidade", como alguém já afirmou. E não se deve apenas culpar a escola. O mal começa na própria casa, onde hoje, em muitos casos, se compram os filhos, dando lhes tudo e, por vezes, até com bastante sacrifício. E entrou-se num verdadeiro círculo vicioso donde não é fácil sair... Nesta divagação, meti, talvez, a foice em seara alheia. Que me desculpem os "entendidos". Foi apenas um desabafo. E voltemos ao começo. Durante todo o dia de ontem, por intermédio da Televisão, chegaram a nossas casas, as imagens e os sorrisos felizes de milhares de crianças. E, como disse, talvez daí o grito que acordou a criança que dorme dentro de todos nós. Daí a vontade de inventar uma juventude que passou, de sonhar os mesmos sonhos, de jogar a bola de trapos, de roer uma maçã verde, de correr pelos campos, de fazer de pássaro, de avião…Mas o tempo não volta atrás. E muito embora ainda ao leme falta-me a criança que desafiava as marés. Muitas vezes nem marinheiro já sou.

 

 

quinta-feira, junho 05, 2014

RECICLEMO-NOS!...

 
Lembrei-me hoje de um pequeno texto sobre “O Valor dos Idosos”, que li há já uns tempos, mas cuja mensagem retive na memória. O autor contava o caso de um septuagenário inteligente e culto, mas pessimista, que disse, num grupo de amigos, estar velho e sentir-se ultrapassado… E então alguém teria perguntado: «Mas quem é o novo que escreve como tu, que fala como tu?...»
E logo todos responderam em coro: «É verdade. Enquanto o cérebro trabalhar assim, não estás velho…»
Aqueles que habitualmente leem o que escrevo, devem lembrar-se de que já por várias vezes aqui tenho abordado esse tema e sublinhado essa espécie de «fatalismo» de muitos que se autoexcluem da sociedade, porque se julgam inúteis devido à sua avançada idade.
É certo que nem sempre é fácil conciliar a idade com as rápidas transformações que hoje se sucedem e atingem todos os sectores da vida moderna!
É difícil, mas não é impossível. Há sempre maneira – quando se luta por isso!... – de amenizar esses estremeções, procurando uma adaptação condizente com as faculdades que ainda nos restam. 
Se houver vontade e determinação, há muitas maneiras de o fazer, mas cada qual deve escolher aquela que mais se identifique com a sua forma de estar na vida. Em todas elas, porém, a Fé é a base dessa adaptação. Ela é o alicerce sobre o qual se constrói essa outra «vida», a que se convencionou chamar de 3.ªou até de 4.ª idade.
E essa construção deve ser feita sem preconceitos e sobretudo sem temer o escárnio de certos jovens inexperientes e néscios para quem os velhos são considerados uns peso improdutivo ou gente a mais…
Nesta sociedade computorizada e consumista em que a informática e a cibernética marcam o ritmo e o compasso da vida, não é fácil fazer com que muitos deles acreditem que os idosos, pela sua experiência de vida, podem servir de mestres na arte de viver e conviver. Aposta-se mais nas máquinas do que nas pessoas e talvez por analogia e motivados por esse “culto”, os idosos são considerados, por alguns, como «uma outra espécie de sucata…»
Mas nas novas tecnologias não existe também um processo a que chamam de «reciclagem» e em que do velho se faz o novo? Pois então, «reciclemo-nos!...»
Estimulemos o físico e o intelecto. A sociedade ainda precisa de nós. Há por aí muito novato a quem os velhos podem dar lições, sobretudo no capítulo dos valores tradicionais, do respeito e da educação. Muitos julgam que “velho” é só sinónimo de resmungão, rabugice, intolerância e reumatismo. Mas enganam-se. Há velhos… e velhos! E também há “velhos novos” e “novos velhos. “Sem falar nos “velhos” estrangeiros como Goethe que escreveu o imortal “Werther” depois dos 80 e de Bernard Shaw que aos 88 anos ainda escrevia, lembremos Adriano Moreira, Mário Soares e o nosso cineasta Manoel de Oliveira que aos 105 anos ainda trabalha! Mãos à obra, caros colegas. Reciclemo-nos…

 

OS COBARDES E AS REDES SOCIAIS

 
Sempre gostei de pessoas com personalidade. Pessoas que não são susceptíveis de mudar por conveniência ou por interesse, que são directas, imparciais, pessoas que não usam a hipocrisia para camuflar as suas ideias.
Talvez porque muito cedo tive necessidade de encarar a vida sozinho e tomar decisões nem sempre fáceis, gosto de gente com personalidade forte, de opiniões firmes, que não se deixam manipular facilmente e que não se escondem atrás de estereótipos ou máscaras.
Não gosto de gente que viva de fingimentos, que se recuse a encarar a realidade, que confunda sinceridade com afrontamento, que se julgue dona da verdade e que use o seu pretenso poder como arma para atingir os seus semelhantes.
Gosto de gente que cultive a humildade, essa virtude hoje tão esquecida e, por vezes, até usada em sentido pejorativo, pois há gente que associa humildade a pobreza. Puro engano…
A humildade não é património de nenhuma faixa socioeconómica. Humilde é aquele que assume os seus direitos e obrigações, mas que assume também os seus erros e as suas culpas.
A humildade faz com que a pessoa reconheça as suas próprias limitações e seja, de facto, o que realmente é. A humildade é um sentimento que se adquire lentamente pelo trabalho interior. Ninguém é pior ou melhor do que os outros, estamos todos ao mesmo nível e todos podemos aperfeiçoar-nos ao longo dos anos.
Não gosto de pessoas hipócritas ou fingidas que usam a máscara conforme o papel que querem desempenhar, mas sempre no intuito de prejudicar o seu semelhante.
O hipócrita muitas vezes finge possuir boas qualidades apenas para ocultar os seus defeitos e desempemhar melhor o seu rol perante esta nossa actual sociedade moderna, hipócrita, capitalista e consumista em que vivemos e que disfarçadamente nos vai roubando a dignidade, o caracter e os restantes valores que ainda nos restam.
Todas estas considerações a propósito do lado perverso das redes sociais que permitem que gente sem escrúpulos e escondida por detrás de um nome falso tentem espanhar veneno, desvirtuando factos, adulterando ideias e desseminando boatos na intenção de criar um clima de desconfiança, de suspeição e de ódio. 
Por detrás do anonimato insulta-se, calunia-se,  manipulam-se factos e tudo para criar situações que muitas vezes geram raiva e violência. A intoxicação de cérebros sempre existiu, mas agora com as redes sociais, escondendo-se sob o anonimato, os cobardes encontraram nelas uma maneira rápida e fácil de dar largas aos seus instintos de baixeza e  de malvadez. São uma espécie de praga de difícil exterminação. Há, no entanto, que ir tantando desmascarar o maior número possível.
 

 

 

 



 

OPINIÃO PRÓPRIA


 

Este título para reforçar o conteúdo desta minha crónica de hoje e para que fique bem claro que ela explicita apenas e só a minha opinião. Usando da liberdade de expressão a que tenho direito, o meu desabafo traduz unicamente aquilo que eu próprio sinto. Quaisquer outras interpretações que dela sejam feitas são da responsabilidade de quem as fizer, que não da minha.
Trata-se da minha opinião acerca de Eleições!...Depois de tanta desilusão e de tanto arrependimento confesso que cheguei a uma encruzilhada e não sei o que fazer, não sei em que partido votar!...
E a interrogação agiganta-se à medida que os dias vão passando: Votar em que partido? Votar no partido do Governo que fez e votou uma lei que extinguiu a minha freguesia que após 27 anos, e depois de uma separação litigiosa, poderia rivalizar, no seu crescimento e modernidade, com algumas pequenas vilas do País?
Votar em qualquer partido da oposição que apesar de condenar essa lei absurda, se ficou pelas intenções e nada mais fez do que dar o seu apoio moral, mas sempre, e como diz o ditado, com “um olho no cigano e outro no burro”?  
Neste emaranhado de interesses pessoais, neste egoísmo reinante e nesta corrida desesperada em busca da conquista de um lugar ao sol atropelando na passagem os que vivem na sombra, não é fácil tomar uma decisão de acordo com a nossa consciência! 
Mas o problema não é novo… Contudo, possui, hoje como ontem, flagrante actualidade, e nunca será despiciendo analisá-lo à luz do passado e do presente par permitir fazer comparações.
Já no dizer de Almeida Garrett: «de todas as dificuldades da administração e governo de um povo, a mais difícil é a escolha das pessoas; nessa falham todos os dias os mais espertos, tão fácil é o iludirem-nos aparências, tão difícil conceituar dos homens e do seu interior, pois todos os dias há erros fatais, funestíssimos enganos.»
Além-fronteiras é um francês, Gaston Jèze, professor de direito público de renome, que nos diz «que é preciso ter muita imaginação e fechar os olhos e tapar os ouvidos para falar em vontade popular, expressa livre e claramente pelo sufrágio…»
hoje como ontem o problema mantem-se. Uns votam por gratidão, por amizade, por imitação ou por estupidez. Há outros ainda que votam por medo…medo de perder o lugar ou as regalias que adquiriram.
Como não me revejo em nenhum desses casos continuo sem saber em que partido votar…