quarta-feira, abril 20, 2011

SEXAGÉSIMO ANIVERSÁRIO


A minha Sociedade comemorou há dias o sexagésimo aniversário da sua existência.
Para assinalar a efeméride, além da sócia maioritária que detém, não só a maioria do capital mandante como do falante, estiveram também presentes todos os actuais accionistas.
Seguindo os princípios do clã não houve grandes cerimónias e também não houve convidados.
Firmada sob o sol dos trópicos no dia 14 de Abril de 1951, conforme atesta a escritura acima reproduzida, a sociedade teve, ao longo dos anos, revezes vários, altos e baixos sem que, apesar disso, a sua estrutura de base tivesse sido afectada.
Renúncias, abdicações, sacrifícios, tudo isso foi superada pela vontade indómita do administrador delegado que conseguiu manter o seu bom-nome e, em alguns casos, até de conseguir que ela fosse apontada como exemplo de tenacidade e de vontade de vencer.
Aos dois sócios fundadores vieram, depois, juntar-se dois accionistas, sem capital, que mais tarde, cumprindo os preceitos dos Evangelhos, cresceram e se multiplicaram, elevando para dez o actual número de membros no activo.
Importa aqui referir a retirada de dois elementos que fizeram parte dos “quadros” da empresa, mas que merecem sempre uma referência carinhosa pelo seu contributo no crescimento da mesma. Igualmente de referir um elemento que se encontra à experiência, mas que merece, para já, o assentimento dos outros sócios.
A comemoração teve lugar na Sede onde, à volta da mesa, se juntaram todos as personalidades atrás mencionadas.
O almoço decorreu em ambiente familiar onde não faltou alegria, boa disposição e também uma pitada de irreverência trazida pelos mais e menos jovens que, simbolicamente, ofereceram aos fundadores, flores murchas com os respectivos revitalizantes!... Uma antecipação do que lhes acontecerá amanhã…
Foram momentos inigualáveis cheios de carinho e foi também uma espécie de bálsamo que nos confortou a alma e nos fez sentir orgulhosos. Orgulho, por depois de tanta labuta, termos a nosso lado, unidos, todos aqueles que mais adoramos, por quem já demos muito, mas de quem também muito já recebemos. E continuamos a receber…
Quando se aproxima o sol poente da vida, há momentos de tanta ternura e emoção que só através de Deus se poderão explicar!
Que Ele continue a presidir aos nossos destinos e que sejamos sempre todos merecedores uns dos outros.



quarta-feira, março 02, 2011

A IMAGINAÇÃO À SOLTA


Há dias em que a desilusão é mais forte, e então fecho-me dentro de mim e aí vai a imaginação a toda a brida. E lá vai ela: que voa, que rodopia, que desce, que sobe, mas sempre em torno do mesmo eixo, que é a Vida.
A Vida!... Este dia-a-dia cada vez mais materialista, mais cheio de risos amarelos, de sorrisos irónicos, de olhares de soslaio que mais parecem armas de arremesso.
Está assim a nossa sociedade: competitiva, invejosa, apressada, hipócrita, egoísta, traiçoeira e amoral.
Vive-se rodeado por uma corte de fingidos, de snobes, de manequins de plástico e de bonecas de silicone, cheias por fora e vazias por dentro.
Toda a gente quer parecer. Mesmo que não seja. O que importa é cultivar a imagem e não esquecer aquela regra que, em certos sectores, – sobretudo no público – confere superioridade: falar alto e grosso, para parecer superior, e intimidar os mais simples que, por humildade, se calam.
E neste grande palco com os mais variados cenários quase todos os actores, nas suas mais diversas e inéditas rábulas, têm como principal e único objectivo a exibição. Fingir, imitar, cultivar o faz-de-conta…
Em tudo! E em especial no que diz respeito a “posses”, a dinheiro, e também a sabedoria. Todos se fazem passar por ricos e sabichões. Não importa a área. Eles dominam todas as ciências. São polivalentes…
Se o coeficiente intelectual for baixo, e mesmo que não passe do zero, uma carteira bem recheada de notas resolve o problema e depressa transforma um burro num doutor.
O dinheiro!... Os “milagres” que ele não faz! E há por aí tanta nota vinda não se sabe de onde nem como!...
A trabalhar uma vida inteira, pergunto muitas vezes a mim mesmo, como é possível angariar fortunas em tão curtos espaços de tempo e, aparentemente, com tão pouco esforço!
Pergunta sem resposta! – Dir-me-ão os leitores. Mas talvez não!...
Li aqui há tempos, mais palavra, menos palavra e escrito por Gabriel Garcia Marques, que se procurarmos como se adquiriram certas fortunas, pelo caminho encontraremos quase sempre um cavalo morto…
Não é necessário explicar a metáfora, mas quando numa sociedade o dinheiro se sobrepõe à honestidade, à inteligência, à humildade, à justiça e à solidariedade, é caso para nos interrogarmos sobre o futuro. Que não será o meu, mas o dos meus netos. Mas será que eles pensam como eu?!...
Pára imaginação!... Deixa que eu goze o Presente. Deixa-me sentir o calor desta réstia de Sol que, sorrateiramente, aproveitou o intervalo entre duas nuvens negras, se escapuliu, entrou pela janela, e veio fazer-me companhia!...























sábado, janeiro 22, 2011

A MÁQUINA DO TEMPO


112, Lexington Avenue Bridgeport USA
Esta não é uma morada ao calha. Esta é a morada, cujo passado eu andei a investigar durante este fim-de-semana, aproveitando as maravilhas da tecnologia, confortavelmente sentado na minha cadeira e em frente ao meu computador, sem vontade para sair de casa por causa da confusão da cimeira.
Ali, há quase cem anos, a 28 ou 29 de Junho de 1917, o Ezequiel e o Custódio terão dado um abraço, um abraço apertado, umas quantas palmadas nas costas, sorrisos largos, o Custódio disse "estás com bom aspecto, primo, as gringas tratam-te bem!", e o Ezequiel retorquiu "e tu, deste-te bem lá pelas terras do Brasil?". Devem ter morto as saudades, partilhado esperanças e brindado a um futuro melhor. Não consta que tenham ressonado apesar da quantidade de bebida ingerida.
O Custódio Marques tinha chegado ao porto de Nova Iorque, no navio "Vauban" vindo do Brasil, via Buenos Aires. Às autoridades aduaneiras, disse ter 23 anos e a fortuna de 10 dólares, de ter sido ele a pagar a sua viagem e que ia para a casa do primo Ezequiel Henriques. Vinha para trabalhar mas fazia tenção de regressar para o seu país de origem. As autoridades registaram-no como física e mentalmente são, capaz de ler e escrever, sem cicatrizes ou marcas especiais, de olhos castanhos e cabelos pretos.No mesmo navio vieram, de Santa Comba, o João Almeida, com 24 anos e 32 dólares e o Augusto Leonardo, de 22 anos e com 35 dólares, mas foram para outras paragens.Em Setembro do ano seguinte, no dia 12, o Custódio foi obrigado a ir à inspecção militar. Apesar da primeira grande guerra se aproximar do fim os americanos queriam toda a gente alistada.No cartão de registo, o Custódio escreveu que tinha nascido a 25 de Agosto de 1893, que era operário na Remington Arms Co. de Bridgeport, uma empresa de fabrico de armas e munições, e assinou-o declarando que tudo aquilo era verdade. As autoridades atestaram que o meu avô não tinha perdido nenhum braço, perna, mão ou olho, não estando obviamente desqualificado para o serviço. Na história da Remington, este dia ficou marcado por uma missa em comemoração do fabrico do ultimo rifle dum grande contrato com o exército dos EUA, a que compareceram, entre importantes figuras do exército e da marinha, mais de 14,000 dos seus empregados.Diz o ditado, e é verdade, que quando vai um português vão logo dois ou três! A dada altura, naquela morada terão habitado o Custódio, o Ezequiel, o Moyses Mattos Affonso, o Júlio Reis e o José Henriques. Outros mais se juntarariam:
O Roberto Ventura, filho de Manuel M. Ventura, que chegou no dia 18 de Fevereiro de 1920 no navio "Britannia", com 22 anos e 50 dólares; com ele vieram também o Sabino de Matos e o Alberto Mattos Almeida.No dia 5 de Outubro de 1920 atracou no porto de Nova Iorque o navio "Providence". Um dos passageiros era o Joaquim Ventura, agricultor, que vinha para casa do irmão Custódio. Declarou 20 anos e 20 dólares, que não era nem polígamo, anarquista nem aprovava o uso de força para derrubar o governo americano e não sabia quanto tempo ia ficar. As autoridades consideraram-no mental e fisicamente são e sem quaisquer deformações. Com ele vieram o Joaquim Marques Matos de 28 anos e o Manuel Antunes de 38, com 30 dólares cada um.
Aos habitantes do 112 da Lexington avenue em Bridgeport, Connecticut, as autoridades americanas chamaram Tourigo Boys e, durante anos, mantiveram uma apertada vigilância.
João Ventura da Costa, in JORNAL DE TONDELA

sábado, janeiro 08, 2011

«VIVER É AFINAR UM INSTRUMENTO...»

Estou a escrevinhar estas linhas no começo da noite do terceiro dia deste novo ano de 2011, por coincidência, uma segunda-feira, um dia nada recomendável para que se peça aos neurónios ajuda para alinhavar qualquer coisa de jeito.
Além disso não tenho já muito tempo, pois tenho de entregar o papel amanhã de manhã. É sempre assim. Nunca tenho tempo quando não quero ter tempo, quando quero arranjar uma desculpa…
E então começo a recriminar-me e a falar com os meus botões: - ontem podia ter escrito qualquer coisa. Mas ontem já passou. Esvaiu-se… O tempo não volta para trás. Não pára. O futuro de ontem é hoje o presente. E hoje está quase a ir embora, é quase meia noite…
Mas escrever sobre o quê?!...
Tenho à minha frente a crónica da semana passada em que dizia que enquanto não houvesse alguém capaz de dar um murro na mesa e de pôr fim ao baile, a coisa não ia ao sítio.
Mas estou agora a ver que me esqueci de dizer que o baile a que me referia, era este baile de máscaras a que assistimos todos os dias. Máscaras, mais máscaras - um país de mascarados!
As estatísticas que nos chegaram no final de 2010 e que nos põem no topo das coisas más e no sopé das boas, são a prova evidente de que temos de mudar. Mudar de vez. É tempo de aprender, de evitar o que deveríamos ter evitado ontem. De ver o mal que fizemos. E desse balanço, dessa reflexão é que devemos arranjar material para construir o tempo de hoje e preparar o tempo de amanhã – o futuro. Que poderá ou não ser nosso, mas que será com certeza dos nossos filhos, dos nossos netos.
Enganam-se aqueles que me rotulam de pessimista. Aliás disse-o na semana passada. Sou, por natureza, optimista. Sou um defensor acérrimo do conceito «Não beba champanhe só nas vitórias, beba também nas derrotas. O sabor é o mesmo e é nas derrotas que você mais precisa...»
E foi o que aconteceu no final do ano, depois de conferir os meus palpites do Euromilhões, do Totoloto e da Lotaria. Afoguei as mágoas E toca a afogar as mágoas!
Fim de ano. Trezentos e sessenta e cinco dias que foram morrendo, enlutados apenas pelo negro de outras tantas noites.
Um ano de angústias e de promessas não cumpridas. De mentiras e de piruetas desses pinóquios da democracia, desses vendedores de banha de cobre, que são os políticos. De injustiças e de hipocrisias mal disfarçadas, cometidas, sobretudo, por quem deveria dar o exemplo…
É assim a vida – vive-se, briga-se, esquece-se, lê-se, escreve-se, perdoa-se e sobrevive-se!
É assim a vida. Como um romance que se escreve à noite, e se lê de manhã. E todos os dias se vira uma página…
Como diz a canção: «Viver é afinar um instrumento / de dentro pra fora / de fora pra dentro / a toda a hora / a todo o momento / de dentro pra fora / de fora pra dentro…»



























quarta-feira, janeiro 05, 2011

MÃOS AO AR...2011 VEM ARMADO!...

Meus caros Amigos e pacientes leitores:
Confesso-vos com toda a franqueza que não sei como começar esta crónica de hoje.
E a minha maior dificuldade reside no facto de não querer usar aquelas frases feitas, aquela lengalenga rançosa e hipócrita de votos dum Novo Ano cheio de prosperidades, com muita saúde, etc. e tal.
E não queria, porque, se sou sincero ao desejar-vos boa saúde, como posso eu garantir-vos uma coisa tão abstracta e tão difícil de encontrar nos tempos que correm, como é a prosperidade?
Todos sabem como quero bem aos meus leitores e que só desejo que todos os seus sonhos se realizem. Mas em vez desses lugares-comuns eu queria, sem rodriguinhos, dizer-lhes o que me vai na alma…
Dizer-lhes, por exemplo, que o ano que agora começa, por muito que isso nos custe, vai ser ainda pior do que o que agora findou; que por mais que nos martelem o bichinho do ouvido com promessas de melhoria, tudo isso não passa de conversa da treta e que as eleições que aí vêm, nada mais mudarão do que o inquilino de Belém.
E dizer também que enquanto todos nós não nos convencermos de que é preciso trabalhar, produzindo e poupando, continuaremos cada vez a afastar-nos mais dos nossos outros parceiros europeus.
Já repararam que nos seus discursos, os nossos políticos, só dão palpites e que a palavra “trabalho” raramente é pronunciada?!
Portanto de nada vale andarmos a desejar prosperidades, a fazer votos de um bom novo ano e coisa e tal, porque tudo isso não passa de conversa fiada que só serve para nos enganarmos a nós mesmos e arrastar os outros para esse estado eufórico e fictício em que vivemos.
Financeiramente falando, já se deram ao cuidado de verificar a situação de qualquer dos políticos que passou pelo Governo depois do 25 de Abril?!
Já ouviram ou leram que algum deles tivesse prescindido de qualquer das suas benesses em favor dos que mais precisam? De todos os casos em que foram julgados, algum foi parar à cadeia? Do nosso dinheiro que por eles foi desbaratado, a algum foram pedidas contas? Algum foi responsabilizado por má gestão? E pelos inúmeros desvios que têm havido?!...
Portanto, meus amigos, enquanto não houver alguém que dê um murro na mesa e mande parar o baile, continuaremos a afastar-nos dos parceiros europeus e a aproximarmo-nos cada vez mais dos países do Terceiro Mundo onde há milhares de ricos muito ricos e milhões de pobres...muito, muito pobres.
Sou, por natureza, optimista… A tal ponto que até continuo a sonhar com um Portugal mais humano, mais solidário e mais justo. O que não vejo – nem sonhando!..., – é alguém que transforme esse sonho em realidade.
Portanto, meus amigos preparem-se, porque 2011 vem de lança em riste. E pronto a levar-nos couro e cabelo…




















segunda-feira, dezembro 27, 2010

NOITE DE NATAL

Este ano fomos passar o Natal com a família do Norte – Vila Nova de Gaia. Menos frio do que aqui na aldeia, mas mesmo assim as temperaturas eram baixas.
Visitámos umas das “catedrais” do consumo. Muita gente e poucos sinais que indiciassem a crise por que estamos a passar. Talvez tivéssemos sido influenciados pela afluência às lojas onde muitos vão, mas nem todos fazem compras…
Salvo raras excepções é tudo gente apressada. Uma correria infernal. Só as crianças, ainda indiferentes à cavalgada da vida, olham sorridentes, olhos gulosos, os atraentes brinquedos expostos nas lojas da especialidade.
As canções de Natal, ora na toada antiga, ora em arranjos modernos, enchem o espaço, mas parece que ninguém nota muito a diferença. Dá-nos a impressão que o que conta é o barulho. Talvez um barulho diferente de outras épocas do ano, não tanto pelos acordes, mas mais pelos cheiros da quadra natalícia. Antigamente a música identificava uma época do ano com mais rigor. Hoje nem sempre isso acontece e a tendência é para derrubar essas fronteiras musicais. A melodia cedeu o lugar a um barulho tão ensurdecedor que quase se confundem os ritmos. Sinais dos tempos!...
Noite de consoada em família. O fiel amigo, ainda fumegante, acompanhado pelo respectivo séquito – couves, cebolas, ovos, batatas – presidiu, como manda a tradição, à cerimónia, e mal chegava aos pratos, logo era ungido com fino azeite, seguindo-se, conforme os gostos, a adição de alho picado.
Doces da quadra onde imperavam as rabanadas, rodeadas pelo bolo-rei, pelas filhós de abóbora e outras doçuras enchiam a mesa. Bebidas diversas e tradicionais testemunhavam a solenidade do momento sem qualquer descriminação, pois até o estrangeiro champagne se juntou à festa!
Meia-noite! Abriram-se as prendas e eis senão quando lá do presépio ouviu-se uma voz:
“Era Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!...”
Fez-se silêncio na sala e a vozita continuou:
“Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
Foi este o Natal de Jesus?!...” (*)

(*) Excertos de “Natal de Quem?” de João Coelho dos Santos




quinta-feira, dezembro 09, 2010

Nada mudou... ou mudou para pior?!...

( 1850 - 1923 )


Muito se tem dito, escrito e apregoado quanto à necessidade de uma mudança de mentalidade do povo português.
Interrogo-me muitas vezes sobre esse desejado “ milagre”e, à medida que o tempo passa, cada vez me parece mais longe essa possibilidade. A nossa maneira de pensar, de agir, enfim, a nossa maneira de ser é imutável.
A esse respeito e a juntar a vários textos antigos que tenho lido, recebi há dias, de um Amigo, com o título acima, um excerto de um texto de Guerra Junqueiro escrito em 1896 sobre o que éramos (e somos) que quero partilhar com os leitores, reforçando assim a minha opinião sobre o assunto:
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Como os leitores podem verificar, este texto, escrito há mais de um século, está actualíssimo e mostra à saciedade, que por mais voltas que o Mundo dê, não mudamos.
E tanto poderá ser um castigo que Deus Nosso Senhor nos infligiu, como uma praga que o Diabo nos rogou!...


OS PEQUENOS DITADORES



O País está atulhado deles. Há-os por todo o lado. Grandes e pequenos. Intelectuais e analfabetos. E existem tanto na esquerda como na direita.
No Governo, na Assembleia da República, nas Secretarias de Estado, na Justiça, na Saúde, nos Sindicatos, nas Fundações, nas Comissões de Inquérito, nos Municípios, na Imprensa, nas Escolas e em todos os lugares onde lhes cheire a poder, eles espalham-se e escondem-se por todo o lado como piolho em costura!
Saímos de uma Ditadura maior para ditaduras menores, mais disfarçadas, mas não menos nefastas…
E são essas pequenas ditaduras que geram sentimentos de medo por parte dos subalternos que, por sua vez, criam à sua volta, e em simultâneo, climas de bajulação e de denúncias.
Com medo de se perder o emprego, o estatuto ou os privilégios, lisonjeia-se o chefe e denuncia-se o colega.
Não há moral, não se respeita a ética, e ignoram-se os ditames de consciência – a integridade que deve caracterizar qualquer ser humano desaparece.
Muita gente vê o autoritarismo apenas sob a perspectiva do Estado enquanto opressão do poder político. Mas isso não é totalmente assim.
O autoritarismo é uma manifestação de egoísmo que pode manifestar-se em qualquer sector da sociedade, dependendo apenas do alto conceito que cada um atribua a si mesmo. A ambição, a vaidade, o protagonismo e a supremacia em relação ao semelhante, pode desencadear esse sentimento
Um lugar de chefia é, geralmente, a rampa de lançamento mais usada para a propulsão do prepotente.
Há instituições particulares que apesar da sua fachada democrática e da sua orientação pedagógica e científica, apresentam, por intermédio do seu chefe, um carácter opressivo.
E, paradoxalmente, é nessas instituições em que a liberdade, a sinceridade, o respeito mútuo, a civilidade e o diálogo deveriam, acima de tudo, sobrepor-se a qualquer outra forma de actuação.
Esses pequenos ditadores consideram-se profetas de um novo Mundo e exercem os seus cargos como de feudos se tratasse, erguendo muralhas e fossos de protecção e usando o poder que a função lhes confere para reforçar a sua vaidade pessoal e o domínio sobre os outros.
E há casos em que eles não só exercitam a sua prepotência sobre aqueles que gravitam à sua volta como também tentam estender os seus tentáculos para o exterior. Com sucesso algumas vezes, mas muitas mais sem conseguirem atingir o seu objectivo. No primeiro caso porque o alvo se presta a chantagem, no segundo porque há ainda quem não tema quaisquer represálias sejam elas de carácter ideológico, profissional ou meramente pessoal.
O pequeno ditador, geralmente, não é inteligente. Mas é esperto. E é narcisista, hipócrita, vingativo, manhoso, mas covarde quando atacado frontalmente. Não sei se algum dos meus leitores já alguma vez foi alvo dessa casta de indivíduos. Se não, acautelem-se.





segunda-feira, novembro 08, 2010

UMA VERDADE COM 2065 ANOS!...


Se fosse eu que mandasse cá neste jardim zoológico, mandava afixar na Assembleia da República este texto de Marcus Tullius Cicero com a última frase em letras gordas:
"AS PESSOAS DEVEM NOVAMENTE APRENDER A TRABALHAR, EM VEZ DE VIVER POR CONTA PÚBLICA."
Dos 230 deputados, quantos já fizeram alguma coisa na vida? Cambada de mandriões e de incompetentes!...

domingo, novembro 07, 2010

E V O C A Ç Ã O


Embora seja vertiginosa a marcha com que se desloca a carruagem da nossa existência, nem por isso ela foge às Leis previamente estabelecidas.
Assim, em cada paragem, ela se detém, a porta abre-se, e algum dos passageiros tem de abandonar a composição...
Uma velha desdentada, rosto macilento, olhos esbugalhados, garras aduncas, gadanha em punho, desenrola o pergaminho da lista fatal e, indiferente ao que se passa à sua volta, faz a chamada: "Manuel, ou António, ou Maria, ou Francisco, desce, porque é aqui o fim da tua viagem!..."
E não há desculpa ou pretexto que valha! É assim a Morte – imprevisível, tirânica e inexorável. Ninguém escapa ao seu chamamento. No palácio do Rei ou na choupana do pobre, ela está presente, e no dia marcado ela bate à porta e, mesmo sem permissão, ela entra.
Já os Egípcios, quando ofereciam grandes banquetes, costumavam expor à vista dos seus convidados um esqueleto de madeira com a seguinte legenda: "Comei, bebei, e diverti-vos, mas não esqueçais que um dia sereis igual a ele..."
Interpretação diferente lhe davam os primeiros cristãos que consideravam o dia da morte o dies natalis – o dia do nascimento. Morre-se para os homens, mas nasce-se para a Eternidade!
Foi tudo isso que me perpassou pela mente no Dia de Finados quando contemplava aquela lájea musgosa e silenciosa, onde depus quatro crisântemos com as pétalas ainda molhadas pela orvalhada da noite.
Uma lágrima teimosa desceu pela cara tisnada e rugosa e quedou-se por instantes nos lábios trementes, lembrando alguém que não conheci.
Como é doloroso evocar alguém que não conhecemos em vida, mas cuja lembrança constantemente nos acompanha!...
É uma mistura de saudade tão pungente e de tristeza tão dorida, que não se consegue explicar. Sente-se e connosco vive.
Flores, velas, orações e lágrimas! Lágrimas... de saudade umas, de remorsos outras. Mas para nós, cristãos, não será hipocrisia chorar pelos mortos?
Não serão as lágrimas mais apropriadas para aqueles que estão como que amortalhados na frieza, na indiferença, no abandono, sofrendo carências de toda a ordem e por isso antecipadamente sepultados no coração dos vivos?
É que, nestes dias em que os cemitérios se enchem, há, entre essas multidões, e à mistura com testemunhos de sincera saudade, uma grande quota parte de hipocrisia, de vaidade e de ostentação, com que se pretende esconder aos que ainda estão em vida, aquilo que não se deu aos que já morreram.
Como disse Santo Agostinho: "Flores e lágrimas são alívio dos vivos, mas não refrigério dos mortos..."
Reflexão em dia de romagem ao Cemitério –02-11-2010)





sexta-feira, novembro 05, 2010

CAPA E VERSO DO EP DO RICARDO



Isto é a capa e o verso do EP que o menino que ouviram cantar - Ricardo Ventura da Costa que adoptou o nome artístico de Richie Campbell - acabou de lançar. Podem comprar em qualquer espaço FNAC.
Boa sorte, Ricardo!

segunda-feira, novembro 01, 2010

É TÃO BONITA A VIDA!...


A Vida, no seu mais simples e real significado, é uma história que encerra muitas outras histórias. E a vida de cada um de nós tem as suas.
E, como num livro, os capítulos sucedem-se e a acção desenrola-se aguçando a nossa curiosidade, mas escondendo sempre, de forma ardilosa, o desfecho final!
E felizmente que assim é!...
Alegrias, tristezas, esperanças, fracassos, enganos, desenganos, vaidades e desânimos, são pedaços de romance que desfilam e ladeiam a nossa existência sem, contudo, forneceram qualquer indício quanto ao seu epílogo.
E assim, – uns guiados por essa luz da esperança que é a Fé, outros pelo fascínio do desconhecido que os atrai – lá vamos todos, e cada qual à sua maneira, folheando o livro, página após página, sem nunca sabermos como, nem quando chegamos ao fim...
Os que lêem as minhas crónicas devem admirar-se desta minha insistência neste tema que é a Vida – a passagem por este mundo. Acredito até que muitos possam crer que tal facto se deve à decrepitude, a uma senilidade galopante. Pouco importa. Mas a vida fascina-me apesar de todos os encantos, desencantos, rasteiras e trambolhões, que tive de transpor. E isso talvez por só agora começar a gozá-la em toda a sua plenitude e sem paixões – nas cores, nos odores, nos olhares, nas pessoas, nas coisas e em tudo o que me rodeia!
Como um apaixonado, sofregamente, eu “respiro-a” e tento conservar dentro de mim, por tempo infinito, essa lufada de esperança que me enche a alma.
É sempre difícil, quando fazemos da escrita uma confissão, escondermos o que vai dentro de nós. Ser sensível é uma outra maneira de compartilhar da tristeza dos outros. Fazer o papel da esfinge de pedra que não ri, que não chora, que não se emociona é, em certos momentos, uma outra forma de hipocrisia.
O sentimento é a música do nosso mundo interior que faz parte integrante do nosso eu. Quando exteriorizado com dignidade, sem vergonha e sem fingimentos, ele é, conjuntamente com o pensamento, a expressão da nossa verdade.
E é por isso que eu canto a vida, todas as manhãs, cedo, quando abro a janela do meu quarto e assisto ao espreguiçar do dia. É mais um, murmuro baixinho...
Todos nós dizemos saber que temos de morrer um dia. Mas se dizer que sabemos, é tarefa fácil, convencermo-nos disso e aceitá-lo sem temor e sem reservas... isso é que é mais difícil!
Entretanto e como nada pode parar os ponteiros do relógio da vida, aproveitemo-la da melhor maneira.
E para aqueles que acreditam que há Vida para além da morte, uma das condições essenciais para ter direito a essa dádiva divina, é tentar seguir o caminho certo, que é, como disse o poeta, "abrindo aos outros o nosso jardim: oferecer aos outros as flores das nossas capacidades e valores..."

terça-feira, outubro 05, 2010

FIM DA COMEMORAÇÃO


"Via o meu campo maninho
Plantei vinha. E em conclusão:
Cada vez mais pobresinho
Levae-me a adega de vinh!
Dae-me um bocado de pão!"
Anúncio
"Burro
Perdeu-se em Belém
Com os seguintes signaes:
Ruço, malhado nos lombos
E com chagas nos ilhaes."
Qurem achal-o? Pois bem:
Escusam de andar aos tombos
À procura do jumento.
Dão com elle qualquer dia.
Se não estiver em S. Bento,
Na Academia!
Rivarol - Idem

O QUE NÃO TEM REMÉDIO!...

" (...)
"(...) Tantas vezes se dissera que a situação de Portugal em face das grandes potências era a mais difícil e a mai crítica; tão habituados andávamos já com a ideia de que, mais dia, menos dia, essa pequena mancha amarella que indica ainda Portugal na carta da Europa se apagaria por completo como se lhe passassem uma esponja embebida no anti-nódoa; tão desiludidos do futuro nos diziamos, e tão seguros do mal que nos esperava, andávamos, que ninguém já cuidava de encontrar remédio, que assim vínhamos vivendo na certeza de que o que não tem remédio, remediado está!...(...) "
Paródia de 19 de Dezembro de 1900
É sina, meus amigos!

100 Anos de República - O eterno expectador!...

" (...) Os ministros, em toda a parte do mundo e em todos os tempos, encontraram sempre que comer, ainda mesmo nos paizes onde cada novo ministério que chega se apressa a em declarar às Camaras que o thesouro se acha exhausto - para evitar desconfianças. Os ministros quando não têm mais que comer, comem-se uns aos outros. Consta que o próprio Saldanha, quando ficou só no poder, acumulando as sete pastas, à falta de melhor - roeu as pastas... (...) "
Paródia de 26 de Setembro de 1900

Na comemoração dos 100 anos da República


Para comemorar à minha maneira os 100 anos da República, fui folheando a "Paródia" do ano de 1900, e como podem verificar pela ilustração anexa, já nesse tempo havia "ratos" a participar no Orçamento.
Depois, para verem como as coisas se passavam já naquele tempo, encontrei esta pérola que vos deixo:
Na Boa Hora
Vendo entrar o reu, o feroz Matheus Teixeira de Azevedo grita-lhe:
- Então você ainda antes de hontem cá esteve e já volta?!
- É verdade, sr, juiz, como o tempo passa!
Somos assim e nada há a fazer....

quinta-feira, setembro 02, 2010

A FESTA DO TANQUE DE - 27 A 29 -8-2010

Os assadores















Seguindo costumes pagãos, revivendo a mitologia e também em homenagem às Divindades do Mar e das Águas – as Sereias – realizou-se nos dias 27, 28 e 29, a chamada “Festa do Tanque” que reuniu gentes do Norte e Sul do País.
O local escolhido foi uma mansão beirã onde existe um reservatório de 30.000 litros de água construído em granito que remonta aos primórdios do século IXX.
O local é aprazível, e o reservatório, elevado à categoria de piscina, está rodeado de vinhedos e de glicínias que o bordejam e lhe conferem uma beleza rústica de fazer inveja às pérgulas dos solares antigos descritos nas páginas dos livros dos nosso grande escritor Júlio Dinis!
E foi nesse cenário maravilhoso, em convívio familiar e alegre que se desenrolaram os festejos, interrompidos de quando em vez por umas degustações pantagruélicas e libações a condizer.
O momento alto da festa teve lugar no dia 28 em que para surpresa dos anfitriões, mas sobretudo da “Chefe”que detém o monopólio dos Tachos & Similares, a mesa da sala de jantar se encheu de diversas iguarias, de petiscos irresistíveis, de diversificadas bebidas, não faltando até o barril de onde esguichava a cerveja à pressão!
Durante a preparação dos acepipes, a porta da cozinha esteve vedada a estranhos, o que não agradou à Chefe que se viu assim afastada dos seus domínios.
Os assadores, por seu turno, esmeram-se também nos grelhados e contribuíram também para a maravilhosa decoração gastronómica da mesa que fazia crescer a água na boca só de olhar!
Da família, faltou apenas o artista, mas também esteve presente, porque assistimos, via Internet, à sua magnífica actuação em palco, na vizinha Espanha.
Um Fim-de-semana que ficará gravado…no coração. Um sincero e sentido obrigado a todos que nos proporcionaram tão agradáveis e carinhosos momentos.
Numa pequenina prece a Deus, ousamos pedir-lhe que nos dê saúde para que, para o ano, possamos de novo reeditar tão ternos e felizes momentos.

quarta-feira, setembro 01, 2010

A CASA DOS PORTUGUESES E O COLÉGIO DE KINSHASA

A Casa dos Portugueses foi fundada a 25 de Fevereiro de 1947, sob a forma de Sociedade Cooperativa, conforme os Estatutos submetidos às autoridades do país, em 18 de Abril de 1947 e aprovados pelo decreto lei nº 11/187/16/10J, de 17 de Março de 1952.
De 1947 a 30 de Junho de 1960, a Casa dos Portugueses constituía um centro de convívio social da Comunidade aqui residente, tendo como principais actividades: a organização de vários festejos populares, exposições de natureza comercial, a prática de algumas modalidades desportivas e recolha de fundos para aquisição de uma propriedade destinada à construção da Sede do Clube e campos de jogos.
Em 6 de Setembro de 1965, foi decidido abrir uma Escola que pudesse resolver o problema que sempre se pôs à Comunidade e que, apesar da dedicação individual de algumas pessoas (Professoras), que particularmente leccionavam em suas próprias casas ou em precárias instalações, ia subsistindo sem que se conseguisse suprimir as necessidades das respectivas crianças e jovens.
Perante este cenário, em 6 de Outubro de 1965, o Colégio Português de Kinshasa abriu as suas portas, pela primeira vez com 37 alunos, confiados a duas professoras, tendo o respectivo ano lectivo terminado com um total de 54 alunos.
Por consequência das pilhagens ocorridas em Setembro de 1991, uma grande parte da Comunidade Portuguesa residente no Zaire (actual R.D. Congo), confrontada com a perda dos seus empregos, a instabilidade e a insegurança reinantes na época, foi obrigada a sair do País arrastando consigo uma parte significativa dos alunos que até então estudavam no Colégio Português de Kinshasa.
Ao fim de 5 anos, foi eleita a nova Direcção, animada por um forte espírito de equipa e com muita vontade em servir a comunidade portuguesa, procurou dar vida à instituição organizando para isso vários eventos desportivos, convívios entre as várias comunidades procurando com os poucos meios e recursos financeiros de que dispõe, reparar os estragos provocados pelos sucessivos acontecimentos acima referidos.
Para dar uma melhor formação aos filhos de portugueses, contratou novas professoras. Além do funcionamento normal de todo o projecto escolar, a direcção resolveu criar, com o apoio das professoras, um curso de Cultura e Geografia de Portugal, para os alunos, filhos de portugueses, que se encontram a estudar em escolas estrangeiras para que estes nunca percam a sua ligação à pátria e para lhes facilitar uma melhor integração.
Fonte: Escola Portuguesa de Kinshasa

sexta-feira, agosto 20, 2010

OS CAMINHOS SINUOSOS DA HISTÓRIA



"...Na galeria da História, há nomes que não esquecem e outros que até deixam saudade. Salazar é um deles! Por isso é que de todos os lados, inclusivamente gente da oposição, que outrora o combateu, ao ver o descalabro em que Portugal se afunda, clama. "Quem dera outro Salazar". É Portugal a vingá-lo do camartelo destruidor da revolução ignara (…)"
(…) Nem sempre a pedra tumular fecha o palco da vida. Os actos que tantas vezes se ensaiaram e representaram, as cenas do quotidiano de que se fez história, deixaram a "suspense" no clímax do seu desaparecimento, levando os espectadores a interrogar-se como em acção de narrativa aberta: e depois?
Já lá vão catorze anos que se finou Oliveira Salazar, personagem principal da cena política portuguesa durante algumas décadas. Mas o túmulo, se lhe guarda os despojos, não lhe encerra a alma nem a obra,
que continuam vivas: a alma em Deus, e a obra na lembrança de todos os bons Portugueses e na realidade visível do torrão nacional, onde, mesmo mudando-lhe o nome ou cobrindo-a de adjectivos grotescos, na
tentativa de a desvirtuar, clama bem alto que foi uma época de progresso a todos os níveis; época em que o nome de Portugal era pronunciado com respeito em toda a parte, menos pelos bandoleiros internacionais que, ao menos, o temiam, e pelos inimigos e falsos amigos que não toleravam a altivez dada pela independência de quem, não se sujeitando á canga que pretendiam impor-nos sob a aparência
de liberdade, democracia e modernização, poderia colocar como divisa da sua governação o grito célebre de José Régio nas estrofes gloriosas e imortais do Cântico Negro: "Não vou por aí (…)”
Padre Cândido de Azevedo numa homilia na capela do Vimieiro onde, com o cónego Simões Pedro, concelebrou uma missa.