sábado, fevereiro 08, 2014

NA IGREJA - COMEMORAÇÃO DOS 25 ANOS DA PARÓQUIA




Embora só em 15 de Janeiro de 1989 a Paróquia do Tourigo tenha sido criada e oficializada pelo então Bispo da Diocese D. António Monteiro, sendo Pároco o Padre Bernardo Simões, já há muitos anos que a povoação do Tourigo se podia considerar uma autêntica comunidade de fé.
Os valores cristãos vêm de longe e de tal maneira ficaram enraizados que ainda hoje prevalecem.
Com a elevação do Tourigo a freguesia - uma ideia há muito ansiada pela população - a criação da Paróquia agigantou-se e teve a sua concretização na data acima enunciada.
Poderíamos ir mais longe no tempo, mas basta irmos aos princípios do século dezanove em que existiu na povoação um Colégio, dirigido pelo erudito pároco Pe. Inácio Pereira Viegas, um dos Padres mestres mais acreditados em toda a Beira Alta.
Nessa altura a par da religiosidade do povo estava já muito divulgada a instrução e quase toda a gente sabia ler.
O Tourigo pode também orgulhar-se de ter sido berço de um ilustre Bispo, D. José Manuel de Carvalho que viria a ser Bispo de Macau e Timor e depois de Angra de Heroísmo. Seu sobrinho e secretário, Cónego Maximino Pereira Viegas seguiu o caminho traçado, exercendo aqui o seu sacerdócio e mandando construir em 1943 a Igreja onde hoje nos encontramos.
Referimos também a passagem pelo Tourigo das Irmãs Concepcionistas da Ordem da Imaculada Conceição que agora se encontram em Viseu e que permaneceram no Tourigo alguns anos por vontade de D. Hermínia, irmã do Senhor Cónego Maximino.
Outras figuras se destacaram na história cristã do Tourigo como é o caso de Cândida de Matos em religião Irmã Maria de Belém, do Padre Graciano, do Cónego Benito Bragança, do Padre Armando Costa, e de um Padre que merece especial referência que foi o saudoso Padre Bernardo Simões percursor da criação da Paróquia a quem se devem quase todas as iniciativas de caracter religioso, que hoje ainda prevalecem. De referir, a esse respeito, a estruturação da Paróquia segundo as orientações do Concílio Vaticano II – com a criação do conselho pastoral, conselho económico, tudo isto com a ajuda preciosa de leigos que se têm dedicado á paróquia com grade dedicação e empenho.
Estamos a tentar desenvolver, num pequeno opúsculo, mais em pormenor a vivência cristã da nossa Paróquia.

 

 

LENDA BÚLGARA


 
Quando somos surpreendidos com o anúncio da morte de alguém que nos é querido ou de alguém a quem estamos ligados por laços de amizade, há sempre um espaço de tempo, um vazio, uma espécie de incredulidade que medeia entre o sonho e a realidade!...
E são sempre as mesmas expressões que, espontaneamente nos saem dos lábios: «Quem diria que isto ia acontecer…» «Parece um sonho!...» «De um momento para o outro somos nada!...»
Mas é assim a Morte: imprevisível, traiçoeira e inesperada!...
E a pensar em tudo isso lembrei-me de uma lenda búlgara que li há anos e que vou contar:
Diz-se que certo dia Deus mandou a Morte ao mundo buscar a alma de um pai de família. A morte pegou do seu gadanho e dispôs-se a cumprir as ordens do Senhor. Bateu à porta e logo a dona de casa que era muito benfazeja, lhe ofereceu pousada e lhe pôs a mesa para que comesse.
- Não preciso de nada! - Respondeu a desconhecida. Venho apenas buscar a alma do teu marido.                   
Seguiu-se grande pranto: - «Ai que fico desgraçada sem pão para os meus filhinhos!» - bradava a esposa. - «Ai que ficamos orfãozinhos!» - choramingavam as crianças agarrando-se à Morte e pedindo-lhe que as atendesse...
E então a morte comoveu-se e deixou-os em paz. Entrou depois no Paraíso, disfarçadamente, julgando que Deus se esqueceria do recado que dera. Mas o pai do Céu não tardou a chamá-la a contas: - «Onde está a alma que te mandei trazer?» A morte desculpou-se a tremer:
- «Ó Senhor eram tantas as lágrimas e as súplicas das criancinhas que não tive coração de deixar aquela família em tamanha tristeza e penúria. Lembrei-me que seria mais acertado tirar do mundo tantos outros que nada produzem e que não fazem falta...»
E Deus com o rosto severo mandou de novo:
- «Desce ao fundo do mar e apanha a primeira pedra que encontrares...»
A morte obedeceu e trouxe a pedra. - «Abre-a ao meio e diz-me quem criou o vermezinho que lá mora?» - «Fostes vós, Senhor!» - «Quem o alimenta?» - «Sois vós, Senhor!»      
- «Ora se eu cuidei de um vermezinho que se cria no fundo do mar, pensas que me esquecerei dos filhos dos homens?!...»
E continuou: - «Doravante serás cega para não veres se são grandes ou pequenos, casados ou solteiros os que te mandar buscar. Serás surda para não ouvires os seus lamentos e serás muda para não dizeres ao que vais...»
E desde então a morte ficou cega, surda e muda e quando chega, vem disfarçada e ninguém a conhece...
Aqui fica a história. E apesar de não passar de uma lenda, ela esconde, debaixo do seu manto de fantasia, uma realidade à qual ninguém pode ficar indiferente.

 

 

 

 

 

 

OS PREPOTENTES E INFALÍVEIS


 

Tive sempre muita dificuldade em conviver ou trabalhar com pessoas prepotentes. Infelizmente, pese embora as penosas circunstâncias em que vivemos, o que mais se vê por aí são esses exemplares presunçosos, egoístas e geralmente mal formados.
O principal problema da prepotência é que ela parte de um princípio absolutamente improvável.
O prepotente julga-se sempre o mais apto, o melhor, o mais capacitado, o mais conhecedor seja qual for a área em que exerce a sua influência. Muitos deles conseguem até pensar que são “mais” e “melhores” em várias áreas simultaneamente!
Os prepotentes são pessoas de difícil trato, conseguem afastar os outros de si mesmo, estabelecendo uma certa distância em relação aos demais. Não são sociáveis, mas não percebem por que não o conseguem.
Os prepotentes têm complexos de inferioridade e por isso espezinham os outros, porque não conseguem suportar o seu sentimento interno de pequenez.
Um dos postulados mais básicos da filosofia já diz que, quanto mais se sabe, mais se sabe que não se sabe nada ou, dito de outra maneira, quanto mais conhecimento se adquire, mais se tem a noção de que ainda se tem muito que aprender.
Há ainda uma outra característica, talvez ainda mais perigosa, que é a infalibilidade. Os prepotentes acreditam que são infalíveis.
Eles nunca erram. Ou, se erram, não admitem que a culpa possa vir deles próprios. A culpa é sempre e só dos outros.
Como a prepotência anda sempre de braço dado com a arrogância - ambas filhas do mesmo complexo de inferioridade - o prepotente defende-se, passando certificados de ignorância e de incapacidade a tudo e a todos, sem nunca assumir que alguma vez se possa ter enganado.
Talvez eu tenha sido educado de forma errada mas, para mim, errar faz parte do processo de aprender. Para o prepotente, porém, a palavra “errar” não existe.
Nenhuma criança começa a caminhar quando completa nove meses de idade. Tudo, na Natureza, é feito por etapas, tudo faz parte de um processo: a criança começa por gatinhar, por dar quedas, por se levantar, manter-se uns instantes de pé e só depois de algum tempo consegue manter o equilíbrio e, finalmente atingir o modo normal da locomoção.
Durante a minha já longa caminhada tenho notado que aqueles que querem correr mais depressa subestimando a marcha do companheiro do lado, geralmente acabam, de facto, por chegar primeiro, mas enchem-se de tanta sapiência balofa que, terminam o “percurso” sozinhos, sem amigos que os aplaudam. Aprender a ser um cidadão de corpo inteiro é um processo crescimento contínuo.  E esse crescimento deve ser acompanhado de muita compreensão, de muito respeito pelos outros e sobretudo de muita humildade. Infelizmente vivemos numa sociedade onde o poder se confunde com prepotência. Não há vergonha, não há integridade. O nosso quotidiano é fértil nesses episódios.

 

 

 

 

 

 

 

 

TRABALHAR?!...


 
Apesar de esta história ser antiga e de se ter passado há muitos séculos, ainda continuamos todos a sofrer as suas consequências. Mas vamos a ela: era uma vez um senhor chamado Adão…

Adão e a companheira viviam regaladamente num local chamado Paraíso sem quaisquer preocupações, sem pagar renda de casa, isentos de IRS ou outros quaisquer impostos, sem presidentes, sem ministros, sem oposição, sem deputados, sem televisão, sem internet, sem telemóveis, sem poluição, alumiados apenas pela luz das estrelas!
Um dia, porém, Adão deixou-se levar pela conversa da consorte e desobedeceu a ordens superiores…
Vestiu fato de apurado corte, pôs gravata, arvorou-se naquilo a que hoje poderemos chamar de líder, encheu o peito de ar, queixou-se da falta de víveres frescos e trincou a maçã!...
E Deus não gostou! E indignou-se! E pô-los fora de casa tirando-lhes todas as regalias.
E à guisa de condenação deu-lhes como castigo – extensivo a todas as gerações vindouras - o cumprimento de uma tarefa humilhante e pesada a que deu o nome de Trabalho!
E aqui tendes caros leitores a verdadeira causa de todas as desgraças que atingem o Mundo e em particular o nosso rectângulo – O TRABALHO!
Não é por acaso que todos fogem dele. Aliás, com alguma razão, penso eu, pois tendo ele nascido de uma condenação divina, não deveriam, os crentes, excomungá-lo e evitar até qualquer privacidade com ele?
Seguindo esse critério e salvo opiniões em contrário dos especialistas na matéria, obrigar alguém a trabalhar não será um pecado? Não será incorrer na negação daquilo que nos ensinaram sobre a existência do tal Paraíso? 
Há quem condene os grevistas que fogem do trabalho como o diabo da cruz, mas bem vistas as coisas, algumas razões lhes assistem…
Aliás, se não houvesse trabalho, já repararam nos males que deixariam de nos afligir?
Não haveria impostos, não haveria sindicatos, não haveria greves, não haveria falências, não haveria ladrões por que não havia dinheiro; não haveria partidos políticos, porque não havia quem os subsidiasse; enfim, não havia tantas outras coisas más e tanta pouca vergonha...
Mas há ainda aqueles que defendem o trabalho e que não cessam de lhe atribuir predicados: “que o trabalho dá saúde, que sem trabalho não há pão, que o trabalho enobrece…”
E são, sobretudo, os “feitores” e os capatazes cá da quinta, que lançam esses boatos hipócrita e disfarçadamente, pois na verdade são os que menos fazem, mas que mais proveitos têm. Sem trabalhar…
Dir-me-ão que o que escrevi é uma forma jocosa de encarar um facto sério… É verdade. Mas também não é verdade que hoje tudo o que é sério é encarado com leviandade?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PERGUNTA SEM RESPOSTA


Como é possível que um ser capaz de pensar, sentir e de se cultivar tenha tido, ao que tudo indica, como primeiro antecedente, essa enorme família que é a dos grandes macacos?
Como e em que circunstância pode ele tornar-se nesta criatura elegante capaz de andar, de raciocinar, e graças à sua determinação e à tecnologia que criou, chegar ao ponto de dominar o Mundo?
Os “prés-homens” de há um milhão de anos caçavam, cultivavam plantas e viviam, devendo a sua subsistência ao respeito que nutriam pelo mundo que os rodeava. Nós, “homo sapiens-sapiens”, fazemos guerras, exploramos sistematicamente as reservas limitadas do meio em que vivemos, acreditamos na sua duração eterna e tapamos propositadamente os olhos para não vermos as injustiças, as guerras e a miséria!
Dizem alguns sábios que é devido a essa origem comum com o reino animal que herdámos um instinto agressivo que necessita de ser extravasado.
E invocam para o justificar o facto de num determinado momento da nossa evolução, termos deixado de ser vegetarianos e começarmos a matar, não só a caça, mas também o nosso semelhante…
Teoria talvez um pouco controversa, mas cuja discussão, no contexto dos tempos que estamos a atravessar, mereceria uma análise mais profunda, pois a evidência de certos factos e a explosão de alguns instintos bárbaros, são factores por de mais importantes para serem ignorados. Ainda que isso seja da exclusiva competência dos paleoantropólogos, ninguém, no entanto, me pode proibir de ter sobre o assunto a minha opinião. O simples facto de assistir, por vezes, a comportamentos tão primitivos quanto cruéis, leva-me a concluir que a evolução do ser humano atingiu o topo da escala e fiel às origens ele começa a inverter a marcha e não tardará muito que ele não vista de novo a pele do falecido pai, o famoso “Ramapithecos”!
E então será o seu regresso ao estatuto inicial de simples humanóide, sem qualquer diferença que o distinga dos membros da sua longínqua família.
No entanto não deixa de ser angustiante ver o homem, com um poder quase ilimitado, tornar-se incapaz de se controlar, contribuindo, ele próprio, para a sua destruição.
Sem pessimismos exagerados, mas olhando a dura realidade do dia-a-dia, não restam dúvidas que o Mundo se está a transformar numa grande floresta de anões indefesos…
Anões indefessos enfrentando gigantes tirânicos, que acompanhados pelo palrar dos papagaios e pelas momices bem orquestradas dos detentores do poder, depois de banquetes pantagruélicos e à guisa de eructações animalescas, vomitam leis em alívio próprio e desgraça alheia – é assim a versão moderna do primitivismo. E é por isso que, por vezes, eu pergunto a mim mesmo como será o homem do futuro….

Será um deus que caiu da abóboda etérea e ainda se lembra de onde veio ou um simples humanóide que emergiu da lama e a ela quer regressar?

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, janeiro 08, 2014

sábado, janeiro 04, 2014

QUEM SABE RESPONDER?!...



Adão e Eva, o par inicial,

Segundo o que na Bíblia tenho lido,

Foram expulsos do Éden terreal

Por comerem do fruto proibido.

 

Mas o que o Mundo ignora, creio eu,

É qual dos dois, Adão, melhor achou:

Se aquele paraíso que perdeu,

Se o outro paraíso que encontrou…

 

 

sexta-feira, janeiro 03, 2014

segunda-feira, dezembro 16, 2013

SONHOS


Aqui estou na quietude da noite, tonalidade da música quase no zero, a escrever sem saber bem por que o faço.
Será pela necessidade de esvaziar esta arca velha, de desabafar, de fugir de mim mesmo, de afastar o pensamento de toda esta balbúrdia que me rodeia e me incomoda? Ou de criar à minha volta, um mundo novo, com gente a sorrir, sem pressas e sem competições?
Utopia? Que o seja, mas sinto muitas vezes essa necessidade de reinventar esse outro mundo e esquecer aquele que me rodeia.
E nesse desejo, nessa ânsia, muitas vezes, sem me aperceber, esqueço-me de mim mesmo e invento outra personagem. Totalmente diferente. Uma silhueta quase irreconhecível, uma espécie de fantasma, que pouco dura e que acaba por desaparecer submersa nas vagas da minha própria imaginação.
É difícil fugir da aparência, da fachada, da máscara com que disfarçamos uma felicidade que quase nunca atingimos. É sempre difícil se não impossível despir completamente a indumentária que vestimos ao longo de muitos anos.
E é também difícil localizarmos no nosso imaginário aquele momento mágico em que nos foi oferecida a ocasião de optar, de escolher o rumo certo, aquele que agora, depois desta longa distância percorrida, pensamos teria sido o ideal... 
Mas será que alguma vez na nossa adolescência nos apercebemos desse momento enigmático, dessa encruzilhada de caminhos que a vida nos mostrou para podermos escolher o tal rumo certo?!...
É curioso como apesar de todos estes anos de peregrinação por este vale de lágrimas, esta ânsia de reinventar um outro caminho que não o percorrido, continue, de vez em quando, a atravessar-se no meu caminho colocando dúvidas e interrogações difíceis de satisfazer.
É curioso também que mesmo numa idade avançada se continue a sonhar e a ter pesadelos. Sobretudo pesadelos, porque os sonhos, quanto a mim, têm uma grande lógica interna e uma grande coerência interior. Eles permitem-nos, enquanto duram, alimentar esperanças dando-nos alento e reforçar ainda que ficticiamente, a nossa auto-estima... Todos nós temos virtudes e defeitos tornando-se por isso, e à medida que o tempo vai passando, mais importante consciencializarmo-nos das nossas imperfeições.
Bem sei que nesse turbilhão de ideias, nesse emaranhado de interrogações e sem possibilidade de voltar atrás, nos resta apenas dominar os sentimentos e substituir as tendências negativas pelas tendências positivas, lutar, reeducando-nos para a felicidade.
Não a felicidade completa, mas aquele estado de alma que nos proporciona todos os dias a alegria de viver em paz connosco, sem ódios, sem remorsos, sem alimentar sentimentos de inveja pelo vizinho do lado que é mais poderosos e rico. Às vezes ando ás voltas dentro de mim e mesmo consciente de que por mais voltas que dê não vou para lado nenhum, tento recriar, baseado no passado, um caminho diferente. Porém, como o passado, não se refaz, não se recria, mas também não se pode abjurar, volto ao ponto de partida – às interrogações, às reticências…
 E é sempre com um ponto final que termino estas minhas incursões àqueles momentos, a esse tempo que parou no tempo – ao meu tempo de criança.






DIVAGAÇÃO



Há dias em que a desilusão é mais forte e, então, isolamo-nos dentro de nós mesmos e damos asas à imaginação. E o pensamento voa, rodopia, desce, sobe, sempre em torno do mesmo eixo que é a Vida. A vida, este dia a dia cada vez mais materialista, mais cheio de risos amarelos, de sorrisos irónicos, de olhares de soslaio que mais parecem armas de agressão...
É assim a sociedade de hoje, competitiva, apressada, hipócrita e egoísta. Não há tempo sequer para uma introspecção serena e desapaixonada. São muitos os deuses, e os santos escondem-se por se sentirem deslocados no meio de tanta falsidade e ostentação.
Vive-se rodeado de uma corte de fingidos, de snobes, de manequins de plástico e de bonecas fúteis, cheias por fora e vazias por dentro. O que importa é aparentar aos olhos dos vizinhos e conhecidos, uma imagem adaptada aos ventos que sopram - roupagens da moda, altivez a condizer, e esse ar de gente fina, com olhar distante... e vistas curtas! Imitar, fazer de conta. Aparentar o que se não é, e não esquecer a regra fundamental da irmandade: bajular na frente e caluniar nas costas.
Perante esbanjamentos loucos não resistimos à tentação de perguntarmos a nós próprios, - que trabalhámos uma vida inteira e continuamos a trabalhar - como é possível, angariar fortunas em tão curto espaço de tempo e, aparentemente, sem grande esforço?!...
Talvez seja esse mais um "milagre" desta nova sociedade convencional que todos nós criámos. Todos sem excepção. Uns por vontade própria, outros porque não tiveram coragem de se opor, acomodando-se e sujeitando-se aos caprichos e desvarios dos mais fortes. Não há, pois, razões para queixas. Não há lugar para invejas, nem fundamento para acusações. Nem a Natureza, nem as leis que estiveram na formação da Civilização, têm quaisquer culpas. O Homem é o único culpado. Todos somos cúmplices. E não é por acaso que as nossas reacções a factos que deveriam ser denunciados se ficam apenas por um simples encolher de ombros. É o egoísmo a mandar, é o comodismo a sobrepor-se à personalidade e a transformar-nos em "escravos modernos" às ordens de "novos senhores". Os abusos da tecnocracia e os excessos do capitalismo financeiro, ao mesmo tempo que criaram novas classes sociais, originaram também novas injustiças.
E quando numa sociedade o dinheiro se sobrepõe à inteligência, à humildade, à solidariedade, e à generosidade, é caso para nos interrogarmos sobre o futuro. O tal futuro de que tanto se fala e que é já amanhã. O futuro para o qual será necessária uma nova doutrina social e humanista que dê resposta aos novos problemas sociais, que entretanto foram surgindo. E não será tarefa fácil quando até na feitura das leis intervêm interesses particulares e a sua promulgação se faz na ânsia da obtenção de contrapartidas.















O MUNDO RURAL E A CULTURA AUTÁRQUICA


A nossa sobrevivência como Nação depende da criação de uma sociedade mais justa, mais solidária e mais humana.
Para isso, e em primeiro lugar, a ciência política tem de ser alicerçada em valores e princípios sólidos passando a ser uma ciência dinâmica com o principal objectivo de promover o bem comum e a justiça social.
Só pelo caminho da solidariedade poderemos acentuar as desigualdades e as assimetrias entre as regiões, tornando-se por isso urgente investir na humanização da sociedade, na dignificação da pessoa humana e, sobretudo, na revitalização do mundo rural. Nestes últimos anos o nosso País transformou-se numa economia de serviços com uma grande concentração urbana e económica junto do litoral.
Desertificou-se o interior rural e descapitalizou-se a antiga classe média tradicional. Torna-se por isso urgente fixar as populações rurais e combater eficazmente as suas inúmeras e injustas desigualdades sociais.
Para que tal se concretize o Estado através das autarquias deverá ajudar directamente as famílias rurais que se encontram descapitalizadas e os planos directores municipais ou de desenvolvimento local deverão contribuir para a revitalização das aldeias fazendo com que as suas gentes se mantenham ou regressem às terras das suas origens.
E isso só se consegue se optarmos por um estado social e por uma economia humana que defenda políticas de solidariedade que dêem novas esperanças aos injustiçados e aos excluídos do progresso.
A descapitalização de muita gente ligada à agricultura e a pobreza crescente exigem políticas humanistas e sociais que restituam a dignidade aos trabalhadores do mundo rural.
Temos de descer à realidade palpável do quotidiano das famílias rurais e procurar as soluções concretas para resolver os seus verdadeiros problemas. E é nesse aspecto que os sucessivos governos têm falhado.
O interior está cada vez mais abandonado e a agricultura não pode ser o parente pobre da nossa economia. A agricultura familiar precisa de protecção e não pode ficar à mercê da sociedade de mercado sem o mínimo de organização. Urge implementar uma política para o Mundo Rural, defender e ajudar as populações que sempre viveram e trabalharam no campo, criando, ao mesmo tempo condições para que os mais jovens se fixem nas terras de origem.
As autarquias devem reger-se por uma cultura própria, humanista e solidária em que as pessoas estejam primeiro e que a política seja praticada como uma ciência dinâmica ao serviço das pessoas e do bem-comum.  Hoje quem se candidata a um cargo público tem de trazer consigo a educação, a formação, a capacidade de diálogo e sobretudo a humildade intelectual. Os gestores do futuro têm de ser humanistas e olhar a política como um acto de solidariedade. É minha convicção que o novo elenco municipal possui os predicados necessários para a aplicação de uma cultura autárquica que vise servir a causa pública e a melhoria de vida dos cidadãos. Sem quaisquer discriminações…








quarta-feira, novembro 13, 2013

PARAFRASEANDO...


A luta pela sobrevivência é cada vez mais renhida. E sendo o direito de viver um dos mais sagrados, não admira que os povos tomem cada vez mais consciência de que toda a gente tem, por direito natural, um lugar ao sol.
E nessa vontade incontida de encontrar esse lugar soalheiro, o mal é que, nos tempos que correm, tanto os povos como a s pessoas, tentam conquistá-lo levados por um sentimento de egoísmo tão feroz e dominador que não lhes deixa tempo disponível para a prática da verdadeira solidariedade e altruísmo.
Toda a gente sabe que as expressões direito dos povos e bem comum não passam de sofismas e ambiguidades usadas pela classe política nacional  para adormecer os ingénuos que ainda acreditam nesses manipuladores de consciências.
Vivemos numa Sociedade apostada num ânsia desmedida de prazeres e de proventos de ordem material. São muitas as diferenças entre as suas classes e enquanto a mais desfavorecida trava uma luta inumana para a sua sobrevivência, as outras, com mais ou menor sofreguidão, participam numa corrida desenfreada com o único objectivo de açambarcar a Vida para que dela possam matar a sua voraz fome de riqueza e de domínio.    
E o mais curioso e irónico é que esse demoníaco jogo, essa sede de lucros quer entre as classes quer entre as nações, tem sempre como “trunfo” essas ingénuas expressões direito dos povos e bem comum.
O Homem vai assim consumindo nessa vertigem de loucura, e quase sem se aperceber, os momentos de felicidade que a Vida lhe poderia oferecer se cultivasse os nobres sentimento de partilha e de solidariedade.
É tão grande a vontade de obter um cargo bem remunerado, que nem sequer se põe a questão da capacidade profissional. Os exemplos abundam, mas os mais flagrantes acontecem no campo da política em que a qualificação e a experiência de nada servem para a atribuição de cargos, alguns com chorudas remunerações.
Mais do que um diploma ou a possessão de conhecimentos científicos, literários, artísticos ou filosóficos, um simples cartão de um partido ou a cunha de um bom padrinho bastam para catapultar qualquer semi-analfabeto a um cargo superior!
A esta inversão de valores junta-se a degradação do sistema, acabando este binómio por estabelecer uma espécie de cumplicidade de que resultará mais tarde ou mais cedo a lei do vale tudo.
Diz-se alto e bom som que o país está à beira da falência, da ruina. E tudo indica que assim seja. No entanto, nesta nossa democracia caquéctica com um grupo de partidos que não se entende, mas que luta mutuamente em defesa do seu “estatuto”, é fácil concluir qual será o nosso destino como nação. A Imprensa traz-nos diariamente notícias de desvios de dinheiros, subornos e outras negociatas. Por vezes, de gente que ocupa altos cargos. De vez em quando, um figurão vai preso, mas não se passa disso…
Às vezes apetece-me parafrasear Almada Negreiros e dizer para com os meus botões que «é tão criminoso ser ladrão no meio de gente honesta, como ser honesto no meio de ladrões…»



«O POVO É SERENO...»


Os leitores já se devem ter apercebido da minha paixão pela nossa história antiga, mormente por documentos que traduzam o pulsar da nossa sociedade ao longo dos asnos.
De tudo o que tenho lido acabo sempre por concluir que o comportamento do nosso Povo e dos mandantes através dos séculos, pouco ou nada tem mudado e, quanto a mim, será muito difícil se não impossível esperar uma mudança dessa ancestral mentalidade.
Há várias explicações para o nosso pacifismo perante os algozes, mas todas elas não passam de meras suposições e nada mais.
E, a propósito, atentem no que se passa presentemente à nossa volta e leiam um excerto de um texto de Guerra Junqueiro escrito em 1896, há precisamente cento e dezassete anos. Escreveu ele, referindo-se aos Zés desse tempo e aos respectivos mandantes:
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Como os leitores podem verificar, este texto, escrito há mais de um século, está actualíssimo e mostra à saciedade, que por mais voltas que o Mundo dê, não mudamos. Os mandantes são iguais e «o povo é sereno, é só fumaça…” Lembram-se deste estribilho de um ex-ministro no “Verão Quente de 1975”?



NO SILÊNCIO DA NOITE


Vivemos numa sociedade tão competitiva, egoísta, invejosa e apressada que quase ninguém arranja tempo para um recolhimento interior. São poucos os que sacrificam uns minutos da correria para reflectir, não só no caminho percorrido, mas também na forma e no comportamento que devem adoptar na etapa desconhecida que falta percorrer.
Sempre com o vizinho à perna ou mesmo lado a lado, percorrem-se quilómetros muitas vezes sem trocar palavra, mas alimentando sempre na mente o desejo de chegar primeiro.
É assim a vida do dia-a-dia. Materialista e competitiva. Invejosa e apressada.
A cada passo, sobretudo nos grandes meios, cruzamo-nos com rostos chorosos, melancólicos que denunciam a ferocidade das lutas que se travam bem no fundo das suas almas.
São batalhas quase sempre motivadas por afrontas, por injustiças, desigualdades, e também pelo materialismo reinante nesta nossa sociedade actual que maltrata os honestos e privilegia os trapaceiros.
E nesta amálgama de sentimentos e de confusões são poucos os que conseguem escapar imunes às garras do pessimismo, do desânimo e do desespero!
Como é difícil conservar o optimismo num mundo em que as lutas não cessam e em que tudo se move, tudo se decide e tudo se consegue a poder de dinheiro! Muitos vivem alegres ou tristes consoante o saldo da sua conta bancária…
Tudo se vende, tudo se compra. Não há escrúpulos. Luta-se mais pelo Ter do que pelo Ser. Quando se tem, não importa o que se é. Não há barreiras. Não se respeitam valores, hierarquias ou sentimentos. O saldo do Banco funciona como um tira-nódoas…
E nada resiste a esse elixir: ofensas, calúnias, falcatruas, prepotência, injustiças, tudo isso desaparece após a sua aplicação. Muitas vezes, até a voz da consciência, impotente, emudece!
Talvez pela idade, em cada dia que passa, as minhas reflexões sobre a vida, tornam-se mais frequentes. E quanto mais profunda é essa reflexão, mais me convenço de que a afirmação cristã da vida é o caminho que nos concede mais dignidade humana e nos traz mais tranquilidade espiritual nesta sociedade em que o consumismo a todos tenta transformar em escravos do supérfluo.

Vai alta a noite, mas continuo a escrever. Deixo-me arrastar pela escrita e mesmo convencido que não vou a lado nenhum, que nada mudo, que ninguém “converto”, aqui continuo. E vou escrevendo, esquecendo o peso dos meus Invernos, pensando na Primavera, e trocando os encontrões do dia-a-dia por um pequeno nada da vida, por uma réstia de sonho.

sexta-feira, setembro 27, 2013

UMA REFLEXÃO QUE SE IMPÕE



Dentro de alguns dias, eis-nos de novo a dobrar o papelinho para depositar na caixinha a que, não sei por quê, se continua a chamar, morbidamente, urna...
Lá estaremos, então, a escolher os nossos representantes autárquicos, aqueles que no nosso entender melhor defenderam ou poderão defender os nossos interesses.
Vamos todos. É um direito que temos. E é a única arma que possuímos para fazermos valer a nossa liberdade. Usemo-la...
Quando não votamos, deixamos que os outros decidam por nós; perdemos esse poder de decisão própria, e ficamos à mercê daqueles que votaram, decidindo à sua maneira, muitas vezes manipulados e industriados por estranhos, que nem sequer conhecem a nossa terra.
Ao não exercer o direito de votar, o cidadão deposita a sua liberdade no vazio, deixando o caminho aberto a ideias estranhas, muitas vezes até totalmente divergentes das suas.
Não se trata, nestas eleições, de eleger senhores bem vestidos, bem nutridos e bem-falantes, que uma vez eleitos esquecem completamente os interesses dos que neles votaram.
Trata-se, isso sim, de "votar povo". Devemos por isso eleger cidadãos competentes, sérios, honestos que se nos afigurem capazes de continuar ou melhorar as nossas condições de vida, lutando pelo desenvolvimento e pelo nosso bem-estar.
Nas Autárquicas não deve haver "direitas nem esquerdas". O que há a ter em conta são as pessoas. A capacidade de empreender e de gerir, conjuntamente com a honestidade e o verdadeiro conhecimento das necessidades do concelho ou da freguesia em que residem, são as qualidades a ter em conta para a escolha.
Só quem vive em aldeias rurais do interior sabe dar valor ao trabalho do presidente de Junta. Quando devotado ao cargo, ele é uma espécie de faz-tudo e, muitas vezes, é ainda mal compreendido por não poder solucionar problemas que ultrapassam a esfera das suas competências.
É atendendo a tudo isso que é necessário escolher um cidadão cujo perfil englobe não só as qualidades acima expostas, mas também uma apreciável dose de abnegação, espírito de sacrifício e, sobretudo, muita tolerância e muita paciência. 
Façamos uma escolha acertada. Não nos deixemos seduzir nem pelo folclore, nem pelas promessas "gordas"...
«Nunca se mente tanto como antes de uma eleição, durante uma guerra ou depois de uma caçada...» - disse em tempos - e com razão- um célebre diplomata e político alemão.  




A CAÇA AO VOTO


Diz um antigo provérbio que “com papas e bolos se enganam os tolos”. De facto, quem estiver atento às manobras políticas que giram à nossa volta, logo dará conta da veracidade do rifão. É o papaguear do costume…
Quase todos os políticos continuam, nas suas intervenções escritas, orais ou televisivas a fazer crer que no cenário político actual há, entre os partidos a que pertencem uma luta pela hegemonia ideológica de cada um deles. Mentira!...
Toda essa lengalenga não passa de conversa fiada que tem como objectivo principal conquistar a simpatia de quem os ouve na mira de obter votos que os catapultem aos lugares cimeiros da governação.
Com a repetição dos mesmos erros, dos mesmos procedimentos, das mesmas artimanhas, os partidos políticos que temos vão se transformando em simples grupos de homens evidenciando todos a mesma ambição pelo poder, servindo-se sempre da falaciosa promessa de fazerem “mais e melhor do que o seu antecedente”.
Assistimos assim, e vinda de todos os quadrantes políticos, à desvirtuação descarada do sistema democrático em que, na teoria, todos se dizem defensores do bem comum, da solidariedade, da justiça social, quando na prática todo esse jogo se traduz no mesmo engodo para atrair os incautos,
Se reflectirmos um pouco sobre o "discurso político" com que os malabaristas da política todos os dias nos martelam os ouvidos, facilmente descobrimos que a diferença reside apenas nas siglas.
O objectivo é igual, o bombo continua a ser o mesmo e os meios e processos de fazer e de interpretar em nada diferem.
A escolha dos servidores do estado que se devia fazer pela competência e pela seriedade, passou a fazer-se tendo apenas em conta as cores "clubistas" sem respeitar, por vezes, os mais elementares critérios de selecção.
Apoiados em aparelhos de marketing e fulanização sabiamente enroupados, usando uma linguagem a que chamam economicista, que os leigos (aqueles que ainda trabalham) não compreendem, vai aumentando o número dos que nada sabem, mas que mais ganham.
Essa prática de amontoar protegidos vai crescendo dia após dia. E todos eles salvo raras excepções o que procuram é mais riqueza, melhores condições de vida e mais desafogo económico.  
Se os estribilhos das “canções” dos vários partidos divergem na letra, eles são, apenas e só uma versão diferente, da mesma música. E apesar de quase todos os executantes da banda pouco perceberem da dita e tocarem apenas de ouvido, cada vez é maior a sua apetência pelas “notas” que a Troika nos vai emprestando a troco de enormes sacrifícios, que são suportados apenas pelos que mais precisam e menos têm. 
Com o decorrer dos anos mais convencido fico de que, em eleições, não se discutem ideias – combatem-se homens e procuram-se êxitos espectaculares, desorientando e confundindo as consciências.









O AMOR


Os leitores que conhecem o número de Invernos que transporto no meu saco de viagem vão, com certeza, rir-se do título desta minha crónica de hoje. Mas é verdade, amigos. O amor não envelhece. É sempre menino…
Existem muitos amores, mas existe sempre um amor especial que não se pode definir e que muitas vezes nos transcende, que não admite passado nem futuro. Uma marca cósmica que muitas vezes se torna difícil de descobrir no emaranhado das tempestades do coração.
Mas afinal o que é o Amor?
Folheei páginas e páginas de livros velhos e esfarrapados, e foi num livro do século passado que encontrei uma referência a esse estado de alma, a essa metamorfose que transforma os meninos em homens e os homens em meninos.
Segundo a descrição que li, depois de demorados e minuciosos estudos, dois reputados cientistas chegaram à conclusão de que o Amor é uma doença mental e física, uma espécie de bacilo que ainda não foi identificado. É assim como que uma espécie de veneno que tanto pode matar como salvar. E é tanta a sua influência que, frequentemente incita ao crime…mas também tem feito muitos milagres!
O Amor é uma das heranças mais perigosas que recebemos do passado, mas que continua a ser perpetuada e alimentada por poetas, literatos e por todos nós em geral.
E são várias as interpretações: há quem lhe chame uma doença; há quem o defina como um impulso repentino com consequências imprevisíveis, e há ainda quem afirme que o Amor é como uma droga que cria um estado de dependência!
Em tempos recuados esses “bichinho “chegou até a ser classificado como um “civilizador” porque sabia adoçar a grosseria dos costumes primitivos. Mas era também o temor dos homens e dos deuses. Conta-se que Júpiter prevendo os males que ele poderia causar, quis obrigar Vénus a separar-se dele!... Muitos o amaldiçoaram também e lhe chamaram a cicuta da vida…
Porém tal como acontece com todos os venenos conhecidos pela ciência, o veneno do Amor pode também produzir efeitos benéficos.
Mas eu volto a insistir e a perguntar: mas afinal o que é o amor?
De todas as definições que tenho lido, é nas palavras de Saint-Exupéry que encontro a melhor: «O amor é não sei o quê, que vem não sei de onde e que acaba não sei quando…»
O que é certo, e como diz um provérbio africano, «quando se ama, nunca é de noite…» E este “amar” não diz apenas respeito à mulher, mas a tudo o que fazemos na vida, quando o fazemos com amor.













sexta-feira, setembro 06, 2013

PORTUGAL A ARDER


 
Há anos, e apesar da lengalenga dos nossos políticos a respeito da prevenção de incêndios, o resultado está à vista - culturas queimadas, habitações destruídas, corpos calcinados e centenas de hectares ardidos. Assistimos assim ao desaparecimento de grande parte da nossa floresta. Montes verdejantes vão-se transformando em autênticas paisagens lunares e se alguma coisa ainda nos resta, podemos agradecê-lo à boa vontade, à coragem e à abnegação dos nossos Soldados da Paz, motivados apenas por sentimentos de solidariedade e de altruísmo.
Todos nós sabemos que estes fogos de Verão não se podem apagar com paliativos de última hora. O combate aos incêndios florestais do Verão deve começar no Inverno... E não com discursos palavrosos e ocos com que os nossos sapientíssimos políticos tentam endrominar os ingénuos. A abertura de caminhos e aceiros, a construção de pontos de água são factores fundamentais muitos falados em inaugurações e campanhas, mas completamente esquecidos quando se trata da sua concretização.
Sendo a prática de atear fogos um puro acto de terrorismo e até de terrorismo planeado, não só os culpados como os cúmplices, deveriam ser castigados com penas que desmotivassem a execução de tamanhos crimes. Porém, o que se verifica, é que, na maior parte dos casos, a pretexto de qualquer tara mental (quase sempre inexistente!), culpado e cúmplices, depressa são postos em liberdade. Os fogos combatem-se com água, mas também com medidas repressivas. E parece que isso não é assim compreendido pelos responsáveis. Não haverá, à semelhança do que acontece com outras práticas escuras que por aí abundam, a cumplicidade de poderosos com braço comprido?
Os incendiários são presos, mas são logo postos em liberdade, porque sofrem de perturbações mentais ou são indivíduos “traumatizados” pela droga ou pelo álcool. É assim que funciona a justiça. 
Já no longínquo Verão de 2000, o ministro, Fernando Gomes, distribuiu pelos pastores um binóculo, um boné, um casaco e um telemóvel e promoveu-os a "guardiões da floresta". A operação custou 125 mil euros em material e mais 25 mil para chamadas. Quem ficou a ganhar foi quem vendeu o Kit, porque de resultados práticos nunca ouvi falar. Treze anos depois nada se aprendeu e se formos ver o que as Autarquias gastaram em prevenção, facilmente encontramos a explicação para tanta morte e tanta desgraça!
Há dinheiro para festas, inaugurações, e outros divertimentos, mas não para abrir aceiros ou construir pontos de água nos locais mais apropriados das matas. Em 2000, quem lucrou foi quem vendeu os Kits. Hoje são as Empresas que alugam helicópteros e aviões. Morrem bombeiros, ardem matas, culturas, habitações, fica gente na miséria, mas ninguém é responsável. Uma espécie de fatalismo está a criar-se na maior parte das mentes portuguesas. Somos um povo de acomodados. Não sabemos até quando, mas as revoluções não começam todas da mesma maneira.











PORTUGAL A ARDER

Há anos, e apesar da lengalenga dos nossos políticos a respeito da prevenção de incêndios, o resultado está à vista - culturas queimadas, habitações destruídas, corpos calcinados e centenas de hectares ardidos. Assistimos assim ao desaparecimento de grande parte da nossa floresta. Montes verdejantes vão-se transformando em autênticas paisagens lunares e se alguma coisa ainda nos resta, podemos agradecê-lo à boa vontade, à coragem e à abnegação dos nossos Soldados da Paz, motivados apenas por sentimentos de solidariedade e de altruísmo. Todos nós sabemos que estes fogos de Verão não se podem apagar com paliativos de última hora. O combate aos incêndios florestais do Verão deve começar no Inverno... E não com discursos palavrosos e ocos com que os nossos sapientíssimos políticos tentam endrominar os ingénuos. A abertura de caminhos e aceiros, a construção de pontos de água são factores fundamentais muitos falados em inaugurações e campanhas, mas completamente esquecidos quando se trata da sua concretização. Sendo a prática de atear fogos um puro acto de terrorismo e até de terrorismo planeado, não só os culpados como os cúmplices, deveriam ser castigados com penas que desmotivassem a execução de tamanhos crimes. Porém, o que se verifica, é que, na maior parte dos casos, a pretexto de qualquer tara mental (quase sempre inexistente!), culpado e cúmplices, depressa são postos em liberdade. Os fogos combatem-se com água, mas também com medidas repressivas. E parece que isso não é assim compreendido pelos responsáveis. Não haverá, à semelhança do que acontece com outras práticas escuras que por aí abundam, a cumplicidade de poderosos com braço comprido? Os incendiários são presos, mas são logo postos em liberdade, porque sofrem de perturbações mentais ou são indivíduos “traumatizados” pela droga ou pelo álcool. É assim que funciona a justiça. Já no longínquo Verão de 2000, o ministro, Fernando Gomes, distribuiu pelos pastores um binóculo, um boné, um casaco e um telemóvel e promoveu-os a "guardiões da floresta". A operação custou 125 mil euros em material e mais 25 mil para chamadas. Quem ficou a ganhar foi quem vendeu o Kit, porque de resultados práticos nunca ouvi falar. Treze anos depois nada se aprendeu e se formos ver o que as Autarquias gastaram em prevenção, facilmente encontramos a explicação para tanta morte e tanta desgraça! Há dinheiro para festas, inaugurações, e outros divertimentos, mas não para abrir aceiros ou construir pontos de água nos locais mais apropriados das matas. Em 2000, quem lucrou foi quem vendeu os Kits. Hoje são as Empresas que alugam helicópteros e aviões. Morrem bombeiros, ardem matas, culturas, habitações, fica gente na miséria, mas ninguém é responsável. Uma espécie de fatalismo está a criar-se na maior parte das mentes portuguesas. Somos um povo de acomodados. Não sabemos até quando, mas as revoluções não começam todas da mesma maneira.

A PROPÓSITO DE LEITURA


Sempre gostei muito de ler. Houve um período na minha vida em que, além de minha mulher, a minha companheira favorita era a leitura.
Não tínhamos vizinhos, vivíamos isolados em plena floresta tropical numa casa coberta com colmo e rodeada de seringueiras. 
Do Mundo, as notícias chegavam-nos através da Rádio na banda das “ondas curtas” que por vezes se tornavam “curtíssimas”, pois a audição era péssima.
Não tínhamos luz eléctrica e às seis da tarde a noite caía. Havia, por isso, necessidade de ocupar o tempo – as longas noites de África. E a leitura era o nosso refúgio. À luz da “Coleman” ou da “Petromax”…
Em 1951 entrei para o «Clube do Livro» da Bélgica, e de mês a mês lá chegava o barco com os víveres, as cartas e os livros!
E, como costuma dizer-se, “devorava-os”! Tomava notas. Exprimia a minha opinião, a lápis, nos espaços em branco. Ora concordava com as ideias expressas, ora era contra.
Já nesse tempo fazia parte dos que apadrinham o conceito de que um livro tem sempre dois autores: o que o escreve e aquele que o lê. Nalguns, as minhas notas quase faziam desaparecer algumas das frases do autor. Infelizmente, quase todos foram queimados aquando do despertar dessa onda de “liberdade” que varreu o Continente negro na década de sessenta. 
Há dias, encontrei na minha estante, um dos que escapou à fúria dessa turbamulta: «Les Saints vont en Enfer», de Gilbert Cesbron.
E foi esse que motivou esta minha crónica de hoje. Um livro que gerou bastante polémica nesses longínquos tempos, mas que acabou por se afirmar e se tornar uma obra de referência do escritor.
E é porque até só o prefácio tem muito a ver com o que penso e com a minha maneira de estar na vida, – sobretudo quando denuncio injustiças e defendo o povo do qual honrosamente faço parte – que traduzi, à intenção dos leitores, um pequeno excerto: 
 «Eis um livro que vai desagradar a muita gente. Mas será que a prudência é, ainda, uma virtude?
Num mundo em que aqueles que falam a mesma língua não se conseguem fazer perceber sem um intérprete; num tempo em que os mediadores são assassinados e a honra esquartejada; neste século em que reina a cruz sem o Cristo, eu não quero ser de nenhum partido. O que vi entre os seus membros é mais do que suficiente para que tome esta decisão. Assim eu nunca deixarei a mão dos homens no meio dos quais eu cresci….»
Inteligentes que são, os meus leitores compreenderão o que quero dizer… e o porquê das alfinetadas de algumas das minhas crónicas.