quarta-feira, setembro 23, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA -Ligações aéreas


O inesquecível DC 3

As viagens mais importantes e mais urgentes entre Leopoldville e as cidades do resto do País fazem-se de avião.
Em todas as cidades do interior e até em locais onde existem grandes aglomerados e é mais difícil o acesso rodoviário, há uma pista para a aterragem de aeronaves.
Estes aeródromos são em terra batida, bordejados, por vezes, de altas ervas.
Uma casa, a maior parte das vezes coberta com folhas zincadas, serve de terminal.
Não há biruta nem qualquer aparelho que indique a velocidade do vento ou outras condições climatéricas. Apenas o fumo que se eleva de uma fogueira que arde no fim da pista indica ao piloto a melhor orientação que deve tomar para aterrar. E sempre em segurança!
Os pilotos, de origem belga e com muita experiência, guiam-se nos seus percursos pelos rios. Não há voos que cheguem ao interior de noite. O contrário, isto é, voos que cheguem a Leolpoldville ao lusco-fusco, são frequentes.
A única vez que um avião aterrou em Boende de noite foi em 1960 aquando da rebelião após a independência. O avião trazia a bordo o Comandante das Forças Armadas Congolesas na altura, General Mobutu e vinha expressamente para libertar os europeus que se encontrava prisioneiros no Quartel da cidade onde me encontrava com um irmão meu e outros europeus, Belgas, Holandeses, Ingleses e outras nacionalidades.
Para aterrar foi necessário colocar ao fundo da pista vários automóveis com os faróis acessos para sinalizar a pista de aterragem. Mas será um episodia que contarei mais adiante.
Durante os trinta anos que passei no Congo nunca houve, felizmente, um acidente de avião. Houve, é certo, sustos, mas não passaram disso. Descolagens abortadas ou aterragens só com um motor eram factos que quase não constituíam notícia. Várias vezes aterrámos com uma hélice em bandeira, mas nunca houve problemas.
No começo a tripulação dos aviões era constituída pelo piloto e um mecânico. Dancei muitas vezes dentro deles e sempre que passávamos sobre Coquilhatville, hoje Mbandaka, a turbulência era de tal forma contínua que mesmo os não crentes faziam as pazes com Deus. Os “poços de ar”, por vezes, faziam com que descêssemos uns vinte metros! Grandes aviões, esses!... Quando apanhávamos uma tempestade mais forte, a chuva chegava a entrar no avião pelas frinchas das portas! Eram uns autênticos heróis do ar esses DC3!...
Fabricado pela Douglas Aircraft Company, o DC3, serviu inicialmente para o transporte de tropas durante a 2.ª Grande Guerra. Nessa altura foram fabricados cerca de 11.000 unidades. Terminada a guerra milhares desses aviões foram adaptados para o transporte de passageiros e vendidos a vários países.
Era um avião com dois motores Pratt & Whitney, com 4,50 m de altura, 8 de largura, 19,7 de comprimentos, uma envergadura de 29 m, velocidade de cruzeiro 270/298, capacidade 28 passageiros e 4 tripulantes e uma autonomia de voo de cerca de 1.900 km.
Quase setenta anos depois do voo inaugural, o DC3 continua ainda, em alguns países, a voar. Era um avião excepcional: seguro, rápido (para a época) confiável que colocou a Douglas no primeiro lugar entre os fabricantes de aeronaves.
Ainda guardo nos ouvidos o inigualável ronronar dos Pratt & Whitney, os motores do DC3, um dos mais importantes aviões comerciais jamais construídos.

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - Extracção do látex


Extracção do látex
Convém abrir aqui um pequeno parêntese para explicar como se faz a extracção do látex (líquido branco espesso e pegajoso) que depois se transforma em borracha.
Esse líquido obtém-se fazendo aquilo a que se chama “sangria”. Esta operação consiste num pequeno corte descendente sobre a metade ou um terço do tronco da árvore e o líquido começa a cair para um recipiente geralmente de alumínio.
A incisão tem de ser feita manhã cedo, pois que quando o Sol começa a aquecer faz com que haja uma coagulação e uma película feche o corte impedindo que o líquido continue a sair.
Não confundir látex com seiva…
Enquanto a seiva assegura a distribuição da água, dos sais minerais e do açúcar, o látex está relacionado com os mecanismos naturais da defesa da árvore e circula por uma rede de vasos diferentes, chamados canais “latexíferos”.
Como acontece com a resina do pinheiro o látex escorre logo que seja feita uma ferida na árvore e forma, quando seca, uma camada protectora.
As árvores podem começar a ser “sangradas” a partir dos 5 anos e manter-se em produção durante cerca de 30 anos.
Logo que o látex deixa de correr para os copos, estes são despejados em recipientes de alumínio que são transportados para a fábrica, onde o conteúdo é vazado para tanques.

Ali é coagulado com a ajuda de, geralmente, ácido fórmico. Após o endurecimento as folhas são passadas por várias máquinas que as vão adelgaçando até passarem pela última que as transforma numa espécie de cera de abelhas.

A máquina faz-lhes uma série de opérculos para facilitar a secagem. Segue-se a colocação em secadores e quando se nota que já não contêm humidade, retiram-se e são embaladas em fardos com designações diferentes conforme o seu grau de perfeição.
Os fardos são depois expedidos para o estrangeiro onde, depois de outras manipulações, se obtém a borracha que vai servir para as mais variadas aplicações.

segunda-feira, setembro 14, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - Mãos à obra



Passados dois dias fiquei sozinho com cerca de trezentos trabalhadores que se dividiam pela exploração da borracha, extracção do óleo de palma e outros trabalhos. Havia pedreiros, carpinteiros, trabalhadores de limpeza da plantação, caçadores, pescadores e vários outros sem trabalho certo.
Muitos viviam nas senzalas vizinhas e cerca de metade habitava na plantação, em casas construídas com blocos de terra secos ao sol e tijolo feitos manualmente no local ou ainda em palhotas cobertas com folhas secas, uma espécie de colmo.
Os pescadores e caçadores tinham por missão pescar e caçar e trazer a caça que era distribuída gratuitamente pelos trabalhadores. O rio Maringa era muito rico em peixe. As espécies eram muitas e desde o peixe pequeno, passando pelo médio e terminando no crocodilo, havia sempre pescado com abundância. Da caça pode dizer-se o mesmo. Desde o pequeno antílope, passando pelo macaco, pela galinhola e terminando no boi selvagem, havia quase sempre carne para distribuir. Quando, por ventura, víamos que era de mais, mandávamos secar e, assim, ficávamos com uma reserva...
Uma vez até se distribuiu pelos trabalhadores um hipopótamo! Mas isso vou contar mais à frente.
A plantação de borracha tinha uma extensão de 300 hectares e estava dividida em vários talhões, cada qual com cerca de 300 árvores e que eram atribuídas a cada "sangrador" para, todos os dias, fazerem a colheita do látex.

Como atrás disse, a chamada era feita cedo e os homens entravam na plantação logo que a manhã rompia. A incisão nas árvores tinha que ser feita por essa altura, pois mal o sol começasse a aquecer, o látex ia coagulando lentamente até que uma fina película acabava por tapar a ferida interrompendo assim a sangria. Entretanto os capatazes iam percorrendo os vários talhões para verificar se o trabalho tinha sido feito convenientemente. Isso para evitar que os "sangradores" – o que era muito frequente – por preguiça, deixassem algumas árvores sem fazerem a respectiva incisão.

Cerca das dez horas, o encarregado de tocar a "ngonga" (um tronco oco, feito a propósito e que produzia um som que se ouvia longe) batendo com as duas maçanetas, indicava que podiam recolher o látex que tinha escorrido para uns pequenos copos redondos de alumínio.
Os "sangradores" despejavam então os copos para um recipiente de 30 litros, em alumínio e, por fim uma camioneta transportava-os para a fábrica que estava situada junto ao rio.
Um grande hangar coberto com folhas de zinco abrigava as máquinas e os tanques onde se tratava o látex. O conteúdo dos recipientes, – depois de pesado e o seu peso ter sido posto num registo geral e em cada um dos livros de cada trabalhador para o prémio de rendimento no fim do mês – era dividido pelos vários tanques de cimento revestidos com azulejos. Adicionava-se então uma quantidade de água proporcional aos litros ou quilos de látex vazados, mexia-se e adicionava-se, misturado com água, uma quantidade previamente calculada de ácido fórmico para acelerar a coagulação. Logo a seguir e nas ranhuras existentes nos tanques colocavam-se placas de alumínio o que dava origem a que a mistura coagulasse e ficasse em placas finas com cerca de 2 cm de espessura. Cerca de três horas depois, retiravam-se as placas de alumínio e tínhamos então folhas espessas. Essas folhas eram passadas por várias calandras ou prensas que as achatavam e ao mesmo tempo lhes tiravam a água que traziam. Por último passavam por uma outra calandra de cilindros estriados que fazia nas folhas uns opérculos como nos favos de mel das abelhas. Esta operação tinha como finalidade ajudar a fazer uma secagem mais rápida.
As folhas eram então levadas para um secador a lenha e aí ficavam penduradas por um período entre os 4 e 8 dias. Depois de bem secas, as folhas apresentavam uma cor amarelada e já não se colavam.
Eram então transportadas para a secção de embalagem onde eram escolhidas e embaladas para exportação. A escolha obedecia a certos requisitos e conforme as características assim eram classificadas em: "Sheets I, Sheets II, Sheets lll, Lumps e Scraps, e embaladas em fardos de 50 quilos e expedidas por barco para a Bélgica, Inglaterra ou Angola, via Leopoldville.
Havia também, mesmo junto ao rio, a fábrica do óleo de palma. Era composta por uma autoclave para cozer os frutos da palmeira, (dendê) um malaxador para separar a polpa da noz do fruto de palma, uma centrifugadora para extrair o óleo, um triturador para partir a noz e extrair o coconote e uma caldeira a vapor para fazer girar tudo isso.

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - O dia seguinte...


Lembro-me que no dia da minha chegada me deitei cedo, não só porque estava um pouco cansado mas também porque sabia que no dia seguinte me esperava o desconhecido, e havia que descansar para estar em forma.
Recordo que nos trópicos, às 18 horas já é de noite e às 6, o dia começa a romper...
No dia seguinte, logo às 4 da manhã assisti, com o tal senhor que ia substituir, à chamada dos "sangradores".
A chamada fazia-se da varanda da casa, à luz de um candeeiro a petróleo, um "Petromax", e ingerindo taças de café cultivado na plantação. Café fortíssimo que nos punha mesmo a mexer...
E o senhor falou: «Está feita a chamada. Agora é preciso vigiar os 280 sangradores que vão entrar na plantação. Cada equipa de 20 homens tem à frente um capataz e, por seu intermédio, é preciso saber se tudo está a correr bem...»
Entretanto entrei em casa para procurar o casque colonial que nessa altura se usava como protecção contra os raios solares. Durante muito tempo culpei tal ornamento pela queda do meu rico cabelo...
Frigorífico, apesar do calor tropical, era coisa que não existia. E no capítulo da alimentação o meu antecessor foi claro, prático e muito franco: «Quando quiser beber uma cerveja fresca ponha-a num balde com água ou então enterre-a em areia molhada... Para o resto não há necessidade, pois como tudo o que lhe disseram para comprar é enlatado, está resolvido o problema: é abrir e comer. Aliás, temos aí uma equipa de pescadores e outra de caçadores que lhe trazem constantemente peixe ou carne fresca. Nos pequenos riachos abunda o camarão de água doce que as mulheres apanham e vêm vender. É uma delícia! O sistema a seguir é o mesmo: mandar o cozinheiro preparar, e comer.
Tem também aqui no quintal muita fruta – bananas de diversas qualidades, ananases, abacaxis goiabas, laranjas, mangas, papaias, toranjas e outros frutos indígenas que os trabalhadores lhe irão trazer. Muito bons...»
Depois, mostrou um tambor de 200 litros encostado à casa e explicou: «Ali está a minha reserva de peixe. Os pescadores trazem muitos ainda vivos e eu então ponho-os naquele tambor que está com água e vou consumindo à medida que necessito... Como vê, aqui não se morre à fome. Mesmo que lhe faltem os víveres que trouxe, e não haja peixe do rio nem carne do mato, pode comprar galinhas e ovos aos indígenas... Quanto à farinha para fazer pão, aí a coisa é mais complicada. Mas também se resolve: quando não há, não se come!...»
Seguiu-se depois uma lição sobre princípios e comportamento:
«Antes de dar uma ordem, veja primeiro se ela pode ser executada. Isso é essencial. Agora no começo, é necessário mostrar e dar provas de que sabe mandar. Quando tiver dúvidas, abstenha-se. Uma desobediência de um trabalhador a uma ordem mal dada pode desacreditá-lo perante todo o resto do pessoal...
Tem aí livros em francês onde pode aprender tudo sobre o que aqui se faz: extracção e preparação da borracha; colheita e compra de fruto de palma e respectiva transformação em óleo; britagem da noz e preparação da noz e preparação do coconote; plantação, tratamento, colheita, secagem e descasque do café...
Os livros estão numa prateleira no escritório... Leia e depois com a prática, vai ver que não custa nada!...»

Vieram depois os conselhos dados por um homem com 40 anos de África, e 60 de idade, a um jovem de 24 anos, recém-chegado. E com o clima a espicaçar-lhe a carne...
«Já por lá passei, sei o que são essas necessidades, mas aqui tem que ter muito cuidado: primeiro, por causa das doenças e em seguida porque há também regras a respeitar. Mulher casada, se lá é pecado, aqui pode levar direitinho ao outro mundo...Cuidado, portanto! Há por aí muita mulher solteira. Algumas até hão-de vir oferecer-se... Colha informações primeiro. Informe-se com o cozinheiro, o velho Mbulungu. Já trabalha com brancos há muitos anos e os seus conselhos e sugestões são dignos de crédito... Não esqueça que estamos longe de médicos e de hospitais e uma blenorragia aqui não se cura facilmente...»
E tinha razão, o Sr. Machado. A confirmação veio alguns meses mais tarde. Um cidadão belga que trabalhava numa plantação próxima contraiu a doença e teve de ser evacuado de urgência, numa piroga a motor, para o Hospital inglês da leprosaria de Baringa...

sexta-feira, setembro 11, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - Estradas

Como já foi dito a maior parte do transporte de mercadorias entre as feitorias e as sedes das Sociedades ou os locais de destino era feito por barco visto que os rios eram navegáveis. No entanto, havia também “estradas” ou picadas, em terra batida, algumas em muito bom estado de conservação que permitiam boas médias. Por exemplo, entre Basankusu e Mompono ou Mompono Boende, não havia problemas, muito embora tivéssemos de atravessar dois rios sobre barcaças a motor que transportavam os veículos de uma margem para a outra.
O mesmo não acontecia nas picadas do interior profundo onde, por vezes, o trânsito era problemático. Quando havia pequenos riachos, as pontes eram construídas com troncos roliços, sem qualquer adaptação, e a sua travessia era muito arriscada. Quando fazíamos viagens logo às primeiras horas da manhã e tínhamos de atravessar uma ponte, era preciso cautela e ver se o “tabuleiro” se encontrava no sítio. Muitas vezes, durante a noite, uma manada de elefantes entretinha-se a “brincar” com os troncos … e adeus ponte!...

Numa aldeia, conhecida pelo nome de Loyau, onde íamos comprar fruto da palma para a fábrica e havia várias dessas pontes eram frequentes esses percalços o que nos obrigava a ter de repor os madeiros para continuar viagem. Só uma vez, manhã cedo, fomos obrigados a parar para deixar passar “suas excelências” que, pachorrentos iam lambiscando uma folha aqui outra acolá…Nunca vi o motorista, o Eugène, bom conhecedor da floresta tropical, dos seus bichos e dos seus mistérios, dar qualquer sinal de medo perante as várias situações que tivemos de enfrentar quando fazíamos o nosso périplo, quer na compra de produtos quer no abastecimento das várias feitorias que possuíamos.
Essas viagens tornavam-se penosas no tempo das chuvas, pois havia locais que ficavam submersos durante muitos dias e era difícil se não impossível fazer essas deslocações. Recordo-me de um local, perto de Samba, em que todos os anos numa distância de um quilómetro a travessia era difícil e não havia camião que ali se não atascasse. Os indígenas de uma povoação vizinha conheciam o facto e juntavam-se ali próximo e quando um veículo se enterrava no lodo, logo apareciam a oferecerem-se para ajudar mediante o pagamento de alguns francos. Era um negócio que prosperava enquanto a estação das chuvas não terminasse…

Depois da era dos velhos camiões que tinham feito a Última Guerra e que como já disse não tinham qualquer comodidade, começaram a aparecer os da General Motors, boas máquinas, resistentes e com uma mecânica tão fácil que não havia avaria que não se resolvesse “sur place”. Um alicate, um bom bocado de arame, um pneu de reserva, um Kit de emergência com platinados, um rotor, umas velas e mais umas pecitas… e pronto, aí estava a máquina, de novo, a funcionar.
Referindo-me ainda às vias de comunicação entre os locais mais importantes – sedes de freguesia, concelho, entrepostos comerciais de grande vulto ou grandes plantações quer de borracha, óleo, cacau ou café – gostaria de acrescentar que de cinquenta em cinquenta quilómetros havia uma “gîte d’étape”que poderemos traduzir por “casa de passagem ou de descanso”.
Essa casa tinha uma cozinha rudimentar sem qualquer utensílio, uma sala com uma mesa e duas cadeiras, uma casa de banho (fossa árabe) e um chuveiro (o tal balde com um crivo). Quem ali quisesse pernoitar ou descansar podia fazê-lo. Como todos sabiam, quando era necessário dormir, levavam a roupa de cama e os apetrechos necessários para cozinhar. Pernoitei em algumas e confesso que eram para mim uma espécie de “oásis”. Depois de percorrer, debaixo de um sol abrasador, algumas centenas de quilómetros em estradas de terra batida, cansado de mais uma jornada de trabalho, uma banhoca (mesmo de balde) seguida de um belo churrasco de frango “pica no chão” regado com uma bela cerveja (mesmo quente), eram uma espécie de restaurador de forças para o dia seguinte…

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - O 1.º dia na plantação




Lembro-me que no dia da minha chegada me deitei cedo, não só porque estava um pouco cansado mas também porque sabia que no dia seguinte me esperava o desconhecido, e havia que descansar para estar em forma.
Recordo que nos trópicos, às 18 horas já é de noite e às 6, o dia começa a romper...
No dia seguinte, logo às 4 da manhã assisti, com o tal senhor que ia substituir, à chamada dos "sangradores".
A chamada fazia-se da varanda da casa, à luz de um candeeiro a petróleo, um "Petromax", e ingerindo taças de café cultivado na plantação. Café fortíssimo que nos punha mesmo a mexer...
E o senhor falou: «Está feita a chamada. Agora é preciso vigiar os 280 sangradores que vão entrar na plantação. Cada equipa de 20 homens tem à frente um capataz e, por seu intermédio, é preciso saber se tudo está a correr bem...»
Entretanto entrei em casa para procurar o casque colonial que nessa altura se usava como protecção contra os raios solares. Durante muito tempo culpei tal ornamento pela queda do meu rico cabelo...
Frigorífico, apesar do calor tropical, era coisa que não existia. E no capítulo da alimentação o meu antecessor foi claro, prático e muito franco: «Quando quiser beber uma cerveja fresca ponha-a num balde com água ou então enterre-a em areia molhada... Para o resto não há necessidade, pois como tudo o que lhe disseram para comprar é enlatado, está resolvido o problema: é abrir e comer. Aliás, temos aí uma equipa de pescadores e outra de caçadores que lhe trazem constantemente peixe ou carne fresca. Nos pequenos riachos abunda o camarão de água doce que as mulheres apanham e vêm vender. É uma delícia! O sistema a seguir é o mesmo: mandar o cozinheiro preparar, e comer.
Tem também aqui no quintal muita fruta – bananas de diversas qualidades, ananases, abacaxis goiabas, laranjas, mangas, papaias, toranjas e outros frutos indígenas que os trabalhadores lhe irão trazer. Muito bons...»
Depois, mostrou um tambor de 200 litros encostado à casa e explicou: «Ali está a minha reserva de peixe. Os pescadores trazem muitos ainda vivos e eu então ponho-os naquele tambor que está com água e vou consumindo à medida que necessito... Como vê, aqui não se morre à fome. Mesmo que lhe faltem os víveres que trouxe, e não haja peixe do rio nem carne do mato, pode comprar galinhas e ovos aos indígenas... Quanto à farinha para fazer pão, aí a coisa é mais complicada. Mas também se resolve: quando não há, não se come!...»
Seguiu-se depois uma lição sobre princípios e comportamento:
«Antes de dar uma ordem, veja primeiro se ela pode ser executada. Isso é essencial. Agora no começo, é necessário mostrar e dar provas de que sabe mandar. Quando tiver dúvidas, abstenha-se. Uma desobediência de um trabalhador a uma ordem mal dada pode desacreditá-lo perante todo o resto do pessoal...
Tem aí livros em francês onde pode aprender tudo sobre o que aqui se faz: extracção e preparação da borracha; colheita e compra de fruto de palma e respectiva transformação em óleo; britagem da noz e preparação da noz e preparação do coconote; plantação, tratamento, colheita, secagem e descasque do café...
Os livros estão numa prateleira no escritório... Leia e depois com a prática, vai ver que não custa nada!...»
Vieram depois os conselhos dados por um homem com 40 anos de África, e 60 de idade, a um jovem de 24 anos, recém-chegado. E com o clima a espicaçar-lhe a carne...
«Já por lá passei, sei o que são essas necessidades, mas aqui tem que ter muito cuidado: primeiro, por causa das doenças e em seguida porque há também regras a respeitar. Mulher casada, se lá é pecado, aqui pode levar direitinho ao outro mundo...Cuidado, portanto! Há por aí muita mulher solteira. Algumas até hão-de vir oferecer-se... Colha informações primeiro. Informe-se com o cozinheiro, o velho Mbulungu. Já trabalha com brancos há muitos anos e os seus conselhos e sugestões são dignos de crédito... Não esqueça que estamos longe de médicos e de hospitais e uma blenorragia aqui não se cura facilmente...»
E tinha razão, o Sr. Machado. A confirmação veio alguns meses mais tarde. Um cidadão belga que trabalhava numa plantação próxima contraiu a doença e teve de ser evacuado de urgência, numa piroga a motor, para o Hospital inglês da leprosaria de Baringa...

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA -N'GONGO (Mompono)


Edição n.º 917 – de 13 de Novembro de 2008

N'gongo situa-se na freguesia de Mompono, concelho de Befale e distrito de Boende, Província do Equador, cuja capital era Coquilhatville, hoje Mbandaka. Encontram-se na margem direita do rio Maringa, rio navegável, que nasce alguns quilómetros acima num ponto chamado Befori-Lioko e que desagua no Lulonga em Basankusu.
N'gongo é apenas o sítio onde se situam as plantações, pois não existe qualquer aldeia com esse nome. Uma estrada de terra batida liga as plantações a Mompono, sede da Comarca onde está instalado o administrador da circunscrição. Um militar belga com um pequeno destacamento de soldados indígenas olha pela ordem. Há ainda um posto do correio e um porto fluvial onde são descarregadas as mercadorias e tudo o que é necessário para a manutenção dos serviços. Há também um campo de futebol e um campo de ténis. Ali habita também um agrónomo que se ocupa das plantações de borracha do Estado e vigia e aconselha os autóctones nas diversas culturas, nomeadamente do arroz de sequeiro. Um agente sanitário belga (com preparação universitária) percorria, com três enfermeiros congoleses todas as aldeias pertencentes à área, no despiste de todas as doenças tropicais. A malária, a lepra, a doença do sono e as doenças venéreas eram as que mereciam mais cuidados.
Para além de uma Missão protestante sob a direcção de um pastor inglês, Mr. Hansens, havia também uma Missão católica com a respectiva Catedral e um convento de freiras, pertencentes à Missão inglesa de Mill – Hill. Era ali que funcionava uma espécie de escola profissional dirigida por frades e onde se formavam os artífices das mais variadas profissões: pedreiros, pintores, carpinteiros, electricistas, etc. etc. Era de facto uma verdadeira escola profissional, pois todos os alunos exerciam as suas profissões na Missão, desenvolvendo os seus conhecimentos pela prática de trabalhos efectuados "in loco" em benefício da própria escola. Embora esta prática fosse condenada por alguns, porque os "operários" não auferiam qualquer salário, o certo é que a alimentação e os cuidados de saúde eram-lhes prestados gratuitamente o que, quanto a mim, com o "diploma" ou apenas com a prática que adquiriam, lhes proporcionava um ganha-pão que poderiam usar pela vida fora. E isso acontecia com frequência, pois quando havia obras de maior vulto era à Missão que se iam procurar os especializados.
A Catedral era construída em tijolo, feito, prensado e seco no próprio local e tinha sido edificada por "alunos."
Era lá que todos os domingos se reuniam, para além de muitos indígenas vindos de todos os cantos da circunscrição de Mompono, os estrangeiros católicos da região. Depois da Missa o Superior da Missão, um ancião de corpo franzino e de barbas compridas e brancas, fazia questão de nos reunir todos no átrio da casa paroquial para a habitual chávena de café que se seguia uma troca de impressões sobre os mais variados assuntos, com especial destaque para as notícias da Europa.
Esta Missão tinha quatro missionários itinerantes que percorriam os quatro cantos da "Paróquia", quase sempre a pé. Faziam centenas de quilómetros catequizando e celebrando missas. Por vezes andavam semanas pelo interior alimentando-se de frutos, e de alimentos, ovos, peixe ou carne que os indígenas lhes davam e que eles preparavam para comer.
Algumas vezes acolhemos em nossa casa, e de passagem, alguns desses homens que chegavam exaustos e com os pés doridos. Mal chegavam, perguntavam se podiam tomar banho, comiam depois e, muitas vezes, adormeciam à mesa, tal era o cansaço...
Sempre admirei esses homens que renunciando a tudo, se embrenhavam por veredas estreitas, floresta adentro, pregando a doutrina de Cristo.
Só quem alguma vez viveu situações destas e sabe o quão difícil é percorrer as pistas da floresta tropical com todos os perigos que daí podem advir pode dar o valor merecido a semelhantes mensageiros da Fé!
Refiro-me ainda à Missão católica de Mompono, só para sublinhar uma coincidência: um dos padres dessa Missão, meu amigo e orientador espiritual, o padre holandês Van-Kester, entretanto elevado a Bispo, celebraria, mais tarde, em Basanksu, o meu casamento...

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - A Viagem

A minha primeira casa em África ( 1950 - 1955)

A floresta bordejava a estrada de terra batida e, por vezes, um macaco que saltava de um ramo para outro, um pássaro que, assustado, batia as asas e fugia ou um antílope que atravessava a pista, eram "novidades" que me faziam esquecer o desconforto e a dureza do transporte.
Quando parávamos em alguma aldeia, os nativos logo se aproximavam com cachos de bananas, ananases, ovos e outros produtos que ofereciam esperando qualquer coisa em troca – cigarros, sal, ou qualquer bugiganga. O motorista, um negro espadaúdo, sempre a sorrir, lá me ia pondo ao corrente dos usos e costumes daquela gente, no seu francês mascavado...
Seria fastidioso descrever toda a viagem...
Parámos em Samba, numa plantação de café de portugueses e logo a seguir atravessámos o rio Maringa com a camioneta sobre uma jangada movida por doze remadores que subiam primeiro contra a corrente e depois desciam em direcção à outra margem.
Chegámos ao destino a meio da tarde. Uma viagem um pouco longa e desconfortável, mas à qual os meus 24 anos enfrentaram com alegria e espírito de aventura.
À chegada, um homem branco, magro, de cabelos brancos, esperava-nos, sentado numa cadeira de verga, numa varada de uma casa coberta com uma espécie de colmo – a minha primeira casa sob os trópicos, longe de tudo, mas da qual guardo ternas recordações e cuja fotografia, velhinha, podem ver no começo desta crónica.
À volta um grande terreiro rodeado de seringueiras, e uma sebe de arbustos de cambiantes variados, como todas as plantas espontâneas que nascem nas densas florestas tropicais. A nossa chegada devia ter sido anunciada, dada a recepção que tivemos: muitos negros, homens, mulheres e crianças rodearam-nos e não paravam de gesticular e trocar impressões numa língua que eu não conhecia...
Seguiram-se as apresentações e a visita aos meus futuros aposentos. A casa tinha dois quartos, uma cozinha e um grande salão. A casa de banho estava no exterior da casa e vale a pena fazer a sua descrição: Imaginem um pequeno espaço redondo com um raio de dois metros com uma vedação de paus entrelaçados e folhas a tapar a vista; uma foça árabe que servia para satisfazer as necessidades fisiológicas e, lá no alto um balde de zinco com um crivo no fundo e um cordão que tinha a função de abrir uma válvula e fazer com que a água saísse – era o chuveiro!...
Na casa, a mobília, era a mínima necessária: nos quartos uma cama tosca com o imprescindível mosquiteiro, janelas todas com rede, sem portadas e nada mais; no salão uma mesa, algumas cadeiras muito puídas e dois maples aos quais era impossível atribuir idade; na varanda uma mesa rudimentar e três ou quatro cadeiras de verga. Na parte de trás da casa e logo na pequena escada que dava para a "casa de banho", uma bacia de zinco sobre um cavalete de madeira, uma encardida concha onde repousava um pedaço de sabão azul e uma toalha pendurado num prego... Havia ainda um pequeno compartimento que servia de despensa e onde eu arrumei logo os alimentos que tinha comprado, enlatados claro: manteiga (holandesa, muito boa); queijo (holandês também) conservas (portuguesas) bacalhau (ido de Portugal em caixas de alumínio); azeite (português, Galo d'Ouro); sardinhas, carapau e atum, também embalados em Portugal e...um garrafão de vinho tinto "Nabão", além de outras coisas...
Foi assim a minha chegada a uma localidade mesmo sob a linha imaginária do Equador e dessa maneira mais um português se juntou a muitos outros espalhados pelos mais recônditos locais desse imenso território que era o Congo Belga, hoje República Democrática do Congo.

segunda-feira, setembro 07, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - A floresta equatorial





Vista de cima, a floresta equatorial é um verdadeiro mar interior em que as suas ondas de verdura se estendem a perder de vista. Ela ocupa o interior de uma depressão em forma de bacia e cobre quase da metade setentrional do país, desde o lago Tumba até aos contrafortes do Ruwenzori.
Ela cresceu no lugar de um imenso lago pré-histórico do qual restam apenas os lagos Mai Ndombe e Tumaba.
O terreno, quase sempre pantanoso é o lugar de predilecção de uma fauna inumerável onde estão representados todos os géneros. Mas é, sobretudo o seu solo extraordinariamente rico que é favorável à vegetação.
Pela estrada, logo que ultrapassa os espaços ocupados pelas aldeias, o viajante é brutalmente rodeado por essa massa vegetal que lhe impõe respeito. O intruso, o temerário que se arrisque a entrar nela, pouco tempo depois desistirá e retomará o ponto de partida com um certo alívio.
Os que a conhecem melhor, o caçador, o feiticeiro não se aventuram para além das clareiras, das margens dos rios e das pistas que a serpenteiam sob um emaranhado verde onde nem o sol entra.
Apesar de existirem muitas lendas a dizer o contrário, tanto as caçadas, como as suas misteriosas feitiçarias e encantamentos têm sempre lugar perto das aldeias.
Numa extensão de milhares de quilómetros quadrados balanceia a mesma cortina de verdura viçosa, densa e uniforme. E esta demonstração extraordinária de vitalidade, de majestosa força, esconde um tal mistério, um desafio tão desigual para o homem que o leva a que fale dela sempre com uma deferência especial.
Mesmo para os seus familiares mais íntimos, a orgulhosa floresta virgem do Equador, despe-se apenas através de pequenas clareiras periféricas.
Apesar disso ela constitui a mãe protectora e alimentícia, fornecendo tudo: carne, tubérculos, legumes, cogumelos variados e até os seus medicamentos com virtudes incontestáveis, cujas técnicas de fabricação continuam preciosamente guardadas correndo até o risco de se perderem na eterna noite da selva.
Assim, o visitante tem de contentar-se de ver apenas da beira da estrada, da picada, as palmeiras, os aloés, as ráfias, várias espécies de coníferas e outras árvores exóticas ao troco das quais se enroscam lianas que sobem a trinta ou quarenta metros em busca de um lugar ao sol.
São várias as espécies de madeiras preciosas da floresta equatorial que podem ser utilizadas na indústria de móveis ou na de construção, destacando-se, entre outras as espécies: mépépé, émien, mukulungu, iroko, mubangu negro, tola, limba, wenge e a tshitola. Muitas outras podem servir para a obtenção de pasta para papel.
A floresta equatorial do Congo continua intacta, rica, extensa, no resto do mundo os efeitos combinados da indústria, do urbanismo e os incêndios, fazem da madeira uma matéria-prima essencial.
É por isso que com todo este potencial a floresta virgem equatorial poderá vir a servir de base para um novo pólo de desenvolvimento económico para a província do Equador e, logicamente, para o país.
Entretanto e enquanto ela não for violada pela máquina e devorada pelas indústrias modernas, orgulhosa, ela continuará a reinar serenamente guardando os seus mistérios e muitas riquezas no seu subsolo.

domingo, setembro 06, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA -Partida para o interior




O casal que estava à frente da loja de víveres da Macodibe era um casal excepcional – simpático, culto e acolhedor como poucos. Ele, cunhado do actor Álvaro Benamor, era um mestre a contar anedotas e a cozinhar... Ela, D. Isabel, grande apreciadora de Ópera (com uma colecção de discos das melhores, invejável!) era também, com a sua cultura e educação, uma senhora em toda a acepção da palavra. Não admira, por isso, que a casa do casal Ferraz, em frente do Super-Mercado, servisse de ponto de reunião de todos: viajantes e residentes.
Alguns dias depois de ter chegado e numa dessas reuniões, um desses representante de uma Companhia holandesa de Lepoldville, alfacinha de gema, alvitrou que se convidasse o "recém-chegado agente da Macodibe" para uma caçada aos gambozinos!... Todos, em coro, aplaudiram a ideia. Eu limitei-me a ouvir as instruções, pois já as tinha dado, por várias vezes, a veraneantes que vinham de Lisboa passar férias na minha aldeia...
Deram-me um saco de ráfia e lá fomos todos (uns oito) a caminho do aeródromo, numa carrinha, munida de um farol no tejadilho. Puseram-me então no início da pista, saco na mão, recomendando que devia assobiar primeiro e depois guardar o silêncio com o saco aberto, à espera que os gambozinos entrassem no saco... Eles iam por outro lado espantar os bichos e fazer com que eles se encaminhassem para a ratoeira... Logo que os pressenti longe, peguei no saco e eis-me a caminho de casa, a pé... Percorri assim cerca de dois quilómetros e quando cheguei a casa é difícil descrever a surpresa de D. Isabel, ela também a par da marosca... Contei-lhe então que a artimanha, para mim, era já muito velha e já a tinha aplicado a muitos "pacóvios"... Cerca de duas horas depois chegaram os promotores da "partida" e é fácil adivinhar a sua surpresa e frustração, ao verem-me sentado numa cadeira de verga a saborear, sorridente, o meu uísque!...
Isso constituía uma espécie de praxe para com os novatos que chegavam e, mesmo no interior, quando ali cheguei, também fui sujeito a uma outra brincadeira...
Um dia fui chamado ao escritório da Sede onde me informaram que o meu local de trabalho, se situava a cerca de 300 quilómetros – no distrito da Thsuapa, comarca de Befale, circunscrição de Mompono, aldeia de N'gongo. Partiria dentro de dois dias, teria que comprar o necessário, isto é: acessórios de cozinha, alimentos (enlatados) roupas, etc., etc., ...
Não sei se ainda se lembram das camionetas que começaram a circular logo após a última grande guerra: eram veículos sem quaisquer comodidades. A suspensão fazia-se por intermédio de molas muito rijas e a cabina que consistia apenas numa chapa rugosa sem forro, com bancos de madeira cobertos com uma espécie de almofada cheia de folhas, geralmente de palmeira... E foi nesse transporte de luxo que eu fiz a viagem até N’gongo. Tudo era novo para mim. E encantador!...

sábado, setembro 05, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - A Macodibe



Edição n.º 911 de 02 de Outubro de 2008


A Macodibe era uma das maiores empresas portuguesas do Congo, e tinha a sua sede em Basankusu, na província do Equador, e um escritório em Leopoldville que se encarregava de transaccionar os produtos vindos do interior.
De Basankusu a Mondjulongo quase a fazer fronteira com a então África equatorial francesa, a Companhia tinha feitorias um pouco por toda a parte, sobretudo nas margens dos rios que, como já disse, eram todos navegáveis. Em Basankusu, além dos escritórios que coordenavam todos os sectores do interior, um grande armazém no porto fluvial do rio Tshuapa, acolhia todos os produtos vindos dos diversos postos, sobretudo o copal, uma resina que os indígenas extraiam dos pântanos e que era expedida sobretudo para a Inglaterra para fazer vernizes. A companhia possuía ainda várias casas na vila e uma loja mista a que hoje se podia chamar Super-Mercado. Era ali que a população estrangeira se abastecia do necessário para viver, mas sobretudo de produtos alimentares vindo da Europa e também da África do Sul e de Angola. Basankusu era uma pequena cidade do interior, com a respectiva Mairie (Câmara Municipal), uma Catedral (onde mais tarde seria celebrado o meu casamento), e dotada de uma Agência bancária; de um Hospital com instalações modernas para a época e com uma equipa médica de grande nomeada; de um destacamento da "Força Pública" comandado por um oficial belga que assegurava a segurança; de um Hotel, propriedade de um português, o Castanheira, que albergava as gentes de passagem; uma sala de cinema improvisada numa dependência da Câmara Municipal e um Centro de convívio onde se reuniam os habitantes do aglomerado.
Saindo de Basankusu por estrada em direcção à fronteira com a África francesa, a Macodibe, possuía várias feitorias de indústria e comércio, nomeadamente, a de Balangala, (Plantação e fábrica de óleo de palma); a de Falanga, (fábrica de óleo de palma e plantação de palmeiras e de cacau); a de Baringa, (porto fluvial com um armazém que servia para juntar os produtos até serem embarcados); a de Ingende, (plantações de árvores da borracha e fábrica de transformação); a de Lifumba (exploração florestal para a exportação e serração); a de Boende (fábrica de descasque de arroz e supermercado), a de N’gongo (plantações de árvores de borracha, de palmeiras, e de café com as respectivas fábricas): a de Mompono (com um entreposto de armazenagem junto ao rio e várias lojas de comércio); a de Kailanga (fábrica de óleo de palma e criação de bovinos); a de Mundjolongo a 1.000 km de Basankusu (com plantação de café, fabricas de descasque de arroz, de café e lojas de comércio). Noutras aldeias, situadas nesses percursos, possuía ainda várias lojas de comércio, à frente das quais se encontravam negros naturais da região – os "Capitas" (nome por que eram designados os capatazes ou gerentes).
Permaneci na cidade cerca de dois meses e foram várias as peripécias por que passei, com especial relevo para a caça aos gambozinos. Eu conto: Basankusu, era o lugar de passagem e paragem de todos os viajantes das grandes empresas comerciais com sede em Lepoldville. Eles percorriam todo o Congo, visitando os clientes espalhados pelos lugares mais recônditos do país e permaneciam mais tempo nos locais onde a clientela era mais importante. Basa (abreviação de Basankusu) era o ponto de encontro de quase todos eles. Nesse tempo, em África, ainda não havia rivalidades comerciais e os viajantes reuniam-se todos, ao serão, para uma partida de bisca lambida, sueca ou bridge, ou para uma sessão de anedotas molhadas com uns bons uísques...

sexta-feira, setembro 04, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA- O meu quintal tropical








À volta da minha casa, da qual já vos fiz a descrição mais atrás, tínhamos um quintal onde cultivávamos alguns legumes. Poucos, porque o Sol tropical não o permitia. Lembro-me, no entanto, de termos semeado couve-flor que depois transplantámos, aliás, sem grande esperança de que vingassem. Mas vigaram. E só não as comemos, porque os meus dois filhos se encarregaram de as cortar para trazer à mãe julgando que eram mesmo flores!...
Mas como podem apreciar pelas fotos, fruta era coisa que não nos faltava: bananas, ananases, goiabas, mangas, papaia, laranja, toranja e outros frutos tropicais menos conhecidos, estavam ali à mão de semear…
Apesar do calor abrasador a terra é fértil, pois as chuvadas tropicais compensam e ajuda a germinação. Se lançarmos uma semente à terra, mesmo que não cuidemos dela, ela “desenrasca-se” e desenvolve-se sozinha. É o caso, por exemplo, do milho, do arroz de sequeiro, além de outras espécies que se desenvolvem sem quaisquer ajudas humanas.
Lembrei-me hoje das frutas do meu quintal tropical do Ngongo, porque comi hoje o primeiro cacho de uvas do meu quintal beirão apanhado, directamente, da videira, sem passar por qualquer câmara fria ou frigorífico.
E daí que me tenha “lembrado”de como são diferentes os sabores, como é diferente o natural do “enlatado”…

segunda-feira, agosto 31, 2009

P A U S A S



Como já muitas vezes aqui tenho escrito, somos um povo com uma mentalidade ímpar e com uma filosofia de vida difícil de igualar. Choramingas, trapaceiros, invejosos, fingidos, bazófias, manhosos, todos esses papéis sabemos desempenhar como nenhuma outra raça!
Dizem que somos um povo mandrião, mas isso não é verdade. Se mais não trabalhamos é porque o subsídio de desemprego e outros que tais, asseguram uma vida repimpada, sem que andemos a dar o corpo ao manifesto…Aliás, o que a malta quer é emprego, trabalho não...
Mas como já não bastasse a vida folgada de grande parte dos indígenas cá do rectângulo, acrescentou-se e legalizou-se esse tal “descanso” e pôs-se-lhe o nome de “férias”.
E há uns anos a esta parte, como de um preceito evangélico se tratasse, todos se tornaram cristãos, e adoptaram-no. Não tanto por convicção, mas porque parece ter-se convencionado que quem não fosse para fora, mesmo cá dentro, não era cidadão de corpo inteiro.
E então, mal se cumprimenta o amigo, a pergunta já está na câmara, pronta a disparar: - «Então que tal essas férias?!...»
Se o indígena responde que não, que é coisa que não faz ou que não pode fazer, logo o perguntador, armado em conselheiro, lhe explica a vantagem desses período de lazer: - «Olhe que as férias fazem bem à saúde, ao espírito; faz bem fugir de tudo isto, mudar de ambiente...»
É verdade que não só o corpo como o espírito necessitam de um repouso, de uma paragem, para retemperar forças e arejar ideias. Só que as férias de hoje, em muitos casos, em vez de descontraírem, aumentam ainda mais a tensão do dia-a-dia.
Salvo raras excepções, muitos regressam de férias mais fatigados do que quando foram... Mas como é moda e não se pode ficar atrás do vizinho, haja o que houver, fique o que ficar, haja ou não posses para o fazer, há que "fugir", fazer a trouxa e ir até qualquer parte. De preferência até à praia. As filas, o calor, nada disso conta, pois que férias são férias e é até de bom-tom e confere uma certa importância ir de férias. Há ainda quem goste de "emoldurar o estatuto"e atravesse mares, e rume a lugares paradisíacos e exóticos onde gastam pipas de massa e ingurgitam, toda a espécie de mixórdias, gabando-se depois de terem gozado à farta e de terem comido manjares divinais!...
Apesar de toda esta “má-língua” já devem ter percebido que eu não sou uma excepção à regra e que também vou de férias!
Quando Algarve se escrevia só com um L, costumava ir para a “Praia dos Tomates”, que na altura estava na moda, e era frequentada quase só pelos graúdos. Agora como já tem nome estrangeiro, fico-me pela “Praia dos Nabos”. É mais genuína, mais portuguesa… e mais barata.
Até ao meu regresso «façam o favor de serem felizes», como dizia o nosso saudoso e inesquecível Raul Solnado, que Deus haja…

domingo, agosto 30, 2009

MARCAS



No interior daqueles que chegaram a homens sem nunca terem sido meninos, há marcas do passado que jamais se diluirão e que acabam, mais tarde, por servir de lenitivo, de compensação e até de refúgio, sejam quais forem os sobressaltos e os desencontros das nossas vidas. Por mais que queiramos não conseguimos nunca apagar esses traços, essas pegadas que marcaram o começo da nossa existência.
Há sempre um episódio que perdura eternamente – uma vontade insatisfeita, uma aspiração que realizámos, um castigo injusto, uma paixão infantil, um sonho que se desfez e muitas esperanças também!
E é quando a caminhada já vai longa, quando a intensidade das paixões diminuiu, quando as horas deixaram de nos escravizar e as modernas encruzilhadas da vida nos confundem, é então que procuramos o tal refúgio. E nele reflectimos, meditamos, analisamos e, quase sem querer, voltamos atrás e recordamos...
E é nesses momentos mágicos, quando o silêncio impera e refreia o pensamento, que a imaginação, à rédea solta, viaja no tempo, segue as pegadas e perde-se no sótão poeirento das nossas memórias...
Mas nem sempre o reencontro com o passado é pacífico. A vida não volta à infância e muitas vezes as lutas que interiormente travamos por querermos adaptar a aiveca do arado à moderna charrua do tractor, só nos trazem desgostos e frustrações. São lutas inglórias...
É que a diferença entre os marcos de pedra do passado e as balizas electrónicas do presente é abismal. Incomensurável!...
Protagonista dessas pelejas, muitas vezes, mesmo antes de começar, deponho as armas, tão diferentes se me afiguram os métodos do combate e as armas do "inimigo"!
Ademais, não se pode parar o tempo. Temos de viver uns com os outros e é difícil escapar às atmosferas sociais do tempo que passa. Sem renunciar ao passado, tento ser homem do presente. Mas sempre com a aldeia de antigamente a pular-me no coração. Aquela aldeia de olhos postos em Deus, em que se fechava um negócio com um aperto de mão e uma palavra de honra. Foi nesse mundo que me fiz homem, que aprendi a partilhar, que aprendi a cumprir a doutrina da solidariedade, do respeito mútuo, da lei da honra. Ali interiorizei para sempre o valor da amizade e a cultura dos princípios da moral sem necessidade de folhear volumosos livros nem estudar complicados tratados de filosofia política ou outra.
Diz-se que a maior parte dos velhos vive de recordações. É natural que assim seja, pois quando já não se pode conservar a alegria da infância e a embarcação começa a desmantelar-se de tanta tempestade ter enfrentado, há que construir outra... Uma espécie de jangada feita com os pedaços mais resistentes que escaparam do naufrágio e vogam ao sabor das ondas traiçoeiras deste mar imenso que é a vida.

segunda-feira, agosto 24, 2009

OS MISSIONÁRIOS DA "MILL HILL" EM BASANKUSU



A Diocese de Basankusu foi criada em 28 de Julho de 1926 pelos missionários de Mill Hill, oficialmente denominada Sociedade Católica “São José para as Missões Estrangeiras”.
Era uma congregação de missionários, sacerdotes e leigos, que se dedicavam à propagação do Evangelho entre os povos não evangelizados.
Foi fundada em 1866 em Mill Hill, no noroeste de Londres, por H. Vaughan que desempenhou um papel importante no Uganda em 1894 quando se tornou um protectorado britânico.
Esta congregação espalhou-se por toda a África, sobretudo no ex-Congo Belga na província do Equador, situada a noroeste do país, confinando a noroeste com a República do Congo Brazaville, a oeste com a República Centro Africana. A capital da província do Equador é Mbandaka, ex – Coquilhatville.
Em Basankusu ergueram uma catedral da qual falarei mais à frente…

segunda-feira, agosto 17, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - A partida





A PARTIDA NO NAVIO MISTO “AMBOIM”

O Congo belga, na década de 1950, mercê do seu desenvolvimento devido à exportação dos seus produtos – marfim, borracha, café, cacau, óleo de palma, diamantes, cobre, cobalto, zinco, estanho, ouro, madeiras e outros produtos, era um dos países da África tropical com o mais elevado nível de vida.
A sua população, constituída por bantos, sudaneses, pigmeus e cerca de 200 grupos étnicos, na sua maioria pertencentes a crenças animistas, além de numerosos católicos e protestantes, rondava os 34 milhões e espalhava-se por uma superfície de cerca de 2.345.000 Km2.
Nessa altura o país gozava de uma tranquilidade absoluta e até 1959, podia viajar-se por todo o território, quer através de "estradas" de terra batida bem conservadas, transpondo pontes construídas em madeira, atravessando rios por intermédio de jangadas, quer pelos barcos da Otraco (Office des Transports Congolais) que chegavam aos sítios mais importantes, ou por avião. Não existia qualquer hostilidade para com o viajante e as populações autóctones recebiam-nos sempre com bastante carinho e alegria.
A bordo do navio misto Amboím, deixei Lisboa, numa tarde triste de Outubro. Rumámos ao porto de Leixões onde passámos uma noite com o mar tão agitado que não consegui pregar olho.
Partimos um dia depois, e durante 20 dias, até Luanda, não vimos terra! A bordo, quase todos os passageiros faziam a sua primeira viagem por mar. E, consequentemente, poucos foram os que não "deitarem a carga ao mar".
O apetite era pouco e a comida também não era famosa. Foi, pois, com grande alegria que acostámos ao porto de Luanda, onde me esperava o Duarte que fazia a tropa num quartel da capital angolana. Abracei-o com alegria, pois crescemos juntos, brincámos juntos, fizemos diabruras juntos e, além disso, éramos primos.
Desde que tinha saído de Lisboa, não mais tinha comido refeição que me soubesse! Por isso no dia do desembarque, na messe dos oficiais, para onde o Duarte me tinha convidado, o almoço foi divinal! Um ágape de deuses!... Foi a primeira vez que comi papaia! Que adorei...
Depois de ter passado alguns dias em Luanda à espera do dia em que o avião que fazia a ligação Luanda-Leopoldville chegasse, lá embarquei rumo à capital do Congo belga – Kinshasa.
No mesmo voo seguia Fernando Curado Ribeiro, que ia tomar conta dos programas em português emitidos então pela Rádio da capital. Recordo-me que trocámos impressões sobre várias coisas, mas o que mais nos preocupava eram os mosquitos!...
Nessa época, a febre da malária era muito temida e todos receavam a picada do famigerado mosquito anófele.
Recordo que nesse tempo todas as camas eram cobertas com um mosquiteiro para evitar os seus "ataques" nocturnos.
O avião aterrou no antigo aeródromo de Ndolo quase dentro da cidade. Ali me esperavam dois sócios da Companhia que me tinha contratado – a Macodibe.
Publicado no Jornal de Tondela, Edição 910 de 25-9-2008

domingo, agosto 16, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - Explicação aos leitores





A respeito das notas que temos vindo a publicar sobre África e porque convém conhecer, ainda que resumidamente, esse território africano de que se fala, segue-se um pequeno texto assinado por Elisée Bj’elongo e publicado em Esperanto na Revista holandesa “Kontakto”e traduzido pelo Clube de Esperanto de Campos (Brasil) sob o título “Como nasceu a República Democrática do Congo”:
«Tudo teve início no começo do século XIX, quando o mundo começou a interessar-se pela África. Por volta de 1850 o Congo independente atraiu o interesse de povos da raça branca, principalmente alemães, que vieram à procura de minerais e para fins comerciais. Durante a Conferência de Berlim em 1884/1885 o Congo foi doado à Bélgica, que explorou o país como quis. Os cidadãos deviam trabalhar à força. Pouco a pouco a coisa tomou outro rumo. O Congo tornou-se propriedade do rei Leopoldo II. Ele apropriou-se do Ruanda-Urundonusumburam, que veio a ser posteriormente Ruanda e Burundi. Essas duas últimas dependeram, principalmente, da cidade de Leopoldo (actual Kinshasa), para sua administração. Quanto mais a cidade de Leopoldo prosperava, mais o rei Leopoldo enriquecia. Felizmente, ele era muito trabalhador e construiu muitas cidades bonitas. A cidade de Leopoldo tornou-se uma das maiores e mais bonitas cidades da África daquela época. Construíram-se não só muitos apartamentos para missionários, mas também muitas escolas primárias e secundárias.
Como aconteceu a Independência
Até aos anos 50 do século XX o Congo tinha muitos intelectuais que se interessavam pela política do território. Emery Patrice Lumumba tornou-se primeiro-ministro do primeiro governo independente, cujo presidente era Joseph Kasavubu. Este último, também militar graduado, foi usado pelos brancos enquanto Lumumba lutava ao lado do partido MNC (Movimento Nacional Congolês) pregando o africanismo e exigindo a independência do país. Fundaram-se alguns outros partidos, como por exemplo, o ABACO. Entre outras coisas e pela acção desse famoso cidadão os brancos decidiram, finalmente, libertar o Congo. A 30 de Junho de 1960, foi proclamada a independência do país, que, posteriormente, foi denominado República Democrática do Congo.»
Os acontecimentos e relatos que têm vindo a ser publicados dizem respeito ao espaço compreendido entre 1950 e 1980, data a que deixamos aquele País africano. Embora já o tenhamos feito anteriormente, para uma melhor compreensão, socorremo-nos de notas colhidas em várias fontes, nomeadamente na Wilkipedia.
A região é ocupada na antiguidade por bantos da África Oriental e povos do rio Nilo, que ali fundam os reinos de Baluba e do Congo. Em 1878, o explorador Henry Stanley funda entrepostos comerciais no rio Congo, sob ordem do rei belga Leopoldo II. Na Conferência de Berlim, em 1885, que divide a África entre as potências europeias, Leopoldo II recebe o território como possessão pessoal. Em 1908, o Estado Livre do Congo deixa de ser propriedade da Coroa e torna-se colónia da Bélgica, chamada Congo Belga.
O movimento nacionalista tem início nos anos 50 sob liderança de Patrice Lumumba. Em 30 de Junho de 1960, o Congo conquista a independência com o nome de República do Congo – em 1964 é acrescentado o adjectivo "democrática". Lumumba assume o cargo de primeiro-ministro e Joseph Kasavubu, a Presidência. A maioria dos colonos europeus deixa o país. Em Julho de 1960 eclode uma rebelião contra Lumumba, liderada por Moïse Tshombe. Antes do final do ano, Kasavubu afasta Lumumba do cargo de primeiro-ministro num golpe de Estado. Lumumba é sequestrado e assassinado em Janeiro de 1961. Tropas de diversos países (incluindo o Brasil) são enviadas pela ONU para restabelecer a ordem, o que ocorre em 1963, com a fuga de Tshombe. As tropas da ONU retiram-se em Junho de 1964. Dias depois ocorre uma reviravolta: Tshombe regressa e assume a presidência com apoio da Bélgica e dos EUA. Em Novembro de 1965, ele é derrubado num golpe liderado por Mobutu Joseph Désiré.
Mobutu estabelece uma ditadura personalista, tornando o país um estratégico aliado das potências capitalistas na África. No início dos anos 70 lança sua política de "africanização", proibindo nomes ocidentais e cristãos. Como parte da campanha, muda em 1971 o nome do país para Zaire e da capital para Kinshasa (ex-Leopoldville). Ele próprio passa a se chamar Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu wa za Banga, que significa "o todo-poderoso guerreiro que, por sua resistência e inabalável vontade de vencer, vai de conquista em conquista.".
(Excerto do meu caderno “A minha África”)
Publicado no Jornal de Tondela – Edição 909 de 18-9-2008

sábado, agosto 15, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - A chegada do barco





A primeira coisa a retirar era o saco do correio. As notícias da terra distante: as cartas (quando vinham...) e os jornais e revistas que embora com atraso (às vezes de um mês!) vinham matar saudades e dizer-nos o que se passava pelo mundo. Era depois a vez de ir espreitar os géneros alimentícios que nos tinham mandado da Sede em Basankusu. Tudo enlatado: bacalhau em embalagens zincadas; farinha em tambores herméticos; latas de leite em pó; latas de várias conservas, sobretudo sardinhas portuguesas; batatas do Kivu numa espécie de cestos que faziam lembrar as folhas da piteira; garrafões de vinho português (nessa altura com a marca "Ródão") e também garrafas de cerveja, de origem belga ou holandesa e que vinham acondicionadas em caixas de madeira que continham 48 garrafas de 75 cl. Era a cerveja que nos refrescava "acudia" ao calor dos trópicos. Bebia-se muita e, muitas vezes, porque matava mais a sede, acompanhava a refeição. O uísque era uma bebida pouco usada no interior e, geralmente, só se bebia à noite após a última refeição.
Procedia-se depois à descarga da restante mercadoria e outros produtos empregados nas várias fabricações: tambores de 200 quilos de soda cáustica, garrafões de 50 litros de ácido fórmico, sacos de cimento, chapas de zinco, etc., etc.
O barco continuava depois a subida até ao seu último porto. Três dias depois voltava novamente para carregar os produtos destinados a consumo do país ou à exportação.
Muitas vezes, sobretudo quando as águas começavam a baixar a estadia do barco era abreviada e o carregamento tinha de ser feito de noite.
Com a caldeira sempre à pressão para fazer mover o gerador cujo holofote, de que já falei, iluminava a margem onde se desenrolavam os trabalhos com vista ao carregamento das barcaças, era grande a azáfama e, muitas vezes chegávamos a casa e só tinha tempo de tomar um duche antes de fazer a chamada do pessoal da extracção da borracha, que tinha lugar entre as 4 e 4 e meia da manhã. Houve um tempo em que o encarregado do sector comercial a residir temporariamente no N'gongo, o Grilo, me acompanhou nessas andanças e era quando acabávamos o carregamento ou descarregamento que levávamos uma garrafa de uísque quase até ao fim!...
Por tudo isso, o barco desempenhava papel importante na existência de todos aqueles que viviam no interior do Congo, um pouco isolados do Mundo. Entre 1950 e 1960, os comandantes dos barcos, todos eles de nacionalidade congolesa e formados por belgas, eram muito competentes e desempenhavam a sua missão com muito saber e honestidade.
Muitas vezes pedi a esses homens que me comprassem e trouxessem da capital livros ou outras coisas de que necessitava e eles sempre o fizeram sem reservas e com desinteresse, exprimindo sempre o seu contentamento por nos serem úteis!
Esqueci os seus nomes mas, pelo menos com dois deles, muitas vezes conversei acerca do futuro do país. Juntos, partilhávamos as mesmas dúvidas quanto à sua independência...
Excerto do caderno “A minha África”
Publicado no J. T. Edição n.º 907 de 04 de Setembro de 2008

sexta-feira, agosto 14, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - As ligações com o Mundo



Nos meus primeiros tempos de África, entre 1950 e 1953, o único traço de união com o Mundo era o barco da Otraco (Office des Transports Congolais) que, de quinze em quinze dias, fazia o percurso entre Leopoldville e Befori, local até onde o Maringa era navegável.
O barco saia de Leopoldville, escalava vários portos fluviais, entre eles Coquilhatville, Basankusu, Baringa, Samba, Ekukula, Mompono, Ngongo, seguindo depois para Befori.
Era por barco que recebíamos tudo: mercadorias, diversos produtos, alimentação e... correio! Pode imaginar-se, pois, a alegria com que esperávamos o barco. Muitas vezes ele chegava de noite, e se ouvíamos a sirene, era difícil conciliar mais o sono até de manhã, ansiosos que estávamos para saber notícias.
Importa dizer que os barcos eram movidos a vapor e em vez de hélices eram impulsionados por uma espécie de dobadoira feita de tábuas. Moviam-se lentamente e demoravam mais tempo a chegar pois navegavam contra a corrente que era forte. Todos os barcos possuíam dois quartos para passageiros com casas de banho e uma pequena sala. Quem neles viajava tinha que levar mantimentos para a viagem. Um cozinheiro do barco fazia a comida.
Tive ocasião de viajar num deles de N'gongo até Basankusu com minha mulher que se dirigia ao hospital de Basankusu para o nascimento do meu primeiro filho, o Jorge. Foi uma viagem de três dias. De noite e apesar de os barcos terem um gerador e um potente holofote que se acendia logo que começasse a fazer escuro, a navegação não era aconselhada. Então o comandante, um congolês, já com prática e conhecimento do trajecto, fazia a navegação de maneira a que chegássemos a um porto fluvial ao lusco-fusco e o barco ali permanecia durante a noite.
Atreladas ao barco havia duas enormes barcaças onde eram acondicionados os produtos com destino a Leopoldville: borracha, óleo de palma, coconote, café, cacau, copal, etc.
Por vezes, durante a noite acontecia que não conseguíamos dormir motivado pelo barulho dos habitantes das aldeias próximas, que vinham ao barco comprar diversas bugigangas e beber cerveja ou as bebidas tradicionais – o "lotoko", uma espécie de aguardente fortíssima feita a partir da fermentação do milho ou o vinho de palma, obtido através da fermentação do suco da palmeira.
A tripulação do barco fazia também comércio com artigos que traziam da capital e que constituíam novidade para as populações do interior: relógios, espelhos, isqueiros, tecidos, etc. etc.
A viagem no barco durante o dia era encantadora. A paisagem nas margens mudava constantemente e, além de várias aves, entre as quais papagaios, patos, galinholas, os macacos, com as suas piruetas nas árvores que bordejavam o rio, constituíam um espectáculo deslumbrante!
Algumas vezes avistavam-se crocodilos refastelados ao sol nos bancos de areia aqui e ali. Mas voltando à chegada do barco, ela constituía o único acontecimento que vinha quebrar a rotina dos dias que eram sempre iguais.
(Excerto do caderno “A minha África”)
Publicado no J.T. n.º 906 de 28 Agosto 2008

quarta-feira, agosto 12, 2009

OS FILHOS DA "CUNHA"


Os filhos da cunha
Os filhos da cunha são, geralmente, mal preparados, mandriões, e vaidosos. E mesmo quando protegidos por um “canudo” à guisa de bóia de salvação, nem assim conseguem flutuar e disfarçar a sua incompetência.
Os filhos da cunha têm acesso aos tachos mercê da influência de um amigo, de um compadre, de um condiscípulo ou até mesmo da amásia de um primo do presidente ou do director-geral.
Raramente entram por dinheiro, mas a sua entrada fica registada e mais tarde pode ser-lhes pedida uma contrapartida que varia conforme o sexo.
Os filhos da cunha vivem bem, não têm preocupações, dormem a sono solto, não têm necessidade de contar as moedas pretas e, no fim do mês, recebem um salário que não merecem, mas que lhes é devido pelo seu estatuto de funcionários do “Instituto da Cunha”.
Têm gabinete próprio, uma extensão telefónica, uma mesa a abarrotar de papéis que uma filha da cunha lhes traz diariamente. Mas que não consultam… Ali ficam até que os interessados os reclamem. Quando não, catrapus, lixo com eles!...
Os filhos da cunha têm um estatuto próprio e o seu protector ou protectora asseguram-lhes uma impunidade absoluta. Geralmente não entram em conflitos, não trabalham, mas também não têm opinião.
Os filhos da cunha são subservientes e bajuladores na presença do protector, mas críticos e mal-agradecidos na sua ausência.
Os filhos da cunha são, regra geral, adeptos de um clube de futebol da primeira divisão, mas em ambiente desconhecido nunca denunciam, por questões que lhes foram impostas, a sua verdadeira cor clubística – é de bom-tom agradar a gregos e troianos e nunca provocar discussões que conduzam a indagações sobre a maneira como entraram para a Instituição.
Os filhos da cunha, no capítulo da política, usam o método camaleónico: mudam de cor conforme mudam as ideologias – dizem com todos, quer seja com os que estão no Governo, quer com os que lhes fazem oposição. E é por isso que, geralmente, sobrevivem a todas as mudanças de regime embrulhados nas suas capas furta-cores.
Os filhos da cunha não são, no entanto, todos iguais. Uns são mais espertos do que outros. Enquanto uns se acomodam e se contentam com o lugar e vencimento que têm, outros tentam voar mais alto e chegam a atingir grandes altitudes….
Os filhos da cunha são cada vez mais e encontram-se por todo o lado, mas em maior número nas grandes empresas, nas autarquias, nos hospitais, nas direcções-gerais e até mesmo nos ministérios.
É uma “praga” difícil de exterminar, porque muitos deles, entretanto, vão procriando e, assim, os filhos da cunha nunca acabam…
















O EMIGRANTE...



Sosseguem os leitores que não vou falar do homem nu que numa das rotundas de Tondela simboliza o Emigrante. Nada disso...
Vou falar, isso sim, dum homem bem vestido, bem cuidado, bem-falante, bem acomodado na vida, e um contador de anedotas que não deve ter rival cá no rectângulo.
Sempre gostei muito de anedotas, mas com uma preferência especial para aquelas que se referem a alguns políticos.
Aliás, os políticos a que me refiro, são já em si uma anedota, pois qualquer dicionário nos diz que ela (a anedota) é a narração rápida dum facto jocoso ou uma particularidade divertida ou imaginária.
E eles (os tais políticos) não passam disso mesmo: são tão divertidos e, sobretudo, tão imaginativos que constroem um mundo à sua medida e maneira, e julgam-se os seus donos e senhores.
Vaidosos e narcisistas é vê-los e ouvi-los a arengar as multidões contando estórias do arco-da-velha...
Nesta espécie de pré campanha para as presidenciais – que até agora se tem centrado mais em ataques pessoais do que na preocupação de salvaguardar o futuro de Portugal – tenho ouvido várias anedotas e historietas, mas a que serviu de mote para esta minha divagação de hoje foi aquela em que o Dr. Soares, numa das suas rondas pelo país e interpelado por um emigrante disse ter sido também, ele, emigrante!...
Não disse onde nem o que fazia, nem se foi a salto ou se partiu apenas com uma mala em cartão.
E também não explicou a razão ou o motivo que o levou a “apoderar-se” de uma palavra cujo significado nada tem a ver com o seu exílio dourado em Paris, se foi esse o intuito que parece ter transparecido da sua afirmação.
Para muitos, o caso pode não ter grande importância. No entanto, para os verdadeiros emigrantes, para aqueles que emigraram por necessidade, que emigraram em busca de melhores dias, que trabalharam duramente para depois regressar e construir casa, e sobretudo para os que depois de muito trabalho dor e sofrimento, perderam tudo, para esses, as palavras do candidato à presidência foram deveras infelizes. E inoportunas…
Por mais sábio que se seja, há coisas com que se não deve brincar – os sentimentos dos nossos semelhantes.
Pessoalmente não gostei que o Dr. Mário Soares usurpasse a palavra. Não gostei da comparação. Talvez não tivesse a mesma reacção se fosse outro político a fazê-lo. Mas dita por ele…
Lembram-se do homem que disse que todos tínhamos o direito à indignação?!...

CARTAS SEM "SÊ-LO"...



Meu Caro Mário Alberto:

Permita-me que o trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse tratamento.
Resolvi escrever-lhe porque como o senhor disse uma vez “as pessoas têm direito à indignação”. E eu estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a dar lições de austeridade e aulas de política e de repente, querem que calcemos as pantufas e que de charuto na boca deixemos correr o marfim?
Isso é que era bom! Tá bem, tá!...
Por tudo isso, meu caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de nesta altura do “campeonato” lhe manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar.
Andam por aí esses rapazotes a fazer asneiras e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles continuem a esvaziar os cofres e a dar com tudo isto em pantanas?!...
Não queriam eles mais nada! A continuar este regabofe e com estes recrutas a esbanjarem tanto, onde iríamos buscar dinheiro para que os “nossos ex-qualquer coisa”continuassem a receber as chorudas reformas e a manter o seus “estatutos” de nababos?
Também o quero felicitar pelo seu sentido de antecipação e ter escavacado e feito em fanicos, alegremente, alguns dos seus compagnons de route e não só…Mas nisso eu duvido que não tivesse havido uma manobra de diversão e até uma certa marosca. Mas adiante!...
Nestas coisas da política conta mais o oportunismo do que propriamente a razão. E também conta muito a aventura!...
E a propósito de aventuras tenho lido quase tudo o que têm escrito a seu respeito e já ouvi até quem encontrasse alguma semelhança entre a sua corrida e alguns episódios do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha nomeadamente aquele do encontro com os dois “exércitos de ovelhas” que afinal não passavam de dois inofensivos rebanhos de caprinos, mas que mesmos assim foi sovado pelos seus pastores…
Enfim, factos que traduzem bem a inveja daqueles que a gente sabe… Mas isso não conta. Mesmo o Sancho, aquele do conto, do “Quadrado” é trova que o vento leva.
Continue a correr e se não ganhar o primeiro lugar no pódio, pode gabar-se de ter dado uma lição a esses fils à papa novatos e imberbes que andam por aí a fazer de contas que são políticos.
Sim, porque para dizer a verdade, continuamos a viver numa espécie de situacionismo anterior a 1974, embora o disfarcemos com pretensas reviravoltas. Eu pelo meu lado ainda não consegui ver nenhuma revolução moral ou cultural.
O que tenho visto é sempre a mesma coisa: o recrudescimento cada vez maior dos vira-casacas e dos oportunistas.
Consigo, e à terceira, será que isto muda como diz o provérbio?!...
Não voto em si, porque como acima disse, não somos do mesmo clube. Mas pode contar com a minha simpatia, porque fiquei contente por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter sonhos lindos…
Publicado no Jornal de Tondela em 03 de Agosto de 2005

CARTAS SEM "SÊ-LO"...



Senhor Governador:
Na impossibilidade de o fazer pessoalmente, porque V. Exa. não iria querer perder o seu precioso tempo com o Zé-ninguém que sou, e também porque apesar de se chamar Constâncio é, no meu entender, uma pessoa bastante “inconstante”, portanto difícil de saber em que “onda” está, resolvi enviar-lhe esta carta.
Sei de antemão que não se dará ao trabalho de a ler, mas o simples facto de a escrever, de extravasar o que me vai na alma, são como que uma espécie de lenitivo, um desabafo para esta mágoa que sinto ao ver desmoronar-se o Portugal que também ajudei a edificar e só Deus sabe com que sacrifícios!
Depois, senhor Governador, cheguei a um ponto que não sei em quem acreditar…
Será que os boateiros (o senhor incluído) têm razão quando dizem que isto de finanças vai mal, ou pelo contrário nadamos num “mar de rosas”, num mar de dinheiro, em que “uns tantos” se podem dar ao luxo de o gastar à tripa forra?
Este aperto do cinto, este sufoco em que a maior parte dos portugueses vive não será a consequência das vossas leviandades, das vossas faltas de escrúpulos, da vossa vaidade, da vossa incompetência e da vossa irresponsabilidade?
A ser verdade o que li nos jornais, admite-se que em ano e meio o Banco de Portugal tenha gasto com a frota de automóveis a quantia de 1,2 milhões de euros?
Será admissível que uma Instituição que deveria dar o exemplo de contenção desbarate tanto dinheiro com popós topo de gama, das mais variadas marcas e com os mais refinados extras para satisfazer a vaidade dos funcionários?
E é honesto também que passados três anos essas viaturas, de elevado preço possam ser adquiridas pelo seu utilizador apenas por dez por cento do custo inicial?!...
Apesar do meu calhambeque ser já do século passado, não foi a inveja que me levou a escrever.
Foi a revolta, a raiva e o desespero ao ver este velho Portugal a afundar-se devido a um punhado de sabotadores que não cessam de lhe fazer buracos no casco, sem que ninguém, com os pés bem assentes na terra, tenha coragem para estancar esta espécie de “hemorragia programada”!
Todos os dias e de todos os sectores o sangue jorra... É uma sangria constante. E ninguém acode ao moribundo. Pelo contrário. Todos tentam sugar até à última gota!
No Parlamento, na altura da apresentação do relatório anual do Banco de Portugal ao ser questionado acerca de ordenados da administração e quando respondeu dizendo «que trazer aspectos pessoais para a discussão seria ter uma visão errado do país», logo deu para ver que o significado do país a que se referiu não era Portugal, mas apenas e só o vosso país, o pais dos vossos interesses pessoais!
Bem sei que não é só nessa Instituição que há “atentados” à pobreza em que o dinheiro deitado pela porta fora, mataria a fome a muita gente. E o que ainda mais me revolta é que não tenho conhecimento de que nenhum desses senhores que quase todos os dias vêm à Televisão dizer que é preciso apertar o cinto, tenha dado o exemplo, prescindindo, em favor dos pobres, de parte do supérfluo que lhe entra pela porta dentro sem grande esforço.
O que digo nesta carta é o que muitos pensam, mas não ousam dizê-lo. Uns, por causa dos seus “rabos-de-palha”, outros porque poderiam prejudicar o filho, a filha, a nora, o genro, o neto, o compadre, eu sei lá que mais, que comem do mesmo gamelão.
E é por isso que há uns tempos a esta parte se têm vindo a formar, paralelamente, duas classes distintas, uma e outra a posicionarem-se nos dois extremos. Se folhearmos a História encontraremos casos semelhantes. Como alguém disse num discurso dos findos de 1832: “Na economia pública um povo não é feliz, ou desgraçado, na razão do muito que paga, mas sim na razão do bom ou mau uso que se faz do seu dinheiro…»
Publicado no Jornal de Tondela em 21-7-2005

CARTAS SEM "SÊ-LO"...



Senhor Professor:

Já uma vez me referi a V. Exa. aquando da inauguração, em Guimarães, da estátua do nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques.
Lembro-me de que na altura – e a propósito de o povo ter acusado Mestre Cutileiro de ter feito “um busto estilizado e não figurativo de um ser humano com uma espada e um escudo” –, fiquei admirado por não terem consultado o Professor, pois como seu biógrafo poderia dar uma ideia sobre as “parecenças” do Fundador.
Descrevi eu então o Professor como um homem multifacetado, polivalente e furta-cores.
Este episódio situa-se em meados de 2001, mas já nessa altura, mesmo que o tivesse adjectivado com o “furta-cores”, nunca pensei que as suas qualidades miméticas fossem assim tão poderosas.
É obra, Professor!...
Mudar de cor tão facilmente e com tanta descontracção, é façanha que não lembraria ao mais prestigiado e ousado camaleão! Mas “Ousar” faz também parte do seu curriculum, já que prefaciou o livro com o mesmo nome da autoria de Garcia Pereira do PCTP-MRPP. Nos primórdios do CDS acompanhei-o e assisti algumas vezes aos seus comícios que eram sempre baseados na democracia cristã – o alicerce do Partido que fundou.
E quem diria então, senhor Professor, que com esse peso e num movimento tão subtil e descontraído, conseguiria dar tamanho salto e mudar-se com armas e bagagem para o lado oposto da barricada?!...
Depois de ter abandonado sem quaisquer escrúpulos, morais ou políticos o Partido que fundou – e naquela sua outra cambalhota na corrida com Mário Soares para Belém, – parece que estou ainda a ver e a ouvi-lo exclamar, que quem não votasse em si era a mesma coisa que votar nos vermelhos!
Que desconcertante e incompreensível é toda esta série de mudança de convicções e de metamorfoses, Professor!
Talvez compreendesse esse mimetismo e essa facilidade de mudar de ideologia e de cor se se tratasse de um jovem ainda com a personalidade em fase de amadurecimento, perdido nesta barafunda de interesses, de vaidades e de ganâncias.
Agora que isso aconteça com uma personalidade que já ocupou altos cargos, inclusive, num Organismo internacional, confesso que nem com sais de frutas consigo “digerir” tão insólito procedimento.
É pena não haver na política uma espécie de “Olimpíadas” circenses onde fossem atribuídas medalhas de ouro aos melhores e mais meritórios e consagrados artistas – aos engolidores de espadas, aos acrobatas, aos contorcionistas, aos equilibristas, aos faquires, aos palhaços…
É pena, dizia eu, pois não faltariam concorrentes e o professor com certeza que não sairia do chapiteau com as mãos a abanar… Talvez até saísse com uma medalha de cada modalidade, quem sabe?!...
Mas falando agora mais a sério, Professor, entristece-me o facto de em cada dia que passa se avolumarem cada vez mais as minhas dúvidas quanto à reposição, no nosso Portugal, da lei da honra tradicional, viril e desinteressada, criadora de homens de um só rosto e de um só parecer, de antes quebrar que torcer…
Um País sem homens de carácter, sem ideal, e dominados apenas pela sede do lucro ou do protagonismo, não pode ter longa vida. Poderá até morrer. E com homens da sua estirpe, não faltarão coveiros para o enterrar.
P.S. Acabam de me informar de que foi nomeado para nos representar no estrangeiro. Um prémio pela cambalhota julgo eu. Será que agora, no novo posto, irá finalmente manter-se firme e hirto ou irá continuar as piruetas até “ousar” atingir o outro extremo?!...
Prudência Professor, pois como diz o ditado, o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro….
Publicado no Jornal de Tondela em 06 DE Março de 2005

quinta-feira, agosto 06, 2009

INJUSTIÇAS

Numa notícia publicada na Imprensa de 27 de Julho, passado, podia ler-se que três administradores executivos de uma empresa pública, a Parpública, responsável pela gestão do universo empresarial do Estado, foram contemplados com prémios de gestão referentes ao ano de 2007, no valor de 176,5 mil euros.
Por sete meses de trabalho o Sr. Pires – o presidente – teria recebido um prémio extra de 67.896 euros, enquanto que os senhores Albuquerque e Castel-Branco, foram “recompensados” com a bonita soma de 54.317 euros!
Acrescenta a notícia que a Parpública, que tinha apresentado em 2006 um lucro de 638 milhões de euros, em 2007, não foi além dos162 milhões. Pudera. É que o dinheirinho não é elástico. E com benesses dessa natureza e com outras que, com certeza, se lhes juntaram, não admira que os lucros encolhessem!
Mas lá que vale a pena ser gestor de uma empresa pública, lá isso vale!
E bem vistas as coisas não é preciso saber muita coisa, nem ser craque em matemática para ocupar um desses lugares de excelência. Nada disso. Se a passagem pelo elenco governativo é, muitas vezes, um trampolim para ocupar esse cargo, noutras basta uma cunhazita do ministro, de uma pessoa da sua família ou de um simples cartão da cor do “clube” para ter acesso a esses privilegiados lugares.
Também é necessário ter um coração especial, não ter grandes escrúpulos, nem ouvir muito a voz da consciência e não dar muita importância a essa gentinha que teima em viver com umas miseráveis centenas de euros por mês!
Os problemas desses milhões de gente anónima que trabalhou uma vida inteira, que nunca gozou férias, que enfrentou as inclemências da Natureza, que sobreviveu às ciladas da vida, que comeu o pão que o diabo amassou, não constam do imaginário desses senhores a quem nada falta, que nada fazem, que vivem de benesses e sempre protegidos e acoitados sob a manta do Governo.
Não admira, por isso, e no caso que nos ocupa, que o ministro das Finanças e da Economia, Sr. Teixeira dos Santos tivesse vindo em defesa dos “sortudos”, argumentando que “se o prémio lhes foi atribuído, é porque eles cumpriram as funções para que foram contratados, cumprindo os objectivos que estavam definidos no contrato. O Estado é uma pessoa de bem e respeita os contratos que celebra.”
Com o desemprego a aumentar, a pobreza a disparar, a recessão a espreitar, argumentos como estes põem a nu, de forma inequívoca, os sentimentos morais e solidários das gentes que nos governam!
Tais prémios ou regalias além do escândalo que representam são um insulto, uma ofensa grave, para àqueles que são obrigados a viver com duas ou três centenas de euros por mês.

sábado, agosto 01, 2009

QUEM FOI D. JOSÉ MANUEL DE CARVALHO?




D. José Manuel de Carvalho nasceu no Tourigo em 16 de Setembro de 1844. Fez o curso do Seminário em Viseu, onde se ordenou. Frequentou depois a Universidade de Coimbra onde se formou em direito. Em Viseu foi professor no Liceu e deu aulas de teologia no Seminário. Apresentado para o Bispado de Macau em 4 de Fevereiro de 1897, recebeu a confirmação papal em 19 de Abril e em 29 de Agosto embarcou para desempenhar o seu cargo na diocese de Macau-Timor.
Por motivo de saúde foi transferido para Angra em 1901, tomando posse da diocese em 1902.
Um dos últimos actos deste prelado foi uma provisão sobre o quinquagésimo aniversário da proclamação dogmática da Imaculada Conceição em 28-11-1904. Esse Ano Jubilar foi condignamente celebrado em 8 de Dezembro desse ano.
Em 24 de Fevereiro de 1904, faleceu repentinamente. Teve um funeral solene com a participação de uma força militar que deu as descargas do estilo, acompanhadas pelo troar das salvas da artilharia do Castelo de S. João Baptista.
Recorde-se que seu sobrinho, o Cónego Maximino Viegas de Matos Carvalho, foi seu secretário particular e seu testamenteiro. A propósito, diz-se que já D. José Manuel Carvalho sonhava com a criação da Freguesia de Tourigo e teria pedido a seu sobrinho que ajudasse na construção de uma Igreja e um cemitério para que esse sonho se pudesse concretizar.
Um outro pedido de D. José Manuel de Carvalho a seu sobrinho, teria sido a construção da actual Igreja em 1943. Só foi pena que a antiga capelinha a Stº. Amaro, um património do século XVII, tivesse sido destruída!...

A VISITA DE D. XIMENES



D. Ximenes Belo, bispo residente e administrador apostólico de diocese de Díli entre 1983 e 2002 e Prémio Nobel da Paz em 1996, esteve no passado dia 5 do corrente no Tourigo. Na véspera, no dia 4, proferiu em Tondela, no auditório da ACERT uma palestra sob o tema “Os Jovens e a solidariedade: razões para a praticar”, como foi já noticiado neste Jornal.
O motivo da passagem de tão ilustre personagem pela povoação relacionou-se com a vontade expressa por D. Ximenes de visitar o lugar onde nasceu D. José Manuel Carvalho, bispo de Macau e Timor e conhecer os seus eventuais familiares.
Acompanhado pelo director da Escola Profissional de Tondela, Dr. João Carlos Figueiredo, o bispo Emérito de Timor-Leste, chegou ao Tourigo cerca das 10h30 de sexta-feira, dia 5, dirigindo-se a seguir para a casa do falecido Cónego Maximino, hoje habitada por uma sobrinha-neta de D. José Manuel Carvalho, D. Maria da Conceição Matos Carvalho que ali vive com sua filha Maria Teresa e com a neta, Celine.
D. Ximenes Belo teve ocasião de trocar impressões com aquela descendente do Bispo de Macau e Timor, apreciar uma fotografia a óleo e ver vários objectos – o livro de curso, fotografias e peças de louça com o brasão -que foram pertença do seu colega que administrou a diocese de Macau e Timor entre 1897 e 1902, data em que foi nomeado para a diocese de Angra do Heroísmo, onde viria a falecer repentinamente na noite de 24 de Abril de 1904, com sessenta anos de idade.
D. Carlos Filipe Ximenes Belo visitou, a seguir, a Igreja paroquial, mostrando-se sensibilizado com o seu interior muito alegre, simples, mas muito convidativo ao recolhimento interior e à oração.
O almoço foi confeccionado e servido no Centro de Dia reunindo na mesma sala e num ambiente familiar, utentes, professoras e alunos da Escola que surpreenderam o Ilustre visitante agitando bandeirinhas dos dois países, Portugal e Timor, gritando, “Paz, sim, guerra não”.
Sentaram-se à mesa de D. Ximenes Belo, o Director da Escola Profissional de Tondela, João Carlos Figueiredo; o Engenheiro Dinis, em representação do Presidente da Câmara Municipal de Tondela; o Presidente e o Secretário da Junta de Freguesia do Tourigo, Amadeu Ventura, e Célio Viegas, respectivamente; o Presidente da Assembleia do Centro Social do Tourigo, IPSS, Nelson de Matos Almeida; os Senhores Padres Armando Costa e Alcides Vilarinho; a Assistente Social Rita Cardoso e o Presidente e Vice-Presidente do Centro Social, Manuel da Costa e António Costa Ventura, respectivamente.
No final da refeição, D. Ximenes Belo, usou da palavra para evocar a figura do seu colega, D. José Manuel Carvalho e agradecer a maneira simples, mas carinhosa como foi recebido, salientando a ornamentação da sala e o saboroso almoço confeccionado pelas colaboradoras do Centro Social.
O Presidente da Junta de Freguesia disse da honra e da satisfação que sentia por tão honrosa presença, agradeceu e desejou ao Bispo Emérito de Timor-Leste muita saúde e felicidades.