sexta-feira, agosto 30, 2013

INCÊNDIO NA SERRA DO CARAMULO


Há alguns dias que desde o nascer do sol até às 20 horas, a minha casa é sobrevoada por aviões “Canadair” e helicópteros que fazem o vaivém entre a barragem da Aguieira, onde se abastecem de água, que depois vão despejar na Serra do Caramulo onde um incêndio lavra, matando, queimando e destruindo tudo o que encontra pela frente.
Centenas de Bombeiros e várias Corporações vindas de todo o País encontram-se no local. Há, infelizmente, até agora três mortos no combate ao incêndio: uma bombeira de Alcabideche, um bombeiro do Estoril e uma  da Corporação de Carregal do Sal, todos jovens.
Há também dois bombeiros hospitalizados com prognóstico reservado.
São 20 horas do dia 30 de Agosto de 2013 e, segundo informações da Protecção Civil, o fogo estaria dominado.   
O fumo tem sido intenso e às 19 horas parece ser já de noite. O cheiro a queimado entra pelas janelas e as faúlhas caem por todo o lado.
Esperamos que seja verdade e que não haja reacendimentos…  

domingo, agosto 25, 2013

SANGUE NA ESTRADA


Apoiada numa “aranha” a velhinha estava junto à passadeira. Olhar suplicante esperava que algum automóvel abrandasse para que pudesse atravessar a estrada. Quando chegou a minha vez, parei, e fiz sinal à anciã para passar. Entretanto, alguém buzinou atrás de mim. Olhei pelo retrovisor e fiquei estupefacto: uma senhora gesticulava e pelos movimentos da boca percebi que me dirigia “elogios” por ter parado! Voltei a olhar. E então, vendo que a olhava, levou o dedo à testa naquele gesto que todos conhecem… Incrível como uma jovem tem atitudes destas!...
Tentei decorar a matrícula ou seguir o carro, mas infelizmente não consegui uma coisa nem outra. É que gostaria de lembrar àquela jovem senhora que, um dia, talvez ela poderá ter também necessidade que alguém pare para ela atravessar a estrada….
Não sei se já se aperceberam, mas o automóvel modifica de tal maneira o comportamento de certos indivíduos, que ficamos por vezes perplexos vendo a transformação que se opera neles quando por vezes nos ultrapassam a grande velocidade e nos olham com desdém, como se fossem verdadeiros donos e senhores da estrada, e nós uns empecilhos ou uns atrasados mentais. E é tão evidente essa transformação que chego a convencer-me que esses kamikazes do volante confundem carta de condução com uma autorização legal que lhes confere o direito de a transformarem numa “ licença para matar!“
Muitos dos indivíduos que vemos por detrás daquela rodinha que dá pelo nome de volante, não conduzem: - são suicidas disfarçados, desconhecedores das mais elementares regras do Código da Estrada. Consciente ou inconscientemente eles distraem-se brincando não só com a própria vida, como também com a dos que cumprem e respeitam rigorosamente as normas da condução.
Era comum ouvir-se, aqui há anos, que a culpa era das estradas, porque estreitas e de piso irregular. Para outros, a acusação recaía sobre os veículos, pois o nosso parque automóvel era dos mais velhos do Mundo e, assim, as máquinas que circulavam nas nossas rodovias eram velhos calhambeques ou caranguejolas multicores, que gingando e fumegando, lá iam atroando os ares com as suas estridentes buzinas, semeando o pânico e a morte.
Hoje tudo isso foi ultrapassado e tanto o estado das estradas como as características dos veículos mudaram completamente. No entanto e apesar de tudo isso a taxa de sinistralidade em Portugal continua a ser uma das mais elevadas de Europa. Aumentam-se as multas, triplicam-se os efectivos das Brigadas de Trânsito, adquirem-se novos equipamentos de fiscalização, mas os resultados são nulos e cada vez se morre mais nas estradas portuguesas. A semana passada ilustra de forma inequívoca essa realidade.
E a sinistralidade continuará enquanto não se adoptar uma pedagogia adequada para acabar de vez com a falta de educação e civismo dos condutores portugueses. Não vai ser fácil. Mas é urgente que se pense nisso. Nenhuma outra solução resultará.
































INSTRUIR E EDUCAR

A boa educação, a delicadeza e as boas maneiras, caldeadas num cadinho com um tudo-nada de cultura, traçavam, outrora, o perfil do mais comum dos Cidadãos.
Havia depois os outros que, numa escala com números mais altos, constituíam a nata da sociedade, onde se perfilavam as mais variadas profissões -juízes, médicos, advogados, políticos e professores, faziam parte desse leque de indivíduos que, na sua generalidade, inspiravam uma certa confiança e ditavam os padrões de valores a seguir.
Sem menosprezo para qualquer um dos citados, vou hoje falar-vos do Professor. E isso porque, nesta Sociedade de hoje em que todos parecem apostados numa ânsia desvairada de obtenção de prazeres e de lucros fáceis, continua a descurar-se, completamente, a formação das gerações vindouras.
Se é verdade que existem algumas excepções, e há ainda famílias em que os pais sabem ensinar os filhos e incutir-lhes os valores da boa educação, do sentido da responsabilidade, da disciplina e do respeito pelos mais velhos, a maior parte dos nossos jovens desconhece, por completo, as mais rudimentares regras desses padrões.
Não vou aqui entrar em pormenores, nem tão pouco arvorar-me em moralista. Nada disso. Já transpus muita barreira, já cai muitas vezes, levantei-me outras tantas e não é agora, com o Sol quase no ocaso, que vou invadir terrenos alheios e, quixotescamente, lutar contra essa fortaleza inexpugnável que é a Nova Escola.
O que pretendo com este desabafo de hoje, é prestar uma sincera homenagem de agradecimento e gratidão, ainda que póstuma (e bem póstuma!...), à minha Professora da instrução primária, que fazia da sua profissão uma arte e um sacerdócio. Instruir e educar, era a sua divisa. A Escola era o complemento do lar, e o que não se trazia de casa era ensinado na sala de aulas. Era assim que era construído o travejamento social do mundo de amanhã.
"O magistério deve ser uma profissão vocacional; não há pior mestre que o animado por simples fins lucrativos, nem pior pedagogia do que a aquela que é praticada sem amor..." 
Nesta citação está a resposta para muitas das situações que se vivem actualmente nas nossas Escolas.
Academicamente, posso não ser a pessoa abalizada para tal conclusão. No entanto, o meu CV – o “Certificado de Velhice” – um diploma que a velhice me conferiu e que foi obtido não em aulas teóricas, mas em aulas práticas e vividas, autoriza-me a fazê-lo.







sábado, agosto 10, 2013

O CASAMENTO DE DONA VÍRGULA


Não é muito numerosa a família, mas os membros que formam a copa da sua árvore genealógica são indispensáveis, sobretudo no campo das Letras e até das Leis…
Um dia, um dos seus membros, DONA VÍRGULA, tomou-se de amores pelo ACENTO CIRCUNFLEXO e apesar da opinião desfavorável do PONTO DE INTERROGAÇÃO, que punha no enlace algumas RETICÊNCIAS, o casamento foi marcado, tendo ficado combinado que a cerimónia se realizaria num grande espaço pertencente à matriarca, que dava pelo nome de PONTUAÇÃO.
Porém, na véspera do casamento, aconteceu o inesperado: Uma alcoviteira, cujo nome não foi revelado, veio noite dentro, informar DONA VÍRGULA de que o seu amado se tinha enamorado de outra mulher de duvidosa fama, conhecida no meio, pelo estranho nome de CEDILHA!
Não podendo conter a raiva, DONA VÍRGULA, mandou chamar o traidor a fim de lhe pedir explicações, pois não era fêmea que se deixasse enxovalhar aos olhos de toda a sua tribo. Logo que ele entrou no salão, DONA VÍRGULA, esguichando ódio por todos os poros, virou-se para as aias e gritou-lhes: abram ASPAS!...
E com as janelas abertas, talvez motivada pelos cheiros das flores vindos do quintal, DONA VÍRGULA ficou mais calma, mandou fechar ASPAS e ficou só com o ACENTO CIRCUNFLEXO.
E começou então a conversa entre os dois:
- Não imaginas como estava contente por entrar, finalmente, no teu PARÊNTESIS, - começou DONA VÍRGULA.
- DONA VÍRGULA, Senhora minha- interrompeu o ACENTO CIRCUNFLEXO… Mas a traída não o deixou continuar:
- Cala-te, traidor! Não negues. Eu sei tudo, até o seu nome. Chama-se CEDILHA e não sei como é que tu me trocaste por esse apêndice do C, que, por vezes, dá lugar a equívocos malcheirosos, transformando a caça em caca…
De repente ouviu-se um grande tropel e entraram na sala de rompante o ACENTO AGUDO, o ACENTO GRAVE e logo atrás o PONTO DE INTERROGAÇÃO, que com as RETICÊNCIAS tentaram pôr água na fervura, que é como quem diz, acalmar DONA VÍRGULA e livrar o ACENTO CIRCUNFLEXO daquela situação complicada. 
Este último, usando os seus dotes de para chuva, ainda tentou alertar os recém- chegados para o facto de DONA VIRGULA estar a ser intransigente e não querer ouvi-lo. Tudo em vão. MADAME VÍRGULA, pôs  ACENTO GRAVE  e rompeu o casamento…
Anos depois, o TRAÇO DE UNIÃO levou DONA VÍRGULA ao altar onde a esperava o PONTO…. E, nesse dia, consomou-se a união do PONTO e VIRGULA pondo um PONTO FINAL em toda a confusão que se tinha gerado na unida família da PONTUAÇÃO…    









OS AVÓS


Assinalou-se no passado dia 26 de Julho o Dia dos Avós. À parte algumas iniciativas levadas a cabo pela Igreja Católica, não houve, por parte do Governo, qualquer gesto ou cerimónia para assinalar a efeméride.
Quanto a nós seria legítimo que tivesse havido da parte de quem manda, no mínimo, uma comemoração simbólica que chamasse a atenção para o valor do enorme potencial dos idosos e para o  reconhecimento e apoio que necessitam e merecem da Sociedade e do Estado.
No Antigo Testamento o idoso era apontado como o exemplo para os mais novos – era uma espécie de correia de transmissão da sabedoria que vinha de Deus e da experiência que a vida lhe tinha ensinado.
Com efeito, ao longo dos anos, – quando os seus alicerces estão bem assentes na rocha firme da moral – o homem vai acumulando saberes, conhecimentos e valores que, reunidos, constituem um valioso património.
Com o andar do tempo e à medida que os sonhos se esfumam, que as paixões se esvaziam, e que à euforia de outrora sucede a crua realidade da vida, o idoso é um inesgotável manancial de ensinamentos. Nele foram desaguando, pouco a pouco, a experiência dos anos e a naturalidade das virtudes.
É esse conjunto de regras e preceitos, esses valores morais, afectivos e religiosos,  os pilares da família que deveriam servir de argamassa para tentar colmatar os rombos existentes nesta sociedade computadorizada e consumista, desumanizada pelo automatismo, pela informática e pela cibernética. Seria esse o fermento que contribuiria para a formação de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais experiente e mais humanizada.
Infelizmente não é isso o que acontece...
O homem sábio, do bom conselho, embora ainda exista, é posto de parte. Na sociedade actual não há lugar nem paciência para velhos. Os valores económicos aniquilaram os valores espirituais e culturais. 
Como de peças velhas se tratasse – muito embora o seu trabalho tivesse contribuído para a edificação daquilo a que se chama civilização moderna,  os idosos são marginalizados e lançados para o ferro velho, sem escrúpulos, sem respeito e sem dignidade!
Todo aquele que trabalhou honestamente e adquiriu saber não só na área profissional como também em termos de cultura, de bom senso, de prudência e de lucidez, é um livro cheio de conselhos e ensinamentos que merece ser folheado.
Celebrar o Dia dos Avós é comemorar a experiência de vida, maturidade e a sabedoria dos que são considerados segundos pais. E em qualquer parte há sempre uns Avós nos quais os netos têm, muitas vezes, a única referência de estabilidade, de afecto e de carinho.













sexta-feira, julho 26, 2013

NO COMEÇO DE MAIS UMA ETAPA


A partir de certa idade parece que o tempo passa mais depressa, que passa a correr, sem quase nos apercebermos.
Parece que os anos, à semelhança dos bólides modernos, circulam a uma velocidade tal, que nem dá tempo para apreciar a paisagem.
É como se viajássemos numa cápsula com janelas de vidros foscos donde apenas se vê o desfilar de sombras, a passagem de objectos sem contornos definidos, a sucessão de imagens fantasmagóricas – tudo isso perpassando ao som do barulho infernal das preocupações do dia-a-dia que nos contagiam e se apossam das nossas mentes.
Nesta sociedade materialista que nos comanda e escraviza, nada podemos fazer para nos libertarmos desta engrenagem maldita a que por obra e graça do progresso fomos acorrentados. Elos da mesma cadeia, parte do mesmo todo, giramos à volta do mesmo eixo e sofremos a influência dos mesmos ventos.
Toda esta corrida desenfreada da vida moderna roubou-nos a paz de espírito, a religiosidade do silêncio de outrora e o sonho de sermos interiormente livres, o sonhos da criança que fomos!
E assim vai passando o tempo. Veloz, indiferente à nossa insatisfação, aos nossos desenganos, às nossas frustrações e aos nossos queixumes. É assim o jogo quotidiano da própria vida, feito de competições e indiferenças!
Mas mesmo assim todos os dias fazemos planos, todos os dias gizamos projectos, todos os dias acalentamos esperanças, mesmo correndo o risco de ver o sonho transformado em pesadelo!... Mas é a voz da esperança a incutir "alma" no vazio da crescente desumanização; é um convite para reforçar, – neste tempo sem tempo em que vivemos – o hino à vida, fazendo ressuscitar o sonho perdido por intermédio de uma poesia humanista e solidária...
Falo de poesia, mas não sou poeta. O poeta é aquele que sente de outra forma. O poeta não se faz, o poeta nasce. O verdadeiro poeta aprofunda sentimentos e vivências e faz descobrir nas pequenas coisas grandes coisas, mostrando-nos que, afinal, o que somos e o que fazemos tem uma razão de ser mais profunda do que aquilo que pensamos. Há quem diga que a poesia é o homem. E como o homem tem sempre uma paixão a construir, um sonho a desabrochar, um combate a travar ou uma felicidade a atingir, a poesia tudo isso contém: amor, emoção, luta, esperança – uma amálgama de religiosidade e de mistério que são, afinal, os ingredientes de que é feita a vida. O tempo voa. Foge... Mas não será o tempo um aliado que Deus nos deu? Não é ele que dá consistência e valor às coisas? Quanto mais tempo passa, menos doem os desgostos... Façamos então dele um poema. Aliás, como disse o poeta, «uma hora não é uma hora. É um vaso cheio de perfumes, de sons, de projectos, de alegrias e de esperanças...»


MANTER A ROTA


O tempo, apesar de ser um grande escultor, nunca volta atrás para fazer retoques ou modificar seja o que for na obra que esculpiu. No entanto, confesso que embora o "passado" seja para mim um ponto de referência, também não gostaria de voltar a vivê-lo.   
No interior daqueles que chegaram a homens sem nunca terem sido meninos, há marcas do passado que jamais se diluirão e que acabam, mais tarde, por servir de lenitivo, de compensação e até de refúgio, sejam quais forem os sobressaltos e os desencontros das nossas vidas. Por mais que queiramos não conseguimos nunca apagar esses traços, essas pegadas que marcaram o começo da nossa existência. Há sempre um episódio que perdura eternamente - uma vontade insatisfeita, uma aspiração que realizámos, um castigo injusto, uma paixão infantil, um sonho que se desfez e muitas esperanças também!
E é quando a caminhada já vai longa, quando a intensidade das paixões diminuiu, quando as horas deixaram de nos escravizar e as modernas encruzilhadas da vida nos confundem, é então que procuramos o tal refúgio. E nele reflectimos, meditamos, analisamos e, quase sem querer, voltamos atrás e recordamos...
E é nesses momentos mágicos, quando o silêncio impera e refreia o pensamento, que a imaginação, à rédea solta, viaja no tempo, segue as pegadas e perde-se no sótão poeirento das nossas memórias...
Mas nem sempre o reencontro com o passado é pacífico. A vida não volta à infância e muitas vezes as lutas que interiormente travamos por querermos adaptar as aivecas do antigo arado à moderna charrua do tractor, só nos trazem desgostos e frustrações. São lutas inglórias...
É que a diferença entre os marcos de pedra do passado e as balizas electrónicas do presente é abismal. Incomensurável!...
Protagonista dessas pelejas, muitas vezes, mesmo antes de começar, deponho as armas, tão diferentes se me afiguram os métodos do combate e as armas do "inimigo"!
Ademais, não se pode parar o tempo. Temos de viver uns com os outros e é difícil escapar às atmosferas sociais do tempo que passa. Sem renunciar ao passado, tento ser homem do presente. Mas sempre com a aldeia de antigamente a pular-me no coração. Aquela aldeia de olhos postos em Deus, em que se fechava um negócio com um aperto de mão e uma palavra de honra. Foi nesse mundo que me fiz homem, que aprendi a partilhar, que aprendi a cumprir a doutrina da solidariedade, do respeito mútuo, da lei da honra. Ali interiorizei para sempre o valor da amizade e a cultura dos princípios da moral sem necessidade de folhear volumosos livros nem estudar complicados tratados de filosofia política ou outra. E agora, que a embarcação começa a desmantelar-se, agarro-me aos pedaços que resistiram às tempestades e vestindo o colete da Fé, tento manter a rota neste mar alteroso e traiçoeiro em que vivemos.





AS BIRRAS DAS "NOSSAS CRIANÇAS GRANDES"


Tempos longínquos, esses!... Era no tempo em que – sobretudo nos meios rurais – se chegava a pai sem nunca ter sido menino.
Qual trabalho infantil, qual carapuça! Era preciso ajudar os pais e cedo se começava a comer o pão amassado pelo diabo... Cedo se adquiria o sentido da responsabilidade e, com ela, logo se iniciava, por aprendizagem prática e contacto directo, o conhecimento do mundo real.
Não pretendo fazer a apologia desses tempos difíceis até porque, também eu, muitas vezes palmilhei os seus agrestes e íngremes caminhos.
Reconheço, no entanto, que então, e malgré tout se atingia a maturidade mais cedo. Aliás, é a própria ciência da evolução das espécies que no-lo ensina: quanto mais evoluída é a espécie, mais longa se torna a fase da desmama...
E, de facto, hoje, o que as estatísticas e os estudos sociológicos nos mostram é que a idade em que os cidadãos atingem a maturidade e a independência económica e social é cada vez mais elevada.
Exemplos? Há por aí a rodos. O País está a abarrotar de crianças grandes!
Quase todas elas inexperientes, mimadas, irrequietas, mal-educadas, bazófias e, mais grave ainda, completamente desconhecedoras do mundo real que as rodeia.
Recebo de vez em quando uns “piropos” acusando-me de falar muito no passado e de ter saudades desse tempo, que muitos - mesmo sem conhecimento de causa – lhe atribuem "feitos" tenebrosos! Que lhes faça bom proveito, mas quem não gosta de recordar a sua mocidade?
Quem, como eu, que cedo comecei a comer o pão que o diabo amassou, pode ficar indiferente ao comportamento inqualificável dessas crianças grandes, às quais nunca nada faltou e que de repente tudo tiram aos que pouco têm? Como podemos nós, os mais idosos, que trabalhámos uma vida inteira, assistir sem revolta a tudo isto? A corrupção, a falta de palavra, a irresponsabilidade, o desprezo pelo bem comum, fizeram com que se criasse uma classe de parasitas, que urge exterminar quanto antes.
Os tristes episódios políticos a que estamos a assistir são bem o espelho dessa “enxerga podre cheia de percevejos” que é a política, como lhe chamou Guerra Junqueiro. Esses bichos fedorentos, esses parasitas, esses homens sem escrúpulos que não hesitam em criar situações trágicas para o povo e que desacreditam uma Nação aos olhos do Mundo; que brincam com a vida de pessoas e põem, sobretudo os mais carenciados numa situação deveras trágica, esses homens, dizia, deveriam ser julgados, não pela História, que é castigo indolor, mas por tribunais competentes, céleres e isentos. Que não os nossos…








quarta-feira, julho 24, 2013

VIVER O PRESENTE

Esse grande escultor que é o tempo nunca volta atrás para fazer retoques ou modificar seja o que for na obra que esculpiu. No entanto, confesso que embora o "passado" seja para mim um ponto de referência, também não gostaria de voltar a vivê-lo.
No interior daqueles que chegaram a homens sem nunca terem sido meninos, há marcas do passado que jamais se diluirão e que acabam, mais tarde, por servir de lenitivo, de compensação e até de refúgio, sejam quais forem os sobressaltos e os desencontros das nossas vidas. Por mais que queiramos não conseguimos nunca apagar esses traços, essas pegadas que marcaram o começo da nossa existência.
Há sempre um episódio que perdura eternamente - uma vontade insatisfeita, uma aspiração que realizámos, um castigo injusto, uma paixão infantil, um sonho que se desfez e muitas esperanças também!
E é quando a caminhada já vai longa, quando a intensidade das paixões diminuiu, quando as horas deixaram de nos escravizar e as modernas encruzilhadas da vida nos confundem, é então que procuramos o tal refúgio. E nele reflectimos, meditamos, analisamos e, quase sem querer, voltamos atrás e recordamos...
E é nesses momentos mágicos, quando o silêncio impera e refreia o pensamento, que a imaginação, à rédea solta, viaja no tempo, segue as pegadas e perde-se no sótão poeirento das nossas memórias.
Mas nem sempre o reencontro com o passado é pacífico. A vida não volta à infância e muitas vezes as lutas que interiormente travamos por querermos adaptar a aiveca do arado à moderna charrua do tractor, só nos traz desgostos e frustrações. É uma luta inglória - a diferença entre os marcos de pedra do passado e as balizas electrónicas do presente é abismal. Incomensurável!...
Protagonista dessas pelejas, muitas vezes, mesmo antes de começar, deponho as armas, tão diferentes se me afiguram os métodos do combate perante as armas do "inimigo"!
Ademais, não se pode parar o tempo. Temos de viver uns com os outros e é difícil escapar às atmosferas sociais do tempo que passa. Sem renunciar ao passado, tento ser homem do presente. Mas sempre com a aldeia de antigamente a pular-me no coração. Aquela aldeia de olhos postos em Deus, em que se fechava um negócio com um aperto de mão e uma palavra de honra. Foi nesse mundo que me fiz homem, que aprendi a partilhar, que aprendi a cumprir a doutrina da solidariedade, do respeito mútuo, da lei da honra.
Diz-se que a maior parte dos velhos vive de recordações. É natural que assim seja, pois quando já não se pode conservar a alegria da infância e a embarcação começa a desmantelar-se de tanta tempestade ter enfrentado, há que construir outra - uma espécie de jangada feita com os pedaços mais resistentes que escaparam…E com ela tentar esquecer o passado, não pensar no futuro e viver o presente.











quinta-feira, julho 18, 2013

UM DOS MEUS PESADELOS


Sem saber como, nem porquê, dei comigo sentado numa cadeira da última fila de uma sala de aulas cá da cidade.
O professor não tinha nada daquele mestre do meu tempo que era assim mais "pesadote" na idade, mais escrupuloso no vestir e também não lhe chamávamos “sotor”.
Este vestia calça de ganga, e oficiava em mangas de camisa. Por falta de um botão, via-se um peito cabeludo onde luzia um fio prateado, na extremidade do qual baloiçava um berloque.
Calçava sapatos de ténis que deviam ter nascido brancos mas que agora, a idade ou os maus tratos, tinham transformado num arco-íris rastejante. Talvez perante o meu olhar inquisidor o meu colega de carteira sussurrou-me que era um professor porreiraço, bué...
Constava que a sua especialidade era a agricultura, pois possuía uma licenciatura num desses novos cursos, - Ciências Agrárias, se não estou em erro - mas em face da crise nesse sector, virou-se para o ensino e lá conseguiu umas aulas...de português!...
«-Como já por várias vezes tenho afirmado - começou ele dirigindo-se à turma - quanto a mim, para que o aproveitamento na disciplina de português seja o desejado, devemos acabar com a ortografia. Acabando com ela, suprimem-se os erros ortográficos...
Raciocínio sem contestação possível, pois se cortarmos o pescoço a qualquer fulano, ele não sofrerá mais de dores de cabeça, pensei eu cá prós meus botões.
-Os pequenos - continuou - não gostam de português, porque a maior parte das palavras não se escrevem como se pronunciam, ou se pronunciam de maneira diferente daquela como se escrevem...
Raciocínio foneticamente muito discutível, mas que deixei passar.
-A ortografia - insistiu - porque só uns tantos a praticam, é um elemento de segregação social e pode até ser considerada como uma forma camuflada de racismo. Por isso, não só contribui para o empobrecimento cultural, pelo tempo que rouba e pelos sentimentos xenófobos que desperta, como também é responsável pelo enfraquecimento do espírito, tendo em conta o esforço que exige...
Raciocínio de cariz político-partidário, que fingi não perceber. 
-Porque - continuou, já vermelho e a transpirar - a ortografia é nos nossos dias uma coisa arcaica; cheira a mofo e não tem cabimento numa sociedade de tecnologias avançadas. Vivemos quase meio século no cárcere do obscurantismo. Há quase quatro décadas que dele nos libertaram!
Então por que esperamos para deitar no lixo as grilhetas que ainda nos prendem a esse passado, (que eu nem sequer conheci!...) mas que dizem ter sido sinistro e castrante, indolente e conservador?!»
E foi então que me levantei para protestar. E desmenti com toda a força tão ilustre "pedagogo", explicando que no "tal passado que ele nem sequer tinha conhecido", a maior parte daqueles que faziam a quarta classe ficava a saber escrever correctamente o português. Sem erros ortográficos!
E fui posto na rua... Que raio de pesadelo!





MORRA MARTA...MORRA FARTA!


«- … A bem dizer, Doutor, eu estou bem, mas como se diz por aí que não sabemos alimentar-nos, vim pedir o parecer de um médico. Por exemplo, fala-se muito no sal…
- O sal? O sal é a pior droga existente sobre a Terra. Os gordos, os cardíacos…
- Mas, Doutor, uma omeleta sem sal…
- Omeleta? Nem fale em ovos, homem! Olhe o fígado e não esqueça o desequilíbrio que podem causar no aparelho digestivo!
- Mas, Doutor, eu só tenho digestões difíceis quando como carne de porco…
- Carne de porco?... Sabe que os nitritos são tantos nessa carniça que podem levar um cristão directamente à cova sem passar pela Igreja?
- Nesse caso, Doutor, um bife com batatas fritas…
- Nem pense! Não sabe que os bovinos de hoje são alimentados quimicamente e engordados à força de hormonas? Não lhe diz nada esse palavrão? Já pensou no veneno que contém um bife? E quanto a batatas, atenção! Nada de abusos. Os pesticidas contra as doríforas, os produtos químicos para as conservarem…
- Eu bem digo lá em casa, Doutor, que o frango é ainda…
- Alto aí, caro amigo. Atenção. Esse galináceo tem ainda mais química do que o animal. É como uma esponja e absorve todos os venenos possíveis e imaginários contidos nas farinhas que lhe põem nas tremonhas.
- Então, Doutor, pelos vistos, só o peixe…
- Qual o quê? Então não tem ouvido falar na poluição dos mares, nos petroleiros lavados em pleno Oceano, nos detritos e nos esgotos que envenenam as águas? O peixe actualmente contém quantidades de mercúrio alarmantes! Comer peixe equivale a suicidar-se trincando termómetros daqueles antigos, homem!
- Ouça, Doutor, depois de o ouvir falar de tanta desgraça, sabe o que vou fazer? Comer apenas pão com manteiga…
- Experimente e verá… Com a farinha actual que é apenas um pó indigesto e a manteiga que é colesterol no seu estado mais puro, você mal se precata tem as artérias entupidas, dá dois saltos e é um homem morto!...
- Nesse caso, Doutor, penso que só nos resta o ar…
- E mesmo assim, só o ar do campo, porque o da cidade com os gazes dos escapes dos automóveis e os fumos tóxicos das fábricas…
- Pró raio que o parta, seu esculápio de uma figa!
Eu cá vou ingerir nitritos, hormonas, mercúrio e todos esses venenos que diz existirem em tudo o que sabe bem. Vou consolar-me, ouviu bem? Vou consolar-me. Vou comer de tudo o que me apetecer, sem olhar aos venenos que o Doutor enumerou. Passe bem…»


P.S. Anos depois, a secção de necrologia do jornal da Vila onde morava o consulente, anunciava a sua morte. Acrescentava a notícia que o motorista que causara o atropelamento se tinha posto em fuga…  

ÁFRICA MÁRTIR


Não reconheço, a quem nunca viveu em África, autoridade e conhecimentos suficientes para dela falarem. E isto, porque é muito difícil, e para muitos até impossível, entrar na mentalidade dos seus habitantes, mesmo até depois de uma convivência de anos.
Muitos dos que escrevem, esquecem-se, (ou não sabem) que a descolonização tentou impor à nova África, "um nacionalismo sem Nação", quando é a tribo, e não a nação, que constitui a célula base da vida africana.
A título de exemplo, aquando do conflito, há alguns anos, entre o Ruanda e o Zaire, e muito embora nós chamemos os opositores de ruandeses e zairenses, o certo é que na intimidade das suas aldeias eles sentem orgulho de pertencerem, antes de tudo, às suas respectivas e inúmeras tribos de origem. E assim, o que designamos por uma guerra entre paises, é , na realidade, uma guerra entre tribos rivais. O que é muito mais trágico e, por que não dizê-lo, de solução quase impossível.
Todos nós sabemos que as fronteiras coloniais nunca foram fronteiras naturais, tendo sido estabelecidas pelo simples entendimento entre as nações europeias adoptando os critérios da divisão do bolo, portanto, com limites falsos. E foi assim que se pretendeu fazer viver em comum povos que nem a raça, nem a língua, nem a religião, nem os interesses, predispunham a pertencer ao mesmo Estado. Houve mesmo fronteiras ditas naturais que separaram os próprios irmãos, como os Somalis, submetidos durante anos a cinco domínios: o italiano a Mogadíscio, o britânico em Berbera, o francês em Djibouti, o etíope em Ogaden, e a queniana no Oeste. O Zaire não escapa também a esse fenómeno, e as várias convulsões por que tem passado são, -com a ajuda de interesses externos, complementados pela ambição desmedida dos novos mandantes, fruto da passagem rápida e sem transição da era da zorra à do avião - motivadas, em grande parte, por questões tribais transmitidas de geração para geração. O genocídio está em vias de ser considerado uma prática comum...
Não resisto a citar o poeta ugandês Okot Bitek: "O rio de sangue que a África verteu depois das independências, é mais largo e mais longo que o poderoso Nilo. Os refugiados africanos são tão numerosos como as nuvens de gafanhotos. As nossas prisões estão a abarrotar de presos políticos..."
Tudo isto para concluir que vem longe o dia em que todos os habitantes e em especial as crianças, possam usufruir do bem-estar, da tranquilidade e da paz que alguns homens, desconhecedores da realidade do Continente Africano, prometeram a seus pais, há mais de cinco décadas.
Lembrei-me deste  texto que escrevi em 1997 e que foi  traduzido para neerlandês e publicado em 1997 no semanário belga “Delta” ao ler há dias o apelo de D. François Xavier Maroy Rusengo, arcebispo de Bukavu, que de visita a Portugal, pediu que rezassem pela paz na Republica Democrática do Congo. Um País que 53 anos depois da independência continua a ser palco de guerras, de mortes, de violações e de lágrimas. Um exemplo de como a impunidade transforma um País rico num rio de sangue.



PRIMAVERA



Maio pardo. Manhã de Domingo. Um Domingo de aldeia, silencioso, sem trânsito e dominado apenas pelos ruídos próprios da ruralidade – o balido de uma ovelha, o cacarejar das galinhas do vizinho e ao longe o uivar plangente de um cão.
Uma brisa fresca vinda da Serra da Estrela deu os bons-dias e continuou. Pelo rumo que levava dirigia-se à sua colega do Caramulo que ainda mal acordada parecia espreguiçar-se afastando a ténue cortina da névoa matinal.
O Sol despontou há pouco e de bocarra aberta estende os braços, inundando de luz a Natureza e fazendo brilhar as gotas de água retidas na verde folhagem das árvores. A avaliar pelas poças de água aqui e além no caminho, choveu de noite.
Cheira a Primavera – esse cheiro característico e indefinido em que tudo se reúne e onde o odor vindo da terra prenhe de novidade a despontar, se mistura com os variados cheiros dos inúmeros perfumes das indumentárias com que as árvores se começam a vestir.
O lençol de nuvens que cobria a Serra desapareceu, e ela resplandece agora oferecendo-nos uma espécie de manta de farrapos de várias cores – uma espécie de arco-íris de flores campestres em que a urze predomina e sobressai…  
Como que hipnotizado por tão natural e rara beleza, quase não me apercebi da sua chegada: eram muitos e vinham em grupos. Todos diferentes tanto no vestir, como na maneira de se exprimirem ou na forma de se deslocarem, mas no fundo todos iguais e parecidos na maneira de comunicar.
Não compreendia a sua linguagem, mas dava para entender que todos estavam de acordo quanto ao local escolhido para a reunião.
De que se trataria? De um aniversário, de uma festa ou simplesmente da comemoração de uma data importante? Havia também aqueles cujos procedimentos se assemelhavam a uma confraternização ou a uma reunião de amigos ou conhecidos.
E assim permaneceram por algum tempo num encontro barulhento, interrompido de vez em quando por uma debandada geral, mas logo seguida de um retorno maciço.
Entretanto devem ter chegado a acordo, pois assim como vieram, em grupos, assim partiram, pressupondo eu que tenha sido para pôr em execução o que haviam combinado.
O Sol agora aquece mais e a passarada, em bandos, com as andorinhas a comandar a “esquadrilha”, lá se dispersou em várias direcções….
Maio pardo. Manhã de Domingo e eu a pedir a Deus que me conceda mais um ano para assistir a outro encontro da passarada, a mais um dos Seus milagres, a mais um renascimento – o da Primavera em que a Natureza se veste toda de verde fazendo sobressair os variados tons das flores que desabrocham de viçosos caules.
Manhã de Domingo. Primavera - a Natureza com fatiotas garridas. Que belo e deslumbrante espectáculo. E que bênção  ao contemplá-lo do alto deste meu montão de Invernos!





 






sexta-feira, junho 07, 2013

NUNCA É TARDE


Se há gente que pensa tudo conhecer e nada sabe, há também os que, reconhecendo que pouco sabem, vão sempre procurando enriquecer-se culturalmente.
E nestas coisas do saber há ainda muitos que, erradamente perfilham a ideia de que só nas Universidades se adquire o verdadeiro conhecimento das coisas e das pessoas.
Em contrapartida, outros há que a partir de certa idade e escondendo-se atrás do velho ditado que diz que «burro velho não aprende línguas», se acomodam, param, esquecendo, até, por vezes, o pouco que aprenderam. Ora, nunca é tarde para aprender e, hoje, felizmente, são muitos os caminhos que conduzem aos locais de aprendizagem.
E para que a cultura «seja aquilo que resta quando tudo se esqueceu», é necessário, no entanto, saber qualquer coisa. E esse «qualquer coisa» está ao alcance de cada um de nós. 
A cultura é, sem discussão possível, um dos grandes estimulantes da vida. Ela contribui para enriquecer o espírito e o seu abandono caracteriza a decadência e traduz-se sempre numa derrota da liberdade. Elemento essencial do conhecimento, ela é um viático que nos acompanha no difícil caminho da verdade. É uma bagagem indispensável para o entendimento humano e a única arma para vencer a servidão.
Na discussão sobre a igualdade a cultura que cada um traz consigo, é a maior fonte de vitalidade e um contributo essencial para a autonomia do indivíduo. E esses conhecimentos servem, sobretudo, para melhor compreendermos os problemas sociais, económicos, mediáticos e humanos quando com eles confrontados.
Tudo isso nos ajuda também a captar melhor, e melhor compreender as inovações culturais da época em que vivemos sem no entanto sacrificar ou esquecer a importância dos feitos passados.
A cultura é prazer e necessidade, como tudo o que é essencial na vida, do amor ao bom vinho, pois muito embora prazer e necessidade sejam de sinais opostos, com ela, eles completam-se.
Para que a cultura seja «aquilo que resta quando tudo se esqueceu», é necessário, no entanto, saber qualquer coisa. Hoje os caminhos de acesso à cultura são imensos e não cessam de se melhorar. Se antigamente as elites das grandes cidades se cultivavam mais facilmente que as populações da província, hoje essas populações, quando há vontade e curiosidade podem também aceder facilmente ao conhecimento das coisas.
Cultiva-se ainda hoje a ideia errada de que só nas Universidades se aprende. Embora o autodidacta tenha sempre existido, hoje ele tem a tarefa mais facilitada graças às novas tecnologias da informação. Hoje só não aprende e só não se cultiva quem não quer. Nunca é tarde para aprender.








sábado, maio 18, 2013

CARO MÁRIO ALBERTO



Permita-me que o trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse tratamento.
Resolvi escrever-lhe, porque, e como o senhor disse um dia, “as pessoas têm direito à indignação”. E eu estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a cavalgar tartarugas a dar lições de austeridade, aulas de política, dinheiro aos pobres e, de repente, querem que calce as pantufas e de charuto na boca deixe correr o marfim?
Por tudo isso, meu caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de lhe manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar!
Andam por aí esses rapazotes, esses “fils à Papa” a fazer asneiras, a esbanjar dinheiro e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles deem com isto em pantanas?
A continuar este regabofe e com estes meninos a esbanjar o dinheiro o que será das nossas reformas e benesses vitalícias para que possamos continuar a manter o nosso estatuto?
Sei que alguns dos seus “companhons de route” não concordam consigo, nem com algumas das suas aventuras, chegando mesmo a compará-lo com um tal Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha e ao seu encontro com dois “exércitos de ovelhas”, que afinal eram dois inofensivos rebanhos! Tudo isso traduz bem a inveja daqueles que a gente sabe…Mesmo o Sancho, aquele do “Quadrado”, mas não lhe dê importância, é trova que o vento leva…
Li algures que esses rapazotes também lhe foram ao bolso e cortaram no subsídio da sua Fundação. Não há direito!...
E para terminar quero dizer-lhe que também me solidarizei consigo e com o Manel Poeta e não fui à festa do 25 de Abril. Era o que faltava. Nós, no meio daquela gente que não nos merece!...
E a propósito da festa da Liberdade, não acha que continuamos a viver numa espécie de situacionismo anterior a 74, embora disfarçado sob o manto da Democracia? Onde estão as promessas que nos fizeram nessa data tão simbólica? Na altura dizia-se haver 100 famílias milionárias. E hoje quantas existem? E os Ex-qualquer coisa que estão a receber reformas milionárias enquanto o número de pobres aumenta dia-a-dia?
Porque o espaço que me é reservado está quase todo preenchido, vou terminar exprimindo-lhe o meu contentamento por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter sonhos lindos…












CARO MÁRIO ALBERTO



Permita-me que o trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse tratamento.
Resolvi escrever-lhe, porque, e como o senhor disse um dia, “as pessoas têm direito à indignação”. E eu estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a cavalgar tartarugas a dar lições de austeridade, aulas de política, dinheiro aos pobres e, de repente, querem que calce as pantufas e de charuto na boca deixe correr o marfim?
Por tudo isso, meu caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de lhe manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar!
Andam por aí esses rapazotes, esses “fils à Papa” a fazer asneiras, a esbanjar dinheiro e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles deem com isto em pantanas?
A continuar este regabofe e com estes meninos a esbanjar o dinheiro o que será das nossas reformas e benesses vitalícias para que possamos continuar a manter o nosso estatuto?
Sei que alguns dos seus “companhons de route” não concordam consigo, nem com algumas das suas aventuras, chegando mesmo a compará-lo com um tal Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha e ao seu encontro com dois “exércitos de ovelhas”, que afinal eram dois inofensivos rebanhos! Tudo isso traduz bem a inveja daqueles que a gente sabe…Mesmo o Sancho, aquele do “Quadrado”, mas não lhe dê importância, é trova que o vento leva…
Li algures que esses rapazotes também lhe foram ao bolso e cortaram no subsídio da sua Fundação. Não há direito!...
E para terminar quero dizer-lhe que também me solidarizei consigo e com o Manel Poeta e não fui à festa do 25 de Abril. Era o que faltava. Nós, no meio daquela gente que não nos merece!...
E a propósito da festa da Liberdade, não acha que continuamos a viver numa espécie de situacionismo anterior a 74, embora disfarçado sob o manto da Democracia? Onde estão as promessas que nos fizeram nessa data tão simbólica? Na altura dizia-se haver 100 famílias milionárias. E hoje quantas existem? E os Ex-qualquer coisa que estão a receber reformas milionárias enquanto o número de pobres aumenta dia-a-dia?
Porque o espaço que me é reservado está quase todo preenchido, vou terminar exprimindo-lhe o meu contentamento por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter sonhos lindos…












ESCOLHAS



Ontem, dia 25 de Abril, Dia da Liberdade, quando me levantei, ainda pensei pedir ao meu motorista para preparar o Mercedes e ir até Lisboa ouvir os filhos da pátria no Palratório. Mas depois de uma pequena reflexão resolvi solidarizar-me com o Mário Alberto e com o Manuel Poeta, que não foram, porque o ambiente não era propício a pessoas do nosso gabarito. E não fui…
Mas se Liberdade é Liberdade por que não festejar também a minha?
E então decretei que ninguém cá em casa poderia ter acesso a qualquer órgão informativo, sobretudo os audiovisuais.
Quanto a Jornais, só entram os Regionais, pois são os mais pobres e portanto os mais honestos nas notícias que divulgam. Pela proximidade com as populações, conhecendo as suas dificuldades e anseios, a Imprensa Regional é essencial para as vivências locais, detendo papel preponderante na divulgação das realidades abrangidas pela sua área de actuação.
No que diz respeito a rádio, televisão e Internet, silêncio absoluto. Ninguém pode rodar o botão.   
Não foi difícil o consenso. Como somos apenas dois, resolvemos tudo pela via do diálogo e acabamos sempre por estar de acordo um com o outro.
Às oito e trinta da matina saímos de casa para o quintal. O Sol, vindo lá dos píncaros frios da Serra da Estrela e ainda enroupado numa nuvem branca, deu-nos os bons-dias. Os cachos de flores da glicínia brilhava mais, e nas folhas das plantas, os reflexos do astro-rei incidindo nas gotas de água, que escorriam da orvalhada da noite, faziam tremeluzir miríades de estrelinhas!   
O chilrear da passarada lembrava uma orquestra sem maestro – tocando cada qual uma partitura diferente, mas, mesmo assim, como é delicioso ouvir a cantoria da passarada no quintal!      
As andorinhas, em voos rasantes, mergulham no tanque-piscina e enchem o bico com água para ajudar na construção dos seus ninhos.
Foi este ambiente que escolhemos. Cortámos a relva do jardim, e plantámos flores ao mesmo tempo que apreciávamos os encantos da Natureza. E é sorvendo esta mistura de perfumes proveniente das várias espécies do jardim que eu festejo, neste dia, a Liberdade que é minha, a Liberdade de escolher. E eu escolhi este cenário de tranquilidade, esta atmosfera de paz e de bem-estar…
Cansei-me dos discursos palavrosos de todos esses Pinóquios da Democracia que no lugar do coração têm a carteira. Quanto aos seus cérebros e olhando a situação em que  nos meteram, vê-se logo quão insignificante é a quantidade de massa cinzenta, que ali mora.













quarta-feira, abril 03, 2013

DIGAM LÁ SE ISTO NÃO É SINA


Serão já poucos os que ainda se lembram dos romances do escritor francês, Pierre Alexis, mais conhecido por Ponson du Terrail, um dos produtores mais populares do romance-folhetim do século XIX.


Na minha adolescência li quase todos os seus livros, sobretudo aqueles em que entrava uma espécie de "herói" que protagonizava as aventuras mais inverosímeis!
O autor celebrizou-se com um folhetim publicado numa revista francesa da época, La Patrie, e que ficou conhecida como a série dos Rocambole, nome por que era conhecido o actor principal.      
A popularidade desse herói crapuloso foi tal, que os capítulos sucederam-se naquela publicação ao longo de vinte e cinco anos.
Os romances intermináveis, mas solidamente estruturados, baseavam-se, essencialmente, na intriga.
Uma intriga complexa em que as peripécias e as situações imprevistas mantinham continuamente o leitor na expectativa - atentados maquiavélicos, usurpações de identidade, crimes, fraudes, disfarces, vinganças, violações, tudo isso com arrependidos e penitentes pelo meio de modo a segurar o leitor durante o desenrolar da acção.

Vem este intróito a propósito das situações rocambolescas que ultimamente se têm vivido ultimamente cá na Lusitânia em diversos sectores da vida nacional e com mais incidência no sector da política. De facto, os nossos eleitos, os filhos da Pátria, não param de nos surpreender com as suas traquinices, as suas birras, a sua incompetência, os seus cambalachos e o seu total desconhecimento do país real!
Mas tudo isto já vem de longe. É a nossa sina, o nosso fado. É a sina do povo. É o mar no seu constante vaivém. Coitado do mexilhão...
Já em 1877, Ramalho Ortigão escrevia: "A política converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os sócios combinam dividir-se em grupos, cuja missão é impelirem-se e repelirem-se sucessivamente uns aos outros, até que a cada um deles chegue o mais frequentemente que for possível a vez de entrar e sair do Governo. Nos pequenos períodos que decorrem entre a chegada e a partida de cada ministério o grupo respectivo renova-se, depondo alguns dos seus membros nos cargos públicos que vagaram e recrutando novos adeptos candidatos aos lugares que vieram a vagar. É este o trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que constitui a vida orgânica do que se chama a política portuguesa..."
E digam lá se isto não é sina!...







UMA REFEIÇÃO QUENTE



Era um homem corpulento caminhando lentamente e olhando o chão como que a procurar o sítio onde devia colocar os pés. Quando entrou, estavam apenas duas pessoas no café: um rapazito franzino atrás do balcão e um magricelas sentado lá no canto, que chupava um cigarro e se entretinha a olhar as espirais que se desprendiam das baforadas de fumo que lançava no ar.
O desconhecido aproximou-se do balcão lentamente, tossiu para limpar a garganta e aclarar a voz, expeliu o estorvo e disparou: «Tenho fome e sede e não tenho dinheiro. Tenho sono e também não tenho dinheiro para pagar o quarto...»
O rapazito do bar, assustado, arregalou os olhos. O magricelas parou de fumar, mediu o colosso de alto a baixo e recomeçou a contemplação das espirais. E o desconhecido insistiu: «Tenho fome, já disse! Quero comer. Se não...»
E então o magriço, fanfarrão, e a sorrir, soltou uma gargalhada estridente que encheu a sala... O empregado do bar, pouco à vontade, acelerou o movimento do pano com que limpava o balcão. O estrangeiro, a passos lentos, aproximou-se do homem do canto, puxou uma cadeira, sentou-se e berrou: «Ora repita lá a risada...»
Fez-se silêncio na sala. Um moscardo embateu fortemente contra o quebra-luz do candeeiro do tecto. E enquanto o rapaz do bar olhava a porta como que a medir de antemão a distância que teria de percorrer para fugir, o estrangeiro pousou as enormes manápulas nos ombros do fumador, sacudiu-o com força e insistiu: «Vamos, ria lá outra vez!...» Mas virando-se para o lado de onde vinha o matraquear dos passos do franganote que se escapulia pela porta, olhou de novo o magricelas e, sorridente, desabafou: «Não tenha medo, amigo. Isto é raiva, é a revolta que me estoura o peito... Não é nada consigo! É com esta choldra que temos aí a mandar...Estou velho, trabalhei durante toda a vida, contribuí para que esses senhores hoje ganhem balúrdios e, agora, depois de ter sido um dócil instrumento do sistema, tenho uma reforma que não dá para comer todos os dias. Não tenho família, estou no mundo sozinho, e tenho fome. E porque roubar vai de encontro ao que me ensinaram, ando por aí às esmolas...»
Entretanto, um polícia surgiu na moldura da porta do café, talvez alertado pelo empregado que fugira e pedira socorro. Sereno, o homenzarrão olhou-o sem manifestar qualquer receio, levantou-se para o seguir e sorridente, disparou para o magricelas que, de olhos arregalados, surpreendido, tinha parado de chupar no cigarro: «Adeus, amigo! Nada mal. Hoje, pelo menos, tenho um tecto e uma refeição quente!...»