sexta-feira, setembro 06, 2013
PORTUGAL A ARDER
Há anos, e apesar da lengalenga dos nossos políticos a respeito da prevenção de incêndios, o resultado está à vista - culturas queimadas, habitações destruídas, corpos calcinados e centenas de hectares ardidos. Assistimos assim ao desaparecimento de grande parte da nossa floresta. Montes verdejantes vão-se transformando em autênticas paisagens lunares e se alguma coisa ainda nos resta, podemos agradecê-lo à boa vontade, à coragem e à abnegação dos nossos Soldados da Paz, motivados apenas por sentimentos de solidariedade e de altruísmo.
Todos nós sabemos que estes fogos de Verão não se podem apagar com paliativos de última hora. O combate aos incêndios florestais do Verão deve começar no Inverno... E não com discursos palavrosos e ocos com que os nossos sapientíssimos políticos tentam endrominar os ingénuos. A abertura de caminhos e aceiros, a construção de pontos de água são factores fundamentais muitos falados em inaugurações e campanhas, mas completamente esquecidos quando se trata da sua concretização.
Sendo a prática de atear fogos um puro acto de terrorismo e até de terrorismo planeado, não só os culpados como os cúmplices, deveriam ser castigados com penas que desmotivassem a execução de tamanhos crimes. Porém, o que se verifica, é que, na maior parte dos casos, a pretexto de qualquer tara mental (quase sempre inexistente!), culpado e cúmplices, depressa são postos em liberdade. Os fogos combatem-se com água, mas também com medidas repressivas. E parece que isso não é assim compreendido pelos responsáveis. Não haverá, à semelhança do que acontece com outras práticas escuras que por aí abundam, a cumplicidade de poderosos com braço comprido?
Os incendiários são presos, mas são logo postos em liberdade, porque sofrem de perturbações mentais ou são indivíduos “traumatizados” pela droga ou pelo álcool. É assim que funciona a justiça.
Já no longínquo Verão de 2000, o ministro, Fernando Gomes, distribuiu pelos pastores um binóculo, um boné, um casaco e um telemóvel e promoveu-os a "guardiões da floresta". A operação custou 125 mil euros em material e mais 25 mil para chamadas. Quem ficou a ganhar foi quem vendeu o Kit, porque de resultados práticos nunca ouvi falar. Treze anos depois nada se aprendeu e se formos ver o que as Autarquias gastaram em prevenção, facilmente encontramos a explicação para tanta morte e tanta desgraça!
Há dinheiro para festas, inaugurações, e outros divertimentos, mas não para abrir aceiros ou construir pontos de água nos locais mais apropriados das matas. Em 2000, quem lucrou foi quem vendeu os Kits. Hoje são as Empresas que alugam helicópteros e aviões. Morrem bombeiros, ardem matas, culturas, habitações, fica gente na miséria, mas ninguém é responsável. Uma espécie de fatalismo está a criar-se na maior parte das mentes portuguesas. Somos um povo de acomodados. Não sabemos até quando, mas as revoluções não começam todas da mesma maneira.
A PROPÓSITO DE LEITURA
Sempre
gostei muito de ler. Houve um período na minha vida em que, além de minha
mulher, a minha companheira favorita era a leitura.
Não
tínhamos vizinhos, vivíamos isolados em plena floresta tropical numa casa
coberta com colmo e rodeada de seringueiras.
Do
Mundo, as notícias chegavam-nos através da Rádio na banda das “ondas curtas” que
por vezes se tornavam “curtíssimas”, pois a audição era péssima.
Não
tínhamos luz eléctrica e às seis da tarde a noite caía. Havia, por isso,
necessidade de ocupar o tempo – as longas noites de África. E a leitura era o
nosso refúgio. À luz da “Coleman” ou da “Petromax”…
Em
1951 entrei para o «Clube do Livro» da Bélgica, e de mês a mês lá chegava o barco
com os víveres, as cartas e os livros!
E,
como costuma dizer-se, “devorava-os”! Tomava notas. Exprimia a minha opinião, a
lápis, nos espaços em branco. Ora concordava com as ideias expressas, ora era
contra.
Já
nesse tempo fazia parte dos que apadrinham o conceito de que um livro tem sempre
dois autores: o que o escreve e aquele que o lê. Nalguns, as minhas notas quase
faziam desaparecer algumas das frases do autor. Infelizmente, quase todos foram
queimados aquando do despertar dessa onda de “liberdade” que varreu o
Continente negro na década de sessenta.
Há
dias, encontrei na minha estante, um dos que escapou à fúria dessa turbamulta: «Les Saints vont en Enfer», de Gilbert
Cesbron.
E
foi esse que motivou esta minha crónica de hoje. Um livro que gerou bastante
polémica nesses longínquos tempos, mas que acabou por se afirmar e se tornar
uma obra de referência do escritor.
E
é porque até só o prefácio tem muito a ver com o que penso e com a minha
maneira de estar na vida, – sobretudo quando denuncio injustiças e defendo o
povo do qual honrosamente faço parte – que traduzi, à intenção dos leitores, um
pequeno excerto:
«Eis um livro que vai desagradar a muita
gente. Mas será que a prudência é, ainda, uma virtude?
Num
mundo em que aqueles que falam a mesma língua não se conseguem fazer perceber
sem um intérprete; num tempo em que os mediadores são assassinados e a honra
esquartejada; neste século em que reina a cruz sem o Cristo, eu não quero ser
de nenhum partido. O que vi entre os seus membros é mais do que suficiente para
que tome esta decisão. Assim eu nunca deixarei a mão dos homens no meio dos
quais eu cresci….»
Inteligentes
que são, os meus leitores compreenderão o que quero dizer… e o porquê das
alfinetadas de algumas das minhas crónicas.
sexta-feira, agosto 30, 2013
INCÊNDIO NA SERRA DO CARAMULO
Há
alguns dias que desde o nascer do sol até às 20 horas, a minha casa é
sobrevoada por aviões “Canadair” e helicópteros que fazem o vaivém entre a
barragem da Aguieira, onde se abastecem de água, que depois vão despejar na
Serra do Caramulo onde um incêndio lavra, matando, queimando e destruindo tudo
o que encontra pela frente.
Centenas
de Bombeiros e várias Corporações vindas de todo o País encontram-se no local.
Há, infelizmente, até agora três mortos no combate ao incêndio: uma bombeira de
Alcabideche, um bombeiro do Estoril e uma da Corporação de Carregal do Sal, todos jovens.
Há
também dois bombeiros hospitalizados com prognóstico reservado.
São
20 horas do dia 30 de Agosto de 2013 e, segundo informações da Protecção Civil,
o fogo estaria dominado.
O
fumo tem sido intenso e às 19 horas parece ser já de noite. O cheiro a queimado
entra pelas janelas e as faúlhas caem por todo o lado.
domingo, agosto 25, 2013
SANGUE NA ESTRADA
Apoiada
numa “aranha” a velhinha estava junto à passadeira. Olhar suplicante esperava
que algum automóvel abrandasse para que pudesse atravessar a estrada. Quando
chegou a minha vez, parei, e fiz sinal à anciã para passar. Entretanto, alguém
buzinou atrás de mim. Olhei pelo retrovisor e fiquei estupefacto: uma senhora
gesticulava e pelos movimentos da boca percebi que me dirigia “elogios” por ter
parado! Voltei a olhar. E então, vendo que a olhava, levou o dedo à testa
naquele gesto que todos conhecem… Incrível como uma jovem tem atitudes
destas!...
Tentei
decorar a matrícula ou seguir o carro, mas infelizmente não consegui uma coisa
nem outra. É que gostaria de lembrar àquela jovem senhora que, um dia, talvez
ela poderá ter também necessidade que alguém pare para ela atravessar a
estrada….
Não
sei se já se aperceberam, mas o automóvel modifica de tal maneira o
comportamento de certos indivíduos, que ficamos por vezes perplexos vendo a
transformação que se opera neles quando por vezes nos ultrapassam a grande
velocidade e nos olham com desdém, como se fossem verdadeiros donos e senhores
da estrada, e nós uns empecilhos ou uns atrasados mentais. E é tão evidente
essa transformação que chego a convencer-me que esses kamikazes do volante confundem carta de condução com uma autorização
legal que lhes confere o direito de a transformarem numa “ licença para matar!“
Muitos
dos indivíduos que vemos por detrás daquela rodinha que dá pelo nome de
volante, não conduzem: - são suicidas disfarçados, desconhecedores das mais
elementares regras do Código da Estrada. Consciente ou inconscientemente eles
distraem-se brincando não só com a própria vida, como também com a dos que
cumprem e respeitam rigorosamente as normas da condução.
Era
comum ouvir-se, aqui há anos, que a culpa era das estradas, porque estreitas e
de piso irregular. Para outros, a acusação recaía sobre os veículos, pois o
nosso parque automóvel era dos mais velhos do Mundo e, assim, as máquinas que
circulavam nas nossas rodovias eram velhos calhambeques ou caranguejolas
multicores, que gingando e fumegando, lá iam atroando os ares com as suas
estridentes buzinas, semeando o pânico e a morte.
Hoje
tudo isso foi ultrapassado e tanto o estado das estradas como as
características dos veículos mudaram completamente. No entanto e apesar de tudo
isso a taxa de sinistralidade em Portugal continua a ser uma das mais elevadas
de Europa. Aumentam-se as multas, triplicam-se os efectivos das Brigadas de
Trânsito, adquirem-se novos equipamentos de fiscalização, mas os resultados são
nulos e cada vez se morre mais nas estradas portuguesas. A semana passada
ilustra de forma inequívoca essa realidade.
E
a sinistralidade continuará enquanto não se adoptar uma pedagogia adequada para
acabar de vez com a falta de educação e civismo dos condutores portugueses. Não
vai ser fácil. Mas é urgente que se pense nisso. Nenhuma outra solução
resultará.
INSTRUIR E EDUCAR
A
boa educação, a delicadeza e as boas maneiras, caldeadas num cadinho com um
tudo-nada de cultura, traçavam, outrora, o perfil do mais comum dos Cidadãos.
Havia
depois os outros que, numa escala com números mais altos, constituíam a nata da
sociedade, onde se perfilavam as mais variadas profissões -juízes, médicos,
advogados, políticos e professores, faziam parte desse leque de indivíduos que,
na sua generalidade, inspiravam uma certa confiança e ditavam os padrões de
valores a seguir.
Sem
menosprezo para qualquer um dos citados, vou hoje falar-vos do Professor. E
isso porque, nesta Sociedade de hoje em que todos parecem apostados numa ânsia
desvairada de obtenção de prazeres e de lucros fáceis, continua a descurar-se,
completamente, a formação das gerações vindouras.
Se
é verdade que existem algumas excepções, e há ainda famílias em que os pais
sabem ensinar os filhos e incutir-lhes os valores da boa educação, do sentido
da responsabilidade, da disciplina e do respeito pelos mais velhos, a maior
parte dos nossos jovens desconhece, por completo, as mais rudimentares regras
desses padrões.
Não
vou aqui entrar em pormenores, nem tão pouco arvorar-me em moralista. Nada
disso. Já transpus muita barreira, já cai muitas vezes, levantei-me outras
tantas e não é agora, com o Sol quase no ocaso, que vou invadir terrenos
alheios e, quixotescamente, lutar contra essa fortaleza inexpugnável que é a Nova Escola.
O
que pretendo com este desabafo de hoje, é prestar uma sincera homenagem de
agradecimento e gratidão, ainda que póstuma (e bem póstuma!...), à minha
Professora da instrução primária, que fazia da sua profissão uma arte e um
sacerdócio. Instruir e educar, era a sua divisa. A Escola era o complemento do lar,
e o que não se trazia de casa era ensinado na sala de aulas. Era assim que era
construído o travejamento social do mundo de amanhã.
"O
magistério deve ser uma profissão vocacional; não há pior mestre que o animado
por simples fins lucrativos, nem pior pedagogia do que a aquela que é praticada
sem amor..."
Nesta
citação está a resposta para muitas das situações que se vivem actualmente nas
nossas Escolas.
Academicamente,
posso não ser a pessoa abalizada para tal conclusão. No entanto, o meu CV – o “Certificado
de Velhice” – um diploma que a velhice me conferiu e que foi obtido não em
aulas teóricas, mas em aulas práticas e vividas, autoriza-me a fazê-lo.
sábado, agosto 10, 2013
O CASAMENTO DE DONA VÍRGULA
Não
é muito numerosa a família, mas os membros que formam a copa da sua árvore
genealógica são indispensáveis, sobretudo no campo das Letras e até das Leis…
Um
dia, um dos seus membros, DONA VÍRGULA, tomou-se de amores pelo ACENTO CIRCUNFLEXO e
apesar da opinião desfavorável do PONTO
DE INTERROGAÇÃO, que punha no
enlace algumas RETICÊNCIAS, o casamento foi marcado, tendo ficado combinado
que a cerimónia se realizaria num grande espaço pertencente à matriarca, que
dava pelo nome de PONTUAÇÃO.
Porém,
na véspera do casamento, aconteceu o inesperado: Uma alcoviteira, cujo nome não
foi revelado, veio noite dentro, informar DONA
VÍRGULA de que o seu
amado se tinha enamorado de outra mulher de duvidosa fama, conhecida no meio,
pelo estranho nome de CEDILHA!
Não
podendo conter a raiva, DONA VÍRGULA, mandou chamar o traidor a fim de lhe pedir
explicações, pois não era fêmea que se deixasse enxovalhar aos olhos de toda a sua
tribo. Logo que ele entrou no salão, DONA
VÍRGULA, esguichando
ódio por todos os poros, virou-se para as aias e gritou-lhes: abram ASPAS!...
E
com as janelas abertas, talvez motivada pelos cheiros das flores vindos do
quintal, DONA VÍRGULA ficou mais calma, mandou fechar ASPAS e ficou só com
o ACENTO CIRCUNFLEXO.
E
começou então a conversa entre os dois:
-
Não imaginas como estava contente por entrar, finalmente, no teu PARÊNTESIS, -
começou DONA VÍRGULA.
- DONA VÍRGULA, Senhora
minha- interrompeu o ACENTO
CIRCUNFLEXO… Mas a traída
não o deixou continuar:
-
Cala-te, traidor! Não negues. Eu sei tudo, até o seu nome. Chama-se CEDILHA e
não sei como é que tu me trocaste por esse apêndice do C, que, por vezes, dá
lugar a equívocos malcheirosos, transformando a caça em caca…
De
repente ouviu-se um grande tropel e entraram na sala de rompante o ACENTO AGUDO, o
ACENTO GRAVE e logo atrás o PONTO
DE INTERROGAÇÃO, que com as RETICÊNCIAS tentaram pôr água na fervura, que é como quem diz,
acalmar DONA VÍRGULA e livrar o ACENTO
CIRCUNFLEXO daquela
situação complicada.
Este
último, usando os seus dotes de para chuva, ainda tentou
alertar os recém- chegados para o facto de DONA
VIRGULA estar a ser
intransigente e não querer ouvi-lo. Tudo em vão. MADAME VÍRGULA, pôs
ACENTO
GRAVE e rompeu
o casamento…
Anos
depois, o TRAÇO DE UNIÃO levou DONA
VÍRGULA ao altar onde a
esperava o PONTO…. E, nesse dia, consomou-se a união do PONTO e VIRGULA pondo
um PONTO FINAL em toda a confusão que se tinha gerado na unida família
da PONTUAÇÃO…
OS AVÓS
Assinalou-se no passado dia 26 de Julho
o Dia dos Avós. À parte algumas iniciativas levadas a cabo pela Igreja Católica,
não houve, por parte do Governo, qualquer gesto ou cerimónia para assinalar a
efeméride.
Quanto a nós seria legítimo que tivesse
havido da parte de quem manda, no mínimo, uma comemoração simbólica que
chamasse a atenção para o valor do enorme potencial dos idosos e para o reconhecimento e apoio que necessitam e merecem
da Sociedade e do Estado.
No Antigo Testamento o idoso era
apontado como o exemplo para os mais novos – era uma espécie de correia de
transmissão da sabedoria que vinha de Deus e da experiência que a vida lhe
tinha ensinado.
Com efeito, ao longo dos anos, – quando
os seus alicerces estão bem assentes na rocha firme da moral – o homem vai
acumulando saberes, conhecimentos e valores que, reunidos, constituem um
valioso património.
Com o andar do tempo e à medida que os
sonhos se esfumam, que as paixões se esvaziam, e que à euforia de outrora
sucede a crua realidade da vida, o idoso é um inesgotável manancial de
ensinamentos. Nele foram desaguando, pouco a pouco, a experiência dos anos e a
naturalidade das virtudes.
É esse conjunto de regras e preceitos,
esses valores morais, afectivos e religiosos, os pilares da família que deveriam servir de
argamassa para tentar colmatar os rombos existentes nesta sociedade
computadorizada e consumista, desumanizada pelo automatismo, pela informática e
pela cibernética. Seria esse o fermento que contribuiria para a formação de uma
sociedade mais justa, mais solidária, mais experiente e mais humanizada.
Infelizmente não é isso o que
acontece...
O homem sábio, do bom conselho, embora
ainda exista, é posto de parte. Na sociedade actual não há lugar nem paciência
para velhos. Os valores económicos aniquilaram os valores espirituais e
culturais.
Como de peças velhas se tratasse – muito
embora o seu trabalho tivesse contribuído para a edificação daquilo a que se
chama civilização moderna, os idosos são
marginalizados e lançados para o ferro
velho, sem escrúpulos, sem respeito e sem dignidade!
Todo aquele que trabalhou honestamente e
adquiriu saber não só na área profissional como também em termos de cultura, de
bom senso, de prudência e de lucidez, é um livro cheio de conselhos e
ensinamentos que merece ser folheado.
Celebrar o Dia dos Avós é comemorar a
experiência de vida, maturidade e a sabedoria dos que são considerados segundos
pais. E em qualquer parte há sempre uns Avós nos quais os netos têm, muitas
vezes, a única referência de estabilidade, de afecto e de carinho.
sexta-feira, julho 26, 2013
NO COMEÇO DE MAIS UMA ETAPA
A
partir de certa idade parece que o tempo passa mais depressa, que passa a
correr, sem quase nos apercebermos.
Parece
que os anos, à semelhança dos bólides modernos, circulam a uma velocidade tal,
que nem dá tempo para apreciar a paisagem.
É
como se viajássemos numa cápsula com janelas de vidros foscos donde apenas se
vê o desfilar de sombras, a passagem de objectos sem contornos definidos, a
sucessão de imagens fantasmagóricas – tudo isso perpassando ao som do barulho
infernal das preocupações do dia-a-dia que nos contagiam e se apossam das
nossas mentes.
Nesta
sociedade materialista que nos comanda e escraviza, nada podemos fazer para nos
libertarmos desta engrenagem maldita a que por obra e graça do progresso fomos
acorrentados. Elos da mesma cadeia, parte do mesmo todo, giramos à volta do
mesmo eixo e sofremos a influência dos mesmos ventos.
Toda
esta corrida desenfreada da vida moderna roubou-nos a paz de espírito, a
religiosidade do silêncio de outrora e o sonho de sermos interiormente livres,
o sonhos da criança que fomos!
E
assim vai passando o tempo. Veloz, indiferente à nossa insatisfação, aos nossos
desenganos, às nossas frustrações e aos nossos queixumes. É assim o jogo
quotidiano da própria vida, feito de competições e indiferenças!
Mas
mesmo assim todos os dias fazemos planos, todos os dias gizamos projectos,
todos os dias acalentamos esperanças, mesmo correndo o risco de ver o sonho
transformado em pesadelo!... Mas é a voz da esperança a incutir
"alma" no vazio da crescente desumanização; é um convite para
reforçar, – neste tempo sem tempo em que vivemos – o hino à vida, fazendo
ressuscitar o sonho perdido por intermédio de uma poesia humanista e
solidária...
Falo
de poesia, mas não sou poeta. O poeta é aquele que sente de outra forma. O
poeta não se faz, o poeta nasce. O verdadeiro poeta aprofunda sentimentos e
vivências e faz descobrir nas pequenas coisas grandes coisas, mostrando-nos
que, afinal, o que somos e o que fazemos tem uma razão de ser mais profunda do
que aquilo que pensamos. Há quem diga que a poesia é o homem. E como o homem
tem sempre uma paixão a construir, um sonho a desabrochar, um combate a travar
ou uma felicidade a atingir, a poesia tudo isso contém: amor, emoção, luta,
esperança – uma amálgama de religiosidade e de mistério que são, afinal, os
ingredientes de que é feita a vida. O tempo voa. Foge... Mas não será o tempo
um aliado que Deus nos deu? Não é ele que dá consistência e valor às coisas?
Quanto mais tempo passa, menos doem os desgostos... Façamos então dele um
poema. Aliás, como disse o poeta, «uma hora não é uma hora. É um vaso cheio de
perfumes, de sons, de projectos, de alegrias e de esperanças...»
MANTER A ROTA
O tempo, apesar de ser um grande
escultor, nunca volta atrás para fazer retoques ou modificar seja o que for na
obra que esculpiu. No entanto, confesso que embora o "passado" seja
para mim um ponto de referência, também não gostaria de voltar a vivê-lo.
No interior daqueles que chegaram a
homens sem nunca terem sido meninos, há marcas do passado que jamais se
diluirão e que acabam, mais tarde, por servir de lenitivo, de compensação e até
de refúgio, sejam quais forem os sobressaltos e os desencontros das nossas vidas.
Por mais que queiramos não conseguimos nunca apagar esses traços, essas pegadas
que marcaram o começo da nossa existência. Há sempre um episódio que perdura
eternamente - uma vontade insatisfeita, uma aspiração que realizámos, um
castigo injusto, uma paixão infantil, um sonho que se desfez e muitas
esperanças também!
E é quando a caminhada já vai longa,
quando a intensidade das paixões diminuiu, quando as horas deixaram de nos
escravizar e as modernas encruzilhadas da vida nos confundem, é então que
procuramos o tal refúgio. E nele reflectimos, meditamos, analisamos e, quase
sem querer, voltamos atrás e recordamos...
E é nesses momentos mágicos, quando o
silêncio impera e refreia o pensamento, que a imaginação, à rédea solta, viaja
no tempo, segue as pegadas e perde-se no sótão poeirento das nossas memórias...
Mas nem sempre o reencontro com o
passado é pacífico. A vida não volta à infância e muitas vezes as lutas que
interiormente travamos por querermos adaptar as aivecas do antigo arado à
moderna charrua do tractor, só nos trazem desgostos e frustrações. São lutas
inglórias...
É que a diferença entre os marcos de
pedra do passado e as balizas electrónicas do presente é abismal. Incomensurável!...
Protagonista dessas pelejas, muitas
vezes, mesmo antes de começar, deponho as armas, tão diferentes se me afiguram
os métodos do combate e as armas do "inimigo"!
Ademais, não se pode parar o tempo.
Temos de viver uns com os outros e é difícil escapar às atmosferas sociais do
tempo que passa. Sem renunciar ao passado, tento ser homem do presente. Mas
sempre com a aldeia de antigamente a pular-me no coração. Aquela aldeia de
olhos postos em Deus, em que se fechava um negócio com um aperto de mão e uma
palavra de honra. Foi nesse mundo que me fiz homem, que aprendi a partilhar,
que aprendi a cumprir a doutrina da solidariedade, do respeito mútuo, da lei da
honra. Ali interiorizei para sempre o valor da amizade e a cultura dos
princípios da moral sem necessidade de folhear volumosos livros nem estudar
complicados tratados de filosofia política ou outra. E agora, que a embarcação
começa a desmantelar-se, agarro-me aos pedaços que resistiram às tempestades e
vestindo o colete da Fé, tento manter a rota neste mar alteroso e traiçoeiro em
que vivemos.
AS BIRRAS DAS "NOSSAS CRIANÇAS GRANDES"
Tempos longínquos, esses!... Era
no tempo em que – sobretudo nos meios rurais – se chegava a pai sem nunca ter
sido menino.
Qual trabalho infantil, qual
carapuça! Era preciso ajudar os pais e cedo se começava a comer o pão amassado
pelo diabo... Cedo se adquiria o sentido da responsabilidade e, com ela, logo
se iniciava, por aprendizagem prática e contacto directo, o conhecimento do
mundo real.
Não pretendo fazer a apologia
desses tempos difíceis até porque, também eu, muitas vezes palmilhei os seus
agrestes e íngremes caminhos.
Reconheço, no entanto, que
então, e malgré tout se
atingia a maturidade mais cedo. Aliás, é a própria ciência da evolução das
espécies que no-lo ensina: quanto mais evoluída é a espécie, mais longa se
torna a fase da desmama...
E, de facto, hoje, o que as
estatísticas e os estudos sociológicos nos mostram é que a idade em que os
cidadãos atingem a maturidade e a independência económica e social é cada vez
mais elevada.
Exemplos? Há por aí a rodos. O
País está a abarrotar de crianças
grandes!
Quase todas elas
inexperientes, mimadas, irrequietas, mal-educadas, bazófias e, mais grave
ainda, completamente desconhecedoras do mundo real que as rodeia.
Recebo de vez em quando uns
“piropos” acusando-me de falar muito no passado e de ter saudades desse tempo,
que muitos - mesmo sem conhecimento de causa – lhe atribuem "feitos"
tenebrosos! Que lhes faça bom proveito, mas quem não gosta de recordar a sua mocidade?
Quem, como eu, que cedo
comecei a comer o pão que o diabo amassou, pode ficar indiferente ao
comportamento inqualificável dessas crianças
grandes, às quais nunca nada faltou e que de repente tudo tiram aos que
pouco têm? Como podemos nós, os mais idosos, que trabalhámos uma vida inteira,
assistir sem revolta a tudo isto? A corrupção, a falta de palavra, a
irresponsabilidade, o desprezo pelo bem comum, fizeram com que se criasse uma
classe de parasitas, que urge exterminar quanto antes.
Os tristes episódios
políticos a que estamos a assistir são bem o espelho dessa “enxerga podre cheia
de percevejos” que é a política, como lhe chamou Guerra Junqueiro. Esses bichos
fedorentos, esses parasitas, esses homens sem escrúpulos que não hesitam em
criar situações trágicas para o povo e que desacreditam uma Nação aos olhos do
Mundo; que brincam com a vida de pessoas e põem, sobretudo os mais carenciados
numa situação deveras trágica, esses homens, dizia, deveriam ser julgados, não
pela História, que é castigo indolor, mas por tribunais competentes, céleres e
isentos. Que não os nossos…
quarta-feira, julho 24, 2013
VIVER O PRESENTE
Esse grande escultor que é o tempo nunca volta atrás para fazer retoques ou modificar seja o que for na obra que esculpiu. No entanto, confesso que embora o "passado" seja para mim um ponto de referência, também não gostaria de voltar a vivê-lo.
No interior daqueles que chegaram a homens sem nunca terem sido meninos, há marcas do passado que jamais se diluirão e que acabam, mais tarde, por servir de lenitivo, de compensação e até de refúgio, sejam quais forem os sobressaltos e os desencontros das nossas vidas. Por mais que queiramos não conseguimos nunca apagar esses traços, essas pegadas que marcaram o começo da nossa existência.
Há sempre um episódio que perdura eternamente - uma vontade insatisfeita, uma aspiração que realizámos, um castigo injusto, uma paixão infantil, um sonho que se desfez e muitas esperanças também!
E é quando a caminhada já vai longa, quando a intensidade das paixões diminuiu, quando as horas deixaram de nos escravizar e as modernas encruzilhadas da vida nos confundem, é então que procuramos o tal refúgio. E nele reflectimos, meditamos, analisamos e, quase sem querer, voltamos atrás e recordamos...
E é nesses momentos mágicos, quando o silêncio impera e refreia o pensamento, que a imaginação, à rédea solta, viaja no tempo, segue as pegadas e perde-se no sótão poeirento das nossas memórias.
Mas nem sempre o reencontro com o passado é pacífico. A vida não volta à infância e muitas vezes as lutas que interiormente travamos por querermos adaptar a aiveca do arado à moderna charrua do tractor, só nos traz desgostos e frustrações. É uma luta inglória - a diferença entre os marcos de pedra do passado e as balizas electrónicas do presente é abismal. Incomensurável!...
Protagonista dessas pelejas, muitas vezes, mesmo antes de começar, deponho as armas, tão diferentes se me afiguram os métodos do combate perante as armas do "inimigo"!
Ademais, não se pode parar o tempo. Temos de viver uns com os outros e é difícil escapar às atmosferas sociais do tempo que passa. Sem renunciar ao passado, tento ser homem do presente. Mas sempre com a aldeia de antigamente a pular-me no coração. Aquela aldeia de olhos postos em Deus, em que se fechava um negócio com um aperto de mão e uma palavra de honra. Foi nesse mundo que me fiz homem, que aprendi a partilhar, que aprendi a cumprir a doutrina da solidariedade, do respeito mútuo, da lei da honra.
Diz-se que a maior parte dos velhos vive de recordações. É natural que assim seja, pois quando já não se pode conservar a alegria da infância e a embarcação começa a desmantelar-se de tanta tempestade ter enfrentado, há que construir outra - uma espécie de jangada feita com os pedaços mais resistentes que escaparam…E com ela tentar esquecer o passado, não pensar no futuro e viver o presente.
No interior daqueles que chegaram a homens sem nunca terem sido meninos, há marcas do passado que jamais se diluirão e que acabam, mais tarde, por servir de lenitivo, de compensação e até de refúgio, sejam quais forem os sobressaltos e os desencontros das nossas vidas. Por mais que queiramos não conseguimos nunca apagar esses traços, essas pegadas que marcaram o começo da nossa existência.
Há sempre um episódio que perdura eternamente - uma vontade insatisfeita, uma aspiração que realizámos, um castigo injusto, uma paixão infantil, um sonho que se desfez e muitas esperanças também!
E é quando a caminhada já vai longa, quando a intensidade das paixões diminuiu, quando as horas deixaram de nos escravizar e as modernas encruzilhadas da vida nos confundem, é então que procuramos o tal refúgio. E nele reflectimos, meditamos, analisamos e, quase sem querer, voltamos atrás e recordamos...
E é nesses momentos mágicos, quando o silêncio impera e refreia o pensamento, que a imaginação, à rédea solta, viaja no tempo, segue as pegadas e perde-se no sótão poeirento das nossas memórias.
Mas nem sempre o reencontro com o passado é pacífico. A vida não volta à infância e muitas vezes as lutas que interiormente travamos por querermos adaptar a aiveca do arado à moderna charrua do tractor, só nos traz desgostos e frustrações. É uma luta inglória - a diferença entre os marcos de pedra do passado e as balizas electrónicas do presente é abismal. Incomensurável!...
Protagonista dessas pelejas, muitas vezes, mesmo antes de começar, deponho as armas, tão diferentes se me afiguram os métodos do combate perante as armas do "inimigo"!
Ademais, não se pode parar o tempo. Temos de viver uns com os outros e é difícil escapar às atmosferas sociais do tempo que passa. Sem renunciar ao passado, tento ser homem do presente. Mas sempre com a aldeia de antigamente a pular-me no coração. Aquela aldeia de olhos postos em Deus, em que se fechava um negócio com um aperto de mão e uma palavra de honra. Foi nesse mundo que me fiz homem, que aprendi a partilhar, que aprendi a cumprir a doutrina da solidariedade, do respeito mútuo, da lei da honra.
Diz-se que a maior parte dos velhos vive de recordações. É natural que assim seja, pois quando já não se pode conservar a alegria da infância e a embarcação começa a desmantelar-se de tanta tempestade ter enfrentado, há que construir outra - uma espécie de jangada feita com os pedaços mais resistentes que escaparam…E com ela tentar esquecer o passado, não pensar no futuro e viver o presente.
quinta-feira, julho 18, 2013
UM DOS MEUS PESADELOS
Sem
saber como, nem porquê, dei comigo sentado numa cadeira da última fila de uma sala
de aulas cá da cidade.
O professor
não tinha nada daquele mestre do meu tempo que era assim mais "pesadote"
na idade, mais escrupuloso no vestir e também não lhe chamávamos “sotor”.
Este
vestia calça de ganga, e oficiava em mangas de camisa. Por falta de um botão,
via-se um peito cabeludo onde luzia um fio prateado, na extremidade do qual
baloiçava um berloque.
Calçava
sapatos de ténis que deviam ter nascido brancos mas que agora, a idade ou os
maus tratos, tinham transformado num arco-íris rastejante. Talvez perante o meu
olhar inquisidor o meu colega de carteira sussurrou-me que era um professor porreiraço, bué...
Constava
que a sua especialidade era a agricultura, pois possuía uma licenciatura num
desses novos cursos, - Ciências Agrárias, se não estou em erro - mas em face da
crise nesse sector, virou-se para o ensino e lá conseguiu umas aulas...de
português!...
«-Como
já por várias vezes tenho afirmado - começou ele dirigindo-se à turma - quanto
a mim, para que o aproveitamento na disciplina de português seja o desejado,
devemos acabar com a ortografia. Acabando com ela, suprimem-se os erros
ortográficos...
Raciocínio sem contestação possível,
pois se cortarmos o pescoço a qualquer fulano, ele não sofrerá mais de dores de
cabeça, pensei eu cá prós meus botões.
-Os
pequenos - continuou - não gostam de português, porque a maior parte das
palavras não se escrevem como se pronunciam, ou se pronunciam de maneira
diferente daquela como se escrevem...
Raciocínio foneticamente muito
discutível, mas que deixei passar.
-A
ortografia - insistiu - porque só uns tantos a praticam, é um elemento de
segregação social e pode até ser considerada como uma forma camuflada de
racismo. Por isso, não só contribui para o empobrecimento cultural, pelo tempo
que rouba e pelos sentimentos xenófobos que desperta, como também é responsável
pelo enfraquecimento do espírito, tendo em conta o esforço que exige...
Raciocínio de cariz político-partidário,
que fingi não perceber.
-Porque
- continuou, já vermelho e a transpirar - a ortografia é nos nossos dias uma
coisa arcaica; cheira a mofo e não tem cabimento numa sociedade de tecnologias
avançadas. Vivemos quase meio século no cárcere do obscurantismo. Há quase
quatro décadas que dele nos libertaram!
Então
por que esperamos para deitar no lixo as grilhetas que ainda nos prendem a esse
passado, (que eu nem sequer conheci!...) mas que dizem ter sido sinistro e castrante,
indolente e conservador?!»
E
foi então que me levantei para protestar. E desmenti com toda a força tão
ilustre "pedagogo", explicando que no "tal passado que ele nem
sequer tinha conhecido", a maior parte daqueles que faziam a quarta classe
ficava a saber escrever correctamente o português. Sem erros ortográficos!
E
fui posto na rua... Que raio de pesadelo!
MORRA MARTA...MORRA FARTA!
«- … A bem dizer, Doutor, eu estou bem, mas como se diz por aí que não
sabemos alimentar-nos, vim pedir o parecer de um médico. Por exemplo, fala-se
muito no sal…
- O sal? O sal é a pior droga existente sobre a Terra. Os gordos, os
cardíacos…
- Mas, Doutor, uma omeleta sem sal…
- Omeleta? Nem fale em ovos, homem! Olhe o fígado e não esqueça o
desequilíbrio que podem causar no aparelho digestivo!
- Mas, Doutor, eu só tenho digestões difíceis quando como carne de
porco…
- Carne de porco?... Sabe que os nitritos são tantos nessa carniça que
podem levar um cristão directamente à cova sem passar pela Igreja?
- Nesse caso, Doutor, um bife com batatas fritas…
- Nem pense! Não sabe que os bovinos de hoje são alimentados
quimicamente e engordados à força de hormonas? Não lhe diz nada esse palavrão?
Já pensou no veneno que contém um bife? E quanto a batatas, atenção! Nada de
abusos. Os pesticidas contra as doríforas, os produtos químicos para as
conservarem…
- Eu bem digo lá em casa, Doutor, que o frango é ainda…
- Alto aí, caro amigo. Atenção. Esse galináceo tem ainda mais química
do que o animal. É como uma esponja e absorve todos os venenos possíveis e
imaginários contidos nas farinhas que lhe põem nas tremonhas.
- Então, Doutor, pelos vistos, só o peixe…
- Qual o quê? Então não tem ouvido falar na poluição dos mares, nos
petroleiros lavados em pleno Oceano, nos detritos e nos esgotos que envenenam
as águas? O peixe actualmente contém quantidades de mercúrio alarmantes! Comer
peixe equivale a suicidar-se trincando termómetros daqueles antigos, homem!
- Ouça, Doutor, depois de o ouvir falar de tanta desgraça, sabe o que
vou fazer? Comer apenas pão com manteiga…
- Experimente e verá… Com a farinha actual que é apenas um pó indigesto
e a manteiga que é colesterol no seu estado mais puro, você mal se precata tem
as artérias entupidas, dá dois saltos e é um homem morto!...
- Nesse caso, Doutor, penso que só nos resta o ar…
- E mesmo assim, só o ar do campo, porque o da cidade com os gazes dos
escapes dos automóveis e os fumos tóxicos das fábricas…
- Pró raio que o parta, seu esculápio de uma figa!
Eu cá vou ingerir nitritos, hormonas, mercúrio e todos esses venenos
que diz existirem em tudo o que sabe bem. Vou consolar-me, ouviu bem? Vou
consolar-me. Vou comer de tudo o que me apetecer, sem olhar aos venenos que o
Doutor enumerou. Passe bem…»
P.S. Anos depois, a secção de
necrologia do jornal da Vila onde morava o consulente, anunciava a sua morte. Acrescentava
a notícia que o motorista que causara o atropelamento se tinha posto em fuga…
ÁFRICA MÁRTIR
Não
reconheço, a quem nunca viveu em África, autoridade e conhecimentos suficientes
para dela falarem. E isto, porque é muito difícil, e para muitos até
impossível, entrar na
mentalidade dos seus habitantes, mesmo até depois de uma convivência de anos.
Muitos
dos que escrevem, esquecem-se, (ou não sabem) que a descolonização tentou impor
à nova África, "um nacionalismo sem Nação", quando é a tribo, e não a
nação, que constitui a célula base da vida africana.
A
título de exemplo, aquando do conflito, há alguns anos, entre o Ruanda e o
Zaire, e muito embora nós chamemos os opositores de ruandeses e zairenses, o
certo é que na intimidade das suas aldeias eles sentem orgulho de pertencerem,
antes de tudo, às suas respectivas e inúmeras tribos de origem. E assim, o que
designamos por uma guerra entre paises, é , na realidade, uma guerra entre
tribos rivais. O que é muito mais trágico e, por que não dizê-lo, de solução
quase impossível.
Todos
nós sabemos que as fronteiras coloniais nunca foram fronteiras naturais, tendo
sido estabelecidas pelo simples entendimento entre as nações europeias
adoptando os critérios da divisão do bolo, portanto, com limites falsos. E foi
assim que se pretendeu fazer viver em comum povos que nem a raça, nem a língua,
nem a religião, nem os interesses, predispunham a pertencer ao mesmo Estado.
Houve mesmo fronteiras ditas naturais que separaram os próprios irmãos, como os
Somalis, submetidos durante anos a cinco domínios: o italiano a Mogadíscio, o
britânico em Berbera, o francês em Djibouti, o etíope em Ogaden, e a queniana
no Oeste. O Zaire não escapa também a esse fenómeno, e as várias convulsões por
que tem passado são, -com a ajuda de interesses externos, complementados pela
ambição desmedida dos novos mandantes, fruto da passagem rápida e sem transição
da era da zorra à do avião - motivadas, em grande parte, por questões tribais
transmitidas de geração para geração. O genocídio está em vias de ser
considerado uma prática comum...
Não
resisto a citar o poeta ugandês Okot Bitek: "O rio de sangue que a África
verteu depois das independências, é mais largo e mais longo que o poderoso
Nilo. Os refugiados africanos são tão numerosos como as nuvens de gafanhotos.
As nossas prisões estão a abarrotar de presos políticos..."
Tudo
isto para concluir que vem longe o dia em que todos os habitantes e em especial
as crianças, possam usufruir do bem-estar, da tranquilidade e da paz que alguns
homens, desconhecedores da realidade do Continente Africano, prometeram a seus
pais, há mais de cinco décadas.
Lembrei-me
deste texto que escrevi em 1997 e que
foi traduzido para neerlandês e publicado
em 1997 no semanário belga “Delta” ao ler há dias o apelo de D. François Xavier
Maroy Rusengo, arcebispo de Bukavu, que de visita a Portugal, pediu que
rezassem pela paz na Republica Democrática do Congo. Um País que 53 anos depois
da independência continua a ser palco de guerras, de mortes, de violações e de
lágrimas. Um exemplo de como a impunidade transforma um País rico num rio de
sangue.
PRIMAVERA
Maio
pardo. Manhã de Domingo. Um Domingo de aldeia, silencioso, sem trânsito e
dominado apenas pelos ruídos próprios da ruralidade – o balido de uma ovelha, o
cacarejar das galinhas do vizinho e ao longe o uivar plangente de um cão.
Uma
brisa fresca vinda da Serra da Estrela deu os bons-dias e continuou. Pelo rumo
que levava dirigia-se à sua colega do Caramulo que ainda mal acordada parecia
espreguiçar-se afastando a ténue cortina da névoa matinal.
O
Sol despontou há pouco e de bocarra aberta estende os braços, inundando de luz
a Natureza e fazendo brilhar as gotas de água retidas na verde folhagem das
árvores. A avaliar pelas poças de água aqui e além no caminho, choveu de noite.
Cheira
a Primavera – esse cheiro característico e indefinido em que tudo se reúne e
onde o odor vindo da terra prenhe de novidade a despontar, se mistura com os
variados cheiros dos inúmeros perfumes das indumentárias com que as árvores se
começam a vestir.
O
lençol de nuvens que cobria a Serra desapareceu, e ela resplandece agora
oferecendo-nos uma espécie de manta de farrapos de várias cores – uma espécie
de arco-íris de flores campestres em que a urze predomina e sobressai…
Como
que hipnotizado por tão natural e rara beleza, quase não me apercebi da sua
chegada: eram muitos e vinham em grupos. Todos diferentes tanto no vestir, como
na maneira de se exprimirem ou na forma de se deslocarem, mas no fundo todos
iguais e parecidos na maneira de comunicar.
Não
compreendia a sua linguagem, mas dava para entender que todos estavam de acordo
quanto ao local escolhido para a reunião.
De
que se trataria? De um aniversário, de uma festa ou simplesmente da comemoração
de uma data importante? Havia também aqueles cujos procedimentos se
assemelhavam a uma confraternização ou a uma reunião de amigos ou conhecidos.
E
assim permaneceram por algum tempo num encontro barulhento, interrompido de vez
em quando por uma debandada geral, mas logo seguida de um retorno maciço.
Entretanto
devem ter chegado a acordo, pois assim como vieram, em grupos, assim partiram,
pressupondo eu que tenha sido para pôr em execução o que haviam combinado.
O
Sol agora aquece mais e a passarada, em bandos, com as andorinhas a comandar a
“esquadrilha”, lá se dispersou em várias direcções….
Maio
pardo. Manhã de Domingo e eu a pedir a Deus que me conceda mais um ano para
assistir a outro encontro da passarada, a mais um dos Seus milagres, a mais um
renascimento – o da Primavera em que a Natureza se veste toda de verde fazendo
sobressair os variados tons das flores que desabrocham de viçosos caules.
Manhã
de Domingo. Primavera - a Natureza com fatiotas garridas. Que belo e
deslumbrante espectáculo. E que bênção ao contemplá-lo do alto deste meu montão de
Invernos!
sexta-feira, junho 07, 2013
NUNCA É TARDE
Se há gente que pensa tudo conhecer e
nada sabe, há também os que, reconhecendo que pouco sabem, vão sempre
procurando enriquecer-se culturalmente.
E nestas coisas do saber há ainda muitos
que, erradamente perfilham a ideia de que só nas Universidades se adquire o
verdadeiro conhecimento das coisas e das pessoas.
Em contrapartida, outros há que a partir
de certa idade e escondendo-se atrás do velho ditado que diz que «burro velho
não aprende línguas», se acomodam, param, esquecendo, até, por vezes, o pouco
que aprenderam. Ora, nunca é tarde para aprender e, hoje, felizmente, são
muitos os caminhos que conduzem aos locais de aprendizagem.
E para que a cultura «seja aquilo que
resta quando tudo se esqueceu», é necessário, no entanto, saber qualquer coisa.
E esse «qualquer coisa» está ao alcance de cada um de nós.
A cultura é, sem discussão possível, um
dos grandes estimulantes da vida. Ela contribui para enriquecer o espírito e o
seu abandono caracteriza a decadência e traduz-se sempre numa derrota da
liberdade. Elemento essencial do conhecimento, ela é um viático que nos
acompanha no difícil caminho da verdade. É uma bagagem indispensável para o
entendimento humano e a única arma para vencer a servidão.
Na discussão sobre a igualdade a cultura
que cada um traz consigo, é a maior fonte de vitalidade e um contributo
essencial para a autonomia do indivíduo. E esses conhecimentos servem, sobretudo,
para melhor compreendermos os problemas sociais, económicos, mediáticos e humanos
quando com eles confrontados.
Tudo isso nos ajuda também a captar
melhor, e melhor compreender as inovações culturais da época em que vivemos sem
no entanto sacrificar ou esquecer a importância dos feitos passados.
A cultura é prazer e necessidade, como
tudo o que é essencial na vida, do amor ao bom vinho, pois muito embora prazer
e necessidade sejam de sinais opostos, com ela, eles completam-se.
Para que a cultura seja «aquilo que
resta quando tudo se esqueceu», é necessário, no entanto, saber qualquer coisa.
Hoje os caminhos de acesso à cultura são imensos e não cessam de se melhorar.
Se antigamente as elites das grandes cidades se cultivavam mais facilmente que
as populações da província, hoje essas populações, quando há vontade e curiosidade
podem também aceder facilmente ao conhecimento das coisas.
Cultiva-se ainda hoje a ideia errada de
que só nas Universidades se aprende. Embora o autodidacta tenha sempre
existido, hoje ele tem a tarefa mais facilitada graças às novas tecnologias da informação.
Hoje só não aprende e só não se cultiva quem não quer. Nunca é tarde para
aprender.
sábado, maio 18, 2013
CARO MÁRIO ALBERTO
Permita-me que o
trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos
aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse
tratamento.
Resolvi escrever-lhe,
porque, e como o senhor disse um dia, “as pessoas têm direito à indignação”. E eu
estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o
bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para
nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante
uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os
oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a cavalgar tartarugas
a dar lições de austeridade, aulas de política, dinheiro aos pobres e, de repente,
querem que calce as pantufas e de charuto na boca deixe correr o marfim?
Por tudo isso, meu
caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de lhe
manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar!
Andam por aí esses
rapazotes, esses “fils à Papa”
a fazer asneiras, a esbanjar dinheiro e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a
barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles deem com isto em pantanas?
A continuar este
regabofe e com estes meninos a esbanjar o dinheiro o que será das nossas
reformas e benesses vitalícias para que possamos continuar a manter o nosso
estatuto?
Sei que alguns dos
seus “companhons de route” não
concordam consigo, nem com algumas das suas aventuras, chegando mesmo a
compará-lo com um tal Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha e ao seu
encontro com dois “exércitos de ovelhas”, que afinal eram dois inofensivos
rebanhos! Tudo isso traduz bem a inveja daqueles que a gente sabe…Mesmo o
Sancho, aquele do “Quadrado”, mas não lhe dê importância, é trova que o vento
leva…
Li algures que esses rapazotes
também lhe foram ao bolso e cortaram no subsídio da sua Fundação. Não há
direito!...
E para terminar quero
dizer-lhe que também me solidarizei consigo e com o Manel Poeta e não fui à
festa do 25 de Abril. Era o que faltava. Nós, no meio daquela gente que não nos
merece!...
E a propósito da
festa da Liberdade, não acha que continuamos a viver numa espécie de
situacionismo anterior a 74, embora disfarçado sob o manto da Democracia? Onde
estão as promessas que nos fizeram nessa data tão simbólica? Na altura dizia-se
haver 100 famílias milionárias. E hoje quantas existem? E os Ex-qualquer coisa
que estão a receber reformas milionárias enquanto o número de pobres aumenta dia-a-dia?
Porque o espaço que
me é reservado está quase todo preenchido, vou terminar exprimindo-lhe o meu
contentamento por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter
sonhos lindos…
CARO MÁRIO ALBERTO
Permita-me que o
trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos
aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse
tratamento.
Resolvi escrever-lhe,
porque, e como o senhor disse um dia, “as pessoas têm direito à indignação”. E eu
estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o
bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para
nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante
uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os
oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a cavalgar tartarugas
a dar lições de austeridade, aulas de política, dinheiro aos pobres e, de repente,
querem que calce as pantufas e de charuto na boca deixe correr o marfim?
Por tudo isso, meu
caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de lhe
manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar!
Andam por aí esses
rapazotes, esses “fils à Papa”
a fazer asneiras, a esbanjar dinheiro e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a
barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles deem com isto em pantanas?
A continuar este
regabofe e com estes meninos a esbanjar o dinheiro o que será das nossas
reformas e benesses vitalícias para que possamos continuar a manter o nosso
estatuto?
Sei que alguns dos
seus “companhons de route” não
concordam consigo, nem com algumas das suas aventuras, chegando mesmo a
compará-lo com um tal Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha e ao seu
encontro com dois “exércitos de ovelhas”, que afinal eram dois inofensivos
rebanhos! Tudo isso traduz bem a inveja daqueles que a gente sabe…Mesmo o
Sancho, aquele do “Quadrado”, mas não lhe dê importância, é trova que o vento
leva…
Li algures que esses rapazotes
também lhe foram ao bolso e cortaram no subsídio da sua Fundação. Não há
direito!...
E para terminar quero
dizer-lhe que também me solidarizei consigo e com o Manel Poeta e não fui à
festa do 25 de Abril. Era o que faltava. Nós, no meio daquela gente que não nos
merece!...
E a propósito da
festa da Liberdade, não acha que continuamos a viver numa espécie de
situacionismo anterior a 74, embora disfarçado sob o manto da Democracia? Onde
estão as promessas que nos fizeram nessa data tão simbólica? Na altura dizia-se
haver 100 famílias milionárias. E hoje quantas existem? E os Ex-qualquer coisa
que estão a receber reformas milionárias enquanto o número de pobres aumenta dia-a-dia?
Porque o espaço que
me é reservado está quase todo preenchido, vou terminar exprimindo-lhe o meu
contentamento por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter
sonhos lindos…
ESCOLHAS
Ontem,
dia 25 de Abril, Dia da Liberdade, quando me levantei, ainda pensei pedir ao
meu motorista para preparar o Mercedes e ir até Lisboa ouvir os filhos da
pátria no Palratório. Mas depois de uma pequena reflexão resolvi solidarizar-me
com o Mário Alberto e com o Manuel Poeta, que não foram, porque o ambiente não
era propício a pessoas do nosso gabarito. E não fui…
Mas
se Liberdade é Liberdade por que não festejar também a minha?
E
então decretei que ninguém cá em casa poderia ter acesso a qualquer órgão
informativo, sobretudo os audiovisuais.
Quanto
a Jornais, só entram os Regionais, pois são os mais pobres e portanto os mais
honestos nas notícias que divulgam. Pela proximidade com as populações,
conhecendo as suas dificuldades e anseios, a Imprensa Regional é essencial para
as vivências locais, detendo papel preponderante na divulgação das realidades
abrangidas pela sua área de actuação.
No
que diz respeito a rádio, televisão e Internet, silêncio absoluto. Ninguém pode
rodar o botão.
Não
foi difícil o consenso. Como somos apenas dois, resolvemos tudo pela via do
diálogo e acabamos sempre por estar de acordo um com o outro.
Às
oito e trinta da matina saímos de casa para o quintal. O Sol, vindo lá dos
píncaros frios da Serra da Estrela e ainda enroupado numa nuvem branca, deu-nos
os bons-dias. Os cachos de flores da glicínia brilhava mais, e nas folhas das
plantas, os reflexos do astro-rei incidindo nas gotas de água, que escorriam da
orvalhada da noite, faziam tremeluzir miríades de estrelinhas!
O
chilrear da passarada lembrava uma orquestra sem maestro – tocando cada qual
uma partitura diferente, mas, mesmo assim, como é delicioso ouvir a cantoria da
passarada no quintal!
As
andorinhas, em voos rasantes, mergulham no tanque-piscina e enchem o bico com
água para ajudar na construção dos seus ninhos.
Foi
este ambiente que escolhemos. Cortámos a relva do jardim, e plantámos flores ao
mesmo tempo que apreciávamos os encantos da Natureza. E é sorvendo esta mistura
de perfumes proveniente das várias espécies do jardim que eu festejo, neste
dia, a Liberdade que é minha, a Liberdade de escolher. E eu escolhi este
cenário de tranquilidade, esta atmosfera de paz e de bem-estar…
Cansei-me
dos discursos palavrosos de todos esses Pinóquios da Democracia que no lugar do
coração têm a carteira. Quanto aos seus cérebros e olhando a situação em que nos meteram, vê-se logo quão insignificante é
a quantidade de massa cinzenta, que ali mora.
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