sexta-feira, março 21, 2014

NUM MUNDO DE FICÇÃO


 

 
Neste mundo andamos todos com o tempo controlado. Mais dia, menos dia e, às vezes, sem tempo de fazer a mala, lá vai o indígena de viagem… E tanto pode levar uma carta de recomendação para S. Pedro, como uma carrada de processos arquivados para alimentar as fornalhas do Inferno!
Vem isto a propósito dos cuidados que devemos ter com a alimentação que fazemos. Como se não bastassem já as terríveis doenças que não têm cura, os "cientistas" de serviço ameaçam-nos agora com os venenos que diariamente ingerimos.
Dizem eles que desde a carne de vaca e do mercúrio dos peixes do mar, passando pelos pesticidas dos legumes, pelos metais pesados escondidos na água que bebemos, pelos nitritos da carne de porco, pelas gorduras saturadas dos fritos,  pelo colesterol da manteiga, pelas hormonas dos galináceos, andamos a meter cá para dentro coisas tão perigosas que é inevitável a explosão!...
Em face de todos esses perigos, e não só porque foi sempre meu desejo morrer velho e são, mas também porque quero adiar o mais possível a tal "viagem", decidi adoptar, como medida de precaução, as regras adequadas. Portanto, nada de carne de vaca... Apenas a de boi; peixe do mar, nem vê-lo... Apenas o enlatado; água, só para tomar banho... Para o resto, vinho; carne de porco, não entra na salgadeira... Somente a de porca; gorduras saturadas, nem pensar, porque fritos só com azeite virgem; manteiga, só ao pequeno-almoço e carne de aves só a de patos bravos que é o que mais abunda por aí...
No capítulo das sobremesas e por questões orçamentais, substituímos muitas delas pelo queijo. E perguntar-me-ão vossências: - "Mas por quê o queijo?” A que eu responderei: - Porque além de ser rico em cálcio e fortalecer os ossos, diz um ditado antigo que, quem comer muito, torna-se esquecido... E, meus senhores, nos tempos que correm, o esquecimento é o melhor e mais barato antídoto contra a loucura que nos rodeia!
Quanto ao ambiente, tomámos também as nossas precauções. Nada de cuspir para o ar... Antes fazê-lo para o chão. Contra a poluição, contra cheiros e gases, e no intuito de contribuir para uma atmosfera mais pura, erradicámos da alimentação os farináceos e, mais especificamente, o feijão. No jardim, e para adubar as roseiras, em vez de esterco, estamos a praticar a adubação virtual, espalhando, sobre a terra, mãos-cheias de promessas - um processo que além de estar na moda é muito mais barato... Podem estas medidas de nada servirem para adiar a partida para a outra banda. No entanto, porque vivemos num país fictício, há que alimentar sempre a esperança de que a ficção se converta em realidade!... 
 
 
 

INTERROGAÇÕES

 
 
 
Sempre a mesma interrogação a agigantar-se… Valerá a pena continuar a expor publicamente os receios que, interiormente, me atormentam face aos acontecimentos deste nosso complicado quotidiano?
Valerá a pena apontar e denunciar os males que corroem a nossa sociedade? Valerá a pena, neste nosso pequeno mundo materialista e desumanizado, dominado pelo egoísmo, pelo dinheiro, pela política e pelo futebol, denunciar injustiças?
Valerá a pena falar de pobreza, de exclusão social, de irresponsabilidade, de prepotência, de abuso de poder, de descriminação, de incompetência e de falta de humanismo? 
Valerá a pena chamar a atenção dos que têm tudo, e convidá-los a partilhar as sobras, com os que nada têm?
Valerá a pena, ir aos livros já esfarrapados da minha Universidade, – que foi a da Vida – folheá-los, e apontar exemplos, citar experiências, transcrever capítulos inteiros de factos vividos em que o trabalho, a humildade, a perseverança, o respeito, a educação e a honra foram os elementos criadores de homens íntegros, responsáveis, cumpridores, amantes da Verdade, da Justiça e da Moral?
Conseguirei penetrar no coração empedernido dos que vivem em mansões onde nada falta, e acordá-los, convidando-os a espreitar a miséria, o frio e a fome dos milhares de homens mulheres e crianças que vivem ou que se escondem nas ruas, por vezes, debaixo de um pedaço de cartão?
Valerá a pena apontar como urgente e imperiosa a necessidade da conjugação dos esforços de todos para uma total humanização nos sectores da vida nacional, mormente na saúde, na justiça, na educação e na segurança social?
Serei capaz de convencer os que mandam, fazendo com que exerçam o seu trabalho com inteligência, humanismo, justiça e com espírito de isenção e partilha?
Valerá a pena apelar aos que ocupam os mais altos cargos, aos que detêm o poder de decisão para que saiam dos seus confortáveis gabinetes de Lisboa e venham até ao País real, – não de fugida para inaugurar um chafariz ou um quilómetro de alcatrão – mas com tempo suficiente para se inteirarem do difícil dia-a-dia de muitos dos que neles vão votaram?!...
O drama das democracias reside essencialmente na infidelidade aos valores cristãos que lhes servem de alicerce. Presentemente, o que acontece é que enquanto se valoriza o dinheiro, assiste-se à vertiginosa desvalorização da honra e da moral. Daí estas minhas interrogações e, por vezes, a minha revolta perante tanta injustiça, tanta falta de escrúpulos e, sobretudo, tanta falta de seriedade e de vergonha.
 
 

 

 

 

 

 

O INCONSEGUIMENTO DO GOVERNO


 
Toda a gente sabe que o discurso político é, provavelmente, tão antigo quanto a vida do ser humano em sociedade. Já na Grécia antiga, o político era o cidadão da "pólis" (cidade, vida em sociedade), que, responsável pelos negócios públicos, decidia tudo em diálogo na "agora" (praça onde se realizavam as assembleias dos cidadãos), mediante palavras persuasivas. Daí o aparecimento do discurso político, baseado na retórica e na oratória, orientado para convencer o povo.
Este conceito tem vindo a esvaziar-se ao longo dos tempos e actualmente o discurso político é, na maior parte das vezes, um monólogo geralmente incompreendido pelo povo.
No meu tempo - no “antigamente” - dizia-se que Salazar mantinha o povoléu na ignorância para melhor o endrominar. Agora, que quase todos os cidadãos são doutores ou engenheiros, que todos sabem ler, escrever e contar,(?) há que inventar um novo vocabulário de maneira a que os “enteados” não percebam o que “os filhos da pátria” querem dizer nas suas manhosas lengalengas.
Por enteados queiram vossências saber que me refiro aos reformados que trabalharam uma vida inteira e agora vêem a sua mísera pensão retalhada e aos velhos, cuja reforma quase não chega para pagar a conta da Farmácia.
Mas voltando aos discurso, agora como nesses longínquos tempos, há que saber seduzir o “rebanho”, prometer-lhes verdes pastagens na ocasião apropriada, mas já com a ideia preconcebida de mandar fazer a “tosquia” logo que haja necessidade de angariar dinheiro.
E por falar em “rebanho”, hoje como ontem, e apesar de muito se falar em mudanças, “os carneiros”, tal os de Panúrgio, continuam a seguir em fila rumo ao abismo…
Mas vem este intróito, já um pouco longo, a propósito do vocabulário usado numa entrevista a uma rádio por uma senhora que se reformou ou a reformaram aos 42 anos depois de ter estado dez anos no Tribunal Constitucional e que agora ocupa o cargo de Presidente da Assembleia da República, auferindo uma pensão equivalente a 19 salários mínimos!
As palavras proferidas por Dona Assunção durante a sua arenga mostram à saciedade e duma maneira sui generis que a sabedoria do velho provérbio que nos diz que “com papas e bolos se enganam os tolos “ continua actual e com especial pertinência no discurso político.
Abram alas os lexicólogos e deixem passar estas novas sumidades que por detrás de palavras inexistentes nos dicionários, descaracterizando a nossa língua, renegando Fernando Pessoa, tentam dessa maneira camuflar todos os fracassos e todas as injustiças que têm cometido ao longo da sua governança. 
Ninguém deve ter percebido o que sua excelência quis dizer na sua, mas felizmente que o “inconseguimento” “frustracional” e o seu “soft power sagrado”, não conseguiram que o egoísmo e sobretudo a castração se propagasse em termos colectivos…
Mais um episódio a juntar a outros, e que nos vem mostrar que o “inconseguimento” do “ingoverno” é “frustracional” e castrador e que toda esta “palradela” serve também para nos “indeprimir”!...
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

A FALTA DE TOMATES

 
Muita gente se queixa de que, nos supermercados, tudo ou quase tudo o que ali se vende vem do estrangeiro.
À medida que os dias passam menos produtos portugueses se vêem à venda. Não vou aqui explicar os motivos que estão na base dessa escassez, pois todos sabemos a que se deve tal situação. Enquanto os políticos não se virem obrigados a pegar numa enxada para granjear aquilo que comem, a nossa agricultura não passará desta cepa-torta e até com tendência a acabar de vez. Parece que até os tomates, que havia em excesso, tem os dias contados…
Mas como não gosto de dramatizar e prefiro, antes, encarar as coisas com humor, um destes dias, ainda na cama, comecei a pensar e cheguei à conclusão de que, afinal não deve haver nenhum País que se possa gabar de que tudo o que se come ou se usa é exclusivamente obra sua.
Por exemplo este pijama que tenho vestido é oriundo da China e a cama em que me deito é um modelo concebido primitivamente na Pérsia ou na Ásia Menor.
O relógio que me diz que são horas de levantar é invenção da Europa Medieval. Depois, no quarto de banho, o vidro do espelho foi inventado pelos antigos Egípcios, enquanto o emprego dos ladrilhos de cerâmica do chão, começou no próximo Oriente e a porcelana do lavabo, na China.
A banheira e demais objectos sanitários são cópias de modelos romanos. A barba é também um rito instituído pelos sacerdotes do antigo Egipto, ao passo que o sabonete foi inventado pelos antigos gauleses e a toalha com que me enxugo, é turca! 
As roupas que visto são derivadas dos vestuários de peles dos antigos nómadas das estepes asiáticas e fecham-se com botões cujos protótipos apareceram na Europa no fim da Idade da Pedra!
A tira de pano que ponho ao pescoço, que dá pelo nome de gravata, é um vestígio dos xales que usavam os croatas do século XVII.
Venho tomar o pequeno-almoço e tanto os líquidos como a comida são apresentados em recipientes que tiveram origem também na China, ao passo que o garfo é uma invenção da Itália medieval e a colher é uma cópia do modelo romano.
O café é produzido por uma planta oriunda da Abissínia, a laranja foi aclimatada na região mediterrânea e os cereais são provenientes de plantas cultivadas no Próximo Oriente.
Terminada a refeição, ao sair, ponho na cabeça um pedaço de feltro, a que chamam chapéu e que foi inventado pelos nómadas do Oriente.
Receando as fantasias do tempo, levo um guarda-chuva, inventado na India.
Posto isto, meus amigos se, como dizem, o Mundo é uma bola que rebola e em cada volta que dá, muda a face das coisas, esperemos que um dia possamos também exportar alguns dos nossos fazedores de leis e com o dinheiro adquirido possamos cultivar de novo, pelo menos, tudo o que comemos. Incluindo tomates. Que não os de estufa. Mas os naturais e genuínos…     
 
 
 

UM MUNDO LOUCO


 

Não restam dúvidas de que o amontoar dos anos tem influência no funcionamento normal dos nossos neurónios.
E digo isso porque deve ser a ferrugem nas engrenagens dos meus que faz com que eu tenha cada vez mais dificuldades em compreender o mundo que me rodeia. É que, no meu entender, a vida actual processa-se a um a um ritmo tão desordenado, tão falho de sentido e de valores que não consigo vislumbrar uma alternativa para fugir do trilho que, fatalmente, nos conduz à loucura. Anda tudo louco!...
Quanto a mim, o mais difícil é conseguir a força mental necessária que me permita ficar indiferente ao que vejo, ao que leio e ao que ouço. Parece ter-se perdido a noção da realidade. Os problemas quer políticos quer sociais, são visto e encarados como meros combates ou simples espectáculos. Os protagonistas insultam-se, agridem-se, e nos intervalos exibem-se como palhaços de circo. É a confusão geral!... 
Há cerca de dois anos, citando uma velha máxima, escrevia eu: «onde todos mandam, ninguém manda, onde todos falam ninguém se entende e onde todos roubam não há ladrões...» Lembro-me de que na altura, um amigo me chamou a atenção para a última parte do aforismo, achando-a ousada de mais. Recordo-me ter- lhe dito que provérbios são provérbios e que não há regra sem excepção. Hoje talvez a minha resposta fosse diferente - se nas duas primeiras partes, o aforismo se mantém actual, no que se refere à parte final, infelizmente, as excepções, nesse capítulo, são cada vez menos.
É verdade que todas as sociedades têm problemas. Mas para que haja justiça e coerência na sua resolução é necessário que esses problemas sejam tratados de harmonia com o seu real valor e a sua verdadeira essência. Entre nós, faz-se o contrário e envereda-se geralmente pelo seu empolamento propositado, pela distorção, pela falta de rigor, pela falta de isenção, acabando quase sempre pela falta de respeito e de ética.
Na Assembleia da República é confrangedor e revoltante ver o procedimento de certos políticos que, refastelados nas cadeiras, esbracejam e riem, descaradamente, após a intervenção de um opositor. Os problemas mais importantes não se resolvem e passa-se o tempo em discussões estéreis, falando de tudo, menos do que interessa verdadeiramente ao País. Poucos trabalham e os que o querem fazer dificulta-se-lhes a vida… Um País sem rei nem roque! Um país virtual, pois agora até dizem que a “situação” está a melhorar!
Até as anedotas são mal contadas. E o resultado de tudo isto é a insegurança, a descrença e o mal-estar social. Não há dinheiro que chegue e nada mais fácil para o conseguir do que tosquiar o “rebanho” até o sangue jorrar. O que gera mais confusão na minha cabeça é que com todos estes actos tresloucados, haja ainda muita gente que, quando se fala em doidos, pense apenas nos manicómios!

sábado, fevereiro 08, 2014

NA IGREJA - COMEMORAÇÃO DOS 25 ANOS DA PARÓQUIA




Embora só em 15 de Janeiro de 1989 a Paróquia do Tourigo tenha sido criada e oficializada pelo então Bispo da Diocese D. António Monteiro, sendo Pároco o Padre Bernardo Simões, já há muitos anos que a povoação do Tourigo se podia considerar uma autêntica comunidade de fé.
Os valores cristãos vêm de longe e de tal maneira ficaram enraizados que ainda hoje prevalecem.
Com a elevação do Tourigo a freguesia - uma ideia há muito ansiada pela população - a criação da Paróquia agigantou-se e teve a sua concretização na data acima enunciada.
Poderíamos ir mais longe no tempo, mas basta irmos aos princípios do século dezanove em que existiu na povoação um Colégio, dirigido pelo erudito pároco Pe. Inácio Pereira Viegas, um dos Padres mestres mais acreditados em toda a Beira Alta.
Nessa altura a par da religiosidade do povo estava já muito divulgada a instrução e quase toda a gente sabia ler.
O Tourigo pode também orgulhar-se de ter sido berço de um ilustre Bispo, D. José Manuel de Carvalho que viria a ser Bispo de Macau e Timor e depois de Angra de Heroísmo. Seu sobrinho e secretário, Cónego Maximino Pereira Viegas seguiu o caminho traçado, exercendo aqui o seu sacerdócio e mandando construir em 1943 a Igreja onde hoje nos encontramos.
Referimos também a passagem pelo Tourigo das Irmãs Concepcionistas da Ordem da Imaculada Conceição que agora se encontram em Viseu e que permaneceram no Tourigo alguns anos por vontade de D. Hermínia, irmã do Senhor Cónego Maximino.
Outras figuras se destacaram na história cristã do Tourigo como é o caso de Cândida de Matos em religião Irmã Maria de Belém, do Padre Graciano, do Cónego Benito Bragança, do Padre Armando Costa, e de um Padre que merece especial referência que foi o saudoso Padre Bernardo Simões percursor da criação da Paróquia a quem se devem quase todas as iniciativas de caracter religioso, que hoje ainda prevalecem. De referir, a esse respeito, a estruturação da Paróquia segundo as orientações do Concílio Vaticano II – com a criação do conselho pastoral, conselho económico, tudo isto com a ajuda preciosa de leigos que se têm dedicado á paróquia com grade dedicação e empenho.
Estamos a tentar desenvolver, num pequeno opúsculo, mais em pormenor a vivência cristã da nossa Paróquia.

 

 

LENDA BÚLGARA


 
Quando somos surpreendidos com o anúncio da morte de alguém que nos é querido ou de alguém a quem estamos ligados por laços de amizade, há sempre um espaço de tempo, um vazio, uma espécie de incredulidade que medeia entre o sonho e a realidade!...
E são sempre as mesmas expressões que, espontaneamente nos saem dos lábios: «Quem diria que isto ia acontecer…» «Parece um sonho!...» «De um momento para o outro somos nada!...»
Mas é assim a Morte: imprevisível, traiçoeira e inesperada!...
E a pensar em tudo isso lembrei-me de uma lenda búlgara que li há anos e que vou contar:
Diz-se que certo dia Deus mandou a Morte ao mundo buscar a alma de um pai de família. A morte pegou do seu gadanho e dispôs-se a cumprir as ordens do Senhor. Bateu à porta e logo a dona de casa que era muito benfazeja, lhe ofereceu pousada e lhe pôs a mesa para que comesse.
- Não preciso de nada! - Respondeu a desconhecida. Venho apenas buscar a alma do teu marido.                   
Seguiu-se grande pranto: - «Ai que fico desgraçada sem pão para os meus filhinhos!» - bradava a esposa. - «Ai que ficamos orfãozinhos!» - choramingavam as crianças agarrando-se à Morte e pedindo-lhe que as atendesse...
E então a morte comoveu-se e deixou-os em paz. Entrou depois no Paraíso, disfarçadamente, julgando que Deus se esqueceria do recado que dera. Mas o pai do Céu não tardou a chamá-la a contas: - «Onde está a alma que te mandei trazer?» A morte desculpou-se a tremer:
- «Ó Senhor eram tantas as lágrimas e as súplicas das criancinhas que não tive coração de deixar aquela família em tamanha tristeza e penúria. Lembrei-me que seria mais acertado tirar do mundo tantos outros que nada produzem e que não fazem falta...»
E Deus com o rosto severo mandou de novo:
- «Desce ao fundo do mar e apanha a primeira pedra que encontrares...»
A morte obedeceu e trouxe a pedra. - «Abre-a ao meio e diz-me quem criou o vermezinho que lá mora?» - «Fostes vós, Senhor!» - «Quem o alimenta?» - «Sois vós, Senhor!»      
- «Ora se eu cuidei de um vermezinho que se cria no fundo do mar, pensas que me esquecerei dos filhos dos homens?!...»
E continuou: - «Doravante serás cega para não veres se são grandes ou pequenos, casados ou solteiros os que te mandar buscar. Serás surda para não ouvires os seus lamentos e serás muda para não dizeres ao que vais...»
E desde então a morte ficou cega, surda e muda e quando chega, vem disfarçada e ninguém a conhece...
Aqui fica a história. E apesar de não passar de uma lenda, ela esconde, debaixo do seu manto de fantasia, uma realidade à qual ninguém pode ficar indiferente.

 

 

 

 

 

 

OS PREPOTENTES E INFALÍVEIS


 

Tive sempre muita dificuldade em conviver ou trabalhar com pessoas prepotentes. Infelizmente, pese embora as penosas circunstâncias em que vivemos, o que mais se vê por aí são esses exemplares presunçosos, egoístas e geralmente mal formados.
O principal problema da prepotência é que ela parte de um princípio absolutamente improvável.
O prepotente julga-se sempre o mais apto, o melhor, o mais capacitado, o mais conhecedor seja qual for a área em que exerce a sua influência. Muitos deles conseguem até pensar que são “mais” e “melhores” em várias áreas simultaneamente!
Os prepotentes são pessoas de difícil trato, conseguem afastar os outros de si mesmo, estabelecendo uma certa distância em relação aos demais. Não são sociáveis, mas não percebem por que não o conseguem.
Os prepotentes têm complexos de inferioridade e por isso espezinham os outros, porque não conseguem suportar o seu sentimento interno de pequenez.
Um dos postulados mais básicos da filosofia já diz que, quanto mais se sabe, mais se sabe que não se sabe nada ou, dito de outra maneira, quanto mais conhecimento se adquire, mais se tem a noção de que ainda se tem muito que aprender.
Há ainda uma outra característica, talvez ainda mais perigosa, que é a infalibilidade. Os prepotentes acreditam que são infalíveis.
Eles nunca erram. Ou, se erram, não admitem que a culpa possa vir deles próprios. A culpa é sempre e só dos outros.
Como a prepotência anda sempre de braço dado com a arrogância - ambas filhas do mesmo complexo de inferioridade - o prepotente defende-se, passando certificados de ignorância e de incapacidade a tudo e a todos, sem nunca assumir que alguma vez se possa ter enganado.
Talvez eu tenha sido educado de forma errada mas, para mim, errar faz parte do processo de aprender. Para o prepotente, porém, a palavra “errar” não existe.
Nenhuma criança começa a caminhar quando completa nove meses de idade. Tudo, na Natureza, é feito por etapas, tudo faz parte de um processo: a criança começa por gatinhar, por dar quedas, por se levantar, manter-se uns instantes de pé e só depois de algum tempo consegue manter o equilíbrio e, finalmente atingir o modo normal da locomoção.
Durante a minha já longa caminhada tenho notado que aqueles que querem correr mais depressa subestimando a marcha do companheiro do lado, geralmente acabam, de facto, por chegar primeiro, mas enchem-se de tanta sapiência balofa que, terminam o “percurso” sozinhos, sem amigos que os aplaudam. Aprender a ser um cidadão de corpo inteiro é um processo crescimento contínuo.  E esse crescimento deve ser acompanhado de muita compreensão, de muito respeito pelos outros e sobretudo de muita humildade. Infelizmente vivemos numa sociedade onde o poder se confunde com prepotência. Não há vergonha, não há integridade. O nosso quotidiano é fértil nesses episódios.

 

 

 

 

 

 

 

 

TRABALHAR?!...


 
Apesar de esta história ser antiga e de se ter passado há muitos séculos, ainda continuamos todos a sofrer as suas consequências. Mas vamos a ela: era uma vez um senhor chamado Adão…

Adão e a companheira viviam regaladamente num local chamado Paraíso sem quaisquer preocupações, sem pagar renda de casa, isentos de IRS ou outros quaisquer impostos, sem presidentes, sem ministros, sem oposição, sem deputados, sem televisão, sem internet, sem telemóveis, sem poluição, alumiados apenas pela luz das estrelas!
Um dia, porém, Adão deixou-se levar pela conversa da consorte e desobedeceu a ordens superiores…
Vestiu fato de apurado corte, pôs gravata, arvorou-se naquilo a que hoje poderemos chamar de líder, encheu o peito de ar, queixou-se da falta de víveres frescos e trincou a maçã!...
E Deus não gostou! E indignou-se! E pô-los fora de casa tirando-lhes todas as regalias.
E à guisa de condenação deu-lhes como castigo – extensivo a todas as gerações vindouras - o cumprimento de uma tarefa humilhante e pesada a que deu o nome de Trabalho!
E aqui tendes caros leitores a verdadeira causa de todas as desgraças que atingem o Mundo e em particular o nosso rectângulo – O TRABALHO!
Não é por acaso que todos fogem dele. Aliás, com alguma razão, penso eu, pois tendo ele nascido de uma condenação divina, não deveriam, os crentes, excomungá-lo e evitar até qualquer privacidade com ele?
Seguindo esse critério e salvo opiniões em contrário dos especialistas na matéria, obrigar alguém a trabalhar não será um pecado? Não será incorrer na negação daquilo que nos ensinaram sobre a existência do tal Paraíso? 
Há quem condene os grevistas que fogem do trabalho como o diabo da cruz, mas bem vistas as coisas, algumas razões lhes assistem…
Aliás, se não houvesse trabalho, já repararam nos males que deixariam de nos afligir?
Não haveria impostos, não haveria sindicatos, não haveria greves, não haveria falências, não haveria ladrões por que não havia dinheiro; não haveria partidos políticos, porque não havia quem os subsidiasse; enfim, não havia tantas outras coisas más e tanta pouca vergonha...
Mas há ainda aqueles que defendem o trabalho e que não cessam de lhe atribuir predicados: “que o trabalho dá saúde, que sem trabalho não há pão, que o trabalho enobrece…”
E são, sobretudo, os “feitores” e os capatazes cá da quinta, que lançam esses boatos hipócrita e disfarçadamente, pois na verdade são os que menos fazem, mas que mais proveitos têm. Sem trabalhar…
Dir-me-ão que o que escrevi é uma forma jocosa de encarar um facto sério… É verdade. Mas também não é verdade que hoje tudo o que é sério é encarado com leviandade?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PERGUNTA SEM RESPOSTA


Como é possível que um ser capaz de pensar, sentir e de se cultivar tenha tido, ao que tudo indica, como primeiro antecedente, essa enorme família que é a dos grandes macacos?
Como e em que circunstância pode ele tornar-se nesta criatura elegante capaz de andar, de raciocinar, e graças à sua determinação e à tecnologia que criou, chegar ao ponto de dominar o Mundo?
Os “prés-homens” de há um milhão de anos caçavam, cultivavam plantas e viviam, devendo a sua subsistência ao respeito que nutriam pelo mundo que os rodeava. Nós, “homo sapiens-sapiens”, fazemos guerras, exploramos sistematicamente as reservas limitadas do meio em que vivemos, acreditamos na sua duração eterna e tapamos propositadamente os olhos para não vermos as injustiças, as guerras e a miséria!
Dizem alguns sábios que é devido a essa origem comum com o reino animal que herdámos um instinto agressivo que necessita de ser extravasado.
E invocam para o justificar o facto de num determinado momento da nossa evolução, termos deixado de ser vegetarianos e começarmos a matar, não só a caça, mas também o nosso semelhante…
Teoria talvez um pouco controversa, mas cuja discussão, no contexto dos tempos que estamos a atravessar, mereceria uma análise mais profunda, pois a evidência de certos factos e a explosão de alguns instintos bárbaros, são factores por de mais importantes para serem ignorados. Ainda que isso seja da exclusiva competência dos paleoantropólogos, ninguém, no entanto, me pode proibir de ter sobre o assunto a minha opinião. O simples facto de assistir, por vezes, a comportamentos tão primitivos quanto cruéis, leva-me a concluir que a evolução do ser humano atingiu o topo da escala e fiel às origens ele começa a inverter a marcha e não tardará muito que ele não vista de novo a pele do falecido pai, o famoso “Ramapithecos”!
E então será o seu regresso ao estatuto inicial de simples humanóide, sem qualquer diferença que o distinga dos membros da sua longínqua família.
No entanto não deixa de ser angustiante ver o homem, com um poder quase ilimitado, tornar-se incapaz de se controlar, contribuindo, ele próprio, para a sua destruição.
Sem pessimismos exagerados, mas olhando a dura realidade do dia-a-dia, não restam dúvidas que o Mundo se está a transformar numa grande floresta de anões indefesos…
Anões indefessos enfrentando gigantes tirânicos, que acompanhados pelo palrar dos papagaios e pelas momices bem orquestradas dos detentores do poder, depois de banquetes pantagruélicos e à guisa de eructações animalescas, vomitam leis em alívio próprio e desgraça alheia – é assim a versão moderna do primitivismo. E é por isso que, por vezes, eu pergunto a mim mesmo como será o homem do futuro….

Será um deus que caiu da abóboda etérea e ainda se lembra de onde veio ou um simples humanóide que emergiu da lama e a ela quer regressar?

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, janeiro 08, 2014

sábado, janeiro 04, 2014

QUEM SABE RESPONDER?!...



Adão e Eva, o par inicial,

Segundo o que na Bíblia tenho lido,

Foram expulsos do Éden terreal

Por comerem do fruto proibido.

 

Mas o que o Mundo ignora, creio eu,

É qual dos dois, Adão, melhor achou:

Se aquele paraíso que perdeu,

Se o outro paraíso que encontrou…

 

 

sexta-feira, janeiro 03, 2014

segunda-feira, dezembro 16, 2013

SONHOS


Aqui estou na quietude da noite, tonalidade da música quase no zero, a escrever sem saber bem por que o faço.
Será pela necessidade de esvaziar esta arca velha, de desabafar, de fugir de mim mesmo, de afastar o pensamento de toda esta balbúrdia que me rodeia e me incomoda? Ou de criar à minha volta, um mundo novo, com gente a sorrir, sem pressas e sem competições?
Utopia? Que o seja, mas sinto muitas vezes essa necessidade de reinventar esse outro mundo e esquecer aquele que me rodeia.
E nesse desejo, nessa ânsia, muitas vezes, sem me aperceber, esqueço-me de mim mesmo e invento outra personagem. Totalmente diferente. Uma silhueta quase irreconhecível, uma espécie de fantasma, que pouco dura e que acaba por desaparecer submersa nas vagas da minha própria imaginação.
É difícil fugir da aparência, da fachada, da máscara com que disfarçamos uma felicidade que quase nunca atingimos. É sempre difícil se não impossível despir completamente a indumentária que vestimos ao longo de muitos anos.
E é também difícil localizarmos no nosso imaginário aquele momento mágico em que nos foi oferecida a ocasião de optar, de escolher o rumo certo, aquele que agora, depois desta longa distância percorrida, pensamos teria sido o ideal... 
Mas será que alguma vez na nossa adolescência nos apercebemos desse momento enigmático, dessa encruzilhada de caminhos que a vida nos mostrou para podermos escolher o tal rumo certo?!...
É curioso como apesar de todos estes anos de peregrinação por este vale de lágrimas, esta ânsia de reinventar um outro caminho que não o percorrido, continue, de vez em quando, a atravessar-se no meu caminho colocando dúvidas e interrogações difíceis de satisfazer.
É curioso também que mesmo numa idade avançada se continue a sonhar e a ter pesadelos. Sobretudo pesadelos, porque os sonhos, quanto a mim, têm uma grande lógica interna e uma grande coerência interior. Eles permitem-nos, enquanto duram, alimentar esperanças dando-nos alento e reforçar ainda que ficticiamente, a nossa auto-estima... Todos nós temos virtudes e defeitos tornando-se por isso, e à medida que o tempo vai passando, mais importante consciencializarmo-nos das nossas imperfeições.
Bem sei que nesse turbilhão de ideias, nesse emaranhado de interrogações e sem possibilidade de voltar atrás, nos resta apenas dominar os sentimentos e substituir as tendências negativas pelas tendências positivas, lutar, reeducando-nos para a felicidade.
Não a felicidade completa, mas aquele estado de alma que nos proporciona todos os dias a alegria de viver em paz connosco, sem ódios, sem remorsos, sem alimentar sentimentos de inveja pelo vizinho do lado que é mais poderosos e rico. Às vezes ando ás voltas dentro de mim e mesmo consciente de que por mais voltas que dê não vou para lado nenhum, tento recriar, baseado no passado, um caminho diferente. Porém, como o passado, não se refaz, não se recria, mas também não se pode abjurar, volto ao ponto de partida – às interrogações, às reticências…
 E é sempre com um ponto final que termino estas minhas incursões àqueles momentos, a esse tempo que parou no tempo – ao meu tempo de criança.






DIVAGAÇÃO



Há dias em que a desilusão é mais forte e, então, isolamo-nos dentro de nós mesmos e damos asas à imaginação. E o pensamento voa, rodopia, desce, sobe, sempre em torno do mesmo eixo que é a Vida. A vida, este dia a dia cada vez mais materialista, mais cheio de risos amarelos, de sorrisos irónicos, de olhares de soslaio que mais parecem armas de agressão...
É assim a sociedade de hoje, competitiva, apressada, hipócrita e egoísta. Não há tempo sequer para uma introspecção serena e desapaixonada. São muitos os deuses, e os santos escondem-se por se sentirem deslocados no meio de tanta falsidade e ostentação.
Vive-se rodeado de uma corte de fingidos, de snobes, de manequins de plástico e de bonecas fúteis, cheias por fora e vazias por dentro. O que importa é aparentar aos olhos dos vizinhos e conhecidos, uma imagem adaptada aos ventos que sopram - roupagens da moda, altivez a condizer, e esse ar de gente fina, com olhar distante... e vistas curtas! Imitar, fazer de conta. Aparentar o que se não é, e não esquecer a regra fundamental da irmandade: bajular na frente e caluniar nas costas.
Perante esbanjamentos loucos não resistimos à tentação de perguntarmos a nós próprios, - que trabalhámos uma vida inteira e continuamos a trabalhar - como é possível, angariar fortunas em tão curto espaço de tempo e, aparentemente, sem grande esforço?!...
Talvez seja esse mais um "milagre" desta nova sociedade convencional que todos nós criámos. Todos sem excepção. Uns por vontade própria, outros porque não tiveram coragem de se opor, acomodando-se e sujeitando-se aos caprichos e desvarios dos mais fortes. Não há, pois, razões para queixas. Não há lugar para invejas, nem fundamento para acusações. Nem a Natureza, nem as leis que estiveram na formação da Civilização, têm quaisquer culpas. O Homem é o único culpado. Todos somos cúmplices. E não é por acaso que as nossas reacções a factos que deveriam ser denunciados se ficam apenas por um simples encolher de ombros. É o egoísmo a mandar, é o comodismo a sobrepor-se à personalidade e a transformar-nos em "escravos modernos" às ordens de "novos senhores". Os abusos da tecnocracia e os excessos do capitalismo financeiro, ao mesmo tempo que criaram novas classes sociais, originaram também novas injustiças.
E quando numa sociedade o dinheiro se sobrepõe à inteligência, à humildade, à solidariedade, e à generosidade, é caso para nos interrogarmos sobre o futuro. O tal futuro de que tanto se fala e que é já amanhã. O futuro para o qual será necessária uma nova doutrina social e humanista que dê resposta aos novos problemas sociais, que entretanto foram surgindo. E não será tarefa fácil quando até na feitura das leis intervêm interesses particulares e a sua promulgação se faz na ânsia da obtenção de contrapartidas.















O MUNDO RURAL E A CULTURA AUTÁRQUICA


A nossa sobrevivência como Nação depende da criação de uma sociedade mais justa, mais solidária e mais humana.
Para isso, e em primeiro lugar, a ciência política tem de ser alicerçada em valores e princípios sólidos passando a ser uma ciência dinâmica com o principal objectivo de promover o bem comum e a justiça social.
Só pelo caminho da solidariedade poderemos acentuar as desigualdades e as assimetrias entre as regiões, tornando-se por isso urgente investir na humanização da sociedade, na dignificação da pessoa humana e, sobretudo, na revitalização do mundo rural. Nestes últimos anos o nosso País transformou-se numa economia de serviços com uma grande concentração urbana e económica junto do litoral.
Desertificou-se o interior rural e descapitalizou-se a antiga classe média tradicional. Torna-se por isso urgente fixar as populações rurais e combater eficazmente as suas inúmeras e injustas desigualdades sociais.
Para que tal se concretize o Estado através das autarquias deverá ajudar directamente as famílias rurais que se encontram descapitalizadas e os planos directores municipais ou de desenvolvimento local deverão contribuir para a revitalização das aldeias fazendo com que as suas gentes se mantenham ou regressem às terras das suas origens.
E isso só se consegue se optarmos por um estado social e por uma economia humana que defenda políticas de solidariedade que dêem novas esperanças aos injustiçados e aos excluídos do progresso.
A descapitalização de muita gente ligada à agricultura e a pobreza crescente exigem políticas humanistas e sociais que restituam a dignidade aos trabalhadores do mundo rural.
Temos de descer à realidade palpável do quotidiano das famílias rurais e procurar as soluções concretas para resolver os seus verdadeiros problemas. E é nesse aspecto que os sucessivos governos têm falhado.
O interior está cada vez mais abandonado e a agricultura não pode ser o parente pobre da nossa economia. A agricultura familiar precisa de protecção e não pode ficar à mercê da sociedade de mercado sem o mínimo de organização. Urge implementar uma política para o Mundo Rural, defender e ajudar as populações que sempre viveram e trabalharam no campo, criando, ao mesmo tempo condições para que os mais jovens se fixem nas terras de origem.
As autarquias devem reger-se por uma cultura própria, humanista e solidária em que as pessoas estejam primeiro e que a política seja praticada como uma ciência dinâmica ao serviço das pessoas e do bem-comum.  Hoje quem se candidata a um cargo público tem de trazer consigo a educação, a formação, a capacidade de diálogo e sobretudo a humildade intelectual. Os gestores do futuro têm de ser humanistas e olhar a política como um acto de solidariedade. É minha convicção que o novo elenco municipal possui os predicados necessários para a aplicação de uma cultura autárquica que vise servir a causa pública e a melhoria de vida dos cidadãos. Sem quaisquer discriminações…








quarta-feira, novembro 13, 2013

PARAFRASEANDO...


A luta pela sobrevivência é cada vez mais renhida. E sendo o direito de viver um dos mais sagrados, não admira que os povos tomem cada vez mais consciência de que toda a gente tem, por direito natural, um lugar ao sol.
E nessa vontade incontida de encontrar esse lugar soalheiro, o mal é que, nos tempos que correm, tanto os povos como a s pessoas, tentam conquistá-lo levados por um sentimento de egoísmo tão feroz e dominador que não lhes deixa tempo disponível para a prática da verdadeira solidariedade e altruísmo.
Toda a gente sabe que as expressões direito dos povos e bem comum não passam de sofismas e ambiguidades usadas pela classe política nacional  para adormecer os ingénuos que ainda acreditam nesses manipuladores de consciências.
Vivemos numa Sociedade apostada num ânsia desmedida de prazeres e de proventos de ordem material. São muitas as diferenças entre as suas classes e enquanto a mais desfavorecida trava uma luta inumana para a sua sobrevivência, as outras, com mais ou menor sofreguidão, participam numa corrida desenfreada com o único objectivo de açambarcar a Vida para que dela possam matar a sua voraz fome de riqueza e de domínio.    
E o mais curioso e irónico é que esse demoníaco jogo, essa sede de lucros quer entre as classes quer entre as nações, tem sempre como “trunfo” essas ingénuas expressões direito dos povos e bem comum.
O Homem vai assim consumindo nessa vertigem de loucura, e quase sem se aperceber, os momentos de felicidade que a Vida lhe poderia oferecer se cultivasse os nobres sentimento de partilha e de solidariedade.
É tão grande a vontade de obter um cargo bem remunerado, que nem sequer se põe a questão da capacidade profissional. Os exemplos abundam, mas os mais flagrantes acontecem no campo da política em que a qualificação e a experiência de nada servem para a atribuição de cargos, alguns com chorudas remunerações.
Mais do que um diploma ou a possessão de conhecimentos científicos, literários, artísticos ou filosóficos, um simples cartão de um partido ou a cunha de um bom padrinho bastam para catapultar qualquer semi-analfabeto a um cargo superior!
A esta inversão de valores junta-se a degradação do sistema, acabando este binómio por estabelecer uma espécie de cumplicidade de que resultará mais tarde ou mais cedo a lei do vale tudo.
Diz-se alto e bom som que o país está à beira da falência, da ruina. E tudo indica que assim seja. No entanto, nesta nossa democracia caquéctica com um grupo de partidos que não se entende, mas que luta mutuamente em defesa do seu “estatuto”, é fácil concluir qual será o nosso destino como nação. A Imprensa traz-nos diariamente notícias de desvios de dinheiros, subornos e outras negociatas. Por vezes, de gente que ocupa altos cargos. De vez em quando, um figurão vai preso, mas não se passa disso…
Às vezes apetece-me parafrasear Almada Negreiros e dizer para com os meus botões que «é tão criminoso ser ladrão no meio de gente honesta, como ser honesto no meio de ladrões…»



«O POVO É SERENO...»


Os leitores já se devem ter apercebido da minha paixão pela nossa história antiga, mormente por documentos que traduzam o pulsar da nossa sociedade ao longo dos asnos.
De tudo o que tenho lido acabo sempre por concluir que o comportamento do nosso Povo e dos mandantes através dos séculos, pouco ou nada tem mudado e, quanto a mim, será muito difícil se não impossível esperar uma mudança dessa ancestral mentalidade.
Há várias explicações para o nosso pacifismo perante os algozes, mas todas elas não passam de meras suposições e nada mais.
E, a propósito, atentem no que se passa presentemente à nossa volta e leiam um excerto de um texto de Guerra Junqueiro escrito em 1896, há precisamente cento e dezassete anos. Escreveu ele, referindo-se aos Zés desse tempo e aos respectivos mandantes:
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Como os leitores podem verificar, este texto, escrito há mais de um século, está actualíssimo e mostra à saciedade, que por mais voltas que o Mundo dê, não mudamos. Os mandantes são iguais e «o povo é sereno, é só fumaça…” Lembram-se deste estribilho de um ex-ministro no “Verão Quente de 1975”?



NO SILÊNCIO DA NOITE


Vivemos numa sociedade tão competitiva, egoísta, invejosa e apressada que quase ninguém arranja tempo para um recolhimento interior. São poucos os que sacrificam uns minutos da correria para reflectir, não só no caminho percorrido, mas também na forma e no comportamento que devem adoptar na etapa desconhecida que falta percorrer.
Sempre com o vizinho à perna ou mesmo lado a lado, percorrem-se quilómetros muitas vezes sem trocar palavra, mas alimentando sempre na mente o desejo de chegar primeiro.
É assim a vida do dia-a-dia. Materialista e competitiva. Invejosa e apressada.
A cada passo, sobretudo nos grandes meios, cruzamo-nos com rostos chorosos, melancólicos que denunciam a ferocidade das lutas que se travam bem no fundo das suas almas.
São batalhas quase sempre motivadas por afrontas, por injustiças, desigualdades, e também pelo materialismo reinante nesta nossa sociedade actual que maltrata os honestos e privilegia os trapaceiros.
E nesta amálgama de sentimentos e de confusões são poucos os que conseguem escapar imunes às garras do pessimismo, do desânimo e do desespero!
Como é difícil conservar o optimismo num mundo em que as lutas não cessam e em que tudo se move, tudo se decide e tudo se consegue a poder de dinheiro! Muitos vivem alegres ou tristes consoante o saldo da sua conta bancária…
Tudo se vende, tudo se compra. Não há escrúpulos. Luta-se mais pelo Ter do que pelo Ser. Quando se tem, não importa o que se é. Não há barreiras. Não se respeitam valores, hierarquias ou sentimentos. O saldo do Banco funciona como um tira-nódoas…
E nada resiste a esse elixir: ofensas, calúnias, falcatruas, prepotência, injustiças, tudo isso desaparece após a sua aplicação. Muitas vezes, até a voz da consciência, impotente, emudece!
Talvez pela idade, em cada dia que passa, as minhas reflexões sobre a vida, tornam-se mais frequentes. E quanto mais profunda é essa reflexão, mais me convenço de que a afirmação cristã da vida é o caminho que nos concede mais dignidade humana e nos traz mais tranquilidade espiritual nesta sociedade em que o consumismo a todos tenta transformar em escravos do supérfluo.

Vai alta a noite, mas continuo a escrever. Deixo-me arrastar pela escrita e mesmo convencido que não vou a lado nenhum, que nada mudo, que ninguém “converto”, aqui continuo. E vou escrevendo, esquecendo o peso dos meus Invernos, pensando na Primavera, e trocando os encontrões do dia-a-dia por um pequeno nada da vida, por uma réstia de sonho.