sábado, maio 18, 2013

CARO MÁRIO ALBERTO



Permita-me que o trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse tratamento.
Resolvi escrever-lhe, porque, e como o senhor disse um dia, “as pessoas têm direito à indignação”. E eu estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a cavalgar tartarugas a dar lições de austeridade, aulas de política, dinheiro aos pobres e, de repente, querem que calce as pantufas e de charuto na boca deixe correr o marfim?
Por tudo isso, meu caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de lhe manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar!
Andam por aí esses rapazotes, esses “fils à Papa” a fazer asneiras, a esbanjar dinheiro e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles deem com isto em pantanas?
A continuar este regabofe e com estes meninos a esbanjar o dinheiro o que será das nossas reformas e benesses vitalícias para que possamos continuar a manter o nosso estatuto?
Sei que alguns dos seus “companhons de route” não concordam consigo, nem com algumas das suas aventuras, chegando mesmo a compará-lo com um tal Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha e ao seu encontro com dois “exércitos de ovelhas”, que afinal eram dois inofensivos rebanhos! Tudo isso traduz bem a inveja daqueles que a gente sabe…Mesmo o Sancho, aquele do “Quadrado”, mas não lhe dê importância, é trova que o vento leva…
Li algures que esses rapazotes também lhe foram ao bolso e cortaram no subsídio da sua Fundação. Não há direito!...
E para terminar quero dizer-lhe que também me solidarizei consigo e com o Manel Poeta e não fui à festa do 25 de Abril. Era o que faltava. Nós, no meio daquela gente que não nos merece!...
E a propósito da festa da Liberdade, não acha que continuamos a viver numa espécie de situacionismo anterior a 74, embora disfarçado sob o manto da Democracia? Onde estão as promessas que nos fizeram nessa data tão simbólica? Na altura dizia-se haver 100 famílias milionárias. E hoje quantas existem? E os Ex-qualquer coisa que estão a receber reformas milionárias enquanto o número de pobres aumenta dia-a-dia?
Porque o espaço que me é reservado está quase todo preenchido, vou terminar exprimindo-lhe o meu contentamento por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter sonhos lindos…












CARO MÁRIO ALBERTO



Permita-me que o trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse tratamento.
Resolvi escrever-lhe, porque, e como o senhor disse um dia, “as pessoas têm direito à indignação”. E eu estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a cavalgar tartarugas a dar lições de austeridade, aulas de política, dinheiro aos pobres e, de repente, querem que calce as pantufas e de charuto na boca deixe correr o marfim?
Por tudo isso, meu caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de lhe manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar!
Andam por aí esses rapazotes, esses “fils à Papa” a fazer asneiras, a esbanjar dinheiro e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles deem com isto em pantanas?
A continuar este regabofe e com estes meninos a esbanjar o dinheiro o que será das nossas reformas e benesses vitalícias para que possamos continuar a manter o nosso estatuto?
Sei que alguns dos seus “companhons de route” não concordam consigo, nem com algumas das suas aventuras, chegando mesmo a compará-lo com um tal Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha e ao seu encontro com dois “exércitos de ovelhas”, que afinal eram dois inofensivos rebanhos! Tudo isso traduz bem a inveja daqueles que a gente sabe…Mesmo o Sancho, aquele do “Quadrado”, mas não lhe dê importância, é trova que o vento leva…
Li algures que esses rapazotes também lhe foram ao bolso e cortaram no subsídio da sua Fundação. Não há direito!...
E para terminar quero dizer-lhe que também me solidarizei consigo e com o Manel Poeta e não fui à festa do 25 de Abril. Era o que faltava. Nós, no meio daquela gente que não nos merece!...
E a propósito da festa da Liberdade, não acha que continuamos a viver numa espécie de situacionismo anterior a 74, embora disfarçado sob o manto da Democracia? Onde estão as promessas que nos fizeram nessa data tão simbólica? Na altura dizia-se haver 100 famílias milionárias. E hoje quantas existem? E os Ex-qualquer coisa que estão a receber reformas milionárias enquanto o número de pobres aumenta dia-a-dia?
Porque o espaço que me é reservado está quase todo preenchido, vou terminar exprimindo-lhe o meu contentamento por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter sonhos lindos…












ESCOLHAS



Ontem, dia 25 de Abril, Dia da Liberdade, quando me levantei, ainda pensei pedir ao meu motorista para preparar o Mercedes e ir até Lisboa ouvir os filhos da pátria no Palratório. Mas depois de uma pequena reflexão resolvi solidarizar-me com o Mário Alberto e com o Manuel Poeta, que não foram, porque o ambiente não era propício a pessoas do nosso gabarito. E não fui…
Mas se Liberdade é Liberdade por que não festejar também a minha?
E então decretei que ninguém cá em casa poderia ter acesso a qualquer órgão informativo, sobretudo os audiovisuais.
Quanto a Jornais, só entram os Regionais, pois são os mais pobres e portanto os mais honestos nas notícias que divulgam. Pela proximidade com as populações, conhecendo as suas dificuldades e anseios, a Imprensa Regional é essencial para as vivências locais, detendo papel preponderante na divulgação das realidades abrangidas pela sua área de actuação.
No que diz respeito a rádio, televisão e Internet, silêncio absoluto. Ninguém pode rodar o botão.   
Não foi difícil o consenso. Como somos apenas dois, resolvemos tudo pela via do diálogo e acabamos sempre por estar de acordo um com o outro.
Às oito e trinta da matina saímos de casa para o quintal. O Sol, vindo lá dos píncaros frios da Serra da Estrela e ainda enroupado numa nuvem branca, deu-nos os bons-dias. Os cachos de flores da glicínia brilhava mais, e nas folhas das plantas, os reflexos do astro-rei incidindo nas gotas de água, que escorriam da orvalhada da noite, faziam tremeluzir miríades de estrelinhas!   
O chilrear da passarada lembrava uma orquestra sem maestro – tocando cada qual uma partitura diferente, mas, mesmo assim, como é delicioso ouvir a cantoria da passarada no quintal!      
As andorinhas, em voos rasantes, mergulham no tanque-piscina e enchem o bico com água para ajudar na construção dos seus ninhos.
Foi este ambiente que escolhemos. Cortámos a relva do jardim, e plantámos flores ao mesmo tempo que apreciávamos os encantos da Natureza. E é sorvendo esta mistura de perfumes proveniente das várias espécies do jardim que eu festejo, neste dia, a Liberdade que é minha, a Liberdade de escolher. E eu escolhi este cenário de tranquilidade, esta atmosfera de paz e de bem-estar…
Cansei-me dos discursos palavrosos de todos esses Pinóquios da Democracia que no lugar do coração têm a carteira. Quanto aos seus cérebros e olhando a situação em que  nos meteram, vê-se logo quão insignificante é a quantidade de massa cinzenta, que ali mora.













quarta-feira, abril 03, 2013

DIGAM LÁ SE ISTO NÃO É SINA


Serão já poucos os que ainda se lembram dos romances do escritor francês, Pierre Alexis, mais conhecido por Ponson du Terrail, um dos produtores mais populares do romance-folhetim do século XIX.


Na minha adolescência li quase todos os seus livros, sobretudo aqueles em que entrava uma espécie de "herói" que protagonizava as aventuras mais inverosímeis!
O autor celebrizou-se com um folhetim publicado numa revista francesa da época, La Patrie, e que ficou conhecida como a série dos Rocambole, nome por que era conhecido o actor principal.      
A popularidade desse herói crapuloso foi tal, que os capítulos sucederam-se naquela publicação ao longo de vinte e cinco anos.
Os romances intermináveis, mas solidamente estruturados, baseavam-se, essencialmente, na intriga.
Uma intriga complexa em que as peripécias e as situações imprevistas mantinham continuamente o leitor na expectativa - atentados maquiavélicos, usurpações de identidade, crimes, fraudes, disfarces, vinganças, violações, tudo isso com arrependidos e penitentes pelo meio de modo a segurar o leitor durante o desenrolar da acção.

Vem este intróito a propósito das situações rocambolescas que ultimamente se têm vivido ultimamente cá na Lusitânia em diversos sectores da vida nacional e com mais incidência no sector da política. De facto, os nossos eleitos, os filhos da Pátria, não param de nos surpreender com as suas traquinices, as suas birras, a sua incompetência, os seus cambalachos e o seu total desconhecimento do país real!
Mas tudo isto já vem de longe. É a nossa sina, o nosso fado. É a sina do povo. É o mar no seu constante vaivém. Coitado do mexilhão...
Já em 1877, Ramalho Ortigão escrevia: "A política converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os sócios combinam dividir-se em grupos, cuja missão é impelirem-se e repelirem-se sucessivamente uns aos outros, até que a cada um deles chegue o mais frequentemente que for possível a vez de entrar e sair do Governo. Nos pequenos períodos que decorrem entre a chegada e a partida de cada ministério o grupo respectivo renova-se, depondo alguns dos seus membros nos cargos públicos que vagaram e recrutando novos adeptos candidatos aos lugares que vieram a vagar. É este o trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que constitui a vida orgânica do que se chama a política portuguesa..."
E digam lá se isto não é sina!...







UMA REFEIÇÃO QUENTE



Era um homem corpulento caminhando lentamente e olhando o chão como que a procurar o sítio onde devia colocar os pés. Quando entrou, estavam apenas duas pessoas no café: um rapazito franzino atrás do balcão e um magricelas sentado lá no canto, que chupava um cigarro e se entretinha a olhar as espirais que se desprendiam das baforadas de fumo que lançava no ar.
O desconhecido aproximou-se do balcão lentamente, tossiu para limpar a garganta e aclarar a voz, expeliu o estorvo e disparou: «Tenho fome e sede e não tenho dinheiro. Tenho sono e também não tenho dinheiro para pagar o quarto...»
O rapazito do bar, assustado, arregalou os olhos. O magricelas parou de fumar, mediu o colosso de alto a baixo e recomeçou a contemplação das espirais. E o desconhecido insistiu: «Tenho fome, já disse! Quero comer. Se não...»
E então o magriço, fanfarrão, e a sorrir, soltou uma gargalhada estridente que encheu a sala... O empregado do bar, pouco à vontade, acelerou o movimento do pano com que limpava o balcão. O estrangeiro, a passos lentos, aproximou-se do homem do canto, puxou uma cadeira, sentou-se e berrou: «Ora repita lá a risada...»
Fez-se silêncio na sala. Um moscardo embateu fortemente contra o quebra-luz do candeeiro do tecto. E enquanto o rapaz do bar olhava a porta como que a medir de antemão a distância que teria de percorrer para fugir, o estrangeiro pousou as enormes manápulas nos ombros do fumador, sacudiu-o com força e insistiu: «Vamos, ria lá outra vez!...» Mas virando-se para o lado de onde vinha o matraquear dos passos do franganote que se escapulia pela porta, olhou de novo o magricelas e, sorridente, desabafou: «Não tenha medo, amigo. Isto é raiva, é a revolta que me estoura o peito... Não é nada consigo! É com esta choldra que temos aí a mandar...Estou velho, trabalhei durante toda a vida, contribuí para que esses senhores hoje ganhem balúrdios e, agora, depois de ter sido um dócil instrumento do sistema, tenho uma reforma que não dá para comer todos os dias. Não tenho família, estou no mundo sozinho, e tenho fome. E porque roubar vai de encontro ao que me ensinaram, ando por aí às esmolas...»
Entretanto, um polícia surgiu na moldura da porta do café, talvez alertado pelo empregado que fugira e pedira socorro. Sereno, o homenzarrão olhou-o sem manifestar qualquer receio, levantou-se para o seguir e sorridente, disparou para o magricelas que, de olhos arregalados, surpreendido, tinha parado de chupar no cigarro: «Adeus, amigo! Nada mal. Hoje, pelo menos, tenho um tecto e uma refeição quente!...»
  











          


VIVER A VIDA



Entre outras e variadas reflexões que o escritor francês André Maurois nos deixou no seu livro intitulado a “Arte de Viver”, há uma que tento adoptar, não como antídoto eficaz contra a velhice, mas como uma espécie de retardador da sua chegada.
Escreveu ele que «O verdadeiro mal da velhice não é o enfraquecimento do corpo, é a indiferença da alma».
Acredito que esta pequena frase seja motivo de troça por parte de muita gente, mas no meu caso pessoal, como crente que sou, e pelas experiências vividas, nela está o segredo para que a partir de certa idade a vida se não transforme num inferno terrestre.
Sou, como todos sabem, um homem velho. Já passei por muitas situações, boas e más.
Nunca ocupei um lugar de destaque, nunca fiz um grande feito pela humanidade, nada que me transformasse num herói.
Mas mesmo assim gosto da vida e de tudo o que ela me tem proporcionado até hoje. Por isso não quero adormecer para sempre. Não quero deixar os que me são queridos, as árvores e as flores do meu quintal…
Quem disse que já estou a mais, que não faria falta a ninguém? E mesmo que não fizesse onde está escrito que isso é motivo para deixar a vida? Quem pensa assim? Vocês, o meu médico? O psiquiatra que vê em mim um potencial cliente?
É curioso! Aos dez anos, imaginava que aos vinte já seria um homem. Aos 20 pensava que aos 60 seria já velho, mas ao completá-los senti-me jovem e pensava cá pra mim: velhice só aos 70… E chegaram os 80. E passaram. E ao contrário dos meus netos, continuo a fazer contas sem ajuda da calculadora!  
Então venham mais 10, venham tantos quantos forem possíveis. Velho jovem? Velho maluco? Podem chamar-me o que quiserem, mas eu quero viver!
Como é maravilhosa e linda esta caminhada que é a vida quando ao longo do percurso a lapidámos com o cinzel da humildade e a unimos com laços familiares!
Não precisei de estudar os grandes tratados de filosofia ou outros, para aprender o valor da amizade e a cultura dos princípios. Também sei que esta é a última etapa da vida, a derradeira. A dimensão biológica começa a esgotar-se e por isso ficamos também mais sensíveis a gestos de bondade que nos arrastam facilmente às lágrimas.
Mas apesar de tudo, apesar de velho e de habitar este retângulo, esta espécie de jardim zoológico onde coabitam os mais variados humanóides – ladrões, incompetentes, corruptos, parasitas, prepotentes, parasitas e vermes nojentos -- eu quero continuar a viver…


























segunda-feira, fevereiro 25, 2013

E X E M P L O S




Sinto-me orgulhoso de ser filho desta ruralidade, deste pequeno mundo, deste símbolo de vida comunitária, desta minha aldeia humilde, mas onde ainda perduram alguns dos mais preciosos valores de antanho.
Não faço do passado emblema, mas confesso que em certos momentos sinto essa antiga aldeia a pular no coração.
E sinto-a, porque ela ainda existe na alma de quem acredita em Deus, de quem não esqueceu os ditames da cartilha do amor e da solidariedade aprendidos nesse grande livro, a célula-mãe, que é a Família - o baluarte espiritual do amor!
Nas horas de angústia é a ela que podemos recorrer, porque ele socorre, ela auxilia, ela perdoa, ele acarinha, ela dá afecto, ela dá força para transpor todos os obstáculos da vida.
Por vezes há também problemas que são o reflexo da sociedade em que vivemos, uma sociedade cheia de injustiças e contradições. No entanto, quando a Família está unida, quando o amor tem raízes profundas e quando se faz dela uma partilha, até o sofrimento dói menos e as horas mais incertas e difíceis se transformam em hinos de alegria
Vem este introito a propósito da notícia publicada há dias na coluna do Tourigo sob o título um “Gesto de Amor Fraternal” e que demonstra à saciedade que nestes pequenos espaços geográficos que são as aldeias do País real, há ainda valores que resistem e que, como disse João Paulo II no seu livro Memória e Identidade, “são luzes que iluminam a existência”. 
O Alexandre é casado, tem 3 filhos. Seu irmão André, também casado, tem uma filha. O Alexandre precisava urgentemente de um rim. O André, apesar de todos os riscos, os laços de sangue e a voz da fraternidade falaram mais alto – e não hesitou!… A cirurgia teve o maior êxito e ambos já se encontram em recuperação em suas casas.
Neste mundo desorientado pelo egoísmo, pela vaidade, pela ganância, e em que as más notícias nos entram em catadupa porta dentro, são casos como este que nos mostram que nem tudo está perdido e que a esperança ainda mora connosco.
E é na família, nesse núcleo de convivência unido por laços afectivos que encontramos apoio e aconchego nos momentos difíceis. Apesar de todos os embates com que todos os dias é confrontada, ela continua a ser um tesouro sem preço.
Ao contrário do que muitos pensam os jovens dos meios rurais ainda consideram importante a base familiar, não tanto pela situação que se vive, mas mais pela educação que receberam no seio familiar.
O caso a que nos referimos é paradigmático e vem demonstrar que o país real, o pais profundo, por vezes esquecido e injustiçado, pode dar lições de solidariedade e de humanização aos que apenas o conhecem pelo mapa afixado no seu climatizado, confortável e luxuoso gabinete do Terreiro do Paço.


















INSTRUIR E EDUCAR




A boa educação, a delicadeza e as boas maneiras, caldeadas num cadinho com um tudo-nada de cultura, traçavam, outrora, o perfil do mais comum dos cidadãos.
Havia depois os outros que, numa escala com números mais altos, constituíam a nata da sociedade, onde se perfilavam as mais variadas profissões. Juízes, médicos, advogados, políticos e professores, faziam parte desse leque de indivíduos que, na sua generalidade, inspiravam uma certa confiança e ditavam os padrões de valores a seguir.
Sem menosprezo para qualquer um dos citados, vou hoje falar-vos do professor. E isso porque, nesta Sociedade de hoje em que todos parecem apostados numa ânsia desvairada de obtenção de prazeres e de lucros fáceis, parece descurar-se um pouco a formação das gerações vindouras.
Se é verdade que existem algumas excepções, e há ainda famílias em que os pais sabem ensinar os filhos e incutir-lhes os valores da boa educação, do sentido da responsabilidade, da disciplina e do respeito pelos mais velhos, a maior parte dos nossos jovens desconhece, por completo, as mais rudimentares regras desses padrões.
Não vou aqui entrar em pormenores, nem tão pouco arvorar-me em moralista. Nada disso. Já transpus muita barreira, já caí muitas vezes, levantei-me outras tantas e não é agora, com o Sol quase no ocaso, que vou invadir terrenos alheios e, quixotescamente lutar contra essa fortaleza inexpugnável que é a nova escola.
O que pretendo com este desabafo de hoje é prestar uma sincera homenagem de agradecimento e gratidão, ainda que póstuma (e bem póstuma!...), à minha professora da instrução primária, que fazia da sua profissão uma arte e um sacerdócio. Instruir e educar, era a sua divisa. A escola era o complemento do lar, e o que não se trazia de casa era ensinado na sala de aulas. Era assim que era construído o "travejamento social do mundo de amanhã..."
"O magistério deve ser uma profissão vocacional; não há pior mestre que o animado por simples fins lucrativos, nem pior pedagogia do que a aquela que é praticada sem amor..." 
Nesta citação está a resposta para muitas das situações que se vivem actualmente nas nossas escolas.
Academicamente posso não ser a pessoa abalizada para tal conclusão. No entanto, o diploma de sabedoria que a velhice me conferiu e que foi obtido não em aulas teóricas, mas em práticas vividas, autoriza-me a fazê-lo.





A UNIVERSIDADE DA VIDA


Atravessamos um momento tão difícil, tão conturbado e enigmático que é impossível o que nos reserva o futuro.
Perante esta complexidade de problemas seria necessário que aqueles que detêm cargos de chefia, possuíssem sabedoria e experiência para desempenharem cabalmente a missão que lhes foi incumbida.  
Mas não, isso não acontece!...
Não menosprezando o papel preponderante dos “canudos” é inegável que sem uma passagem pela Universidade da Vida, – onde se aprende, praticando – qualquer cidadão, por mais dotado que seja, não consegue adquirir uma preparação adequada que lhe permita enfrentar e resolver os problemas do dia-a-dia cujas soluções são cada vez mais difíceis de encontrar. Para complementar o que teoricamente se aprendeu, é necessária prática e sobretudo muita experiência.
Quem nunca teve dificuldades financeiras na vida, não sabe avaliar as necessidades dos que são obrigados a contar diariamente os tostões. Quem sempre geriu o dinheiro dos outros não sabe avaliar o que ele custa a ganhar, e quem nunca teve necessidade de trabalhar para comer, pode, à vontade, dar-se ao luxo de nada fazer!...
Isto para dizer que grande parte dos nossos governantes não tem a experiência necessária para desempenhar o lugar que ocupa.
A maioria dos responsáveis desconhece a verdadeira realidade do País no seu todo. A sua visão queda-se, muitas vezes, pelo que vêem da janela do seu confortável gabinete ou pelo que lhes relatam os seus assessores, eles também desconhecedores das mais aflitivas e imediatas dificuldades com que se debatem os cidadãos mais carenciados.
Uma das maiores exigências do tempo que atravessamos é responder à questão social. Para que a sociedade seja harmoniosa e justa é necessário que ela esteja motivada para o trabalho, para a criatividade, para a correcta distribuição da riqueza, para a igualdade de oportunidades entre os cidadãos.
Em vez de uma sociedade materialista e desumanizada dominada pela política, pelo futebol e pela ganância de enriquecer sem escrúpulos, é urgente construir uma sociedade orientada por valores e princípios morais que se oponham a exageros mediáticos e tecnocráticos do nosso tempo. É claro que estou a transcrever para o papel aquilo que realmente penso e que me é ditado pela minha experiência da vida. Nada mais!
Aliás, numa sociedade dominada pelo lucro e pelo egoísmo, haverá “herói” que consiga fazer-se ouvir por essa gente bem instalada na vida, prepotente, cega pelo dinheiro que lhe fez trocar os ditames de consciência por uma avultada e redonda conta bancária?














DE VOLTA




Une vie ! Quelques jours, et puis plus rien !
Guy de Maupassant
O punhado de leitores que ao longo destes últimos vinte e quatro anos se habituou, semanalmente, a passar os olhos por estes meus rabiscos, deve já ter perguntado o que me aconteceu para os ter interrompido durante todo este tempo…
Nada de grave. Apenas a substituição de uma espécie de rolamento num dos membros de locomoção me obrigou a esta paragem e me impediu de preencher este meu espaço. Como já uma vez o disse, “máquinas” são “máquinas”, e o desgaste causado pelo passar dos Invernos não perdoa, e prega-nos partidas. E, desta vez, “obrigou-me” a uma espécie de “férias grandes”, mas sem mar nem Sol!...
Mas foram muitos os ensinamentos que colhi durante esse descanso forçado. A começar pelos amigos. Nunca pensei que tinha tantos! E daqueles de que fala o provérbio, que “se conhecem no hospital ou na cadeia”. Dos verdadeiros!... E também dos outros, dos hipócritas e dos fingidos, daqueles que o são apenas por interesses momentâneos e egoístas.
Aprendi também a dar mais valor à vida, já que, num revés de saúde, o sofrimento físico aliado ao do espírito, fazem com que descubramos horizontes e sentimentos até aí ignorados. E esses momentos em que estamos mais sós, em que verificamos a fragilidade do nosso ser, permitem-nos também uma maior aproximação de Deus. E é nesses momentos mágicos, quando o silêncio impera e a imaginação, rédea solta, viaja no tempo, que a vontade de viver se agiganta e o desejo utópico de voltar a ser menino nos dá ânimo para prosseguir a caminhada.
Aproveitei também esse período de imobilidade para pôr a leitura em dia, evitando esse fluxo palavroso de notícias de telejornais, debates políticos e quejandos, que apenas nos embrutecem e revoltam.  
A saúde é a maior bênção que nos foi concedida, mas, distraídos que andamos, só quando um problema – por mais pequeno que seja – nos bate à porta, é que pomos os pés na Terra e, olhando para trás damos conta dos momentos desperdiçados que não aproveitámos por questões mesquinhas e fúteis!
A vida de cada um de nós encerra aspectos favoráveis, mas também acontecimentos desfavoráveis. A nossa existência está sujeita a leis inexplicáveis que, apesar de certas aparências contrárias, tem efeitos úteis e preciosos, que na maior parte das vezes não sabemos interpretar.No meu caso pessoal, a arma para ultrapassar esses momentos desfavoráveis consiste numa mistura de fé e de bom humor. Não só essa combinação me ajuda, me dá ânimo, como também contagia os que me rodeiam – o que é uma outra espécie de felicidade.
Termino, e embora tardiamente, aqui ficam os meus sinceros votos de um novo ano com muita saúde para todos.










O FANTASMA DE SALAZAR



Aqui há tempos o Autarca de Santa Comba Dão, pensou na requalificação do património deixado pelo antigo Presidente do Conselho que se situa na aldeia limítrofe do Vimieiro. Nesse sentido a Associação de Desenvolvimento Local no intuito de atrair investidores, lembrou-se de o fazer através de um dos seus produtos endógenos – o vinho do Dão – rotulando as garrafas com a marca “Memórias de Salazar, “um nome conhecido em todo o Mundo” e que ajudaria na sua promoção.
O pior é que apesar de o Homem estar morto e enterrado com sete palmos de terra por cima, só a evocação do seu nome ainda assusta muita gente. E, desta vez, os que se assustaram foram uns senhores do Instituto Nacional de Propriedade Industrial, que tiveram medo e chumbaram a marca, alegando que “é recusado o registo de uma marca que contenha expressões ou figuras contrárias à lei, moral, ordem pública e bons costumes…”
Inacreditável!... Se, de facto, tal cláusula existe nos estatutos do INPI, quais as expressões ou figuras contidas na marca que atentem contra a lei, a moral, a ordem pública ou os bons costumes? 
Quarenta e dois anos após a sua morte e trinta e oito depois da instauração da Democracia, há ainda muita gente que vive atormentada com receio da “ressurreição”do homem que disse “que antes de deixar o Poder queria sacudir os bolsos e de todo o tempo que esteve à frente dos destinos da Nação, nem mesmo pó queria levar…”
Não será por isso – para evitar comparações – que o camartelo de uma certa elite continua a tentar demolir toda a sua obra sem poupar as traves mestras que têm resistido às intempéries da História?
A propósito estou a lembrar-me do “incómodo” causado pela vitória de Salazar no programa Os Grandes Portugueses emitido pelo canal público da televisão. Choveram críticas de gente das mais variadas tendências, mas as mais mordazes e venenosas foram as de alguns historiadores. Como o tiro lhes saiu pela culatra, não era de esperar outra reacção.
Este episódio rocambolesco da proibição da marca “Memórias de Salazar” é um fenómeno cíclico, que acontece quase sempre quando se pretende desviar a atenção do Povo. Espero que o Autarca de Santa Comba Dão continue a luta, porque apesar de tudo o que de bem ou mal se diga ou escreva acerca de Salazar isso não apagará o seu nome nem da terra onde nasceu, nem das páginas da História. Tranquilizem-se os que acreditam em bruxarias e têm medo que ele remova a pedra sepulcral, porque enquanto a Troika não nos deixar, não há defunto que ponha a cabeça de fora. Só a mão!...























sábado, dezembro 01, 2012

BRINCANDO COM COISAS SÉRIAS



Brincando com coisas sérias
Afinal, e contrariamente ao que se tem vindo a apregoa por aí, a famigerada TSU (Taxa Social Única) não é uma invenção do Governo cá do rectângulo.
Por incrível que pareça a tal taxa, que afinal é imposto, veio de França da terra do general Cambronne, aquele da palavra feia, de cinco letras, que apetece repetir sempre que se fala em política.
Segundo me contaram, o nosso ex-primeiro que fez com que nos atascássemos neste lodaçal mal cheiroso e que agora se pirou e anda por lá a estudar filosofia política, quis complicar mais a vida ao seu sucessor e por intermédio de um amigo infiltrado no PSD, ter-lhe-ia mandado um extracto de um diálogo entre dois ministros de Luís XIV, que ouvira numa peça, Le Diable Rouge, em cena num teatro do Quartier Latin, sugerindo-lhe que se inspirasse nele para sacar mais dinheiro ao Zé.
Verdade ou mentira o certo é que o tal diálogo é inspirador. Ora leiam:
«Colbert: - Chegámos a um ponto que não sabemos a maneira de arranjar mais dinheiro. Agora que estamos cheios de dívidas até ao pescoço, o senhor ministro não sabe dizer-me como arranjar dinheiro para continuar a viver à grande como temos vivido?
Mazarino: - Bom. Um simples mortal, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado é diferente!... Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se… Todos os Estados o fazem!
Colbert: - Pois é. Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: - Criando outros.
Colbert: - Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: - Sim, é impossível.
Colbert: - E sobre os ricos?
Mazarino: - Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert: - Então, como faremos?
Mazarino: - Tu pensas como se não tivesses cérebro, Colbert! Há um grande número de pessoas que estão entre os dois, nem são pobres, nem ricos – é a chamada classe média! Que trabalha mais, sonha enriquecer, e tem medo de empobrecer. É sobre essas classe que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais eles trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Eles formam um reservatório inesgotável…»
Ironia à parte, esta metáfora política espelha bem a realidade do que se está a passar e as artimanhas de que se servem os governantes para extorquir dinheiro ao contribuinte. Uma cena política actual da qual somos testemunhas e de que, infelizmente, somos também as vítimas.












SERMÕES


Sermões
Aí por volta do ano de 1654, também em tempos azarados, dizia o Padre António Vieira, em S. Luíz do Maranhão no célebre sermão de Santo António aos Peixes:
“Vós, diz Cristo Senhor Nosso, falando com os pregadores: sois o Sal da Terra: e chama-lhes o sal da terra porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas, quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo nela tantos que têm o ofício de sal, qual será ou qual pode ser a causa de tanta corrupção?
Ou é porque o sal não salga ou porque a terra não se deixa salgar. Ou porque o sal não salga e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou porque a terra não se deixa salgar e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que eles dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se preparam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade?...”
Embora tenham passado séculos, se meditarmos atentamente nas palavras de Vieira não poderíamos nós aplicá-las a estes tempos que estamos a viver e em que os mesmos males estão a corroer a nossa sociedade?
Quando ouvimos os nossos pregadores actuais fazer o contrário daquilo que apregoam, não estarão eles em vez de servirem o Povo, a servirem-se a eles próprios, como diz o sermão de Vieira?
E será o sal que não salga ou a terra que não se deixa salgar? Serão os pregadores que não cumprem o que dizem, satisfazendo apenas os seus apetites ou o próprio Povo que não reage, porque impotente e conformado?!
O certo é que um desacerto entre o que se disse, o que se ouviu e o que verdadeiramente se fez nos conduziu a esta situação perigosa em que nos encontramos.
E sem quaisquer complexos cabe a todos nós, como parte integrante da sociedade assumir a nossa quota-parte nesse descalabro. Uns porque mentiram e tiveram apenas em vista os seus próprios interesses e outros porque pensaram que nuns pais pequeno e pobre com os seus recursos ainda mais diminuídos pela «exemplar descolonização», seria possível vivermos, fazendo de todos os dias uma espécie de “sábado à noite”. Mas não vale a pena referirmo-nos a um quotidiano que todos conhecemos, nem a dar importância a alguns que, embora descrentes de Deus, querem que os tomemos como autores de um futuro, que só existe nas suas ocas cabecinhas!...
Comecei por transcrever o começo do sermão do Padre António Viera aos Peixes apenas para uma pequena reflexão, porque bem precisamos de a fazer.












  



















terça-feira, outubro 30, 2012

CST-IPSS - SEMINÁRIO "VIVER ENTRE GERAÇÕES"



TESTEMUNHO
Há muita gente que tem medo de envelhecer. No meu caso, confesso, que me sinto feliz por ter chegado a esta fase da vida. Ela dá-me a oportunidade de prosseguir o meu desenvolvimento tanto no aspecto pessoal como social. E quanto não vale este livro ilustrado que é a memória com todas as experiências vividas?!...
Por isso aceito o envelhecimento como uma fase da existência terrena de cada ser humano – encaro-o assim como que uma espécie de prolongamento de um projecto inacabado! …
Agora que os sonhos se esfumaram, que as paixões se esvaziaram e que à euforia de outrora sucede a crua realidade do dia a dia, o tempo tem outro encanto, outro sabor e cada amanhecer é uma dádiva que aviva o sentimento da maravilha do ser humano na terra com toda a sua riqueza e diversidade.
E é também uma outra maneira de interiorizar a vida com a alegria de poder participar nas iniciativas que povoam o curso fértil da humanidade através da solidariedade e do voluntariado. 
Mas nem sempre é fácil!...Numa sociedade computorizada e consumista em que se passa o tempo a premir teclas e botões num ritmo alucinante imposto pela informática e pela cibernética, só com força de vontade e determinação se consegue aguentar a corrida desgastante que a maquiavélica máquina exige.
É uma sociedade traiçoeira, esta em que vivemos!...
Ela não se compadece com ninguém, nem mesmo com aqueles que são testemunhas vivas dos laços de família ao longo de várias gerações.
O conflito entre elas agudiza-se em cada dia que passa. O individualismo selvagem e cruel anda à solta; a afirmação pessoal agride; a competição social destrói e a solidariedade entre as pessoas tende a desaparecer.
Por isso são várias as dificuldades com que o idoso se debate e é necessária uma grande força de vontade e uma fé inquebrantável para fazer a integração nessa nova sociedade, sem que tenhamos de abdicar dos princípios básicos daquela em que fomos criados.
Apesar de estarmos na era da globalização, não podemos esquecer que a família continua a ser a célula básica da sociedade.
Durante estes últimos vinte anos foi talvez o período da minha vida em que se desenvolveu mais esta opção individual de reforçar o meu optimismo perante a vida.
O envelhecimento não é uma doença nem uma incapacidade, que nos impeça de ter uma vida produtiva e feliz. Ninguém lhe foge e temos que o encarar como uma realidade.
No entanto, cada um de nós, pode reduzir os seus efeitos através de métodos e preceitos a seguir no dia a dia. Desde a actividade física à alimentação regrada e saudável são várias as formas de envelhecer activamente. A boa disposição é um dos remédios mais aconselhados para enfrentar as inúmeras partidas que o decorrer dos anos nos vai pregando…
Saber rir de nós próprios, conformarmo-nos com a nossa idade e sobretudo ter fé, são também atitudes que ajudam a fazer face às injustiças…
Todos sabemos que os valores económicos aniquilaram os valores espirituais e culturais. Apesar de tudo, em qualquer parte do Mundo há sempre uns Avós nos quais os netos têm muitas vezes, a única referência de estabilidade, de afecto e de carinho.
É por isso que os responsáveis políticos deveriam tomar medidas adequadas de forma a criarem as condições necessárias ao envelhecimento activo e ao reforço da solidariedade entre gerações.
O contributo dos mais velhos para a sociedade é muitas vezes ignorado, assim como é ignorada a sua experiência e os seus ensinamentos que poderiam ser aproveitados e dados como exemplo aos mais novos.
Porém o que acontece muitas vezes é que os idosos são marginalizados pelos jovens, esquecidos pelos adultos e quando não há recursos nem paciência ou são “depositados” em qualquer estabelecimento que cuide deles ou são abandonados, sobrevivendo muitas vezes em condições infra-humanas.
Mas como disse mais atrás e no que me diz respeito, estes últimos vinte anos foram como que uma aprendizagem ao longo dos quais se recreou dentro de mim uma outra maneira de ser e de ver. Foi como também já disse no começo uma espécie de prolongamento de um projecto inacabado, uma continuidade da caminhada mas com a orientação das experiências vividas que me permitiram fazer uma opção individual de reforçar o meu optimismo perante a vida. Aprendi a cultivar o lado bom das coisas, a saborear os pequenos nadas. Aprendi a ver o futuro com esperança a aceitar o passado enquanto autobiografia e a interpretar o presente com confiança.
E logo me apercebi que o diálogo entre gerações é essencial para prevenir a solidão e a exclusão social. E comecei a tentar modernizar-me se assim me posso exprimir. E já com cerca de 60 anos comecei a martelar as teclas do computador. Os meus primeiros professores foram os meus netos. Mas foi com muita perseverança e paciência que aprendi o essencial e posso dizer que hoje sei o necessário para fazer os meus trabalhos de escrita.
Deus tem-me privilegiado no que toca a saúde e o voluntariado é também para mim uma outra maneira de reforçar a minha auto-estima mostrando-me que apesar da idade ainda posso oferecer os meus préstimos aos que deles precisam.
Hoje, logo que acordo, dou graças a Deus pelo dom da vida que ele me tem concedido. Agradeço-Lhe também pela família que tenho. Completei há pouco tempo oitenta e seis anos, e apesar de estar casado há 61 anos como uma Avó, como lhe chamam os meus netos, sinto-me imensamente feliz!
E é sem dúvida isso que me dá força para valorizar os factos e as pessoas numa vivência serena, mas de constante inovação, em que assentam os Verdadeiros Sinais dos Tempos.











CST-IPSS - SEMINÁRIO "VIVER ENTRE GERAÇÕES"




No nosso Concelho, felizmente, há alguma Instituições de Solidariedade Social cujo contributo para a Comunidade vai muito para além de fornecer refeições, fazer apoio domiciliário ou ter um Lar para pessoas velhas. Isso será muito, mas muito pouco na abrangência às respostas sociais que podem ser dadas por essas Instituições e para serem tomadas “medidas para criar as condições necessárias ao envelhecimento activo e ao reforço da solidariedade entre as gerações”, como aliás sublinha o sítio do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações que este ano está a decorrer.
Pelo segundo ano consecutivo, o CENTRO SOCIAL DO TOURIGO veio promover um Momento de reflexão para sensibilizar a opinião pública. No ano passado debateu-se “Coração e Atitude”, este ano e procurando assinalar a preocupação europeia, foi “VIVER ENTRE GERAÇÕES – O Desafio do Nosso Tempo”.
Assim, no passado dia 20, na sede do Centro Social do Tourigo, IPSS, a dinâmica Organização reuniu mais de 100 clientes das respostas sociais do CST, sócios, voluntários, convidados e população em geral.
Se o tema era aliciante, a qualidade dos Prelectores veio reforçar a sua importância.

SESSÃO DE ABERTURA
Após a entrega da documentação, cuja eficiência do Secretariado foi patente, teve lugar a Sessão de Abertura.
Mónica Ferreira da Silva, encarregada do Protocolo, chamou as entidades para a Mesa:
Manuel Ventura da Costa, Presidente da Direcção do Centro Social do Tourigo; Dr.ª. Cecília Fragoso, Vereadora da Acção Social da Câmara Municipal de Tondela; António da Costa Ventura, Vice-Presidente da Direcção do CST; Amadeu da Costa Ventura, Presidente da Junta de Freguesia do Tourigo; Nelson de Matos Almeida, Presidente da Assembleia-geral do Centro e Padre Alcides Vilarinho, Pároco da Freguesia.
Na ocasião, Manuel Ventura da Costa usou da palavra para, em nome do Centro social do Tourigo e da Comissão Organizadora, agradecer a presença dos que quiseram estar ali envolvidos numa tarde de reflexão no “Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade Entre gerações” numa preocupação que deve ser de todos nós.
Agradeceu a participação institucional da Câmara Municipal de Tondela e a presença amiga da Vereadora da Acção Social, Dr.ª. Cecília Fragoso, lamentando que um compromisso de última hora, fora do Concelho, tivesse impedido também a presença do Vice-Presidente da Câmara, Dr. José António de Jesus, pela amizade e mais valia que traria ao Encontro.
Referindo-se à comemoração do Ano Europeu do Envelhecimento activo, salientou a pertinência do Seminário no intuito de sensibilizar a população para uma das maiores conquistas da Humanidade que é o aumento da expectativa de vida. Há no entanto que desfrutar desse prolongamento, vivendo mais, sim, mas com qualidade. A sociedade é preconceituosa em relação aos idosos, o que faz com que, sobretudo na perspectiva política eles sejam marginalizados e por vezes esquecidos. Terminou reiterando os agradecimentos, fazendo votos para que o Seminário servisse para reforçar o antigo provérbio que diz que “velhos são os trapos.”
Cecília Fragoso, na sua intervenção, disse da satisfação de poder estar ali a partilhar uma tarde que se previa rica, já pelo tema, já pelos intervenientes. E estando ali a representar a Câmara Municipal de Tondela e a sua preocupação pelas causas sociais do Concelho, estava também pela amizade e admiração pela Obra Social que o Centro Social do Tourigo vem promovendo, que não lhe poderia ser indiferente como responsável por esse Pelouro.
Felicitou a Organização, lembrou que a Câmara Municipal e concretamente o seu Gabinete, procuram acompanhar sempre com a maior atenção e disponibilidade os problemas sociais do Concelho, terminando por desejar uma boa tarde de Trabalhos.
Terminada a Sessão de abertura, seguiu-se a apresentação dos Temas, de cujos Painéis foi moderador Jorge do Amaral Leitão.

TEMA – GANHOS DAS IDADES
“O PROCESSO DO ENVELHECIMENTO”
Pelo Dr. Carlos Torres, Médico, Mestre em Gerontologia e doutorando em Medicina na área da Neuropsicologia foi descrito ali, em pormenor, todo o processo e razões que levam ao envelhecimento e suas consequências.
Começando por afirmar que “o envelhecimento começa quando nascemos”, o Dr. Carlos Torres lembrou que cada pessoa tem o seu processo de envelhecimento, e que todos, mais tarde ou mais cedo, passam por esse processo, que descreveu com a ajuda de “Powerpoint”.
Sobre as decadências físicas naturais que vão ocorrendo ao longo da vida, afirmou que, no entanto, 1/3 delas podem ser retardadas pelas nossas mãos e pela nossa acção para as contrariar.
Por outro lado, lembrou que para o aumento da média de vida, a retaguarda não está ainda preparada para a acompanhar e lhe dar mais qualidade.

“O GANHO DAS UNIVERSIDADES SENIORES”
O Dr. José Augusto Pereira, licenciado em História, Mestre em Ciências da Educação, tem no seu currículo vasta intervenção na área educativa e é responsável da Universidade Sénior de Rotary do Rotary Clube de Viseu, de que é associado desde 1997.
A acção desenvolvida pela Universidade Sénior de Viseu é de facto uma resposta, e muito positiva, para um envelhecimento mais rico e saudável. E o Dr. José Augusto, ao dar ali conta da importância que tem representado para a Comunidade visiense mais velha, mostrou que ela é um agente importante no envelhecimento activo e culturalmente gratificante.
Mas José Augusto quer ir mais além e trazer para as Universidades Seniores e instituições as experiências, os usos e costumes, formas de artesanato e jogos tradicionais dos mais velhos de um Povo que tem um manancial de coisas para transmitir. É um desafio que merece ser vivido.

“COMO LIDAR COM OS ANOS QUE TEMOS”
A Dr.ª Leonor Martins, com licenciatura em Psicologia Clínica e Pós Graduação em Gerontologia, trouxe à reflexão a nossa postura para lidar com a idade, ou melhor, com as três idade que fazem parte da nossa vida e em que cada uma há um caminho a percorrer, mas também opções para a caminhada.
A idade não perdoa, costuma dizer-se, mas a Dr.ª. Leonor Martins lembrou-nos que não há idade para nos descobrimos, porque a vida não tem idade. A idade está na nossa cabeça e na forma como podemos e devemos tirar de cada etapa o melhor proveito.
De forma brilhante, enquadrou e completou as intervenções anteriores.

 TEMA – O DESAFIO DE ENVELHCER – TESTEMUNHOS PESSOAIS

“ AS OPORTUNIDADES DO ENVELHECIMENTO ACTIVO”
Manuel Ventura da Costa, Presidente da Direcção do Centro Social do Tourigo, Director do Jornal de Tondela e senhor de um invejável currículo, grande parte dele por ocupação no estrangeiro, granjeou amizades, ganhou títulos honoríficos e é um exemplo de vida pela sua forma constante de dar de si, um desafio permanente de partilha, de voluntariado e de preocupação para com os demais.
Foi rica a partilha que ali deixou, porque ela representa sobretudo o seu modo de estar na vida, de aceitar que o “envelhecimento como uma fase da existência terrena de cada ser humano – é assim como que uma espécie de prolongamento de um projecto inacabado…”. Defensor intransigente dos “Valores” e da família como “célula básica da sociedade”, Manuel Ventura da Costa não vê o envelhecimento como uma doença nem como uma incapacidade, antes um desafio, que aliás está bem patente no seu dia a dia e ali esteve bem presente no seu testemunho, a que juntou sua Mulher na rica e longa caminhada a dois.
INSPECTOR MANUEL VELLOSO
Presidente da ANAFS – Associação Nacional dos Alistados das Formações Sanitárias, tem ao longo da sua brilhante carreira humanitária quer no Serviço Nacional da Protecção Civil, Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho, Bombeiros Voluntários e, ainda, mais de 20 missões de assistência humanitária desde a Roménia, Turquia, Timor ou na catástrofe do Tsunami um admirável currículo. Quase que em conversa entre amigos, o Inspector Velloso contou a “história da sua vida”, história de uma vida muito rica, com muito risco, com encontro entre gerações, principalmente em graves situações onde as intervenções humanitárias eram requeridas.
Mas bela e interessante é também a sua vida familiar, que nos transmitiu como quem conta um conto.
A completar uma tarde de “descoberta” no caminho da vivência entre gerações, foi grato colher ali os testemunhos de Manuel Ventura e Manuel Velloso a completarem, e de que forma, os contributos para os desafios que se deparam no nosso tempo.

PERGUNTAS E RESPOSTAS – DEBATE
Terminada a “missão” da Mesa, teve lugar um período de perguntas e respostas vindas da plateia, o que permitiu esclarecer algumas dúvidas, aclarar a mensagem, comentar ou partilhar atitudes e “declarar” a satisfação pela riqueza vivida durante a tarde.

ENCERRAMENTO
Terminados os trabalhos, Manuel Ventura da Costa encerrou a sessão agradecendo a todos os presentes, a todos os funcionários da Instituição, aos patrocinadores e aos habitantes da Freguesia que muito têm ajudado a Instituição. Terminou com um conselhos aos novos: Quando a velhice começar a rondar a vossa porta, não deixem que ela vos escravize e vos transforme num amontoado de ossos enferrujados. Mexei-vos, e se a saúde o permitir, ajudai quem precisa. Lembrai-vos que “ a idade não é aquela que a gente tem, mas sim aquela que a gente sente.”
JAL
In Jornal de Tondela – Edição 1124 de 02 de Novembro de 2012