sábado, setembro 17, 2011

FÉRIAS EM CASA


O dramaturgo e cineasta francês Marcel Pagnol disse um dia, falando de férias, que quem quisesse passá-las no mar e ter a certeza de não naufragar, em vez de um barco, deveria comprar uma ilha!
Seguindo esta lógica e transformando-a em metáfora, para ter mesmo a certeza de que iria, de facto, preguiçar um pouco e recarregar baterias, resolvi passar as férias em terra firme.
E aqui estou eu no meu quintal de papo para o ar olhando toda esta verdura que me rodeia, inalando este ar puro que vem da serra e sorvendo este característico cheiro a mosto que anda no ar, motivado pela pisa das uvas do vizinho do lado.
À medida que os anos passam, vão-se transformando as formas de olhar a vida e recriamos então à nossa volta um outro mundo.
E isso porque a vida é uma coisa a criar a inventar que se vai moldando, constantemente, segundo as variadas etapas da nossa existência.
E a certa altura dessa vivência, é preciso coragem para viver de outra maneira, sem voltar as costas à sociedade, mas construindo, num dos seus cantinhos uma espécie de refúgio onde nos sintamos felizes!
E aí não há receitas feitas, mas cada um deve fazer a sua própria cozinha, temperar a seu gosto, e confeccionar com muito amor e carinho.
É preciso fazer o que gostamos de fazer, o que nos traz satisfação, o que nos faz felizes. Não devemos olhar muito para o que se passa à nossa volta, nem para o que os outros fazem, mas seguir as nossas próprias intuições.
Seguir a nossa própria maneira de ser, criando dessa maneira, no nosso íntimo, um clima de harmonia, de tranquilidade e paz interior.
E sem virara as costas ao passado, mas fazendo disso uma espécie de vingança, tentar encontrar no presente tudo o que esse passado nos negou…
A beleza da vida reside nas suas múltiplas diversidades e é por isso que cada um de nós, salvo os condicionamentos que todos conhecemos, pode adaptá-la à sua maneira de ser.
Porém, seja qual for a maneira escolhida, a verdade é a de que não há melhor momento para ser feliz do que o momento presente – o agora, o hoje. Então por que não vivê-lo plenamente?!
A vida é, e será sempre uma caminhada feita de obstáculos a transpor e de projectos a construir. Então, por que não aproveitar esses raros, mas bons momentos que ela, por vezes, nos oferece?!
Mas voltando ao começo e falando de férias, não é a vida que nos fatiga, mas sim a forma como nós a encaramos e a má gestão que fazemos, desperdiçando os belos momentos que ela nos oferece.








quinta-feira, setembro 01, 2011

LA RENTRÉE

Apesar da riqueza da nossa língua e não obstante o seu abundantíssimo vocabulário, nós, como bons imitadores que somos, e sempre esguichando engenho e arte por todos os poros, quando não inventamos... copiamos!
E vai daí, com esta nossa bazófia de querer mostrar ao mundo que estamos sempre à la page, lá fomos surripiar o termo e, como a história do gato maltês que tocava piano e falava francês, passámos a designar o regresso dos nossos políticos ao seu "bem-bom," pelo vocábulo francês rentrée...
Não sabemos quando nem quem se apropriou da palavra. Porém, quem o fez não era estúpido de todo!... É que a palavra rentrée, segundo Pierre Larousse, – o lexicógrafo francês bem conhecido de todos nós – emprega-se, essencialmente, no sentido de rentrée des classes, isto é, o regresso das crianças à escola!
Portanto, quem pela primeira vez empregou o termo sabia o que fazia e deu-lhe a interpretação devida. Então não são quase todos os nossos políticos umas crianças grandes que cresceram por fora e continuam anões por dentro?!... Ou dito de outra maneira: não são alguns dos nossos políticos, meninos imberbes ou de caricatas barbichas, mimados, troca-tintas encartados e completamente alheios à realidade da vida?!...
Assim sendo, venha então a escola. Que eles bem precisam de lições. Mas qual quê? Infelizmente, a vontade de aprender, de conhecer, de bem administrar, de bem gerir, parece não ser apanágio da classe.
Mas viva a rentrée!... E é festa aqui, é comício acolá, é convívio mais além. É marisco no litoral, é feijoada no interior, são tripas no Norte e cataplana no Sul. É fanfarra na aldeia, Boys-Band nas cidades, mas sempre tudo programado de maneira a que a televisão mostre (de preferência no Jornal da noite por causa das audiências e dos votos!...) o interior do chapiteau com todos os artistas: palhaços, domadores, trapezistas, engolidores de espadas, ursos amestrados e a respectiva moldura humana com figurantes ensaiados e basbaques que batem palmas muitas vezes sem saberem porquê!
Viva a rentrée! Ei-los que chegam! Bronzeados, palradores, aí estão de novo os charlatães – sorridentes e palavrosos, maletas cheias de nada, prontos para venderem mais uns quilos de banha de cobra lá do alto do palanque do hemiciclo. Estamos à mercê desses duzentos e trinta filhos da pátria que continuam a agir como nada se passasse. Não há exemplos de sacrifícios vindos de suas excelências. Embora de credos diferentes sabemos que quando se trata de dinheirinho todos adoptam a mesma religião. Entretanto a tosquia continua. E é imprevisível saber o que acontecerá quando, à falta de lã, o sangue começar a aparecer à superfície da pele.





















sexta-feira, agosto 26, 2011

H E R A N Ç A S


A receita tornou-se corriqueira e anda de boca em boca – “sem uma mudança da mentalidade a coisa não vai lá”. A “coisa”, claro está, é a situação do País.
A frase que passou a emoldurar quase todas as conversas, tornou-se tão democrática que se ouve tanto da boca de um doutorado como da de um simples e iletrado borra-botas.
Somos assim. Somos um conjunto de seres humanos, que embora diferentes têm em comum a mania de dar sentenças.
Somos exímios em dar palpites, os melhores em apontar erros, mas uma manifesta doença congénita faz com que vejamos o argueiro no olho do vizinho e não a trave que temos no nosso.
Mas haverá alguma maneira de modificar esta nossa maneira de ser, esta espécie de mola interior que nos faz saltitar e que transforma cada um de nós numa espécie de faz-tudo?
Somos assim e pronto. Fanfarrões e descomplexados…
Julgamos possuir conhecimentos em todas as áreas – da política ao futebol passando pelas intermédias, medicina, engenharia, arquitectura, literatura, astronomia, ciências ocultas, gastronomia, em todas elas temos sempre que meter o bedelho!
Sobre todas opinamos, damos palpites e até receitas…
Diz-se por aí que temos falta de médicos. Mentira. Num domingo, à saída da missa, queixem-se de uma dor nas costas e logo verão a quantidade de esculápios que anda por aí ao deus-dará e a quantidade de diagnósticos que logo vos farão!
Na política nem se fala. Não há bicho-careta que não critique os ministros. Mais o das Finanças e da Saúde. O primeiro, porque é quem manda no dinheirinho e o segundo, porque, supostamente, é o que faz andar o esqueleto! Os outros apanham por tabela, mas não se livram, no entanto, de que lhes chamem nomes feios muitos deles pondo até em causa questões de maternidade.
E no Futebol? Os doutorados nessa prática são mais que muitos. Fanáticos, sofredores, adivinhos, e todos com vastos conhecimentos na ciência do pontapé. E todos difíceis de consenso… Vão lá dizer a um benfiquista que o Porto é o maior, ou a um sportinguista que o Benfica vai ser campeão!
Por tudo o que fica dito e escrito julgo que a tal mudança de mentalidades, de que muito se fala, nunca acontecerá.
Como acima disse, somos assim e ponto final. Há factores hereditários de que não podemos livrar-nos. Cada um de nós guarda dentro de si uma mistura de genes herdados dos nossos antepassados que tanto nos podem transformar em santos, em heróis, em aventureiros, como em trapaceiros, vigaristas ou corruptos encartados. Como disse um dia Salazar, “felizmente que não temos petróleo…” Se o tivéssemos ainda seríamos pior, penso eu.





















































D I S F A R C E S


Como já muitas vezes disse, tenho uma arca onde guardo alguns escritos. Leio, guardo ou tomo notas quando julgo interessante o assunto. É um vício antigo e que, contrariamente ao do tabaco, ainda não consegui pôr fim.
E é por isso que, de cada vez que vou ao baú e remexo os papéis, há sempre algum que desperta a minha curiosidade.
Desta vez foi uma nota a lápis datada de 1994 em papel já amarelecido que dá conta do “escândalo” motivado por um discurso do Professor Cavaco Silva, então 1.º Ministro, que alertava para a urgente defesa dos valores da Pátria e da Família, nomeadamente do sentido da honra, da inteireza de carácter e da honestidade.
E esse escândalo originou tanta gritaria e gerou tal burburinho que de armas aperradas e de bandeiras ao alto, desde as hostes esquerdistas às fileiras dos chamados “de direita”, todos se fizeram ouvir manifestando a sua indignação. Cidadãos houve, que apelaram mesmo à excomunhão!
Estávamos numa altura de exacerbado europeísmo. E, concupiscentes, todos os olhares convergiam para os cofres de Bruxelas, de cujo ventre se esperava viessem carradas de notas – os famigerados “Fundos”!
E nessa expectativa, apregoar ideias fascistas e até neo-nazistas como o culto da Pátria, a defesa da Família, dos valores ancestrais, para muitos “patrinotas” (homens que trocaram o amor à Pátria pelo amor às notas do banco) era o mesmo que colocar de novo a estátua de Salazar no pedestal em Santa Comba Dão!...
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. De facto, muito mudados andam os tempos e muito viradas do avesso andam as vontades.
Quem imaginaria que passadas mais de três décadas essas palavras “malditas” – Pátria, Família, Honra e Honestidade – continuam a ser profanadas, desrespeitadas e cada vez mais esquecidas por aqueles que deveriam adoptá-las como lema?!...
Urge restaurar a Família Nacional devolvendo o que se lhe roubou durante anos com ladroagem, indisciplina, incompetência e deboche.
Este charco infecto que é a política vai fazendo desaparecer pouco a pouco a herança deixada pelos nossos Avós – uma herança feita de riqueza de alma, de amor pátrio, de honra e de honestidade.
E assim chegámos a este estado de pedintes. Parafraseando Vieira, se é agradável dar ou receber, a mais dura e a mais desprestigiante palavra da nossa língua é … pedir. E foi a isso que nos conduziram os nossos patrinotas. Podem chamar-me saudosista, mas continuo a pensar que enquanto a unidade política for o indivíduo, a nossa sociedade continuará a ser governada por ditaduras. Embora disfarçadas…




















FAMÍLIA E ESCOLA



Não há dúvidas de que vivemos num mundo conturbado, num mundo cheio de armadilhas, de incertezas e de descrença. Até a Natureza parece saturada de tantos desmandos e nos acorda da letargia em que mergulhámos através de catástrofes naturais!
Não vou entrar na velha cantilena de que antigamente é que era bom, porque, como todos sabem, também não era bem assim.A vida foi, é, e será sempre difícil, muito embora para uns o seja mais do que para outros.
Mas que havia coisas diferentes que se destruíram e cuja falta agora se está a notar cada vez mais, ninguém pode negar. Nos primeiros quartéis do século XX éramos de facto um povo demasiado iletrado, mas com bom nível de educação e de civismo.
E esse estatuto de educados e de cívicos deveu-se, essencialmente, a duas Instituições – a Família e a Escola. Ora, atualmente, tanto uma como a outra estão em franca desagregação!
A família tem vindo a ser atacada por ideologias minoritárias mas com grande audiência nos poderes públicos. Legisla-se e impõem-se sugestões que uma centena de milhares de apaniguados lança para o ar sem respeitar a opinião de milhões que nem sequer são ouvidos.
A escola, na sequência dos desvarios por que tem passado continua transformada numa inadmissível fonte de deseducação e de libertinagem que irá refletir-se em toda a futura vida nacional.Somos, estatisticamente, um povo de doutores e engenheiros, mas vivencialmente, em educação e civismo, somos uma nação insubordinada e agressiva, geradora de gente inculta e pouco recomendável. O vandalismo e a indiscplina andam à solta em quase todas as escolas com exceção de uma ou outra onde reina a ordem e o respeito.Não admira por isso que haja professores a frequentar clínicas psiquiátricas e que aumente cada vez mais o número daqueles que vejam nas reforma antecipada uma maneira de se verem livres das aulas que muitas vezes se transformam em autênticos ringues onde se travam agressões psicológicas, que muitas vezes degeneram em confrontos físicos.
O Estado que tem a obrigação de impor disciplina e respeito, demite-se da sua função, faz vista grossa, criando nos jovens sentimentos de impunidade e de rebeldia. E é assim que se descredibilizam ainda mais as instituições escolares e se caminha a passos largos para a degradação da futura sociedade.
É verdade que a democracia nos trouxe muita coisa boa. Mas nada tem feito para dar continuidade a outras que já tínhamos. Refiro-me à educação e ao civismo, esses dois grandes e sólidos alicerces da sociedade. A construção do primeiro era-nos ensinada, em casa, pelos nossos Pais. A do segundo pelos Professores na Escola.

quarta-feira, julho 20, 2011

A TABUADA DA VIDA

Sete vezes doze… mais um!
O título desta minha crónica de hoje pode, numa primeira interpretação, levar o leitor a pensar que vou falar de aritmética – essa ciência dos números de que tantos têm medo. Nada disso. Aliás o texto de hoje já aqui foi publicado mas com outra combinação de algarismos.
Mais uma vez aquele que costuma ditar-me o que aqui escrevo todas as semanas, transpôs outro degrau da escada da vida. E logo de manhã, no nosso primeiro encontro, quando nos olhámos no espelho, piscou o olho e balbuciou irónico e bem-humorado: «com que então sete dúzias mais um?!...»
Sorri e sem surpresa vi que “ele” também sorriu. É sempre assim. Há entre nós uma cumplicidade tão grande que, por vezes, até parece que somos um só!...
Já nos conhecemos desde os primeiros vagidos de criança. Temos percorrido os trilhos da vida de mão dada, temos partilhado alegrias, tristezas, ilusões, desilusões, enfim, temos sido “dois em um”, como agora costuma dizer-se.
É certo que também temos tido as nossas desavenças, as nossas discussões, sobretudo no que toca à idade, quando nos olhamos através do espelho. Às vezes a guerra inicia-se logo no começo do dia quando cortamos a barba. E que guerra!...
Enquanto um resmunga contra os papos nos olhos, a falta de cabelo e os vincos na cara enrugada, o “outro” acusa-o de exagerado e mal agradecido, porque muito pior está ele que lhe custa a arrastar as pernas e tem dores que nunca param, e viajam por todo o corpo… Mas são discussões de idosos, que acabam sempre com um sorriso maroto e cúmplice, pois lá bem no fundo, somos obrigados a concluir que quem andou…
Mas o que mais ainda nos une é aquele prazer de dialogar um com outro, de confessar os nossos pecados, de recordarmos, de nos rirmos das nossas fraquezas e, por via de isso, ambos nos considerarmos imensamente felizes. Temos bons amigos e uma família maravilhosa! Nos momentos mais difíceis, – e sempre com a presença invisível daqueles que já partiram – a Mãe que nos acompanha há já seis décadas, os filhos, as filhas, as netas, os netos e os irmãos, transmitem-nos a força e a coragem para continuar a caminhada. Nem sempre é fácil, mas Deus também tem dado uma grande ajuda. Diz o Livro da Sabedoria que a importância da vida não reside na sua duração, mas no vivido durante ela. Também com isso fomos duplamente contemplados.
- Que mais desejas?!... – Perguntei eu, no fim do dia, em frente ao espelho, ao “outro” – àquele que me dita o que escrevo. A gargalhada que ecoou foi tão estridente que até a Mãe perguntou o que se passava.
- Nada de especial – respondi – é aqui o homem do espelho que diz que não quer nada com a aritmética... Que pede apenas mais um!










domingo, julho 17, 2011

GRAVATAS

Somos assim e pronto. Somos um conjunto de seres humanos, que embora diferentes em muitas coisas, temos, no entanto, em comum a mania da originalidade. O portuguesinho valente, quer seja um doutorado ou um simples borra-botas iletrado, o que quer é dar nas vistas, ser diferente do vizinho, ser original!
E a propósito de originalidade, vejam só do que a D. Assunção Cristas se havia de lembrar para que o seu nome andasse por aí em letras garrafais em toda a imprensa: - «Fora com a gravada – disse ela lá para o pessoal das suas quintas – há que poupar para reduzir a utilização do ar condicionado e poupar na despesa da electricidade e na pegada ecológica!»
E como somos todos poliglotas vá de dar um nome estrangeiro à iniciativa, “AirCool”! Depois admiram-se que 55% dos alunos do 12.º ano tenham chumbado no exame de Português!...
Mas voltando à abolição do uso da gravata, eu sou contra. E sou contra, porque ela faz parte do património nacional, pois contrariamente ao que muitos historiadores afirmam quanto à sua origem, foi um Português que a inventou.
Foi Egas Moniz o aio de D. Afonso Henrique, que a usou pela primeira vez quando em 1137, logo após a batalha de Cerneja, se deslocou a Toledo para levar ao Imperado a chave do cofre que tinha sido encontrada no terreno da luta.
Na altura a oposição fez correr o boato de que ele tinha ido pedir perdão ao Imperador de corda ao pescoço, mas o certo é que o aio do nosso primeiro rei ia vestido a rigor e, pela primeira vez, com a respectiva gravata!
Parece que tal ornamento deu brado o que teria levado Camões a referir-se a Egas Moniz no Canto III dos Lusíadas.
Mas voltando agora à realidade e analisando a iniciativa à luz da verdade e do bom senso, não é por aí que o gato vai às filhós. Não é com medidas dessas que a cultura da batata vai aumentar, que deixaremos de comer peixe estrangeiro e que a ecologia tenha melhoras significativas.
A Senhora Ministra devia, isso sim, mandar os seus homens para o terreno com ou sem gravata. E já que quer poupar no ar condicionado que saiam dos gabinetes e venham conhecer o País real que a maior parte desconhece. Mais do que dispensar o uso da gravata há outras medidas que urge tomar. Mas que doem…ao contrário da supressão das ditas.









sexta-feira, julho 08, 2011

MANTER A BOA DISPOSIÇÃO


É preciso que nos convençamos que todas as coisas que nos acontecem na vida têm ao mesmo tempo um lado positivo e um outro negativo. A nossa existência está submetida a leis inelutáveis que são sempre, apesar de certas aparências contrárias, úteis e preciosas nos seus efeitos.
A nossa vida não resulta de qualquer coisa feita ao acaso: há em tudo o que nos acontece razões evidentes que escapam ao nosso entendimento. Por isso o segredo da boa disposição consiste em descobrir essas razões e apreciá-las.
Infelizmente, raras vezes vemos a vida dessa maneira. E é por isso que a má disposição se espalha por todos os lados. Palavras duras, gritarias, ameaças, invejas, são na realidade uma espécie de feridas que comprometem a saúde, perturbam a paz interior, põem em risco o amor e a felicidade.
E a propósito, há um caso que gostaria de citar: conheci uma senhora muito digna e de porte irrepreensível que sofria muito porque seu marido se embriagava todos os dias.
E então tentava fazer com que ele deixasse de beber, falando a toda a gente desse defeito, na sua presença, e de pessoas que até desconhecia. Claro que não obteve qualquer resultado!...
Comentários desses nunca curaram ninguém. Pelo contrário, parece até que incitam o culpado a reforçar o seu vício.
Mas, dir-me-ão, teremos de suportar em silêncio os vícios ou defeitos dos outros? Não teremos o dever de os assinalar e tentar combatê-los?
Seria um erro ficar passivo. É preciso ajudar aqueles que amamos a desembaraçarem-se dos seus defeitos, mas devemos servir-nos de procedimentos adequados. E quando se trata do seu bem-estar, nós temos, não só o direito, mas também o dever de intervir de uma maneira tão eficaz quanto possível.
Todos nós atravessamos, na nossa vida graves momentos que se podem prolongar por semanas, meses, anos, roubando-nos o sorriso, afectando as nossas energias, paralisando o interesse pelas coisas.
Mas é razão para andarmos com cara de quem está sempre chupando limão ou proferir palavras que ferem ou afastam os nossos semelhantes?
É bom que não esqueçamos que o bom humor é contagioso. E assim
como não são precisas muitas palavras para desencorajar, também poucas palavras bastam para incutir esperança e determinação.
O que é necessário é aprender a viver o momento presente e fazer com os que nos rodeiam sejam nossos cúmplices o que só se consegue através de uma boa e sã disposição.
Como diz um provérbio chinês, «não podemos evitar que as aves agoirentas voem por cima das nossas cabeças, mas podemos evitar que elas façam o ninho nos nossos cabelos.»









segunda-feira, maio 23, 2011

E LÁ VAI MAIS UM!...

Ontem, 22 de Maio, um dos membros da minha tribo não conseguiu escapar à imutável lei da Vida e teve de resignar-se perante a exigência do Tempo que lhe colocou na guia de circulação mais um carimbo!
Na circulação dos anos como na circulação pelas estradas há regras a cumprir e normas a respeitar.
Nas aulas que ministrei durante o tempo em que estive no activo, a minha preocupação foi sempre a de ensinar a cumprir escrupulosamente o código, seguindo à risca a indicação dos sinais de trânsito.
Em boa hora o fiz, pois é com satisfação que, depois de muitos quilómetros percorridos, não há a lamentar grandes desastres.
Houve, isso sim, alguns despistes, algumas saídas de pista, algumas carambolas mas, felizmente, sem consequências verdadeiramente trágicas!...
Por tudo isso ou apesar de tudo isso, e muito embora não estivessem presentes todos os membros da “esquadrinha” por motivos justificáveis, o certo é que a comemoração da data decorreu com muita alegria num ambiente de são e familiar convívio.
Todos os membros da tribo foram evocados por altura dos brindes e embora fisicamente ausentes, estiveram connosco em espírito, associando-se a esses inesquecíveis momentos de união e partilha.
Nesta nossa já longa caminhada – minha e da minha Chefe – foram mais uns momentos em que a vontade de continuar a luta se reforçou e em que ficou demonstrado que os juros dos investimentos feitos continuam a ser uma compensação dos sacrifícios passados e o testemunho dum verdadeiro espírito de família.
Na vida de cada um de nós há momentos em que as palavras não chegam para expressar o que nos vai na alma. E é nesses momentos indescritíveis que eu invoco alguém que não vejo, mas que pressinto a meu lado e, reconhecido, lhe digo OBRIGADO!
E a toda a minha tribo também…







sábado, maio 14, 2011

PASSEIO MATINAL

Hoje, logo pela manhã, céu azul e temperatura amena, dei um passeio pelo meu quintal. É uma espécie de terapia matinal, este contacto com a Natureza!
A orvalhada cobria a relva e o reflexo do sol nas gotículas das flores, era como que uma sementeira de pedrinhas reluzentes.
O sol nascente, como que ainda mal acordado, tentava afastar os farrapos brancos de uma nuvem que lhe toldava a luminosidade.
No velho tanque, que no Verão serve de piscina, as andorinhas, em voos rasantes, tocam na água com o bico, e levam nele algumas gotas que vão servir para fazer aquela espécie de argamassa que vai servir para a construção dos seus ninhos.
Da buganvília, ainda sem flores, desprendem-se gotas de água que salpicam os mosaicos castanhos do passeio, imitando os pingos grossos de chuva de trovoada.
A copa da árvore da tília tomou já o formato habitual e há já raminhos de flores a espreitar entre o verde das folhas. A vestimenta do castanheiro está mais atrasada, mas os rebentos já se vêem de longe.
De todo este conjunto de cores, em que as rosas e as azáleas se fazem mais notadas, é, no entanto o verde que domina. É a cor da esperança, a cor da Primavera, que reina em todo este pedaço de terra, este meu cantinho, meu confidente e meu refúgio.
Na aldeia, acordada há muito, ouve-se nos quatro cantos o roncar dos tractores, quer lavrando, quer transportado as ervas secas, que serão guardadas para alimentar os animais no Inverno.
À mistura com o chilrear da passarada, há zumbidos no ar e o ronronar dos atomizadores que combatem as pragas dos batatais e outras culturas, acaba por ser uma espécie de cantilena familiar.
Às vezes converso com quem passa, com essa gente que ainda conserva bem vivas as tradições e a identidade cultural da ruralidade do País, um povo que continua unido ao destino que Deus lhe deu – gente que ainda partilha entre si uma cabeça de alho ou um raminho de salsa, gente que ainda cultiva no seu quotidiano gestos de harmonia e de solidariedade.
As árvores, os pássaros e as rosas do meu quintal são os confidentes dos meus pensamentos, dos meus sonhos e, por isso, o repositório dos meus segredos.
Como disse no começo, uma visita matinal a tudo isto que me rodeia, às árvores e plantas que coloquei na terra, que reguei, que vi crescer e que agora dão frutos, é como que um bálsamo para a alma, uma vitória da perseverança e uma afirmação e reforço da Fé que sempre me acompanhou!
E é aqui, neste meu mundo, que esqueço os encontrões de todos os dias e ultrapasso as tristezas com aquele leveza de alma de quem ainda espera um nada de vida e uma réstia de sonho…











A ALDEIA DA MINHA INFÂNCIA

Penso que já uma vez vos falei dela. Da minha aldeia. Daquela aldeia antiga – sem luz eléctrica, sem automóveis, com uma fonte de chafurdo onde todos íamos beber água pura; com fruta bichada criada sem pesticidas; com bosta de vaca espalhada sobre o empedrado das calçadas; com gente abastada e com muita gente pobre, humilde, mas educada.
Já naquele tempo havia a senhora Dona Fulana, a Dona Sicrana e a Dona Beltrana, muito embora, por vezes, mal soubessem ler e escrever.
Dava-se-lhes esse título honorífico ou porque possuíam casas abastadas ou, então, porque eram casadas com as mais gradas individualidades da terra.
Analfabetas ou letradas, uma coisa lhes conferia essa diferença de trato – a educação e a maneira de conviver com todos sem distinção, quer fossem analfabetos, quer instruídos. E a reciprocidade de tratamento era, por isso, de regra.
Não havia desconhecidos, e a aldeia constituía um corpo social que reagia em uníssono. Todos se saudavam quando se cruzavam na rua e era desde o berço que os mais novos começavam a saber respeitar os seus semelhantes, não por obrigação imposta, mas pelo exemplo que lhes era dado em casa.
Recuei no tempo e recordei a aldeia da minha infância, porque são tantas as interrogações que me assaltam e é tamanha esta "pressa de viver» que me rodeia e atropela, que tentei encontrar refúgio nesses tempos em que a vida, como ainda hoje a Natureza, decorria serenamente, sem sobressaltos, com pouca tecnologia, mas com muito humanismo.
Mas é triste verificar que também nas nossas aldeias a educação e os costumes começam a abastardar-se, que os princípios da mais elementar moral começam a esquecer-se e que, por via disso, a Família, cada vez mais em crise, acabe por não ter significado.
Muitos dos nossos jovens não acatam os conselhos dos mais velhos, incluindo, por vezes, até os dos próprios progenitores. Olham-nos como de peças antigas se tratasse, rejeitando assim a experiência e a sabedoria que lhes poderiam servir de escudo protector para enfrentar os desafios do futuro cada vez mais desconhecido e incerto.
O desrespeito e a falta de educação que a certa altura da nossa vida julgávamos que só existiam nos grandes centros, alastrou, multiplicou-se e cá os temos mesmo à porta!
Sinto, por isso, de vez em quando, necessidade interior de me refugiar e voltar a esse tempo sem tempo, e de sonhar. Sonhar, sem humilhar o passado, mas também sem o usar como emblema. E escrevo. É uma arte de fuga. É um grito de vida. Às vezes afigura-se-me que Deus o ouve. Outras é o silêncio prolongado. Mas escrevo sempre. E recordo. É como quem faz uma peregrinação imaginária àquele pequeno cofre que, dentro de nós, continua a guardar a criança que outrora fomos...





quarta-feira, abril 20, 2011

SEXAGÉSIMO ANIVERSÁRIO


A minha Sociedade comemorou há dias o sexagésimo aniversário da sua existência.
Para assinalar a efeméride, além da sócia maioritária que detém, não só a maioria do capital mandante como do falante, estiveram também presentes todos os actuais accionistas.
Seguindo os princípios do clã não houve grandes cerimónias e também não houve convidados.
Firmada sob o sol dos trópicos no dia 14 de Abril de 1951, conforme atesta a escritura acima reproduzida, a sociedade teve, ao longo dos anos, revezes vários, altos e baixos sem que, apesar disso, a sua estrutura de base tivesse sido afectada.
Renúncias, abdicações, sacrifícios, tudo isso foi superada pela vontade indómita do administrador delegado que conseguiu manter o seu bom-nome e, em alguns casos, até de conseguir que ela fosse apontada como exemplo de tenacidade e de vontade de vencer.
Aos dois sócios fundadores vieram, depois, juntar-se dois accionistas, sem capital, que mais tarde, cumprindo os preceitos dos Evangelhos, cresceram e se multiplicaram, elevando para dez o actual número de membros no activo.
Importa aqui referir a retirada de dois elementos que fizeram parte dos “quadros” da empresa, mas que merecem sempre uma referência carinhosa pelo seu contributo no crescimento da mesma. Igualmente de referir um elemento que se encontra à experiência, mas que merece, para já, o assentimento dos outros sócios.
A comemoração teve lugar na Sede onde, à volta da mesa, se juntaram todos as personalidades atrás mencionadas.
O almoço decorreu em ambiente familiar onde não faltou alegria, boa disposição e também uma pitada de irreverência trazida pelos mais e menos jovens que, simbolicamente, ofereceram aos fundadores, flores murchas com os respectivos revitalizantes!... Uma antecipação do que lhes acontecerá amanhã…
Foram momentos inigualáveis cheios de carinho e foi também uma espécie de bálsamo que nos confortou a alma e nos fez sentir orgulhosos. Orgulho, por depois de tanta labuta, termos a nosso lado, unidos, todos aqueles que mais adoramos, por quem já demos muito, mas de quem também muito já recebemos. E continuamos a receber…
Quando se aproxima o sol poente da vida, há momentos de tanta ternura e emoção que só através de Deus se poderão explicar!
Que Ele continue a presidir aos nossos destinos e que sejamos sempre todos merecedores uns dos outros.



quarta-feira, março 02, 2011

A IMAGINAÇÃO À SOLTA


Há dias em que a desilusão é mais forte, e então fecho-me dentro de mim e aí vai a imaginação a toda a brida. E lá vai ela: que voa, que rodopia, que desce, que sobe, mas sempre em torno do mesmo eixo, que é a Vida.
A Vida!... Este dia-a-dia cada vez mais materialista, mais cheio de risos amarelos, de sorrisos irónicos, de olhares de soslaio que mais parecem armas de arremesso.
Está assim a nossa sociedade: competitiva, invejosa, apressada, hipócrita, egoísta, traiçoeira e amoral.
Vive-se rodeado por uma corte de fingidos, de snobes, de manequins de plástico e de bonecas de silicone, cheias por fora e vazias por dentro.
Toda a gente quer parecer. Mesmo que não seja. O que importa é cultivar a imagem e não esquecer aquela regra que, em certos sectores, – sobretudo no público – confere superioridade: falar alto e grosso, para parecer superior, e intimidar os mais simples que, por humildade, se calam.
E neste grande palco com os mais variados cenários quase todos os actores, nas suas mais diversas e inéditas rábulas, têm como principal e único objectivo a exibição. Fingir, imitar, cultivar o faz-de-conta…
Em tudo! E em especial no que diz respeito a “posses”, a dinheiro, e também a sabedoria. Todos se fazem passar por ricos e sabichões. Não importa a área. Eles dominam todas as ciências. São polivalentes…
Se o coeficiente intelectual for baixo, e mesmo que não passe do zero, uma carteira bem recheada de notas resolve o problema e depressa transforma um burro num doutor.
O dinheiro!... Os “milagres” que ele não faz! E há por aí tanta nota vinda não se sabe de onde nem como!...
A trabalhar uma vida inteira, pergunto muitas vezes a mim mesmo, como é possível angariar fortunas em tão curtos espaços de tempo e, aparentemente, com tão pouco esforço!
Pergunta sem resposta! – Dir-me-ão os leitores. Mas talvez não!...
Li aqui há tempos, mais palavra, menos palavra e escrito por Gabriel Garcia Marques, que se procurarmos como se adquiriram certas fortunas, pelo caminho encontraremos quase sempre um cavalo morto…
Não é necessário explicar a metáfora, mas quando numa sociedade o dinheiro se sobrepõe à honestidade, à inteligência, à humildade, à justiça e à solidariedade, é caso para nos interrogarmos sobre o futuro. Que não será o meu, mas o dos meus netos. Mas será que eles pensam como eu?!...
Pára imaginação!... Deixa que eu goze o Presente. Deixa-me sentir o calor desta réstia de Sol que, sorrateiramente, aproveitou o intervalo entre duas nuvens negras, se escapuliu, entrou pela janela, e veio fazer-me companhia!...























sábado, janeiro 22, 2011

A MÁQUINA DO TEMPO


112, Lexington Avenue Bridgeport USA
Esta não é uma morada ao calha. Esta é a morada, cujo passado eu andei a investigar durante este fim-de-semana, aproveitando as maravilhas da tecnologia, confortavelmente sentado na minha cadeira e em frente ao meu computador, sem vontade para sair de casa por causa da confusão da cimeira.
Ali, há quase cem anos, a 28 ou 29 de Junho de 1917, o Ezequiel e o Custódio terão dado um abraço, um abraço apertado, umas quantas palmadas nas costas, sorrisos largos, o Custódio disse "estás com bom aspecto, primo, as gringas tratam-te bem!", e o Ezequiel retorquiu "e tu, deste-te bem lá pelas terras do Brasil?". Devem ter morto as saudades, partilhado esperanças e brindado a um futuro melhor. Não consta que tenham ressonado apesar da quantidade de bebida ingerida.
O Custódio Marques tinha chegado ao porto de Nova Iorque, no navio "Vauban" vindo do Brasil, via Buenos Aires. Às autoridades aduaneiras, disse ter 23 anos e a fortuna de 10 dólares, de ter sido ele a pagar a sua viagem e que ia para a casa do primo Ezequiel Henriques. Vinha para trabalhar mas fazia tenção de regressar para o seu país de origem. As autoridades registaram-no como física e mentalmente são, capaz de ler e escrever, sem cicatrizes ou marcas especiais, de olhos castanhos e cabelos pretos.No mesmo navio vieram, de Santa Comba, o João Almeida, com 24 anos e 32 dólares e o Augusto Leonardo, de 22 anos e com 35 dólares, mas foram para outras paragens.Em Setembro do ano seguinte, no dia 12, o Custódio foi obrigado a ir à inspecção militar. Apesar da primeira grande guerra se aproximar do fim os americanos queriam toda a gente alistada.No cartão de registo, o Custódio escreveu que tinha nascido a 25 de Agosto de 1893, que era operário na Remington Arms Co. de Bridgeport, uma empresa de fabrico de armas e munições, e assinou-o declarando que tudo aquilo era verdade. As autoridades atestaram que o meu avô não tinha perdido nenhum braço, perna, mão ou olho, não estando obviamente desqualificado para o serviço. Na história da Remington, este dia ficou marcado por uma missa em comemoração do fabrico do ultimo rifle dum grande contrato com o exército dos EUA, a que compareceram, entre importantes figuras do exército e da marinha, mais de 14,000 dos seus empregados.Diz o ditado, e é verdade, que quando vai um português vão logo dois ou três! A dada altura, naquela morada terão habitado o Custódio, o Ezequiel, o Moyses Mattos Affonso, o Júlio Reis e o José Henriques. Outros mais se juntarariam:
O Roberto Ventura, filho de Manuel M. Ventura, que chegou no dia 18 de Fevereiro de 1920 no navio "Britannia", com 22 anos e 50 dólares; com ele vieram também o Sabino de Matos e o Alberto Mattos Almeida.No dia 5 de Outubro de 1920 atracou no porto de Nova Iorque o navio "Providence". Um dos passageiros era o Joaquim Ventura, agricultor, que vinha para casa do irmão Custódio. Declarou 20 anos e 20 dólares, que não era nem polígamo, anarquista nem aprovava o uso de força para derrubar o governo americano e não sabia quanto tempo ia ficar. As autoridades consideraram-no mental e fisicamente são e sem quaisquer deformações. Com ele vieram o Joaquim Marques Matos de 28 anos e o Manuel Antunes de 38, com 30 dólares cada um.
Aos habitantes do 112 da Lexington avenue em Bridgeport, Connecticut, as autoridades americanas chamaram Tourigo Boys e, durante anos, mantiveram uma apertada vigilância.
João Ventura da Costa, in JORNAL DE TONDELA

sábado, janeiro 08, 2011

«VIVER É AFINAR UM INSTRUMENTO...»

Estou a escrevinhar estas linhas no começo da noite do terceiro dia deste novo ano de 2011, por coincidência, uma segunda-feira, um dia nada recomendável para que se peça aos neurónios ajuda para alinhavar qualquer coisa de jeito.
Além disso não tenho já muito tempo, pois tenho de entregar o papel amanhã de manhã. É sempre assim. Nunca tenho tempo quando não quero ter tempo, quando quero arranjar uma desculpa…
E então começo a recriminar-me e a falar com os meus botões: - ontem podia ter escrito qualquer coisa. Mas ontem já passou. Esvaiu-se… O tempo não volta para trás. Não pára. O futuro de ontem é hoje o presente. E hoje está quase a ir embora, é quase meia noite…
Mas escrever sobre o quê?!...
Tenho à minha frente a crónica da semana passada em que dizia que enquanto não houvesse alguém capaz de dar um murro na mesa e de pôr fim ao baile, a coisa não ia ao sítio.
Mas estou agora a ver que me esqueci de dizer que o baile a que me referia, era este baile de máscaras a que assistimos todos os dias. Máscaras, mais máscaras - um país de mascarados!
As estatísticas que nos chegaram no final de 2010 e que nos põem no topo das coisas más e no sopé das boas, são a prova evidente de que temos de mudar. Mudar de vez. É tempo de aprender, de evitar o que deveríamos ter evitado ontem. De ver o mal que fizemos. E desse balanço, dessa reflexão é que devemos arranjar material para construir o tempo de hoje e preparar o tempo de amanhã – o futuro. Que poderá ou não ser nosso, mas que será com certeza dos nossos filhos, dos nossos netos.
Enganam-se aqueles que me rotulam de pessimista. Aliás disse-o na semana passada. Sou, por natureza, optimista. Sou um defensor acérrimo do conceito «Não beba champanhe só nas vitórias, beba também nas derrotas. O sabor é o mesmo e é nas derrotas que você mais precisa...»
E foi o que aconteceu no final do ano, depois de conferir os meus palpites do Euromilhões, do Totoloto e da Lotaria. Afoguei as mágoas E toca a afogar as mágoas!
Fim de ano. Trezentos e sessenta e cinco dias que foram morrendo, enlutados apenas pelo negro de outras tantas noites.
Um ano de angústias e de promessas não cumpridas. De mentiras e de piruetas desses pinóquios da democracia, desses vendedores de banha de cobre, que são os políticos. De injustiças e de hipocrisias mal disfarçadas, cometidas, sobretudo, por quem deveria dar o exemplo…
É assim a vida – vive-se, briga-se, esquece-se, lê-se, escreve-se, perdoa-se e sobrevive-se!
É assim a vida. Como um romance que se escreve à noite, e se lê de manhã. E todos os dias se vira uma página…
Como diz a canção: «Viver é afinar um instrumento / de dentro pra fora / de fora pra dentro / a toda a hora / a todo o momento / de dentro pra fora / de fora pra dentro…»



























quarta-feira, janeiro 05, 2011

MÃOS AO AR...2011 VEM ARMADO!...

Meus caros Amigos e pacientes leitores:
Confesso-vos com toda a franqueza que não sei como começar esta crónica de hoje.
E a minha maior dificuldade reside no facto de não querer usar aquelas frases feitas, aquela lengalenga rançosa e hipócrita de votos dum Novo Ano cheio de prosperidades, com muita saúde, etc. e tal.
E não queria, porque, se sou sincero ao desejar-vos boa saúde, como posso eu garantir-vos uma coisa tão abstracta e tão difícil de encontrar nos tempos que correm, como é a prosperidade?
Todos sabem como quero bem aos meus leitores e que só desejo que todos os seus sonhos se realizem. Mas em vez desses lugares-comuns eu queria, sem rodriguinhos, dizer-lhes o que me vai na alma…
Dizer-lhes, por exemplo, que o ano que agora começa, por muito que isso nos custe, vai ser ainda pior do que o que agora findou; que por mais que nos martelem o bichinho do ouvido com promessas de melhoria, tudo isso não passa de conversa da treta e que as eleições que aí vêm, nada mais mudarão do que o inquilino de Belém.
E dizer também que enquanto todos nós não nos convencermos de que é preciso trabalhar, produzindo e poupando, continuaremos cada vez a afastar-nos mais dos nossos outros parceiros europeus.
Já repararam que nos seus discursos, os nossos políticos, só dão palpites e que a palavra “trabalho” raramente é pronunciada?!
Portanto de nada vale andarmos a desejar prosperidades, a fazer votos de um bom novo ano e coisa e tal, porque tudo isso não passa de conversa fiada que só serve para nos enganarmos a nós mesmos e arrastar os outros para esse estado eufórico e fictício em que vivemos.
Financeiramente falando, já se deram ao cuidado de verificar a situação de qualquer dos políticos que passou pelo Governo depois do 25 de Abril?!
Já ouviram ou leram que algum deles tivesse prescindido de qualquer das suas benesses em favor dos que mais precisam? De todos os casos em que foram julgados, algum foi parar à cadeia? Do nosso dinheiro que por eles foi desbaratado, a algum foram pedidas contas? Algum foi responsabilizado por má gestão? E pelos inúmeros desvios que têm havido?!...
Portanto, meus amigos, enquanto não houver alguém que dê um murro na mesa e mande parar o baile, continuaremos a afastar-nos dos parceiros europeus e a aproximarmo-nos cada vez mais dos países do Terceiro Mundo onde há milhares de ricos muito ricos e milhões de pobres...muito, muito pobres.
Sou, por natureza, optimista… A tal ponto que até continuo a sonhar com um Portugal mais humano, mais solidário e mais justo. O que não vejo – nem sonhando!..., – é alguém que transforme esse sonho em realidade.
Portanto, meus amigos preparem-se, porque 2011 vem de lança em riste. E pronto a levar-nos couro e cabelo…




















segunda-feira, dezembro 27, 2010

NOITE DE NATAL

Este ano fomos passar o Natal com a família do Norte – Vila Nova de Gaia. Menos frio do que aqui na aldeia, mas mesmo assim as temperaturas eram baixas.
Visitámos umas das “catedrais” do consumo. Muita gente e poucos sinais que indiciassem a crise por que estamos a passar. Talvez tivéssemos sido influenciados pela afluência às lojas onde muitos vão, mas nem todos fazem compras…
Salvo raras excepções é tudo gente apressada. Uma correria infernal. Só as crianças, ainda indiferentes à cavalgada da vida, olham sorridentes, olhos gulosos, os atraentes brinquedos expostos nas lojas da especialidade.
As canções de Natal, ora na toada antiga, ora em arranjos modernos, enchem o espaço, mas parece que ninguém nota muito a diferença. Dá-nos a impressão que o que conta é o barulho. Talvez um barulho diferente de outras épocas do ano, não tanto pelos acordes, mas mais pelos cheiros da quadra natalícia. Antigamente a música identificava uma época do ano com mais rigor. Hoje nem sempre isso acontece e a tendência é para derrubar essas fronteiras musicais. A melodia cedeu o lugar a um barulho tão ensurdecedor que quase se confundem os ritmos. Sinais dos tempos!...
Noite de consoada em família. O fiel amigo, ainda fumegante, acompanhado pelo respectivo séquito – couves, cebolas, ovos, batatas – presidiu, como manda a tradição, à cerimónia, e mal chegava aos pratos, logo era ungido com fino azeite, seguindo-se, conforme os gostos, a adição de alho picado.
Doces da quadra onde imperavam as rabanadas, rodeadas pelo bolo-rei, pelas filhós de abóbora e outras doçuras enchiam a mesa. Bebidas diversas e tradicionais testemunhavam a solenidade do momento sem qualquer descriminação, pois até o estrangeiro champagne se juntou à festa!
Meia-noite! Abriram-se as prendas e eis senão quando lá do presépio ouviu-se uma voz:
“Era Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!...”
Fez-se silêncio na sala e a vozita continuou:
“Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
Foi este o Natal de Jesus?!...” (*)

(*) Excertos de “Natal de Quem?” de João Coelho dos Santos




quinta-feira, dezembro 09, 2010

Nada mudou... ou mudou para pior?!...

( 1850 - 1923 )


Muito se tem dito, escrito e apregoado quanto à necessidade de uma mudança de mentalidade do povo português.
Interrogo-me muitas vezes sobre esse desejado “ milagre”e, à medida que o tempo passa, cada vez me parece mais longe essa possibilidade. A nossa maneira de pensar, de agir, enfim, a nossa maneira de ser é imutável.
A esse respeito e a juntar a vários textos antigos que tenho lido, recebi há dias, de um Amigo, com o título acima, um excerto de um texto de Guerra Junqueiro escrito em 1896 sobre o que éramos (e somos) que quero partilhar com os leitores, reforçando assim a minha opinião sobre o assunto:
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Como os leitores podem verificar, este texto, escrito há mais de um século, está actualíssimo e mostra à saciedade, que por mais voltas que o Mundo dê, não mudamos.
E tanto poderá ser um castigo que Deus Nosso Senhor nos infligiu, como uma praga que o Diabo nos rogou!...


OS PEQUENOS DITADORES



O País está atulhado deles. Há-os por todo o lado. Grandes e pequenos. Intelectuais e analfabetos. E existem tanto na esquerda como na direita.
No Governo, na Assembleia da República, nas Secretarias de Estado, na Justiça, na Saúde, nos Sindicatos, nas Fundações, nas Comissões de Inquérito, nos Municípios, na Imprensa, nas Escolas e em todos os lugares onde lhes cheire a poder, eles espalham-se e escondem-se por todo o lado como piolho em costura!
Saímos de uma Ditadura maior para ditaduras menores, mais disfarçadas, mas não menos nefastas…
E são essas pequenas ditaduras que geram sentimentos de medo por parte dos subalternos que, por sua vez, criam à sua volta, e em simultâneo, climas de bajulação e de denúncias.
Com medo de se perder o emprego, o estatuto ou os privilégios, lisonjeia-se o chefe e denuncia-se o colega.
Não há moral, não se respeita a ética, e ignoram-se os ditames de consciência – a integridade que deve caracterizar qualquer ser humano desaparece.
Muita gente vê o autoritarismo apenas sob a perspectiva do Estado enquanto opressão do poder político. Mas isso não é totalmente assim.
O autoritarismo é uma manifestação de egoísmo que pode manifestar-se em qualquer sector da sociedade, dependendo apenas do alto conceito que cada um atribua a si mesmo. A ambição, a vaidade, o protagonismo e a supremacia em relação ao semelhante, pode desencadear esse sentimento
Um lugar de chefia é, geralmente, a rampa de lançamento mais usada para a propulsão do prepotente.
Há instituições particulares que apesar da sua fachada democrática e da sua orientação pedagógica e científica, apresentam, por intermédio do seu chefe, um carácter opressivo.
E, paradoxalmente, é nessas instituições em que a liberdade, a sinceridade, o respeito mútuo, a civilidade e o diálogo deveriam, acima de tudo, sobrepor-se a qualquer outra forma de actuação.
Esses pequenos ditadores consideram-se profetas de um novo Mundo e exercem os seus cargos como de feudos se tratasse, erguendo muralhas e fossos de protecção e usando o poder que a função lhes confere para reforçar a sua vaidade pessoal e o domínio sobre os outros.
E há casos em que eles não só exercitam a sua prepotência sobre aqueles que gravitam à sua volta como também tentam estender os seus tentáculos para o exterior. Com sucesso algumas vezes, mas muitas mais sem conseguirem atingir o seu objectivo. No primeiro caso porque o alvo se presta a chantagem, no segundo porque há ainda quem não tema quaisquer represálias sejam elas de carácter ideológico, profissional ou meramente pessoal.
O pequeno ditador, geralmente, não é inteligente. Mas é esperto. E é narcisista, hipócrita, vingativo, manhoso, mas covarde quando atacado frontalmente. Não sei se algum dos meus leitores já alguma vez foi alvo dessa casta de indivíduos. Se não, acautelem-se.





segunda-feira, novembro 08, 2010

UMA VERDADE COM 2065 ANOS!...


Se fosse eu que mandasse cá neste jardim zoológico, mandava afixar na Assembleia da República este texto de Marcus Tullius Cicero com a última frase em letras gordas:
"AS PESSOAS DEVEM NOVAMENTE APRENDER A TRABALHAR, EM VEZ DE VIVER POR CONTA PÚBLICA."
Dos 230 deputados, quantos já fizeram alguma coisa na vida? Cambada de mandriões e de incompetentes!...

domingo, novembro 07, 2010

E V O C A Ç Ã O


Embora seja vertiginosa a marcha com que se desloca a carruagem da nossa existência, nem por isso ela foge às Leis previamente estabelecidas.
Assim, em cada paragem, ela se detém, a porta abre-se, e algum dos passageiros tem de abandonar a composição...
Uma velha desdentada, rosto macilento, olhos esbugalhados, garras aduncas, gadanha em punho, desenrola o pergaminho da lista fatal e, indiferente ao que se passa à sua volta, faz a chamada: "Manuel, ou António, ou Maria, ou Francisco, desce, porque é aqui o fim da tua viagem!..."
E não há desculpa ou pretexto que valha! É assim a Morte – imprevisível, tirânica e inexorável. Ninguém escapa ao seu chamamento. No palácio do Rei ou na choupana do pobre, ela está presente, e no dia marcado ela bate à porta e, mesmo sem permissão, ela entra.
Já os Egípcios, quando ofereciam grandes banquetes, costumavam expor à vista dos seus convidados um esqueleto de madeira com a seguinte legenda: "Comei, bebei, e diverti-vos, mas não esqueçais que um dia sereis igual a ele..."
Interpretação diferente lhe davam os primeiros cristãos que consideravam o dia da morte o dies natalis – o dia do nascimento. Morre-se para os homens, mas nasce-se para a Eternidade!
Foi tudo isso que me perpassou pela mente no Dia de Finados quando contemplava aquela lájea musgosa e silenciosa, onde depus quatro crisântemos com as pétalas ainda molhadas pela orvalhada da noite.
Uma lágrima teimosa desceu pela cara tisnada e rugosa e quedou-se por instantes nos lábios trementes, lembrando alguém que não conheci.
Como é doloroso evocar alguém que não conhecemos em vida, mas cuja lembrança constantemente nos acompanha!...
É uma mistura de saudade tão pungente e de tristeza tão dorida, que não se consegue explicar. Sente-se e connosco vive.
Flores, velas, orações e lágrimas! Lágrimas... de saudade umas, de remorsos outras. Mas para nós, cristãos, não será hipocrisia chorar pelos mortos?
Não serão as lágrimas mais apropriadas para aqueles que estão como que amortalhados na frieza, na indiferença, no abandono, sofrendo carências de toda a ordem e por isso antecipadamente sepultados no coração dos vivos?
É que, nestes dias em que os cemitérios se enchem, há, entre essas multidões, e à mistura com testemunhos de sincera saudade, uma grande quota parte de hipocrisia, de vaidade e de ostentação, com que se pretende esconder aos que ainda estão em vida, aquilo que não se deu aos que já morreram.
Como disse Santo Agostinho: "Flores e lágrimas são alívio dos vivos, mas não refrigério dos mortos..."
Reflexão em dia de romagem ao Cemitério –02-11-2010)





sexta-feira, novembro 05, 2010

CAPA E VERSO DO EP DO RICARDO



Isto é a capa e o verso do EP que o menino que ouviram cantar - Ricardo Ventura da Costa que adoptou o nome artístico de Richie Campbell - acabou de lançar. Podem comprar em qualquer espaço FNAC.
Boa sorte, Ricardo!

segunda-feira, novembro 01, 2010

É TÃO BONITA A VIDA!...


A Vida, no seu mais simples e real significado, é uma história que encerra muitas outras histórias. E a vida de cada um de nós tem as suas.
E, como num livro, os capítulos sucedem-se e a acção desenrola-se aguçando a nossa curiosidade, mas escondendo sempre, de forma ardilosa, o desfecho final!
E felizmente que assim é!...
Alegrias, tristezas, esperanças, fracassos, enganos, desenganos, vaidades e desânimos, são pedaços de romance que desfilam e ladeiam a nossa existência sem, contudo, forneceram qualquer indício quanto ao seu epílogo.
E assim, – uns guiados por essa luz da esperança que é a Fé, outros pelo fascínio do desconhecido que os atrai – lá vamos todos, e cada qual à sua maneira, folheando o livro, página após página, sem nunca sabermos como, nem quando chegamos ao fim...
Os que lêem as minhas crónicas devem admirar-se desta minha insistência neste tema que é a Vida – a passagem por este mundo. Acredito até que muitos possam crer que tal facto se deve à decrepitude, a uma senilidade galopante. Pouco importa. Mas a vida fascina-me apesar de todos os encantos, desencantos, rasteiras e trambolhões, que tive de transpor. E isso talvez por só agora começar a gozá-la em toda a sua plenitude e sem paixões – nas cores, nos odores, nos olhares, nas pessoas, nas coisas e em tudo o que me rodeia!
Como um apaixonado, sofregamente, eu “respiro-a” e tento conservar dentro de mim, por tempo infinito, essa lufada de esperança que me enche a alma.
É sempre difícil, quando fazemos da escrita uma confissão, escondermos o que vai dentro de nós. Ser sensível é uma outra maneira de compartilhar da tristeza dos outros. Fazer o papel da esfinge de pedra que não ri, que não chora, que não se emociona é, em certos momentos, uma outra forma de hipocrisia.
O sentimento é a música do nosso mundo interior que faz parte integrante do nosso eu. Quando exteriorizado com dignidade, sem vergonha e sem fingimentos, ele é, conjuntamente com o pensamento, a expressão da nossa verdade.
E é por isso que eu canto a vida, todas as manhãs, cedo, quando abro a janela do meu quarto e assisto ao espreguiçar do dia. É mais um, murmuro baixinho...
Todos nós dizemos saber que temos de morrer um dia. Mas se dizer que sabemos, é tarefa fácil, convencermo-nos disso e aceitá-lo sem temor e sem reservas... isso é que é mais difícil!
Entretanto e como nada pode parar os ponteiros do relógio da vida, aproveitemo-la da melhor maneira.
E para aqueles que acreditam que há Vida para além da morte, uma das condições essenciais para ter direito a essa dádiva divina, é tentar seguir o caminho certo, que é, como disse o poeta, "abrindo aos outros o nosso jardim: oferecer aos outros as flores das nossas capacidades e valores..."

terça-feira, outubro 05, 2010

FIM DA COMEMORAÇÃO


"Via o meu campo maninho
Plantei vinha. E em conclusão:
Cada vez mais pobresinho
Levae-me a adega de vinh!
Dae-me um bocado de pão!"
Anúncio
"Burro
Perdeu-se em Belém
Com os seguintes signaes:
Ruço, malhado nos lombos
E com chagas nos ilhaes."
Qurem achal-o? Pois bem:
Escusam de andar aos tombos
À procura do jumento.
Dão com elle qualquer dia.
Se não estiver em S. Bento,
Na Academia!
Rivarol - Idem

O QUE NÃO TEM REMÉDIO!...

" (...)
"(...) Tantas vezes se dissera que a situação de Portugal em face das grandes potências era a mais difícil e a mai crítica; tão habituados andávamos já com a ideia de que, mais dia, menos dia, essa pequena mancha amarella que indica ainda Portugal na carta da Europa se apagaria por completo como se lhe passassem uma esponja embebida no anti-nódoa; tão desiludidos do futuro nos diziamos, e tão seguros do mal que nos esperava, andávamos, que ninguém já cuidava de encontrar remédio, que assim vínhamos vivendo na certeza de que o que não tem remédio, remediado está!...(...) "
Paródia de 19 de Dezembro de 1900
É sina, meus amigos!

100 Anos de República - O eterno expectador!...

" (...) Os ministros, em toda a parte do mundo e em todos os tempos, encontraram sempre que comer, ainda mesmo nos paizes onde cada novo ministério que chega se apressa a em declarar às Camaras que o thesouro se acha exhausto - para evitar desconfianças. Os ministros quando não têm mais que comer, comem-se uns aos outros. Consta que o próprio Saldanha, quando ficou só no poder, acumulando as sete pastas, à falta de melhor - roeu as pastas... (...) "
Paródia de 26 de Setembro de 1900

Na comemoração dos 100 anos da República


Para comemorar à minha maneira os 100 anos da República, fui folheando a "Paródia" do ano de 1900, e como podem verificar pela ilustração anexa, já nesse tempo havia "ratos" a participar no Orçamento.
Depois, para verem como as coisas se passavam já naquele tempo, encontrei esta pérola que vos deixo:
Na Boa Hora
Vendo entrar o reu, o feroz Matheus Teixeira de Azevedo grita-lhe:
- Então você ainda antes de hontem cá esteve e já volta?!
- É verdade, sr, juiz, como o tempo passa!
Somos assim e nada há a fazer....

quinta-feira, setembro 02, 2010

A FESTA DO TANQUE DE - 27 A 29 -8-2010

Os assadores















Seguindo costumes pagãos, revivendo a mitologia e também em homenagem às Divindades do Mar e das Águas – as Sereias – realizou-se nos dias 27, 28 e 29, a chamada “Festa do Tanque” que reuniu gentes do Norte e Sul do País.
O local escolhido foi uma mansão beirã onde existe um reservatório de 30.000 litros de água construído em granito que remonta aos primórdios do século IXX.
O local é aprazível, e o reservatório, elevado à categoria de piscina, está rodeado de vinhedos e de glicínias que o bordejam e lhe conferem uma beleza rústica de fazer inveja às pérgulas dos solares antigos descritos nas páginas dos livros dos nosso grande escritor Júlio Dinis!
E foi nesse cenário maravilhoso, em convívio familiar e alegre que se desenrolaram os festejos, interrompidos de quando em vez por umas degustações pantagruélicas e libações a condizer.
O momento alto da festa teve lugar no dia 28 em que para surpresa dos anfitriões, mas sobretudo da “Chefe”que detém o monopólio dos Tachos & Similares, a mesa da sala de jantar se encheu de diversas iguarias, de petiscos irresistíveis, de diversificadas bebidas, não faltando até o barril de onde esguichava a cerveja à pressão!
Durante a preparação dos acepipes, a porta da cozinha esteve vedada a estranhos, o que não agradou à Chefe que se viu assim afastada dos seus domínios.
Os assadores, por seu turno, esmeram-se também nos grelhados e contribuíram também para a maravilhosa decoração gastronómica da mesa que fazia crescer a água na boca só de olhar!
Da família, faltou apenas o artista, mas também esteve presente, porque assistimos, via Internet, à sua magnífica actuação em palco, na vizinha Espanha.
Um Fim-de-semana que ficará gravado…no coração. Um sincero e sentido obrigado a todos que nos proporcionaram tão agradáveis e carinhosos momentos.
Numa pequenina prece a Deus, ousamos pedir-lhe que nos dê saúde para que, para o ano, possamos de novo reeditar tão ternos e felizes momentos.

quarta-feira, setembro 01, 2010

A CASA DOS PORTUGUESES E O COLÉGIO DE KINSHASA

A Casa dos Portugueses foi fundada a 25 de Fevereiro de 1947, sob a forma de Sociedade Cooperativa, conforme os Estatutos submetidos às autoridades do país, em 18 de Abril de 1947 e aprovados pelo decreto lei nº 11/187/16/10J, de 17 de Março de 1952.
De 1947 a 30 de Junho de 1960, a Casa dos Portugueses constituía um centro de convívio social da Comunidade aqui residente, tendo como principais actividades: a organização de vários festejos populares, exposições de natureza comercial, a prática de algumas modalidades desportivas e recolha de fundos para aquisição de uma propriedade destinada à construção da Sede do Clube e campos de jogos.
Em 6 de Setembro de 1965, foi decidido abrir uma Escola que pudesse resolver o problema que sempre se pôs à Comunidade e que, apesar da dedicação individual de algumas pessoas (Professoras), que particularmente leccionavam em suas próprias casas ou em precárias instalações, ia subsistindo sem que se conseguisse suprimir as necessidades das respectivas crianças e jovens.
Perante este cenário, em 6 de Outubro de 1965, o Colégio Português de Kinshasa abriu as suas portas, pela primeira vez com 37 alunos, confiados a duas professoras, tendo o respectivo ano lectivo terminado com um total de 54 alunos.
Por consequência das pilhagens ocorridas em Setembro de 1991, uma grande parte da Comunidade Portuguesa residente no Zaire (actual R.D. Congo), confrontada com a perda dos seus empregos, a instabilidade e a insegurança reinantes na época, foi obrigada a sair do País arrastando consigo uma parte significativa dos alunos que até então estudavam no Colégio Português de Kinshasa.
Ao fim de 5 anos, foi eleita a nova Direcção, animada por um forte espírito de equipa e com muita vontade em servir a comunidade portuguesa, procurou dar vida à instituição organizando para isso vários eventos desportivos, convívios entre as várias comunidades procurando com os poucos meios e recursos financeiros de que dispõe, reparar os estragos provocados pelos sucessivos acontecimentos acima referidos.
Para dar uma melhor formação aos filhos de portugueses, contratou novas professoras. Além do funcionamento normal de todo o projecto escolar, a direcção resolveu criar, com o apoio das professoras, um curso de Cultura e Geografia de Portugal, para os alunos, filhos de portugueses, que se encontram a estudar em escolas estrangeiras para que estes nunca percam a sua ligação à pátria e para lhes facilitar uma melhor integração.
Fonte: Escola Portuguesa de Kinshasa

sexta-feira, agosto 20, 2010

OS CAMINHOS SINUOSOS DA HISTÓRIA



"...Na galeria da História, há nomes que não esquecem e outros que até deixam saudade. Salazar é um deles! Por isso é que de todos os lados, inclusivamente gente da oposição, que outrora o combateu, ao ver o descalabro em que Portugal se afunda, clama. "Quem dera outro Salazar". É Portugal a vingá-lo do camartelo destruidor da revolução ignara (…)"
(…) Nem sempre a pedra tumular fecha o palco da vida. Os actos que tantas vezes se ensaiaram e representaram, as cenas do quotidiano de que se fez história, deixaram a "suspense" no clímax do seu desaparecimento, levando os espectadores a interrogar-se como em acção de narrativa aberta: e depois?
Já lá vão catorze anos que se finou Oliveira Salazar, personagem principal da cena política portuguesa durante algumas décadas. Mas o túmulo, se lhe guarda os despojos, não lhe encerra a alma nem a obra,
que continuam vivas: a alma em Deus, e a obra na lembrança de todos os bons Portugueses e na realidade visível do torrão nacional, onde, mesmo mudando-lhe o nome ou cobrindo-a de adjectivos grotescos, na
tentativa de a desvirtuar, clama bem alto que foi uma época de progresso a todos os níveis; época em que o nome de Portugal era pronunciado com respeito em toda a parte, menos pelos bandoleiros internacionais que, ao menos, o temiam, e pelos inimigos e falsos amigos que não toleravam a altivez dada pela independência de quem, não se sujeitando á canga que pretendiam impor-nos sob a aparência
de liberdade, democracia e modernização, poderia colocar como divisa da sua governação o grito célebre de José Régio nas estrofes gloriosas e imortais do Cântico Negro: "Não vou por aí (…)”
Padre Cândido de Azevedo numa homilia na capela do Vimieiro onde, com o cónego Simões Pedro, concelebrou uma missa.

quarta-feira, agosto 18, 2010

REEDIÇÃO DA FEIRA ANTIGA




FOTOGRAFIA DA MINHA INFÂNCIA


Nesta fotografia, quando me vejo, julgo que ela deve ter sido tirada em 1938 ou princípios de 1939.
O grupo era uma espécie de “milícia” sem armas…
A ideia partiu de um senhor que se chamava Germano que era uma homem um pouco misterioso. Lembro-me que a certa altura desapareceu da aldeia e só passados muitos dias apareceu dizendo que tinha estado em meditação algures na serra do Caramulo!
Alguns atribuíram tal facto a um amor não correspondido enquanto outros o encaravam como um devaneio de pessoa com pouco juízo!
O certo é que o Germano reuniu todos os rapazes que estão na fotografia de braço estendido, fazendo continência, e começou a dar-lhes lições como se tratasse de tropa a sério. Os que estão por detrás, os mais velhos, eram os que apoiavam a ideia.
Todos os sábados havia exercícios e lá estávamos todos. Marcar passo, marchar, fazer ginástica era o programa daquela “força de ataque”.
A princípio, marchávamos sem arma, mas um dia o Germano lembrou-se de ordenar que cada qual deveria fazer uma espingarda de pau para com ela marchar. E todos obedeceram!
No exercício seguinte lá estávamos todos de arma ao ombro, prontos para o desfile…
E era uma festa aos domingos, de tarde, desfilar pela rua principal da aldeia.
Naquele tempo poucas ou nenhumas distracções havia nas aldeias e tudo o que quebrasse a monotonia do dia a dia, era motivo de festa e até de admiração por parte dos mais idosos. Afora o jogo do pião, da bilharda e do finto, poucos mais entretenimentos havia e daí que toda ou quase toda a aldeia viesse ver a “tropa” e bater palmas à passagem daqueles intrépidos soldados!...
Bons tempos esses…
Mais tarde o Germano constituiu família e lá onde ele estiver aqui deixo uma breve prece para que ele esteja em paz, ele que, durante um período da sua vida, cedo, nos começou a preparar para a “guerra…”

sábado, julho 17, 2010

Resposta a um Marciano

Não têm conta as “mensagens” que já recebi ao longo destes últimos vinte anos e todas motivadas pelos rabiscos com que semanalmente esborrato um pequeno espaço neste Jornal.
Por intermédio de cartas, telefone e agora através das modernas tecnologias, Internet e telemóvel, raro é o mês em que não receba uma ou duas dessas pérolas.
Confesso que é com prazer que as recebo, apesar de algumas, por vezes, ultrapassarem os limites da boa educação.
Tenho recebido de tudo, mas as venenosas são as mais frequentes. Regra geral não lhes dou grande importância. Dalgumas até gosto. É sinal de que existo… pedindo desculpa, claro, ao filósofo e matemático francês pelo abuso na aplicação da paráfrase.
Das muitas que tenho recebido, escolhi a mais recente registada no livro de visitas do Jornal e que reza assim:
“Há muito que penso escrever-lhe, mas agora que terminei de dar aulas aos meus alunos, a ideia concretizou-se e aqui estou.
Há anos que o leio e aprecio a sua maneira de escrever. A sua escrita é fluente e a ironia que por vezes sobressai das suas crónicas dá-lhes tal sabor que apetece ler até ao fim!...
Mas…
Vou ser sincero e dizer-lhe que tudo isso se esfuma, pois o seu saudosismo e o seu apego ao antigamente é tal que lhe rouba o estilo e o coloca ao lado dos mais inveterados fascistas que conheço. Não sei a sua idade, mas pela foto deve andar nos “entas”. O senhor não pode com os políticos de agora, mas deve ter em casa uma vela acesa em frente da foto do Salazar a quem se tem referido, como de um santo se tratasse!
Adivinho que se deve ter arranjado nesse tempo do ditador e que agora é dos “convertidos” com bom salário, boas regalias e uma boa vida. Mas isso à custa dos que trabalham a sério. É bom dizer mal dos nossos políticos, mas se não fossem eles o senhor não teria o estatuto que tem que lhe permite viver à grande, com “escravos” para lhe fazerem a papinha e no fim do mês é só arrecadar as notas.
Já tivemos na nossa história cristãos novos, agora há os fascistas convertidos por interesse….
Apesar de tudo continua a escrever. Pelo menos pelo bom português que nos oferece…”
Ele há coisas!... Como é que o autor do “miminho“ conhece tão bem a minha vida! Incrível! Acertou em cheio em quase tudo. Só faltou acrescentar as minhas três reformas, o motorista privativo, o cartão de crédito sem limite, as casas na praia e a minha empresa numa off-shore ali prás bandas da ilha do Fidel.
Também se esqueceu de que o “santo”a que se refere não mora em minha casa, mas está bem presente na memória de todos – na dos pobres e na de muitos políticos ricos. Na dos primeiros, porque estão cada vez mais pobres e na dos segundos, porque não lhe perdoam por ele ter morrido pobre. É um mau “exemplo”para a classe…
Vejo-o tão acérrimo defensor dos nossos políticos que me atrevo a perguntar: o sôtor vive mesmo cá no rectângulo ou já habita Marte?...

quinta-feira, junho 10, 2010

DIA 10 DE JUNHO DE 2010


Comemora-se hoje mais um 10 de Junho – Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Foi a partir de 1933 que o dia 10 de Junho começou a ser festejado a nível nacional como dia de Camões.
E foi a partir da inauguração do Estádio Nacional do Jamor, em 1944, que Salazar acrescentou ao Dia de Camões e de Portugal, o Dia da Raça, tornando-se este epíteto, a partir de 1963, uma homenagem às Forças Armadas Portuguesas numa exaltação da guerra e do poder colonial.
Em 1978, a Terceira República, converteu-o no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Fora com a Raça!...
Há 30 anos, em 10 de Junho de 1980, fui escolhido pela Embaixada Portuguesa de Kinshasa para representar a Comunidade Portuguesa do Zaire nas cerimónias que se realizaram, nesse ano, em Leiria.
Era Presidente da Republica o General Ramalho Eanes e Chefe do Protocolo, António Monteiro que começou a sua carreira diplomática na nossa embaixada em Kinshasa. Saímos no dia 8, Domingo, para Fátima onde estivemos alojados num hotel durante os dias em que decorreram as cerimónias que, como acima disse, se realizaram em Leiria.
Recordo-me que o tempo estava invernoso e frio, tal como acontece hoje. As festividades foram simples, sem a pompa e todo o aparato que hoje têm. Uma sessão solene no teatro da cidade seguida de uma tarde de variedades, em que “As Doces” esse conjunto que faria sucesso, fez uma exibição que mereceu uma calorosa e prolongada ovação de todos os presentes. Houve também a inauguração de uma estátua de Camões num dos jardins de Leiria a que foi dado o nome de Jardim de Camões. A estátua tem a particularidade de ser feita em betão.
Folheando o meu Diário desse ano encontro escrito que no dia do regresso, dia 11, me encontrei com o empreiteiro para fazermos a marcação da casa onde hoje habito!...
Mas voltando ao 10 de Junho, e à questão da amputação da “Raça”não resisto a fazer uma transcrição das “Farpas”:
‘(…) A raça portuguesa, por mais decaída que a consideremos pelo abastardamento dos elementos que a formaram, é ainda hoje consideravelmente menos absorvível do que absorvente. (…) O Português constitui um tipo inteiramente especial no grupo indo-europeu. Ele é sentimentalista, idealista, galã, dado a aventuras e a viagens como Preste João, como Fernão Mendes, como o Infante D. Pedro, como Camões. É sóbrio e é rijo. Tem o dom sociável e fecundo de amar e se fazer amado, e é singular a sua facilidade de adaptação a todos os meios biológicos e sociais, bem como a sua enorme força de resistência à fadiga, à fome, a todas as privações da vida e a todas as hostilidades da Natureza. De resto, propenso à rebeldia, leviano, gastador, volúvel e inconstante. Durante o século XVII, depois de célebre pelos seus grandes feitos de guerra, de navegação e de conquista, era proverbial em Espanha a sua melosidad y derretimiento em amores. Quevedo dizia que de portugueses não ficariam torresmos no fogo do Inferno, porque havendo lá mulheres, os Portugueses derreteriam completamente, não deixando como vestígio mais que uma simples nódoa no chão. (…) “
Talvez motivado pelas varações do tempo (chove e está frio) deve ter ocorrido qualquer incidente a nível dos meus neurónios, que me impede de continuar a raciocinar convenientemente.
Paro por aqui prestando uma homenagem ao nosso Camões, que com um só olho via mais do que muitos com dois. Que morreu pobre, mas que todos agora enchem a boca com o seu nome!
Lembram-se dos tempos em que ele foi banido dos livros escolares? O passado de um Povo é coisa que não se apaga quer pela imposição de ideologias, quer por meio de leis. Como Camões outros há. Mas só com o tempo os seus nomes tomarão o devido lugar nas páginas da nossa História…

quarta-feira, maio 26, 2010

Ó TEMPO VOLTA PRA TRÁS...


Curso de Sargentos Milicianos 1947 - 1948
Dedicado à nossa caserna no Regimento de Lanceiros 2, em Lisboa, principal centro turístico da bicharada do sítio, orgulhosamente ornamentada com teias do bicho aranha…

Feita de tábuas mascaradas,
Há bicharada a granel,
Há duelos, coboiadas,
Como não há no quartel.
Há orquestra privada,
Barulho quanto se queira,
Diverte-se a rapaziada
Cada qual à sua maneira.
A mobília é da mais fina
Com requintes de beleza:
Não faltam jarrões da China
E belas camas à francesa!
Enxergões de suma-pau
Com turistas em passeio,
E pra isto não ser tão mau
Há ainda pulgas pelo meio.
O soalho é encerado
E o seu brilho divinal,
Aqui e além escarrado
Mas isso não é por mal.
Há quadros emoldurados,
De negros, heróis cavaleiros,
De faquires, reis destronados
E de mais outros parceiros.
Plantas das mais variadas,
Ricas cadeiras, canapés,
Passadeiras estilizadas
Onde eu nunca pus os pés.
Espelhos há muitos, então,
Mas esses não têm limpeza
Pra não se sentir comoção
Ao ver tamanha magreza!...
De noite, a bicharada
Ataca com precisão:
Objectivo: - Rapaziada.
Resultado: - Comichão!...
Belém, Lanceiros 2 – 25-11-1947

segunda-feira, maio 24, 2010

FAMÍLIA DISPERSA - 1964

Vida esfarrapada
Manta de retalhos
Um mundo disperso
Bocados da alma
Por todo o Universo!

O pensamento inconstante
Sem saber onde parar
A alma sempre distante
E o coração a chorar!...

Quando virá, enfim, esse dia
Que o nosso mundo fique juntinho
Que nossa alma cante de alegria
E que nenhum se sinta sozinho?!...

O Velhinho

Nas árvores frondosas
Nas pétalas sedosas
De várias cores
Cantam as aves
Em trinados suaves
Os seus amores.

Além as crianças
Em jogos e danças
Atroam os ares
E acordam o dia
Com a alegria
Dos seus cantares.

Num lago em frente
Está muita gente
Olhando os peixinhos
E num banco sentados
Os namorados
Trocam carinhos.

E só um velhinho
Num banco sozinho
Sorrindo e chorando
Sente a saudade
Da mocidade
Que vai recordando…

PRIMAVERA

Enchem-se as árvores de flores
Roxas, lilases, vermelhas,
De mil cambiantes, de mil cores,
Sobressaindo das folhas verdes
Como veludo fino
Como rosto de menino
Amorosas,
Como os primeiros amores!

Enchem-se as árvores de flores
É Primavera,
É a Natureza a cantar
E as aves em seus gorjeios
Nos seus enleios
Fazem as pétalas corar!

Avezinhas:
Dai por mim
Beijos sem fim
Às flores que vão desabrochando.
Assim não esquecerei
Os tempos que já passaram
Nem os beijos que dei
Às flores que já murcharam!...

sábado, maio 22, 2010

Era uma vez um pimpolho...





É verdade!...
O mesmo que aconteceu com seu irmão no dia 13 de Fevereiro de 1952,
o pimpolho do retrato é, nem mais nem menos do que aquele menino que nasceu numa bonita vila do interior de um país tropical e, por coincidência, no mesmo hospital em que 23 anos antes tinha nascido sua mãe.
Seriam umas duas da tarde do dia 22 de Maio do ano de 1953, quando com a ajuda do médico de serviço, creio que um austríaco, o Dr. Ciboulsky, o menino do retrato soltou os primeiros vagidos álacres e buliçosos.
Faz hoje, precisamente cinquenta e sete anos!...
Como o tempo passa, ora a correr, ora devagar, mas deixando sempre marcas indeléveis nas diversas etapas da sua caminhada!
Em cada dia que passa mais me convenço de que o desperdício da vida está naquilo que não damos, nos momentos bons que não aproveitamos, no amor (que por vezes, temos medo de exteriorizar) e sobretudo nesses instantes indescritíveis cheios de felicidade quando reunimos à nossa volta aqueles que são a nossa continuidade.
Aqui deixo, ao menino do retrato, os meus sinceros votos de que a caminhada seja longa….
Continuarei sempre a desejar-vos o melhor. Por muito tempo?... Só Deus sabe… Mas quando eu não puder caminhar estou certo que me dareis a mão, tal como eu fiz quando destes os primeiros passos.
Até pró ano…

sábado, abril 03, 2010

A Ti Ermelinda



Nestas noites de chuva, frio e vento, enquanto o sono não chega o pensamento não pára, e leva-me a assistir, de olhos fechados, ao desbobinar do filme, um filme muito antigo, com clarões pelo meio, bocados em branco, imagens que ao longo dos anos o tempo apagou.
E esta noite, talvez arrastado pelo vento forte que soprava lá fora, num turbilhão de recordações, eu imaginei a Ti Ermelinda, a sardinheira, pé descalço, canasta à cabeça que vinha lá das bandas de Tondela, a pé, vendar o pescado nas aldeias que ladeavam o seu itinerário. Sempre bem disposta, quer chovesse, ventasse ou fizesse frio, lá vinha ela, quase diariamente, em busca do sustento da família.
Naquele tempo os laços de amizade eram mais sinceros e espontâneos e a Ti Ermelinda era considerada quase como família. Não tinha problemas com a alimentação e ora numa casa ora noutra encontrava com que aconchegar o estômago nas horas das refeições. Sempre com aquela humildade que caracterizava as gentes trabalhadoras e educadas daquele tempo, raro aceitava partilhar a mesa com os clientes… Estou a vê-la sentada na escada de pedra, um prato de caldo na mão e um naco de broa no regaço, saboreando, deliciada, a refeição do meio-dia!
Depois da volta, depois de ter percorrido cerca de vinte quilómetros, regressava a casa e tinha ainda tempo para cuidar dos animais e do amanho do quintal onde, dizia ela, granjeava tudo o que necessitava para a sua alimentação.
Manhã cedo – contava ela – aquecia um prato de sopa que tinha feito na véspera, esmigalhava uma fatia de broa para a tornar mais substancial, – naquele tempo não havia iogurtes nem cereais, era tudo mais “caseiro” – comia, dirigia-se ao vendedor do pescado onde comprava a sardinha, e ei-la, canasta à cabeça, percorrendo montes e vales, caminhos de carro de bois ou estreitas veredas, rumo ao destino, às aldeias do concelho. Sardinha fresca!...
E assim foi durante anos. Havia alturas do ano em que muitos a compravam e guardavam em potes de barro, acondicionada em camadas de sal e passados meses, que sabor inigualável tinha aquela sardinha em salmoura, a pingar aquele óleo amarelo em fatias de broa de milho!
A vida, depois, levou-me pra longe, deixei de a ver, mas soube que apesar de naquele tempo ainda não haver vacinas milagrosas, nem antibióticos, ela tinha morrido com uma idade respeitável.
E isso, porque a Ti Ermelinda nunca se deve ter empanturrado com hambúrgueres, pizas, donuts e outras “comidas modernas”. E também porque as caminhadas que fez ao longo da vida ao memo tempo que lhe devem ter enrijecido os músculos, não deixaram que a gordura entupisse as suas veias com aquele “veneno” conhecido pelo nome de colesterol ruim, muito na moda e que tem levado muita boa gente para o “jardim das tabuletas”.
Gentes, sons, sabores, cheiros, paisagens são recordação de infância guardadas tão profundamente na memória, que por mais que vente, que chova, que neve, nada há que apague aquela chama que nos permite, ainda que em pensamento, descortiná-las embora já muito longe…













domingo, março 07, 2010

Relendo Fernando Pessoa

A felicidade exige valentia

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um 'não'. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...
Fernando Pessoa

terça-feira, março 02, 2010

Les caresses des yeux

Les caresses des yeux sont les plus adorables;
Elles apportent l'âme aux limites de l'être,
Et livrent des secrets autrement ineffables,
Dans lesquels seul le fond du coeur peut apparaître.

Les baisers les plus purs sont grossiers auprès d'elles;
Leur langage est plus fort que toutes les paroles;
Rien n'exprime que lui les choses immortelles
Qui passent par instants dans nos êtres frivoles.

Lorsque l'âge a vieilli la bouche et le sourire
Dont le pli lentement s'est comblé de tristesses,
Elles gardent encor leur limpide tendresse:

Faites pour consoler, enivrer et séduire,
Elles ont les douceurs, les ardeurs et les charmes!
Et quelle autre caresse a traversé des larmes?
Auguste Angellier (1848-1911)