Esse grande escultor que é o tempo nunca volta atrás para fazer retoques ou modificar seja o que for na obra que esculpiu. No entanto, confesso que embora o "passado" seja para mim um ponto de referência, também não gostaria de voltar a vivê-lo.
No interior daqueles que chegaram a homens sem nunca terem sido meninos, há marcas do passado que jamais se diluirão e que acabam, mais tarde, por servir de lenitivo, de compensação e até de refúgio, sejam quais forem os sobressaltos e os desencontros das nossas vidas. Por mais que queiramos não conseguimos nunca apagar esses traços, essas pegadas que marcaram o começo da nossa existência.
Há sempre um episódio que perdura eternamente - uma vontade insatisfeita, uma aspiração que realizámos, um castigo injusto, uma paixão infantil, um sonho que se desfez e muitas esperanças também!
E é quando a caminhada já vai longa, quando a intensidade das paixões diminuiu, quando as horas deixaram de nos escravizar e as modernas encruzilhadas da vida nos confundem, é então que procuramos o tal refúgio. E nele reflectimos, meditamos, analisamos e, quase sem querer, voltamos atrás e recordamos...
E é nesses momentos mágicos, quando o silêncio impera e refreia o pensamento, que a imaginação, à rédea solta, viaja no tempo, segue as pegadas e perde-se no sótão poeirento das nossas memórias.
Mas nem sempre o reencontro com o passado é pacífico. A vida não volta à infância e muitas vezes as lutas que interiormente travamos por querermos adaptar a aiveca do arado à moderna charrua do tractor, só nos traz desgostos e frustrações. É uma luta inglória - a diferença entre os marcos de pedra do passado e as balizas electrónicas do presente é abismal. Incomensurável!...
Protagonista dessas pelejas, muitas vezes, mesmo antes de começar, deponho as armas, tão diferentes se me afiguram os métodos do combate perante as armas do "inimigo"!
Ademais, não se pode parar o tempo. Temos de viver uns com os outros e é difícil escapar às atmosferas sociais do tempo que passa. Sem renunciar ao passado, tento ser homem do presente. Mas sempre com a aldeia de antigamente a pular-me no coração. Aquela aldeia de olhos postos em Deus, em que se fechava um negócio com um aperto de mão e uma palavra de honra. Foi nesse mundo que me fiz homem, que aprendi a partilhar, que aprendi a cumprir a doutrina da solidariedade, do respeito mútuo, da lei da honra.
Diz-se que a maior parte dos velhos vive de recordações. É natural que assim seja, pois quando já não se pode conservar a alegria da infância e a embarcação começa a desmantelar-se de tanta tempestade ter enfrentado, há que construir outra - uma espécie de jangada feita com os pedaços mais resistentes que escaparam…E com ela tentar esquecer o passado, não pensar no futuro e viver o presente.
quarta-feira, julho 24, 2013
quinta-feira, julho 18, 2013
UM DOS MEUS PESADELOS
Sem
saber como, nem porquê, dei comigo sentado numa cadeira da última fila de uma sala
de aulas cá da cidade.
O professor
não tinha nada daquele mestre do meu tempo que era assim mais "pesadote"
na idade, mais escrupuloso no vestir e também não lhe chamávamos “sotor”.
Este
vestia calça de ganga, e oficiava em mangas de camisa. Por falta de um botão,
via-se um peito cabeludo onde luzia um fio prateado, na extremidade do qual
baloiçava um berloque.
Calçava
sapatos de ténis que deviam ter nascido brancos mas que agora, a idade ou os
maus tratos, tinham transformado num arco-íris rastejante. Talvez perante o meu
olhar inquisidor o meu colega de carteira sussurrou-me que era um professor porreiraço, bué...
Constava
que a sua especialidade era a agricultura, pois possuía uma licenciatura num
desses novos cursos, - Ciências Agrárias, se não estou em erro - mas em face da
crise nesse sector, virou-se para o ensino e lá conseguiu umas aulas...de
português!...
«-Como
já por várias vezes tenho afirmado - começou ele dirigindo-se à turma - quanto
a mim, para que o aproveitamento na disciplina de português seja o desejado,
devemos acabar com a ortografia. Acabando com ela, suprimem-se os erros
ortográficos...
Raciocínio sem contestação possível,
pois se cortarmos o pescoço a qualquer fulano, ele não sofrerá mais de dores de
cabeça, pensei eu cá prós meus botões.
-Os
pequenos - continuou - não gostam de português, porque a maior parte das
palavras não se escrevem como se pronunciam, ou se pronunciam de maneira
diferente daquela como se escrevem...
Raciocínio foneticamente muito
discutível, mas que deixei passar.
-A
ortografia - insistiu - porque só uns tantos a praticam, é um elemento de
segregação social e pode até ser considerada como uma forma camuflada de
racismo. Por isso, não só contribui para o empobrecimento cultural, pelo tempo
que rouba e pelos sentimentos xenófobos que desperta, como também é responsável
pelo enfraquecimento do espírito, tendo em conta o esforço que exige...
Raciocínio de cariz político-partidário,
que fingi não perceber.
-Porque
- continuou, já vermelho e a transpirar - a ortografia é nos nossos dias uma
coisa arcaica; cheira a mofo e não tem cabimento numa sociedade de tecnologias
avançadas. Vivemos quase meio século no cárcere do obscurantismo. Há quase
quatro décadas que dele nos libertaram!
Então
por que esperamos para deitar no lixo as grilhetas que ainda nos prendem a esse
passado, (que eu nem sequer conheci!...) mas que dizem ter sido sinistro e castrante,
indolente e conservador?!»
E
foi então que me levantei para protestar. E desmenti com toda a força tão
ilustre "pedagogo", explicando que no "tal passado que ele nem
sequer tinha conhecido", a maior parte daqueles que faziam a quarta classe
ficava a saber escrever correctamente o português. Sem erros ortográficos!
E
fui posto na rua... Que raio de pesadelo!
MORRA MARTA...MORRA FARTA!
«- … A bem dizer, Doutor, eu estou bem, mas como se diz por aí que não
sabemos alimentar-nos, vim pedir o parecer de um médico. Por exemplo, fala-se
muito no sal…
- O sal? O sal é a pior droga existente sobre a Terra. Os gordos, os
cardíacos…
- Mas, Doutor, uma omeleta sem sal…
- Omeleta? Nem fale em ovos, homem! Olhe o fígado e não esqueça o
desequilíbrio que podem causar no aparelho digestivo!
- Mas, Doutor, eu só tenho digestões difíceis quando como carne de
porco…
- Carne de porco?... Sabe que os nitritos são tantos nessa carniça que
podem levar um cristão directamente à cova sem passar pela Igreja?
- Nesse caso, Doutor, um bife com batatas fritas…
- Nem pense! Não sabe que os bovinos de hoje são alimentados
quimicamente e engordados à força de hormonas? Não lhe diz nada esse palavrão?
Já pensou no veneno que contém um bife? E quanto a batatas, atenção! Nada de
abusos. Os pesticidas contra as doríforas, os produtos químicos para as
conservarem…
- Eu bem digo lá em casa, Doutor, que o frango é ainda…
- Alto aí, caro amigo. Atenção. Esse galináceo tem ainda mais química
do que o animal. É como uma esponja e absorve todos os venenos possíveis e
imaginários contidos nas farinhas que lhe põem nas tremonhas.
- Então, Doutor, pelos vistos, só o peixe…
- Qual o quê? Então não tem ouvido falar na poluição dos mares, nos
petroleiros lavados em pleno Oceano, nos detritos e nos esgotos que envenenam
as águas? O peixe actualmente contém quantidades de mercúrio alarmantes! Comer
peixe equivale a suicidar-se trincando termómetros daqueles antigos, homem!
- Ouça, Doutor, depois de o ouvir falar de tanta desgraça, sabe o que
vou fazer? Comer apenas pão com manteiga…
- Experimente e verá… Com a farinha actual que é apenas um pó indigesto
e a manteiga que é colesterol no seu estado mais puro, você mal se precata tem
as artérias entupidas, dá dois saltos e é um homem morto!...
- Nesse caso, Doutor, penso que só nos resta o ar…
- E mesmo assim, só o ar do campo, porque o da cidade com os gazes dos
escapes dos automóveis e os fumos tóxicos das fábricas…
- Pró raio que o parta, seu esculápio de uma figa!
Eu cá vou ingerir nitritos, hormonas, mercúrio e todos esses venenos
que diz existirem em tudo o que sabe bem. Vou consolar-me, ouviu bem? Vou
consolar-me. Vou comer de tudo o que me apetecer, sem olhar aos venenos que o
Doutor enumerou. Passe bem…»
P.S. Anos depois, a secção de
necrologia do jornal da Vila onde morava o consulente, anunciava a sua morte. Acrescentava
a notícia que o motorista que causara o atropelamento se tinha posto em fuga…
ÁFRICA MÁRTIR
Não
reconheço, a quem nunca viveu em África, autoridade e conhecimentos suficientes
para dela falarem. E isto, porque é muito difícil, e para muitos até
impossível, entrar na
mentalidade dos seus habitantes, mesmo até depois de uma convivência de anos.
Muitos
dos que escrevem, esquecem-se, (ou não sabem) que a descolonização tentou impor
à nova África, "um nacionalismo sem Nação", quando é a tribo, e não a
nação, que constitui a célula base da vida africana.
A
título de exemplo, aquando do conflito, há alguns anos, entre o Ruanda e o
Zaire, e muito embora nós chamemos os opositores de ruandeses e zairenses, o
certo é que na intimidade das suas aldeias eles sentem orgulho de pertencerem,
antes de tudo, às suas respectivas e inúmeras tribos de origem. E assim, o que
designamos por uma guerra entre paises, é , na realidade, uma guerra entre
tribos rivais. O que é muito mais trágico e, por que não dizê-lo, de solução
quase impossível.
Todos
nós sabemos que as fronteiras coloniais nunca foram fronteiras naturais, tendo
sido estabelecidas pelo simples entendimento entre as nações europeias
adoptando os critérios da divisão do bolo, portanto, com limites falsos. E foi
assim que se pretendeu fazer viver em comum povos que nem a raça, nem a língua,
nem a religião, nem os interesses, predispunham a pertencer ao mesmo Estado.
Houve mesmo fronteiras ditas naturais que separaram os próprios irmãos, como os
Somalis, submetidos durante anos a cinco domínios: o italiano a Mogadíscio, o
britânico em Berbera, o francês em Djibouti, o etíope em Ogaden, e a queniana
no Oeste. O Zaire não escapa também a esse fenómeno, e as várias convulsões por
que tem passado são, -com a ajuda de interesses externos, complementados pela
ambição desmedida dos novos mandantes, fruto da passagem rápida e sem transição
da era da zorra à do avião - motivadas, em grande parte, por questões tribais
transmitidas de geração para geração. O genocídio está em vias de ser
considerado uma prática comum...
Não
resisto a citar o poeta ugandês Okot Bitek: "O rio de sangue que a África
verteu depois das independências, é mais largo e mais longo que o poderoso
Nilo. Os refugiados africanos são tão numerosos como as nuvens de gafanhotos.
As nossas prisões estão a abarrotar de presos políticos..."
Tudo
isto para concluir que vem longe o dia em que todos os habitantes e em especial
as crianças, possam usufruir do bem-estar, da tranquilidade e da paz que alguns
homens, desconhecedores da realidade do Continente Africano, prometeram a seus
pais, há mais de cinco décadas.
Lembrei-me
deste texto que escrevi em 1997 e que
foi traduzido para neerlandês e publicado
em 1997 no semanário belga “Delta” ao ler há dias o apelo de D. François Xavier
Maroy Rusengo, arcebispo de Bukavu, que de visita a Portugal, pediu que
rezassem pela paz na Republica Democrática do Congo. Um País que 53 anos depois
da independência continua a ser palco de guerras, de mortes, de violações e de
lágrimas. Um exemplo de como a impunidade transforma um País rico num rio de
sangue.
PRIMAVERA
Maio
pardo. Manhã de Domingo. Um Domingo de aldeia, silencioso, sem trânsito e
dominado apenas pelos ruídos próprios da ruralidade – o balido de uma ovelha, o
cacarejar das galinhas do vizinho e ao longe o uivar plangente de um cão.
Uma
brisa fresca vinda da Serra da Estrela deu os bons-dias e continuou. Pelo rumo
que levava dirigia-se à sua colega do Caramulo que ainda mal acordada parecia
espreguiçar-se afastando a ténue cortina da névoa matinal.
O
Sol despontou há pouco e de bocarra aberta estende os braços, inundando de luz
a Natureza e fazendo brilhar as gotas de água retidas na verde folhagem das
árvores. A avaliar pelas poças de água aqui e além no caminho, choveu de noite.
Cheira
a Primavera – esse cheiro característico e indefinido em que tudo se reúne e
onde o odor vindo da terra prenhe de novidade a despontar, se mistura com os
variados cheiros dos inúmeros perfumes das indumentárias com que as árvores se
começam a vestir.
O
lençol de nuvens que cobria a Serra desapareceu, e ela resplandece agora
oferecendo-nos uma espécie de manta de farrapos de várias cores – uma espécie
de arco-íris de flores campestres em que a urze predomina e sobressai…
Como
que hipnotizado por tão natural e rara beleza, quase não me apercebi da sua
chegada: eram muitos e vinham em grupos. Todos diferentes tanto no vestir, como
na maneira de se exprimirem ou na forma de se deslocarem, mas no fundo todos
iguais e parecidos na maneira de comunicar.
Não
compreendia a sua linguagem, mas dava para entender que todos estavam de acordo
quanto ao local escolhido para a reunião.
De
que se trataria? De um aniversário, de uma festa ou simplesmente da comemoração
de uma data importante? Havia também aqueles cujos procedimentos se
assemelhavam a uma confraternização ou a uma reunião de amigos ou conhecidos.
E
assim permaneceram por algum tempo num encontro barulhento, interrompido de vez
em quando por uma debandada geral, mas logo seguida de um retorno maciço.
Entretanto
devem ter chegado a acordo, pois assim como vieram, em grupos, assim partiram,
pressupondo eu que tenha sido para pôr em execução o que haviam combinado.
O
Sol agora aquece mais e a passarada, em bandos, com as andorinhas a comandar a
“esquadrilha”, lá se dispersou em várias direcções….
Maio
pardo. Manhã de Domingo e eu a pedir a Deus que me conceda mais um ano para
assistir a outro encontro da passarada, a mais um dos Seus milagres, a mais um
renascimento – o da Primavera em que a Natureza se veste toda de verde fazendo
sobressair os variados tons das flores que desabrocham de viçosos caules.
Manhã
de Domingo. Primavera - a Natureza com fatiotas garridas. Que belo e
deslumbrante espectáculo. E que bênção ao contemplá-lo do alto deste meu montão de
Invernos!
sexta-feira, junho 07, 2013
NUNCA É TARDE
Se há gente que pensa tudo conhecer e
nada sabe, há também os que, reconhecendo que pouco sabem, vão sempre
procurando enriquecer-se culturalmente.
E nestas coisas do saber há ainda muitos
que, erradamente perfilham a ideia de que só nas Universidades se adquire o
verdadeiro conhecimento das coisas e das pessoas.
Em contrapartida, outros há que a partir
de certa idade e escondendo-se atrás do velho ditado que diz que «burro velho
não aprende línguas», se acomodam, param, esquecendo, até, por vezes, o pouco
que aprenderam. Ora, nunca é tarde para aprender e, hoje, felizmente, são
muitos os caminhos que conduzem aos locais de aprendizagem.
E para que a cultura «seja aquilo que
resta quando tudo se esqueceu», é necessário, no entanto, saber qualquer coisa.
E esse «qualquer coisa» está ao alcance de cada um de nós.
A cultura é, sem discussão possível, um
dos grandes estimulantes da vida. Ela contribui para enriquecer o espírito e o
seu abandono caracteriza a decadência e traduz-se sempre numa derrota da
liberdade. Elemento essencial do conhecimento, ela é um viático que nos
acompanha no difícil caminho da verdade. É uma bagagem indispensável para o
entendimento humano e a única arma para vencer a servidão.
Na discussão sobre a igualdade a cultura
que cada um traz consigo, é a maior fonte de vitalidade e um contributo
essencial para a autonomia do indivíduo. E esses conhecimentos servem, sobretudo,
para melhor compreendermos os problemas sociais, económicos, mediáticos e humanos
quando com eles confrontados.
Tudo isso nos ajuda também a captar
melhor, e melhor compreender as inovações culturais da época em que vivemos sem
no entanto sacrificar ou esquecer a importância dos feitos passados.
A cultura é prazer e necessidade, como
tudo o que é essencial na vida, do amor ao bom vinho, pois muito embora prazer
e necessidade sejam de sinais opostos, com ela, eles completam-se.
Para que a cultura seja «aquilo que
resta quando tudo se esqueceu», é necessário, no entanto, saber qualquer coisa.
Hoje os caminhos de acesso à cultura são imensos e não cessam de se melhorar.
Se antigamente as elites das grandes cidades se cultivavam mais facilmente que
as populações da província, hoje essas populações, quando há vontade e curiosidade
podem também aceder facilmente ao conhecimento das coisas.
Cultiva-se ainda hoje a ideia errada de
que só nas Universidades se aprende. Embora o autodidacta tenha sempre
existido, hoje ele tem a tarefa mais facilitada graças às novas tecnologias da informação.
Hoje só não aprende e só não se cultiva quem não quer. Nunca é tarde para
aprender.
sábado, maio 18, 2013
CARO MÁRIO ALBERTO
Permita-me que o
trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos
aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse
tratamento.
Resolvi escrever-lhe,
porque, e como o senhor disse um dia, “as pessoas têm direito à indignação”. E eu
estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o
bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para
nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante
uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os
oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a cavalgar tartarugas
a dar lições de austeridade, aulas de política, dinheiro aos pobres e, de repente,
querem que calce as pantufas e de charuto na boca deixe correr o marfim?
Por tudo isso, meu
caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de lhe
manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar!
Andam por aí esses
rapazotes, esses “fils à Papa”
a fazer asneiras, a esbanjar dinheiro e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a
barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles deem com isto em pantanas?
A continuar este
regabofe e com estes meninos a esbanjar o dinheiro o que será das nossas
reformas e benesses vitalícias para que possamos continuar a manter o nosso
estatuto?
Sei que alguns dos
seus “companhons de route” não
concordam consigo, nem com algumas das suas aventuras, chegando mesmo a
compará-lo com um tal Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha e ao seu
encontro com dois “exércitos de ovelhas”, que afinal eram dois inofensivos
rebanhos! Tudo isso traduz bem a inveja daqueles que a gente sabe…Mesmo o
Sancho, aquele do “Quadrado”, mas não lhe dê importância, é trova que o vento
leva…
Li algures que esses rapazotes
também lhe foram ao bolso e cortaram no subsídio da sua Fundação. Não há
direito!...
E para terminar quero
dizer-lhe que também me solidarizei consigo e com o Manel Poeta e não fui à
festa do 25 de Abril. Era o que faltava. Nós, no meio daquela gente que não nos
merece!...
E a propósito da
festa da Liberdade, não acha que continuamos a viver numa espécie de
situacionismo anterior a 74, embora disfarçado sob o manto da Democracia? Onde
estão as promessas que nos fizeram nessa data tão simbólica? Na altura dizia-se
haver 100 famílias milionárias. E hoje quantas existem? E os Ex-qualquer coisa
que estão a receber reformas milionárias enquanto o número de pobres aumenta dia-a-dia?
Porque o espaço que
me é reservado está quase todo preenchido, vou terminar exprimindo-lhe o meu
contentamento por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter
sonhos lindos…
CARO MÁRIO ALBERTO
Permita-me que o
trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos
aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse
tratamento.
Resolvi escrever-lhe,
porque, e como o senhor disse um dia, “as pessoas têm direito à indignação”. E eu
estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o
bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para
nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante
uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os
oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a cavalgar tartarugas
a dar lições de austeridade, aulas de política, dinheiro aos pobres e, de repente,
querem que calce as pantufas e de charuto na boca deixe correr o marfim?
Por tudo isso, meu
caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de lhe
manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar!
Andam por aí esses
rapazotes, esses “fils à Papa”
a fazer asneiras, a esbanjar dinheiro e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a
barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles deem com isto em pantanas?
A continuar este
regabofe e com estes meninos a esbanjar o dinheiro o que será das nossas
reformas e benesses vitalícias para que possamos continuar a manter o nosso
estatuto?
Sei que alguns dos
seus “companhons de route” não
concordam consigo, nem com algumas das suas aventuras, chegando mesmo a
compará-lo com um tal Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha e ao seu
encontro com dois “exércitos de ovelhas”, que afinal eram dois inofensivos
rebanhos! Tudo isso traduz bem a inveja daqueles que a gente sabe…Mesmo o
Sancho, aquele do “Quadrado”, mas não lhe dê importância, é trova que o vento
leva…
Li algures que esses rapazotes
também lhe foram ao bolso e cortaram no subsídio da sua Fundação. Não há
direito!...
E para terminar quero
dizer-lhe que também me solidarizei consigo e com o Manel Poeta e não fui à
festa do 25 de Abril. Era o que faltava. Nós, no meio daquela gente que não nos
merece!...
E a propósito da
festa da Liberdade, não acha que continuamos a viver numa espécie de
situacionismo anterior a 74, embora disfarçado sob o manto da Democracia? Onde
estão as promessas que nos fizeram nessa data tão simbólica? Na altura dizia-se
haver 100 famílias milionárias. E hoje quantas existem? E os Ex-qualquer coisa
que estão a receber reformas milionárias enquanto o número de pobres aumenta dia-a-dia?
Porque o espaço que
me é reservado está quase todo preenchido, vou terminar exprimindo-lhe o meu
contentamento por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter
sonhos lindos…
ESCOLHAS
Ontem,
dia 25 de Abril, Dia da Liberdade, quando me levantei, ainda pensei pedir ao
meu motorista para preparar o Mercedes e ir até Lisboa ouvir os filhos da
pátria no Palratório. Mas depois de uma pequena reflexão resolvi solidarizar-me
com o Mário Alberto e com o Manuel Poeta, que não foram, porque o ambiente não
era propício a pessoas do nosso gabarito. E não fui…
Mas
se Liberdade é Liberdade por que não festejar também a minha?
E
então decretei que ninguém cá em casa poderia ter acesso a qualquer órgão
informativo, sobretudo os audiovisuais.
Quanto
a Jornais, só entram os Regionais, pois são os mais pobres e portanto os mais
honestos nas notícias que divulgam. Pela proximidade com as populações,
conhecendo as suas dificuldades e anseios, a Imprensa Regional é essencial para
as vivências locais, detendo papel preponderante na divulgação das realidades
abrangidas pela sua área de actuação.
No
que diz respeito a rádio, televisão e Internet, silêncio absoluto. Ninguém pode
rodar o botão.
Não
foi difícil o consenso. Como somos apenas dois, resolvemos tudo pela via do
diálogo e acabamos sempre por estar de acordo um com o outro.
Às
oito e trinta da matina saímos de casa para o quintal. O Sol, vindo lá dos
píncaros frios da Serra da Estrela e ainda enroupado numa nuvem branca, deu-nos
os bons-dias. Os cachos de flores da glicínia brilhava mais, e nas folhas das
plantas, os reflexos do astro-rei incidindo nas gotas de água, que escorriam da
orvalhada da noite, faziam tremeluzir miríades de estrelinhas!
O
chilrear da passarada lembrava uma orquestra sem maestro – tocando cada qual
uma partitura diferente, mas, mesmo assim, como é delicioso ouvir a cantoria da
passarada no quintal!
As
andorinhas, em voos rasantes, mergulham no tanque-piscina e enchem o bico com
água para ajudar na construção dos seus ninhos.
Foi
este ambiente que escolhemos. Cortámos a relva do jardim, e plantámos flores ao
mesmo tempo que apreciávamos os encantos da Natureza. E é sorvendo esta mistura
de perfumes proveniente das várias espécies do jardim que eu festejo, neste
dia, a Liberdade que é minha, a Liberdade de escolher. E eu escolhi este
cenário de tranquilidade, esta atmosfera de paz e de bem-estar…
Cansei-me
dos discursos palavrosos de todos esses Pinóquios da Democracia que no lugar do
coração têm a carteira. Quanto aos seus cérebros e olhando a situação em que nos meteram, vê-se logo quão insignificante é
a quantidade de massa cinzenta, que ali mora.
quarta-feira, abril 03, 2013
DIGAM LÁ SE ISTO NÃO É SINA
Serão já poucos os que ainda se lembram dos romances do escritor francês, Pierre Alexis, mais conhecido por Ponson du Terrail, um dos produtores mais populares do romance-folhetim do século XIX.
Na
minha adolescência li quase todos os seus livros, sobretudo aqueles em que
entrava uma espécie de "herói" que protagonizava as aventuras mais
inverosímeis!
O
autor celebrizou-se com um folhetim publicado numa revista francesa da época, La Patrie, e que ficou conhecida como a
série dos Rocambole, nome por
que era conhecido o actor principal.
A
popularidade desse herói crapuloso foi tal, que os capítulos sucederam-se
naquela publicação ao longo de vinte e cinco anos.
Os
romances intermináveis, mas solidamente estruturados, baseavam-se,
essencialmente, na intriga.
Uma
intriga complexa em que as peripécias e as situações imprevistas mantinham continuamente
o leitor na expectativa - atentados maquiavélicos, usurpações de identidade,
crimes, fraudes, disfarces, vinganças, violações, tudo isso com arrependidos e
penitentes pelo meio de modo a segurar o leitor durante o desenrolar da acção.
Vem
este intróito a propósito das situações rocambolescas
que ultimamente se têm vivido ultimamente cá na Lusitânia em diversos sectores
da vida nacional e com mais incidência no sector da política. De facto, os
nossos eleitos, os filhos da Pátria, não param de nos surpreender com as suas
traquinices, as suas birras, a sua incompetência, os seus cambalachos e o seu total
desconhecimento do país real!
Mas
tudo isto já vem de longe. É a nossa sina, o nosso fado. É a sina do povo. É o
mar no seu constante vaivém. Coitado do mexilhão...
Já
em 1877, Ramalho Ortigão escrevia: "A política converteu-se em uma vasta
associação de intriga, em que os sócios combinam dividir-se em grupos, cuja
missão é impelirem-se e repelirem-se sucessivamente uns aos outros, até que a
cada um deles chegue o mais frequentemente que for possível a vez de entrar e
sair do Governo. Nos pequenos períodos que decorrem entre a chegada e a partida
de cada ministério o grupo respectivo renova-se, depondo alguns dos seus
membros nos cargos públicos que vagaram e recrutando novos adeptos candidatos
aos lugares que vieram a vagar. É este o trabalho de assimilação e
desassimilação dos partidos, que constitui a vida orgânica do que se chama a
política portuguesa..."
E
digam lá se isto não é sina!...
UMA REFEIÇÃO QUENTE
Era
um homem corpulento caminhando lentamente e olhando o chão como que a procurar
o sítio onde devia colocar os pés. Quando entrou, estavam apenas duas pessoas
no café: um rapazito franzino atrás do balcão e um magricelas sentado lá no
canto, que chupava um cigarro e se entretinha a olhar as espirais que se
desprendiam das baforadas de fumo que lançava no ar.
O
desconhecido aproximou-se do balcão lentamente, tossiu para limpar a garganta e
aclarar a voz, expeliu o estorvo e disparou: «Tenho fome e sede e não tenho
dinheiro. Tenho sono e também não tenho dinheiro para pagar o quarto...»
O rapazito
do bar, assustado, arregalou os olhos. O magricelas parou de fumar, mediu o
colosso de alto a baixo e recomeçou a contemplação das espirais. E o
desconhecido insistiu: «Tenho fome, já disse! Quero comer. Se não...»
E
então o magriço, fanfarrão, e a sorrir, soltou uma gargalhada estridente que
encheu a sala... O empregado do bar, pouco à vontade, acelerou o movimento do
pano com que limpava o balcão. O estrangeiro, a passos lentos, aproximou-se do
homem do canto, puxou uma cadeira, sentou-se e berrou: «Ora repita lá a
risada...»
Fez-se
silêncio na sala. Um moscardo embateu fortemente contra o quebra-luz do candeeiro
do tecto. E enquanto o rapaz do bar olhava a porta como que a medir de antemão
a distância que teria de percorrer para fugir, o estrangeiro pousou as enormes
manápulas nos ombros do fumador, sacudiu-o com força e insistiu: «Vamos, ria lá
outra vez!...» Mas virando-se para o lado de onde vinha o matraquear dos passos
do franganote que se escapulia pela porta, olhou de novo o magricelas e,
sorridente, desabafou: «Não tenha medo, amigo. Isto é raiva, é a revolta que me
estoura o peito... Não é nada consigo! É com esta choldra que temos aí a
mandar...Estou velho, trabalhei durante toda a vida, contribuí para que esses
senhores hoje ganhem balúrdios e, agora, depois de ter sido um dócil
instrumento do sistema, tenho uma reforma que não dá para comer todos os dias.
Não tenho família, estou no mundo sozinho, e tenho fome. E porque roubar vai de
encontro ao que me ensinaram, ando por aí às esmolas...»
Entretanto,
um polícia surgiu na moldura da porta do café, talvez alertado pelo empregado
que fugira e pedira socorro. Sereno, o homenzarrão olhou-o sem manifestar
qualquer receio, levantou-se para o seguir e sorridente, disparou para o
magricelas que, de olhos arregalados, surpreendido, tinha parado de chupar no
cigarro: «Adeus, amigo! Nada mal. Hoje, pelo menos, tenho um tecto e uma
refeição quente!...»
VIVER A VIDA
Entre outras e variadas reflexões
que o escritor francês André Maurois nos deixou no seu livro intitulado a “Arte
de Viver”, há uma que tento adoptar, não como antídoto eficaz contra a velhice,
mas como uma espécie de retardador da sua chegada.
Escreveu ele que «O verdadeiro
mal da velhice não é o enfraquecimento do corpo, é a indiferença da alma».
Acredito que esta pequena frase
seja motivo de troça por parte de muita gente, mas no meu caso pessoal, como
crente que sou, e pelas experiências vividas, nela está o segredo para que a
partir de certa idade a vida se não transforme num inferno terrestre.
Sou, como todos sabem, um homem
velho. Já passei por muitas situações, boas e más.
Nunca ocupei um lugar de destaque,
nunca fiz um grande feito pela humanidade, nada que me transformasse num herói.
Mas mesmo assim gosto da vida e
de tudo o que ela me tem proporcionado até hoje. Por isso não quero adormecer
para sempre. Não quero deixar os que me são queridos, as árvores e as flores do
meu quintal…
Quem disse que já estou a mais,
que não faria falta a ninguém? E mesmo que não fizesse onde está escrito que
isso é motivo para deixar a vida? Quem pensa assim? Vocês, o meu médico? O
psiquiatra que vê em mim um potencial cliente?
É curioso! Aos dez anos,
imaginava que aos vinte já seria um homem. Aos 20 pensava que aos 60 seria já
velho, mas ao completá-los senti-me jovem e pensava cá pra mim: velhice só aos
70… E chegaram os 80. E passaram. E ao contrário dos meus netos, continuo a
fazer contas sem ajuda da calculadora!
Então venham mais 10, venham
tantos quantos forem possíveis. Velho jovem? Velho maluco? Podem chamar-me o
que quiserem, mas eu quero viver!
Como é maravilhosa e linda esta
caminhada que é a vida quando ao longo do percurso a lapidámos com o cinzel da
humildade e a unimos com laços familiares!
Não precisei de estudar os
grandes tratados de filosofia ou outros, para aprender o valor da amizade e a
cultura dos princípios. Também sei que esta é a última etapa da vida, a
derradeira. A dimensão biológica começa a esgotar-se e por isso ficamos também
mais sensíveis a gestos de bondade que nos arrastam facilmente às lágrimas.
Mas apesar de tudo, apesar de
velho e de habitar este retângulo, esta espécie de jardim zoológico onde
coabitam os mais variados humanóides – ladrões, incompetentes, corruptos,
parasitas, prepotentes, parasitas e vermes nojentos -- eu quero continuar a
viver…
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
E X E M P L O S
Sinto-me
orgulhoso de ser filho desta ruralidade, deste pequeno mundo, deste símbolo de
vida comunitária, desta minha aldeia humilde, mas onde ainda perduram alguns
dos mais preciosos valores de antanho.
Não
faço do passado emblema, mas confesso que em certos momentos sinto essa antiga
aldeia a pular no coração.
E
sinto-a, porque ela ainda existe na alma de quem acredita em Deus, de quem não
esqueceu os ditames da cartilha do amor e da solidariedade aprendidos nesse
grande livro, a célula-mãe, que é a Família - o baluarte espiritual do amor!
Nas
horas de angústia é a ela que podemos recorrer, porque ele socorre, ela
auxilia, ela perdoa, ele acarinha, ela dá afecto, ela dá força para transpor
todos os obstáculos da vida.
Por
vezes há também problemas que são o reflexo da sociedade em que vivemos, uma
sociedade cheia de injustiças e contradições. No entanto, quando a Família está
unida, quando o amor tem raízes profundas e quando se faz dela uma partilha,
até o sofrimento dói menos e as horas mais incertas e difíceis se transformam
em hinos de alegria
Vem
este introito a propósito da notícia publicada há dias na coluna do Tourigo sob
o título um “Gesto de Amor Fraternal” e que demonstra à saciedade que nestes
pequenos espaços geográficos que são as aldeias do País real, há ainda valores
que resistem e que, como disse João Paulo II no seu livro Memória e Identidade, “são luzes que iluminam a existência”.
O
Alexandre é casado, tem 3 filhos. Seu irmão André, também casado, tem uma filha.
O Alexandre precisava urgentemente de um rim. O André, apesar de todos os
riscos, os laços de sangue e a voz da fraternidade falaram mais alto – e não
hesitou!… A cirurgia teve o maior êxito e ambos já se encontram em recuperação
em suas casas.
Neste
mundo desorientado pelo egoísmo, pela vaidade, pela ganância, e em que as más
notícias nos entram em catadupa porta dentro, são casos como este que nos
mostram que nem tudo está perdido e que a esperança ainda mora connosco.
E
é na família, nesse núcleo de convivência unido por laços afectivos que
encontramos apoio e aconchego nos momentos difíceis. Apesar de todos os embates
com que todos os dias é confrontada, ela continua a ser um tesouro sem preço.
Ao
contrário do que muitos pensam os jovens dos meios rurais ainda consideram
importante a base familiar, não tanto pela situação que se vive, mas mais pela
educação que receberam no seio familiar.
O
caso a que nos referimos é paradigmático e vem demonstrar que o país real, o
pais profundo, por vezes esquecido e injustiçado, pode dar lições de
solidariedade e de humanização aos que apenas o conhecem pelo mapa afixado no
seu climatizado, confortável e luxuoso gabinete do Terreiro do Paço.
INSTRUIR E EDUCAR
A
boa educação, a delicadeza e as boas maneiras, caldeadas num cadinho com um tudo-nada
de cultura, traçavam, outrora, o perfil do mais comum dos cidadãos.
Havia
depois os outros que, numa escala com números mais altos, constituíam a nata da
sociedade, onde se perfilavam as mais variadas profissões. Juízes, médicos,
advogados, políticos e professores, faziam parte desse leque de indivíduos que,
na sua generalidade, inspiravam uma certa confiança e ditavam os padrões de
valores a seguir.
Sem
menosprezo para qualquer um dos citados, vou hoje falar-vos do professor. E
isso porque, nesta Sociedade de hoje em que todos parecem apostados numa ânsia
desvairada de obtenção de prazeres e de lucros fáceis, parece descurar-se um
pouco a formação das gerações vindouras.
Se
é verdade que existem algumas excepções, e há ainda famílias em que os pais
sabem ensinar os filhos e incutir-lhes os valores da boa educação, do sentido
da responsabilidade, da disciplina e do respeito pelos mais velhos, a maior
parte dos nossos jovens desconhece, por completo, as mais rudimentares regras
desses padrões.
Não
vou aqui entrar em pormenores, nem tão pouco arvorar-me em moralista. Nada disso.
Já transpus muita barreira, já caí muitas vezes, levantei-me outras tantas e
não é agora, com o Sol quase no ocaso, que vou invadir terrenos alheios e,
quixotescamente lutar contra essa fortaleza inexpugnável que é a nova escola.
O
que pretendo com este desabafo de hoje é prestar uma sincera homenagem de
agradecimento e gratidão, ainda que póstuma (e bem póstuma!...), à minha
professora da instrução primária, que fazia da sua profissão uma arte e um
sacerdócio. Instruir e educar, era a sua divisa. A escola era o complemento do
lar, e o que não se trazia de casa era ensinado na sala de aulas. Era assim que
era construído o "travejamento social do mundo de amanhã..."
"O
magistério deve ser uma profissão vocacional; não há pior mestre que o animado
por simples fins lucrativos, nem pior pedagogia do que a aquela que é praticada
sem amor..."
Nesta
citação está a resposta para muitas das situações que se vivem actualmente nas
nossas escolas.
Academicamente
posso não ser a pessoa abalizada para tal conclusão. No entanto, o diploma de
sabedoria que a velhice me conferiu e que foi obtido não em aulas teóricas, mas
em práticas vividas, autoriza-me a fazê-lo.
A UNIVERSIDADE DA VIDA
Atravessamos um momento tão difícil,
tão conturbado e enigmático que é impossível o que nos reserva o futuro.
Perante esta complexidade de
problemas seria necessário que aqueles que detêm cargos de chefia, possuíssem
sabedoria e experiência para desempenharem cabalmente a missão que lhes foi
incumbida.
Mas não, isso não
acontece!...
Não menosprezando o papel
preponderante dos “canudos” é inegável que sem uma passagem pela Universidade
da Vida, – onde se aprende, praticando – qualquer cidadão, por mais dotado que
seja, não consegue adquirir uma preparação adequada que lhe permita enfrentar e
resolver os problemas do dia-a-dia cujas soluções são cada vez mais difíceis de
encontrar. Para complementar o que teoricamente se aprendeu, é necessária
prática e sobretudo muita experiência.
Quem nunca teve dificuldades financeiras na vida, não sabe avaliar
as necessidades dos que são obrigados a contar diariamente os tostões. Quem
sempre geriu o dinheiro dos outros não sabe avaliar o que ele custa a ganhar, e
quem nunca teve necessidade de trabalhar para comer, pode, à vontade, dar-se ao
luxo de nada fazer!...
Isto para dizer que grande parte dos nossos governantes não tem a
experiência necessária para desempenhar o lugar que ocupa.
A maioria dos responsáveis desconhece a verdadeira realidade do
País no seu todo. A sua visão queda-se, muitas vezes, pelo que vêem da janela
do seu confortável gabinete ou pelo que lhes relatam os seus assessores, eles
também desconhecedores das mais aflitivas e imediatas dificuldades com que se
debatem os cidadãos mais carenciados.
Uma das maiores exigências do tempo que atravessamos é responder à
questão social. Para que a sociedade seja harmoniosa e justa é necessário que
ela esteja motivada para o trabalho, para a criatividade, para a correcta
distribuição da riqueza, para a igualdade de oportunidades entre os cidadãos.
Em vez de uma sociedade materialista e desumanizada dominada pela
política, pelo futebol e pela ganância de enriquecer sem escrúpulos, é urgente
construir uma sociedade orientada por valores e princípios morais que se
oponham a exageros mediáticos e tecnocráticos do nosso tempo. É claro que estou
a transcrever para o papel aquilo que realmente penso e que me é ditado pela
minha experiência da vida. Nada mais!
Aliás, numa sociedade dominada pelo lucro e pelo egoísmo, haverá
“herói” que consiga fazer-se ouvir por essa gente bem instalada na vida, prepotente,
cega pelo dinheiro que lhe fez trocar os ditames de consciência por uma
avultada e redonda conta bancária?
DE VOLTA
Une vie ! Quelques jours, et puis plus rien !
Guy
de Maupassant
O punhado de leitores que ao longo
destes últimos vinte e quatro anos se habituou, semanalmente, a passar os olhos
por estes meus rabiscos, deve já ter perguntado o que me aconteceu para os ter
interrompido durante todo este tempo…
Nada de grave. Apenas a substituição de
uma espécie de rolamento num dos membros de locomoção me obrigou a esta paragem
e me impediu de preencher este meu espaço. Como já uma vez o disse, “máquinas”
são “máquinas”, e o desgaste causado pelo passar dos Invernos não perdoa, e
prega-nos partidas. E, desta vez, “obrigou-me” a uma espécie de “férias
grandes”, mas sem mar nem Sol!...
Mas foram muitos os ensinamentos que
colhi durante esse descanso forçado. A começar pelos amigos. Nunca pensei que
tinha tantos! E daqueles de que fala o provérbio, que “se conhecem no hospital
ou na cadeia”. Dos verdadeiros!... E também dos outros, dos hipócritas e dos fingidos,
daqueles que o são apenas por interesses momentâneos e egoístas.
Aprendi também a dar mais valor à vida,
já que, num revés de saúde, o sofrimento físico aliado ao do espírito, fazem
com que descubramos horizontes e sentimentos até aí ignorados. E esses momentos
em que estamos mais sós, em que verificamos a fragilidade do nosso ser,
permitem-nos também uma maior aproximação de Deus. E é nesses momentos mágicos,
quando o silêncio impera e a imaginação, rédea solta, viaja no tempo, que a
vontade de viver se agiganta e o desejo utópico de voltar a ser menino nos dá
ânimo para prosseguir a caminhada.
Aproveitei também esse período de
imobilidade para pôr a leitura em dia, evitando esse fluxo palavroso de
notícias de telejornais, debates políticos e quejandos, que apenas nos
embrutecem e revoltam.
A saúde é a maior bênção que nos foi
concedida, mas, distraídos que andamos, só quando um problema – por mais
pequeno que seja – nos bate à porta, é que pomos os pés na Terra e, olhando
para trás damos conta dos momentos desperdiçados que não aproveitámos por
questões mesquinhas e fúteis!
A vida de cada um de nós encerra
aspectos favoráveis, mas também acontecimentos desfavoráveis. A nossa
existência está sujeita a leis inexplicáveis que, apesar de certas aparências
contrárias, tem efeitos úteis e preciosos, que na maior parte das vezes não
sabemos interpretar.No meu caso pessoal, a arma para ultrapassar esses momentos
desfavoráveis consiste numa mistura de fé e de bom humor. Não só essa
combinação me ajuda, me dá ânimo, como também contagia os que me rodeiam – o
que é uma outra espécie de felicidade.
Termino, e embora tardiamente, aqui
ficam os meus sinceros votos de um novo ano com muita saúde para todos.
O FANTASMA DE SALAZAR
Aqui há tempos o Autarca de Santa Comba
Dão, pensou na requalificação do património deixado pelo antigo Presidente do
Conselho que se situa na aldeia limítrofe do Vimieiro. Nesse sentido a
Associação de Desenvolvimento Local no intuito de atrair investidores,
lembrou-se de o fazer através de um dos seus produtos endógenos – o vinho do
Dão – rotulando as garrafas com a marca “Memórias de Salazar, “um nome
conhecido em todo o Mundo” e que ajudaria na sua promoção.
O pior é que apesar de o Homem estar
morto e enterrado com sete palmos de terra por cima, só a evocação do seu nome
ainda assusta muita gente. E, desta vez, os que se assustaram foram uns
senhores do Instituto Nacional de Propriedade Industrial, que tiveram medo e
chumbaram a marca, alegando que “é recusado o registo de uma marca que contenha
expressões ou figuras contrárias à lei, moral, ordem pública e bons costumes…”
Inacreditável!... Se, de facto, tal
cláusula existe nos estatutos do INPI, quais as expressões ou figuras contidas
na marca que atentem contra a lei, a moral, a ordem pública ou os bons
costumes?
Quarenta e dois anos após a sua morte e
trinta e oito depois da instauração da Democracia, há ainda muita gente que
vive atormentada com receio da “ressurreição”do homem que disse “que antes de
deixar o Poder queria sacudir os bolsos e de todo o tempo que esteve à frente
dos destinos da Nação, nem mesmo pó queria levar…”
Não
será por isso – para evitar comparações – que o camartelo de uma certa elite
continua a tentar demolir toda a sua obra sem poupar as traves mestras que têm
resistido às intempéries da História?
A
propósito estou a lembrar-me do “incómodo” causado pela vitória de Salazar no
programa Os Grandes Portugueses emitido pelo canal público da televisão.
Choveram críticas de gente das mais variadas tendências, mas as mais mordazes e
venenosas foram as de alguns historiadores. Como o tiro lhes saiu pela culatra,
não era de esperar outra reacção.
Este
episódio rocambolesco da proibição da marca “Memórias de Salazar” é um fenómeno
cíclico, que acontece quase sempre quando se pretende desviar a atenção do
Povo. Espero que o Autarca de Santa Comba Dão continue a luta, porque apesar de
tudo o que de bem ou mal se diga ou escreva acerca de Salazar isso não apagará
o seu nome nem da terra onde nasceu, nem das páginas da História. Tranquilizem-se
os que acreditam em bruxarias e têm medo que ele remova a pedra sepulcral,
porque enquanto a Troika não nos deixar, não há defunto que ponha a cabeça de
fora. Só a mão!...
sábado, dezembro 01, 2012
BRINCANDO COM COISAS SÉRIAS
Brincando com coisas sérias
Afinal,
e contrariamente ao que se tem vindo a apregoa por aí, a famigerada TSU (Taxa
Social Única) não é uma invenção do Governo cá do rectângulo.
Por
incrível que pareça a tal taxa, que
afinal é imposto, veio de França da terra
do general Cambronne, aquele da palavra feia, de cinco letras, que apetece
repetir sempre que se fala em política.
Segundo
me contaram, o nosso ex-primeiro que fez com que nos atascássemos neste lodaçal
mal cheiroso e que agora se pirou e anda por lá a estudar filosofia política,
quis complicar mais a vida ao seu sucessor e por intermédio de um amigo
infiltrado no PSD, ter-lhe-ia mandado um extracto de um diálogo entre dois
ministros de Luís XIV, que ouvira numa peça, Le Diable Rouge, em cena num teatro do Quartier Latin,
sugerindo-lhe que se inspirasse nele para sacar mais dinheiro ao Zé.
Verdade
ou mentira o certo é que o tal diálogo é inspirador. Ora leiam:
«Colbert:
- Chegámos a um ponto que não sabemos a maneira de arranjar mais dinheiro. Agora
que estamos cheios de dívidas até ao pescoço, o senhor ministro não sabe dizer-me
como arranjar dinheiro para continuar a viver à grande como temos vivido?
Mazarino:
- Bom. Um simples mortal, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão.
Mas o Estado é diferente!... Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então,
ele continua a endividar-se… Todos os Estados o fazem!
Colbert:
- Pois é. Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: - Criando outros.
Colbert:
- Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: - Sim, é impossível.
Colbert: - E sobre os ricos?
Mazarino: - Os ricos também não.
Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert: - Então, como faremos?
Mazarino:
- Tu pensas como se não tivesses cérebro, Colbert! Há um grande número de
pessoas que estão entre os dois, nem são pobres, nem ricos – é a chamada classe
média! Que trabalha mais, sonha enriquecer, e tem medo de empobrecer. É sobre
essas classe que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais!
Quanto mais lhes tirarmos, mais eles trabalharão para compensar o que lhes
tiramos. Eles formam um reservatório inesgotável…»
Ironia à
parte, esta metáfora política espelha bem a realidade do que se está a passar e
as artimanhas de que se servem os governantes para extorquir dinheiro ao
contribuinte. Uma cena política actual da qual somos testemunhas e de que,
infelizmente, somos também as vítimas.
SERMÕES
Sermões
Aí por
volta do ano de 1654, também em tempos azarados, dizia o Padre António Vieira,
em S. Luíz do Maranhão no célebre sermão de Santo António aos Peixes:
“Vós,
diz Cristo Senhor Nosso, falando com os pregadores: sois o Sal da Terra: e
chama-lhes o sal da terra porque quer que façam na terra o que faz o sal. O
efeito do sal é impedir a corrupção; mas, quando a terra se vê tão corrupta
como está a nossa, havendo nela tantos que têm o ofício de sal, qual será ou qual
pode ser a causa de tanta corrupção?
Ou é
porque o sal não salga ou porque a terra não se deixa salgar. Ou porque o sal
não salga e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou porque a terra
não se deixa salgar e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que
fazer o que eles dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se
preparam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os
ouvintes, em vez de servir a Cristo servem a seus apetites. Não é tudo isto
verdade?...”
Embora
tenham passado séculos, se meditarmos atentamente nas palavras de Vieira não
poderíamos nós aplicá-las a estes tempos que estamos a viver e em que os mesmos
males estão a corroer a nossa sociedade?
Quando
ouvimos os nossos pregadores actuais fazer o contrário daquilo que apregoam,
não estarão eles em vez de servirem o Povo, a servirem-se a eles próprios, como
diz o sermão de Vieira?
E será o
sal que não salga ou a terra que não se deixa salgar? Serão os pregadores que
não cumprem o que dizem, satisfazendo apenas os seus apetites ou o próprio Povo
que não reage, porque impotente e conformado?!
O certo
é que um desacerto entre o que se disse, o que se ouviu e o que verdadeiramente
se fez nos conduziu a esta situação perigosa em que nos encontramos.
E sem
quaisquer complexos cabe a todos nós, como parte integrante da sociedade
assumir a nossa quota-parte nesse descalabro. Uns porque mentiram e tiveram
apenas em vista os seus próprios interesses e outros porque pensaram que nuns
pais pequeno e pobre com os seus recursos ainda mais diminuídos pela «exemplar
descolonização», seria possível vivermos, fazendo de todos os dias uma espécie
de “sábado à noite”. Mas não vale a pena referirmo-nos a um quotidiano que
todos conhecemos, nem a dar importância a alguns que, embora descrentes de Deus,
querem que os tomemos como autores de um futuro, que só existe nas suas ocas
cabecinhas!...
Comecei
por transcrever o começo do sermão do Padre António Viera aos Peixes apenas
para uma pequena reflexão, porque bem precisamos de a fazer.
terça-feira, outubro 30, 2012
CST-IPSS - SEMINÁRIO "VIVER ENTRE GERAÇÕES"
TESTEMUNHO
Há
muita gente que tem medo de envelhecer. No meu caso, confesso, que me sinto
feliz por ter chegado a esta fase da vida. Ela dá-me a oportunidade de
prosseguir o meu desenvolvimento tanto no aspecto pessoal como social. E quanto
não vale este livro ilustrado que é a memória com todas as experiências
vividas?!...
Por
isso aceito o envelhecimento como uma fase da existência terrena de cada ser
humano – encaro-o assim como que uma espécie de prolongamento de um projecto inacabado!
…
Agora
que os sonhos se esfumaram, que as paixões se esvaziaram e que à euforia de
outrora sucede a crua realidade do dia a dia, o tempo tem outro encanto, outro
sabor e cada amanhecer é uma dádiva que aviva o sentimento da maravilha do ser humano
na terra com toda a sua riqueza e diversidade.
E
é também uma outra maneira de interiorizar a vida com a alegria de poder
participar nas iniciativas que povoam o curso fértil da humanidade através da
solidariedade e do voluntariado.
Mas
nem sempre é fácil!...Numa sociedade computorizada e consumista em que se passa
o tempo a premir teclas e botões num ritmo alucinante imposto pela informática
e pela cibernética, só com força de vontade e determinação se consegue aguentar
a corrida desgastante que a maquiavélica máquina exige.
É
uma sociedade traiçoeira, esta em que vivemos!...
Ela
não se compadece com ninguém, nem mesmo com aqueles que são testemunhas vivas
dos laços de família ao longo de várias gerações.
O
conflito entre elas agudiza-se em cada dia que passa. O individualismo selvagem
e cruel anda à solta; a afirmação pessoal agride; a competição social destrói e
a solidariedade entre as pessoas tende a desaparecer.
Por
isso são várias as dificuldades com que o idoso se debate e é necessária uma
grande força de vontade e uma fé inquebrantável para fazer a integração nessa
nova sociedade, sem que tenhamos de abdicar dos princípios básicos daquela em
que fomos criados.
Apesar
de estarmos na era da globalização, não podemos esquecer que a família continua
a ser a célula básica da sociedade.
Durante
estes últimos vinte anos foi talvez o período da minha vida em que se
desenvolveu mais esta opção individual de reforçar o meu optimismo perante a
vida.
O
envelhecimento não é uma doença nem uma incapacidade, que nos impeça de ter uma
vida produtiva e feliz. Ninguém lhe foge e temos que o encarar como uma
realidade.
No
entanto, cada um de nós, pode reduzir os seus efeitos através de métodos e
preceitos a seguir no dia a dia. Desde a actividade física à alimentação
regrada e saudável são várias as formas de envelhecer activamente. A boa
disposição é um dos remédios mais aconselhados para enfrentar as inúmeras
partidas que o decorrer dos anos nos vai pregando…
Saber
rir de nós próprios, conformarmo-nos com a nossa idade e sobretudo ter fé, são
também atitudes que ajudam a fazer face às injustiças…
Todos
sabemos que os valores económicos aniquilaram os valores espirituais e
culturais. Apesar de tudo, em qualquer parte do Mundo há sempre uns Avós nos
quais os netos têm muitas vezes, a única referência de estabilidade, de afecto
e de carinho.
É
por isso que os responsáveis políticos deveriam tomar medidas adequadas de
forma a criarem as condições necessárias ao envelhecimento activo e ao reforço
da solidariedade entre gerações.
O
contributo dos mais velhos para a sociedade é muitas vezes ignorado, assim como
é ignorada a sua experiência e os seus ensinamentos que poderiam ser
aproveitados e dados como exemplo aos mais novos.
Porém
o que acontece muitas vezes é que os idosos são marginalizados pelos jovens,
esquecidos pelos adultos e quando não há recursos nem paciência ou são
“depositados” em qualquer estabelecimento que cuide deles ou são abandonados,
sobrevivendo muitas vezes em condições infra-humanas.
Mas
como disse mais atrás e no que me diz respeito, estes últimos vinte anos foram
como que uma aprendizagem ao longo dos quais se recreou dentro de mim uma outra
maneira de ser e de ver. Foi como também já disse no começo uma espécie de
prolongamento de um projecto inacabado, uma continuidade da caminhada mas com a
orientação das experiências vividas que me permitiram fazer uma opção
individual de reforçar o meu optimismo perante a vida. Aprendi a cultivar o
lado bom das coisas, a saborear os pequenos nadas. Aprendi a ver o futuro com
esperança a aceitar o passado enquanto autobiografia e a interpretar o presente
com confiança.
E logo
me apercebi que o diálogo entre gerações é essencial para prevenir a solidão e
a exclusão social. E comecei a tentar modernizar-me se assim me posso exprimir.
E já com cerca de 60 anos comecei a martelar as teclas do computador. Os meus
primeiros professores foram os meus netos. Mas foi com muita perseverança e
paciência que aprendi o essencial e posso dizer que hoje sei o necessário para
fazer os meus trabalhos de escrita.
Deus
tem-me privilegiado no que toca a saúde e o voluntariado é também para mim uma
outra maneira de reforçar a minha auto-estima mostrando-me que apesar da idade
ainda posso oferecer os meus préstimos aos que deles precisam.
Hoje,
logo que acordo, dou graças a Deus pelo dom da vida que ele me tem concedido.
Agradeço-Lhe também pela família que tenho. Completei há pouco tempo oitenta e
seis anos, e apesar de estar casado há 61 anos como uma Avó, como lhe chamam os
meus netos, sinto-me imensamente feliz!
E
é sem dúvida isso que me dá força para valorizar os factos e as pessoas numa
vivência serena, mas de constante inovação, em que assentam os Verdadeiros
Sinais dos Tempos.
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