domingo, agosto 26, 2012

UM PAÍS QUE VAI MORRENDO AOS POUCOS



O tempo voa, os anos vão-se amontoando e não só a capacidade intelectual vai diminuindo como também se vai esgotando a paciência para enfrentar esta onda de oportunismo e de espírito mercenário. 
E se não há dia em que não confie ao meu diário as minhas angústias, as minhas frustrações, as minhas alegrias, as minhas desilusões e também as minhas esperanças, o certo é que, à medida que eles passam, a vontade de as exteriorizar e confessá-las publicamente, vai-se esgotando a pouco e pouco. Embora dotado de um espírito aberto e gregário, sempre me repugnou uma certa espécie de promiscuidade. Não no capítulo das ideias porque nunca diferenciei raças, castas, credos ou ideologias. Porém, em questões de ética e dos seus princípios, mal o seu desrespeito se vislumbra, não há gregarismo que resista.
Infelizmente, há que admitir que está assim o mundo em que vivemos. Fútil e traiçoeiro. Vive-se num pantanal de cinismo. Rodeia-nos uma floresta onde a hipocrisia cresce sem parar. E como teia de aranha, ela estende-se a todos os ramos. E nessa urdidura de ambições, louva-se ou condena-se, incensa-se ou conspurca-se, conforme os interesses em causa. E quase sempre sem olhar a consequências, nem avaliar possíveis danos morais. É uma espécie de luta sem regras onde tudo é permitido para se chegar à vitória.
E neste universo de interesses inconfessáveis cresce a olhos vistos a vontade de ser deus de qualquer coisa. E é assim, e dessa maneira, que o nosso dia a dia está cheio de especialistas analfabetos e de vigaristas transformados em heróis.!...
Desviei-me talvez um pouco do tema inicial desta crónica, mas é muito difícil, ao abordarmos qualquer assunto, mantermo-nos imunes e alheios a toda esta balbúrdia que nos rodeia. Numa sociedade materialista e desumanizada é impossível fugir às ondas de choque motivadas pela derrocada dos seus valores. Daí as minhas zangas e desavenças constantes com esta "democracia por turnos" que caminha de braço dado com esta degradação galopante dos princípios que deveriam nortear o seu funcionamento. Uma democracia já com idade para se portar como adulta, mas que no seu percurso continua traquina, inconstante, leviana e irresponsável. Tudo é jogo e espectáculo. O palco está a abarrotar de pedantes e ambiciosos.
Há teóricos, tecnocratas e doutores por toda a parte. Mas cada vez menos gente que trabalhe. São cada vez mais os barrigudos e com contas bancárias tão dilatadas como os seus ventres!
O povo português tem ideal, é arrojado, tem vontade e tem mostrado que é capaz de igualar outros povos; mas os exemplos que vêm de cima são tão maus, que tiram a esperança ao mais optimista.








domingo, julho 29, 2012

AINDA FALANDO DE BURROS...



Ainda a propósito do assunto da minha crónica anterior, já nos longínquos tempos da minha meninice havia em certas localidades um ferrador, que era um indivíduo que tinha como profissão tratar do “calçado” das alimárias, mais especificamente dos cavalos e das éguas. 
Quando o homem começou a servir-se destes animais para executar os seus trabalhos, tanto para a sua própria locomoção como para o trabalho da agricultura, apercebeu-se que o ponto fraco dos bichos era o casco – as unhas dos solípedes.
Em terreno pedregoso, por vezes, os cascos sofriam cortes e impossibilitavam os animais de cumprir as suas tarefas, chegando mesmo a obrigar à sua imobilização.
Era, por isso, necessário protegê-los. Para o efeito, e segundo livros antigos, teriam sido feitas diversas tentativas com o material da época, como couro, cordas, etc., até que surgiu o ferro que foi moldado no formato dos cascos, e que deu origem àquilo a que passou a chamar-se ferradura.
A ferradura era colocada na forja e, quando incandescente, era batida na bigorna e ajustada ao casco do animal. Seguia-se depois a sua aplicação por meio de cravos, uma espécie de pregos, que sem ferir o animal, a seguravam.
Parece que estou ainda a ver o senhor José ferrador, de avental de couro, martelo em punho, batendo o ferro e moldando sobre a bigorna, a ferradura incandescente para aplicar nos cascos do animal – cavalo ou égua – que, pacientemente, esperava “os sapatos” novos encurralado, entre duas tábuas!
Não me lembro de ter visto ou ouvido dizer que igual forma de calçado tivesse sido aplicado, na minha região, quer a um jumento, quer a um burro e sempre atribui tal facto à falta de “linhagem” dessa categoria de solípedes que eram considerados de segunda classe. Cavalo é cavalo, e burro é burro. Nada de confusões…
E como o burburinho dos diplomas e das “licenciaturas relâmpago” ainda não cessou, lembrei-me daquela historieta passada no tempo em que os animais falavam. E era assim... Havia um ricaço que apesar de todo o seu dinheiro, não sabia ler nem escrever. Um dia disseram-lhe que tinha aberto uma repartição do Estado onde vendiam certificados de doutor mediante o pagamento de uma avultada soma.
O homem informou-se, e um dia apresentou-se no local onde, em troca de um saco de ouro, lhe deram um título de doutor. Na volta, logo avisou o cavalo: “Cautela com os tropeções. Agora que sou doutor, cuidado com o trote…” O cavalo engoliu em seco e logo pensou em ir também comprar um certificado igual para ficar à altura do dono. E foi. Mas não o obteve, pois logo o informaram “que não... que não, que esses diplomas especiais e instantâneos não se destinavam a cavalos. Eram só para burros...”. Qualquer semelhança entre esta historieta e o que recentemente se tem passado cá no rectângulo no que diz respeito a licenciaturas pode não ser mera coincidência.

























O SENHOR DOUTOR SABE ASSINAR?



O senhor doutor sabe assinar?...
Hoje, aliás como todos sabem, ideologicamente falando, as palavras esquerda, direita e centro já não existem. E se ainda constam dos dicionários, na política, esses vocábulos perderam completamente o seu verdadeiro significado.
Não há diferenças entre eles. Os três passaram de antónimos a sinónimos, e juntos, representam um conjunto de interesses, divergindo apenas nas respectivas siglas.
O objectivo comum dos seus usuários é o estatuto pessoal. Cada qual tenta à sua maneira tratar da sua vidinha e a dos outros, a do povo que ainda trabalha, que se lixe.
Infelizmente chegámos a um ponto em que não podemos confiar em nenhum dos representantes partidários que tomam assento nas fofas cadeiras da Assembleia da República.
Aqui há tempos ainda podíamos apresentar excepções ou tomar fulano ou sicrano como exemplos a seguir para conseguirmos sair deste lodaçal para onde nos empurraram. Agora acabaram-se as excepções e os exemplos. Parece haver uma espécie de combinação entre todos – governo e oposição – e os ataques e insultos que vemos ou ouvimos entre eles são apenas uma espécie de fogo de artifício para pôr a malta a olhar para o ar e esquecer o que se passa a seus pés.
Estamos numa época em que vale tudo, Tudo é permitido, tudo é perdoado. Mas só aos graúdos, que o pequenito paga tudo com língua de palmo. E que bem falam, que carinhosos são os nossos políticos quando querem adormecer o Zé!...
É vê-los arengando a arraia miúda, arvorados em defensores dos desempregados, dos pobres, dos velhos, dos desprotegidos da sorte, dos sem abrigo, prometendo mundos e fundos, mas sem repartir com eles quaisquer sobras dos seus lautos banquetes!
Fala-se muito em moralizar o Estado. Fala-se… São palavras ditas, mas sem vontade de concretização, porque isso não interessa a nenhum dos partidos. Há que dizê-lo sem medo, porque é a verdade.
Quando os políticos confundem o seu papel com o dos grupos económicos e querem fazer dos partidos empresas privadas onde podem colocar quem bem lhes apetece e talhar os seus ordenados e fazer leis à medida da sua ganância, está visto que não podemos esperar melhores dias.
O recente caso da “licenciatura relâmpago” de um dos nossos ministros é um exemplo flagrante deste folclore político e da degradação que se instalou cá no rectângulo. Se este facilitismo continua, não é de excluir que dentro de uma década, na tomada de posse de qualquer “filho da nação”, o senhor do protocolo, de caneta em riste, não tenha de lhe perguntar: “O senhor doutor sabe assinar?...


















sexta-feira, julho 20, 2012

EM DIA DE ANIVERSÁRIO

 


Lá vão oitenta e seis anos –
Um longo caminho andado,
Com alegrias e desenganos,
Caminhando de braço dado.
Oitenta e seis anos, tanto tempo!...
Tanta alegria e lamento,
No meu peito!
Tanta chama que se apagou,
Tanto desejo que ficou,
Insatisfeito!

Até as lágrimas de outrora,
Gotas de água tão sorridentes…
Porquê, meu Deus, as lágrimas d’ agora,
São tão tristes e são tão dif’rentes?
Ah! Meus sonhos de menino,
Que a esperança embalava
E aquele mundo pequenino
Que o meu coração albergava!...

Não havia noite,
Era sempre dia,
Era tudo esp’rança,
Era tudo alegria.
Era a Primavera em flor,
Era sempre sol nascente
E no coração da gente
Havia sempre calor!

Mas o tempo,
Como o vento,
Soprando,
Foi meus anos levando!...
Daquele bebé rosado
Que há oitenta e seis anos nascia
É um senhor já muito usado
Que se festeja neste dia.

Perdeu a pena o perdigão
E tudo já o tempo levou…
E de um jovem rapagão
Vejam lá o que ele deixou:
Uma carcaça enferrujada
Donde o caruncho esguicha
Uma coisa velha, enrugada…
Tudo encolhe, nada espicha!...

Eu venho de longe e estou cansado
De tanta luta, tanto desengano…
Mas sempre optimista e esperançado,
Espero voltar a ver-vos pró ano!... 

quarta-feira, junho 13, 2012

V ENCONTRO DOS EX-ALUNOS DO TOMAZ RIBEIRO


  
Neste V encontro começamos por nos servir de parte de um poema, de  uma colega, a poetisa Maria da Conceição, que este ano, por afazeres pessoais inadiáveis, não pode estar presente: «Mística de persistentes / Que teimam viver, contentes / Um dia de cada vez… / Este vai ficar gravado, / De recordações, ornado, / Dia nove. Junho, o mês.»
«Piano toca a alvorada, / Que, neste fim de jornada, / Estar aqui, é privilégio! / Meus amigos, que saudade / Dos tempos da mocidade / E do velhinho colégio…»
Poderíamos ficar por esta introdução, pois nela está o verdadeiro objectivo que é o de reviver, ainda que fugazmente, esses tempos já bastante longínquos caracterizados por uma verdadeira, sã e duradoira amizade!
E como dissemos no ano passado, lá nos encontrámos – mais barriga, memos barriga, aprumados ou coxeando, a aiveca do arado do tempo não parou na sua contínua destruição!
Menos que no último encontro de Outubro de 2011, – a maior parte ausente por questões de saúde – foram horas em que se reviveu o passado voltado atrás no tempo numa viagem de saudade, ternura e muita amizade. Aos da década 40-50 também se juntaram outros de tempos mais recentes, partilhando toda em conjunto essa alegria própria do reencontro de amigos da nossa infância.
O encontro começou com uma missa em acção de graças e em sufrágio dos colegas que já nos deixaram, celebrada na Igreja de Nossa Senhora do Carmo e acompanhada por um magnífico Grupo Coral, a que desde já felicitamos e agradecemos. O nosso bem-haja também ao celebrante e às suas palavras alusivas ao nosso encontro.
Seguiu-se a fotografia da praxe desta vez com um fundo diferente – o Palácio da Justiça, o que motivou alguns comentários com muito humor à mistura. A idade pode ser muita, mas a boa disposição tem se mantido, malgré tout!...
No almoço, servido no memo local do ano passado, poder-se-á dizer que se falou mais do que se comeu, apesar da variedade e abundância dos petiscos. Havia muita conversa a pôr em dia, muita pergunta acerca dos que faltaram este ano. E também muitas histórias a relembrar e a evocar com saudade.
E como cantou João Sá, dedilhando a viola, e em jeito de balada coimbrã: «Colégio tem mais encantos / Tantas décadas passadas / Nos nossos cabelos brancos / Saudades acumuladas…/»
Este ano foram vinte e dois os colegas que, pessoalmente ou por telefone, justificaram a sua ausência, quer por motivo de saúde, quer por compromissos já agendados para o dia.   
Para o ano, se Deus quiser, reviveremos estes momentos ficando desde já todos convidados – os menos novos e os novos, que queiram associar-se.

sexta-feira, maio 25, 2012

DESABAFO


Por que será que este sentimento de fuga me invade cada vez com mais intensidade? Será a necessidade de esvaziar esta arca velha, de desabafar, de fugir de mim mesmo, de afastar o pensamento de toda esta balbúrdia que me rodeia e me incomoda e de criar à minha volta, um mundo novo, com gente a sorrir, sem pressas e sem competições? Utopia?!... Que o seja, mas sinto muitas vezes esse impulso de reinventar outro mundo!
E nesse desejo, nessa ânsia, muitas vezes, sem me aperceber, esqueço-me de mim mesmo e invento outra personagem. Totalmente diferente. Uma silhueta quase irreconhecível, uma espécie de fantasma, que pouco dura e que acaba por desaparecer submersa nas vagas da minha própria imaginação.
É difícil fugir da aparência, da fachada, da máscara com que disfarçamos uma felicidade que nunca atingimos. É sempre difícil se não impossível despir completamente a indumentária que vestimos ao longo de muitos anos.
E é também difícil localizarmos no nosso imaginário aquele momento mágico em que nos foi oferecida a ocasião de optar, de escolher o rumo certo, aquele que agora, depois desta longa distância percorrida, pensamos teria sido o ideal... 
Mas será que alguma vez na nossa adolescência nos apercebemos desse momento enigmático, dessa encruzilhada de caminhos que a vida nos mostrou para podermos escolher o tal rumo certo?!...
É curioso como apesar de todos estes anos de peregrinação por este vale de lágrimas, esta ânsia de reinventar um outro caminho que não o percorrido, continue, de vez em quando, a atravessar-se nos meus pensamentos, colocando dúvidas e interrogações difíceis de satisfazer!
É curioso também que mesmo numa idade avançada se continue a sonhar e a ter pesadelos. Sobretudo pesadelos, porque os sonhos, quanto a mim, têm uma grande lógica interna e uma grande coerência interior. Eles permitem-nos, enquanto duram, de alimentar esperanças dando-nos alento e reforçar ainda que ficticiamente, a nossa auto-estima.
Todos nós temos virtudes e defeitos tornando-se por isso, e à medida que o tempo vai passando, mais importante consciencializarmo-nos das nossas imperfeições. Bem sei que nesse turbilhão de ideias, nesse emaranhado de interrogações e sem possibilidade de voltar atrás, nos resta apenas dominar os sentimentos e substituir as tendências negativas pelas tendências positivas, lutar, reeducando-nos para a felicidade. Não a felicidade completa, mas aquele estado de alma que nos proporciona todos os dias a alegria de viver em paz connosco, sem ódios, sem remorsos, sem alimentar sentimentos de inveja pelo vizinho do lado que é mais poderosos e rico.
Às vezes ando ás voltas dentro de mim, e mesmo consciente de que por mais voltas que dê não vou para lado nenhum, tento recriar, baseado no passado, um caminho diferente. Porém, como o passado, não se refaz, não se recria, mas também não se pode abjurar, volto ao ponto de partida – às interrogações, às reticências. E é sempre com elas, com reticências  que termino estas minhas incursões àqueles momentos, a esse tempo que parou no tempo – ao meu tempo de menino…






sexta-feira, maio 11, 2012

RABISCANDO...


Apesar de ter tido bons mestres, se me pedissem para escolher aquele que mais e melhor me ensinou, eu responderia sem hesitação que foi na escola da vida que mais aprendi.

E foi nos seus bancos, espalhados um pouco por toda a parte – em casa, no campo, longe da Pátria, trabalhando, desesperando, esperançado, desiludido, mas sempre confiante, que compilei a sebenta com as mais importantes lições que me têm ajudado a passar de ano. E com boa média!...
E durante essas aulas, quase sem me aperceber, e à medida que o tempo se ia escoando ora sob um céu pardacento, ora sob um céu azul sem nuvens, as folhas foram-se enchendo, e o livro da minha existência foi-se avolumando.
Hoje, as suas páginas constituem este aglomerado de factos que sou, repartido em três volumes já escritos- Primavera, Verão e Outono.
O outro, o Inverno, já vai muito adiantado, mas continuo a trabalhar nele afincadamente, tentando superar com paciência e optimismo o que já me vai faltando em talento!
E, dia-a-dia, linha por linha, sozinho, neste cubículo, nesta espécie de cafarnaum, cá vou passando o tempo rabiscando, amontoando emoções, sentimentos, a maior parte para escárnio de novos e consumo de velhos.
Mas não esmoreço, nem me dou por vencido. Nesse aspecto sigo as palavras de um escritor francês cujo nome não me ocorre agora, mas que já mencionei noutros textos. Disse ele que “escrever é falar sem ser interrompido.” E é a adopção dessa espécie de lema que me dá ânimo, que me dá força para extravasar, através do papel, o que me vai na alma.  
Quando se chega a uma certa idade começam a escassear as pessoas com as quais poderíamos trocar impressões ou simplesmente cavaquear. Não é recente tal facto, mas nos tempos que correm e em que a tecnologia tenta por todas as maneiras possíveis e inimagináveis apossar-se do homem e até escravizá-lo, primeiro dá-se atenção à máquina e só depois ao homem!..
E então quando se trata de velhos, essa falta de tempo ou de paciência atira-nos para as prateleiras, onde, se não estivermos atentos, depressa e só o pó se encarrega de nos visitar.
E é muitas vezes por isso, para não me deixar transformar em mera relíquia ou objecto de estimação visitado apenas por qualquer espanador ocasional, que estabeleço este monólogo com o papel…ou melhor, com a máquina!
Quando quero livrar-me dos ecos deste palavroso e nauseabundo lixo político que me fere os tímpanos, desligo e entretenho-me a rabiscar.









domingo, abril 29, 2012

DRAMAS DO NOSSO QUOTIDIANO

Eram para aí seis da manhã quando saiu. O dia estava chuvoso e frio, daqueles dias que apetece ficar em casa. Não à lareira, porque não tinha lenha, mas para ficar enrolado na manta a enganar o frio e a olhar pelo buraco do plástico que, à míngua de dinheiro, servia de vidro na janela que dava para a rua. Há dois anos que estava desempregado. Graças aos vizinhos lá ia sobrevivendo com a mulher e os dois filhos. Deixara de fumar, porque “quem não tem dinheiro, não tem vícios”, disse-lhe a mulher. E largou o cigarro. Mas naquele dia o que lhe apetecia era um cigarrito. Com o anúncio do Jornal amarrotado no bolso e na esperança de conquistar o lugar, precisava de qualquer coisa para lhe acalmar os nervos. Lembrou-se de tomar um café, mas se o fizesse, o dinheiro não chegaria para o autocarro. Desistiu e continuou a caminhar até à paragem sempre a pensar como seria o amanhã com um bom emprego e dinheiro no bolso no fim do mês!... Ao chegar, e como havia já uma grande fila, resolveu continuar a andar. Não estava muito longe e sempre ia aquecendo os pés. E, de contente, até cantarolou umas canções, coisa que há muito não fazia. O trabalho que pediam no anúncio era o que fazia no emprego em que trabalhara umas dúzias de anos. Não lhe faltava experiência e chegou mesmo a convencer-se que o lugar seria dele. E os projectos começaram a invadirem-lhe a mente: o primeiro salário seria para pagar a dívida na mercearia. Depois viria a saúde. Os miúdos precisavam de ir ao médico e a mulher andava há tempos a queixar-se duma dor no peito. Iria também. A seguir daria uma volta na casa. Chovia no quarto dos garotos, as janelas não tinham vidros, e compraria também roupa e calçado. Pagaria as facturas atrasadas da luz, compraria um frigorífico novo… Ah! E compraria mochilas para os filhos levarem os livros para a escola…Enfim, graças a Deus, esperava-o uma vida nova! Entretanto chegou à Empresa que tinha posto o anúncio e onde, com certeza, iria concretizar o seu sonho, arranjar amigos e, quem sabe, subir até de posto! Sentia-se já em terreno familiar. Deu os bons dias à menina da recepção, disse ao que ia, mostrou o anúncio e, solícito, ia obedecendo aos pedidos da funcionária: bilhete de identidade, composição familiar, experiência… Mas de repente uma nuvem negra interpôs-se entre os dois: - «Tenho muita pena – disse ela – mas a idade…» E ele nem queria acreditar! Então com cinquenta anos era já considerado inútil à sociedade? E todos os sonhos morreram. Começou então a percorrer as ruas para matar o tempo até que a noite chegasse…Queria entrar em casa sem que ninguém o visse e, às escuras, chorar à vontade.

SUPERSTIÇÕES

Segundo me confidenciou um amigo, – que milita na ala esquerda por via dos euros, mas que tem o coração mais à direita do que o mais direitista dos cidadãos – parece que só de pronunciar ou escrever o seu nome, pode contrair-se uma espécie de doença incurável ainda mais mortífera do que a provocada pelo mais desconhecido e terrificante vírus! São vários os nomes atribuídos aos “portadores”desse “mal”, mas os intelectuais fazedores de rótulos atribuíram-lhe um que no seu entender simboliza o que há de pior e mais contaminante sobre a terra: - salazaristas! Claro que eu não acredito nessas patranhas de contaminação, mas é sempre bom, (permitam-me a metáfora) calçar luvas, munir-se de pinças, pôr uma máscara, e estar preparado para o pior, não vá o diabo tecê-las. Apesar de o homem estar morto, enterrado, com sete palmos de terra por cima, a avaliar pelo medo que ainda suscita no imaginário de muita gente, nunca é de mais tomar as devidas precauções. Esta espécie de “agoiro” já vem de longe, mas ultimamente raro é o dia em que não se evoque o seu apelido – uns para o incensar outros para o denegrir. Embora a “borracha” e as “tintas” de Abril tenham conseguido apagar, disfarçar ou esbater um pouco as sete letras do nome, nem assim as “consciências” (ou as conveniências?!...) de alguns deixam de atribuir ao falecido todas as desgraças por que temos passado nestes últimos anos. Mudaram-se nomes de pontes, de ruas, suprimiram-se livros na escola, cortaram a cabeça do seu busto, mas nem assim o seu fantasma deixou de perseguir uma boa parte dos habitantes cá do rectângulo! De vez em quando e a pretexto de escamotear qualquer trafulhice ou no intuito de desviara a atenção ou anestesiar o Zé para mais uma tosquia, “desenterra-se” o homem e aí vai disto... Agora, o “fogo” voltou a reacender-se. Serviu de rastilho o facto de o autarca de Santa Comba Dão, João Lourenço, anunciar o lançamento de uma marca de vinho à qual vai dar o nome de “Memórias de Salazar, ligando “um nome conhecido em todo o mundo aos produtos da terra”. Ainda segundo o mesmo a ideia visa também angariar fundos para a “recuperação da área urbana do Vimieiro ligado ao património que lhe pertencia…” Por mais que tente compreender a razão de tanto burburinho sempre que se fala no falecido, ainda não consegui saber quais os proventos resultantes de tanto barulho! Incapazes de trabalhar para construir um futuro melhor, essa gente passa o tempo a fazer interpretações infantis, tentando desvirtuar o passado. Tudo o que de bem ou de mal se diga ou escreva acerca do homem que nos legou a “pesada herança” não apagará o seu nome das páginas da História. E tudo o que se tem dito, escrito ou ouvido, quer a favor, quer contra, tem apenas servido para espevitar a curiosidade daqueles que apenas conheciam a música de ouvido… Hoje, porém, muitos já sabem ler a pauta, interpretar as notas e fazer comparações. E é justamente por isso, para evitar comparações, que muita gente não quer, não gosta, nem está interessada em que certas facetas da sua vida sejam conhecidas. «Antes de deixar o Poder quero sacudir os bolsos e de todo esse tempo que estive à frente dos destinos da Nação, nem mesmo pó eu quero levar…» – disse um dia Salazar. E como o disse, assim o fez. E, essa frase, actualmente, incomoda muita gente…

sábado, abril 28, 2012

OS PEQUENOS DITADORES


O País está atulhado deles. Há-os por todo o lado. Grandes e pequenos. Intelectuais e analfabetos. E existem tanto na esquerda como na direita.
No Governo, na Assembleia da República, nas Secretarias de Estado, na Justiça, na Saúde, nos Sindicatos, nas Fundações, nas Comissões de Inquérito, nos Municípios, na Imprensa, nas Escolas e em todos os lugares onde lhes cheire a poder, eles espalham-se e escondem-se por todo o lado como piolho em costura!
Saímos de uma Ditadura maior para ditaduras menores, mais disfarçadas, mas não menos nefastas…
E são essas pequenas ditaduras que geram sentimentos de medo por parte dos subalternos que, por sua vez, criam à sua volta, e em simultâneo, climas de bajulação e de denúncias.
Com medo de se perder o emprego, o estatuto ou os privilégios, lisonjeia-se o chefe e denuncia-se o colega.
Não há moral, não se respeita a ética, e ignoram-se os ditames de consciência – a integridade que deve caracterizar qualquer ser humano desaparece.
Muita gente vê o autoritarismo apenas sob a perspectiva do Estado enquanto opressão do poder político. Mas isso não é totalmente assim.
O autoritarismo é uma manifestação de egoísmo que pode manifestar-se em qualquer sector da sociedade, dependendo apenas do alto conceito que cada um atribua a si mesmo. A ambição, a vaidade, o protagonismo e a supremacia em relação ao semelhante, pode desencadear esse sentimento
Um lugar de chefia é, geralmente, a rampa de lançamento mais usada para a propulsão do prepotente.
Há instituições particulares que apesar da sua fachada democrática e da sua orientação pedagógica e científica, apresentam, por intermédio do seu chefe, um carácter opressivo.
E, paradoxalmente, é nessas instituições em que a liberdade, a sinceridade, o respeito mútuo, a civilidade e o diálogo deveriam, acima de tudo, sobrepor-se a qualquer outra forma de actuação.
Esses pequenos ditadores consideram-se profetas de um novo Mundo e exercem os seus cargos como de feudos se tratasse, erguendo muralhas e fossos de protecção e usando o poder que a função lhes confere para reforçar a sua vaidade pessoal e o domínio sobre os outros.
E há casos em que eles não só exercitam a sua prepotência sobre aqueles que gravitam à sua volta como também tentam estender os seus tentáculos para o exterior. Com sucesso algumas vezes, mas muitas mais sem conseguirem atingir o seu objectivo. No primeiro caso porque o alvo se presta a chantagem, no segundo porque há ainda quem não tema quaisquer represálias sejam elas de carácter ideológico, profissional ou meramente pessoal.
O pequeno ditador, geralmente, não é inteligente. Mas é esperto. E é narcisista, hipócrita, vingativo, manhoso, mas covarde quando atacado frontalmente. Não sei se algum dos meus leitores já alguma vez foi alvo dessa casta de indivíduos. Se não, acautelem-se.





GENTES PACÍFICAS IGNORADAS

Antigamente o bilhete de identidade de grande parte das aldeias portuguesas do interior era constituído por uma Capela e por uma Escola.
A capela, onde geralmente aos domingos se celebrava a missa e se reuniam todos os habitantes e a Escola onde, de pequenino, se aprendiam as primeiras letras.
Com a junção de algumas formaram-se depois esses espaços geográficos que são as Freguesias com a sua Igreja Matriz e outros serviços, que a certa altura desempenharam um papel preponderante na vida nacional, sobretudo nos meios rurais.
Citando apenas um exemplo, houve um tempo em que o exame da 3.ª classe era feito na Escola da Freguesia, sem falar já na História desses aglomerados dispersos pelo País que eram anotados pelos párocos, nos livros de registo das Paróquias.
Mas, como é evidentemente, com o evoluir dos tempos a vida tudo mudou e pouco a pouco a aldeia começou a descaracterizar-se, tendo contribuído muito para isso a falta de visão futura dos governantes ao retirarem competência e serviços às aldeias em favor dos grandes aglomerados urbanos.
Assistiu-se em seguida ao êxodo das populações rurais que cada vez mais isoladas, e mais necessitadas dos mais elementares meios de sobrevivência, se viram obrigadas a rumaram às grandes urbes onde se fixaram e quase esqueceram as suas raízes.
Mas só quem vive em meios rurais pode avaliar o papel desses homens que estão à frente das Freguesias rurais, que lidam diariamente com as aspirações e os problemas dos habitantes e que muitas vezes lhes exigem soluções que ultrapassam a esfera das suas competências e atribuições. Eles são, de facto, uns verdadeiros «heróis da democracia»!
Mal pagos, por vezes mal interpretados, e quase sempre «bodes expiatórios» do não cumprimento de promessas de outros, são eles que à frente destes pequenos espaços geográficos dão o verdadeiro exemplo de abnegação e solidariedade, servindo, a troco de nada, o povo que os elegeu.
Agora que se fala muito na extinção ou fusão de Freguesias é de suma importância que essas decisões, a consumarem-se, sejam analisadas caso a caso e freguesia por freguesia. É urgente fixar as populações do interior, diminuindo as assimetrias entre a cidade e o campo. É urgente revitalizar o mundo rural, pois a ruralidade representa ainda a consciência da nossa verdadeira identidade cultural, com os seus valores, as suas tradições e as suas maneiras de viver, mais humanas, mais fraternas e mais solidárias. Não podem por isso os políticos voltar as costas ao país real e abandonar esses homens e mulheres que trabalham e cultivam os campos. É com essa gente humilde e simples, essa gente que se conforma com as alterações do clima que por vezes lhes destrói numa hora, o trabalho de dias e meses, que devemos aprender a lição da Fé e da esperança.
Uma lição que nos torna mais humanos, mais fraternos e nos aproxima mais de Deus. É esse o mundo dos que habitam os meios rurais. Um mundo de gente pacífica e, talvez por isso, quase sempre mais desfavorecida e ignorada.





A REVOLTA DO ALFABETO

A princípio, quando vi o ajuntamento, pensei tratar-se de uma greve, mas como não havia megafones, bandeirinhas nem dísticos do “povo unido” e não lobriguei nenhum dos nossos bolorentos e habituais síndicos, vi que devia tratar-se apenas de uma reunião normal.
Contei-as e eram vinte e três, mas havia três que estavam um pouco mais longe e tinham um ar de quem está ansioso aguardando qualquer coisa nova.
Todas se mexiam constantemente sem, no entanto, se afastarem do lugar que ocupavam. Faziam lembrar o teclado do meu computador e só quando me aproximei mais é que dei conta de que se tratava de facto das letras do alfabeto.
Todas juntas pareciam, à primeira vista, uma espécie de bicharocos que abundam naquele tapete húmido da floresta virgem dos países tropicais e que, de vez em quando, põem a cabeçorra de fora!
Do A até ao Z lá estavam todas, e aquelas três de que acima falei, o K, o W e o Y, continuavam afastadas e desconfiadas talvez com receio de não serem bem recebidas pelas 23 que há muito faziam parte do conjunto que rege a nossa escrita.
Os acentos gráficos passeavam à volta das letrinhas e o que me pareceu mais agitado foi o hífen que parecia nervoso e apreensivo. O til fazia vénias por ter sido poupado e parecia não ter nada a ver com a situação que se estava a viver.
Não pude conter-me mais e perguntei o que se passava. Respondeu-me o ponto de admiração dizendo tratar-se de um plenário convocado a pedido de algumas letras do alfabeto furibundas com a sua despromoção com a entrada do Novo Acordo Ortográfico.
As que mais reclamavam eram o Cê e o Pê e segundo me confidenciou o hífen, – ele também descontente por o terem afastado de algumas ligações – não se conformavam.
A primeira, o Cê, porque afirmava que, para além de outros casos, uma acção apenas com cê cedilhado perdia a sua verdadeira identidade e a sua tradicional força para agir.
A segunda, o Pê, argumentava também que das muitas supressões a que fora sujeito, a sua ausência no baptismo, era a mais grave, pois ia de encontro aos sentimentos de qualquer cristão que se preze!
Entretanto o Dáblio e o Ípsilon, mantinham-se na expectativa e aguardavam a sua entrada no novo conjunto das 26 letras do novo Alfabeto.
Estava eu observando todos estes comportamentos quando, lá ao longe, avistei uma fila de calhamaços de várias cores que avançavam na minha direcção e cujas folhas tremelicavam assustadas – eram os Dicionários numa demonstração de solidariedade, pois também eles iriam ser substituídos por uma nova geração…
Não consegui assistir ao fim de toda aquela barafunda para contar como tudo acabou, porque o telefone tocou e eu acordei!...




































O MEU ZURRO


Já este ano falei sobre o assunto. Mas, porque há dias e de Norte a Sul do País as ruas se encheram de “grevistas”, eu continuo sem saber quais os benefícios que advieram do protesto tanto para os protestantes como para o País.
Aliás é minha convicção de que muitos dos que participaram no movimento, fizeram-no mais por arrasto do que por convicção pessoal. Não cabe na cabeça de ninguém de bom senso que no estado actual em que financeiramente nos encontramos, é saindo à rua, gritando e dizendo mal de tudo e de todos, que contribuímos para inverter essa situação.
Quando se faz parte de uma multidão, ninguém pertence completamente a si mesmo – «tem-se menos elevação nos sentimentos, menos firmeza na vontade, menos valor sob todos os pontos de vista, do que quando se pensa, sente e age isoladamente.» E, dessa maneira corre-se o risco de se deixar arrastar e apaixonar por visões confusas, que não correspondem nem ao que seria melhor nem aquilo que se pretende quando somos apenas nós mesmos a pensar. As multidões abafam e dominam a personalidade dos homens que nelas se enquadram e que muitas vezes até os desumanizam.
Sabemos que o fosso entre as desigualdades sociais se avoluma cada vez mais, mas é bom não esquecer que os mentores das greves, aqueles que enchem a boca com “o bem-estar do nosso Povo” nem sempre têm isso em vista.
Houve ainda há pouco eleições e foi eleito, democraticamente, um Governo que herdou do anterior uma situação financeira tão catastrófica quanto imoral – catastrófica pela sua incidência ruinosa no que respeita ao futuro, e imoral pelas injustiças praticadas contra os que menos têm em favor dos que têm em demasia.
Esquecer tais factos e não unirmos esforços para inverter a situação desastrosa em que nos encontramos é o mesmo que fecharmos os olhos, é sermos irresponsáveis a ponto de esquecermos que estamos a contribuir para um tenebroso futuro das gerações vindouras em que já estão incluídos os nossos filhos e os nossos netos.
Como acontece com uma educação mal adaptada que deforma rapidamente a mentalidade de um povo, o mesmo se verifica com comportamentos que aumentam o descontentamento, avolumam as paixões, radicalizam-nas, e fazem com que o bom senso escasseie, e a razão deixe de desempenhar a sua função de fiel da balança.
Nestes momentos de perturbação em todos os sectores da vida nacional são sempre os mais carenciados a pagar a factura. Os mentores dessas manifestações, os eventuais ou verdadeiros responsáveis nada sofrem e assistem contentes às manifestações e aos insultos da turbamulta. No difícil momento que o País atravessa, mesmo ressalvando os direitos que todos têm em reivindicar, as greves a que temos assistido ultimamente são mais a expressão de um egoísmo desmedido, de uma vergonhosa luta política, do que de uma verdadeira questão de justiça social.
Diz-se que vozes de burro não chegam ao céu, mas como zurrar ainda não paga imposto, aqui fica, em jeito de opinião, o meu zurro.





domingo, abril 15, 2012

UM FRENTE A FRENTE MATINAL


Aquela cara não me era estranha!...Então, ainda com os olhos ensonados, disse baixinho, não fosse a minha chefe ouvir e pensar que eu começava a tresler logo no começo do dia: «Eu conheço-te!...» Depois, com calma, arregalei os olhos e surpreso, mas sorridente, fixei a imagem. E então o espelho reflectiu uma cara ensaboada, o braço no ar e a máquina de barbear parada junto ao nariz. Era eu!.....
E sorri. E ao sorrir, as rugas do rosto fizeram-se mais notadas, e os olhos humedeceram-se levemente. E numa espécie de diálogo virtual com o espelho, interpelei a imagem. E como num rosário, – rosário da vida, com estações e mistérios!... – lá fomos desfiando as contas já puídas pela erosão do tempo, e já desbotadas pelos sóis que as alumiaram, e que depois as escureceram - emoções, anseios, alegrias, tristezas, esperanças, desilusões - todos os ingredientes de que é feita a vida, elas tudo guardam. São os símbolos vivos de muita coisa que já morreu!
Perdido nesta divagação íntima e silenciosa, deixei que a lâmina penetrasse mais fundo na pele. E voltei à realidade, regressei ao Presente. A imagem que o espelho reflectia era já diferente. Era a actual. Uma cara enrugada e carrancuda. Apenas uma réstia de um sorriso antigo tinha ficado esquecido no canto do olho...
O tempo não pára! E é talvez por isso que a nossa convivência com ele nem sempre é pacífica. Por vezes o relacionamento torna-se mesmo difícil. Sobretudo, quando na esperança de o fazermos parar, o corpo nos atraiçoa, reavivando as marcas que a passagem dos anos deixou.
O tempo não pára! Os anos passaram a correr e, a certa altura, é preciso assumir, com coragem e resignação, os estragos que eles deixaram na sua passagem.
Envelhecer é uma arte. E, como todas as artes, é preciso cultivá-la. Gostar dela. Admitir as suas limitações e brincar com elas. Cada idade tem os seus encantos. O que acontece é que muitas vezes não os sabemos procurar. Sucede também que, ao afirmarmos tudo saber pela experiência adquirida, cavamos um fosso à nossa volta. E somos rejeitados. As novas gerações são avessas a conhecimentos baseados na prática e na experiência. É a teoria que impera. Não adianta remar contra a maré. Envelhecer é uma arte. E nesta sociedade materialista em que vivemos ou a cultivamos e a renovamos constantemente, evoluindo e adaptando-nos aos novos ventos que sopram ou corremos o risco de cair no isolamento – essa ilha perdida no mar imenso que é a indiferença. A boa disposição e o bom humor são ajudas imprescindíveis. Não esqueçamos que o riso é como o limpa brisas do automóvel: - mesmo sem conseguir parar a chuva, ele permite que continuemos a viagem...






sábado, março 17, 2012

SONHO

Num dia triste de chuva e vento
Deixei ir meu pensamento
Em romagem de saudade…
Trouxe um saco de lembranças
Cheio de risos de crianças –
Recordações da mocidade!

Abri o saco com jeito
E depois contra meu peito,
Esquecendo o meu destino,
Acalentei essas quimeras
Doutros tempos, doutras eras
Sonhando que era menino!...

sábado, fevereiro 25, 2012

CARNAVAL


On peut rire de tout, mais pas avec tout le monde.
Pierre Desproges

Primeiro pensou em mascarar-se de Ministro, mas a mãe dissuadiu-o do intento: - «Nem penses nisso, filho. Já pensaste na figura ridícula que farias, qualquer que fosse a cara do que escolhesses?»
Anacleto reflectiu, reconsiderou, e resolveu então disfarçar-se de ladrão. No meio de tantos, era mais fácil passar despercebido...
Muniu-se de um velho saco de campismo, pôs dentro uma pistola-metralhadora em plástico, um velho alicate, um pé de cabra enferrujado, e ei-lo na rua. Mas logo ao virar da esquina, eis que surge uma farda: - «Em nome da Lei, abra lá o saco!...» E, apalermado, Anacleto, obedeceu. Abriu, e não conseguiu convencer a "autoridade" de que se tratava apenas de um disfarce: - «Com todo este arsenal onde vais, ó velhinho?!... Vá, andor, p'rá esquadra... e já!»
E naquilo que ele julgou ser a esquadra, a voz rouca do homem fardado: - «Chefe, aqui tem um figurão que apanhei agora mesmo...» Anacleto tentou falar, mas logo o outro se adiantou: - «Cala a boca. Só falas quando eu disser..». E, então, aquele que dava pelo nome de Chefe, começou a tirar do saco o material: - «Com toda esta sofisticada panóplia, com certeza que ias assaltar o Banco de Portugal, não?!..». Mas Anacleto arriscou: - «Mas chefe, eu sou um homem honesto e fiz tudo isto por ser Carnaval...» E a resposta não se fez esperar: - «Senhor agente chame aí o quebra-ossos que aqui o nosso amigo está a mangar com a tropa...» Mas a ordem foi suspensa, porque a cara do "preso" inspirava, de facto, compaixão. E o Chefe deixou que ele falasse. E ele expôs, calmamente, o seu caso, a sua brincadeira... E o homem dos galões achou até piada e quando se preparava para repreender o seu subordinado pela sua falta de tacto, notou algo de estranho: - «Ouça cá, ó soldado, o seu número de matrícula? Você não pertence a esta esquadra...» E o homem, confuso: - «Sabe, é que eu também não sou polícia... Como hoje é Domingo Gordo...» E o Chefe ameaçador: - «Com que então a brincarem aos polícias e ladrões?!... Bonito. Muito grave. Muitíssimo grave. Abuso de autoridade...Isto vai custar-vos caro!...»
E desatou a rir. E a chorar de tanto rir, lá conseguiu explicar: - «Nenhum de nós os três é aquilo que parece. Eu também não sou Chefe. O uniforme que trago vestido, é alugado. Como é Domingo Gordo...»
Claro que esta crónica é própria da quadra que atravessamos. Não quero, no entanto, deixar de lembrar que há muitas semelhanças entre a minha ficção e certas situações que quase diariamente presenciamos. É tão grande a confusão que reina actualmente cá no rectângulo que é muito difícil conseguirmos fazer a destrinça entre o que é falso e o que é verdadeiro...







quarta-feira, janeiro 25, 2012

UM DOMINGO À LAREIRA



Um Domingo frio de Janeiro. Um daqueles dias em que não apetece sair de casa, mas sim ficar á lareira. Há pouco, quando fui buscar lenha, mal abri a porta, um ventinho frio deu-me os bons dias e reforçou esse meu desejo.
E aqui estou olhando os troncos que ardem e aquecem a sala. Minha mulher entretém-se com os bordados e eu, música em surdina, vou lendo um livro de Erico Veríssimo que me foi oferecido por um dos meus filhos.
E, mesmo em Janeiro, o ambiente ainda tem feições de Natal. Parece haver ainda no ar aquele cheiro característico dos bolos que nos traz a recordação daquela magia indescritível dessa festa da família.
Não há dúvida de que somos nós que construímos a nossa história, que tornamos o nosso lar mais aconchegante, que aquecemos com afectos esses momentos de harmonia familiar. Os troncos ardem, as labaredas esgueiram-se chaminé acima em danças fantasmagóricas e o calor invade este cantinho, aquece o corpo e transmite-nos um bem-estar interior difícil de explicar. Quando a nossa casa é aquecida por um conforto espiritual, a vida tem um significado mais verdadeiro, mais significativo e é muito mais fácil de enfrentar!
Por vezes, os dois, aqui ao borralho, dedilhamos o rosário das nossas vidas olhando o passado, reflectindo sobre os erros que cometemos, as alegrias que vivemos, os momentos que poderíamos ter gozado e não gozámos.
De vez em quando, uma recordação mais terna da infância dos filhos ou uma lembrança mais triste duma despedida que poderia ter sido um adeus, conforta-nos a alma por termos sobrevivido e dá-nos mais ânimo para continuar a caminhada. E é nesta tranquilidade, nestes momentos a sós, nestes diálogos sobre o que passámos, que a vontade de viver se torna mais forte… É uma espécie de vingança contra o tempo que não vivemos!
Às vezes é o silêncio absoluto e só se ouvem os estalidos dos troncos. Mesmo agora, num desses silêncios, uma faúlha saltou da lareira, deixou um rasto luminoso no ar e veio cair na carpete, despertando-nos. E a imaginação, que percorreu milhares de quilómetros, que ziguezagueou pelo azul do céu, e sobrevoou locais longínquos como avião que espreita o campo de batalha, regressou!...
Nem sempre estes momentos de paz interior – embora interrompidos por silêncios que falam – são possíveis. Mas são momentos que ficam gravados e que nos ensinam a viver – o homem, por mais estudos que faça, por mais dotado que seja, por mais anos que conte, não passa de um simples aprendiz da vida. É que ela recomeça todos os dias e em cada dia que o sol nasce, ela é sempre nova, é sempre diferente…





ÀMANHÃ PODE JÁ SER TARDE...


Eis uma frase que adoptei como lema nos anos 60 e que ainda hoje me serve de guia. Em 1965 escrevi-a num papel e mandei-a copiar para uma chapa de ferro, que depois, e à guisa de brasão, encimei com uma casa em miniatura, no interior da qual coloquei uma lâmpada, que irradia luz.
Como na língua do País onde então me encontrava não existia o til, o copista substitui-o por um acento circunflexo.
Na altura pensei corrigir o erro, mas perante o sorriso de satisfação do “artista” quando me entregou a “obra”, desisti de o fazer. Afinal a gralha até tinha a sua piada, pois o amanhâ com o chapéu ficaria mais protegido das “intempéries” da vida!
Durante anos o “brasão” manteve-se afixado numa espécie de pátio da casa onde habitei. Era um espaço interior a céu aberto, com canteiros de flores e duas buganvílias, uma branca outra vermelha, e numa das paredes a casa do “Jacó”, um papagaio, que me dava os bons dias, mal abria a porta. Era lá que tomávamos o pequeno-almoço naquelas manhãs inesquecíveis de África!
À tarde, quando regressava do trabalho e entrava, o cumprimento não se fazia esperar: “Olá Manel!” – saudava ele numa imitação muito bem conseguida e complementada por várias vénias.
No meu regresso à terra natal trouxe-o comigo, mas não durou muito tempo. Talvez porque a variação do clima o tivesse fragilizado, a coccidiose pôs termo à sua vida. E confesso que a perda daquele velho amigo foi para mim um grande desgosto.
Mas, como tudo na vida, a divisa em questão tem uma história: Logo no início dos meus trabalhos no Continente Negro, e apesar de me encontrar num dos locais mais recônditos daquele País, longe de tudo e de todos, o primeiro dinheiro que ia ganhando, aplicava-o em variados utensílios de casa e em livros. Passados alguns anos pode dizer-se que tinha tudo o que é necessário numa casa -utensílios de uso diário, uma boa baixela, uma biblioteca onde podia esclarecer dúvidas, um rádio, por intermédio do qual, em onda curta, ouvia as notícias da Pátria distante, e até, confesso, coisas supérfluas.
No entanto, muitas vezes privávamo-nos de utilizar o que tínhamos para não estragar ou para, eventualmente, nos acompanhar aquando do regresso definitivo!
Guardávamos tudo quase religiosamente. Até que um dia… ficámos reduzidos à roupa que tínhamos vestida. Perdemos tudo! As convulsões políticas na região fizeram com que ficassem apenas as paredes da casa…
E eis o motivo por que a partir daquela data nunca mais deixei o certo pelo duvidoso, isto é, nunca mais deixei de sorver todos os momentos da vida e sempre que posso,“vivo o hoje como se fosse o último dia da minha vida”, porque...«Amanhâ pode já ser tarde...!»


sexta-feira, janeiro 06, 2012

POR QUE ESCREVO


Parece que foi ontem, mas a verdade é que há 23 anos, que preencho semanalmente este espaço.
O fim de cada ano é para mim como que uma prenda que ofereço a mim mesmo e um reconhecimento a todos os que me têm acompanhado nesta caminhada.
Colaboradores, correspondentes, assinantes, leitores, amigos, todos eles têm sido meus companheiros de viagem. E se o caminho é feito pelos nossos próprios passos, a beleza da caminhada também depende dos que nos acompanham.
Como todos sabem e como várias vezes o tenho dito, o acto de escrever
é para mim uma necessidade espiritual. É a forma de afastar para longe, o que a vida me negou, mas é também um hino de louvor por tudo o que ela me concedeu em troca.
É uma mistura de lágrimas e sorrisos. Lágrimas de outrora que já secaram e sorrisos que vou alimentando com esta força interior de querer continuar a luta, de tentar recuperar momentos irrecuperáveis!
Utopia? Talvez. Mas o que seria a vida sem sonhos, sem aquela faceta utópica que muitas vezes tentamos esconder?...
E é por isso que eu continuo a escrever. E faço-o, porque é como quem faz uma confissão. A sós. Sem padre, mas com a presença invisível de Deus. Com o amontoar dos anos, há momentos na vida em que a solidão nos cerca, e embora rodeados de muita gente, interiormente, precisamos de estar sós.
E com a música em surdina, aí vou eu em peregrinação interior percorrendo a vida, encurtando caminho, poupando os passos.
É uma viagem por dentro de nós, através de atalhos, e porque é longa a caminhada, não há tempo a perder. Por vezes, no caminho, a emoção cerca-nos e invade-nos a alma. Há ocasiões em que tropeçamos nos sorrisos que deixámos nos trilhos que percorremos, e é a alegria que se apossa de nós. Recordações, momentos que o tempo não apagou saltam da arca dos nossos sonhos e vêm fazer-nos companhia. E dialogamos. Um diálogo que acaba também por ser um monólogo entre passado e presente, mas a uma só voz. Um confronto que nem sempre é pacífico.
Escreve-se a vida, as gentes, os tempos, mas o acto de escrever é sempre um acto solitário. Sobretudo quando não nos movem interesses escondidos nem vinganças alheias e em que apenas denunciamos injustiças, lutando mais pelos outros que por nós próprios.
Escrevinhador de barba e cabelos brancos, escrevo também para resistir à marginalização e não deixar morrer a criança da alma, a alegria de viver, a espontaneidade do sorriso e a fé que sempre me alumiou. Neste tempo em que apenas se ouve a voz da conveniência, denunciar as injustiças é também como que rezar a Deus para que ponha cobro a tanta desumanidade.
E aqui têm, resumidamente, o motivo por que continuo a escrever.




































DOIS MIL E DOZE AÍ ESTÁ

Não quis Deus conceder-me os dotes de um Bandarra ou de qualquer outro adivinho e graças Lhe dou por isso. Tal mister não o quereria eu de livre vontade, tratando-se, como é o caso, de tão arriscada missão.
Estejam, pois, descansados os leitores que não vou impingir-lhes nem profecias nem vaticínios, aliás, coisas a que eu também nunca dei muita importância.
Promessas também não vou fazer, pois já nos bastam as dos nossos ilustríssimos políticos que de tantas que fizeram e de tão poucas que cumpriram, ficaram com tal reputação, que nenhum cidadão que se preze gostaria de ter, como é o meu caso.
Dir-me-ão, que o que me faz falar é a inveja, que é como quem diz as centenas de “eros” que eles embolsam todos os meses sem bulir uma palha!
Nada disso. Eu até pertenço ao número daqueles que concorda que um político competente deveria ganhar o dobro do ordenado e outro tanto em subsídios. No entanto como é difícil encontrar uma dessas “avis rara” não concordo que se faça tábua rasa e se paga a todos pela mesma tabela. Dessa maneira é o que se vê: em vez de uma equipa íntegra e eficaz que deveria saber governar, temos um bando de papagaios, que de tanto palrarem puseram o rectângulo no estado em que se encontra – falido. E hipotecado!...
Mas, deixemos de falar em desgraças e vamos ao que importa. O que venho hoje dizer-vos é que o próximo ano terá 12 meses e será bissexto; a Páscoa celebrar-se-á num Domingo, o Carnaval a uma terça e o dia da preguiça continuará a ser a segunda-feira.
No que se refere ao dia a dia nacional, manter-se-á o statu quo, isto é: os políticos continuarão a passar o tempo a atribuir as culpas uns aos outros para garantir os seus tachos; os sindicatos continuarão a decretar greves para justificar a sua existência e assegurarem os seus salários; o povo continuará a refilar, mas como “é sereno” tudo não passará de “fumaças”; o “ero” continuará na corda bamba e os especuladores continuarão a auferir os respectivos benefícios; o futebol continuará a movimentar multidões e a distribuir salários faraónicos; o número de ricos continuará a aumentar e o mesmo fenómeno se passará com os pobres, que aumentarão também; a cultura será cada vez mais abstracta e inculta, e o Zé pagante continuará a fazer das tripas coração.
Entrementes e para desviar a atenção do povoléu, abjuram-se os heróis e assalta-se a História suprimindo datas célebres com falsos pretextos. Quanto do fim do mundo que muitos anunciam para 21 de Dezembro de 2012, não acreditem. Ele vai acabando para os que vão morrendo. Tudo o que se disser em contrário é conversa da treta, tal como a dos nossos políticos.
Um bom ano para todos!


















ASSIM SE RENEGA A HISTÓRIA

O que ides ler foi escrito por etapas. Foram precisos três dias para conseguir escrever 464 palavras, alinhavar 2.200 caracteres, separá-los por 11 parágrafos e empilhá-los em 59 linhas!
No primeiro dia passei o tempo a escrever, apagar, reescrever, voltar a apagar, enfim um trabalho que se fosse feito no tempo do lápis e da borracha, seriam precisas umas boas dúzias de uns e de outras. Agora com o computador é mais fácil, mas nem por isso deixa de ser desgastante esta tarefa semanal de alinhavar estes rabiscos.
No segundo dia fiz uma lista com inúmeros assuntos, mas quanto a inspiração, nicles! A minha secretária particular que me segue há mais de meio século, bem tentava consolar-me: «Deixa lá, amanhã de manhã com a cabeça fria, vais ver que será mais fácil…»
Cabeça fria tenho eu sempre, pois com a boina rota e com o tempo frio que tem feito, não admira. Mas nada. Talvez os meus neurónios tenham congelado e emperrem o raciocino.
Mas hoje, terceiro dia, eis que se fez luz! Primeiro de Dezembro, feriado nacional, uma data simbólica – a da redenção da Pátria, da restauração da Independência.
E apressei-me a folhear o meu velhinho livro da História de Portugal. E vou lendo, pára aqui, recomeça acolá: «Nesta conturbada 25.ª Hora que é o nosso tempo, meditemos no seu alto significado e na magnífica lição que exprime. Meditemos tão sentidamente, tão sinceramente que, sempre que a Pátria esteja em perigo, imediatamente desponta na nossa alma a aurora estimulante da manhã radiosa do 1.º de Dezembro!»
E as palavras de Camões em 1580: «Morro, e comigo a Pátria!» E mais à frente como numa antevisão do que viria a acontecer: «Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos Fama! /O fraudulento gesto que os atiça / C’uma aura popular que honra se chama! / Que castigo tamanho e que justiça / Fazes no peito vão que muito te ama! / Que mortes, que perigos que tormentas, / Que crueldades neles experimentas!
A vida dos povos pode comparar-se á vida das pessoas com o magnificat dos seus triunfos e das suas glórias e com o de profundis dos seus desaires e das suas derrotas.
Mas estes últimos há quem não queira assumi-los e invente toda a espécie de subterfúgios para desviar a atenção do Zé-povinho. E tudo lhes serve. Nem a História pátria escapa.
Politicamente falando, há na verdade factos, que é melhor não recordar. Sobretudo quando se trata de comparar a energia viril dos grandes feitos de antanho com a subjugação e o egoísmo das atitudes do presente. E é talvez por isso que as nossas cabecinhas pensadoras se preparam para “apagar” da História essa data simbólica que foi o 1.º de Dezembro de 1640.














ESTÓRIAS DA HISTÓRIA

Costumo, de vez em quando, folhear os livros por onde estudei. Alguns, diga-se em abono da verdade, estão em fanicos. Mas, mesmo assim, gosto deles, e é sempre muito carinhosamente que os manuseio. Alguns têm ainda frases ou dedicatórias de antigos ou antigas colegas, e num deles, na página 26, há uma violeta mirrada, de folhas amarelecidas, que ficou esquecida!
Há coisas a que não demos importância enquanto jovens, mas que nos aparecem agora sob outra forma, isto é, despidas daquelas vestes coloridas e ilusórias que marcaram o figurino da nossa juventude.
E foi num dia destes, depois de reler a História de Portugal que cheguei à conclusão que, afinal, fomos sempre um povo de "libertadores".
E isso começou já em 1140, quando D. Afonso Henriques pôs a senhora sua mãe no seu lugar e libertou o Condado Portucalense. E desde então fomos vivendo, cai aqui, levanta acolá, até que os Filipes nos deitaram a manápula. Foram sessenta anos, caladinhos, e obedientes às ordens de nuestros hermanos.
Porém, com este nosso espírito de liberdade que herdámos do "homem que bateu na mãe", a pachorra atingiu o limite, e em 1640, sob as ordens de João Pinto Ribeiro, um punhado de libertadores, dirigiu-se ao Paço, encontrou o traidor escondido num armário e com um tiro imobilizou o verdugo, que foi depois atirado, por uma janela, tendo a mesma receita sido prescrita à teimosa Duquesa de Mântua: «se não saísse pela porta saía também pela janela...»
Depois, em 1908, dois "corajosos" assassinos mandados e "agindo em nome do povo" assassinaram cobardemente El Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, em nome de uma pseudo-república, que viria a tornar-se, como popularmente se diz, uma autêntica «república das bananas». E até 1928 "era rei morto, rei posto", sempre com o eterno sacrificado – o Povo.
A partir daí houve uma certa acalmia que durou cerca de quarenta anos, mas como o bichinho da liberdade nos roía cá por dentro, eis que surge outra libertação – a dos “cravos”.
E foi o início de uma nova era, que com o andar dos tempos e depois de muitas traquinices dos donos da quinta se transformou na “era dos cravas”, presidida por “Cocó, Ranheta e Facada”, mais conhecida por “Troika”!
Mas sosseguem os inconformados, porque o bichinho da libertação, apesar de muitos e variados insecticidas, não morreu. E a prová-lo estão as declarações de um “patriota” de Abril, que afirmou há dias que Portugal está “a atingir os limites” e como “há menos quartéis” um golpe de Estado seria mais eficaz.
Perante estes arrufos de libertação, apetece-me recordar as palavras do escritor francês Georges Duhamel: “Cristo quando falou ao Mundo, fê-lo como se ele fosse povoado de bons e de maus. Esqueceu os imbecis…”












quarta-feira, dezembro 21, 2011

NATAIS DISTANTES

Ao folhear as páginas amarelecidas dos arquivos da minha memória, misturam-se recordações de vários Natais.
Na primeira, quase ilegível, surge o Natal da minha infância, com noites escuras e frias. Parece que ainda ouço o matraquear dos socos e tamancos na calçada a caminho da Missa do galo na pequena Capela. Sem árvore de Natal, mas cheia de gente, numa mistura de surrobeco, xailes e capuchas. O cheiro a incenso e, no altar, deitado numa simples almofada, o Deus Menino, risonho, faces rosadas, braços abertos, com os dedos dos pés já gastos de tantos beijos...
Os cânticos entoados com devoção e fervor, sem instrumentos musicais: "Cristãos alegria que nasceu Jesus, a Virgem Maria no-Lo deu à Luz!..."
O regresso a casa, descendo a correr a escaleira de lousa que levava à capelinha. E já em casa, abrigado do frio, à lareira, a minha alegria, ao ver os pinhões que saíam das pinhas postas à beira do brasido entre panelas de ferro e a trempe que sustentava a sertã onde minha Mãe fazia as filhós!
Os brinquedos, quando os havia, eram pobres, quase todos saídos da marcenaria de S. José. Eram de madeira, mas tanta alegria que proporcionavam. A avaliação da riqueza depende da inocência de quem a recebe. E a felicidade varia conforme a humildade.
Natais da minha infância, já tão longe, mas ainda tão presentes. Natais da minha infância, dos brinquedos de madeira, dos carrinhos de lata, das caixas de lápis de cor...
Natais da minha infância!.. Natais sem presentes. Natais pobres de brinquedos mas tão ricos de significado e calor. Natais que permanecem vivos e saudosos até que a morte os reconstrua do lado de lá da vida.
Outros Natais estampados nas folhas desbotadas são aqueles que passei longe da terra-mãe, da família, e dos filhos.
E um deles, – o mais triste dos meus Natais – passado sozinho, na solidão dos trópicos, longe de tudo e de todos.
Sem filhós, sem presépio, sem Menino. Só com Deus. E foi desde esse dia que aprendi a rezar sem mexer os lábios e a chorar sem verter lágrimas.
Todo este arrazoado, como já devem ter percebido, para desejar um Bom Natal a todos.
A todos, mas em especial àqueles que lá longe, uns com alguma família, outros sozinhos, com eu em tempos, lutam por uma vida melhor e passam esta noite, este dia, recordando a família e a terra natal.
Uma noite e um dia cheios de felicidade, um dia bem vivido, um dia em que cada um se sinta feliz consigo, com a família e com aquilo que possui. Mesmo que seja pouco. A felicidade não decorre de possuir, mas de compreender.
Ao menos uma vez por ano, é bom que façamos uma pausa para despertar o sentimento de fraternidade. Esse sentimento tão nobre, mas cada vez mais esquecido. Esse sentimento imprescindível para que na terra haja paz entre os homens de boa vontade.
A todos, um santo e feliz Natal!












quarta-feira, dezembro 14, 2011

O MEU ZURRO


Já este ano falei sobre o assunto. Mas, porque há dias e de Norte a Sul do País as ruas se encheram de “grevistas”, eu continuo sem saber quais os benefícios que advieram do protesto tanto para os protestantes como para o País.
Aliás é minha convicção de que muitos dos que participaram no movimento, fizeram-no mais por arrasto do que por convicção pessoal. Não cabe na cabeça de ninguém de bom senso que no estado actual em que financeiramente nos encontramos, é saindo à rua, gritando e dizendo mal de tudo e de todos, que contribuímos para inverter essa situação.
Quando se faz parte de uma multidão, ninguém pertence completamente a si mesmo – «tem-se menos elevação nos sentimentos, menos firmeza na vontade, menos valor sob todos os pontos de vista, do que quando se pensa, sente e age isoladamente.» E, dessa maneira corre-se o risco de se deixar arrastar e apaixonar por visões confusas, que não correspondem nem ao que seria melhor nem aquilo que se pretende quando somos apenas nós mesmos a pensar. As multidões abafam e dominam a personalidade dos homens que nelas se enquadram e que muitas vezes até os desumanizam.
Sabemos que o fosso entre as desigualdades sociais se avoluma cada vez mais, mas é bom não esquecer que os mentores das greves, aqueles que enchem a boca com “o bem-estar do nosso Povo” nem sempre têm isso em vista.
Houve ainda há pouco eleições e foi eleito, democraticamente, um Governo que herdou do anterior uma situação financeira tão catastrófica quanto imoral – catastrófica pela sua incidência ruinosa no que respeita ao futuro, e imoral pelas injustiças praticadas contra os que menos têm em favor dos que têm em demasia.
Esquecer tais factos e não unirmos esforços para inverter a situação desastrosa em que nos encontramos é o mesmo que fecharmos os olhos, é sermos irresponsáveis a ponto de esquecermos que estamos a contribuir para um tenebroso futuro das gerações vindouras em que já estão incluídos os nossos filhos e os nossos netos.
Como acontece com uma educação mal adaptada que deforma rapidamente a mentalidade de um povo, o mesmo se verifica com comportamentos que aumentam o descontentamento, avolumam as paixões, radicalizam-nas, e fazem com que o bom senso escasseie, e a razão deixe de desempenhar a sua função de fiel da balança.
Nestes momentos de perturbação em todos os sectores da vida nacional são sempre os mais carenciados a pagar a factura. Os mentores dessas manifestações, os eventuais ou verdadeiros responsáveis nada sofrem e assistem contentes às manifestações e aos insultos da turbamulta. No difícil momento que o País atravessa, mesmo ressalvando os direitos que todos têm em reivindicar, as greves a que temos assistido ultimamente são mais a expressão de um egoísmo desmedido, de uma vergonhosa luta política, do que de uma verdadeira questão de justiça social.
Diz-se que vozes de burro não chegam ao céu, mas como zurrar ainda não paga imposto, aqui fica, em jeito de opinião, o meu zurro.




A REVOLTA DO ALFABETO

A princípio, quando vi o ajuntamento, pensei tratar-se de uma greve, mas como não havia megafones, bandeirinhas nem dísticos do “povo unido” e não lobriguei nenhum dos nossos bolorentos e habituais síndicos, vi que devia tratar-se apenas de uma reunião normal.
Contei-as e eram vinte e três, mas havia três que estavam um pouco mais longe e tinham um ar de quem está ansioso aguardando qualquer coisa nova.
Todas se mexiam constantemente sem, no entanto, se afastarem do lugar que ocupavam. Faziam lembrar o teclado do meu computador e só quando me aproximei mais é que dei conta de que se tratava de facto das letras do alfabeto.
Todas juntas pareciam, à primeira vista, uma espécie de bicharocos que abundam naquele tapete húmido da floresta virgem dos países tropicais e que, de vez em quando, põem a cabeçorra de fora!
Do A até ao Z lá estavam todas, e aquelas três de que acima falei, o K, o W e o Y, continuavam afastadas e desconfiadas talvez com receio de não serem bem recebidas pelas 23 que há muito faziam parte do conjunto que rege a nossa escrita.
Os acentos gráficos passeavam à volta das letrinhas e o que me pareceu mais agitado foi o hífen que parecia nervoso e apreensivo. O til fazia vénias por ter sido poupado e parecia não ter nada a ver com a situação que se estava a viver.
Não pude conter-me mais e perguntei o que se passava. Respondeu-me o ponto de admiração dizendo tratar-se de um plenário convocado a pedido de algumas letras do alfabeto furibundas com a sua despromoção com a entrada do Novo Acordo Ortográfico.
As que mais reclamavam eram o Cê e o Pê e segundo me confidenciou o hífen, – ele também descontente por o terem afastado de algumas ligações – não se conformavam.
A primeira, o Cê, porque afirmava que, para além de outros casos, uma acção apenas com cê cedilhado perdia a sua verdadeira identidade e a sua tradicional força para agir.
A segunda, o Pê, argumentava também que das muitas supressões a que fora sujeito, a sua ausência no baptismo, era a mais grave, pois ia de encontro aos sentimentos de qualquer cristão que se preze!
Entretanto o Dáblio e o Ípsilon, mantinham-se na expectativa e aguardavam a sua entrada no novo conjunto das 26 letras do novo Alfabeto.
Estava eu observando todos estes comportamentos quando, lá ao longe, avistei uma fila de calhamaços de várias cores que avançavam na minha direcção e cujas folhas tremelicavam assustadas – eram os Dicionários numa demonstração de solidariedade, pois também eles iriam ser substituídos por uma nova geração…
Não consegui assistir ao fim de toda aquela barafunda para contar como tudo acabou, porque o telefone tocou e eu acordei!...



































domingo, dezembro 11, 2011

VOLUNTARIADO- CORAÇÃO E ATITUDE

CENTRO SOCIAL DO TOURIGO, IPSS

SEMINÁRIO


Na passada tarde do dia 22, no Centro Social do Tourigo, o serviço de voluntariado e de partilha de fraternidade e vivência de todos os dias, teve faceta diferente.
Em organização daquele Centro, à volta de 120 pessoas estiveram ali para falar de “voluntariado”, ouvir testemunhos e partilhar experiências.
E se o tema do Seminário é Voluntariado: CORAÇÃO E ATITUDE, é porque o Coração deve estar na atitude, como a Atitude no Coração e convida já por si a reflectir sobre os temas dos painéis: “O Trabalho voluntário e as organizações”; “O que é Ser Voluntário” e “Testemunhos Pessoais” mostraram, como aliás ali foi realçado, que ser voluntário é concretizar um sonho, porque voluntário é aquele que se entrega de corpo e alma a uma Causa.
Tendo como Moderador, Jorge Leitão, os painéis tiveram a riqueza de várias áreas do voluntariado, trazidas por Oradores com larga experiência para “sensibilizar a opinião pública para a importância de que se reveste o voluntariado”, objectivo que o Centro Social do Tourigo, IPSS quis promover neste “Ano Europeu do Voluntariado”.
SESSÃO DE ABERTURA
Coube a Mónica Ferreira da Silva anunciar a abertura da sessão e convidar para a Mesa de Honra as diversas entidades que a iriam compor: o Presidente da Direcção do Centro Social do Tourigo, Manuel Ventura da Costa, o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Tondela, Dr. José António de Jesus, O Presidente da Assembleia de Freguesia, Idálio Costa Ventura, o Pároco da Paróquia do Tourigo, Padre Alcides Vilarinho, o Vice-Presidente da Direcção do Centro Social do Tourigo, António da Costa Ventura, o Presidente da Assembleia Geral do Centro Social do Tourigo, Nelson de Matos Almeida e a Assistente Social e Directora Técnica do Centro, Dr.ª. Rita Cardoso.
Manuel Ventura da Costa, primeiro Orador, depois de dar as boas vinda e saudar toda a assistência, agradeceu a presença do Dr. José António de Jesus que, representando a Câmara Municipal, vinha trazer a solidariedade institucional e a amizade pessoal. Agradeceu igualmente a disponibilidade dos palestrantes, que com o seu testemunho quiseram contribuir de maneira tão significativa para os objectivos do Seminário. Congratulou-se por tantos estarem ali empenhados em ouvir falar na importância de que se reveste hoje e cada vez, o voluntariado.
José António de Jesus, por seu lado, depois de manifestar o seu agrado por aquela jornada levada a cabo pelo Centro Social do Tourigo, lembrou as dificuldades crescentes que as instituições irão encontrar, lembrando que elas podem ser superadas pela força de vontade, pelo empenho, pela criatividade e pelo que cada um souber dar de si em favor do bem comum. E este testemunho do Tourigo é uma forma de estar atento.
1º. PAINEL – O TRABALHO VOLUNTÁRIO E AS ORGANIZAÇÕES
O Dr. Felisberto Figueiredo Marques (Rotary Club de Tondela) apresentou o tema: “Ser rotário é ser um voluntário”, situando a assistência, por um lado na génese do movimento rotário, como nasceu e cresceu e, por outro, no vasto âmbito de voluntariado que é a sua missão e que abrange o mundo inteiro, passando depois a descrever as acções desenvolvidas pelo Rotary Club de Tondela, nomeadamente na Universidade Sénior de Tondela, no apoio às famílias com camas articuladas e cadeiras de rodas para doentes, na parceria com a Liga dos Hospitais e apoio à Vários, em visitas a instituições de solidariedade social e participação, pelo Natal, junto de Lares e outras instituições, na colaboração, em Tondela, com o Banco Alimentar, entre outras.
A Dr.ª. Catarina Sobral (Presidente do Banco Alimentar de Viseu), cujo tema foi A importância do voluntariado no Banco Alimentar, trouxe à reflexão a importância daquele Movimento, que Tondela conhece e no qual participa, que envolve ao nível do país milhares de voluntários empenhados com o Movimento, mas também os que voluntariamente contribuem, com as suas dádivas, para que sejam atingidos os objectivos.
Explicou detalhadamente como o “Banco” funciona e o trabalho de parceria com as instituições que, depois, irão fazer chegar a ajuda ao local de destino. No fundo, pode considerar-se uma “Missão” de Amor.
O Dr. José Machado (Técnico da EAPN de Viseu) desenvolveu o tema: Os voluntários e a EAPN, dando a conhecer o que é a Rede Europeia Anti-Pobreza e a sua articulação com escolas, instituições e movimentos para a dinâmica do voluntariado.
A EAPN é uma organização não governamental empenhada no combate à pobreza e exclusão social, cujo trabalho em rede dinamiza informação (Fóruns, Worshop’s, sessões, edição de livros, etc).
2º. PAINEL – O QUE É SER VOLUNTÁRIO: TESTEMUNHOS PESSOAIS
Após uma breve pausa para café, teve lugar o 2º Painel, com a participação da Dr.ª. Ana Maria Faure e Dr. Hélio Domingues, este natural de Barreiro de Besteiros.
Dr.ª. Ana Maria Faure – Com vasto currículo na área da intervenção social, deu a conhecer as suas muitas e variadas experiências quer no Serviço de Apoio Domiciliário da Associação da Serra do Montemuro, quer no Centro Paroquial de Touro (Vila Nova de Paiva) ou na promoção de actividades culturais e de formação para a juventude, campanhas de sensibilização, quer ainda a riquíssima experiência que partilhou com a assistência da sua estadia em S. Tomé e Príncipe na Missão Leigos para o Desenvolvimento, coordenando a Cozinha Social de Água Izé. No fundo, um vasto e significativo trabalho de voluntariado, que também é estar onde é preciso estar.
Dr. Hélio Domingues – Actualmente é professor na Escola Emídio Navarro, em Viseu. Como voluntário desenvolve com os seus alunos campanhas solidárias, recolha de produtos, participações na recolha para o banco Alimentar; recolhas de material escolar.
Fez voluntariado nas Paróquia de Barreiro de Besteiros, São Marcos do Cacém e Campo Grande, Lisboa, como Animador Litúrgico, e na Comunidade Vida e Paz (Lisboa) – distribuição de alimentos aos sem abrigo e, ainda, no Hospital de Santa Maria. Foi ainda escuteiro em Viseu. Foi esse vasto e interessante testemunho de voluntariado que veio trazer-nos. E partilhar.
DEBATE
O debate que se seguiu teve perguntas, testemunhos e ressonâncias que enriqueceram o Seminário
ENCERRAMENTO
Os objectivos do Seminário – Promover o voluntariado no CST –, superou as expectativas e deixou desafios.
A encerrar a sessão, Manuel Ventura da Costa renovou os agradecimentos, tantos aos palestrantes como aos participantes no Seminário e enalteceu a ajuda, empenho e colaboração de toda a equipa de funcionárias do Centro Social do Tourigo, IPSS, mormente para a Secretária da Direcção Paula Ventura e Directora Técnica, Rita Cardoso, que com trabalho e devoção fez com que o dia ficasse assinalado na História da Instituição e demonstrasse que ser voluntário é compartilhar o que temos de mais precioso: amor, felicidade, sabedoria, tempo e também humildade.
Mónica Ferreira da Silva deu por encerrada a sessão, tendo convidado todos os participantes a receberem o “Certificado de Presença”.
Apesar de ficarmos gratos a todos os participantes, quer da Freguesia quer de fora dela, e sem menosprezo para a de quem quer que seja, pede-nos a Direcção do Centro do Centro Social para salientar a do Presidente da Freguesia de Barreiro de Besteiros, Sr. José Hélder Viegas, do nosso conterrâneo e Sócio Honorário. Sr. Padre Armando Costa e da Dr.ª Maria José Loureiro, Administradora da Folha de Tondela, também uma dedicada amiga do Centro Social do Tourigo.








sexta-feira, novembro 04, 2011

A ESCOLHA


Chegou a hora de todos pagarmos os erros e os abusos cometidos por alguns desses vendedores da banha de cobra da praça política. Não vale a pena estar aqui a alinhavar números ou a enumerar casos de um quotidiano que todos vamos conhecendo através das notícias que nos chegam e nos anunciam buracos atrás de buracos.
Uns mentindo, mais ou menos conscientemente, e outros porque acreditaram ou acreditámos que seria possível viver bem e desfrutar de todo o conforto à custa de “desvios”, défices e endividamento crescente, temos todos a nossa quota-parte de culpa no descalabro do País.
Como a de qualquer casa de família, a economia de uma nação é coisa delicada de mais para ser entregue a amadores ou a teorias lidas à pressa nas sebentas universitárias.
O amadorismo por si só não pode abarcar, em toda a sua complexidade, a realidade natural e humana do factor económico.
As sebentas académicas também não o conseguem, porque não ensinam a prática e fazem da economia um simples exercício de papel e esquadro.
Fala-se muito em estatísticas, em números, em rácios e eu sei lá no que mais, mas ao fim e ao cabo desconhece-se completamente a pura realidade das coisas e dos factos. Desconhece-se o País real!...
Legisla-se sem conhecer o verdadeiro impacto ou as consequências que poderão advir da aplicação da lei. Muitas vezes legisla-se para beneficiar o amigo sem olhar aos prejuízos que a medida pode causar em centenas, milhares ou milhões de cidadãos. Mas também aqui não vamos entrar em detalhes, porque são do conhecimento de todos as habilidades dos nossos malabaristas da política.
Chegou a hora e nada adianta protestar, blasfemar ou insultar. O desafio que se nos coloca ou melhor, o desafio que se coloca hoje às sociedades civilizadas é o de voltar a equacionar os problemas materiais e humanos com o coração e com a inteligência.
Não há outra via de salvação que não seja a do trabalho, mas um trabalho que sirva o homem e a comunidade e não o trabalho de que o homem se sirva em proveito próprio – aquele trabalho que produz riqueza e não apenas e somente serviços, pois também não se podem criar serviços sem produção que os pague.
As questões que nos dividem, infantilmente, entre siglas e slogans deviam envergonhar-nos. Temos diante de nós um futuro difícil. Devemos encará-lo unidos e com espírito de sacrifício. Greves, desacatos, manifestações, não resolvem o nosso problema. Não podemos continuar a reivindicar ilusões. O esforço tem de ser de todos. Mesmo que não tenhamos sido nós a contribuir para esta situação desesperada em que nos encontramos, temos de escolher: ou sacrificamo-nos e continuamos portugueses ou desistimos e passamos a simples pedintes andrajosos com o nome de “europeus”.

CARAPUÇAS


Há homens que recriam o mundo a partir de si próprio e que se julgam uma espécie de deuses. Acreditam que podem bastar-se sozinhos, que não precisam de ninguém, e só o que pensam e dizem é que conta.
Só eles sabem. Dizem-se detentores de toda a sapiência, arvoram-se em construtores de ideias e rejeitam quaisquer modificações à sua maneira de pensar. Tudo o que os outros fazem está mal feito e só eles podem fazer melhor. Não gostam de ser contrariados, nem aceitam que lhes digam que têm defeitos.
Os defeitos estão sempre nos outros, que não neles. Como todo o ditador que se preze eles precisam de público, de gente que com eles partilhe, que tenha os mesmos gostos, que cultive os mesmos ideais e, sobretudo, que faça da bajulação um sacerdócio, aplaudindo-os, elogiando-os, apoiando-os.
Raiva, ódio, maledicência e inveja são sentimentos que, ao mais leve sopro, podem explodir e atingir inocentes alheios às suas manobras e contrários à sua conduta.
Não há fronteiras para essa gente e na sua caminhada pela vida, não hesitam em fazer ataques com armas imorais como a difamação, a calúnia, a traição, o embuste, a mentira e a hipocrisia.
Nada os detém e envoltos num esfarrapado manto de superioridade, eles pavoneiam-se emproados, cheios de nada, tentando a todo o custo transmitir a imagem de que nada temem.
A arrogância é outra das suas armas de defesa, porque na sua maneira de pensar quem mais alto fala, mais facilmente é ouvido. Pobres deles!..
Insuflados de sentimentos de importância, usam sempre a primeira pessoa do singular no exagero dos seus feitos, nem sempre verdadeiros.
Têm obsessão por fantasias de sucesso ilimitado, procuram fama, poder e omnipotência. Procuram adulação, atenção e afirmação.
Não aceitam que deles discordem e vivem convencidos que merecem tratamento especial, sempre com prioridade em relação aos outros.
São invejosos e pensam que os outros têm o mesmo sentimento em relação a eles. Desconfiam de tudo e de todos. São, por tudo isso, uns eternos dependentes. Dependentes de uma fachada que criaram e cuja manutenção necessita de cuidados cada vez maiores. Com o rolar dos anos, com a erosão do tempo e a diminuição das forças, as aparências tornam-se cada vez mais difíceis de manter. E como neste mundo tudo é efémero, da falsa aparência que sempre ostentaram ficará apenas desencanto e frustração. Que não haja ilusões – o êxito pessoal depende sempre da humildade, da persistência e da lealdade com que procuramos realizar os sonhos que temos. Todos sabemos que o novo-riquismo mudou mentalidades. Veja se a carapuça lhe serve…









GENTES PACÍFICAS IGNORADAS

Antigamente o bilhete de identidade de grande parte das aldeias portuguesas do interior era constituído por uma Capela e por uma Escola.
A capela, onde geralmente aos domingos se celebrava a missa e se reuniam todos os habitantes e a Escola onde, de pequenino, se aprendiam as primeiras letras.
Com a junção de algumas formaram-se depois esses espaços geográficos que são as Freguesias com a sua Igreja Matriz e outros serviços, que a certa altura desempenharam um papel preponderante na vida nacional, sobretudo nos meios rurais.
Citando apenas um exemplo, houve um tempo em que o exame da 3.ª classe era feito na Escola da Freguesia, sem falar já na História desses aglomerados dispersos pelo País que eram anotados pelos párocos, nos livros de registo das Paróquias.
Mas, como é evidentemente, com o evoluir dos tempos a vida tudo mudou e pouco a pouco a aldeia começou a descaracterizar-se, tendo contribuído muito para isso a falta de visão futura dos governantes ao retirarem competência e serviços às aldeias em favor dos grandes aglomerados urbanos.
Assistiu-se em seguida ao êxodo das populações rurais que cada vez mais isoladas, e mais necessitadas dos mais elementares meios de sobrevivência, se viram obrigadas a rumaram às grandes urbes onde se fixaram e quase esqueceram as suas raízes.
Mas só quem vive em meios rurais pode avaliar o papel desses homens que estão à frente das Freguesias rurais, que lidam diariamente com as aspirações e os problemas dos habitantes e que muitas vezes lhes exigem soluções que ultrapassam a esfera das suas competências e atribuições. Eles são, de facto, uns verdadeiros «heróis da democracia»!
Mal pagos, por vezes mal interpretados, e quase sempre «bodes expiatórios» do não cumprimento de promessas de outros, são eles que à frente destes pequenos espaços geográficos dão o verdadeiro exemplo de abnegação e solidariedade, servindo, a troco de nada, o povo que os elegeu.
Agora que se fala muito na extinção ou fusão de Freguesias é de suma importância que essas decisões, a consumarem-se, sejam analisadas caso a caso e freguesia por freguesia. É urgente fixar as populações do interior, diminuindo as assimetrias entre a cidade e o campo. É urgente revitalizar o mundo rural, pois a ruralidade representa ainda a consciência da nossa verdadeira identidade cultural, com os seus valores, as suas tradições e as suas maneiras de viver, mais humanas, mais fraternas e mais solidárias. Não podem por isso os políticos voltar as costas ao país real e abandonar esses homens e mulheres que trabalham e cultivam os campos. É com essa gente humilde e simples, essa gente que se conforma com as alterações do clima que por vezes lhes destrói numa hora, o trabalho de dias e meses, que devemos aprender a lição da Fé e da esperança.
Uma lição que nos torna mais humanos, mais fraternos e nos aproxima mais de Deus. É esse o mundo dos que habitam os meios rurais. Um mundo de gente pacífica e, talvez por isso, quase sempre mais desfavorecida e ignorada.