domingo, agosto 24, 2014

MEMÓRIAS

Ontem andei pela parte antiga da minha aldeia. Fui revisitar o bairro que, antigamente, era habitado pela “nobreza”, por gente rica que detinha o “poder” e a quem todos tiravam o chapéu.
E ali me quedei olhando aquelas casas, aquelas paredes velhas, aqueles telhados em ruínas, aqueles portões ferrugentos e aquelas árvores antigas.
Há bem pouco tempo a palmeira da minha juventude ainda lá estava. Teimosa, já quase sem ramos, ela ali se mantinha a desafiar o tempo, como que a atestar a antiguidade e o simbolismo do famoso largo.
Recordo ainda as variadas cores das flores das cameleiras que espreitavam por detrás dos altos muros da quinta, enfeitados, na Primavera, pelos rendilhados de flores das glicínias! …  
Mesmo ao lado, a Farmácia… E lá “estava” o farmacêutico, amante da caça e sábio apicultor, rodeado de frascos com rótulos em letra barriguda, alinhados em prateleiras de armários envidraçados. 
Um balcão carunchoso, uma balança da época e um cepo de madeira, esburacado, onde se anichavam os pesos.
Ao lado, um almofariz, alfaia essencial para misturar e triturar os ingredientes que o médico tinha rabiscado na receita. Frasco daqui, frasco dacolá, pó deste, mais pó daquele, pesa, junta, tritura, mexe… e receita aviada!
Ainda não existiam os antibióticos, as penicilinas e outros que tais e, por isso, todos os medicamentos eram “sãos”: além dos preparados, as papas de linhaça, os sinapismos, os xaropes de fabrico caseiro, eram os remédios mais usados naquele tempo!...
Mas havia menos doenças. Era raro ver-se por aqui o médico. E quando vinha era um acontecimento que atraía toda a pequenada da povoação. Todos iam vê-lo chegar no seu automóvel, “coisa” rara naquele tempo. Quando o chamavam para uma povoação na Serra, como não havia caminho próprio, traziam um burro ou um cavalo para o levar…
Outra rua ali. Antiga, estreita, feita à medida dos carros de bois e que vai até à velha escola. A minha escola. Em tudo diferente da escola de hoje. Mais austera, mais exigente, mas (que me perdoem os mestres de agora…) talvez mais escola no que à língua materna diz respeito.
Olho agora em frente. A Igreja e o casario moderno. E tudo muda. Casas novas que contrastam com as velhas aqui ao lado. É quase como que uma ruptura com o passado. São casas novas, ainda sem uma história como a daquelas que lá no Fundo da Rua, aos poucos, se vão desmoronando.

A HERANÇA

 
Há dias, quando procurava assunto para preencher o meu espaço semanal, deparei com uma passagem de um texto de 1870, das Farpas, que acho ser o espelho desta realidade que estamos a viver. Ora leiam:
«O influente ordinariamente é proprietário; foi cavador de enxada, enriqueceu, tem ambições, quer ser da junta da paróquia, da junta dos repartidores e mais tarde, num futuro glorioso, vereador! Já não usa jaqueta nem tamancos. Tem umas casas pintadas de amarelo, um par de luvas pretas e fala na soberania nacional. Na véspera das eleições todos o vêem montado na sua mula, pelos caminhos das freguesias ou, nos dias de mercado, misturado entre os grupos: fala, gesticula, grita, tem pragas e anedotas. Dispõe de 200 ou 300 votos: são os seus criados de lavoura, os seus devedores, os seus empreiteiros, aqueles a quem livrou os filhos do recrutamento, a bolsa do aumento de décima ou o corpo da cadeia. A autoridade acaricia o influente, passa-lhe a mão por cima do ombro, fala-lhe vagamente no hábito de Cristo. Tudo o que ele pede é satisfeito, tudo o que ele lembra é realizado. As leis curvam-se, ou afastam-se para ele passar. As suas fazendas não são colectadas à justa: é o influente! Os criminosos por quem ele pede são absolvidos: é o influente! Livra do recrutamento, pede baixas, solta presos, tudo se lhe consente: é o influente! Se a lei proíbe os arrozais ele pode tê-los: é o influente! Se há uma medida proibindo o porte de armas, ele é exceptuado: é o influente! Só ele caça nos meses defesos: é o influente! Só a sua rua é calçada: é o influente!
Se algum dia, leitores das Farpas, encontrardes o influente, tirai-lhe o vosso chapéu: ele domina, e a sua tirania assenta sobre a coisa que, apesar de ser a mais lodosa, é ainda a mais sólida – a corrupção!»
Se mudardes os nomes, se actualizardes alguns vocábulos, se retocardes o quadro com umas pinceladas de tecnologia, misturando um maior número de cores partidárias, tereis à vossa frente a imagem da sociedade de hoje talvez mais colorida, mas mais corrompida e mais acomodada do que a de 1870!...
O “influente” de hoje que dá por outro nome, mas que também não foi cavador de enxada, nem usa jaqueta, nem tamancos, aí está, bem instalado, nas mais diversas áreas da governação e afins…
Ao contrário de outras profissões, a dele não precisa de formação profissional. Quase todos trocaram as suas vocações profissionais por uma mais lucrativa e é por isso que a sociedade portuguesa está enxameada de mandantes amadores, com predominância de gente arrogante, desconhecedora do país, desonesta e incompetente.
Diz um provérbio chinês “que quando o peixe apodrece, a primeira coisa a cheirar mal, é a cabeça”. Infelizmente e como é o caso da situação vigente, os factos indiciam o seu alastramento a todo “o corpo.” Por mim, que segundo as normas da modernidade já ultrapassei o prazo de validade, as consequências pouco me afectarão. Mas os vindouros? Que País lhes deixaremos como herança?

QUEM NOS DEFENDE



Quem nos defende? Quem vem em defesa do mundo rural? Quem defende estes homens de mãos calejadas e estes velhos que sobrevivem com pensões de miséria? Quem põe cobro à desertificação das nossas aldeias, impedindo o encerramento dos mais elementares serviços?
Temos vindo a assistir a uma espoliação sistemática, injusta e arbitrária do pouco que já restava no interior do país. Nalgumas aldeias restam apenas paredes e velhos. Os novos fugiram. Não há Centros de Saúde, Estação de Correio, Escolas e demais serviços públicos. Tudo foi deslocalizado…  
Fizeram-se contas a votos e esqueceram-se as pessoas. Incentivou-se o abandono do interior e criou-se a cultura de demissão e de irresponsabilidade que contagiou a sociedade rural e fez dela uma vítima do eleitoralismo desenfreado dos partidos políticos.
Esqueceu-se a floresta que era o mealheiro do agricultor onde, em maré de infortúnio, ele ia buscar dinheiro não só para a sua subsistência como também para educar os filhos.
As terras nas quais se cultivava milho, trigo, centeio, e todo o género de hortaliças e legumes estão a monte, abandonadas às silvas. Falou-se muito em ordenamento de território, mas desordenou-se o país. O que se fez foi apostar nos locais onde se ganham e se perdem eleições, contribuindo para que o interior se transforme num deserto.
Este Governo, como os anteriores, em vez de aprender com os erros, vai continuar a sacudir a água do capote, a imputar culpas ao passado e a demitir-se do seu verdadeiro objectivo, que é governar com isenção, honestidade, regendo-se pela justiça e igualdade entre todos.
Mas poderemos assacar as culpas de todas estas desigualdades, de todas estas injustiças somente àqueles em quem votámos? Não seremos também nós, cidadãos comuns, os culpados por nos acomodarmos à situação? Não seremos também culpados porque desistimos de lutar e exercer em plenitude a nossa cidadania, fazendo da força que nos confere a democracia um instrumento de mudança e de resolução dos problemas?
O que aconteceu com a extinção da Freguesia do Tourigo que foi feita à revelia das populações vai acontecer de novo com a Escola que conta com 31 alunos? Vai adoptar-se o mesmo critério sem previamente avaliar as vantagens e desvantagens da sua extinção? E os pais dos alunos não vão contestar esta injustiça que vai afastar os filhos da casa paterna e tornar mais difícil a sua educação e vigilância? E as Autoridades concelhias e locais vão ficar-se apenas pelas contestações protocolares e de duplo sentido?
Que os mandantes do Terreiro do Paço desconheçam que os alunos da Escola do Tourigo têm mais do que um professor e têm um refeitório a escassos metros e todos os requisitos para uma boa qualidade de ensino, ainda se compreende. Agora que que os Autarcas, tanto da Câmara Municipal como da União das Juntas de Freguesias, conhecendo essa realidade, não lutem para que não se cometa mais uma injustiça, isso é que é imperdoável!
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, junho 29, 2014

QUANDO É O DINHEIRO A MANDAR

 
A turbulência política, social e económica é a nota dominante do dia-a-dia português. E nada indica que essa turbação tanto nas coisas como nos espíritos tenha o fim à vista.
É tão confuso este ambiente de ordens e contra-ordens, de afirmações e de desmentidos, de leis e de contra leis, de reticências e de ziguezagues, que o caminho da razão, do bom senso, e da justiça parece ser cada vez mais difícil de reencontrar.   
Diziam os nossos Avós que «onde todos mandam, ninguém manda, onde todos falam ninguém se entende e onde todos roubam, não há ladrões...» E por mais que isso nos custe a admitir, o certo é que, entre nós, e em cada dia que passa, o verdadeiro conceito do antigo ditado está a tornar-se cada vez mais evidente.
Há situações em que é difícil saber quem manda. E se aprofundarmos bem, acabamos por concluir que mandam todos - mandam os políticos do governo, mandam os da oposição, mandam os deputados da maioria, mandam os da minoria, mandam os secretários, mandam os subsecretários, mandam os presidentes, mandam os tesoureiros, tudo manda, minha gente!
Quanto a falar, todos falam, e embora poucos digam alguma coisa de jeito, ninguém se entende porque cada qual quer fazer prevalecer o seu ponto de vista. Certo ou errado, não importa...
No que diz respeito à última parte do ditado, ao roubo - alto e pára o baile! O roubo é façanha dos pequenos. Os grandes, não roubam, "desviam"!... E a nova estratégia que dá pelo nome da tal famosa e badalada engenharia financeira, que em dois tempos e quatro movimentos faz do mais famigerado ladrão, o mais impoluto dos cidadãos. E assim vamos vivendo «no melhor dos mundos possíveis», subscrevendo a afirmação de um senhor chamado Pangloss que, - não sei se com alguma coerência e razão – sustentava que tudo acontece porque tem mesmo de acontecer.
E assim, talvez por fatalismo ou falta de coragem, ninguém reage. É o deixa andar. Quanto mais confusão melhor. O país é uma espécie de terreno inculto em que o matagal esconde a mais variada e esquisita fauna – uma espécie de reino da bicharada. E aí o bicho homem passou a ser avaliado não pela sua competência, pela sua honestidade, pelo seu aprumo moral e intelectual, mas só e apenas porque pertence a uma determinada classe de privilegiados para a qual, quanto mais trabalhamos, mais nos é exigido...
A contrastar com os principescos salários e inúmeras benesses dessa classe, deparamos com pensões de miséria de milhões de portugueses que tentam sobreviver. A ganância e a luta pelo dinheiro deram origem a um desprezo total pelos designados códigos de honra. Hoje o dinheiro compra tudo – “a honestidade dos homens é regulada por uma tarifa. Cada consciência tem o seu preço...” e o dinheiro comanda a vida. Talvez a comparação seja exagerada, mas Roma caiu quando à produção de riqueza útil, sucedeu o reinado do dinheiro fácil com toda a sua habitual comitiva de arbitrariedades e injustiças.  
 

 

AS LAGARTAS E A COUVE


 
Logo nos começos do século vinte o nosso grande caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro querendo estabelecer uma comparação entre a prática da política desse tempo e a condição porcina, desenhou na primeira página do primeiro número da Revista "A Paródia", uma porca deitada com uma dezena de leitões agarrados às suas tetas.
Segundo testemunhos da época toda a gente percebeu.
Anos mais tarde, em 1923, outro caricaturista glosava o tema e na mesma revista desenhou uma porca, mas já de pé, com os porquinhos mais crescidos todos a comer do gamelão.
Também os contribuintes desse tempo perceberam a alusão, mas consta que a comparação das duas caricaturas os deixou pensativos quanto ao crescimento e sofreguidão dos bichos!…
É que, enquanto na primeira os bacorinhos estavam deitados e chupavam na teta, na segunda já todos estavam de pé e comiam com voracidade, agora de uma grande e mesma pia!
Nos anos cinquenta, George Orwell, com o "Triunfo dos Porcos “actualizava o tema, colocando um "porco-lider"a dominar os seus súbditos porcos, com o autoritarismo próprio de todo o mandante que se preza.
Por último, a série televisiva dos Simpsons apresentou-nos os políticos na figuração de porcos, mostrando-nos os senadores surpreendidos no Senado a comer hamburgers com recheio de dólares temperados com lobies e limpando depois as trombas à bandeira estrelada, como de simples guardanapo se tratasse...
Tudo isto para vos mostrar e dizer que muito embora a caricatura de Bordalo tenha evoluído ao longo dos anos, passando de livro a filme e de filme a desenho animado, isso não significa que a sua mensagem se tenha diluído com o tempo, apesar da tecnologia moderna tentar fazer tudo para que isso acontecesse. Mas foi o contrário que aconteceu!
Modernizaram-se as instalações, fez-se o apuramento da raça, procedeu-se à automatização das tetas, mas quanto “a mamões”, quartel em Abrantes – tudo como dantes. A história repete-se!...
A percentagem de reprodução aumentou sem haver necessidade de recorrer à inseminação artificial e os leitõezinhos continuam a engordar, não só com o líquido da teta materna, mas agora também com "rações" que vieram e vêm do estrangeiro, cujo preço inflacionado e acrescido de juros, estamos a pagar com língua de palmo!
E porque já vai longa esta rabiscada, termino, fazendo minhas as palavras do Zé-Povinho, - numa caricatura de Bordalo, no número 14 da "Paródia “de 18 de Abril de 1900 - pensativo, sentado, fazendo um cigarro, e olhando as lagartas que pouco a pouco iam roendo a couve: " Eu cá por mim...pff!

DIA DA CRIANÇA


 
 
Como já vai longe o barco da minha infância! Mas lá dentro, agarrada ao homem de barba e cabelos brancos, há ainda aquela esperança que nunca morre - é a criança que pula, a criança que ri, a criança que sonha.
Comemorou-se ontem o Dia da Criança. E talvez por isso esta minha necessidade de falar, de brincar, de sonhar, de voltar atrás no tempo. E nem sei por que o faço. Talvez a necessidade de confessar-me a mim próprio. Ou talvez a vontade de voltar a sonhar, de tentar reviver esse tempo sem tempo, esse tempo sem passado nem futuro...
Esse tempo sem preocupações, sem medos, sem hipocrisias e sem temores. E nesta romagem de saudades "voltei" à escola, àquele edifício térreo que ainda existe e que é agora o "Jardim de Infância". Como tudo mudou - desde as brincadeiras, aos trajes. Desde a lousa, do lápis de pedra, ao papel A4 e às esferográficas!
E separado por um fosso de mais de oito décadas, emocionado, ali permaneci algum tempo enquanto, lentamente, a bobina do filme da vida  ia rodando...
Entretanto, um petiz, passou por mim a correr, pôs a língua de fora e fez aquele gesto do boneco do fiado que se via antigamente em quase todas as mercearias das aldeias. Fruto do tempo. Ou do progresso?!  Talvez as duas coisas. E impotentes para modificar seja o que for temos de habituar-nos a esta "nova maneira de educar". Muito se fala das chagas da sociedade actual: droga, prostituição divórcios, enfim, de todos esses males que estão minar a célula familiar. Detecta-se o mal, mas não há remédio para o erradicar. A "explosão" escolar que se verificou, esbarrou não só com a carência de infra-estrutura eficientes na orgânica dos respectivos serviços, mas também com a falta de recursos humanos. Daí este "angustiante drama de quantidade" e o "pungente drama da qualidade", como alguém já afirmou. E não se deve apenas culpar a escola. O mal começa na própria casa, onde hoje, em muitos casos, se compram os filhos, dando lhes tudo e, por vezes, até com bastante sacrifício. E entrou-se num verdadeiro círculo vicioso donde não é fácil sair... Nesta divagação, meti, talvez, a foice em seara alheia. Que me desculpem os "entendidos". Foi apenas um desabafo. E voltemos ao começo. Durante todo o dia de ontem, por intermédio da Televisão, chegaram a nossas casas, as imagens e os sorrisos felizes de milhares de crianças. E, como disse, talvez daí o grito que acordou a criança que dorme dentro de todos nós. Daí a vontade de inventar uma juventude que passou, de sonhar os mesmos sonhos, de jogar a bola de trapos, de roer uma maçã verde, de correr pelos campos, de fazer de pássaro, de avião…Mas o tempo não volta atrás. E muito embora ainda ao leme falta-me a criança que desafiava as marés. Muitas vezes nem marinheiro já sou.

 

 

quinta-feira, junho 05, 2014

RECICLEMO-NOS!...

 
Lembrei-me hoje de um pequeno texto sobre “O Valor dos Idosos”, que li há já uns tempos, mas cuja mensagem retive na memória. O autor contava o caso de um septuagenário inteligente e culto, mas pessimista, que disse, num grupo de amigos, estar velho e sentir-se ultrapassado… E então alguém teria perguntado: «Mas quem é o novo que escreve como tu, que fala como tu?...»
E logo todos responderam em coro: «É verdade. Enquanto o cérebro trabalhar assim, não estás velho…»
Aqueles que habitualmente leem o que escrevo, devem lembrar-se de que já por várias vezes aqui tenho abordado esse tema e sublinhado essa espécie de «fatalismo» de muitos que se autoexcluem da sociedade, porque se julgam inúteis devido à sua avançada idade.
É certo que nem sempre é fácil conciliar a idade com as rápidas transformações que hoje se sucedem e atingem todos os sectores da vida moderna!
É difícil, mas não é impossível. Há sempre maneira – quando se luta por isso!... – de amenizar esses estremeções, procurando uma adaptação condizente com as faculdades que ainda nos restam. 
Se houver vontade e determinação, há muitas maneiras de o fazer, mas cada qual deve escolher aquela que mais se identifique com a sua forma de estar na vida. Em todas elas, porém, a Fé é a base dessa adaptação. Ela é o alicerce sobre o qual se constrói essa outra «vida», a que se convencionou chamar de 3.ªou até de 4.ª idade.
E essa construção deve ser feita sem preconceitos e sobretudo sem temer o escárnio de certos jovens inexperientes e néscios para quem os velhos são considerados uns peso improdutivo ou gente a mais…
Nesta sociedade computorizada e consumista em que a informática e a cibernética marcam o ritmo e o compasso da vida, não é fácil fazer com que muitos deles acreditem que os idosos, pela sua experiência de vida, podem servir de mestres na arte de viver e conviver. Aposta-se mais nas máquinas do que nas pessoas e talvez por analogia e motivados por esse “culto”, os idosos são considerados, por alguns, como «uma outra espécie de sucata…»
Mas nas novas tecnologias não existe também um processo a que chamam de «reciclagem» e em que do velho se faz o novo? Pois então, «reciclemo-nos!...»
Estimulemos o físico e o intelecto. A sociedade ainda precisa de nós. Há por aí muito novato a quem os velhos podem dar lições, sobretudo no capítulo dos valores tradicionais, do respeito e da educação. Muitos julgam que “velho” é só sinónimo de resmungão, rabugice, intolerância e reumatismo. Mas enganam-se. Há velhos… e velhos! E também há “velhos novos” e “novos velhos. “Sem falar nos “velhos” estrangeiros como Goethe que escreveu o imortal “Werther” depois dos 80 e de Bernard Shaw que aos 88 anos ainda escrevia, lembremos Adriano Moreira, Mário Soares e o nosso cineasta Manoel de Oliveira que aos 105 anos ainda trabalha! Mãos à obra, caros colegas. Reciclemo-nos…

 

OS COBARDES E AS REDES SOCIAIS

 
Sempre gostei de pessoas com personalidade. Pessoas que não são susceptíveis de mudar por conveniência ou por interesse, que são directas, imparciais, pessoas que não usam a hipocrisia para camuflar as suas ideias.
Talvez porque muito cedo tive necessidade de encarar a vida sozinho e tomar decisões nem sempre fáceis, gosto de gente com personalidade forte, de opiniões firmes, que não se deixam manipular facilmente e que não se escondem atrás de estereótipos ou máscaras.
Não gosto de gente que viva de fingimentos, que se recuse a encarar a realidade, que confunda sinceridade com afrontamento, que se julgue dona da verdade e que use o seu pretenso poder como arma para atingir os seus semelhantes.
Gosto de gente que cultive a humildade, essa virtude hoje tão esquecida e, por vezes, até usada em sentido pejorativo, pois há gente que associa humildade a pobreza. Puro engano…
A humildade não é património de nenhuma faixa socioeconómica. Humilde é aquele que assume os seus direitos e obrigações, mas que assume também os seus erros e as suas culpas.
A humildade faz com que a pessoa reconheça as suas próprias limitações e seja, de facto, o que realmente é. A humildade é um sentimento que se adquire lentamente pelo trabalho interior. Ninguém é pior ou melhor do que os outros, estamos todos ao mesmo nível e todos podemos aperfeiçoar-nos ao longo dos anos.
Não gosto de pessoas hipócritas ou fingidas que usam a máscara conforme o papel que querem desempenhar, mas sempre no intuito de prejudicar o seu semelhante.
O hipócrita muitas vezes finge possuir boas qualidades apenas para ocultar os seus defeitos e desempemhar melhor o seu rol perante esta nossa actual sociedade moderna, hipócrita, capitalista e consumista em que vivemos e que disfarçadamente nos vai roubando a dignidade, o caracter e os restantes valores que ainda nos restam.
Todas estas considerações a propósito do lado perverso das redes sociais que permitem que gente sem escrúpulos e escondida por detrás de um nome falso tentem espanhar veneno, desvirtuando factos, adulterando ideias e desseminando boatos na intenção de criar um clima de desconfiança, de suspeição e de ódio. 
Por detrás do anonimato insulta-se, calunia-se,  manipulam-se factos e tudo para criar situações que muitas vezes geram raiva e violência. A intoxicação de cérebros sempre existiu, mas agora com as redes sociais, escondendo-se sob o anonimato, os cobardes encontraram nelas uma maneira rápida e fácil de dar largas aos seus instintos de baixeza e  de malvadez. São uma espécie de praga de difícil exterminação. Há, no entanto, que ir tantando desmascarar o maior número possível.
 

 

 

 



 

OPINIÃO PRÓPRIA


 

Este título para reforçar o conteúdo desta minha crónica de hoje e para que fique bem claro que ela explicita apenas e só a minha opinião. Usando da liberdade de expressão a que tenho direito, o meu desabafo traduz unicamente aquilo que eu próprio sinto. Quaisquer outras interpretações que dela sejam feitas são da responsabilidade de quem as fizer, que não da minha.
Trata-se da minha opinião acerca de Eleições!...Depois de tanta desilusão e de tanto arrependimento confesso que cheguei a uma encruzilhada e não sei o que fazer, não sei em que partido votar!...
E a interrogação agiganta-se à medida que os dias vão passando: Votar em que partido? Votar no partido do Governo que fez e votou uma lei que extinguiu a minha freguesia que após 27 anos, e depois de uma separação litigiosa, poderia rivalizar, no seu crescimento e modernidade, com algumas pequenas vilas do País?
Votar em qualquer partido da oposição que apesar de condenar essa lei absurda, se ficou pelas intenções e nada mais fez do que dar o seu apoio moral, mas sempre, e como diz o ditado, com “um olho no cigano e outro no burro”?  
Neste emaranhado de interesses pessoais, neste egoísmo reinante e nesta corrida desesperada em busca da conquista de um lugar ao sol atropelando na passagem os que vivem na sombra, não é fácil tomar uma decisão de acordo com a nossa consciência! 
Mas o problema não é novo… Contudo, possui, hoje como ontem, flagrante actualidade, e nunca será despiciendo analisá-lo à luz do passado e do presente par permitir fazer comparações.
Já no dizer de Almeida Garrett: «de todas as dificuldades da administração e governo de um povo, a mais difícil é a escolha das pessoas; nessa falham todos os dias os mais espertos, tão fácil é o iludirem-nos aparências, tão difícil conceituar dos homens e do seu interior, pois todos os dias há erros fatais, funestíssimos enganos.»
Além-fronteiras é um francês, Gaston Jèze, professor de direito público de renome, que nos diz «que é preciso ter muita imaginação e fechar os olhos e tapar os ouvidos para falar em vontade popular, expressa livre e claramente pelo sufrágio…»
hoje como ontem o problema mantem-se. Uns votam por gratidão, por amizade, por imitação ou por estupidez. Há outros ainda que votam por medo…medo de perder o lugar ou as regalias que adquiriram.
Como não me revejo em nenhum desses casos continuo sem saber em que partido votar…
 
 
 
 
 
 
 

 

 

sábado, maio 17, 2014

QUE DEMOCRACIA É ESTA?

 A minha crónica da semana passada tinha a ver com factos explicados na reportagem inserida nessa edição acerca da polémica que se instalou na União de Freguesias do Barreiro e Tourigo, mormente com a tentativa de dissuadir o porta-voz do “Movimento Cívico do Tourigo e Pousadas” de se pronunciar na Assembleia da Câmara Municipal.
Não vou entrar em pormenores uma vez que a referida reportagem é bem explícita quanto aos factos que motivaram o diferendo existente.
No entanto, permitam-me que transcreva um pequeno excerto do que escrevi neste Jornal em 09 de Agosto de 2012: «…) Ora sendo a totalidade das Freguesias da mesma cor política (PSD) tal como a Câmara, que detém a maioria, isso não tornaria mais fácil encontrar consenso para propor ao Governo uma solução para o concelho, em vez de receber dele o figurino com o seu corte e costura? A quem cabe a responsabilidade da inacção? Quase apetece perguntar por onde anda a Comissão Política Concelhia que detém as Freguesias? O Povo pode não ter cursos, mesmo esses da era moderna, mas não é burro.»
E agora pergunto: Que razões políticas ou outras motivaram a extinção de uma Freguesia com 600 eleitores e com todos os serviços necessários à sua continuidade? Para quem não sabe, aqui fica um “inventário” desses serviços: uma Igreja Matriz com Salão Paroquial/Casa Mortuária; uma Escola Básica; um Jardim de Infância; uma Oficina de Serralharia e Canalização; uma de Carpintaria; um Salão de Cabeleireiro Unissexo; duas Padarias- a Touricon e a Regional; um Centro Social com Apoio Domiciliário e Centro de Dia; um Centro Cultural e Desportivo com Agência de todos os Jogos da Santa Casa; uma Caixa Multibanco; um Centro Cultural nas Pousadas; um Estabelecimento de venda de leitões assados; uma Farmácia; um Restaurante; um Comércio de Mercearias e outros; um Estabelecimento de Alfaiataria com um Pronto-a-Vestir; três Empresas de Comércio de Madeiras; uma de Materiais de Construção; um Posto de venda de Combustíveis; uma Zona de Lazer com Bar, piscina e pavilhão de eventos; um Campo de futebol de onze; um Polidesportivo, Balneários bem apetrechados; uma Associação Folclórica- AFERT, que tem promovido grandes e importantes eventos com um Rancho e um Grupo de Cavaquinhos; uma Estação de Arte Rupestre no Valeiro da Ferradura…e até um cemitério onde repousam os nossos antepassados e para onde também iremos um dia.
O consenso a que então me referia foi o que está à vista – a extinção pura e simples da Freguesia sem sequer haver qualquer diálogo com as populações. Agora, politicamente, não há culpados. E se alguém reclama o que lhe é devido, ainda tentam impedir que a sua voz seja ouvida publicamente!  
Comemoraram-se há pouco os quarenta anos de Democracia. Mas qual Democracia? A do Povo ou a dos políticos?....
Manuel Ventura da Costa in Jornal de Tondela de 15 de Maio de 2014

 

 

 

 

sábado, maio 10, 2014

INDIGNAÇÃO

Continua ainda a haver muitos ingénuos que olham para os mandantes como se eles fossem uma espécie de deuses intocáveis. E refiro-me a todos eles. Desde o topo da pirâmide ao mais baixo posto de chefia.
Uma vez “investidos” no cargo, fazem-se donos e senhores da “coutada”. De repente, esquecem que somos nós – primeiro com o nosso voto e depois com os nossos impostos - que fazemos com que eles se eternizem nos lugares que ocupam. Esquecem também que as obras que fazem, somos nós que as pagamos… Daí que logicamente quando pagamos, queremos ser bem servidos. E justamente recompensados. Não com dinheiro, mas pelo menos com o cumprimento daquilo que prometeram quando os elegemos.
Não obstante haver quem bata palmas na rua e refile dentro de casa, outros - como é o meu caso - estão no seu pleno direito de, com honestidade e sem demagogias, denunciar publicamente as injustiças ou as desigualdades de que são testemunhas.
Neste lodaçal de hipocrisias e mentiras em que estamos atascados, e embora sejamos cada vez menos os que não têm rabos-de-palha, devemos saber fazer a diferença não nos deixando enganar por mercenários da política que tudo fazem para nos calar quando exercemos o nosso direito de denunciar situações que vão de encontro às suas ardilosas combinações ou mexem com planos previamente arquitectados entre eles.
Salvo raras excepções estamos a ser governados por gente vaidosa, arrogante, egoísta e interesseira, que tem em conta apenas, e só, os seus interesses pessoais.
Houve um tempo em que se dizia que antes de fazer algo de menos correcto se devia pôr a mão na consciência - nossa conselheira. Esse tempo passou e agora em vez da voz da consciência é a dos interesses pessoais que impera…
No entanto, a honra continua a ser a nossa identidade. Mesmo que seja um bem imaterial e incomparável, é também insubstituível. Perdê-la, é perder a nossa referência como seres humanos.
Já no tempo da ditadura os políticos diziam que não se pode governar contra a vontade do Povo. Foi-se a ditadura e com o advento da democracia foram muitos os que acreditaram que a partir daí se passasse da teoria à prática. Puro engano. O Povo continua a ser ignorado e ludibriado por gente sem escrúpulos.    
Hoje, por falta de espaço, não é possível exemplificar com factos uma dessas recentes e indecorosas manobras numa tentativa de fazer calar a voz do Povo. Entretanto, e por agora, aqui fica registada a minha indignação.
 

ANTIGAMENTE A ESCOLA ERA RISONHA E FRANCA

 Há dias, falando de ensino e de comportamentos, quando citei como termo de comparação a primeira frase do poema de Acácio Antunes que serve de título à minha crónica de hoje, talvez influenciada por estes ventos de Abril, grande parte dos presentes quase me amaldiçoou!
A frase, embora usada já sem aquela carga pejorativa que lhe foi atribuída por altura da revolução dos cravos, ainda não deixa, por vezes, de causar um certo incómodo pelos resquícios de verdade que ainda encerra.
Hoje, ao proferi-la em público, é-se muitas vezes rotulado de saudosista, reaccionário, velho do Restelo, fascista, e eu sei lá de que mais... E com muita razão. Digo eu...
Quando e onde é que existiu uma escola tão franca e tão alegre como a de hoje?
Quando é que ela foi tão franca, tão livre, tão aberta, tão acessível e tão porreira como a de hoje? E quando e em que reinado é que os estudantes se riam tanto, brincavam e se divertiam, à grande e à portuguesa, nas aulas?
E quando é que eles tanto se evidenciaram a berrar e a contestar como o fazem agora? E quando é que lhes foi permitido dizer tanta asneira, insultar os professores, e fazer da indisciplina uma lei?!...
Agora... Claro! Por isso, que não venham esses velhos saudosistas e carunchosos, azucrinar-nos a cabeça com essas coisas velhas e relhas da educação, do bom comportamento, da civilidade e do respeito...
Fora com esses princípios castradores tais como, o da compostura pessoal, o da disciplina, o do sentido da responsabilidade, o da delicadeza e o do respeito pelos mais velhos!
Lixo com tudo isso! O tempo em que o professor tinha a última palavra, já lá vai! Chegou finalmente "a era do aluno". Chumbar?... O mestre que se cuide!
Que importa se não se sabe somar, dividir ou subtrair? E será crime dar pontapés na gramática ou escrever chouriço com três xis?
O que esses velhos saudosistas têm é inveja! É por isso que de vez em quando se lembram de abardinar o sistema e dizer mal desta cultura da vida airada que é bué.. Hoje a malta o que quer é curtir.
E esses cotas não compreendem, porque no tempo deles era tudo uma cambada de melgas, não havia pintas. Antigamente o clima era cagativo e foleiro. Agora é baril!  E então quando a bejeca vaza quase ininterruptamente até às botifarras, é uma desbunda baril!...
Nesse dia “acusaram-me” de ser saudosista. E sou. Não no sentido ideológico que estava subjacente à “acusação”, mas sim com base na pura essência da doutrina da saudade… Isto é, no que diz respeito à educação, ao respeito e aos valores morais que me ensinaram quando pequeno.
 

 

PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA...


Nos fins do século dezassete e começos do século dezoito, os portugueses foram motivo de troça para todos os estrangeiros devido à sua mania dos óculos. O escritor, La Brue, no seu livro Voyage à Cacheu, descreve um salteador alentejano que antes de aperrar o seu bacamarte, «ata às orelhas os seus grande óculos portugueses de presilha de coiro...»
Mais escritores se referiram ao assunto e até Montesquieu, o príncipe dos impertinentes do seu tempo, escreve no seu livro, Lettres Persanes, que a importância e o carácter dos portugueses «se ostentavam principalmente de duas maneiras: pelos óculos e pelo bigode... (...) O português e o espanhol usam vidraças nos olhos porque pensam que os óculos conferem àqueles que os usam um ar de sapiência e de intelectualidade...»
Os óculos, pelo que nos contam os livros, eram como que um distintivo de superioridade intelectual, um luxo e uma maneira de ostentar qualidades que muitas vezes os seus portadores não possuíam. Uns óculos encavalitados no nariz de qualquer «palerma» ou de qualquer «estúpido» eram uma espécie de tira-nódoas ou um diploma que, numa primeira fase branqueava a incompetência, e na segunda conferia um certificado de erudição e sapiência. Falsos, evidentemente...
Esta lengalenga toda para vos dizer que comparo muito essa mania dos óculos dos séculos XVII e XVIII, à actual «moda» do «dê erre", pois por detrás dele esconde-se muita ignorância, muita vaidade, muita soberba e muita prepotência!
A doutorice é, no nosso país, uma epidemia. Qualquer técnico e seja qual for o sector profissional em que trabalha, o que ambiciona é ser tratado por doutor ou engenheiro.
Se formos para o sector público, então aí o contágio dá-se tão rapidamente que nem há período de "incubação". Há casos em que o «recruta», graças à cunha ou ao tráfico de influências, entra por uma porta e quase sem ter tempo para abotoar os botões da farda, sai pela outra já "pendurado" num dos respectivos distintivos: o de doutor ou o de engenheiro!...
Que fique bem claro que não estou a referir-me aos doutores verdadeiros, porque esses, - uns por modéstia, outros porque não querem misturas- não gostam que os tratem por aquilo que verdadeiramente são. Refiro-me, isso sim, a esses “doutoraços” incompetentes, cheios de vaidade e vazios de conteúdo, que se passeiam por aí… Fazem lembrar os balões dos arraiais de Verão – basta uma pequena subida de “temperatura” para que estoirem!
Lembram-se da fábula de La Fontaine, que conta a história do “Sapo e do Boi”?!...
 

 

 

PÁSCOA


 
Festejar mais uma Páscoa é para mim como que um presente, um favor divino, uma graça, até talvez imerecida!
Mas é também um compasso de espera neste meu peregrinar pela vida; é a concessão de uma espécie de paragem para melhor reflectir sobre o seu sentido e as razões da Fé.
Talvez porque a Natureza ajuda ou algo de mais invisível me invade, estes dias que precedem a Ressurreição despertam um sentimento de esperança e alegria que fazem com que esqueça o peso dos anos... 
É assim como que um recobrar do ânimo, um retemperar de forças, um reconforto moral, tudo consubstanciado num sincero e sentido hino de louvor e graças a Deus pela ajuda e companhia prestadas neste já longo percurso pelos traiçoeiros e sinuosos caminhos da Vida.
O mundo em que vivemos está em constante mutação e muitas vezes acossado pela dúvida, interrogo-me se será mesmo verdade que quanto mais vivemos menos sabemos!... 
O que nos ensinaram ontem dizem-nos hoje que é mentira! E se quisermos adaptar-nos a essa nova "filosofia", temos que esquecer quase tudo o que nos ensinaram ou aprendemos. Eu, por mim, não quero! E não quero porque são muitas as contradições e poucas as certezas...
É por isso que, constantemente me esforço por fazer uma adaptação controlada sem, contudo, cortar as amarras que me ligam aos valores tradicionais da honra e da moral que me moldaram e que me fizeram chegar até aqui sem desonra e com muito orgulho.
E é, sobretudo, nestes dias e momentos diferençados, - mais convidativos a uma profunda e séria reflexão - que encontro na Fé a força para continuar e a certeza de que continuo no caminho certo.
A Páscoa é o tempo de criar espaços de amor e perdão; é o tempo de nos sentirmos o irmão de cada homem e de tentar tornar a vida mais humana. É também a quadra apropriada para um balanço, uma avaliação do nosso procedimento para com os outros: todos erramos, todos cometemos ofensas. Há que assumir o mal que fazemos e perdoar com humildade, sem rancor ou ostentação. O mundo em que vivemos está cheio de falsos pregadores e de vilões disfarçados de santos. Os tentáculos da hipocrisia não cessam de se estender e, muitas vezes, assiste-se à prática de uma "religião" onde a vaidade e o espectáculo usurpam o lugar reservado ao recolhimento e à devoção. No entanto, para quem já viveu a verdadeira experiência da Fé, nada disso a enfraquece, e o Mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, reforça-a ainda mais.
 
 

ESTE PAÍS É BOM PARA QUEM?


 
A frase é frequente, e raro é o dia em que não a ouçamos nas suas duas versões – uma referindo-se a velhos e outra à geração mais nova.
Enquanto uns afirmam que o País não é para velhos, outros dizem o mesmo em relação aos mais jovens… Mas afinal, em que ficamos? Para quem é que este País é bom?  
Há dias, quando matutava no assunto, eis que, de repente, - como raio de sol que espreita por uma nesga de uma nuvem negra- um jornal diário dissipou as minhas dúvidas e obtive a resposta.
E só não disse Eureka, porque sou contra plágios e estrangeirismos e também porque não quis perturbar o sono eterno do sábio grego. E exclamei para com os meus botões: Achei!...Finalmente descobri para quem este País é bom…
Este País é bom para os que mandam, para os que os acompanham e sobretudo para todos os ex-governantes e afins. Para esses, Portugal é um paraíso terrestre.
Catrogas, Cardonas, Pereiras, Penas, Pintos, Macedos, Mateus, etc., etc., são alguns desses privilegiados que lá do alto dos seus chorudos salários contemplam com indiferença esses milhões de pessoas que tentam sobreviver com ordenados e pensões de miséria.
Dos sete, se tomarmos como exemplo o ex-ministro Catroga que auferiu em 2013 um salário mensal de cerca de 35 mil euros, facilmente encontraremos a razão pela qual chegámos à situação em que nos encontramos. Mas, e infelizmente, há ainda muitos outros a receber quantias exorbitantes como é o caso dos gestores de várias Empresas do Estado.
Como é possível tanta injustiça? Como é possível deixar que muitos morram de fome e outros ganhem salários de nababos?
Como conseguem viver os que trabalham e ao fim do mês recebem o salário mínimo ou os idosos que auferem uma pensão mensal que não ultrapassa os 300 euros?
Qualquer generalização é injusta e até odiosa, Mas é impossível não ficarmos indignados perante tamanho insulto aos milhões de pobres que tentam sobreviver por esse País fora.
Estamos fartos de ouvir falar de solidariedade e verificar que na prática a palavra é apenas uma figura de retórica, usada pela classe política para emoldurar os seus longos e ocos discursos.
Esses ícones de um Mundo irreal e injusto que a máquina-política guindou ao pódio – muitas vezes sem esforço próprio ou merecimento justificado- deveriam ter um pouco mais de dignidade e de nobreza. Mas não têm. Hoje vivemos num mundo de famosos, de heróis fictícios, alguns falsos, fabricados pela política e pelos órgãos de comunicação social.
E é para muitos desses que Portugal é bom!...

 

 

 

 
 
 

 

UM CONSELHO A DONA TEODORA


 

Não conheço a Senhora de nenhum lado. Por isso não lhe quero mal, não vou insultá-la, não vou contrariá-la, nem tão pouco a vou criticar. Dona Teodora não é culpada,porque quando propôs a criação de uma taxa a incidir nos levantamentos de dinheiro de contas onde os cidadãos recebem os salários e as pensões, estava em êxtase. Não estava cá...  
Presumivelmente estava envolta numa aura beatífica, um daqueles momentos místicos, a que só os escolhidos conseguem elevar-se!
E voava! E, em círculos, como águia que espreita a presa no solo, só alcançava pequenos seres indefesos, vulneráveis, que nada podiam contra as suas aduncas garras. Mas voava sobre territórios longínquos…
Voava muito longe do País em que há mais de dois milhões de pobres; mais de 700 mil famílias que não conseguem pagar os seus empréstimos à banca; mais de 500 mil pessoas com os salários penhorados e segundo um inquérito recente do Instituto Nacional de Estatística, onde há 1.961.122 casos de pessoas actualmente no limiar da pobreza!
A Dona Teodora estava noutro País. Num País muito longínquo, num país-paraíso. Num País onde não falta o dinheiro. Onde a população é constituída apenas por “filhos da pátria” - Ministros, Directores Gerais, Deputados, Assessores e Afins. Um País em que todos os dias é “sábado à noite”, sempre em festa, em que não há preocupações; num País de privilegiados que ao fim de 3 ou seis anos, os mandantes têm uma reforma choruda, enquanto um cidadão do outro, tem de trabalhar 40 anos, para ter uma pensão de miséria; num País em que os Ministros, Assessores e Afins têm salários principescos e benesses inimagináveis, enfim, num País em que apenas os esbanjamentos dariam para matar a fome a milhões de pessoas!
E aqui estão dois Países diferentes. O primeiro que é o real e o segundo, que é o da realeza, aquele em que levita Dona Teodora.
E foi no segundo que ela se baseou para fazer a proposta, profetizando que “seria um incentivo à poupança”…Talvez no País dela, porque no real não há dinheiro para comer quanto mais para constituir qualquer pé-de-meia!
Dona Teodora acha que a ideia é excepcional e que não “existe em lado nenhum…”
Que lhe faça bom proveito e apresse-se a registar a patente dessa sua ideia tão brilhante, quanto injusta. Mas permita-me, Dona Teodora, que lhe dê um conselho: combine com o seu motorista e venha conhecer o País real. Venha ver com os seus próprios olhos como sobrevivem aqueles a quem quer agravar ainda mais a situação de miséria em que vivem.
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, abril 23, 2014

UMA CAMINHADA DE SESSENTA E TRÊS ANOS!...


Mais um ano nesta caminhada a dois. Dia 14 de Abril de 1951 – 14 de Abril de 2014 – sessenta e três anos! Logo no inicio do caminho fomos implantando marcos para assinalar a nossa passagem - primeiro dois, que depois se multiplicaram e hoje, juntos, fazemos catorze. Sessenta e três anos! É muito tempo! É muito caminho andado. Graças a Deus, sem grandes ou nenhuns percalços. Que para o ano estejamos como hoje é o que pedimos a Deus

domingo, abril 13, 2014

UM CONSELHO A DONA TEODORA

DA EDUCAÇÃO E BOAS MANEIRAS


 
Como terão já deduzido através dos meus arrazoados semanais, não simpatizo muito com gente arrogante, sobretudo com alguns daqueles a quem concedemos o “estatuto” e que através dos nossos impostos lhes pagamos o salário e outras coisas mais…  
Há por aí gente a ocupar cargos e a polir o assento de certas cadeiras, cuja educação e boas maneiras são coisas que nunca lhes ensinaram ou que não quiseram aprender.  
Não pensem que estou a reclamar ou pedir tratamento especial. Estou a falar como povo que sou. Completamente despido de quaisquer outros predicados ou funções que em certas ocasiões possa ter ou representar. Há na sociedade normas mínimas de convivência que devem ser respeitadas e há também maneiras de estar e de proceder que não devem ser esquecidas, mormente e como acima disse, por aqueles para quem uma quota-parte dos nossos impostos serve para no fim do mês lhes pagar o salário. Que muitos nem merecem…
Não sei quem disse uma vez que a educação e as boas maneiras constituíam uma vitória sobre a animalidade. Houve mesmo quem lhes chamasse uma espécie de “civilização de costumes.”
Além de se ostentar o rótulo de civilizado, de doutorado ou de outro qualquer produto desta nova sociedade, é necessário também possuir, ainda que minimamente, uns polvilhos de boa educação.
Ela é, indubitavelmente, uma estrutura social que serve de base ao estreitamento das relações entre os homens. E é ela que não deixa e se opõe a que o social se sobreponha ao individual. Por mais que se seja, há sempre que respeitar o outro que não é!...
É essa a regra do saber viver em sociedade, de conciliar o civilizado com o educado, que faz com que nasça e se forme o verdadeiro membro duma sociedade equilibrada, humanizada e moralmente completa. A educação e as boas maneiras constituem, ao mesmo tempo, um código da comunicação entre os homens.
Há quem não faça caso dessas “funções sociais”, mas o certo é que sem o seu cultivo e sem a sua prática, a civilidade em breve cederá o lugar à incivilidade que por sua vez fará com que a civilização se transforme em animalidade. Talvez pareça exagerada esta minha maneira de encarar o papel das relações humanas tomando-as como alicerce da educação e das boas maneiras. Mas é bom que não esqueçamos que é da mistura desses dois ingredientes que nasce a humildade. E ser humilde para além de ser uma virtude, é uma das características das grandes personalidades.
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, abril 06, 2014