sexta-feira, janeiro 06, 2012

POR QUE ESCREVO


Parece que foi ontem, mas a verdade é que há 23 anos, que preencho semanalmente este espaço.
O fim de cada ano é para mim como que uma prenda que ofereço a mim mesmo e um reconhecimento a todos os que me têm acompanhado nesta caminhada.
Colaboradores, correspondentes, assinantes, leitores, amigos, todos eles têm sido meus companheiros de viagem. E se o caminho é feito pelos nossos próprios passos, a beleza da caminhada também depende dos que nos acompanham.
Como todos sabem e como várias vezes o tenho dito, o acto de escrever
é para mim uma necessidade espiritual. É a forma de afastar para longe, o que a vida me negou, mas é também um hino de louvor por tudo o que ela me concedeu em troca.
É uma mistura de lágrimas e sorrisos. Lágrimas de outrora que já secaram e sorrisos que vou alimentando com esta força interior de querer continuar a luta, de tentar recuperar momentos irrecuperáveis!
Utopia? Talvez. Mas o que seria a vida sem sonhos, sem aquela faceta utópica que muitas vezes tentamos esconder?...
E é por isso que eu continuo a escrever. E faço-o, porque é como quem faz uma confissão. A sós. Sem padre, mas com a presença invisível de Deus. Com o amontoar dos anos, há momentos na vida em que a solidão nos cerca, e embora rodeados de muita gente, interiormente, precisamos de estar sós.
E com a música em surdina, aí vou eu em peregrinação interior percorrendo a vida, encurtando caminho, poupando os passos.
É uma viagem por dentro de nós, através de atalhos, e porque é longa a caminhada, não há tempo a perder. Por vezes, no caminho, a emoção cerca-nos e invade-nos a alma. Há ocasiões em que tropeçamos nos sorrisos que deixámos nos trilhos que percorremos, e é a alegria que se apossa de nós. Recordações, momentos que o tempo não apagou saltam da arca dos nossos sonhos e vêm fazer-nos companhia. E dialogamos. Um diálogo que acaba também por ser um monólogo entre passado e presente, mas a uma só voz. Um confronto que nem sempre é pacífico.
Escreve-se a vida, as gentes, os tempos, mas o acto de escrever é sempre um acto solitário. Sobretudo quando não nos movem interesses escondidos nem vinganças alheias e em que apenas denunciamos injustiças, lutando mais pelos outros que por nós próprios.
Escrevinhador de barba e cabelos brancos, escrevo também para resistir à marginalização e não deixar morrer a criança da alma, a alegria de viver, a espontaneidade do sorriso e a fé que sempre me alumiou. Neste tempo em que apenas se ouve a voz da conveniência, denunciar as injustiças é também como que rezar a Deus para que ponha cobro a tanta desumanidade.
E aqui têm, resumidamente, o motivo por que continuo a escrever.




































DOIS MIL E DOZE AÍ ESTÁ

Não quis Deus conceder-me os dotes de um Bandarra ou de qualquer outro adivinho e graças Lhe dou por isso. Tal mister não o quereria eu de livre vontade, tratando-se, como é o caso, de tão arriscada missão.
Estejam, pois, descansados os leitores que não vou impingir-lhes nem profecias nem vaticínios, aliás, coisas a que eu também nunca dei muita importância.
Promessas também não vou fazer, pois já nos bastam as dos nossos ilustríssimos políticos que de tantas que fizeram e de tão poucas que cumpriram, ficaram com tal reputação, que nenhum cidadão que se preze gostaria de ter, como é o meu caso.
Dir-me-ão, que o que me faz falar é a inveja, que é como quem diz as centenas de “eros” que eles embolsam todos os meses sem bulir uma palha!
Nada disso. Eu até pertenço ao número daqueles que concorda que um político competente deveria ganhar o dobro do ordenado e outro tanto em subsídios. No entanto como é difícil encontrar uma dessas “avis rara” não concordo que se faça tábua rasa e se paga a todos pela mesma tabela. Dessa maneira é o que se vê: em vez de uma equipa íntegra e eficaz que deveria saber governar, temos um bando de papagaios, que de tanto palrarem puseram o rectângulo no estado em que se encontra – falido. E hipotecado!...
Mas, deixemos de falar em desgraças e vamos ao que importa. O que venho hoje dizer-vos é que o próximo ano terá 12 meses e será bissexto; a Páscoa celebrar-se-á num Domingo, o Carnaval a uma terça e o dia da preguiça continuará a ser a segunda-feira.
No que se refere ao dia a dia nacional, manter-se-á o statu quo, isto é: os políticos continuarão a passar o tempo a atribuir as culpas uns aos outros para garantir os seus tachos; os sindicatos continuarão a decretar greves para justificar a sua existência e assegurarem os seus salários; o povo continuará a refilar, mas como “é sereno” tudo não passará de “fumaças”; o “ero” continuará na corda bamba e os especuladores continuarão a auferir os respectivos benefícios; o futebol continuará a movimentar multidões e a distribuir salários faraónicos; o número de ricos continuará a aumentar e o mesmo fenómeno se passará com os pobres, que aumentarão também; a cultura será cada vez mais abstracta e inculta, e o Zé pagante continuará a fazer das tripas coração.
Entrementes e para desviar a atenção do povoléu, abjuram-se os heróis e assalta-se a História suprimindo datas célebres com falsos pretextos. Quanto do fim do mundo que muitos anunciam para 21 de Dezembro de 2012, não acreditem. Ele vai acabando para os que vão morrendo. Tudo o que se disser em contrário é conversa da treta, tal como a dos nossos políticos.
Um bom ano para todos!


















ASSIM SE RENEGA A HISTÓRIA

O que ides ler foi escrito por etapas. Foram precisos três dias para conseguir escrever 464 palavras, alinhavar 2.200 caracteres, separá-los por 11 parágrafos e empilhá-los em 59 linhas!
No primeiro dia passei o tempo a escrever, apagar, reescrever, voltar a apagar, enfim um trabalho que se fosse feito no tempo do lápis e da borracha, seriam precisas umas boas dúzias de uns e de outras. Agora com o computador é mais fácil, mas nem por isso deixa de ser desgastante esta tarefa semanal de alinhavar estes rabiscos.
No segundo dia fiz uma lista com inúmeros assuntos, mas quanto a inspiração, nicles! A minha secretária particular que me segue há mais de meio século, bem tentava consolar-me: «Deixa lá, amanhã de manhã com a cabeça fria, vais ver que será mais fácil…»
Cabeça fria tenho eu sempre, pois com a boina rota e com o tempo frio que tem feito, não admira. Mas nada. Talvez os meus neurónios tenham congelado e emperrem o raciocino.
Mas hoje, terceiro dia, eis que se fez luz! Primeiro de Dezembro, feriado nacional, uma data simbólica – a da redenção da Pátria, da restauração da Independência.
E apressei-me a folhear o meu velhinho livro da História de Portugal. E vou lendo, pára aqui, recomeça acolá: «Nesta conturbada 25.ª Hora que é o nosso tempo, meditemos no seu alto significado e na magnífica lição que exprime. Meditemos tão sentidamente, tão sinceramente que, sempre que a Pátria esteja em perigo, imediatamente desponta na nossa alma a aurora estimulante da manhã radiosa do 1.º de Dezembro!»
E as palavras de Camões em 1580: «Morro, e comigo a Pátria!» E mais à frente como numa antevisão do que viria a acontecer: «Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos Fama! /O fraudulento gesto que os atiça / C’uma aura popular que honra se chama! / Que castigo tamanho e que justiça / Fazes no peito vão que muito te ama! / Que mortes, que perigos que tormentas, / Que crueldades neles experimentas!
A vida dos povos pode comparar-se á vida das pessoas com o magnificat dos seus triunfos e das suas glórias e com o de profundis dos seus desaires e das suas derrotas.
Mas estes últimos há quem não queira assumi-los e invente toda a espécie de subterfúgios para desviar a atenção do Zé-povinho. E tudo lhes serve. Nem a História pátria escapa.
Politicamente falando, há na verdade factos, que é melhor não recordar. Sobretudo quando se trata de comparar a energia viril dos grandes feitos de antanho com a subjugação e o egoísmo das atitudes do presente. E é talvez por isso que as nossas cabecinhas pensadoras se preparam para “apagar” da História essa data simbólica que foi o 1.º de Dezembro de 1640.














ESTÓRIAS DA HISTÓRIA

Costumo, de vez em quando, folhear os livros por onde estudei. Alguns, diga-se em abono da verdade, estão em fanicos. Mas, mesmo assim, gosto deles, e é sempre muito carinhosamente que os manuseio. Alguns têm ainda frases ou dedicatórias de antigos ou antigas colegas, e num deles, na página 26, há uma violeta mirrada, de folhas amarelecidas, que ficou esquecida!
Há coisas a que não demos importância enquanto jovens, mas que nos aparecem agora sob outra forma, isto é, despidas daquelas vestes coloridas e ilusórias que marcaram o figurino da nossa juventude.
E foi num dia destes, depois de reler a História de Portugal que cheguei à conclusão que, afinal, fomos sempre um povo de "libertadores".
E isso começou já em 1140, quando D. Afonso Henriques pôs a senhora sua mãe no seu lugar e libertou o Condado Portucalense. E desde então fomos vivendo, cai aqui, levanta acolá, até que os Filipes nos deitaram a manápula. Foram sessenta anos, caladinhos, e obedientes às ordens de nuestros hermanos.
Porém, com este nosso espírito de liberdade que herdámos do "homem que bateu na mãe", a pachorra atingiu o limite, e em 1640, sob as ordens de João Pinto Ribeiro, um punhado de libertadores, dirigiu-se ao Paço, encontrou o traidor escondido num armário e com um tiro imobilizou o verdugo, que foi depois atirado, por uma janela, tendo a mesma receita sido prescrita à teimosa Duquesa de Mântua: «se não saísse pela porta saía também pela janela...»
Depois, em 1908, dois "corajosos" assassinos mandados e "agindo em nome do povo" assassinaram cobardemente El Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, em nome de uma pseudo-república, que viria a tornar-se, como popularmente se diz, uma autêntica «república das bananas». E até 1928 "era rei morto, rei posto", sempre com o eterno sacrificado – o Povo.
A partir daí houve uma certa acalmia que durou cerca de quarenta anos, mas como o bichinho da liberdade nos roía cá por dentro, eis que surge outra libertação – a dos “cravos”.
E foi o início de uma nova era, que com o andar dos tempos e depois de muitas traquinices dos donos da quinta se transformou na “era dos cravas”, presidida por “Cocó, Ranheta e Facada”, mais conhecida por “Troika”!
Mas sosseguem os inconformados, porque o bichinho da libertação, apesar de muitos e variados insecticidas, não morreu. E a prová-lo estão as declarações de um “patriota” de Abril, que afirmou há dias que Portugal está “a atingir os limites” e como “há menos quartéis” um golpe de Estado seria mais eficaz.
Perante estes arrufos de libertação, apetece-me recordar as palavras do escritor francês Georges Duhamel: “Cristo quando falou ao Mundo, fê-lo como se ele fosse povoado de bons e de maus. Esqueceu os imbecis…”












quarta-feira, dezembro 21, 2011

NATAIS DISTANTES

Ao folhear as páginas amarelecidas dos arquivos da minha memória, misturam-se recordações de vários Natais.
Na primeira, quase ilegível, surge o Natal da minha infância, com noites escuras e frias. Parece que ainda ouço o matraquear dos socos e tamancos na calçada a caminho da Missa do galo na pequena Capela. Sem árvore de Natal, mas cheia de gente, numa mistura de surrobeco, xailes e capuchas. O cheiro a incenso e, no altar, deitado numa simples almofada, o Deus Menino, risonho, faces rosadas, braços abertos, com os dedos dos pés já gastos de tantos beijos...
Os cânticos entoados com devoção e fervor, sem instrumentos musicais: "Cristãos alegria que nasceu Jesus, a Virgem Maria no-Lo deu à Luz!..."
O regresso a casa, descendo a correr a escaleira de lousa que levava à capelinha. E já em casa, abrigado do frio, à lareira, a minha alegria, ao ver os pinhões que saíam das pinhas postas à beira do brasido entre panelas de ferro e a trempe que sustentava a sertã onde minha Mãe fazia as filhós!
Os brinquedos, quando os havia, eram pobres, quase todos saídos da marcenaria de S. José. Eram de madeira, mas tanta alegria que proporcionavam. A avaliação da riqueza depende da inocência de quem a recebe. E a felicidade varia conforme a humildade.
Natais da minha infância, já tão longe, mas ainda tão presentes. Natais da minha infância, dos brinquedos de madeira, dos carrinhos de lata, das caixas de lápis de cor...
Natais da minha infância!.. Natais sem presentes. Natais pobres de brinquedos mas tão ricos de significado e calor. Natais que permanecem vivos e saudosos até que a morte os reconstrua do lado de lá da vida.
Outros Natais estampados nas folhas desbotadas são aqueles que passei longe da terra-mãe, da família, e dos filhos.
E um deles, – o mais triste dos meus Natais – passado sozinho, na solidão dos trópicos, longe de tudo e de todos.
Sem filhós, sem presépio, sem Menino. Só com Deus. E foi desde esse dia que aprendi a rezar sem mexer os lábios e a chorar sem verter lágrimas.
Todo este arrazoado, como já devem ter percebido, para desejar um Bom Natal a todos.
A todos, mas em especial àqueles que lá longe, uns com alguma família, outros sozinhos, com eu em tempos, lutam por uma vida melhor e passam esta noite, este dia, recordando a família e a terra natal.
Uma noite e um dia cheios de felicidade, um dia bem vivido, um dia em que cada um se sinta feliz consigo, com a família e com aquilo que possui. Mesmo que seja pouco. A felicidade não decorre de possuir, mas de compreender.
Ao menos uma vez por ano, é bom que façamos uma pausa para despertar o sentimento de fraternidade. Esse sentimento tão nobre, mas cada vez mais esquecido. Esse sentimento imprescindível para que na terra haja paz entre os homens de boa vontade.
A todos, um santo e feliz Natal!












quarta-feira, dezembro 14, 2011

O MEU ZURRO


Já este ano falei sobre o assunto. Mas, porque há dias e de Norte a Sul do País as ruas se encheram de “grevistas”, eu continuo sem saber quais os benefícios que advieram do protesto tanto para os protestantes como para o País.
Aliás é minha convicção de que muitos dos que participaram no movimento, fizeram-no mais por arrasto do que por convicção pessoal. Não cabe na cabeça de ninguém de bom senso que no estado actual em que financeiramente nos encontramos, é saindo à rua, gritando e dizendo mal de tudo e de todos, que contribuímos para inverter essa situação.
Quando se faz parte de uma multidão, ninguém pertence completamente a si mesmo – «tem-se menos elevação nos sentimentos, menos firmeza na vontade, menos valor sob todos os pontos de vista, do que quando se pensa, sente e age isoladamente.» E, dessa maneira corre-se o risco de se deixar arrastar e apaixonar por visões confusas, que não correspondem nem ao que seria melhor nem aquilo que se pretende quando somos apenas nós mesmos a pensar. As multidões abafam e dominam a personalidade dos homens que nelas se enquadram e que muitas vezes até os desumanizam.
Sabemos que o fosso entre as desigualdades sociais se avoluma cada vez mais, mas é bom não esquecer que os mentores das greves, aqueles que enchem a boca com “o bem-estar do nosso Povo” nem sempre têm isso em vista.
Houve ainda há pouco eleições e foi eleito, democraticamente, um Governo que herdou do anterior uma situação financeira tão catastrófica quanto imoral – catastrófica pela sua incidência ruinosa no que respeita ao futuro, e imoral pelas injustiças praticadas contra os que menos têm em favor dos que têm em demasia.
Esquecer tais factos e não unirmos esforços para inverter a situação desastrosa em que nos encontramos é o mesmo que fecharmos os olhos, é sermos irresponsáveis a ponto de esquecermos que estamos a contribuir para um tenebroso futuro das gerações vindouras em que já estão incluídos os nossos filhos e os nossos netos.
Como acontece com uma educação mal adaptada que deforma rapidamente a mentalidade de um povo, o mesmo se verifica com comportamentos que aumentam o descontentamento, avolumam as paixões, radicalizam-nas, e fazem com que o bom senso escasseie, e a razão deixe de desempenhar a sua função de fiel da balança.
Nestes momentos de perturbação em todos os sectores da vida nacional são sempre os mais carenciados a pagar a factura. Os mentores dessas manifestações, os eventuais ou verdadeiros responsáveis nada sofrem e assistem contentes às manifestações e aos insultos da turbamulta. No difícil momento que o País atravessa, mesmo ressalvando os direitos que todos têm em reivindicar, as greves a que temos assistido ultimamente são mais a expressão de um egoísmo desmedido, de uma vergonhosa luta política, do que de uma verdadeira questão de justiça social.
Diz-se que vozes de burro não chegam ao céu, mas como zurrar ainda não paga imposto, aqui fica, em jeito de opinião, o meu zurro.




A REVOLTA DO ALFABETO

A princípio, quando vi o ajuntamento, pensei tratar-se de uma greve, mas como não havia megafones, bandeirinhas nem dísticos do “povo unido” e não lobriguei nenhum dos nossos bolorentos e habituais síndicos, vi que devia tratar-se apenas de uma reunião normal.
Contei-as e eram vinte e três, mas havia três que estavam um pouco mais longe e tinham um ar de quem está ansioso aguardando qualquer coisa nova.
Todas se mexiam constantemente sem, no entanto, se afastarem do lugar que ocupavam. Faziam lembrar o teclado do meu computador e só quando me aproximei mais é que dei conta de que se tratava de facto das letras do alfabeto.
Todas juntas pareciam, à primeira vista, uma espécie de bicharocos que abundam naquele tapete húmido da floresta virgem dos países tropicais e que, de vez em quando, põem a cabeçorra de fora!
Do A até ao Z lá estavam todas, e aquelas três de que acima falei, o K, o W e o Y, continuavam afastadas e desconfiadas talvez com receio de não serem bem recebidas pelas 23 que há muito faziam parte do conjunto que rege a nossa escrita.
Os acentos gráficos passeavam à volta das letrinhas e o que me pareceu mais agitado foi o hífen que parecia nervoso e apreensivo. O til fazia vénias por ter sido poupado e parecia não ter nada a ver com a situação que se estava a viver.
Não pude conter-me mais e perguntei o que se passava. Respondeu-me o ponto de admiração dizendo tratar-se de um plenário convocado a pedido de algumas letras do alfabeto furibundas com a sua despromoção com a entrada do Novo Acordo Ortográfico.
As que mais reclamavam eram o Cê e o Pê e segundo me confidenciou o hífen, – ele também descontente por o terem afastado de algumas ligações – não se conformavam.
A primeira, o Cê, porque afirmava que, para além de outros casos, uma acção apenas com cê cedilhado perdia a sua verdadeira identidade e a sua tradicional força para agir.
A segunda, o Pê, argumentava também que das muitas supressões a que fora sujeito, a sua ausência no baptismo, era a mais grave, pois ia de encontro aos sentimentos de qualquer cristão que se preze!
Entretanto o Dáblio e o Ípsilon, mantinham-se na expectativa e aguardavam a sua entrada no novo conjunto das 26 letras do novo Alfabeto.
Estava eu observando todos estes comportamentos quando, lá ao longe, avistei uma fila de calhamaços de várias cores que avançavam na minha direcção e cujas folhas tremelicavam assustadas – eram os Dicionários numa demonstração de solidariedade, pois também eles iriam ser substituídos por uma nova geração…
Não consegui assistir ao fim de toda aquela barafunda para contar como tudo acabou, porque o telefone tocou e eu acordei!...



































domingo, dezembro 11, 2011

VOLUNTARIADO- CORAÇÃO E ATITUDE

CENTRO SOCIAL DO TOURIGO, IPSS

SEMINÁRIO


Na passada tarde do dia 22, no Centro Social do Tourigo, o serviço de voluntariado e de partilha de fraternidade e vivência de todos os dias, teve faceta diferente.
Em organização daquele Centro, à volta de 120 pessoas estiveram ali para falar de “voluntariado”, ouvir testemunhos e partilhar experiências.
E se o tema do Seminário é Voluntariado: CORAÇÃO E ATITUDE, é porque o Coração deve estar na atitude, como a Atitude no Coração e convida já por si a reflectir sobre os temas dos painéis: “O Trabalho voluntário e as organizações”; “O que é Ser Voluntário” e “Testemunhos Pessoais” mostraram, como aliás ali foi realçado, que ser voluntário é concretizar um sonho, porque voluntário é aquele que se entrega de corpo e alma a uma Causa.
Tendo como Moderador, Jorge Leitão, os painéis tiveram a riqueza de várias áreas do voluntariado, trazidas por Oradores com larga experiência para “sensibilizar a opinião pública para a importância de que se reveste o voluntariado”, objectivo que o Centro Social do Tourigo, IPSS quis promover neste “Ano Europeu do Voluntariado”.
SESSÃO DE ABERTURA
Coube a Mónica Ferreira da Silva anunciar a abertura da sessão e convidar para a Mesa de Honra as diversas entidades que a iriam compor: o Presidente da Direcção do Centro Social do Tourigo, Manuel Ventura da Costa, o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Tondela, Dr. José António de Jesus, O Presidente da Assembleia de Freguesia, Idálio Costa Ventura, o Pároco da Paróquia do Tourigo, Padre Alcides Vilarinho, o Vice-Presidente da Direcção do Centro Social do Tourigo, António da Costa Ventura, o Presidente da Assembleia Geral do Centro Social do Tourigo, Nelson de Matos Almeida e a Assistente Social e Directora Técnica do Centro, Dr.ª. Rita Cardoso.
Manuel Ventura da Costa, primeiro Orador, depois de dar as boas vinda e saudar toda a assistência, agradeceu a presença do Dr. José António de Jesus que, representando a Câmara Municipal, vinha trazer a solidariedade institucional e a amizade pessoal. Agradeceu igualmente a disponibilidade dos palestrantes, que com o seu testemunho quiseram contribuir de maneira tão significativa para os objectivos do Seminário. Congratulou-se por tantos estarem ali empenhados em ouvir falar na importância de que se reveste hoje e cada vez, o voluntariado.
José António de Jesus, por seu lado, depois de manifestar o seu agrado por aquela jornada levada a cabo pelo Centro Social do Tourigo, lembrou as dificuldades crescentes que as instituições irão encontrar, lembrando que elas podem ser superadas pela força de vontade, pelo empenho, pela criatividade e pelo que cada um souber dar de si em favor do bem comum. E este testemunho do Tourigo é uma forma de estar atento.
1º. PAINEL – O TRABALHO VOLUNTÁRIO E AS ORGANIZAÇÕES
O Dr. Felisberto Figueiredo Marques (Rotary Club de Tondela) apresentou o tema: “Ser rotário é ser um voluntário”, situando a assistência, por um lado na génese do movimento rotário, como nasceu e cresceu e, por outro, no vasto âmbito de voluntariado que é a sua missão e que abrange o mundo inteiro, passando depois a descrever as acções desenvolvidas pelo Rotary Club de Tondela, nomeadamente na Universidade Sénior de Tondela, no apoio às famílias com camas articuladas e cadeiras de rodas para doentes, na parceria com a Liga dos Hospitais e apoio à Vários, em visitas a instituições de solidariedade social e participação, pelo Natal, junto de Lares e outras instituições, na colaboração, em Tondela, com o Banco Alimentar, entre outras.
A Dr.ª. Catarina Sobral (Presidente do Banco Alimentar de Viseu), cujo tema foi A importância do voluntariado no Banco Alimentar, trouxe à reflexão a importância daquele Movimento, que Tondela conhece e no qual participa, que envolve ao nível do país milhares de voluntários empenhados com o Movimento, mas também os que voluntariamente contribuem, com as suas dádivas, para que sejam atingidos os objectivos.
Explicou detalhadamente como o “Banco” funciona e o trabalho de parceria com as instituições que, depois, irão fazer chegar a ajuda ao local de destino. No fundo, pode considerar-se uma “Missão” de Amor.
O Dr. José Machado (Técnico da EAPN de Viseu) desenvolveu o tema: Os voluntários e a EAPN, dando a conhecer o que é a Rede Europeia Anti-Pobreza e a sua articulação com escolas, instituições e movimentos para a dinâmica do voluntariado.
A EAPN é uma organização não governamental empenhada no combate à pobreza e exclusão social, cujo trabalho em rede dinamiza informação (Fóruns, Worshop’s, sessões, edição de livros, etc).
2º. PAINEL – O QUE É SER VOLUNTÁRIO: TESTEMUNHOS PESSOAIS
Após uma breve pausa para café, teve lugar o 2º Painel, com a participação da Dr.ª. Ana Maria Faure e Dr. Hélio Domingues, este natural de Barreiro de Besteiros.
Dr.ª. Ana Maria Faure – Com vasto currículo na área da intervenção social, deu a conhecer as suas muitas e variadas experiências quer no Serviço de Apoio Domiciliário da Associação da Serra do Montemuro, quer no Centro Paroquial de Touro (Vila Nova de Paiva) ou na promoção de actividades culturais e de formação para a juventude, campanhas de sensibilização, quer ainda a riquíssima experiência que partilhou com a assistência da sua estadia em S. Tomé e Príncipe na Missão Leigos para o Desenvolvimento, coordenando a Cozinha Social de Água Izé. No fundo, um vasto e significativo trabalho de voluntariado, que também é estar onde é preciso estar.
Dr. Hélio Domingues – Actualmente é professor na Escola Emídio Navarro, em Viseu. Como voluntário desenvolve com os seus alunos campanhas solidárias, recolha de produtos, participações na recolha para o banco Alimentar; recolhas de material escolar.
Fez voluntariado nas Paróquia de Barreiro de Besteiros, São Marcos do Cacém e Campo Grande, Lisboa, como Animador Litúrgico, e na Comunidade Vida e Paz (Lisboa) – distribuição de alimentos aos sem abrigo e, ainda, no Hospital de Santa Maria. Foi ainda escuteiro em Viseu. Foi esse vasto e interessante testemunho de voluntariado que veio trazer-nos. E partilhar.
DEBATE
O debate que se seguiu teve perguntas, testemunhos e ressonâncias que enriqueceram o Seminário
ENCERRAMENTO
Os objectivos do Seminário – Promover o voluntariado no CST –, superou as expectativas e deixou desafios.
A encerrar a sessão, Manuel Ventura da Costa renovou os agradecimentos, tantos aos palestrantes como aos participantes no Seminário e enalteceu a ajuda, empenho e colaboração de toda a equipa de funcionárias do Centro Social do Tourigo, IPSS, mormente para a Secretária da Direcção Paula Ventura e Directora Técnica, Rita Cardoso, que com trabalho e devoção fez com que o dia ficasse assinalado na História da Instituição e demonstrasse que ser voluntário é compartilhar o que temos de mais precioso: amor, felicidade, sabedoria, tempo e também humildade.
Mónica Ferreira da Silva deu por encerrada a sessão, tendo convidado todos os participantes a receberem o “Certificado de Presença”.
Apesar de ficarmos gratos a todos os participantes, quer da Freguesia quer de fora dela, e sem menosprezo para a de quem quer que seja, pede-nos a Direcção do Centro do Centro Social para salientar a do Presidente da Freguesia de Barreiro de Besteiros, Sr. José Hélder Viegas, do nosso conterrâneo e Sócio Honorário. Sr. Padre Armando Costa e da Dr.ª Maria José Loureiro, Administradora da Folha de Tondela, também uma dedicada amiga do Centro Social do Tourigo.








sexta-feira, novembro 04, 2011

A ESCOLHA


Chegou a hora de todos pagarmos os erros e os abusos cometidos por alguns desses vendedores da banha de cobra da praça política. Não vale a pena estar aqui a alinhavar números ou a enumerar casos de um quotidiano que todos vamos conhecendo através das notícias que nos chegam e nos anunciam buracos atrás de buracos.
Uns mentindo, mais ou menos conscientemente, e outros porque acreditaram ou acreditámos que seria possível viver bem e desfrutar de todo o conforto à custa de “desvios”, défices e endividamento crescente, temos todos a nossa quota-parte de culpa no descalabro do País.
Como a de qualquer casa de família, a economia de uma nação é coisa delicada de mais para ser entregue a amadores ou a teorias lidas à pressa nas sebentas universitárias.
O amadorismo por si só não pode abarcar, em toda a sua complexidade, a realidade natural e humana do factor económico.
As sebentas académicas também não o conseguem, porque não ensinam a prática e fazem da economia um simples exercício de papel e esquadro.
Fala-se muito em estatísticas, em números, em rácios e eu sei lá no que mais, mas ao fim e ao cabo desconhece-se completamente a pura realidade das coisas e dos factos. Desconhece-se o País real!...
Legisla-se sem conhecer o verdadeiro impacto ou as consequências que poderão advir da aplicação da lei. Muitas vezes legisla-se para beneficiar o amigo sem olhar aos prejuízos que a medida pode causar em centenas, milhares ou milhões de cidadãos. Mas também aqui não vamos entrar em detalhes, porque são do conhecimento de todos as habilidades dos nossos malabaristas da política.
Chegou a hora e nada adianta protestar, blasfemar ou insultar. O desafio que se nos coloca ou melhor, o desafio que se coloca hoje às sociedades civilizadas é o de voltar a equacionar os problemas materiais e humanos com o coração e com a inteligência.
Não há outra via de salvação que não seja a do trabalho, mas um trabalho que sirva o homem e a comunidade e não o trabalho de que o homem se sirva em proveito próprio – aquele trabalho que produz riqueza e não apenas e somente serviços, pois também não se podem criar serviços sem produção que os pague.
As questões que nos dividem, infantilmente, entre siglas e slogans deviam envergonhar-nos. Temos diante de nós um futuro difícil. Devemos encará-lo unidos e com espírito de sacrifício. Greves, desacatos, manifestações, não resolvem o nosso problema. Não podemos continuar a reivindicar ilusões. O esforço tem de ser de todos. Mesmo que não tenhamos sido nós a contribuir para esta situação desesperada em que nos encontramos, temos de escolher: ou sacrificamo-nos e continuamos portugueses ou desistimos e passamos a simples pedintes andrajosos com o nome de “europeus”.

CARAPUÇAS


Há homens que recriam o mundo a partir de si próprio e que se julgam uma espécie de deuses. Acreditam que podem bastar-se sozinhos, que não precisam de ninguém, e só o que pensam e dizem é que conta.
Só eles sabem. Dizem-se detentores de toda a sapiência, arvoram-se em construtores de ideias e rejeitam quaisquer modificações à sua maneira de pensar. Tudo o que os outros fazem está mal feito e só eles podem fazer melhor. Não gostam de ser contrariados, nem aceitam que lhes digam que têm defeitos.
Os defeitos estão sempre nos outros, que não neles. Como todo o ditador que se preze eles precisam de público, de gente que com eles partilhe, que tenha os mesmos gostos, que cultive os mesmos ideais e, sobretudo, que faça da bajulação um sacerdócio, aplaudindo-os, elogiando-os, apoiando-os.
Raiva, ódio, maledicência e inveja são sentimentos que, ao mais leve sopro, podem explodir e atingir inocentes alheios às suas manobras e contrários à sua conduta.
Não há fronteiras para essa gente e na sua caminhada pela vida, não hesitam em fazer ataques com armas imorais como a difamação, a calúnia, a traição, o embuste, a mentira e a hipocrisia.
Nada os detém e envoltos num esfarrapado manto de superioridade, eles pavoneiam-se emproados, cheios de nada, tentando a todo o custo transmitir a imagem de que nada temem.
A arrogância é outra das suas armas de defesa, porque na sua maneira de pensar quem mais alto fala, mais facilmente é ouvido. Pobres deles!..
Insuflados de sentimentos de importância, usam sempre a primeira pessoa do singular no exagero dos seus feitos, nem sempre verdadeiros.
Têm obsessão por fantasias de sucesso ilimitado, procuram fama, poder e omnipotência. Procuram adulação, atenção e afirmação.
Não aceitam que deles discordem e vivem convencidos que merecem tratamento especial, sempre com prioridade em relação aos outros.
São invejosos e pensam que os outros têm o mesmo sentimento em relação a eles. Desconfiam de tudo e de todos. São, por tudo isso, uns eternos dependentes. Dependentes de uma fachada que criaram e cuja manutenção necessita de cuidados cada vez maiores. Com o rolar dos anos, com a erosão do tempo e a diminuição das forças, as aparências tornam-se cada vez mais difíceis de manter. E como neste mundo tudo é efémero, da falsa aparência que sempre ostentaram ficará apenas desencanto e frustração. Que não haja ilusões – o êxito pessoal depende sempre da humildade, da persistência e da lealdade com que procuramos realizar os sonhos que temos. Todos sabemos que o novo-riquismo mudou mentalidades. Veja se a carapuça lhe serve…









GENTES PACÍFICAS IGNORADAS

Antigamente o bilhete de identidade de grande parte das aldeias portuguesas do interior era constituído por uma Capela e por uma Escola.
A capela, onde geralmente aos domingos se celebrava a missa e se reuniam todos os habitantes e a Escola onde, de pequenino, se aprendiam as primeiras letras.
Com a junção de algumas formaram-se depois esses espaços geográficos que são as Freguesias com a sua Igreja Matriz e outros serviços, que a certa altura desempenharam um papel preponderante na vida nacional, sobretudo nos meios rurais.
Citando apenas um exemplo, houve um tempo em que o exame da 3.ª classe era feito na Escola da Freguesia, sem falar já na História desses aglomerados dispersos pelo País que eram anotados pelos párocos, nos livros de registo das Paróquias.
Mas, como é evidentemente, com o evoluir dos tempos a vida tudo mudou e pouco a pouco a aldeia começou a descaracterizar-se, tendo contribuído muito para isso a falta de visão futura dos governantes ao retirarem competência e serviços às aldeias em favor dos grandes aglomerados urbanos.
Assistiu-se em seguida ao êxodo das populações rurais que cada vez mais isoladas, e mais necessitadas dos mais elementares meios de sobrevivência, se viram obrigadas a rumaram às grandes urbes onde se fixaram e quase esqueceram as suas raízes.
Mas só quem vive em meios rurais pode avaliar o papel desses homens que estão à frente das Freguesias rurais, que lidam diariamente com as aspirações e os problemas dos habitantes e que muitas vezes lhes exigem soluções que ultrapassam a esfera das suas competências e atribuições. Eles são, de facto, uns verdadeiros «heróis da democracia»!
Mal pagos, por vezes mal interpretados, e quase sempre «bodes expiatórios» do não cumprimento de promessas de outros, são eles que à frente destes pequenos espaços geográficos dão o verdadeiro exemplo de abnegação e solidariedade, servindo, a troco de nada, o povo que os elegeu.
Agora que se fala muito na extinção ou fusão de Freguesias é de suma importância que essas decisões, a consumarem-se, sejam analisadas caso a caso e freguesia por freguesia. É urgente fixar as populações do interior, diminuindo as assimetrias entre a cidade e o campo. É urgente revitalizar o mundo rural, pois a ruralidade representa ainda a consciência da nossa verdadeira identidade cultural, com os seus valores, as suas tradições e as suas maneiras de viver, mais humanas, mais fraternas e mais solidárias. Não podem por isso os políticos voltar as costas ao país real e abandonar esses homens e mulheres que trabalham e cultivam os campos. É com essa gente humilde e simples, essa gente que se conforma com as alterações do clima que por vezes lhes destrói numa hora, o trabalho de dias e meses, que devemos aprender a lição da Fé e da esperança.
Uma lição que nos torna mais humanos, mais fraternos e nos aproxima mais de Deus. É esse o mundo dos que habitam os meios rurais. Um mundo de gente pacífica e, talvez por isso, quase sempre mais desfavorecida e ignorada.





quarta-feira, outubro 05, 2011

CARTA A UM FILHO


Quando eu, um dia, chegar a velhinho e perder os movimentos, a memória e a razão, sê paciente e tenta compreender o meu estado.
Se a minha mão tremer e me sujar quando como ou se eu não conseguir vestir-me, sê paciente. Lembra-te de quando eu te ensinei a comer e a vestir. Se quando eu falar repetir a mesma coisa muitas vezes, não me interrompas, escuta-me ainda que isso te custe. Quando eras pequeno eu contava-te a mesma história muitas vezes até que adormecesses.
Quando eu não quiser tomar banho, em vez de me forçares ou de me humilhares, lembra-te das coisas que eu inventava para te convencer a ir tomar banho.
Quando verificares a minha ignorância em relação às novas tecnologias, compreende-me e não me olhes com um sorriso irónico. Eu ensinei-te tanta coisa com tanto amor!...
Quando em certos momentos eu perder a memória ou o fio da conversa, dá-me o tempo necessário para que eu me lembre e se eu não conseguir não fiques nervosos, porque a coisa mais importante não é o facto de conversarmos, mas o facto de estarmos juntos e escutarmos um ao outro.
Quando as minhas pernas, já cansadas, não me permitirem andar, dá-me a mão da mesma maneira que eu fiz quando eras pequenos e davas os primeiros passos.
Se um dia eu disser que não quero viver mais e quero morrer, não fiques zangado, porque um dia tu compreenderás. Tenta compreender que na minha idade já não é viver, mas sobreviver. Um dia descobrirás que apesar de todos os meus erros e as minhas faltas eu quis sempre o melhor para ti e tentei sempre facilitar-te o caminho do futuro. Está o maior tempo possível junto de mim como eu tentei fazer quando tu eras ainda pequenino.
Ajuda-me a andar, ajuda-me a terminar a minha viagem com amor e paciência e eu te pagarei com um sorriso e com o grande amor que sempre tive por ti.
Eu gosto muito de ti, meu filho!
Teu Pai

sábado, setembro 17, 2011

FÉRIAS EM CASA


O dramaturgo e cineasta francês Marcel Pagnol disse um dia, falando de férias, que quem quisesse passá-las no mar e ter a certeza de não naufragar, em vez de um barco, deveria comprar uma ilha!
Seguindo esta lógica e transformando-a em metáfora, para ter mesmo a certeza de que iria, de facto, preguiçar um pouco e recarregar baterias, resolvi passar as férias em terra firme.
E aqui estou eu no meu quintal de papo para o ar olhando toda esta verdura que me rodeia, inalando este ar puro que vem da serra e sorvendo este característico cheiro a mosto que anda no ar, motivado pela pisa das uvas do vizinho do lado.
À medida que os anos passam, vão-se transformando as formas de olhar a vida e recriamos então à nossa volta um outro mundo.
E isso porque a vida é uma coisa a criar a inventar que se vai moldando, constantemente, segundo as variadas etapas da nossa existência.
E a certa altura dessa vivência, é preciso coragem para viver de outra maneira, sem voltar as costas à sociedade, mas construindo, num dos seus cantinhos uma espécie de refúgio onde nos sintamos felizes!
E aí não há receitas feitas, mas cada um deve fazer a sua própria cozinha, temperar a seu gosto, e confeccionar com muito amor e carinho.
É preciso fazer o que gostamos de fazer, o que nos traz satisfação, o que nos faz felizes. Não devemos olhar muito para o que se passa à nossa volta, nem para o que os outros fazem, mas seguir as nossas próprias intuições.
Seguir a nossa própria maneira de ser, criando dessa maneira, no nosso íntimo, um clima de harmonia, de tranquilidade e paz interior.
E sem virara as costas ao passado, mas fazendo disso uma espécie de vingança, tentar encontrar no presente tudo o que esse passado nos negou…
A beleza da vida reside nas suas múltiplas diversidades e é por isso que cada um de nós, salvo os condicionamentos que todos conhecemos, pode adaptá-la à sua maneira de ser.
Porém, seja qual for a maneira escolhida, a verdade é a de que não há melhor momento para ser feliz do que o momento presente – o agora, o hoje. Então por que não vivê-lo plenamente?!
A vida é, e será sempre uma caminhada feita de obstáculos a transpor e de projectos a construir. Então, por que não aproveitar esses raros, mas bons momentos que ela, por vezes, nos oferece?!
Mas voltando ao começo e falando de férias, não é a vida que nos fatiga, mas sim a forma como nós a encaramos e a má gestão que fazemos, desperdiçando os belos momentos que ela nos oferece.








quinta-feira, setembro 01, 2011

LA RENTRÉE

Apesar da riqueza da nossa língua e não obstante o seu abundantíssimo vocabulário, nós, como bons imitadores que somos, e sempre esguichando engenho e arte por todos os poros, quando não inventamos... copiamos!
E vai daí, com esta nossa bazófia de querer mostrar ao mundo que estamos sempre à la page, lá fomos surripiar o termo e, como a história do gato maltês que tocava piano e falava francês, passámos a designar o regresso dos nossos políticos ao seu "bem-bom," pelo vocábulo francês rentrée...
Não sabemos quando nem quem se apropriou da palavra. Porém, quem o fez não era estúpido de todo!... É que a palavra rentrée, segundo Pierre Larousse, – o lexicógrafo francês bem conhecido de todos nós – emprega-se, essencialmente, no sentido de rentrée des classes, isto é, o regresso das crianças à escola!
Portanto, quem pela primeira vez empregou o termo sabia o que fazia e deu-lhe a interpretação devida. Então não são quase todos os nossos políticos umas crianças grandes que cresceram por fora e continuam anões por dentro?!... Ou dito de outra maneira: não são alguns dos nossos políticos, meninos imberbes ou de caricatas barbichas, mimados, troca-tintas encartados e completamente alheios à realidade da vida?!...
Assim sendo, venha então a escola. Que eles bem precisam de lições. Mas qual quê? Infelizmente, a vontade de aprender, de conhecer, de bem administrar, de bem gerir, parece não ser apanágio da classe.
Mas viva a rentrée!... E é festa aqui, é comício acolá, é convívio mais além. É marisco no litoral, é feijoada no interior, são tripas no Norte e cataplana no Sul. É fanfarra na aldeia, Boys-Band nas cidades, mas sempre tudo programado de maneira a que a televisão mostre (de preferência no Jornal da noite por causa das audiências e dos votos!...) o interior do chapiteau com todos os artistas: palhaços, domadores, trapezistas, engolidores de espadas, ursos amestrados e a respectiva moldura humana com figurantes ensaiados e basbaques que batem palmas muitas vezes sem saberem porquê!
Viva a rentrée! Ei-los que chegam! Bronzeados, palradores, aí estão de novo os charlatães – sorridentes e palavrosos, maletas cheias de nada, prontos para venderem mais uns quilos de banha de cobra lá do alto do palanque do hemiciclo. Estamos à mercê desses duzentos e trinta filhos da pátria que continuam a agir como nada se passasse. Não há exemplos de sacrifícios vindos de suas excelências. Embora de credos diferentes sabemos que quando se trata de dinheirinho todos adoptam a mesma religião. Entretanto a tosquia continua. E é imprevisível saber o que acontecerá quando, à falta de lã, o sangue começar a aparecer à superfície da pele.





















sexta-feira, agosto 26, 2011

H E R A N Ç A S


A receita tornou-se corriqueira e anda de boca em boca – “sem uma mudança da mentalidade a coisa não vai lá”. A “coisa”, claro está, é a situação do País.
A frase que passou a emoldurar quase todas as conversas, tornou-se tão democrática que se ouve tanto da boca de um doutorado como da de um simples e iletrado borra-botas.
Somos assim. Somos um conjunto de seres humanos, que embora diferentes têm em comum a mania de dar sentenças.
Somos exímios em dar palpites, os melhores em apontar erros, mas uma manifesta doença congénita faz com que vejamos o argueiro no olho do vizinho e não a trave que temos no nosso.
Mas haverá alguma maneira de modificar esta nossa maneira de ser, esta espécie de mola interior que nos faz saltitar e que transforma cada um de nós numa espécie de faz-tudo?
Somos assim e pronto. Fanfarrões e descomplexados…
Julgamos possuir conhecimentos em todas as áreas – da política ao futebol passando pelas intermédias, medicina, engenharia, arquitectura, literatura, astronomia, ciências ocultas, gastronomia, em todas elas temos sempre que meter o bedelho!
Sobre todas opinamos, damos palpites e até receitas…
Diz-se por aí que temos falta de médicos. Mentira. Num domingo, à saída da missa, queixem-se de uma dor nas costas e logo verão a quantidade de esculápios que anda por aí ao deus-dará e a quantidade de diagnósticos que logo vos farão!
Na política nem se fala. Não há bicho-careta que não critique os ministros. Mais o das Finanças e da Saúde. O primeiro, porque é quem manda no dinheirinho e o segundo, porque, supostamente, é o que faz andar o esqueleto! Os outros apanham por tabela, mas não se livram, no entanto, de que lhes chamem nomes feios muitos deles pondo até em causa questões de maternidade.
E no Futebol? Os doutorados nessa prática são mais que muitos. Fanáticos, sofredores, adivinhos, e todos com vastos conhecimentos na ciência do pontapé. E todos difíceis de consenso… Vão lá dizer a um benfiquista que o Porto é o maior, ou a um sportinguista que o Benfica vai ser campeão!
Por tudo o que fica dito e escrito julgo que a tal mudança de mentalidades, de que muito se fala, nunca acontecerá.
Como acima disse, somos assim e ponto final. Há factores hereditários de que não podemos livrar-nos. Cada um de nós guarda dentro de si uma mistura de genes herdados dos nossos antepassados que tanto nos podem transformar em santos, em heróis, em aventureiros, como em trapaceiros, vigaristas ou corruptos encartados. Como disse um dia Salazar, “felizmente que não temos petróleo…” Se o tivéssemos ainda seríamos pior, penso eu.





















































D I S F A R C E S


Como já muitas vezes disse, tenho uma arca onde guardo alguns escritos. Leio, guardo ou tomo notas quando julgo interessante o assunto. É um vício antigo e que, contrariamente ao do tabaco, ainda não consegui pôr fim.
E é por isso que, de cada vez que vou ao baú e remexo os papéis, há sempre algum que desperta a minha curiosidade.
Desta vez foi uma nota a lápis datada de 1994 em papel já amarelecido que dá conta do “escândalo” motivado por um discurso do Professor Cavaco Silva, então 1.º Ministro, que alertava para a urgente defesa dos valores da Pátria e da Família, nomeadamente do sentido da honra, da inteireza de carácter e da honestidade.
E esse escândalo originou tanta gritaria e gerou tal burburinho que de armas aperradas e de bandeiras ao alto, desde as hostes esquerdistas às fileiras dos chamados “de direita”, todos se fizeram ouvir manifestando a sua indignação. Cidadãos houve, que apelaram mesmo à excomunhão!
Estávamos numa altura de exacerbado europeísmo. E, concupiscentes, todos os olhares convergiam para os cofres de Bruxelas, de cujo ventre se esperava viessem carradas de notas – os famigerados “Fundos”!
E nessa expectativa, apregoar ideias fascistas e até neo-nazistas como o culto da Pátria, a defesa da Família, dos valores ancestrais, para muitos “patrinotas” (homens que trocaram o amor à Pátria pelo amor às notas do banco) era o mesmo que colocar de novo a estátua de Salazar no pedestal em Santa Comba Dão!...
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. De facto, muito mudados andam os tempos e muito viradas do avesso andam as vontades.
Quem imaginaria que passadas mais de três décadas essas palavras “malditas” – Pátria, Família, Honra e Honestidade – continuam a ser profanadas, desrespeitadas e cada vez mais esquecidas por aqueles que deveriam adoptá-las como lema?!...
Urge restaurar a Família Nacional devolvendo o que se lhe roubou durante anos com ladroagem, indisciplina, incompetência e deboche.
Este charco infecto que é a política vai fazendo desaparecer pouco a pouco a herança deixada pelos nossos Avós – uma herança feita de riqueza de alma, de amor pátrio, de honra e de honestidade.
E assim chegámos a este estado de pedintes. Parafraseando Vieira, se é agradável dar ou receber, a mais dura e a mais desprestigiante palavra da nossa língua é … pedir. E foi a isso que nos conduziram os nossos patrinotas. Podem chamar-me saudosista, mas continuo a pensar que enquanto a unidade política for o indivíduo, a nossa sociedade continuará a ser governada por ditaduras. Embora disfarçadas…




















FAMÍLIA E ESCOLA



Não há dúvidas de que vivemos num mundo conturbado, num mundo cheio de armadilhas, de incertezas e de descrença. Até a Natureza parece saturada de tantos desmandos e nos acorda da letargia em que mergulhámos através de catástrofes naturais!
Não vou entrar na velha cantilena de que antigamente é que era bom, porque, como todos sabem, também não era bem assim.A vida foi, é, e será sempre difícil, muito embora para uns o seja mais do que para outros.
Mas que havia coisas diferentes que se destruíram e cuja falta agora se está a notar cada vez mais, ninguém pode negar. Nos primeiros quartéis do século XX éramos de facto um povo demasiado iletrado, mas com bom nível de educação e de civismo.
E esse estatuto de educados e de cívicos deveu-se, essencialmente, a duas Instituições – a Família e a Escola. Ora, atualmente, tanto uma como a outra estão em franca desagregação!
A família tem vindo a ser atacada por ideologias minoritárias mas com grande audiência nos poderes públicos. Legisla-se e impõem-se sugestões que uma centena de milhares de apaniguados lança para o ar sem respeitar a opinião de milhões que nem sequer são ouvidos.
A escola, na sequência dos desvarios por que tem passado continua transformada numa inadmissível fonte de deseducação e de libertinagem que irá refletir-se em toda a futura vida nacional.Somos, estatisticamente, um povo de doutores e engenheiros, mas vivencialmente, em educação e civismo, somos uma nação insubordinada e agressiva, geradora de gente inculta e pouco recomendável. O vandalismo e a indiscplina andam à solta em quase todas as escolas com exceção de uma ou outra onde reina a ordem e o respeito.Não admira por isso que haja professores a frequentar clínicas psiquiátricas e que aumente cada vez mais o número daqueles que vejam nas reforma antecipada uma maneira de se verem livres das aulas que muitas vezes se transformam em autênticos ringues onde se travam agressões psicológicas, que muitas vezes degeneram em confrontos físicos.
O Estado que tem a obrigação de impor disciplina e respeito, demite-se da sua função, faz vista grossa, criando nos jovens sentimentos de impunidade e de rebeldia. E é assim que se descredibilizam ainda mais as instituições escolares e se caminha a passos largos para a degradação da futura sociedade.
É verdade que a democracia nos trouxe muita coisa boa. Mas nada tem feito para dar continuidade a outras que já tínhamos. Refiro-me à educação e ao civismo, esses dois grandes e sólidos alicerces da sociedade. A construção do primeiro era-nos ensinada, em casa, pelos nossos Pais. A do segundo pelos Professores na Escola.

quarta-feira, julho 20, 2011

A TABUADA DA VIDA

Sete vezes doze… mais um!
O título desta minha crónica de hoje pode, numa primeira interpretação, levar o leitor a pensar que vou falar de aritmética – essa ciência dos números de que tantos têm medo. Nada disso. Aliás o texto de hoje já aqui foi publicado mas com outra combinação de algarismos.
Mais uma vez aquele que costuma ditar-me o que aqui escrevo todas as semanas, transpôs outro degrau da escada da vida. E logo de manhã, no nosso primeiro encontro, quando nos olhámos no espelho, piscou o olho e balbuciou irónico e bem-humorado: «com que então sete dúzias mais um?!...»
Sorri e sem surpresa vi que “ele” também sorriu. É sempre assim. Há entre nós uma cumplicidade tão grande que, por vezes, até parece que somos um só!...
Já nos conhecemos desde os primeiros vagidos de criança. Temos percorrido os trilhos da vida de mão dada, temos partilhado alegrias, tristezas, ilusões, desilusões, enfim, temos sido “dois em um”, como agora costuma dizer-se.
É certo que também temos tido as nossas desavenças, as nossas discussões, sobretudo no que toca à idade, quando nos olhamos através do espelho. Às vezes a guerra inicia-se logo no começo do dia quando cortamos a barba. E que guerra!...
Enquanto um resmunga contra os papos nos olhos, a falta de cabelo e os vincos na cara enrugada, o “outro” acusa-o de exagerado e mal agradecido, porque muito pior está ele que lhe custa a arrastar as pernas e tem dores que nunca param, e viajam por todo o corpo… Mas são discussões de idosos, que acabam sempre com um sorriso maroto e cúmplice, pois lá bem no fundo, somos obrigados a concluir que quem andou…
Mas o que mais ainda nos une é aquele prazer de dialogar um com outro, de confessar os nossos pecados, de recordarmos, de nos rirmos das nossas fraquezas e, por via de isso, ambos nos considerarmos imensamente felizes. Temos bons amigos e uma família maravilhosa! Nos momentos mais difíceis, – e sempre com a presença invisível daqueles que já partiram – a Mãe que nos acompanha há já seis décadas, os filhos, as filhas, as netas, os netos e os irmãos, transmitem-nos a força e a coragem para continuar a caminhada. Nem sempre é fácil, mas Deus também tem dado uma grande ajuda. Diz o Livro da Sabedoria que a importância da vida não reside na sua duração, mas no vivido durante ela. Também com isso fomos duplamente contemplados.
- Que mais desejas?!... – Perguntei eu, no fim do dia, em frente ao espelho, ao “outro” – àquele que me dita o que escrevo. A gargalhada que ecoou foi tão estridente que até a Mãe perguntou o que se passava.
- Nada de especial – respondi – é aqui o homem do espelho que diz que não quer nada com a aritmética... Que pede apenas mais um!










domingo, julho 17, 2011

GRAVATAS

Somos assim e pronto. Somos um conjunto de seres humanos, que embora diferentes em muitas coisas, temos, no entanto, em comum a mania da originalidade. O portuguesinho valente, quer seja um doutorado ou um simples borra-botas iletrado, o que quer é dar nas vistas, ser diferente do vizinho, ser original!
E a propósito de originalidade, vejam só do que a D. Assunção Cristas se havia de lembrar para que o seu nome andasse por aí em letras garrafais em toda a imprensa: - «Fora com a gravada – disse ela lá para o pessoal das suas quintas – há que poupar para reduzir a utilização do ar condicionado e poupar na despesa da electricidade e na pegada ecológica!»
E como somos todos poliglotas vá de dar um nome estrangeiro à iniciativa, “AirCool”! Depois admiram-se que 55% dos alunos do 12.º ano tenham chumbado no exame de Português!...
Mas voltando à abolição do uso da gravata, eu sou contra. E sou contra, porque ela faz parte do património nacional, pois contrariamente ao que muitos historiadores afirmam quanto à sua origem, foi um Português que a inventou.
Foi Egas Moniz o aio de D. Afonso Henrique, que a usou pela primeira vez quando em 1137, logo após a batalha de Cerneja, se deslocou a Toledo para levar ao Imperado a chave do cofre que tinha sido encontrada no terreno da luta.
Na altura a oposição fez correr o boato de que ele tinha ido pedir perdão ao Imperador de corda ao pescoço, mas o certo é que o aio do nosso primeiro rei ia vestido a rigor e, pela primeira vez, com a respectiva gravata!
Parece que tal ornamento deu brado o que teria levado Camões a referir-se a Egas Moniz no Canto III dos Lusíadas.
Mas voltando agora à realidade e analisando a iniciativa à luz da verdade e do bom senso, não é por aí que o gato vai às filhós. Não é com medidas dessas que a cultura da batata vai aumentar, que deixaremos de comer peixe estrangeiro e que a ecologia tenha melhoras significativas.
A Senhora Ministra devia, isso sim, mandar os seus homens para o terreno com ou sem gravata. E já que quer poupar no ar condicionado que saiam dos gabinetes e venham conhecer o País real que a maior parte desconhece. Mais do que dispensar o uso da gravata há outras medidas que urge tomar. Mas que doem…ao contrário da supressão das ditas.









sexta-feira, julho 08, 2011

MANTER A BOA DISPOSIÇÃO


É preciso que nos convençamos que todas as coisas que nos acontecem na vida têm ao mesmo tempo um lado positivo e um outro negativo. A nossa existência está submetida a leis inelutáveis que são sempre, apesar de certas aparências contrárias, úteis e preciosas nos seus efeitos.
A nossa vida não resulta de qualquer coisa feita ao acaso: há em tudo o que nos acontece razões evidentes que escapam ao nosso entendimento. Por isso o segredo da boa disposição consiste em descobrir essas razões e apreciá-las.
Infelizmente, raras vezes vemos a vida dessa maneira. E é por isso que a má disposição se espalha por todos os lados. Palavras duras, gritarias, ameaças, invejas, são na realidade uma espécie de feridas que comprometem a saúde, perturbam a paz interior, põem em risco o amor e a felicidade.
E a propósito, há um caso que gostaria de citar: conheci uma senhora muito digna e de porte irrepreensível que sofria muito porque seu marido se embriagava todos os dias.
E então tentava fazer com que ele deixasse de beber, falando a toda a gente desse defeito, na sua presença, e de pessoas que até desconhecia. Claro que não obteve qualquer resultado!...
Comentários desses nunca curaram ninguém. Pelo contrário, parece até que incitam o culpado a reforçar o seu vício.
Mas, dir-me-ão, teremos de suportar em silêncio os vícios ou defeitos dos outros? Não teremos o dever de os assinalar e tentar combatê-los?
Seria um erro ficar passivo. É preciso ajudar aqueles que amamos a desembaraçarem-se dos seus defeitos, mas devemos servir-nos de procedimentos adequados. E quando se trata do seu bem-estar, nós temos, não só o direito, mas também o dever de intervir de uma maneira tão eficaz quanto possível.
Todos nós atravessamos, na nossa vida graves momentos que se podem prolongar por semanas, meses, anos, roubando-nos o sorriso, afectando as nossas energias, paralisando o interesse pelas coisas.
Mas é razão para andarmos com cara de quem está sempre chupando limão ou proferir palavras que ferem ou afastam os nossos semelhantes?
É bom que não esqueçamos que o bom humor é contagioso. E assim
como não são precisas muitas palavras para desencorajar, também poucas palavras bastam para incutir esperança e determinação.
O que é necessário é aprender a viver o momento presente e fazer com os que nos rodeiam sejam nossos cúmplices o que só se consegue através de uma boa e sã disposição.
Como diz um provérbio chinês, «não podemos evitar que as aves agoirentas voem por cima das nossas cabeças, mas podemos evitar que elas façam o ninho nos nossos cabelos.»









segunda-feira, maio 23, 2011

E LÁ VAI MAIS UM!...

Ontem, 22 de Maio, um dos membros da minha tribo não conseguiu escapar à imutável lei da Vida e teve de resignar-se perante a exigência do Tempo que lhe colocou na guia de circulação mais um carimbo!
Na circulação dos anos como na circulação pelas estradas há regras a cumprir e normas a respeitar.
Nas aulas que ministrei durante o tempo em que estive no activo, a minha preocupação foi sempre a de ensinar a cumprir escrupulosamente o código, seguindo à risca a indicação dos sinais de trânsito.
Em boa hora o fiz, pois é com satisfação que, depois de muitos quilómetros percorridos, não há a lamentar grandes desastres.
Houve, isso sim, alguns despistes, algumas saídas de pista, algumas carambolas mas, felizmente, sem consequências verdadeiramente trágicas!...
Por tudo isso ou apesar de tudo isso, e muito embora não estivessem presentes todos os membros da “esquadrinha” por motivos justificáveis, o certo é que a comemoração da data decorreu com muita alegria num ambiente de são e familiar convívio.
Todos os membros da tribo foram evocados por altura dos brindes e embora fisicamente ausentes, estiveram connosco em espírito, associando-se a esses inesquecíveis momentos de união e partilha.
Nesta nossa já longa caminhada – minha e da minha Chefe – foram mais uns momentos em que a vontade de continuar a luta se reforçou e em que ficou demonstrado que os juros dos investimentos feitos continuam a ser uma compensação dos sacrifícios passados e o testemunho dum verdadeiro espírito de família.
Na vida de cada um de nós há momentos em que as palavras não chegam para expressar o que nos vai na alma. E é nesses momentos indescritíveis que eu invoco alguém que não vejo, mas que pressinto a meu lado e, reconhecido, lhe digo OBRIGADO!
E a toda a minha tribo também…







sábado, maio 14, 2011

PASSEIO MATINAL

Hoje, logo pela manhã, céu azul e temperatura amena, dei um passeio pelo meu quintal. É uma espécie de terapia matinal, este contacto com a Natureza!
A orvalhada cobria a relva e o reflexo do sol nas gotículas das flores, era como que uma sementeira de pedrinhas reluzentes.
O sol nascente, como que ainda mal acordado, tentava afastar os farrapos brancos de uma nuvem que lhe toldava a luminosidade.
No velho tanque, que no Verão serve de piscina, as andorinhas, em voos rasantes, tocam na água com o bico, e levam nele algumas gotas que vão servir para fazer aquela espécie de argamassa que vai servir para a construção dos seus ninhos.
Da buganvília, ainda sem flores, desprendem-se gotas de água que salpicam os mosaicos castanhos do passeio, imitando os pingos grossos de chuva de trovoada.
A copa da árvore da tília tomou já o formato habitual e há já raminhos de flores a espreitar entre o verde das folhas. A vestimenta do castanheiro está mais atrasada, mas os rebentos já se vêem de longe.
De todo este conjunto de cores, em que as rosas e as azáleas se fazem mais notadas, é, no entanto o verde que domina. É a cor da esperança, a cor da Primavera, que reina em todo este pedaço de terra, este meu cantinho, meu confidente e meu refúgio.
Na aldeia, acordada há muito, ouve-se nos quatro cantos o roncar dos tractores, quer lavrando, quer transportado as ervas secas, que serão guardadas para alimentar os animais no Inverno.
À mistura com o chilrear da passarada, há zumbidos no ar e o ronronar dos atomizadores que combatem as pragas dos batatais e outras culturas, acaba por ser uma espécie de cantilena familiar.
Às vezes converso com quem passa, com essa gente que ainda conserva bem vivas as tradições e a identidade cultural da ruralidade do País, um povo que continua unido ao destino que Deus lhe deu – gente que ainda partilha entre si uma cabeça de alho ou um raminho de salsa, gente que ainda cultiva no seu quotidiano gestos de harmonia e de solidariedade.
As árvores, os pássaros e as rosas do meu quintal são os confidentes dos meus pensamentos, dos meus sonhos e, por isso, o repositório dos meus segredos.
Como disse no começo, uma visita matinal a tudo isto que me rodeia, às árvores e plantas que coloquei na terra, que reguei, que vi crescer e que agora dão frutos, é como que um bálsamo para a alma, uma vitória da perseverança e uma afirmação e reforço da Fé que sempre me acompanhou!
E é aqui, neste meu mundo, que esqueço os encontrões de todos os dias e ultrapasso as tristezas com aquele leveza de alma de quem ainda espera um nada de vida e uma réstia de sonho…











A ALDEIA DA MINHA INFÂNCIA

Penso que já uma vez vos falei dela. Da minha aldeia. Daquela aldeia antiga – sem luz eléctrica, sem automóveis, com uma fonte de chafurdo onde todos íamos beber água pura; com fruta bichada criada sem pesticidas; com bosta de vaca espalhada sobre o empedrado das calçadas; com gente abastada e com muita gente pobre, humilde, mas educada.
Já naquele tempo havia a senhora Dona Fulana, a Dona Sicrana e a Dona Beltrana, muito embora, por vezes, mal soubessem ler e escrever.
Dava-se-lhes esse título honorífico ou porque possuíam casas abastadas ou, então, porque eram casadas com as mais gradas individualidades da terra.
Analfabetas ou letradas, uma coisa lhes conferia essa diferença de trato – a educação e a maneira de conviver com todos sem distinção, quer fossem analfabetos, quer instruídos. E a reciprocidade de tratamento era, por isso, de regra.
Não havia desconhecidos, e a aldeia constituía um corpo social que reagia em uníssono. Todos se saudavam quando se cruzavam na rua e era desde o berço que os mais novos começavam a saber respeitar os seus semelhantes, não por obrigação imposta, mas pelo exemplo que lhes era dado em casa.
Recuei no tempo e recordei a aldeia da minha infância, porque são tantas as interrogações que me assaltam e é tamanha esta "pressa de viver» que me rodeia e atropela, que tentei encontrar refúgio nesses tempos em que a vida, como ainda hoje a Natureza, decorria serenamente, sem sobressaltos, com pouca tecnologia, mas com muito humanismo.
Mas é triste verificar que também nas nossas aldeias a educação e os costumes começam a abastardar-se, que os princípios da mais elementar moral começam a esquecer-se e que, por via disso, a Família, cada vez mais em crise, acabe por não ter significado.
Muitos dos nossos jovens não acatam os conselhos dos mais velhos, incluindo, por vezes, até os dos próprios progenitores. Olham-nos como de peças antigas se tratasse, rejeitando assim a experiência e a sabedoria que lhes poderiam servir de escudo protector para enfrentar os desafios do futuro cada vez mais desconhecido e incerto.
O desrespeito e a falta de educação que a certa altura da nossa vida julgávamos que só existiam nos grandes centros, alastrou, multiplicou-se e cá os temos mesmo à porta!
Sinto, por isso, de vez em quando, necessidade interior de me refugiar e voltar a esse tempo sem tempo, e de sonhar. Sonhar, sem humilhar o passado, mas também sem o usar como emblema. E escrevo. É uma arte de fuga. É um grito de vida. Às vezes afigura-se-me que Deus o ouve. Outras é o silêncio prolongado. Mas escrevo sempre. E recordo. É como quem faz uma peregrinação imaginária àquele pequeno cofre que, dentro de nós, continua a guardar a criança que outrora fomos...





quarta-feira, abril 20, 2011

SEXAGÉSIMO ANIVERSÁRIO


A minha Sociedade comemorou há dias o sexagésimo aniversário da sua existência.
Para assinalar a efeméride, além da sócia maioritária que detém, não só a maioria do capital mandante como do falante, estiveram também presentes todos os actuais accionistas.
Seguindo os princípios do clã não houve grandes cerimónias e também não houve convidados.
Firmada sob o sol dos trópicos no dia 14 de Abril de 1951, conforme atesta a escritura acima reproduzida, a sociedade teve, ao longo dos anos, revezes vários, altos e baixos sem que, apesar disso, a sua estrutura de base tivesse sido afectada.
Renúncias, abdicações, sacrifícios, tudo isso foi superada pela vontade indómita do administrador delegado que conseguiu manter o seu bom-nome e, em alguns casos, até de conseguir que ela fosse apontada como exemplo de tenacidade e de vontade de vencer.
Aos dois sócios fundadores vieram, depois, juntar-se dois accionistas, sem capital, que mais tarde, cumprindo os preceitos dos Evangelhos, cresceram e se multiplicaram, elevando para dez o actual número de membros no activo.
Importa aqui referir a retirada de dois elementos que fizeram parte dos “quadros” da empresa, mas que merecem sempre uma referência carinhosa pelo seu contributo no crescimento da mesma. Igualmente de referir um elemento que se encontra à experiência, mas que merece, para já, o assentimento dos outros sócios.
A comemoração teve lugar na Sede onde, à volta da mesa, se juntaram todos as personalidades atrás mencionadas.
O almoço decorreu em ambiente familiar onde não faltou alegria, boa disposição e também uma pitada de irreverência trazida pelos mais e menos jovens que, simbolicamente, ofereceram aos fundadores, flores murchas com os respectivos revitalizantes!... Uma antecipação do que lhes acontecerá amanhã…
Foram momentos inigualáveis cheios de carinho e foi também uma espécie de bálsamo que nos confortou a alma e nos fez sentir orgulhosos. Orgulho, por depois de tanta labuta, termos a nosso lado, unidos, todos aqueles que mais adoramos, por quem já demos muito, mas de quem também muito já recebemos. E continuamos a receber…
Quando se aproxima o sol poente da vida, há momentos de tanta ternura e emoção que só através de Deus se poderão explicar!
Que Ele continue a presidir aos nossos destinos e que sejamos sempre todos merecedores uns dos outros.



quarta-feira, março 02, 2011

A IMAGINAÇÃO À SOLTA


Há dias em que a desilusão é mais forte, e então fecho-me dentro de mim e aí vai a imaginação a toda a brida. E lá vai ela: que voa, que rodopia, que desce, que sobe, mas sempre em torno do mesmo eixo, que é a Vida.
A Vida!... Este dia-a-dia cada vez mais materialista, mais cheio de risos amarelos, de sorrisos irónicos, de olhares de soslaio que mais parecem armas de arremesso.
Está assim a nossa sociedade: competitiva, invejosa, apressada, hipócrita, egoísta, traiçoeira e amoral.
Vive-se rodeado por uma corte de fingidos, de snobes, de manequins de plástico e de bonecas de silicone, cheias por fora e vazias por dentro.
Toda a gente quer parecer. Mesmo que não seja. O que importa é cultivar a imagem e não esquecer aquela regra que, em certos sectores, – sobretudo no público – confere superioridade: falar alto e grosso, para parecer superior, e intimidar os mais simples que, por humildade, se calam.
E neste grande palco com os mais variados cenários quase todos os actores, nas suas mais diversas e inéditas rábulas, têm como principal e único objectivo a exibição. Fingir, imitar, cultivar o faz-de-conta…
Em tudo! E em especial no que diz respeito a “posses”, a dinheiro, e também a sabedoria. Todos se fazem passar por ricos e sabichões. Não importa a área. Eles dominam todas as ciências. São polivalentes…
Se o coeficiente intelectual for baixo, e mesmo que não passe do zero, uma carteira bem recheada de notas resolve o problema e depressa transforma um burro num doutor.
O dinheiro!... Os “milagres” que ele não faz! E há por aí tanta nota vinda não se sabe de onde nem como!...
A trabalhar uma vida inteira, pergunto muitas vezes a mim mesmo, como é possível angariar fortunas em tão curtos espaços de tempo e, aparentemente, com tão pouco esforço!
Pergunta sem resposta! – Dir-me-ão os leitores. Mas talvez não!...
Li aqui há tempos, mais palavra, menos palavra e escrito por Gabriel Garcia Marques, que se procurarmos como se adquiriram certas fortunas, pelo caminho encontraremos quase sempre um cavalo morto…
Não é necessário explicar a metáfora, mas quando numa sociedade o dinheiro se sobrepõe à honestidade, à inteligência, à humildade, à justiça e à solidariedade, é caso para nos interrogarmos sobre o futuro. Que não será o meu, mas o dos meus netos. Mas será que eles pensam como eu?!...
Pára imaginação!... Deixa que eu goze o Presente. Deixa-me sentir o calor desta réstia de Sol que, sorrateiramente, aproveitou o intervalo entre duas nuvens negras, se escapuliu, entrou pela janela, e veio fazer-me companhia!...























sábado, janeiro 22, 2011

A MÁQUINA DO TEMPO


112, Lexington Avenue Bridgeport USA
Esta não é uma morada ao calha. Esta é a morada, cujo passado eu andei a investigar durante este fim-de-semana, aproveitando as maravilhas da tecnologia, confortavelmente sentado na minha cadeira e em frente ao meu computador, sem vontade para sair de casa por causa da confusão da cimeira.
Ali, há quase cem anos, a 28 ou 29 de Junho de 1917, o Ezequiel e o Custódio terão dado um abraço, um abraço apertado, umas quantas palmadas nas costas, sorrisos largos, o Custódio disse "estás com bom aspecto, primo, as gringas tratam-te bem!", e o Ezequiel retorquiu "e tu, deste-te bem lá pelas terras do Brasil?". Devem ter morto as saudades, partilhado esperanças e brindado a um futuro melhor. Não consta que tenham ressonado apesar da quantidade de bebida ingerida.
O Custódio Marques tinha chegado ao porto de Nova Iorque, no navio "Vauban" vindo do Brasil, via Buenos Aires. Às autoridades aduaneiras, disse ter 23 anos e a fortuna de 10 dólares, de ter sido ele a pagar a sua viagem e que ia para a casa do primo Ezequiel Henriques. Vinha para trabalhar mas fazia tenção de regressar para o seu país de origem. As autoridades registaram-no como física e mentalmente são, capaz de ler e escrever, sem cicatrizes ou marcas especiais, de olhos castanhos e cabelos pretos.No mesmo navio vieram, de Santa Comba, o João Almeida, com 24 anos e 32 dólares e o Augusto Leonardo, de 22 anos e com 35 dólares, mas foram para outras paragens.Em Setembro do ano seguinte, no dia 12, o Custódio foi obrigado a ir à inspecção militar. Apesar da primeira grande guerra se aproximar do fim os americanos queriam toda a gente alistada.No cartão de registo, o Custódio escreveu que tinha nascido a 25 de Agosto de 1893, que era operário na Remington Arms Co. de Bridgeport, uma empresa de fabrico de armas e munições, e assinou-o declarando que tudo aquilo era verdade. As autoridades atestaram que o meu avô não tinha perdido nenhum braço, perna, mão ou olho, não estando obviamente desqualificado para o serviço. Na história da Remington, este dia ficou marcado por uma missa em comemoração do fabrico do ultimo rifle dum grande contrato com o exército dos EUA, a que compareceram, entre importantes figuras do exército e da marinha, mais de 14,000 dos seus empregados.Diz o ditado, e é verdade, que quando vai um português vão logo dois ou três! A dada altura, naquela morada terão habitado o Custódio, o Ezequiel, o Moyses Mattos Affonso, o Júlio Reis e o José Henriques. Outros mais se juntarariam:
O Roberto Ventura, filho de Manuel M. Ventura, que chegou no dia 18 de Fevereiro de 1920 no navio "Britannia", com 22 anos e 50 dólares; com ele vieram também o Sabino de Matos e o Alberto Mattos Almeida.No dia 5 de Outubro de 1920 atracou no porto de Nova Iorque o navio "Providence". Um dos passageiros era o Joaquim Ventura, agricultor, que vinha para casa do irmão Custódio. Declarou 20 anos e 20 dólares, que não era nem polígamo, anarquista nem aprovava o uso de força para derrubar o governo americano e não sabia quanto tempo ia ficar. As autoridades consideraram-no mental e fisicamente são e sem quaisquer deformações. Com ele vieram o Joaquim Marques Matos de 28 anos e o Manuel Antunes de 38, com 30 dólares cada um.
Aos habitantes do 112 da Lexington avenue em Bridgeport, Connecticut, as autoridades americanas chamaram Tourigo Boys e, durante anos, mantiveram uma apertada vigilância.
João Ventura da Costa, in JORNAL DE TONDELA

sábado, janeiro 08, 2011

«VIVER É AFINAR UM INSTRUMENTO...»

Estou a escrevinhar estas linhas no começo da noite do terceiro dia deste novo ano de 2011, por coincidência, uma segunda-feira, um dia nada recomendável para que se peça aos neurónios ajuda para alinhavar qualquer coisa de jeito.
Além disso não tenho já muito tempo, pois tenho de entregar o papel amanhã de manhã. É sempre assim. Nunca tenho tempo quando não quero ter tempo, quando quero arranjar uma desculpa…
E então começo a recriminar-me e a falar com os meus botões: - ontem podia ter escrito qualquer coisa. Mas ontem já passou. Esvaiu-se… O tempo não volta para trás. Não pára. O futuro de ontem é hoje o presente. E hoje está quase a ir embora, é quase meia noite…
Mas escrever sobre o quê?!...
Tenho à minha frente a crónica da semana passada em que dizia que enquanto não houvesse alguém capaz de dar um murro na mesa e de pôr fim ao baile, a coisa não ia ao sítio.
Mas estou agora a ver que me esqueci de dizer que o baile a que me referia, era este baile de máscaras a que assistimos todos os dias. Máscaras, mais máscaras - um país de mascarados!
As estatísticas que nos chegaram no final de 2010 e que nos põem no topo das coisas más e no sopé das boas, são a prova evidente de que temos de mudar. Mudar de vez. É tempo de aprender, de evitar o que deveríamos ter evitado ontem. De ver o mal que fizemos. E desse balanço, dessa reflexão é que devemos arranjar material para construir o tempo de hoje e preparar o tempo de amanhã – o futuro. Que poderá ou não ser nosso, mas que será com certeza dos nossos filhos, dos nossos netos.
Enganam-se aqueles que me rotulam de pessimista. Aliás disse-o na semana passada. Sou, por natureza, optimista. Sou um defensor acérrimo do conceito «Não beba champanhe só nas vitórias, beba também nas derrotas. O sabor é o mesmo e é nas derrotas que você mais precisa...»
E foi o que aconteceu no final do ano, depois de conferir os meus palpites do Euromilhões, do Totoloto e da Lotaria. Afoguei as mágoas E toca a afogar as mágoas!
Fim de ano. Trezentos e sessenta e cinco dias que foram morrendo, enlutados apenas pelo negro de outras tantas noites.
Um ano de angústias e de promessas não cumpridas. De mentiras e de piruetas desses pinóquios da democracia, desses vendedores de banha de cobre, que são os políticos. De injustiças e de hipocrisias mal disfarçadas, cometidas, sobretudo, por quem deveria dar o exemplo…
É assim a vida – vive-se, briga-se, esquece-se, lê-se, escreve-se, perdoa-se e sobrevive-se!
É assim a vida. Como um romance que se escreve à noite, e se lê de manhã. E todos os dias se vira uma página…
Como diz a canção: «Viver é afinar um instrumento / de dentro pra fora / de fora pra dentro / a toda a hora / a todo o momento / de dentro pra fora / de fora pra dentro…»



























quarta-feira, janeiro 05, 2011

MÃOS AO AR...2011 VEM ARMADO!...

Meus caros Amigos e pacientes leitores:
Confesso-vos com toda a franqueza que não sei como começar esta crónica de hoje.
E a minha maior dificuldade reside no facto de não querer usar aquelas frases feitas, aquela lengalenga rançosa e hipócrita de votos dum Novo Ano cheio de prosperidades, com muita saúde, etc. e tal.
E não queria, porque, se sou sincero ao desejar-vos boa saúde, como posso eu garantir-vos uma coisa tão abstracta e tão difícil de encontrar nos tempos que correm, como é a prosperidade?
Todos sabem como quero bem aos meus leitores e que só desejo que todos os seus sonhos se realizem. Mas em vez desses lugares-comuns eu queria, sem rodriguinhos, dizer-lhes o que me vai na alma…
Dizer-lhes, por exemplo, que o ano que agora começa, por muito que isso nos custe, vai ser ainda pior do que o que agora findou; que por mais que nos martelem o bichinho do ouvido com promessas de melhoria, tudo isso não passa de conversa da treta e que as eleições que aí vêm, nada mais mudarão do que o inquilino de Belém.
E dizer também que enquanto todos nós não nos convencermos de que é preciso trabalhar, produzindo e poupando, continuaremos cada vez a afastar-nos mais dos nossos outros parceiros europeus.
Já repararam que nos seus discursos, os nossos políticos, só dão palpites e que a palavra “trabalho” raramente é pronunciada?!
Portanto de nada vale andarmos a desejar prosperidades, a fazer votos de um bom novo ano e coisa e tal, porque tudo isso não passa de conversa fiada que só serve para nos enganarmos a nós mesmos e arrastar os outros para esse estado eufórico e fictício em que vivemos.
Financeiramente falando, já se deram ao cuidado de verificar a situação de qualquer dos políticos que passou pelo Governo depois do 25 de Abril?!
Já ouviram ou leram que algum deles tivesse prescindido de qualquer das suas benesses em favor dos que mais precisam? De todos os casos em que foram julgados, algum foi parar à cadeia? Do nosso dinheiro que por eles foi desbaratado, a algum foram pedidas contas? Algum foi responsabilizado por má gestão? E pelos inúmeros desvios que têm havido?!...
Portanto, meus amigos, enquanto não houver alguém que dê um murro na mesa e mande parar o baile, continuaremos a afastar-nos dos parceiros europeus e a aproximarmo-nos cada vez mais dos países do Terceiro Mundo onde há milhares de ricos muito ricos e milhões de pobres...muito, muito pobres.
Sou, por natureza, optimista… A tal ponto que até continuo a sonhar com um Portugal mais humano, mais solidário e mais justo. O que não vejo – nem sonhando!..., – é alguém que transforme esse sonho em realidade.
Portanto, meus amigos preparem-se, porque 2011 vem de lança em riste. E pronto a levar-nos couro e cabelo…




















segunda-feira, dezembro 27, 2010

NOITE DE NATAL

Este ano fomos passar o Natal com a família do Norte – Vila Nova de Gaia. Menos frio do que aqui na aldeia, mas mesmo assim as temperaturas eram baixas.
Visitámos umas das “catedrais” do consumo. Muita gente e poucos sinais que indiciassem a crise por que estamos a passar. Talvez tivéssemos sido influenciados pela afluência às lojas onde muitos vão, mas nem todos fazem compras…
Salvo raras excepções é tudo gente apressada. Uma correria infernal. Só as crianças, ainda indiferentes à cavalgada da vida, olham sorridentes, olhos gulosos, os atraentes brinquedos expostos nas lojas da especialidade.
As canções de Natal, ora na toada antiga, ora em arranjos modernos, enchem o espaço, mas parece que ninguém nota muito a diferença. Dá-nos a impressão que o que conta é o barulho. Talvez um barulho diferente de outras épocas do ano, não tanto pelos acordes, mas mais pelos cheiros da quadra natalícia. Antigamente a música identificava uma época do ano com mais rigor. Hoje nem sempre isso acontece e a tendência é para derrubar essas fronteiras musicais. A melodia cedeu o lugar a um barulho tão ensurdecedor que quase se confundem os ritmos. Sinais dos tempos!...
Noite de consoada em família. O fiel amigo, ainda fumegante, acompanhado pelo respectivo séquito – couves, cebolas, ovos, batatas – presidiu, como manda a tradição, à cerimónia, e mal chegava aos pratos, logo era ungido com fino azeite, seguindo-se, conforme os gostos, a adição de alho picado.
Doces da quadra onde imperavam as rabanadas, rodeadas pelo bolo-rei, pelas filhós de abóbora e outras doçuras enchiam a mesa. Bebidas diversas e tradicionais testemunhavam a solenidade do momento sem qualquer descriminação, pois até o estrangeiro champagne se juntou à festa!
Meia-noite! Abriram-se as prendas e eis senão quando lá do presépio ouviu-se uma voz:
“Era Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!...”
Fez-se silêncio na sala e a vozita continuou:
“Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
Foi este o Natal de Jesus?!...” (*)

(*) Excertos de “Natal de Quem?” de João Coelho dos Santos




quinta-feira, dezembro 09, 2010

Nada mudou... ou mudou para pior?!...

( 1850 - 1923 )


Muito se tem dito, escrito e apregoado quanto à necessidade de uma mudança de mentalidade do povo português.
Interrogo-me muitas vezes sobre esse desejado “ milagre”e, à medida que o tempo passa, cada vez me parece mais longe essa possibilidade. A nossa maneira de pensar, de agir, enfim, a nossa maneira de ser é imutável.
A esse respeito e a juntar a vários textos antigos que tenho lido, recebi há dias, de um Amigo, com o título acima, um excerto de um texto de Guerra Junqueiro escrito em 1896 sobre o que éramos (e somos) que quero partilhar com os leitores, reforçando assim a minha opinião sobre o assunto:
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Como os leitores podem verificar, este texto, escrito há mais de um século, está actualíssimo e mostra à saciedade, que por mais voltas que o Mundo dê, não mudamos.
E tanto poderá ser um castigo que Deus Nosso Senhor nos infligiu, como uma praga que o Diabo nos rogou!...


OS PEQUENOS DITADORES



O País está atulhado deles. Há-os por todo o lado. Grandes e pequenos. Intelectuais e analfabetos. E existem tanto na esquerda como na direita.
No Governo, na Assembleia da República, nas Secretarias de Estado, na Justiça, na Saúde, nos Sindicatos, nas Fundações, nas Comissões de Inquérito, nos Municípios, na Imprensa, nas Escolas e em todos os lugares onde lhes cheire a poder, eles espalham-se e escondem-se por todo o lado como piolho em costura!
Saímos de uma Ditadura maior para ditaduras menores, mais disfarçadas, mas não menos nefastas…
E são essas pequenas ditaduras que geram sentimentos de medo por parte dos subalternos que, por sua vez, criam à sua volta, e em simultâneo, climas de bajulação e de denúncias.
Com medo de se perder o emprego, o estatuto ou os privilégios, lisonjeia-se o chefe e denuncia-se o colega.
Não há moral, não se respeita a ética, e ignoram-se os ditames de consciência – a integridade que deve caracterizar qualquer ser humano desaparece.
Muita gente vê o autoritarismo apenas sob a perspectiva do Estado enquanto opressão do poder político. Mas isso não é totalmente assim.
O autoritarismo é uma manifestação de egoísmo que pode manifestar-se em qualquer sector da sociedade, dependendo apenas do alto conceito que cada um atribua a si mesmo. A ambição, a vaidade, o protagonismo e a supremacia em relação ao semelhante, pode desencadear esse sentimento
Um lugar de chefia é, geralmente, a rampa de lançamento mais usada para a propulsão do prepotente.
Há instituições particulares que apesar da sua fachada democrática e da sua orientação pedagógica e científica, apresentam, por intermédio do seu chefe, um carácter opressivo.
E, paradoxalmente, é nessas instituições em que a liberdade, a sinceridade, o respeito mútuo, a civilidade e o diálogo deveriam, acima de tudo, sobrepor-se a qualquer outra forma de actuação.
Esses pequenos ditadores consideram-se profetas de um novo Mundo e exercem os seus cargos como de feudos se tratasse, erguendo muralhas e fossos de protecção e usando o poder que a função lhes confere para reforçar a sua vaidade pessoal e o domínio sobre os outros.
E há casos em que eles não só exercitam a sua prepotência sobre aqueles que gravitam à sua volta como também tentam estender os seus tentáculos para o exterior. Com sucesso algumas vezes, mas muitas mais sem conseguirem atingir o seu objectivo. No primeiro caso porque o alvo se presta a chantagem, no segundo porque há ainda quem não tema quaisquer represálias sejam elas de carácter ideológico, profissional ou meramente pessoal.
O pequeno ditador, geralmente, não é inteligente. Mas é esperto. E é narcisista, hipócrita, vingativo, manhoso, mas covarde quando atacado frontalmente. Não sei se algum dos meus leitores já alguma vez foi alvo dessa casta de indivíduos. Se não, acautelem-se.





segunda-feira, novembro 08, 2010

UMA VERDADE COM 2065 ANOS!...


Se fosse eu que mandasse cá neste jardim zoológico, mandava afixar na Assembleia da República este texto de Marcus Tullius Cicero com a última frase em letras gordas:
"AS PESSOAS DEVEM NOVAMENTE APRENDER A TRABALHAR, EM VEZ DE VIVER POR CONTA PÚBLICA."
Dos 230 deputados, quantos já fizeram alguma coisa na vida? Cambada de mandriões e de incompetentes!...

domingo, novembro 07, 2010

E V O C A Ç Ã O


Embora seja vertiginosa a marcha com que se desloca a carruagem da nossa existência, nem por isso ela foge às Leis previamente estabelecidas.
Assim, em cada paragem, ela se detém, a porta abre-se, e algum dos passageiros tem de abandonar a composição...
Uma velha desdentada, rosto macilento, olhos esbugalhados, garras aduncas, gadanha em punho, desenrola o pergaminho da lista fatal e, indiferente ao que se passa à sua volta, faz a chamada: "Manuel, ou António, ou Maria, ou Francisco, desce, porque é aqui o fim da tua viagem!..."
E não há desculpa ou pretexto que valha! É assim a Morte – imprevisível, tirânica e inexorável. Ninguém escapa ao seu chamamento. No palácio do Rei ou na choupana do pobre, ela está presente, e no dia marcado ela bate à porta e, mesmo sem permissão, ela entra.
Já os Egípcios, quando ofereciam grandes banquetes, costumavam expor à vista dos seus convidados um esqueleto de madeira com a seguinte legenda: "Comei, bebei, e diverti-vos, mas não esqueçais que um dia sereis igual a ele..."
Interpretação diferente lhe davam os primeiros cristãos que consideravam o dia da morte o dies natalis – o dia do nascimento. Morre-se para os homens, mas nasce-se para a Eternidade!
Foi tudo isso que me perpassou pela mente no Dia de Finados quando contemplava aquela lájea musgosa e silenciosa, onde depus quatro crisântemos com as pétalas ainda molhadas pela orvalhada da noite.
Uma lágrima teimosa desceu pela cara tisnada e rugosa e quedou-se por instantes nos lábios trementes, lembrando alguém que não conheci.
Como é doloroso evocar alguém que não conhecemos em vida, mas cuja lembrança constantemente nos acompanha!...
É uma mistura de saudade tão pungente e de tristeza tão dorida, que não se consegue explicar. Sente-se e connosco vive.
Flores, velas, orações e lágrimas! Lágrimas... de saudade umas, de remorsos outras. Mas para nós, cristãos, não será hipocrisia chorar pelos mortos?
Não serão as lágrimas mais apropriadas para aqueles que estão como que amortalhados na frieza, na indiferença, no abandono, sofrendo carências de toda a ordem e por isso antecipadamente sepultados no coração dos vivos?
É que, nestes dias em que os cemitérios se enchem, há, entre essas multidões, e à mistura com testemunhos de sincera saudade, uma grande quota parte de hipocrisia, de vaidade e de ostentação, com que se pretende esconder aos que ainda estão em vida, aquilo que não se deu aos que já morreram.
Como disse Santo Agostinho: "Flores e lágrimas são alívio dos vivos, mas não refrigério dos mortos..."
Reflexão em dia de romagem ao Cemitério –02-11-2010)