terça-feira, outubro 05, 2010

FIM DA COMEMORAÇÃO


"Via o meu campo maninho
Plantei vinha. E em conclusão:
Cada vez mais pobresinho
Levae-me a adega de vinh!
Dae-me um bocado de pão!"
Anúncio
"Burro
Perdeu-se em Belém
Com os seguintes signaes:
Ruço, malhado nos lombos
E com chagas nos ilhaes."
Qurem achal-o? Pois bem:
Escusam de andar aos tombos
À procura do jumento.
Dão com elle qualquer dia.
Se não estiver em S. Bento,
Na Academia!
Rivarol - Idem

O QUE NÃO TEM REMÉDIO!...

" (...)
"(...) Tantas vezes se dissera que a situação de Portugal em face das grandes potências era a mais difícil e a mai crítica; tão habituados andávamos já com a ideia de que, mais dia, menos dia, essa pequena mancha amarella que indica ainda Portugal na carta da Europa se apagaria por completo como se lhe passassem uma esponja embebida no anti-nódoa; tão desiludidos do futuro nos diziamos, e tão seguros do mal que nos esperava, andávamos, que ninguém já cuidava de encontrar remédio, que assim vínhamos vivendo na certeza de que o que não tem remédio, remediado está!...(...) "
Paródia de 19 de Dezembro de 1900
É sina, meus amigos!

100 Anos de República - O eterno expectador!...

" (...) Os ministros, em toda a parte do mundo e em todos os tempos, encontraram sempre que comer, ainda mesmo nos paizes onde cada novo ministério que chega se apressa a em declarar às Camaras que o thesouro se acha exhausto - para evitar desconfianças. Os ministros quando não têm mais que comer, comem-se uns aos outros. Consta que o próprio Saldanha, quando ficou só no poder, acumulando as sete pastas, à falta de melhor - roeu as pastas... (...) "
Paródia de 26 de Setembro de 1900

Na comemoração dos 100 anos da República


Para comemorar à minha maneira os 100 anos da República, fui folheando a "Paródia" do ano de 1900, e como podem verificar pela ilustração anexa, já nesse tempo havia "ratos" a participar no Orçamento.
Depois, para verem como as coisas se passavam já naquele tempo, encontrei esta pérola que vos deixo:
Na Boa Hora
Vendo entrar o reu, o feroz Matheus Teixeira de Azevedo grita-lhe:
- Então você ainda antes de hontem cá esteve e já volta?!
- É verdade, sr, juiz, como o tempo passa!
Somos assim e nada há a fazer....

quinta-feira, setembro 02, 2010

A FESTA DO TANQUE DE - 27 A 29 -8-2010

Os assadores















Seguindo costumes pagãos, revivendo a mitologia e também em homenagem às Divindades do Mar e das Águas – as Sereias – realizou-se nos dias 27, 28 e 29, a chamada “Festa do Tanque” que reuniu gentes do Norte e Sul do País.
O local escolhido foi uma mansão beirã onde existe um reservatório de 30.000 litros de água construído em granito que remonta aos primórdios do século IXX.
O local é aprazível, e o reservatório, elevado à categoria de piscina, está rodeado de vinhedos e de glicínias que o bordejam e lhe conferem uma beleza rústica de fazer inveja às pérgulas dos solares antigos descritos nas páginas dos livros dos nosso grande escritor Júlio Dinis!
E foi nesse cenário maravilhoso, em convívio familiar e alegre que se desenrolaram os festejos, interrompidos de quando em vez por umas degustações pantagruélicas e libações a condizer.
O momento alto da festa teve lugar no dia 28 em que para surpresa dos anfitriões, mas sobretudo da “Chefe”que detém o monopólio dos Tachos & Similares, a mesa da sala de jantar se encheu de diversas iguarias, de petiscos irresistíveis, de diversificadas bebidas, não faltando até o barril de onde esguichava a cerveja à pressão!
Durante a preparação dos acepipes, a porta da cozinha esteve vedada a estranhos, o que não agradou à Chefe que se viu assim afastada dos seus domínios.
Os assadores, por seu turno, esmeram-se também nos grelhados e contribuíram também para a maravilhosa decoração gastronómica da mesa que fazia crescer a água na boca só de olhar!
Da família, faltou apenas o artista, mas também esteve presente, porque assistimos, via Internet, à sua magnífica actuação em palco, na vizinha Espanha.
Um Fim-de-semana que ficará gravado…no coração. Um sincero e sentido obrigado a todos que nos proporcionaram tão agradáveis e carinhosos momentos.
Numa pequenina prece a Deus, ousamos pedir-lhe que nos dê saúde para que, para o ano, possamos de novo reeditar tão ternos e felizes momentos.

quarta-feira, setembro 01, 2010

A CASA DOS PORTUGUESES E O COLÉGIO DE KINSHASA

A Casa dos Portugueses foi fundada a 25 de Fevereiro de 1947, sob a forma de Sociedade Cooperativa, conforme os Estatutos submetidos às autoridades do país, em 18 de Abril de 1947 e aprovados pelo decreto lei nº 11/187/16/10J, de 17 de Março de 1952.
De 1947 a 30 de Junho de 1960, a Casa dos Portugueses constituía um centro de convívio social da Comunidade aqui residente, tendo como principais actividades: a organização de vários festejos populares, exposições de natureza comercial, a prática de algumas modalidades desportivas e recolha de fundos para aquisição de uma propriedade destinada à construção da Sede do Clube e campos de jogos.
Em 6 de Setembro de 1965, foi decidido abrir uma Escola que pudesse resolver o problema que sempre se pôs à Comunidade e que, apesar da dedicação individual de algumas pessoas (Professoras), que particularmente leccionavam em suas próprias casas ou em precárias instalações, ia subsistindo sem que se conseguisse suprimir as necessidades das respectivas crianças e jovens.
Perante este cenário, em 6 de Outubro de 1965, o Colégio Português de Kinshasa abriu as suas portas, pela primeira vez com 37 alunos, confiados a duas professoras, tendo o respectivo ano lectivo terminado com um total de 54 alunos.
Por consequência das pilhagens ocorridas em Setembro de 1991, uma grande parte da Comunidade Portuguesa residente no Zaire (actual R.D. Congo), confrontada com a perda dos seus empregos, a instabilidade e a insegurança reinantes na época, foi obrigada a sair do País arrastando consigo uma parte significativa dos alunos que até então estudavam no Colégio Português de Kinshasa.
Ao fim de 5 anos, foi eleita a nova Direcção, animada por um forte espírito de equipa e com muita vontade em servir a comunidade portuguesa, procurou dar vida à instituição organizando para isso vários eventos desportivos, convívios entre as várias comunidades procurando com os poucos meios e recursos financeiros de que dispõe, reparar os estragos provocados pelos sucessivos acontecimentos acima referidos.
Para dar uma melhor formação aos filhos de portugueses, contratou novas professoras. Além do funcionamento normal de todo o projecto escolar, a direcção resolveu criar, com o apoio das professoras, um curso de Cultura e Geografia de Portugal, para os alunos, filhos de portugueses, que se encontram a estudar em escolas estrangeiras para que estes nunca percam a sua ligação à pátria e para lhes facilitar uma melhor integração.
Fonte: Escola Portuguesa de Kinshasa

sexta-feira, agosto 20, 2010

OS CAMINHOS SINUOSOS DA HISTÓRIA



"...Na galeria da História, há nomes que não esquecem e outros que até deixam saudade. Salazar é um deles! Por isso é que de todos os lados, inclusivamente gente da oposição, que outrora o combateu, ao ver o descalabro em que Portugal se afunda, clama. "Quem dera outro Salazar". É Portugal a vingá-lo do camartelo destruidor da revolução ignara (…)"
(…) Nem sempre a pedra tumular fecha o palco da vida. Os actos que tantas vezes se ensaiaram e representaram, as cenas do quotidiano de que se fez história, deixaram a "suspense" no clímax do seu desaparecimento, levando os espectadores a interrogar-se como em acção de narrativa aberta: e depois?
Já lá vão catorze anos que se finou Oliveira Salazar, personagem principal da cena política portuguesa durante algumas décadas. Mas o túmulo, se lhe guarda os despojos, não lhe encerra a alma nem a obra,
que continuam vivas: a alma em Deus, e a obra na lembrança de todos os bons Portugueses e na realidade visível do torrão nacional, onde, mesmo mudando-lhe o nome ou cobrindo-a de adjectivos grotescos, na
tentativa de a desvirtuar, clama bem alto que foi uma época de progresso a todos os níveis; época em que o nome de Portugal era pronunciado com respeito em toda a parte, menos pelos bandoleiros internacionais que, ao menos, o temiam, e pelos inimigos e falsos amigos que não toleravam a altivez dada pela independência de quem, não se sujeitando á canga que pretendiam impor-nos sob a aparência
de liberdade, democracia e modernização, poderia colocar como divisa da sua governação o grito célebre de José Régio nas estrofes gloriosas e imortais do Cântico Negro: "Não vou por aí (…)”
Padre Cândido de Azevedo numa homilia na capela do Vimieiro onde, com o cónego Simões Pedro, concelebrou uma missa.

quarta-feira, agosto 18, 2010

REEDIÇÃO DA FEIRA ANTIGA




FOTOGRAFIA DA MINHA INFÂNCIA


Nesta fotografia, quando me vejo, julgo que ela deve ter sido tirada em 1938 ou princípios de 1939.
O grupo era uma espécie de “milícia” sem armas…
A ideia partiu de um senhor que se chamava Germano que era uma homem um pouco misterioso. Lembro-me que a certa altura desapareceu da aldeia e só passados muitos dias apareceu dizendo que tinha estado em meditação algures na serra do Caramulo!
Alguns atribuíram tal facto a um amor não correspondido enquanto outros o encaravam como um devaneio de pessoa com pouco juízo!
O certo é que o Germano reuniu todos os rapazes que estão na fotografia de braço estendido, fazendo continência, e começou a dar-lhes lições como se tratasse de tropa a sério. Os que estão por detrás, os mais velhos, eram os que apoiavam a ideia.
Todos os sábados havia exercícios e lá estávamos todos. Marcar passo, marchar, fazer ginástica era o programa daquela “força de ataque”.
A princípio, marchávamos sem arma, mas um dia o Germano lembrou-se de ordenar que cada qual deveria fazer uma espingarda de pau para com ela marchar. E todos obedeceram!
No exercício seguinte lá estávamos todos de arma ao ombro, prontos para o desfile…
E era uma festa aos domingos, de tarde, desfilar pela rua principal da aldeia.
Naquele tempo poucas ou nenhumas distracções havia nas aldeias e tudo o que quebrasse a monotonia do dia a dia, era motivo de festa e até de admiração por parte dos mais idosos. Afora o jogo do pião, da bilharda e do finto, poucos mais entretenimentos havia e daí que toda ou quase toda a aldeia viesse ver a “tropa” e bater palmas à passagem daqueles intrépidos soldados!...
Bons tempos esses…
Mais tarde o Germano constituiu família e lá onde ele estiver aqui deixo uma breve prece para que ele esteja em paz, ele que, durante um período da sua vida, cedo, nos começou a preparar para a “guerra…”

sábado, julho 17, 2010

Resposta a um Marciano

Não têm conta as “mensagens” que já recebi ao longo destes últimos vinte anos e todas motivadas pelos rabiscos com que semanalmente esborrato um pequeno espaço neste Jornal.
Por intermédio de cartas, telefone e agora através das modernas tecnologias, Internet e telemóvel, raro é o mês em que não receba uma ou duas dessas pérolas.
Confesso que é com prazer que as recebo, apesar de algumas, por vezes, ultrapassarem os limites da boa educação.
Tenho recebido de tudo, mas as venenosas são as mais frequentes. Regra geral não lhes dou grande importância. Dalgumas até gosto. É sinal de que existo… pedindo desculpa, claro, ao filósofo e matemático francês pelo abuso na aplicação da paráfrase.
Das muitas que tenho recebido, escolhi a mais recente registada no livro de visitas do Jornal e que reza assim:
“Há muito que penso escrever-lhe, mas agora que terminei de dar aulas aos meus alunos, a ideia concretizou-se e aqui estou.
Há anos que o leio e aprecio a sua maneira de escrever. A sua escrita é fluente e a ironia que por vezes sobressai das suas crónicas dá-lhes tal sabor que apetece ler até ao fim!...
Mas…
Vou ser sincero e dizer-lhe que tudo isso se esfuma, pois o seu saudosismo e o seu apego ao antigamente é tal que lhe rouba o estilo e o coloca ao lado dos mais inveterados fascistas que conheço. Não sei a sua idade, mas pela foto deve andar nos “entas”. O senhor não pode com os políticos de agora, mas deve ter em casa uma vela acesa em frente da foto do Salazar a quem se tem referido, como de um santo se tratasse!
Adivinho que se deve ter arranjado nesse tempo do ditador e que agora é dos “convertidos” com bom salário, boas regalias e uma boa vida. Mas isso à custa dos que trabalham a sério. É bom dizer mal dos nossos políticos, mas se não fossem eles o senhor não teria o estatuto que tem que lhe permite viver à grande, com “escravos” para lhe fazerem a papinha e no fim do mês é só arrecadar as notas.
Já tivemos na nossa história cristãos novos, agora há os fascistas convertidos por interesse….
Apesar de tudo continua a escrever. Pelo menos pelo bom português que nos oferece…”
Ele há coisas!... Como é que o autor do “miminho“ conhece tão bem a minha vida! Incrível! Acertou em cheio em quase tudo. Só faltou acrescentar as minhas três reformas, o motorista privativo, o cartão de crédito sem limite, as casas na praia e a minha empresa numa off-shore ali prás bandas da ilha do Fidel.
Também se esqueceu de que o “santo”a que se refere não mora em minha casa, mas está bem presente na memória de todos – na dos pobres e na de muitos políticos ricos. Na dos primeiros, porque estão cada vez mais pobres e na dos segundos, porque não lhe perdoam por ele ter morrido pobre. É um mau “exemplo”para a classe…
Vejo-o tão acérrimo defensor dos nossos políticos que me atrevo a perguntar: o sôtor vive mesmo cá no rectângulo ou já habita Marte?...

quinta-feira, junho 10, 2010

DIA 10 DE JUNHO DE 2010


Comemora-se hoje mais um 10 de Junho – Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Foi a partir de 1933 que o dia 10 de Junho começou a ser festejado a nível nacional como dia de Camões.
E foi a partir da inauguração do Estádio Nacional do Jamor, em 1944, que Salazar acrescentou ao Dia de Camões e de Portugal, o Dia da Raça, tornando-se este epíteto, a partir de 1963, uma homenagem às Forças Armadas Portuguesas numa exaltação da guerra e do poder colonial.
Em 1978, a Terceira República, converteu-o no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Fora com a Raça!...
Há 30 anos, em 10 de Junho de 1980, fui escolhido pela Embaixada Portuguesa de Kinshasa para representar a Comunidade Portuguesa do Zaire nas cerimónias que se realizaram, nesse ano, em Leiria.
Era Presidente da Republica o General Ramalho Eanes e Chefe do Protocolo, António Monteiro que começou a sua carreira diplomática na nossa embaixada em Kinshasa. Saímos no dia 8, Domingo, para Fátima onde estivemos alojados num hotel durante os dias em que decorreram as cerimónias que, como acima disse, se realizaram em Leiria.
Recordo-me que o tempo estava invernoso e frio, tal como acontece hoje. As festividades foram simples, sem a pompa e todo o aparato que hoje têm. Uma sessão solene no teatro da cidade seguida de uma tarde de variedades, em que “As Doces” esse conjunto que faria sucesso, fez uma exibição que mereceu uma calorosa e prolongada ovação de todos os presentes. Houve também a inauguração de uma estátua de Camões num dos jardins de Leiria a que foi dado o nome de Jardim de Camões. A estátua tem a particularidade de ser feita em betão.
Folheando o meu Diário desse ano encontro escrito que no dia do regresso, dia 11, me encontrei com o empreiteiro para fazermos a marcação da casa onde hoje habito!...
Mas voltando ao 10 de Junho, e à questão da amputação da “Raça”não resisto a fazer uma transcrição das “Farpas”:
‘(…) A raça portuguesa, por mais decaída que a consideremos pelo abastardamento dos elementos que a formaram, é ainda hoje consideravelmente menos absorvível do que absorvente. (…) O Português constitui um tipo inteiramente especial no grupo indo-europeu. Ele é sentimentalista, idealista, galã, dado a aventuras e a viagens como Preste João, como Fernão Mendes, como o Infante D. Pedro, como Camões. É sóbrio e é rijo. Tem o dom sociável e fecundo de amar e se fazer amado, e é singular a sua facilidade de adaptação a todos os meios biológicos e sociais, bem como a sua enorme força de resistência à fadiga, à fome, a todas as privações da vida e a todas as hostilidades da Natureza. De resto, propenso à rebeldia, leviano, gastador, volúvel e inconstante. Durante o século XVII, depois de célebre pelos seus grandes feitos de guerra, de navegação e de conquista, era proverbial em Espanha a sua melosidad y derretimiento em amores. Quevedo dizia que de portugueses não ficariam torresmos no fogo do Inferno, porque havendo lá mulheres, os Portugueses derreteriam completamente, não deixando como vestígio mais que uma simples nódoa no chão. (…) “
Talvez motivado pelas varações do tempo (chove e está frio) deve ter ocorrido qualquer incidente a nível dos meus neurónios, que me impede de continuar a raciocinar convenientemente.
Paro por aqui prestando uma homenagem ao nosso Camões, que com um só olho via mais do que muitos com dois. Que morreu pobre, mas que todos agora enchem a boca com o seu nome!
Lembram-se dos tempos em que ele foi banido dos livros escolares? O passado de um Povo é coisa que não se apaga quer pela imposição de ideologias, quer por meio de leis. Como Camões outros há. Mas só com o tempo os seus nomes tomarão o devido lugar nas páginas da nossa História…

quarta-feira, maio 26, 2010

Ó TEMPO VOLTA PRA TRÁS...


Curso de Sargentos Milicianos 1947 - 1948
Dedicado à nossa caserna no Regimento de Lanceiros 2, em Lisboa, principal centro turístico da bicharada do sítio, orgulhosamente ornamentada com teias do bicho aranha…

Feita de tábuas mascaradas,
Há bicharada a granel,
Há duelos, coboiadas,
Como não há no quartel.
Há orquestra privada,
Barulho quanto se queira,
Diverte-se a rapaziada
Cada qual à sua maneira.
A mobília é da mais fina
Com requintes de beleza:
Não faltam jarrões da China
E belas camas à francesa!
Enxergões de suma-pau
Com turistas em passeio,
E pra isto não ser tão mau
Há ainda pulgas pelo meio.
O soalho é encerado
E o seu brilho divinal,
Aqui e além escarrado
Mas isso não é por mal.
Há quadros emoldurados,
De negros, heróis cavaleiros,
De faquires, reis destronados
E de mais outros parceiros.
Plantas das mais variadas,
Ricas cadeiras, canapés,
Passadeiras estilizadas
Onde eu nunca pus os pés.
Espelhos há muitos, então,
Mas esses não têm limpeza
Pra não se sentir comoção
Ao ver tamanha magreza!...
De noite, a bicharada
Ataca com precisão:
Objectivo: - Rapaziada.
Resultado: - Comichão!...
Belém, Lanceiros 2 – 25-11-1947

segunda-feira, maio 24, 2010

FAMÍLIA DISPERSA - 1964

Vida esfarrapada
Manta de retalhos
Um mundo disperso
Bocados da alma
Por todo o Universo!

O pensamento inconstante
Sem saber onde parar
A alma sempre distante
E o coração a chorar!...

Quando virá, enfim, esse dia
Que o nosso mundo fique juntinho
Que nossa alma cante de alegria
E que nenhum se sinta sozinho?!...

O Velhinho

Nas árvores frondosas
Nas pétalas sedosas
De várias cores
Cantam as aves
Em trinados suaves
Os seus amores.

Além as crianças
Em jogos e danças
Atroam os ares
E acordam o dia
Com a alegria
Dos seus cantares.

Num lago em frente
Está muita gente
Olhando os peixinhos
E num banco sentados
Os namorados
Trocam carinhos.

E só um velhinho
Num banco sozinho
Sorrindo e chorando
Sente a saudade
Da mocidade
Que vai recordando…

PRIMAVERA

Enchem-se as árvores de flores
Roxas, lilases, vermelhas,
De mil cambiantes, de mil cores,
Sobressaindo das folhas verdes
Como veludo fino
Como rosto de menino
Amorosas,
Como os primeiros amores!

Enchem-se as árvores de flores
É Primavera,
É a Natureza a cantar
E as aves em seus gorjeios
Nos seus enleios
Fazem as pétalas corar!

Avezinhas:
Dai por mim
Beijos sem fim
Às flores que vão desabrochando.
Assim não esquecerei
Os tempos que já passaram
Nem os beijos que dei
Às flores que já murcharam!...

sábado, maio 22, 2010

Era uma vez um pimpolho...





É verdade!...
O mesmo que aconteceu com seu irmão no dia 13 de Fevereiro de 1952,
o pimpolho do retrato é, nem mais nem menos do que aquele menino que nasceu numa bonita vila do interior de um país tropical e, por coincidência, no mesmo hospital em que 23 anos antes tinha nascido sua mãe.
Seriam umas duas da tarde do dia 22 de Maio do ano de 1953, quando com a ajuda do médico de serviço, creio que um austríaco, o Dr. Ciboulsky, o menino do retrato soltou os primeiros vagidos álacres e buliçosos.
Faz hoje, precisamente cinquenta e sete anos!...
Como o tempo passa, ora a correr, ora devagar, mas deixando sempre marcas indeléveis nas diversas etapas da sua caminhada!
Em cada dia que passa mais me convenço de que o desperdício da vida está naquilo que não damos, nos momentos bons que não aproveitamos, no amor (que por vezes, temos medo de exteriorizar) e sobretudo nesses instantes indescritíveis cheios de felicidade quando reunimos à nossa volta aqueles que são a nossa continuidade.
Aqui deixo, ao menino do retrato, os meus sinceros votos de que a caminhada seja longa….
Continuarei sempre a desejar-vos o melhor. Por muito tempo?... Só Deus sabe… Mas quando eu não puder caminhar estou certo que me dareis a mão, tal como eu fiz quando destes os primeiros passos.
Até pró ano…

sábado, abril 03, 2010

A Ti Ermelinda



Nestas noites de chuva, frio e vento, enquanto o sono não chega o pensamento não pára, e leva-me a assistir, de olhos fechados, ao desbobinar do filme, um filme muito antigo, com clarões pelo meio, bocados em branco, imagens que ao longo dos anos o tempo apagou.
E esta noite, talvez arrastado pelo vento forte que soprava lá fora, num turbilhão de recordações, eu imaginei a Ti Ermelinda, a sardinheira, pé descalço, canasta à cabeça que vinha lá das bandas de Tondela, a pé, vendar o pescado nas aldeias que ladeavam o seu itinerário. Sempre bem disposta, quer chovesse, ventasse ou fizesse frio, lá vinha ela, quase diariamente, em busca do sustento da família.
Naquele tempo os laços de amizade eram mais sinceros e espontâneos e a Ti Ermelinda era considerada quase como família. Não tinha problemas com a alimentação e ora numa casa ora noutra encontrava com que aconchegar o estômago nas horas das refeições. Sempre com aquela humildade que caracterizava as gentes trabalhadoras e educadas daquele tempo, raro aceitava partilhar a mesa com os clientes… Estou a vê-la sentada na escada de pedra, um prato de caldo na mão e um naco de broa no regaço, saboreando, deliciada, a refeição do meio-dia!
Depois da volta, depois de ter percorrido cerca de vinte quilómetros, regressava a casa e tinha ainda tempo para cuidar dos animais e do amanho do quintal onde, dizia ela, granjeava tudo o que necessitava para a sua alimentação.
Manhã cedo – contava ela – aquecia um prato de sopa que tinha feito na véspera, esmigalhava uma fatia de broa para a tornar mais substancial, – naquele tempo não havia iogurtes nem cereais, era tudo mais “caseiro” – comia, dirigia-se ao vendedor do pescado onde comprava a sardinha, e ei-la, canasta à cabeça, percorrendo montes e vales, caminhos de carro de bois ou estreitas veredas, rumo ao destino, às aldeias do concelho. Sardinha fresca!...
E assim foi durante anos. Havia alturas do ano em que muitos a compravam e guardavam em potes de barro, acondicionada em camadas de sal e passados meses, que sabor inigualável tinha aquela sardinha em salmoura, a pingar aquele óleo amarelo em fatias de broa de milho!
A vida, depois, levou-me pra longe, deixei de a ver, mas soube que apesar de naquele tempo ainda não haver vacinas milagrosas, nem antibióticos, ela tinha morrido com uma idade respeitável.
E isso, porque a Ti Ermelinda nunca se deve ter empanturrado com hambúrgueres, pizas, donuts e outras “comidas modernas”. E também porque as caminhadas que fez ao longo da vida ao memo tempo que lhe devem ter enrijecido os músculos, não deixaram que a gordura entupisse as suas veias com aquele “veneno” conhecido pelo nome de colesterol ruim, muito na moda e que tem levado muita boa gente para o “jardim das tabuletas”.
Gentes, sons, sabores, cheiros, paisagens são recordação de infância guardadas tão profundamente na memória, que por mais que vente, que chova, que neve, nada há que apague aquela chama que nos permite, ainda que em pensamento, descortiná-las embora já muito longe…













domingo, março 07, 2010

Relendo Fernando Pessoa

A felicidade exige valentia

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um 'não'. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...
Fernando Pessoa

terça-feira, março 02, 2010

Les caresses des yeux

Les caresses des yeux sont les plus adorables;
Elles apportent l'âme aux limites de l'être,
Et livrent des secrets autrement ineffables,
Dans lesquels seul le fond du coeur peut apparaître.

Les baisers les plus purs sont grossiers auprès d'elles;
Leur langage est plus fort que toutes les paroles;
Rien n'exprime que lui les choses immortelles
Qui passent par instants dans nos êtres frivoles.

Lorsque l'âge a vieilli la bouche et le sourire
Dont le pli lentement s'est comblé de tristesses,
Elles gardent encor leur limpide tendresse:

Faites pour consoler, enivrer et séduire,
Elles ont les douceurs, les ardeurs et les charmes!
Et quelle autre caresse a traversé des larmes?
Auguste Angellier (1848-1911)