quarta-feira, maio 26, 2010

Ó TEMPO VOLTA PRA TRÁS...


Curso de Sargentos Milicianos 1947 - 1948
Dedicado à nossa caserna no Regimento de Lanceiros 2, em Lisboa, principal centro turístico da bicharada do sítio, orgulhosamente ornamentada com teias do bicho aranha…

Feita de tábuas mascaradas,
Há bicharada a granel,
Há duelos, coboiadas,
Como não há no quartel.
Há orquestra privada,
Barulho quanto se queira,
Diverte-se a rapaziada
Cada qual à sua maneira.
A mobília é da mais fina
Com requintes de beleza:
Não faltam jarrões da China
E belas camas à francesa!
Enxergões de suma-pau
Com turistas em passeio,
E pra isto não ser tão mau
Há ainda pulgas pelo meio.
O soalho é encerado
E o seu brilho divinal,
Aqui e além escarrado
Mas isso não é por mal.
Há quadros emoldurados,
De negros, heróis cavaleiros,
De faquires, reis destronados
E de mais outros parceiros.
Plantas das mais variadas,
Ricas cadeiras, canapés,
Passadeiras estilizadas
Onde eu nunca pus os pés.
Espelhos há muitos, então,
Mas esses não têm limpeza
Pra não se sentir comoção
Ao ver tamanha magreza!...
De noite, a bicharada
Ataca com precisão:
Objectivo: - Rapaziada.
Resultado: - Comichão!...
Belém, Lanceiros 2 – 25-11-1947

segunda-feira, maio 24, 2010

FAMÍLIA DISPERSA - 1964

Vida esfarrapada
Manta de retalhos
Um mundo disperso
Bocados da alma
Por todo o Universo!

O pensamento inconstante
Sem saber onde parar
A alma sempre distante
E o coração a chorar!...

Quando virá, enfim, esse dia
Que o nosso mundo fique juntinho
Que nossa alma cante de alegria
E que nenhum se sinta sozinho?!...

O Velhinho

Nas árvores frondosas
Nas pétalas sedosas
De várias cores
Cantam as aves
Em trinados suaves
Os seus amores.

Além as crianças
Em jogos e danças
Atroam os ares
E acordam o dia
Com a alegria
Dos seus cantares.

Num lago em frente
Está muita gente
Olhando os peixinhos
E num banco sentados
Os namorados
Trocam carinhos.

E só um velhinho
Num banco sozinho
Sorrindo e chorando
Sente a saudade
Da mocidade
Que vai recordando…

PRIMAVERA

Enchem-se as árvores de flores
Roxas, lilases, vermelhas,
De mil cambiantes, de mil cores,
Sobressaindo das folhas verdes
Como veludo fino
Como rosto de menino
Amorosas,
Como os primeiros amores!

Enchem-se as árvores de flores
É Primavera,
É a Natureza a cantar
E as aves em seus gorjeios
Nos seus enleios
Fazem as pétalas corar!

Avezinhas:
Dai por mim
Beijos sem fim
Às flores que vão desabrochando.
Assim não esquecerei
Os tempos que já passaram
Nem os beijos que dei
Às flores que já murcharam!...

sábado, maio 22, 2010

Era uma vez um pimpolho...





É verdade!...
O mesmo que aconteceu com seu irmão no dia 13 de Fevereiro de 1952,
o pimpolho do retrato é, nem mais nem menos do que aquele menino que nasceu numa bonita vila do interior de um país tropical e, por coincidência, no mesmo hospital em que 23 anos antes tinha nascido sua mãe.
Seriam umas duas da tarde do dia 22 de Maio do ano de 1953, quando com a ajuda do médico de serviço, creio que um austríaco, o Dr. Ciboulsky, o menino do retrato soltou os primeiros vagidos álacres e buliçosos.
Faz hoje, precisamente cinquenta e sete anos!...
Como o tempo passa, ora a correr, ora devagar, mas deixando sempre marcas indeléveis nas diversas etapas da sua caminhada!
Em cada dia que passa mais me convenço de que o desperdício da vida está naquilo que não damos, nos momentos bons que não aproveitamos, no amor (que por vezes, temos medo de exteriorizar) e sobretudo nesses instantes indescritíveis cheios de felicidade quando reunimos à nossa volta aqueles que são a nossa continuidade.
Aqui deixo, ao menino do retrato, os meus sinceros votos de que a caminhada seja longa….
Continuarei sempre a desejar-vos o melhor. Por muito tempo?... Só Deus sabe… Mas quando eu não puder caminhar estou certo que me dareis a mão, tal como eu fiz quando destes os primeiros passos.
Até pró ano…

sábado, abril 03, 2010

A Ti Ermelinda



Nestas noites de chuva, frio e vento, enquanto o sono não chega o pensamento não pára, e leva-me a assistir, de olhos fechados, ao desbobinar do filme, um filme muito antigo, com clarões pelo meio, bocados em branco, imagens que ao longo dos anos o tempo apagou.
E esta noite, talvez arrastado pelo vento forte que soprava lá fora, num turbilhão de recordações, eu imaginei a Ti Ermelinda, a sardinheira, pé descalço, canasta à cabeça que vinha lá das bandas de Tondela, a pé, vendar o pescado nas aldeias que ladeavam o seu itinerário. Sempre bem disposta, quer chovesse, ventasse ou fizesse frio, lá vinha ela, quase diariamente, em busca do sustento da família.
Naquele tempo os laços de amizade eram mais sinceros e espontâneos e a Ti Ermelinda era considerada quase como família. Não tinha problemas com a alimentação e ora numa casa ora noutra encontrava com que aconchegar o estômago nas horas das refeições. Sempre com aquela humildade que caracterizava as gentes trabalhadoras e educadas daquele tempo, raro aceitava partilhar a mesa com os clientes… Estou a vê-la sentada na escada de pedra, um prato de caldo na mão e um naco de broa no regaço, saboreando, deliciada, a refeição do meio-dia!
Depois da volta, depois de ter percorrido cerca de vinte quilómetros, regressava a casa e tinha ainda tempo para cuidar dos animais e do amanho do quintal onde, dizia ela, granjeava tudo o que necessitava para a sua alimentação.
Manhã cedo – contava ela – aquecia um prato de sopa que tinha feito na véspera, esmigalhava uma fatia de broa para a tornar mais substancial, – naquele tempo não havia iogurtes nem cereais, era tudo mais “caseiro” – comia, dirigia-se ao vendedor do pescado onde comprava a sardinha, e ei-la, canasta à cabeça, percorrendo montes e vales, caminhos de carro de bois ou estreitas veredas, rumo ao destino, às aldeias do concelho. Sardinha fresca!...
E assim foi durante anos. Havia alturas do ano em que muitos a compravam e guardavam em potes de barro, acondicionada em camadas de sal e passados meses, que sabor inigualável tinha aquela sardinha em salmoura, a pingar aquele óleo amarelo em fatias de broa de milho!
A vida, depois, levou-me pra longe, deixei de a ver, mas soube que apesar de naquele tempo ainda não haver vacinas milagrosas, nem antibióticos, ela tinha morrido com uma idade respeitável.
E isso, porque a Ti Ermelinda nunca se deve ter empanturrado com hambúrgueres, pizas, donuts e outras “comidas modernas”. E também porque as caminhadas que fez ao longo da vida ao memo tempo que lhe devem ter enrijecido os músculos, não deixaram que a gordura entupisse as suas veias com aquele “veneno” conhecido pelo nome de colesterol ruim, muito na moda e que tem levado muita boa gente para o “jardim das tabuletas”.
Gentes, sons, sabores, cheiros, paisagens são recordação de infância guardadas tão profundamente na memória, que por mais que vente, que chova, que neve, nada há que apague aquela chama que nos permite, ainda que em pensamento, descortiná-las embora já muito longe…













domingo, março 07, 2010

Relendo Fernando Pessoa

A felicidade exige valentia

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um 'não'. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...
Fernando Pessoa

terça-feira, março 02, 2010

Les caresses des yeux

Les caresses des yeux sont les plus adorables;
Elles apportent l'âme aux limites de l'être,
Et livrent des secrets autrement ineffables,
Dans lesquels seul le fond du coeur peut apparaître.

Les baisers les plus purs sont grossiers auprès d'elles;
Leur langage est plus fort que toutes les paroles;
Rien n'exprime que lui les choses immortelles
Qui passent par instants dans nos êtres frivoles.

Lorsque l'âge a vieilli la bouche et le sourire
Dont le pli lentement s'est comblé de tristesses,
Elles gardent encor leur limpide tendresse:

Faites pour consoler, enivrer et séduire,
Elles ont les douceurs, les ardeurs et les charmes!
Et quelle autre caresse a traversé des larmes?
Auguste Angellier (1848-1911)

domingo, fevereiro 28, 2010

Recordações de África - XVIII Aniversário da "STAR"



Recordações de África - 60 Anos da ASK

Os 60 anos da ASK – a Associação dos Portugueses residentes no Zaire – foram comemorados com vários actos, alguns dos quais recordam a Terra-Mãe distante e os hábitos das suas gentes. Houve várias competições desportivas, sessões de cinema, quermesse e outras manifestações com características tipicamente portuguesas.
Fundada com o nome de Amicale Sportive Portuguesa por um grupo de portugueses, entre os quais se evocam o nome de Raul Saraiva, Florindo Dias Serra e António Horta, a Amicale Sportive Kinoise é hoje uma das mais antigas Associações desportivas da capital zairense.
Em livro recentemente editado nesta cidade, sob o título «Kinshasa ce village d’hier», no capítulo dedicado ao desporto, salienta o autor que já em 1920 os encontros de futebol entre a Amicale Portuguesa e outras duas formações então existentes – Les Coqs e L’Etoile – atraíam grande número de espectadores. (…)
(Extracto de uma reportagem de Manuel Ventura da Costa, no antigo Semanário “TEMPO”, em 2 de Agosto de 1979)

terça-feira, fevereiro 23, 2010

TRANSCRIÇÕES

" FAZER OITENTA ANOS, QUE LINDO!...

Há pessoas em que os anos se vão sucedendo só no corpo; o espírito continua jovem.
A Juju, amiga e companheira do Rotary Club de Tondela – a sua segunda família –, a quem me ligam laços de muita amizade, assim como a seu marido, o meu amigo Manel (que pela modéstia com relutância aceitou este relato), fez no passado dia 11 oitenta anos, mas é como se os não fizesse, pois a jovialidade com que vive e partilha amizades, não faz supor essa idade.
E seu marido, um pouco mais velho, usa o mesmo “tratamento”, ou seja a idade está só no B.I., já que o espírito, o interesse por tudo o que o rodeia, a lucidez com que esgrime as palavras e as conversas são também de alguém, como a esposa, na flor da idade mental e de bem com a vida. Estão bem um para o outro.
Para comemorar – e para comemorar não há nada melhor que estarmos reunidos à volta de uma mesa – houve reunião nos 3 Pipos, no Sábado, dia 13.
O casal, os filhos – um dos quais completava nesse dia mais um aniversário – e netos (que são o seu enlevo), os parentes e os amigos, com um grande grupo de companheiros do Rotary a que tanto está ligada, ali estiveram irmanados pelos valores que entroncam na família e na amizade, pela alegria do momento, pela partilha de sentimentos, pelos saberes que ajudam na caminhada e aproximam os horizontes, mas também pelos “sabores”que fortalecem a companhia e reforçam as relações.
E o que se passou naquela tarde, no Restaurante 3 Pipos, com mais de 40 familiares e amigos a sentirem no peito o aconchego da família alargada, foi um momento lindo que só uma vida cheia é capaz de motivar.
Feliz de quem tem a graça dos seus anos continuarem a ser Primaveras, por saber ir buscar a felicidade à seiva que emana das raízes dessa felicidade.
Feliz, também, pela família, mas igualmente pelos amigos que soube granjear.
AL "

(Do Jornal de Tondela, Edição n.º 984 de 25 de Fevereiro de 2010)

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Oitenta Anos!...




Há quem diga que a partir de uma certa idade os anos se desfazem, mas não se fazem…
Numa linguagem mais popular quer isto dizer que a partir de um determinado número de Invernos não tem lógica comemorar o dia em que nascemos.
Felizmente que nem todos são dessa opinião e, quanto a mim, quantos mais forem os anos, mais razão há para assinalar o dia em que demos os primeiros vagidos e acrescentámos mais uma unidade às estatísticas natalícias.
Vem este intróito a propósito da comemoração dos 80 anos da minha chefe, à qual rendo homenagem e com a qual tenho colaborado ao longo de quase sessenta anos na realização de vários projectos.
Por escritura lavrada a 14 de Abril de 1951, iniciámos a nossa parceria e um ano depois víamos realizado o nosso primeiro sonho. Após quatrocentos e cinquenta dias, repetíamos a façanha e já com dois pilares edificámos a estrutura que iria dar continuidade à nossa descendência.
Entretanto, a Vida, alterada no seu rumo por ventos adversos e rajadas imprevisíveis viu o seu rumo desviado e algumas coberturas cederam sem, contudo, atingir a estrutura base que sempre resistiu a esses traiçoeiros vendavais.
A obra foi avançando e sem qualquer recurso a novas tecnologias a tribo foi-se expandindo naturalmente e apesar dos “desaires” acima mencionados, conta hoje com 10 elementos efectivos e um aspirante, num total de 11.
A comemoração reuniu, além dos elementos da tribo, familiares da minha chefe e respectivos consortes, assim como uma plêiade de Amigos companheiras e companheiros do Clube Rotário da cidade…
Foi uma festa bonita, uma reunião de família, um convívio onde tudo se misturou – emoção, alegria, amizade e sobretudo muito, mas muito carinho. Todos os ingredientes para que a minha chefe se sentisse feliz. E mais ainda porque um elemento da tribo, o primeiro projecto, festejava também nesse dia o seu aniversário!
Com votos de muita saúde, aqui fica, para os dois aniversariantes, o registo do dia 11 e a comemoração do dia 13 de Fevereiro de 2010.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Uma pausa durante a caminhada

Porquê?!...
A crise que estamos a viver não é unicamente económica e financeira, mas também filosófica e espiritual e obriga-nos a interrogações plurais:
O que é que é preciso para que o ser humano seja feliz? O que é que pode ser considerado como verdadeiro progresso? Quais as condições necessárias para uma vida social harmoniosa?!...
Contra a actual visão puramente materialista do homem e do mundo, Sócrates, Jesus e Buda são os três mestres da vida. Uma vida que eles não limitam nunca a uma concepção hermética e dogmática.
E é por isso que as suas palavras através dos séculos continuam pertinentes e actuais.
Os três, superando as suas divergências, acabam por estar de acordo no essencial: a existência humana é preciosa e cada um de nós, venha ele de onde vier, é convidado a procurar a verdade, a conhecer-se profundamente, a tornar-se livre, a viver em paz consigo mesmo e com os outros.
Se interiorizarmos esses conceitos talvez encontremos a resposta à pergunta que fazemos muitas vezes, baixinho, para que ninguém nos ouça: Por que é que eu não sou completamente feliz?!...
O que eles disseram:
Nos jeunes aiment le luxe, ont de mauvaises manières, se moquent de l’autorité et n’ont aucun respect pour l’âge. À notre époque, les enfants sont des tyrans.»
Socrate
Rester en colère, c'est comme saisir un charbon ardent avec l'intention de le jeter sur quelqu'un ; c'est vous qui vous brûlez.
Bouddha
Aimez-vous les uns les autres.
Jésus de Nazareth






segunda-feira, fevereiro 08, 2010

A Fotografia


A fotografia é a de um cidadão português que foi visto em 13 de Abril de 1942 numa Vila da Beira Alta, quando tinha dezasseis anos.
Desde essa data várias pessoas afirmam tê-lo visto, ao longo dos anos, em diversos pontos do Mundo, nomeadamente em África e em alguns países europeus.
Ultimamente parece ter sido visto numa aldeia portuguesa, mas não há a certeza de que se trate do mesmo cidadão, pois após 68 anos da data em que foi tirada a fotografia, é difícil afirmar com verdade se se trata da mesma pessoa.
O cidadão “avistado”, velhote e desgastado pela “erosão” do tempo, embora apresente parecenças fisionómicas com o rosto da foto, não tem quaisquer semelhanças sobretudo no que diz respeito ao couro cabeludo!...
Além disso, enquanto o rapazinho da foto era solteiro, o velhote “avistado” tem uma catrefada de descendentes entre eles dois filhos casados, uma nora presente, duas ausentes, três netas e dois netos homens.
Como não é possível encontrar o jovem após todos estes anos, a família parece ter-se afeiçoado ao tal velhote “avistado” e a afeição é recíproca. E anos após ano, mês após mês, dia após dia, todos juntos, com a ajuda de Deus, eles vão partilhando e saboreando todos os momentos – os bons e os menos bons! …

sábado, fevereiro 06, 2010

Passado e Presente

Por mais triste e ingrato que tenha sido o nosso passado, ninguém, apesar disso, o poderá desprezar ou esquecer. E isso porque além de ele constituir o alicerce do presente contribuiu também de forma decisiva e determinante para a formação da nossa identidade pessoal.
As nossas penas e as nossas alegrias dependem muitas vezes de comparações que fazemos entre os dois. E, quase sempre, as alegrias do presente fazem esquecer as penas por que passámos. Com uma lágrima de vez em quando, confesso!...
Mas por mais esforço que façamos para o esconder, há sempre, dentro de nós, um pouco do passado, um pouco da criança que fomos. Há sempre um sorriso esquecido, um sorriso que não cresceu, um sorriso que ficou menino. Há sempre dentro de nós um petiz sensível que bate palmas ao seu herói preferido, embora o faça quase sempre em silêncio, não vá o montão de anos desabar e fazer com que o sonho acabe!
O mundo está perigoso. E hoje, talvez "contaminado" por esta onda avassaladora de insegurança e medo, enojado por todo este vedetismo saloio, por este snobismo sem limites, assistindo impotente a todos estes desmandos e a todo este conjunto de males que devoram o humanismo, apetece-me me sonhar...
E regresso à rua da minha infância. E recordo os putos de outrora e os jogos: o do pião, o da bilharda, o da cabra-cega, o do lencinho, o dos pinhões (par ou pernão?...), o do botão, o da malha, o da macaca...
O chiar dos carros de bois, o cheiro da terra, do estrume, o som dos socos nas pedras da calçada cobertas de gelo no Inverno, as noites longas à luz de petróleo, à luz da vela... A lareira com as panelas de ferro de três pés e, lá dentro, a fumegar, o caldo inigualável de minha Mãe...
A Primavera com o seu manto verde, as orvalhadas matinais, as ladainhas, o cheiro das primeiras rosas, o chilrear da passarada, os ninhos... O Verão com as noites quentes, os banhos nos açudes e nas "poças", as regas, a azáfama das colheitas, as desfolhadas... No Outono as vindimas, o cheiro do mosto vindo do tanque da adega onde fermentavam os cachos...
Mas... qual silhueta de barco distante que navega no mar da minha existência e que vai desaparecendo lá no horizonte, também o sonho se desfaz e a realidade bate à porta!
E eis-me de novo nesta sociedade de consumo e de competição desmedida onde o capitalismo selvagem, o egoísmo, a falta de escrúpulos e um pragmatismo tecnocrático dominante, favorecem cada vez mais as classes ricas e fazem aumentar em cada instante que passa, os pobres e os excluídos. Quanto a velhos, eles são já tantos que começa a não haver lugar onde os “depositar”!...
Segundo uma reportagem de há dias, num jornal diário, são já cinquenta e dois mil os que vivem em lares de idosos. E há listas de espera…Se a estatística incluísse todos os que vivem em suas casas com carências de toda a espécie, estou convencido que esse número quadruplicaria.

domingo, janeiro 17, 2010

É Domingo e chove...


Da minha janela...
É Domingo. Chove. Continua a chover… Um Inverno com muita chuva, dias pardacentos, uns frios outros mornos, mas sempre com esta humidade peganhenta, que nos afecta psicologicamente e nos torna ainda mais deprimidos.
Lembro-me dos Invernos da minha infância e recordo os homens que mesmo com chuva e frio, à força da enxada, preparavam a terra para semear o pão. Homens que com as próprias mãos moldavam a paisagem, reflectindo no quadro vivo da Natureza a sombra da sua presença.
Esses homens sem nome, e as mulheres fiéis e submissas que lhes davam os filhos – filhos lavradores, soldados, marinheiros, pastores, operários e, de vez em quando, um médico, um advogado, um juiz, um engenheiro e um padre que os baptizava, casava, acompanhava, e os absolvia de todos os pecados na hora da morte.
Esses homens que com as próprias mãos, ergueram as suas casas para abrigar e proteger a família dos frios de Inverno e construíram as suas capelinhas onde entronizavam os seus santos.
Esses homens dos quais hoje apenas resta a memória e que enfrentaram com coragem as tempestades da vida da mesma forma que ajoelhava humildemente na capela que construíram.
Esses homens que praguejavam ou rezavam com a mesma naturalidade com que semeavam ou colhiam; que festejavam o nascimento de um filho, que transportavam o andor do Padroeiro, que enterrava os seus mortos com a mesma angústia com que viam as suas colheitas destruídas pelas forças da Natureza!
Hoje, perante todo o progresso, toda a maquinaria moderna, mais admiro essa gente, compreendo a sua gesta heróica, e curvo-me perante todos os seus sacrifícios. Revivo com ela os seus momentos de alegria e de tristeza, porque essa é a herança sagrada que nos legou e com ela a sua presença continua viva em cada parede que lhe sobreviveu, em cada palmo de terra que amanhou e se transformou no pão que a alimentou.
São todos esses homens de então, de todas as madrugadas, de todas as chuvas, de todas as neves, que fizeram do desconhecido a aldeia que hoje habito, que abriram a pulso os caminhos que hoje percorro, ou percorremos todos, nesta aldeia que é Portugal.
É quase meio-dia e continua a chover. Nesta ronda pela infância e adolescência muita coisa ficou por dizer, mas uma vez por outra gosto de revisitar o passado…
Servindo-me das palavras de Margarite Yourcenar: “Quando amamos a vida, amamos o passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana…”

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Coincidências


Sexta-feira, dia quinze, 21 horas, chove lá fora, está frio, mas aqui onde estou, o mercúrio do termómetro estacionou nos 20 graus!
Foi há pouco, aqui neste quente cantinho, que assisti a mais uma sessão de circo. Que me desculpem os verdadeiros palhaços aqueles que são obrigados a fazer palhaçadas para sobreviver.
Estes que acabo de ver e ouvir, são “palhaços” ricos, bem vestidos, estômagos bem aconchegados, contas bancárias bem recheadas, não têm necessidades. Nada lhes falta! Ou melhor, falta-lhe o melhor: falta-lhes o sentido da responsabilidade, da honra, da solidariedade, da honestidade, enfim, faltam-lhes todos os predicados que distinguem os racionais dos irracionais!
A discussão tinha como tema a discussão para a viabilização do Orçamento do Estado. E como é vergonhosa, baixa, reles, manhosa, hipócrita, a maneira como se comportaram os homens (?) que nós, ou melhor, que alguns cidadãos cá deste rectângulo, deste antro de podridão, elegeram para nos representar!
Como escrevi há dias, estamos rodeados de gente sem escrúpulos, desonesta, traiçoeira, egoísta e corrupta. Estamos a envelhecer sem fé, sem amor, sem garra, sem vontade própria, acreditando apenas em números e estatísticas.
Estamos nas mãos dessa gente manhosa, dessa gente que tem mais jantares que barriga, mais dinheiro que o necessário, enquanto dois milhões de portugueses vivem com uma mísera quantia de 300 euros!
Lembram-se de George Orwell e da “Democracia dos Porcos”?... Vamos recordar um pouco, em sinopse:
“O Estado controlava o pensamento dos cidadãos, entre muitos outros meios, pela manipulação da língua. Os especialistas do Ministério da Verdade criaram a Novilíngua, uma língua ainda em construção, que quando estivesse finalmente completa impediria a expressão de qualquer opinião contrária ao regime. Uma das mais curiosas palavras da Novilíngua é a palavra duplipensar que corresponde a um conceito segundo o qual é possível ao indivíduo conviver simultaneamente com duas crenças diametralmente opostas e aceitar ambas. Os nomes dos Ministérios em 1984 são exemplos do duplipensar. O Ministério da Verdade, ao rectificar as notícias, na verdade estava mentindo. Porém, para o Partido, aquela era a verdade. Assim, o conceito de duplipensar é plausível a um cidadão da Oceânia.
Outra palavra da Novilíngua era Teletela, nome dado a um dispositivo através do qual o Estado vigiava cada cidadão. A Teletela era como que um televisor bidirecional, isto é, que permitia tanto ver quanto ser visto. Nele, o "papel de parede" (ou seja, quando nenhum programa estava sendo exibido) era a figura inanimada do líder máximo, o Grande Irmão.
No livro, Orwell expõe uma teoria da Guerra. Segundo ele, o objectivo da guerra não é vencer o inimigo nem lutar por uma causa. O objectivo da guerra é manter o poder das classes altas, limitando o acesso à educação, à cultura e aos bens materiais das classes baixas. A guerra serve para destruir os bens materiais produzidos pelos pobres e para impedir que eles acumulem cultura e riqueza e se tornem uma ameaça aos poderosos…”
Qualquer semelhança com o que se está a passar cá no rectângulo, não é pura coincidência…

domingo, janeiro 10, 2010

Cai neve no meu quintal


Há muitos anos que não via cair neve no meu quintal. De manhã, quando fui à janela, havia neve no chão e os flocos caíam, e vinham juntar-se ao tapete branco que cobria a relva.
Espectáculo deslumbrante!...

Fomos até à Serra do Caramulo, mas só conseguimos ir até Pedronhe. Era tanta a neve, e havia tanto gelo na estrada que demos meia volta e regressámos à base… em 1.ª, sem tocar no travão!
Mas chegámos sãos e salvos!...
Aqui ficam duas fotos do lindo cenário que a Natureza nos ofereceu…

sábado, janeiro 09, 2010

Manhã de geada


Sábado, dia nove de Janeiro de 2010.
São nove horas da manhã e há cerca de meia hora que deixei “Vale de Lençóis”. Quando abri a torneira para as abluções matinais, da torneira, nem pinga de água corria!
Abri a janela e, friorento que sou, quase me ia dando uma coisa… Um manto branco cobria todo o quintal e um vento frio, cortante, entrou pela janela. Estava dada a explicação. A água tinha gelado na canalização!
Vesti o roupão de Inverno, pus o gorro na cabeça e fui espreitar o termómetro que tenho no exterior, à entrada da porta, debaixo de telha – três graus negativos!
O céu está limpo, o Sol brilha, mas não há movimento na estrada. A aldeia parece ainda adormecida. Até mesmo a passarada ainda não apareceu.
Mas é bonito o espectáculo! De alguns ramos do castanheiro soltam-se gotas de água que brilham com os raios solares. É a geada que derrete.
No tanque, sobre a água, há um espelho enorme que reflecte a armação de ferro onde os ramos das videiras “choram” com o frio ou talvez porque a poda foi feita na véspera.
A relva está branquinha, e das árvores, só o azevinho, mostra cara alegra com as bolinhas vermelhas a brilharem com o Sol, contrastando com o amarelo das laranjas, que sobressaem das folhas húmidas e luzidias das laranjeiras.
São agora dez e meia, o Sol já aquece, a aldeia acordou, há movimento nas ruas, as aves saltitam de ramo em ramo. Rolas, melros e pardais cruzam-se no ar, saltitam de ramo em ramo ou escavam o chão em busca de alimento.

O Sol agora bem acordado aumenta o relevo da mancha escura que se perfila não muito longe da janela do meu quarto - a bonita Serra do Caramulo.
E como a água já corre das torneiras, vou deixar a escrita, cortar a barba e preparar-me para mais um dia frio deste mês de Janeiro de 2010.