Não há nada melhor para minorar a nossa ansiedade, para acalmar as nossas emoções e para simplificar a nossa vida do que aceitar com confiança e resignação as coisas que nos acontecem e para as quais não existem quaisquer soluções terrenas.
É certo que por vezes a vida nos põe perante situações angustiantes e de extrema complexidade que quase nos roubam a nossa capacidade de raciocinar. Mas é precisamente nessas alturas que é posta à prova a nossa força interior, aquela mola invisível que muitas vezes deixamos enferrujar por falta de uso.
Quando tudo nos corre de feição, esquecemo-la, não nos servimos dela diminuindo assim a sua elasticidade e subestimando a sua amplitude. Ao proceder dessa maneira, mais difícil se torna despertá-la para a distender e nos servirmos dela nos momentos de amargura. Por isso é necessário mantê-la sempre em bom estado de conservação, e isso só se consegue se acreditarmos em nós próprios e confiarmos nos dons com que Deus nos dotou para fazer face às adversidades.
Há também quem desconheça essa força interior e, menosprezando-a, procure ajuda exterior, mas que nunca é tão genuína e sincera como aquela que possuímos dentro de nós.
A resolução da maior parte dos nossos problemas reside na arte de saber acordar essa força que dorme no interior de nós mesmos. E a maneira mais eficaz para esse despertar consiste em estimular os nossos sentimentos.
Fui há dias visitar um amigo que se encontra no hospital. Ao percorrer os corredores, e numa espreitadela furtiva pelas camas alinhadas nas enfermarias, olhando os doentes, (alguns bastante mal) espontaneamente, uma prece silenciosa, rompeu a atmosfera de dor e sofrimento que me envolvia e subiu até Deus num agradecimento mudo, mas sincero.
Não há melhor bênção do que a saúde! Mas, distraídos que andamos, só nesses lugares é que lhe damos o real valor. Para quê tanto egoísmo, tanto ódio, tanta inveja e tanta revolta?
Com tudo isto queria eu dizer que se na vida de cada um de nós há situações verdadeiramente inevitáveis, outras há – a que poderíamos até chamar de facultativas – às quais podemos muito bem fugir ou evitar.
Todos sabemos que a vida é uma teia urdida com as mais variadas dificuldades. Mas para melhor a suportar, para melhor vivermos, para termos paz, tranquilidade, e um pouco de bem-estar, por que não procurar combater as nossas angústias, os nossos medos e as nossas contrariedades recorrendo a esse legado espiritual, esse dom que Deus nos concedeu? Não é a Fé um incomensurável poder que alimenta a vida? Ter Fé e procurar nela a humildade, a tolerância e o perdão – é como que renovar a vontade de viver em paz com nós mesmos. E é dessa paz interior que vem a força para enfrentar todos os desafios e transpor os obstáculos que a vida coloca no nosso caminho.
quarta-feira, julho 22, 2009
domingo, julho 19, 2009
TOUT LE MONDE Y A DROIT

Un couple une fin d'après-midi, dans une gare, à l'heure de pointe.
Ils étaient là, debout, enlacés, en osmose sur ce quai bondé. Ils s'étaient planqués un peu en retrait de la foule, derrière une colonne. De leurs regards éperdus, ils se dévoraient mutuellement, ils ne faisaient qu'un. Leurs corps épousés, les bras entremêlés, leurs baisers étaient passionnés, fougueux, énormes de tendresse. Un sentiment fusionnel, exprimé avec l'urgence des amants adultères qui doivent se quitter momentanément et pour qui la séparation est intolérable. A l'évidence, ils étaient en train de se dire "au revoir".
Rien que d'assez banal me direz-vous ?
Peut être ... si ce n'est qu'ils avaient dépassé la soixantaine.
C'était des caricatures de grands parents prolos et misérables, mal fagotés, gris et ternes. Elle avait ses cheveux gris et sales ramassés à la diable dans une barrette minable de prisunic, des bas à varice. Il avait une casquette ringarde, pied de poule, celle avec le bouton pression, des bretelles. Ils étaient laids. Ils auraient pu faire pitié.
Seulement, là on était loin de la pitié. Très loin, ils s'aimaient comme des adolescents, ça suintait la chaleur et la passion. Une si torride étreinte, chez des gens de cet âge, avait quelque chose d'obscène.
Mais j'ai passé outre le dégoût qu'ils m'avaient spontanément inspiré de prime abord. Je me suis forcée à les regarder sans cet a priori. Je commençais à imaginer leurs doubles vies compliquées, leurs parcours, leur histoire, cet amour anachronique ...
J'ai viré les préjugés.
Je les ai contemplé.
Je les ai enviés.
Je les ai trouvés beaux.
L'amour ? Tout le monde y a droit
quinta-feira, julho 16, 2009
BANDEIRA

16-7-09
Guerra Junqueiro, deputado, jornalista, escritor e poeta, que viveu entre 1850 e 1923, autor de várias obras, entre elas, Os Simples, era também senhor de uma admirável veia satírica que o levou a escrever vários panfletos de combate político.
Lembro-me, a propósito, de que na minha adolescência, uma das suas obras, A Velhice do Padre Eterno, figurava no catálogo dos livros cuja leitura era proibida pela autoridade pontifical.
Escusado será dizer que o livro passou de mãos em mãos e apesar de muito esfarrapado, quase todos os que comigo romperam os fundilhos das calças nos bancos do Colégio Tomás Ribeiro, o leram. Fruto proibido...
Se hoje evoco o poeta de Freixo de Espada à Cinta é porque li há dias, num excerto de um dos seus opúsculos políticos, uma frase que apesar de ter já sido escrita há muitos anos mantém ainda uma actualidade desconcertante. Escreveu ele que «a política é uma enxerga podre cheia de percevejos...»
Não acham que a mensagem que a frase encerra continua pertinente e actual?!...
A enxerga é a mesma. Pode não cheirar mal, mas a factura dos desodorizantes é elevada. Os percevejos, esses famigerados e fedorentos bichinhos que só atacavam de noite, foram substituídos por outros parasitas que atacam a qualquer hora e em qualquer sítio...
São os chamados doutores da política – esses pretensos defensores do povo que se arranham e insultam em público e que depois se juntam e se empanturram à volta de mesas recheadas dos mais requintados e exóticos manjares!
Os vergonhosos acontecimentos a que ultimamente temos assistido ao vivo e em directo, mostram-nos o que o futuro nos reserva se continuarmos a confiar em pessoas tão irresponsáveis, tão imaturas e tão incompetentes.
Não vale a pena entrar em pormenores, mas é bom que reflictamos um pouco naquele "sacudir da água do capote" por parte de quase todos os que deviam assumir a responsabilidade (ainda que indirecta) dos erros que têm sido cometidos.
Veja-se ainda o que se não tem dito e feito, corrido e saltado, para encontrar um bode expiatório para justificar uma falha que, afinal, poderão ter sido muitos a concorrer para que ela se verificasse!
Quanto a mim tudo isto não passa de uma constante e hipócrita encenação. E tanto os que nos governam como os que lhes fazem oposição não acreditam nem naquilo que dizem, nem naquilo que fazem. Vivem a sonhar. E, entretanto, o País, sem dono, parece estar à venda. Vem aí a liquidação total. E o trespasse...
Por isso não se admirem se daqui a uns anos, ao acordar, e ao olharem para a torre de menagem, depararem com um sujeito desconhecido, barrigudo, disfarçado de eurocrata, a hastear uma bandeira, que não a nossa!
A ENXERGA
16-7-09
A enxerga
Guerra Junqueiro, deputado, jornalista, escritor e poeta, que viveu entre 1850 e 1923, autor de várias obras, entre elas, Os Simples, era também senhor de uma admirável veia satírica que o levou a escrever vários panfletos de combate político.
Lembro-me, a propósito, de que na minha adolescência, uma das suas obras, A Velhice do Padre Eterno, figurava no catálogo dos livros cuja leitura era proibida pela autoridade pontifical.
Escusado será dizer que o livro passou de mãos em mãos e apesar de muito esfarrapado, quase todos os que comigo romperam os fundilhos das calças nos bancos do Colégio Tomás Ribeiro, o leram. Fruto proibido...
Se hoje evoco o poeta de Freixo de Espada à Cinta é porque li há dias, num excerto de um dos seus opúsculos políticos, uma frase que apesar de ter já sido escrita há muitos anos mantém ainda uma actualidade desconcertante. Escreveu ele que «a política é uma enxerga podre cheia de percevejos...»
Não acham que a mensagem que a frase encerra continua pertinente e actual?!...
A enxerga é a mesma. Pode não cheirar mal, mas a factura dos desodorizantes é elevada. Os percevejos, esses famigerados e fedorentos bichinhos que só atacavam de noite, foram substituídos por outros parasitas que atacam a qualquer hora e em qualquer sítio...
São os chamados doutores da política – esses pretensos defensores do povo que se arranham e insultam em público e que depois se juntam e se empanturram à volta de mesas recheadas dos mais requintados e exóticos manjares!
Os vergonhosos acontecimentos a que ultimamente temos assistido ao vivo e em directo, mostram-nos o que o futuro nos reserva se continuarmos a confiar em pessoas tão irresponsáveis, tão imaturas e tão incompetentes.
Não vale a pena entrar em pormenores, mas é bom que reflictamos um pouco naquele "sacudir da água do capote" por parte de quase todos os que deviam assumir a responsabilidade (ainda que indirecta) dos erros que têm sido cometidos.
Veja-se ainda o que se não tem dito e feito, corrido e saltado, para encontrar um bode expiatório para justificar uma falha que, afinal, poderão ter sido muitos a concorrer para que ela se verificasse!
Quanto a mim tudo isto não passa de uma constante e hipócrita encenação. E tanto os que nos governam como os que lhes fazem oposição não acreditam nem naquilo que dizem, nem naquilo que fazem. Vivem a sonhar. E, entretanto, o País, sem dono, parece estar à venda. Vem aí a liquidação total. E o trespasse...
Por isso não se admirem se daqui a uns anos, ao acordar, e ao olharem para a torre de menagem, depararem com um sujeito desconhecido, barrigudo, disfarçado de eurocrata, a hastear uma bandeira, que não a nossa!
sábado, julho 11, 2009
A VONTADE DO POVO ?!...

O problema já é velho e até Salazar dizia que «não se pode governar contra a vontade do povo». Porém, mutatis mutandis, agora como então, surge a mesma pergunta – o que é a vontade do Povo?...
É a vontade de cada cidadão, será a de uma dúzia, será a dos que governam, ou será a do maior número? Em qualquer dos casos, o certo é que o problema continua por resolver, pois ainda ninguém conseguiu fazer a destrinça e encontrar uma explicação convincente. Foi-se a ditadura e com o advento da democracia foram muitos os que acreditaram que a partir daí se poderia definir e explicar o sentido da expressão. Puro engano. Quem assim pensou esqueceu-se que qualquer sistema de governo tem as suas subtilezas, os seus disfarces e os seus embustes. Daí que no sistema democrático, para contornar a situação e evitar chatices convencionou-se que vontade popular é a que resulta da contagem das cores dos papelinhos saídos da caixa a que, não sei porquê, se deu o nome de urna. Porém, não existe qualquer verdade no denominado sufrágio universal. O que há, isso sim, é uma verdade convencional. E isso porque hoje mais do que em tempo algum, avança-se ou recua-se mercê de uma série de convenções. Nem sempre claras, diga-se em abono da verdade.
Como no passado, também no presente o povo vota, mas não manda; o povo paga, mas não sabe para onde vai o seu dinheiro; o povo sofre, refila... e cansado e rouco, acaba por desistir. Então e a tal vontade popular? Uma simples figura de retórica. Um ornamento que serve apenas para enfeitar os discursos hipócritas e ocos dos mandantes. E como o mal já vem de longe e não se consegue fazer a destrinça entre verdade e vontade, manda quem pode, obedece quem deve... Isto apesar de todos sabermos que o que convém à minoria que governa nunca coincide com a maioria dos que não governam. É dos livros e não queiram convencer-me de que – nesse capítulo – há formas de governo diferentes. Cada Governo, qualquer que seja a ideologia, tem de fazer sempre referência à tal vontade do Povo. Sem nunca saber o que realmente isso é...
Tenho à minha frente um Jornal onde leio que o Tribunal de Contas revelou que foram gastos 241 milhões de euros a mais em cinco obras públicas. E isto é um pequeno exemplo… Não haverá ninguém a quem pedir responsabilidades por este e outros esbanjamentos de dinheiro que acontecem todos os dias?
E ainda há quem diga que somos pequenos! Só se for no juízo. Porque na arte de "meter a mão na massa" somos os maiores...
Governados por umas dúzias de cidadãos – muito bem protegidos por "pequenas verdades convencionais" – cá vamos vivendo, assistindo impotentes a "desvios" sistemáticos de milhões. Mesmo contra a vontade do povo…
FINGIMENTOS

Hoje, mais do que nunca, é sob o manto da religião que se fazem, que se dizem e que se praticam os maiores atentados contra a moral cristã.
Muitas vezes, os comportamentos ostentados na Igreja são apenas um fingimento, uma espécie de cortina de fumo, para esconder as sementes de ruindade que germinam no interior.
Há muita gente que se esquece de que nada se consegue esconder de Deus…
E por mais atitudes de hipocrisia, fingimento ou disfarce que usemos, exibindo e apregoando virtudes que interiormente não possuímos, nada se diz, nada se faz, nem nada se ostenta, sem que Ele deixe de ter conhecimento.
De nada vale, pois, fazermo-nos passar por aquilo que não somos, porque um dia, toda essa farsa, toda essa imposturice, nos cairá em cima, transformando a nossa vida numa expiação contínua e dolorosa.
Só os ingénuos, os descrentes ou os utópicos acreditam num futuro fingido e hipócrita, recheado de falsos valores, assente na fantasia, no sonho, na ostentação e na vaidade.
São esses – sobretudo os hipócritas – que, confusos ou desorientados com a poeira que levantam no seu caminho, deixam de ter uma clara e verdadeira visão das realidades. Pensam enganar e acabam enganando-se a si próprios. De nada lhes vale ostentar uma religiosidade que não têm, nem exteriorizar sentimentos que não possuem.
Infelizmente a sociedade está cada vez mais cheia desses falsos profetas e de uma nova espécie de Judas que julgam tudo poder fazer!
A Mensagem do Evangelho é constantemente traída por todos esses novos «vendilhões» que frequentam o Templo e consigo levam e fazem alastrar sobre as sua seculares pedras do chão, nódoas de riqueza, de vaidade e de hipocrisia, sendo esta uma das mais difíceis de lavar.
«Os hipócritas mentem como cidadãos honestos, são falsos pregadores das coisas de Deus e não passam de sepulcros caiados, bem enfeitados por fora, mas cheios de podridão por dentro...» – são palavras de Cristo.
Todos nós temos defeitos, todos erramos, todos somos imperfeitos. Mas também a todos nós concedeu Deus o dom de pensar, raciocinar, de saber avaliar o bem e o mal.
Infelizmente, uns por falta de cultura, outros por vaidade, são incapazes de fazer uma avaliação interior e reconhecer que estão errados. Auto-elegem-se pregadores de moralismos de feira e de mãos erguidas e olhos no céu, é vê-los representar uma farsa que só a eles convence. Mas, como diz o provérbio, “o maior cego é aquele que não quer ver…”
A PAPAGÁLIA

Em tempos muito remotos – tão remotos que ainda toda a bicharada falava – existiu à beira mar, um país original habitado unicamente por Aves.
Fundado pela família dos Psitácidas que adoravam a água, o reino do Silêncio, (nome dessa nação da passarada) era banhada a ocidente por um mar de água doce, que não só contribuía para a fertilização das suas terras, mas que também, e graças às suas correntes, auxiliava os seus habitantes nas migrações que faziam.
Durante décadas, Havisrara I, ocupou o poleiro que lhe servia de trono sem que a existência pacífica dos seus súbditos sofresse muitas perturbações, pois os que não se sentiam bem, emigravam, e os que resolviam ficar, mais pena, menos pena, lá iam vivendo …
Porém, como a evolução dos tempos nem a passarada poupa, no Reino do Silêncio, começaram a aparecer os primeiros sintomas de mal-estar que iriam tomar o carácter de conspiração logo após a morte do monarca.
Sucedeu-lhe Havisrara II que no início do seu reinado tentou ainda conciliar as opiniões. Em vão!...Pouco tempo depois era acusado de imitador, porque, diziam, tendo aprendido a papaguear com o seu antecessor, outra coisa não poderia fazer que não fosse repetir o que tinha ouvido.
O descontentamento foi alastrando até que numa manhã de nevoeiro o inevitável aconteceu: rebentou a deplumação!
Um grupo de psítacos, que ficaria conhecido por Movimento dos Papagaios, do qual faziam parte também as Araras, as Catatuas e outra passarada miúda, atacou o Poleiro Real à bicada, desempoleirou o monarca, abriram as gaiolas e proclamara a Aviscracia, ao mesmo tempo que mudavam o nome à terra-mãe que de Reino do Silêncio que era, Papagália ficou a chamar-se.
À surpresa que tal facto causou, seguiu-se a euforia que caracteriza tais acontecimentos e que tanto entre os homens como entre os bichos, chega por vezes também a inverter o sentido dos mesmos.
Em palratórios emplumados, os chefes dos bandos que se tinham formado logo após a proclamação da Aviscracia, começaram os seus voos de propaganda. Ao mesmo tempo que denunciavam os erros dos antigos monarcas, prometiam à passarada o céu inteiro para voar. Não haveria mais discriminações, nem de plumagens, nem de vocabulário. Era preciso união entre todos, pois derrubada que foi a escravatura, os papagaios unidos jamais seriam vendido.
O bando dos papagaios roxos pintados às pintinhas (PRPP), o dos papagaios cinzento-pardos (PCP), o dos papagaios de penas sarapintadas (PPS) o dos papagaios de penas matizadas (PPM), o dos papagaios sem distinção (PSD) o dos papagaios com dois sinais (PCDS) e a união dos palradores (UDP), atroavam a floresta inteira com constantes papagueados, tentando, cada qual, conquistar o maior número possível de aderentes.
Atraídos pelo barulho, regressaram à terra-mãe papagaios há muito ausentes. Anchos, de pluma luzidia e bico adunco, com vocabulário aprendido na estranja espanejando vaidosos, eles deslumbravam a passarada incauta e confiante.
Autênticos realejos movidos por corda invisível, depressa dominaram toda aquela gente alada que durante muitos anos fora privada de outro vocabulário que não fosse o que os monarcas ensinavam…
Passaram os dias, meses e os anos foram também passando, mas como nem só de papaguear vive o papagaio…
A euforia inicial cedeu o lugar ao desencanto: as araras e as catatuas que tinham tomado parte no movimento, sentiam-se frustradas e algumas migraram até.
Os papagaios e sobretudo os estrangeirados eram agora os senhores e mandadores e ocupavam os melhores poleiros. O aumento da população motivado pelo regresso de milhares de Aves, fez com que começassem a escassear as bagas nas árvores e avizinhava-se um período negro de fome.
Tudo tinha mudado, é certo, mas com essa mudança nada tinha melhorado!
A Reforma Avícola que tinha sido imposta pelos dois bandos mais influentes, o dos papagaios cinzento-pardos (PCP) e o dos papagaios sem pintas (PSP), não fez mais do que exacerbar a paciência da passarada.
O bando dos papagaios sem distinção (PSD), de tão desiludido, abandonou os seus lugares na capoeira – uma espécie de anfiteatro natural, constituído pela copa de uma árvore frondosa onde se tomavam as decisões mais importantes – dissociando-se dos outros bandos.
Num esforço derradeiro para fazer face à degradação galopante da ecologia alada, foi pedida a intervenção de uns passarões chamados Etólogos e versados na ciência de depenar sem dor. Pertenciam à família dos milhafres independentes (FMI) mas trabalhavam sempre em associação com o bando dos milagreiros (BM) que era constituído por uma espécie de conirrostros exímios em resolver operações penosas.
Depois de várias auscultações fizeram o diagnóstico, mas como os bandos não se entendiam quanto às medidas sanitárias a adoptar, não puderam os «veterinários» mais fazer do que receitar uns pozinhos para prolongar durante algum tempo mais, a vida da já agonizante Papagália!
Muitos dos papagaios mudavam de plumagem e abandonavam o bando a que inicialmente pertenciam.
Outros perdiam o sentido da orientação e voavam em ziguezagues. Era o começo do fim.
Entretanto, o nome dos antigos monarcas começava a ser evocado como símbolo de um tempo em que sabia bem voar, embora, por vezes, os ventos fossem contrários e o céu bastante limitado!...
Possessos de uma histeria barulhenta, pássaros, passarinhos e passarões, atroavam a floresta numa cacofonia sem par. Finalmente, com a poluição das nascentes e o desequilíbrio ecológico, um surto de psitacose aguda dizimou toda a população que morria esvaindo-se em verborreia malsoante…
E assim desapareceu a Papagália!
Os turistas que hoje visitam esse espaço geográfico onde outrora existiu esse país de Aves, fazem, por vezes, aproximações bastante originais ao ouvirem contar esse passado longínquo, vendo desfilar um presente que parece não ter futuro.
Numa entrevista recente à RTP (Revue de la Transmigration des Perroquets), um desses turistas, ornitologista por desporto e antropólogo por necessidade, chegou mesmo a afirmar que «a Papagália continua a existir, tendo apenas mudado de fauna…»
O que parece corresponder à verdade, pois perante tão grave declaração, não se registou nenhuma reacção dos governantes.
Na dúvida!...
Janeiro de 1983
quinta-feira, julho 02, 2009
Será que ele vai mesmo marrar?!...

Para os que não estão bem enfronhados nessa coisa nojenta que é a política, informo que a foto é do ministro Manuel Pinho.
Que belo espectáculo para os estrangeiros verem até que ponto chegámos!
Incompetente, grosseiro e reles! O que nos espera...Pobres de nós se continuamos a ser governados por esta escumalha. Vamos lá ver se o primeiro ministro os "tem" no sítio e põe o figurão no olho da rua...Mas já!...
terça-feira, junho 30, 2009
Diplomas

Nos já longínquos tempos da minha meninice havia em certas localidades um ferrador, que era um indivíduo que tinha como profissão tratar do “calçado” das alimárias, mais especificamente dos cavalos e das éguas.
Quando o homem começou a servir-se destes animais para executar os seus trabalhos, tanto para a sua própria locomoção como para o trabalho da agricultura, apercebeu-se que o ponto fraco dos bichos era o casco – as unhas dos solípedes.
Em terreno pedregoso, por vezes, os cascos sofriam cortes e impossibilitavam os animais de cumprir as suas tarefas, imobilizando-os. Era, por isso, necessário protegê-los. Para o efeito, e segundo livros antigos, teriam sido feitas diversas tentativas com o material da época, como couro, cordas, etc., até que surgiu o ferro que foi moldado no formato dos cascos, e que deu origem aquilo a que passou a chamar-se ferradura.
A ferradura era colocada na forja e, quando incandescente, era batida na bigorna e ajustada ao casco do animal. Seguia-se depois a sua aplicação por meio de cravos, uma espécie de pregos, que sem ferir o animal, a seguravam.
Parece que estou ainda a ver o senhor José ferrador, de avental de couro, martelo em punho, batendo o ferro e moldando sobre a bigorna, a ferradura incandescente para aplicar nos cascos do animal – cavalo ou égua – que, pacientemente, esperava “os sapatos” novos encurralado, entre duas tábuas!
Não me lembro de ter visto ou ouvido dizer que igual forma de calçado tivesse sido aplicado, na minha região, quer a um jumento, quer a um burro e sempre atribui tal facto à falta de “linhagem” dessa categoria de solípedes que eram considerados de segunda classe. Cavalo é cavalo, e burro é burro. Nada de confusões…
A propósito: conhecem aquela história do tempo em que os animais falavam? Se não a conhecem ela aqui vai: Havia um ricaço que apesar de todo o seu dinheiro, não sabia ler nem escrever. Um dia disseram-lhe que tinha aberto uma repartição do Estado onde vendiam certificados de doutor mediante o pagamento de uma avultada soma. O homem informou-se, e um dia apresentou-se no local onde, em troca de um saco de ouro, lhe deram um título de doutor. Na volta, logo avisou o cavalo: “Cautela com os tropeções. Agora que sou doutor, cuidado com o trote…” O cavalo engoliu em seco e logo pensou em ir também comprar um certificado igual para ficar à altura do dono. Foi, mas não o obteve, pois logo o informaram que esses diplomas não se destinavam a cavalos. Eram só para burros…
segunda-feira, junho 29, 2009
A VIDA
A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
João de Deus
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
João de Deus
quarta-feira, junho 24, 2009
Masturbações

Dizia-me há dias um dos meus mais jovens leitores, que uma rubrica influente deve abordar todos os assuntos – dos mais insignificantes aos mais complexos – desde que todos eles sejam considerados sérios e importantes.
E ao pedir-lhe que me desse um exemplo de um tema que gostasse de ver focado nesta rubrica, olhou-me do alto dos seus cento e oitenta e cinco centímetros e, catedraticamente, disparou:
-A sexualidade, meu amigo, o sexo! Não vês que é, hoje em dia e a seguir à política e ao futebol, a coisa de que mais se fala, em toda a comunicação, quer televisiva, radiofónica ou escrita?...
E foi assim, prezados leitores, que me senti na obrigação de me documentar para, à minha maneira, fazer a abordagem de tão escaldante assunto.
E vai daí, numa primeira fase, dirigi-me à Sociedade Mundial de Sexologia e pedi que me enviasse os “Cadernos de Sexologia Clínica” da autoria do seu fundador e presidente.
A resposta não se fez esperar. A obra encontrava-se esgotada e foi-me proposto, em substituição, o envio de uma cassete vídeo aconselhada a casais responsáveis e desejosos de aperfeiçoar e conhecer melhor o velho caminho do prazer.
Não respondi. Entretanto fiz algumas pesquisas, li várias obras relacionadas, mas nada vi ou li que já não soubesse…
Uns meses depois recebi de um senhor com um nome esquisito e que se dizia doutorado em “psicosexologia” e “neuropsicologia”, uma proposta do envio, contra reembolso, de três cassetes que ministravam um curso intitulado “Sexotónico.
Como exemplo da eficácia que o referido curso poderia vir a ter no que ao sexo diz respeito, o proponente fazia uma comparação entre o vaivém espacial e os foguetes das festas das aldeias.
Explicava ele que “enquanto a subida do vaivém é prolongada, a dos foguetes é efémera, pois tão depressa sobem como depressa caem…”
Além de não ter percebido bem a “mensagem”, também achei exagerado o preço do curso e artificial e pouco credível a maneira de tratar um assunto tão complexo.
Mesmo sabendo de antemão que vou desiludir o meu amigo, desisti de fazer mais pesquisas sobre o tema.
E para vos falar com toda a franqueza, em questões de sexo já me basta ter de assistir às masturbações intelectuais, ao fluxo palavroso, que escorre, peganhento, dos discursos balofos e narcisistas de certos políticos da nossa praça.
sexta-feira, junho 12, 2009
Rescaldo

Terminou, por agora, a poluição televisiva, motorizada, barulhenta e agressiva, desses grupos coloridos de gentes e de veículos que percorreram o país durante mais uma campanha de caça ao voto.
Durante o tempo que durou a caçada, nunca, a meu ver, a vida política nacional se assemelhou tanto ao tráfego caótico numa estrada estreita e esburacada num fim-de-semana prolongado.
De tudo se viu – excesso de asneiras, condução sem licença, taxa de alcoolemia acima do permitido, circulação pela faixa contrária, despistes, ultrapassagens perigosas, insultos mútuos, falta de civismo... Nada faltou nesse engarrafamento de ideias onde tudo se misturou e nada se ouviu de concreto.
Não há dúvida que foi deveras confrangedor o espectáculo que nos ofereceram tanto os que se apresentaram para nos representar na Tribuna da Europa, como alguns dos que os apoiavam!...
Quando o responsável por uma das principais bases da civilização, que é a Cultura, desce os degraus da escada e vem, consciente, chafurdar na lama apodrecida do charco da política usando uma linguagem em nada condizente com o cargo que ocupa, é certo que nada mais nos separa dos homens das cavernas.
De todo esse conjunto de acusações mútuas, de todos esses excessos de linguagem, de todos os atentados à sanidade mental dos eleitores, de toda essa falta de educação e princípios, o que se poderá esperar dos futuros eleitos?
Se o seu trabalho em Bruxelas corresponder àquilo que demonstraram durante o tempo que percorreram o país trocando acusações pessoais e esquecendo o seu principal dever, então podemos estar certos de que nada mais nos resta do que encomendarmo-nos a Deus e esperar um milagre! Um milagre que nos traga de volta homens que saibam o que é a lei da honra, essa Honra tradicional portuguesa, criadora de homens de um só rosto de um só parecer. Homens que digam o que pensam e não apenas o que lhes convém. Homens de carácter, sem a sede doentia do lucro e do prazer. Homens que professem os valores essenciais da democracia que apregoam...
Por tudo aquilo que se viu e ouviu, com constantes atropelos às mais elementares regras da educação, não restam dúvidas que se esqueceu o «cargo» e se passou a defender o «tacho».
É muito triste assistir a toda esta vergonha e chegar à conclusão de que a ganância, a vaidade e o interesse, desnudam e põem a claro a falta de Ética de certos homens que, pelo lugar que ocupam na sociedade, deveriam comportar-se como verdadeiros cidadãos – íntegros, honestos e defensores dos verdadeiros desígnios da Nação.
domingo, maio 17, 2009
É Domingo

É Domingo. Um Domingo triste...As nuvens não deixam que o Sol venha aquecer a Terra e amadurar os frutos. Fui há pouco colocar uma taramela no cocuruto da cerejeira, porque a passarada, sobretudo os melros, comem as cerejas que estão ainda verdes.
Todos os anos a árvore se transforma numa uma espécie de supermercado da passarada: melros, pardais, tentilhões, rolas, gaios, todos ali vão abastecer-se sem que lhes seja pedido nada em troca.
O mesmo acontece no velho tanque, cheio de água, onde as andorinhas, em voos rasantes, vão molhar o bico, levando um pingo para amolecer a “argamassa” com que constroem os seus ninhos.
Maio! O mês em que o meu quintal se veste com roupas de várias cores, e em que, no ar, há um cheiro diferente, difícil de explicar. É Primavera!... E como escreveu Miguel Torga:
“Depois do Inverno, morte figurada,
A Primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.”
Muitas andorinhas pousadas, além, num fio da luz eléctrica. Grande alarido. Gritos, bater de asas, mas como saber o que dizem?...
Se fossem melros eu diria que estavam a planear um ataque em massa às cerejas…
Numa inspecção que fiz há já muitos ramos em que resta apenas o pedúnculo e o caroço. A polpa já desapareceu!
Será que a taramela vai evitar que “a limpeza” atinja toda a árvore?...
Vamos ver…
sexta-feira, maio 08, 2009
Canções

Não é fácil encontrar assunto para, semanalmente, preencher o espaço que me é concedido. Ou melhor dizendo: assuntos há, e muitos!.. Só que, escrever simplesmente para ajudar a encher a página, abordando temas que, por vezes, nem dominamos, é caminho pelo qual não gosto de enveredar. E foi por isso que recorri à minha velha arca de que já vos tenho falado. Velhinha, cheirando a naftalina, mas com muita coisa dentro!
Desta vez veio-me à mão um disco antigo ainda em vinil. Riscado já. Na capa um homem de forte estatura, enormes bigodes, empunhando uma viola – Georges Brassens. Um cantor compositor dos anos 50/60, muito contestado e cujas canções foram consideradas escandalosas pela burguesia francesa de então. Não sei se entre os meus leitores haverá quem se lembre de algumas delas e que escandalizaram a França: Le Gorille, Le Pornographe du Phonographe, Chanson pour l'Auvergnat, La Marche Nuptiale, Les amoreux qui ecrivent sur l'eau, La Mauvaise Herbe, etc. etc., são algumas das que deram muito que falar...
«Desmistifica, desintoxica, e é o inimigo de uma sociedade inimiga do homem. Quem não gosta dele, traiu ou participa. Viva Brassens!...» – diziam uns, «Tudo o que canta é absurdo ou imundo. O seu êxito é um desafio ao bom senso e ao bom gosto...», contrapunham outros.
E todos, afinal, tinham razão, porque de todas essas diferenças, nasceu o mito Brassens. As notas que tomei na altura, – já bastante desbotadas – dizem que a sua figura de lutador e as suas canções de revolta e sarcasmo, escondem um fundo de angústia e desilusão. A sua adesão ao movimento anarquista e a sua ânsia de se cultivar através de exaustivas leituras, explicam, talvez, as duas facetas do homem – um homem cada vez mais só. Família, credos políticos e religiosos, ele tudo despreza. Tudo recusa. E a violência da sua revolta é tal que a todos ataca. O mais violento vocabulário é para ele uma necessidade. É preciso chocar, testemunhar, escandalizar porque sem escândalos as pessoas conservam a sua pacatez e o agitador que as espicaça não teria razão de ser. Para conseguir dar um significado mais puro às palavras da tribo, é necessário desvendar o seu significado impuro. Brassens empenhou-se nessa tarefa e talvez sem o pensar operou uma revolução na arte, ao denunciar os falsos valores e as hipocrisias da sociedade escondidas sob uma canção.
Muito mais haveria a dizer, sobre esses homens da canção que pela sua irreverência, pelas suas "provocações", mas também pela sua ousadia e pelo desprezo por si próprios, enfrentaram os poderosos, fazendo com que muitas injustiças fossem atenuadas. Quedamo-nos no entanto por aqui, recordando as estrofes de uma das suas canções, cuja mensagem filosófica está ainda actualizada e merece reflexão:
Les hommes sont faits, nous dit-on, / Pour vivre en band' comm' les moutons. / Moi, j' vis seul e c'est pas demain / Que je suivrais leur droit chemin.
quarta-feira, abril 29, 2009
Eternos ingénuos!...

A corrupção e a violação dos mais elementares princípios da ética estão a perturbar cada vez mais aqueles que são obrigados a trabalhar honestamente para garantir a sua subsistência.
São tantos os atropelos à moral, ao bom senso e à honestidade que muita boa gente se interroga se realmente vale a pena continuar a respeitar e a pôr em prática os valores morais que em pequeno lhe ensinaram.
Muitas vezes, – em assomos de raiva e revolta por tantos abusos – pergunto a mim mesmo se onde todos roubam, não será anti-ético não roubar!...
Se todos os dias a maior parte daqueles que deveriam dar o exemplo exercendo o seu cargo com isenção e lisura nos mostram o contrário, prevaricando a torto e a direito, como resistir à tentação de não proceder da mesma maneira?
Se para eles é correcto servirem-se do que não lhes pertence para auferir lucros e terem direito a um lugar vitalício nas primeiras filas deste circo, por que motivo não haveremos nós de tentar também sonhar e lutar por iguais benesses?
Será porque fomos condenados a usar eternamente esta fatiota de autênticos palhaços andrajosos, subservientes e choramingas?
E assim é. Somos palhaços acoitados sob esta tenda de circo esburacada, segura por cordas que nos foram cedidas por Bruxelas mediante acordos nos quais predominou a super-facturação em nome de todos, mas cujo dinheiro reverteu só em benefício de alguns.
Palhaços, porque pagamos aquilo que nunca recebemos. Somos palhaços de um circo decadente, exposto às intempéries e à cobiça das aves de rapina vindas de outras paragens; somos palhaços de um circo onde não falta comida para os leões, mas que escasseia nos sectores onde vive a bicharada mais pequena, numa promiscuidade indecente.
É um circo falido, mas onde nada falta aos donos e senhores que zombam dos necessitados que se atropelam à procura de comida. Os palhaços mais velhos, teimosos, desafiam a vida comprando a saúde em troca da mísera reforma que recebem, e que deixam na totalidade na farmácia da aldeia!
Um circo que mais se assemelha a um cemitério onde foram impiamente enterrados em vala comum todos os valores que diferenciam o homem dos bichos: a honra, o respeito, a vergonha, a educação e até o patriotismo!
Entretanto assistimos ao aparecimento de riquezas misteriosas e à divulgação de lucros escandalosos de Bancos e de Empresas públicas, à atribuição de indemnizações faraónicas a senhores que deixam um lugar para ocupar outro cuja remuneração e mordomias são ainda maiores!
Alguém já viu algum desses nababos abrir a sua carteira para ajudar a minimizar a fome e a miséria que por aí vai? Esses donos de fortunas incalculáveis conseguidas através de artes e manhas pouco recomendáveis falam muito em solidariedade e ajuda, mas tudo isso não passa de simples figuras de retórica e de enfeites linguísticos para branquear uma conduta pouco digna e honesta.
O circo está falido, mas haverá sempre comida para os mais fortes, para os leões... E sob a lona esburacada, os serviçais e os arrumadores – essa nova espécie de escravos - continuam a olhar o céu através dos buracos, acreditando ainda num milagre…Não no milagre das rosas, mas num outro milagre – o dos papelinhos, que nos actos eleitorais que se aproximam, irá transformar o rectângulo, finalmente, numa terra da fraternidade, de bem-estar e de igualdade entre todos. Santa ingenuidade!...
Quem matou a esperança?...

Esta hora de crepúsculo em que nos encontramos é uma hora triste, uma hora simbólica. É uma hora silenciosa, indescritível e amargurada por não sabermos o que nos trará a manhã que vem a seguir.
É uma hora tão secreta e enigmática que até os heróis têm medo, e todo o homem se sente sozinho, receoso e incrédulo!...
E é por tudo isso que eu penso que chegou a hora de nos unirmos para pôr fim a esta progressiva degradação do país. Em cada dia que passa mais se acentua esta espécie de catalepsia em que parece termos mergulhado.
Como sonâmbulos, vagueamos um pouco por toda a parte, falamos de tudo e de nada e, de olhos fechados, movimentamo-nos indiferentes a tudo o que nos rodeia.
É a hora de acordarmos. É a hora de pôr cobro a este descalabro da Nação. É a hora de abrir os olhos, de reagir, de não acreditar na visão dos burocratas; nem no optimismo dos mercenários da política; nem na óptica desfocada desses senhoritos vaidosos; nem na "sapiência" desses bacharéis de cartilhas modernas, nem nessa seita de homens medíocres, bem falantes – todos eles egoístas, prepotentes e desconhecedores, em absoluto, da realidade da vida.
Não esqueçamos, porém, que é também a hora em que devemos pensar que nada está perdido, mas que tudo se pode perder. É a hora de fazer da resignação uma revolta pacífica e da indignação uma força íntima que não tema nada nem ninguém.
É a hora de denunciar as injustiças. É a hora de não pactuarmos com o compadrio; de restabelecer a confiança e, sobretudo, de reforçar, de cimentar o verdadeiro conceito da honra e da honestidade.
Julgamos, criticamos e culpamos sem nos lembrarmos que também somos cúmplices, porque muitas vezes, quer por comodismo, quer por interesses particulares ou outros, não denunciamos as ilegalidades para que seja feita justiça e punidos os infractores.
Durante mais de três décadas temos aceitado com indiferença e tolerância todos os abusos que têm sido cometidos em nome da democracia – uma democracia de funil a que urge pôr fim. E só conseguiremos acabar com esse circo de demagogia e de retórica quando, em vez de aplaudir e bater palmas, tivermos a coragem de denunciar e desmascarar os barões que se escondem atrás das cortinas do palco da governação, que exploram o povo na sua ignorância e credulidade e que têm delapidado impunemente enormes verbas, servindo-se em vez de servir.
Comemorou-se mais um aniversário da «Revolução dos Cravos». É tempo de perguntar: Quem matou a esperança que surgiu como redentora no dia 25 de Abril de 1974?...
sábado, abril 18, 2009
Temperaturas

«Em política, o absurdo não é um obstáculo».
Napoleão
Segundo um infiltrado que há anos mantenho no circuito político, os prestidigitadores da governança cá do rectângulo, preparavam-se, há dias, para lançar um novo imposto. Mais um… E agora calem-se os que andam por aí a dizer que os nossos políticos não têm ideias. Ai que não têm. Quando se trata de encontrar “fontes” de rendimento, são tantas as que fervilham naqueles iluminados crânios que nem lava a sair de cratera de vulcão!
É verdade. Baseando-se no nosso clima que é um dos melhores desta velhinha e decrépita Europa, os tosquiadores deste rebanho à beira mar tresmalhado, propunham-se criar um novo imposto, a que seria dado o nome de Imposto Meteorológico!
E vejam a astúcia dos pegureiros: calcularam uma temperatura média de base e por cada grau acima, cada um dos habitantes da região onde se verificasse uma subida pagaria uma taxa de 1 Euro equivalente ao “excesso calórico”.
Nas áreas que não atingissem a média estabelecida, por cada grau abaixo pagaria o indígena uma taxa da mesma importância, equivalente ao «desequilíbrio térmico».
Mesmo processo para os dias de chuva: cálculo da humidade média e taxa de higrometria aplicada aos «mais» e aos «menos» na mesma proporção.
No Inverno, o diploma referia-se também ao dispêndio com o aquecimento, surgindo neste capítulo a primeira desigualdade entre cidadãos do mesmo País. Com efeito o preço do gasóleo, do gás e da electricidade seria mais elevado no Sul e mais baixo no Centro e no Norte. Em Beja, por exemplo, o litro, o quilo ou o quilovátio, respectivamente, seriam mais caros do que em Viseu, na Guarda ou em Vila Real, pois os habitantes da cidade alentejana terão muito menos necessidade de aquecimento do que os indígenas das faldas do Caramulo, da Estrela ou do Marão!...
E esse imposto só não foi avante porque, logo que dele teve conhecimento, o Instituto de Meteorologia e Geofísica, que detém o monopólio das condições climatéricas para Portugal e Ilhas Adjacentes, ter-se ia oposto veementemente classificando-o de «um acto absolutamente inconcebível, porque maioria terráquea, não significa, de maneira alguma, maioria absoluta no que diz respeito aos Astros!»
Que as senhoras e os senhores que "fazem" a chuva e o bom tempo se cuidem. A vingança pode vir a caminho, porque "quem se mete com eles... leva!" E entre eles há quem goste muito de "malhar…"
Páscoa 2009

«SENHOR, DESCE DA CRUZ!...»
Há, na circulação dos anos, e sempre que olhamos o caminho percorrido, épocas, dias ou momentos da vida em que parece faltar qualquer coisa que preencha este vazio da crescente desumanização do mundo... Qualquer coisa que faça ressuscitar o sonho perdido e mantenha viva a esperança e a força para enfrentar os imprevisíveis combates que diariamente surgem na nossa vida. E só nos libertamos dessa angústia, dessa solidão, quando encaramos a vida através da fé na Ressurreição.
E é tempo agora, porque Cristo ressuscitou! É Primavera. E a Natureza que acordou florida associa-se também a esta passagem da Morte para a Vida.
A Ressurreição é o fundamento da nossa Fé e da nossa Esperança. A Páscoa é por isso a festa do Amor, da Alegria e da Fraternidade. Mas é também, e sobretudo, tempo de reflexão!
O sofrimento, as injustiças, as lágrimas dos pobres, a poesia, tudo isso é uma espécie de religiosidade e mistério que nos convida a reflectir enquanto percorremos esta caminhada da vida.
Que me perdoe a ilustre poetisa, Maria da Conceição, por lhe ter roubado o título e o poema desta minha crónica de hoje. Mas eu não sabia melhor dizer, melhor pedir... nem melhor fazer:
«Somos semente, pela mão de Deus
Lançada, à Terra, como grãos de trigo,
Que germinou; mas quantos filhos Seus
Já não vêem, no Pai, o grande Amigo!
Esp'rança e Fé, virtudes lá dos Céus,
Com Caridade, um manto, bom, de abrigo,
Destes três dons fez uso São Mateus
Por Fé, foi mártir, não temeu o perigo!
Teu coração, oh, Deus, Sagrada Oferta
Nos enviaste em Teu filho Jesus
Que devolvemos feito chaga aberta!
É para Ele que vai um grito rouco:
Perdão, Senhor, mas desce dessa Cruz,
Vem pôr, na ordem, este Mundo louco.»
Este Mundo louco onde a inovação ocupou o lugar da sabedoria, a segurança social substituiu a família e a arrogância nos matou a serenidade. Em nome do nosso bem-estar e sem nos apercebermos estamos a perder Deus, porque renegamos as Suas leis naturais!...
«Perdão, Senhor, mas desce dessa Cruz, vem pôr na ordem este Mundo louco...»
sábado, abril 04, 2009
Morra Marta, morra farta...

Edição n.º 937 de 02 de Abril de 2009
Embora nunca vos tenha dito declaradamente, já devem ter percebido pelos meus rabiscos, que já cá cantam uns bons anitos!
Imaginem que já venho de tão longe que os primeiros passos de dança que dei, foi ao som de uma grafonola!... Sou ainda do tempo das sardinhas em salmoura, dos feijões cozidos e temperados com azeite, do presunto curtido na salgadeira, da genuína broa de milho, das sopas de "cavalo cansado", do vinho tirado do tonel e tapado com o espicho, etc., etc.,... E sou também daquele tempo em que ainda não existiam esses locais a que puseram o nome de Centros de Saúde, mas onde só vão doentes… e de véspera para serem atendidos. Não é que nesse tempo não houvesse doenças. Havia, evidentemente, mas os doentes eram mais "sãos"!...
Há dias, quando ouvi dizer que o Governo ia tratar da saúde aos indígenas cá do rectângulo cortando no sal do pão, lembrei-me da conversa que o meu vizinho Agapito – um homem mais ou menos da minha idade, mas com muito medo de morrer – teve com um discípulo de Hipócrates, a quem agora chamam de médico de família. É ele a contar: «Logo à entrada, mal me sentei, ele disparou:
- «Então de que se queixa?» – «Olhe, Dr., praticamente de nada, mas como ouço dizer a toda a hora que é preciso fazer atenção com o que se come!... Agora, por exemplo, fala-se muito no sal...» – «O sal? É a pior droga existente sobre a terra. Veja os gordos, os cardíacos...» – «Mas Dr. uma omeleta sem sal... – «Omeleta! Nem fale em ovos, homem! Olhe o fígado, o aparelho digestivo...» – «Mas Dr.... digestões difíceis só quando como carne de porco...» – «O quê?!... Você come carne de porco? Você não sabe que os nitritos são tantos nessa carniça que podem levar um cristão directamente à cova sem passar pela Igreja?...» – «Nesse caso, Dr., um bife com batatas fritas...» – Abrenúncio! Ó homem você s'tá doido! Não ouve falar em hormonas, não se lembra das vacas loucas?!... Batatas fritas, disse você? E as gorduras saturadas, os pesticidas, os conservantes...» – «Resta-me então o frango...» – «Alto aí, amigo! Esse galináceo tem ainda mais química do que o animal; é como uma espoja a absorver os venenos que lhe põem nas tremonhas...» – «Quer dizer que só o peixe, Dr.?...» – «Qual quê? Nunca ouviu falar na poluição do mar pelos petroleiros, nos esgotos que para ele correm? E o mercúrio?!... Comer peixe é como suicidar-se trincando termómetros, homem!...» – «Ouça Dr.: Sabe o que vou fazer? Comer apenas pão com manteiga...» – «Então experimente e verá!... Com a farinha actual que é um pó indigesto e a manteiga que é colesterol no seu estado mais puro, você mal se precata, dá dois saltos e é um homem morto!...» – «Quer dizer que nesse caso só me resta o ar...» – «E mesmo assim só o ar do campo, meu caro amigo... O da cidade, com os gazes dos escapes dos carros, os fumos tóxicos das fábricas, o enxofre...» E aqui eu explodi: - «Vá p'ró raio que o parta seu esculápio de uma figa! Eu cá vou ingerir nitritos, hormonas, mercúrio e todos esses venenos que diz existirem em tudo o que sabe bem. Vou consolar – me ouviu?... Vou consolar – me. Passe bem. Levantei-me e deixei-o a esbracejar...»
Alguns dias depois deste desabafo encontrei o Agapito num restaurante, numa encarniçada "luta" com um valente cozido à portuguesa. Esqueceu os nitritos, as hormonas, e toda a química existente em tudo o que agora se come.
Aliás, como nós, os amantes da boa mesa, fazemos. Nada de comidas plastificadas. E isso na minha “insuspeita” opinião, porque morrer por morrer, antes com a barriga cheia. Morra Marta, morra farta, como diz a velha máxima.
Falta de chá

Muito embora tenham sido os ingleses os "inventores" do chá das cinco, o famigerado five o’clock tee, foram no entanto os portugueses que trouxeram a planta do Oriente e a introduziram na Europa.
Reza a História que por volta do século XVII, a filha do nosso rei D. João IV, ao contrair matrimónio com Carlos II de Inglaterra, levava como dote, além da cidade de Bombaim, na Índia, o hábito de tomar chá, coisa até aí desconhecida em terras de Sua Majestade britânica.
A princípio, a bebida, proveniente da infusão das folhas do arbusto, era só privilégio das casas mais abastadas cá do Reino. Tomar chá conferia assim um certo estatuto de nobreza que, ao longo dos tempos se foi divulgando até que a expressão "tomar chá" começou a ser sinónimo de educação e de boas maneiras...
Estou daqui a ver a cara de escárnio de alguns leitores que consideram essa coisa de etiqueta e boas maneiras como resquícios do passado, daquele passado que as suas fanatizadas mentes não admitem seja lembrado!
Bom proveito lhes faça tal interpretação, mas cá p'ra mim continuo a pensar que a vida social só faz sentido quando é regulada por princípios de conduta que permitam distinguir o homem civilizado do homem das cavernas. Não porque esse nosso antepassado não mereça o devido respeito, mas ou se evolui verdadeiramente em todos os sectores da sociedade ou se continua a comer com as mãos e a limpar o nariz à costa da mão. Seria um recuo, penso eu, em que ninguém está interessado...
Mas vem este prólogo a propósito do "vale tudo" que reina por aí, a começar pela classe dirigente que chega ao ponto de não saber comportar-se com frontalidade, nem conservar o aprumo e a compostura que o desempenho dos cargos que ocupa lhe impõe.
À mais pequena escaramuça, estala o verniz, e assistimos, por vezes, a situações deveras caricatas para não dizer vergonhosas. No Parlamento, os eleitos da Nação, são disso um exemplo flagrante!
O chá que se possa ter tomado em pequeno ajuda muito, mas não basta. É preciso, pela vida fora, continuar a aperfeiçoar o nosso comportamento e saber enfrentar, civilizadamente, todas as situações.
Para baralhar ainda mais e usando armadilhas sofisticadas, apareceu el-rei D. Dinheiro que sem escrúpulos nem preconceitos se infiltrou em todos os sectores e se tornou senhor absoluto. Os seus arautos, os euros, de trombeta em punho, abrem o caminho. E passa-se por cima de tudo e de todos se, previamente, no percurso que conduz ao objectivo for estendido um fofo tapete de notas.
Tudo se compra e tudo é permitido. Compram-se empregos, títulos, nobreza... e até consciências!
E tudo é permitido em nome do senhor deus Dinheiro. A afabilidade, a cortesia, o «bom dia», a «boa tarde», o «se faz favor», e outras formas de civilidade caíram em desuso. Nada disso interessa e a importância do ilustre cidadão passou a ser avaliada pela sua conta bancária. El-rei D. Dinheiro, passou a ser uma espécie de lixívia, um tira-nódoas cada vez mais usado... Muito cheque, mas tanta falta de chá!...
sexta-feira, abril 03, 2009
Eles são muitos...
Recordo-me de que há cerca de quase três décadas quando regressei ao país depois de uma ausência de trinta anos, – não como exilado político ou por outro qualquer motivo próprio da época – era de bom-tom e podia trazer grandes compensações, dizer-se de esquerda ou então afirmar ter sido perseguido pela ditadura.
Pelo contrário, qualquer indígena que se dissesse de direita, era logo conotado com o “antigamente”, com esse passado tenebroso, mas cujo ouro “ajudou” muito libertador a encher os bolsos… Já nesse tempo o dinheiro não tinha cheiro!
Hoje, quando se fala de política, a discussão à volta de esquerda/direita está completamente ultrapassada. Não há diferenças. Não há esquerdas, não há direitas. Há, isso sim, um conjunto de interesses cuja conquista se exerce de maneiras diferentes, consoante o modus operandi de cada um dos intervenientes na contenda.
As ideologias que faziam essa destrinça deixaram de existir e cederam o lugar a uma luta feroz em que os objectivos que estão em causa são apenas os interesses pessoais.
Hoje vale tudo: é-se de esquerda e governa-se à direita ou é-se de direita e governa-se à esquerda. Salvo raríssimas e honrosas excepções, são todos iguais. Não há que escolher. O que interessa são os lucros no fim do mês ou no fim do ano depois de se terem somado todos os proventos relativos aos “tachos”.
Há, no entanto, que salvar as aparências. Mas só para português ouvir…E ei-los arengando a arraia miúda, arvorados em defensores dos pobres, dos velhos, dos desprotegidos da sorte, dos sem abrigo, prometendo mundos e fundos, mas sem repartir com eles quaisquer sobras dos seus lautos banquetes!
Fala-se muito em moralizar o Estado. Fala-se… São palavras ditas, mas sem vontade de concretização, porque isso não interessa a nenhum dos partidos. Há que dizê-lo sem medo, porque é a verdade.
Quando os políticos confundem o seu papel com o dos grupos económicos e querem fazer dos partidos empresas privadas onde podem colocar quem bem lhes apetece e talhar os seus ordenados à medida da sua ganância, está visto que não podemos esperar melhores dias.
Num pequeno céu como é o nosso, não há lugar para tantos abutres! Com esta doutrina do dinheiro e com tantos e tão devotados praticantes, não há “água benta” que chegue. A injustiça e a impunidade passeiam ostensivamente perante a pobreza que vai aumentando assustadoramente. Há crianças que passam fome e idosos que deixam de comer para comprar medicamentos!
Porém, essas carências não existem no mundo daqueles que têm mais almoços que barriga. E nesse mundo há de tudo: Esquerda, direita, centro …
Depois das próximas eleições para o Parlamento Europeu e segundo o Novo Estatuto dos Deputados, os seus salários vão ser aumentados de 3.815 euros para 7.665 euros por mês! Será possível esta imoralidade em tempo de crise?
A ser verdade, não terão razão aqueles que dizem que o Estado rouba aos pobres nos impostos e nos serviços para criar novos-ricos? É verdade que os pobres têm pouco, mas são muitos…
Pelo contrário, qualquer indígena que se dissesse de direita, era logo conotado com o “antigamente”, com esse passado tenebroso, mas cujo ouro “ajudou” muito libertador a encher os bolsos… Já nesse tempo o dinheiro não tinha cheiro!
Hoje, quando se fala de política, a discussão à volta de esquerda/direita está completamente ultrapassada. Não há diferenças. Não há esquerdas, não há direitas. Há, isso sim, um conjunto de interesses cuja conquista se exerce de maneiras diferentes, consoante o modus operandi de cada um dos intervenientes na contenda.
As ideologias que faziam essa destrinça deixaram de existir e cederam o lugar a uma luta feroz em que os objectivos que estão em causa são apenas os interesses pessoais.
Hoje vale tudo: é-se de esquerda e governa-se à direita ou é-se de direita e governa-se à esquerda. Salvo raríssimas e honrosas excepções, são todos iguais. Não há que escolher. O que interessa são os lucros no fim do mês ou no fim do ano depois de se terem somado todos os proventos relativos aos “tachos”.
Há, no entanto, que salvar as aparências. Mas só para português ouvir…E ei-los arengando a arraia miúda, arvorados em defensores dos pobres, dos velhos, dos desprotegidos da sorte, dos sem abrigo, prometendo mundos e fundos, mas sem repartir com eles quaisquer sobras dos seus lautos banquetes!
Fala-se muito em moralizar o Estado. Fala-se… São palavras ditas, mas sem vontade de concretização, porque isso não interessa a nenhum dos partidos. Há que dizê-lo sem medo, porque é a verdade.
Quando os políticos confundem o seu papel com o dos grupos económicos e querem fazer dos partidos empresas privadas onde podem colocar quem bem lhes apetece e talhar os seus ordenados à medida da sua ganância, está visto que não podemos esperar melhores dias.
Num pequeno céu como é o nosso, não há lugar para tantos abutres! Com esta doutrina do dinheiro e com tantos e tão devotados praticantes, não há “água benta” que chegue. A injustiça e a impunidade passeiam ostensivamente perante a pobreza que vai aumentando assustadoramente. Há crianças que passam fome e idosos que deixam de comer para comprar medicamentos!
Porém, essas carências não existem no mundo daqueles que têm mais almoços que barriga. E nesse mundo há de tudo: Esquerda, direita, centro …
Depois das próximas eleições para o Parlamento Europeu e segundo o Novo Estatuto dos Deputados, os seus salários vão ser aumentados de 3.815 euros para 7.665 euros por mês! Será possível esta imoralidade em tempo de crise?
A ser verdade, não terão razão aqueles que dizem que o Estado rouba aos pobres nos impostos e nos serviços para criar novos-ricos? É verdade que os pobres têm pouco, mas são muitos…
Política, tolerância e ética
Assistimos, nestes últimos dias, a uma troca de palavras entre partidos políticos que em nada contribuem para a dignificação e o bom-nome da classe que nos governa.
Ainda recentemente e enquanto António Costa acusava o Bloco de Esquerda de ser «um partido oportunista que parasita a desgraça alheia e é incapaz de assumir responsabilidades», Francisco Loução, por seu turno, respondia em tom irónico, «que era uma honra para o BE ser transformado no principal adversário deste partido esponjoso», depois de ter esclarecido que «sabe quem são os parasitas, as ratices e as ratazanas…»
Poderia citar ainda mais alguns “mimos” proferidos pelos nossos mandantes desde o princípio deste ano, mas não vale a pena perder tempo com os desvarios de suas excelências…
Todo o homem tem o direito de pensar e de divergir, mas acima de tudo deve ser tolerante e cuidadoso nas suas afirmações. Todos sabemos que apesar de as ideias não serem sempre convergentes, é da sua discussão que brotam um sem número de pensamentos que poderão nortear a humanidade e abrir o caminho da verdade.
O homem distingue-se dos demais habitantes do universo pela sua capacidade inata de transformar a natureza e de criar bens culturais. No entanto essa criação só é genuína e verdadeira quando é feita em liberdade absoluta, independente de credos, imparcial e isenta, pois ela fica a pertencer a toda a humanidade. É património de todos.
Na sua luta pelo poder, os homens que o detêm, tudo fazem para o conservar enquanto os que se lhes opõem, tudo tentam para o conquistar. Não há regras, não há limites. E, assim, chegamos a uma espécie de “lei da selva” em que impera o mais forte.
Vivem-se situações indignas em quase todos os sectores da vida nacional -situações que há muito se julgavam sepultadas para sempre nas cinzas do passado.
Vivemos numa democracia disfarçada.
Hoje, como no crepúsculo de outros tempos passados, déspotas e fundamentalistas de todos os credos e opiniões, disfarçados de homens de bem, de democratas de fachada, tentam, sem vergonha e com um despudor nunca visto, transformar a mente daqueles que com o seu saber e trabalho contribuíram para o esplendor da civilização e marcaram rumos na construção de uma sociedade digna, fraterna e solidária.
Termino, citando, com a devida vénia, D. Carlos Azevedo, Bispo auxiliar de Lisboa: «São frequentes, nos nossos dias, os sucessivos atentados à norma, a repetição insistente e subtil da convicção de que não há normas universais na antropologia humana, a confusão entre o respeito pela diferença e a consideração objectiva e sem complexos do que é normativo. Em tempos de profunda crise económica, cada dia agravada, é hora para exame sério dos comportamentos de empresas, dos governantes, da Igreja Católica e da sociedade civil constituída por cada um de nós. A ética requer entidades reguladoras independentes do poder político e económico e autonomia responsável dos indivíduos ao serviço do bem comum…»
Ainda recentemente e enquanto António Costa acusava o Bloco de Esquerda de ser «um partido oportunista que parasita a desgraça alheia e é incapaz de assumir responsabilidades», Francisco Loução, por seu turno, respondia em tom irónico, «que era uma honra para o BE ser transformado no principal adversário deste partido esponjoso», depois de ter esclarecido que «sabe quem são os parasitas, as ratices e as ratazanas…»
Poderia citar ainda mais alguns “mimos” proferidos pelos nossos mandantes desde o princípio deste ano, mas não vale a pena perder tempo com os desvarios de suas excelências…
Todo o homem tem o direito de pensar e de divergir, mas acima de tudo deve ser tolerante e cuidadoso nas suas afirmações. Todos sabemos que apesar de as ideias não serem sempre convergentes, é da sua discussão que brotam um sem número de pensamentos que poderão nortear a humanidade e abrir o caminho da verdade.
O homem distingue-se dos demais habitantes do universo pela sua capacidade inata de transformar a natureza e de criar bens culturais. No entanto essa criação só é genuína e verdadeira quando é feita em liberdade absoluta, independente de credos, imparcial e isenta, pois ela fica a pertencer a toda a humanidade. É património de todos.
Na sua luta pelo poder, os homens que o detêm, tudo fazem para o conservar enquanto os que se lhes opõem, tudo tentam para o conquistar. Não há regras, não há limites. E, assim, chegamos a uma espécie de “lei da selva” em que impera o mais forte.
Vivem-se situações indignas em quase todos os sectores da vida nacional -situações que há muito se julgavam sepultadas para sempre nas cinzas do passado.
Vivemos numa democracia disfarçada.
Hoje, como no crepúsculo de outros tempos passados, déspotas e fundamentalistas de todos os credos e opiniões, disfarçados de homens de bem, de democratas de fachada, tentam, sem vergonha e com um despudor nunca visto, transformar a mente daqueles que com o seu saber e trabalho contribuíram para o esplendor da civilização e marcaram rumos na construção de uma sociedade digna, fraterna e solidária.
Termino, citando, com a devida vénia, D. Carlos Azevedo, Bispo auxiliar de Lisboa: «São frequentes, nos nossos dias, os sucessivos atentados à norma, a repetição insistente e subtil da convicção de que não há normas universais na antropologia humana, a confusão entre o respeito pela diferença e a consideração objectiva e sem complexos do que é normativo. Em tempos de profunda crise económica, cada dia agravada, é hora para exame sério dos comportamentos de empresas, dos governantes, da Igreja Católica e da sociedade civil constituída por cada um de nós. A ética requer entidades reguladoras independentes do poder político e económico e autonomia responsável dos indivíduos ao serviço do bem comum…»
A irresponsabilidade remunerada
Aqui há tempos, num fim de semana, os deputados do PSD que na Assembleia da República representam, o Povo que os elegeu, resolveram sem mais aquelas, “pirar-se” do hemiciclo numa altura em que ia a votação uma Lei, creio eu, referente ao estatuto dos Professores.
Logo a seguir houve grande alarido, pois parece que se todos estivessem presentes a tal Lei não passaria, dado o facto de ter havido deputados da maioria, que ou se abstiveram ou votaram contra.
Este caso suscita várias interpretações e eu pergunto-me se o que aconteceu agora não se terá repetido noutras ocasiões em que “outras” leis foram aprovadas de igual forma, isto é, com tanta falta de responsabilidade e tão levianamente.
Mas o que ainda mais me indignou foi o facto de haver quem viesse a terreiro desculpar os faltosos, evocando a necessidade de se ausentarem para se dedicarem a outros trabalhos para sobreviverem, pois o ordenado que auferem no Parlamento não lhes permite viver desafogadamente!
Um desses defensores afirmou que “Os deputados têm a sua vida profissional, não se paga aos deputados o suficiente para eles serem todos apenas deputados, sobretudo quando são profissionais do Direito ou fora do Direito. Um advogado que tem um julgamento, não pode estar na Assembleia e no julgamento ao mesmo tempo. (…) Talvez esteja errado que as votações sejam à sexta-feira, é preciso arranjar horas para a votação que não sejam as horas em que, normalmente, é mais difícil e mais penoso estar na Assembleia da República. (…) No meu tempo não havia votações à sexta-feira, porque é a véspera do fim-de-semana. Os deputados são humanos, não são máquinas…”
Não faço comentários. No entanto como há muita gente neste país que não está informada da verdade verdadeira eis quanto ganham os defensores do Povo:
O salário base de um deputado é de 3.707 euros e 65 cêntimos. Por extenso para que percebam melhor: Três mil, setecentos e sete euros e sessenta e cinco cêntimos. Se o Sr. deputado estiver presente 22 dias, receberá por dia cerca de 168 euros!...
Agora, Ti António faça a comparação com a sua reforma mensal de 256 euros. Já fez as contas? Pois é…
Mais uma vez os políticos nos “dizem” através da aritmética que a “sua” Democracia não é a mesma que a que apregoam. Socialmente falando a sua conduta não só é vergonhosa como ultrajante! E perigosa…
A Democracia quando exercida sem ética nem moral, corre o risco de se transformar num bumerangue que no retorno pode ser fatal para o praticante.
A onda de individualismo que está a varrer o Mundo pode, a breve trecho, transformá-lo num autêntico campo de batalha, cujas consequências ninguém pode prever.
Logo a seguir houve grande alarido, pois parece que se todos estivessem presentes a tal Lei não passaria, dado o facto de ter havido deputados da maioria, que ou se abstiveram ou votaram contra.
Este caso suscita várias interpretações e eu pergunto-me se o que aconteceu agora não se terá repetido noutras ocasiões em que “outras” leis foram aprovadas de igual forma, isto é, com tanta falta de responsabilidade e tão levianamente.
Mas o que ainda mais me indignou foi o facto de haver quem viesse a terreiro desculpar os faltosos, evocando a necessidade de se ausentarem para se dedicarem a outros trabalhos para sobreviverem, pois o ordenado que auferem no Parlamento não lhes permite viver desafogadamente!
Um desses defensores afirmou que “Os deputados têm a sua vida profissional, não se paga aos deputados o suficiente para eles serem todos apenas deputados, sobretudo quando são profissionais do Direito ou fora do Direito. Um advogado que tem um julgamento, não pode estar na Assembleia e no julgamento ao mesmo tempo. (…) Talvez esteja errado que as votações sejam à sexta-feira, é preciso arranjar horas para a votação que não sejam as horas em que, normalmente, é mais difícil e mais penoso estar na Assembleia da República. (…) No meu tempo não havia votações à sexta-feira, porque é a véspera do fim-de-semana. Os deputados são humanos, não são máquinas…”
Não faço comentários. No entanto como há muita gente neste país que não está informada da verdade verdadeira eis quanto ganham os defensores do Povo:
O salário base de um deputado é de 3.707 euros e 65 cêntimos. Por extenso para que percebam melhor: Três mil, setecentos e sete euros e sessenta e cinco cêntimos. Se o Sr. deputado estiver presente 22 dias, receberá por dia cerca de 168 euros!...
Agora, Ti António faça a comparação com a sua reforma mensal de 256 euros. Já fez as contas? Pois é…
Mais uma vez os políticos nos “dizem” através da aritmética que a “sua” Democracia não é a mesma que a que apregoam. Socialmente falando a sua conduta não só é vergonhosa como ultrajante! E perigosa…
A Democracia quando exercida sem ética nem moral, corre o risco de se transformar num bumerangue que no retorno pode ser fatal para o praticante.
A onda de individualismo que está a varrer o Mundo pode, a breve trecho, transformá-lo num autêntico campo de batalha, cujas consequências ninguém pode prever.
segunda-feira, março 16, 2009
Aqui há alguns meses, vesti um bibe e assim disfarçado de "puto", sentei-me numa velha mesa que é uma espécie de carteira daquelas que havia nas escolas do meu tempo, e escrevi uma carta ao sôr ministro pedindo-lhe um "Magalhães".
Durante dias fui esperar o carteiro junto à minha caixa do correio, na esperança de receber um aviso de chegada da "máquina"... A notícia não chegou pelo correio, mas via telemóvel por SMS: «Para procedermos à entrega do seu Magalhães na sua escola efectue nos próximos cinco dias o respectivo pagamento...»
Como não pude indicar o nome da escola pelas razões que todos conhecem, fechei-me em copas e não efectuei qualquer outra deligência. Felizmente, porque, como todos sabem, rebentou aquela bronca dos erros apareceram aqueles erros de português no 'software'
Durante dias fui esperar o carteiro junto à minha caixa do correio, na esperança de receber um aviso de chegada da "máquina"... A notícia não chegou pelo correio, mas via telemóvel por SMS: «Para procedermos à entrega do seu Magalhães na sua escola efectue nos próximos cinco dias o respectivo pagamento...»
Como não pude indicar o nome da escola pelas razões que todos conhecem, fechei-me em copas e não efectuei qualquer outra deligência. Felizmente, porque, como todos sabem, rebentou aquela bronca dos erros apareceram aqueles erros de português no 'software'
sábado, fevereiro 21, 2009
Disfarces

On peut rire de tout, mais pas avec tout le monde.
Pierre Desproges
Era Domingo gordo. Tinha chegado o dia. Finalmente iria divertir-se à grande e à portuguesa!...
Primeiro pensou em mascarar-se de Ministro, mas a mãe dissuadiu-o do intento: - Nem penses nisso, filho. Já pensaste na figura ridícula que farias, qualquer que fosse a cara do que escolhesses?
Anacleto reflectiu, reconsiderou, e resolveu então disfarçar-se de ladrão. No meio de tantos, era mais fácil passar despercebido...
Muniu-se então de um velho saco de campismo, pôs dentro uma pistola-metralhadora em plástico, um velho alicate, um pé de cabra enferrujado, e ei-lo na rua.
Mas logo ao virar da esquina, eis que surge uma farda: - Em nome da Lei, abra lá o saco!... E, apalermado, Anacleto, obedeceu. Abriu, e não conseguiu convencer a "autoridade" de que se tratava apenas de um disfarce: - Com que então, nem aos Domingos!... Com todo este arsenal onde vais, ó velhinho?!... Vá, andor, p'rá esquadra... e já!
Pelo caminho, completamente transtornado, sem conseguir raciocinar, pensou ainda que tudo aquilo não passava de um pesadelo.
E já naquilo que ele julgou ser a esquadra, a voz rouca do homem fardado, voltou a ouvir-se: - Chefe, aqui tem um figurão que apanhei agora mesmo...
Anacleto tentou falar, mas logo o outro se adiantou: - Cala a boca. Só falas quando eu disser... E, então, aquele que dava pelo nome de Chefe, começou a tirar do saco o material: - Com toda esta sofisticada panóplia, com certeza que ias assaltar o Banco de Portugal, não?!... Anacleto julgou ver um sorriso irónico no rosto do inquiridor e arriscou: - Mas chefe, eu sou um homem honesto e fiz tudo isto por ser Carnaval...
E a resposta não se fez esperar: - Senhor agente chame aí o quebra-ossos que aqui o nosso amigo está a mangar com a tropa...Mas a ordem foi suspensa, porque a cara do "preso" inspirava, de facto, compaixão. E o Chefe deixou que ele falasse. E ele expôs, calmamente, o seu caso, a sua brincadeira... E o homem dos galões achou até piada e quando se preparava para repreender o seu subordinado pela sua falta de tacto, notou algo de estranho: - Ouça cá, ó soldado, o seu número de matrícula? Você não pertence a esta esquadra... E o homem, confuso: - Sabe, é que eu também não sou polícia... Como hoje é Domingo gordo... E o Chefe ameaçador: - Com que então a brincarem aos polícias e ladrões?!... Bonito. Muito grave. Muitíssimo grave. Abuso de autoridade...Isto vai custar-vos caro!...
Mas não conseguiu conter-se por mais tempo – e desatou a rir. Sem parar. E a chorar de tanto rir, lá conseguiu explicar: - Nenhum de nós os três é aquilo que parece. Eu também não sou Chefe. O uniforme que trago vestido, é alugado. Como é Domingo Gordo, e é Carnaval...
Claro que a crónica de hoje vem a propósito da quadra que atravessámos. Não quero, no entanto, deixar de lembrar que há muitas semelhanças entre a minha ficção e certas situações que quase diariamente presenciamos. É tão grande a confusão que reina actualmente cá no rectângulo que é muito difícil conseguirmos fazer a destrinça entre o que é falso e o que é verdadeiro.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Vivências
A maior parte dos habitantes cá do rectângulo não vive. Corre…
Andamos cheios de pressa e sempre rodeados de novos brinquedos saídos do incomensurável ventre dessa terrível e assustadora fábrica que dá pelo nome de tecnologia. Massacrados dia e noite pela propaganda sistemática, ludibriados pela publicidade e enganados pelos falsos fazedores de milagres, não paramos!
Nesta sociedade de compra e venda, sempre de mochila às costas, vamo-la enchendo de opiniões, de quiméricos conceitos de vida, de sonhos irrealizáveis e de falsas esperanças.
E sem quaisquer certezas no amanhã, à medida que os dias vão passando, o nosso sonho vai crescendo até que nos auto-convencemos de que estamos perante a realidade.
E só quando a vida nos troca as voltas, nos barra o caminho, nos traz uma contrariedade, nos toca com uma perda, uma doença, então, acordamos, descemos à terra e verificamos que de nada valem as correrias, de nada serve o que armazenámos na mochila.
Somos enganadores enganados, concorrentes uns dos outros, com a casa cheia de bugigangas e a cabeça repleta de nada!
É o mundo que criámos. Um mundo materialista, afastado de Deus, sem valores espirituais, apenas virado para o sucesso imediato, para o dinheiro, para a ostentação, para a vaidade e para o luxo.
Procuramos ter cada vez mais “coisas” para mostrar ao vizinho, para fazer ver que também “somos”, que também “temos”e assim transmitirmos uma ideia falsa de nós próprios.
E é sempre com o conceito utilitarista do materialismo prático que não paramos de correr na ânsia de possuir. É uma espécie de escravatura, uma dependência em relação aos objectos que o progresso e a tecnologia vão parindo…
Podem não acreditar, mas, às vezes, é tanta a confusão, que a minha cabeça transforma-se num verdadeiro «Inferno»! E para complicar, surgem dúvidas e, muitas vezes, pergunto a mim mesmo se esse «Inferno» é obra da minha imaginação, – arquitectado e construído com velhas tábuas do meu sótão – ou se é mesmo um «Inferno» a sério!
Não estou a referir-me àquele Inferno existencial de que nos falava a catequista quando éramos meninos, mas a este «Inferno» que nos rodeia – a toda esta balbúrdia, a toda esta confusão, a esta podridão que tomou conta da sociedade em que somos obrigados a viver. Uma sociedade comandada pelo dinheiro, onde prolifera a mentira, a inveja, a intriga e o egoísmo; uma sociedade donde desapareceram os valores tradicionais – a honra, a dignidade, a educação, a seriedade e o respeito. Uma sociedade onde tudo se mistura sem regras, sem cautelas, usando e abusando da ingenuidade dos que menos sabem, dos que menos podem, mas que acabam, finalmente, por serem sempre os “bombos” da festa.
Não haverá uma maneira, um processo para pôr a tecnologia ao serviço do bem-estar de todos sem discriminar pessoas, mas com um sistema que distinga as necessidades reais das supérfluas?
É que, na maior parte das vezes, temos tudo o que precisamos para viver bem, mas falta-nos um bocadinho de felicidade. E isso não se compra. Temos de ser nós a construí-la. Pedra por pedra. Sem pressas. Sem correrias. E com a forte convicção de que o “material” que temos, - o que possuímos - nos chega para a sua construção.
Andamos cheios de pressa e sempre rodeados de novos brinquedos saídos do incomensurável ventre dessa terrível e assustadora fábrica que dá pelo nome de tecnologia. Massacrados dia e noite pela propaganda sistemática, ludibriados pela publicidade e enganados pelos falsos fazedores de milagres, não paramos!
Nesta sociedade de compra e venda, sempre de mochila às costas, vamo-la enchendo de opiniões, de quiméricos conceitos de vida, de sonhos irrealizáveis e de falsas esperanças.
E sem quaisquer certezas no amanhã, à medida que os dias vão passando, o nosso sonho vai crescendo até que nos auto-convencemos de que estamos perante a realidade.
E só quando a vida nos troca as voltas, nos barra o caminho, nos traz uma contrariedade, nos toca com uma perda, uma doença, então, acordamos, descemos à terra e verificamos que de nada valem as correrias, de nada serve o que armazenámos na mochila.
Somos enganadores enganados, concorrentes uns dos outros, com a casa cheia de bugigangas e a cabeça repleta de nada!
É o mundo que criámos. Um mundo materialista, afastado de Deus, sem valores espirituais, apenas virado para o sucesso imediato, para o dinheiro, para a ostentação, para a vaidade e para o luxo.
Procuramos ter cada vez mais “coisas” para mostrar ao vizinho, para fazer ver que também “somos”, que também “temos”e assim transmitirmos uma ideia falsa de nós próprios.
E é sempre com o conceito utilitarista do materialismo prático que não paramos de correr na ânsia de possuir. É uma espécie de escravatura, uma dependência em relação aos objectos que o progresso e a tecnologia vão parindo…
Podem não acreditar, mas, às vezes, é tanta a confusão, que a minha cabeça transforma-se num verdadeiro «Inferno»! E para complicar, surgem dúvidas e, muitas vezes, pergunto a mim mesmo se esse «Inferno» é obra da minha imaginação, – arquitectado e construído com velhas tábuas do meu sótão – ou se é mesmo um «Inferno» a sério!
Não estou a referir-me àquele Inferno existencial de que nos falava a catequista quando éramos meninos, mas a este «Inferno» que nos rodeia – a toda esta balbúrdia, a toda esta confusão, a esta podridão que tomou conta da sociedade em que somos obrigados a viver. Uma sociedade comandada pelo dinheiro, onde prolifera a mentira, a inveja, a intriga e o egoísmo; uma sociedade donde desapareceram os valores tradicionais – a honra, a dignidade, a educação, a seriedade e o respeito. Uma sociedade onde tudo se mistura sem regras, sem cautelas, usando e abusando da ingenuidade dos que menos sabem, dos que menos podem, mas que acabam, finalmente, por serem sempre os “bombos” da festa.
Não haverá uma maneira, um processo para pôr a tecnologia ao serviço do bem-estar de todos sem discriminar pessoas, mas com um sistema que distinga as necessidades reais das supérfluas?
É que, na maior parte das vezes, temos tudo o que precisamos para viver bem, mas falta-nos um bocadinho de felicidade. E isso não se compra. Temos de ser nós a construí-la. Pedra por pedra. Sem pressas. Sem correrias. E com a forte convicção de que o “material” que temos, - o que possuímos - nos chega para a sua construção.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Carta ao Zé

Pois é, meu caro Zé pagante! Agora torces a orelha, mas já é tarde… Eu não te dizia que mais ano, menos ano, mais mês, menos mês, mais dia, menos dia, a coisa iria acontecer? Então julgavas que podíamos continuar nesta roubalheira descarada? Eu sei que quem paga as favas somos sempre nós, os pequenos, mas é dos livros: “o povo vota mas não manda…”
E não fosse esta crise mundial que pôs a nu muitos podres daquela gente que deveria ser a “nata” da nossa sociedade, (mas que não é!...) continuaríamos a alimentar esses pançudos até que a barriga, de tão cheia, lhes rebentasse o cós das calças.
Não te esqueças, Zé, que foste também tu que contribuíste para que esses proxenetas da política subissem aos lugares que ocupam. Pensavas que bastava o cheiro das rosas para transformar um laranjal moribundo, invadido pela cochonilha e pela ferrugem, numa nova mancha verde sem ervas daninhas, sem parasitas e sem podridão?!...
Ingénuo que és! Já Alexandre Herculano dizia “que a história política é uma série de desconchavos, de torpezas, de inépcias, de incoerências, ligadas a um pensamento constante que é o de enriquecerem os chefes de partido…”
E se nessa altura ele se referia apenas aos chefes, hoje há que incluir todos os seguidores de suas excelências: familiares, amigos, afilhados, recomendados, amásias e demais pessoal democraticamente ligado à “nobre causa” de enriquecer sem trabalhar.
Quanto a maneiras de pensar e agir nunca conseguirás entrar nessa linha de pensamento usada pelos tais proxenetas de que acima falei. Político é político e interpretar o que dizem ou explicar o porquê daquilo que fazem, é um segredo da classe, embora quase sempre haja um cheirinho a dinheiro que se escapa por uma frincha do testo da panela …ou do tacho!
Desemprego, miséria, exclusão social, insegurança, doença na Saúde, agitação no sistema educativo, tudo isso é triste, é verdade, mas acontece num mundo que não é o deles. Conheces algum político desempregado ou pobre? Conheces algum político que quando doente vá para as urgências e espere horas a fio para ser atendido? Podia citar mais exemplos, mas não vale a pena. Tu conhece-los e eles também, mas fazem de conta…
Estamos num País do “faz-de-conta”. Anda por aí muito ladrão disfarçado. Às vezes, zangam-se as comadres e sabem-se algumas verdades. Mas os “bombeiros de serviço” vêm logo com o extintor e nunca se sabe a verdadeira causa do “incêndio”.
Do que me dizes acerca do prejuízo das acções que tinhas na Bolsa, nada te sei dizer, pois, como sabes, em questões de Bolsa confiei sempre só na minha. Acerca do dinheiro que tinhas no tal Banco, também nada posso acrescentar. O meu está seguro. Continuo a guardá-lo no meu colchão…
Perguntas-me quando é que “isto” irá mudar. Não sei. Há um fosso enorme entre a vida real e aquela que vai na cabeça dos políticos. Além disso somos poucos e pequenos e estamos entre gente desonesta, sem vergonha, sem princípios e sem escrúpulos de qualquer espécie.
Há 34 anos que fizemos uma aposta. Como na lotaria. E o resultado aí está. Uma ligeira “aproximação”que mais parece uma continuação -uns a nascer na lama e outros nas nuvens; uns a morrer de fome e outros de fartura. Vem aí a próxima ou próximas extracções – uma europeia e duas nacionais. Habilita-te, Zé, mas não te queixes se mais uma vez apostares nos números errados…
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Realidades
Acontece quando estou muito tempo só. Abstraio-me de tudo o que me rodeia e, cautelosamente, levanto o véu dos meus espaços imaginários. E nem sempre a fantasia consegue apagar a realidade. Muitas vezes, atravessando-se no caminho do pensamento, a velhice interrompe projectos e sonhos. E é nesses momentos de reflexão que, ao descer a montanha, relembro pedaços do caminho percorrido na subida.
Como na projecção de um filme antigo a preto e branco, com cenas por vezes desfocadas e aquele relampejar constante motivado pela antiguidade da película, as imagens da adolescência, perpassam-me fugazmente pela retina. Por detrás de uma neblina carregada de recordações surgem-me de quando em vez, rostos risonhos de companheiros de infância que jogam o pião, a bilharda e outras brincadeiras. Mas tudo mudou!...
Gentes, hábitos e mentalidades, foram evoluindo ao longo do tempo. Não! Ao contrário do que muitos possam pensar ao lerem este intróito, respeito o passado, mas não o desejaria nunca como futuro.
Também nunca senti o peso dos anos, pois considero (até este momento em que escrevo!...) que o seu somatório aritmético não corresponde, em muitos casos, à velhice real.
A velhice, hoje como ontem, e apesar de todos os avanços da ciência, abrange a decadência física e mental de todos os indivíduos, independentemente das suas idades.
O amontoar dos anos não significa senilidade ou falta de espírito. E como há jovens com sinais de decrepitude tão pronunciados que a velhice já tomou conta deles, também há idosos que, para além do seu saber e experiência, exibem ainda uma juventude saudável e contagiante.
É por isso que, em muitos casos, é difícil saber onde, exactamente, se situa a terceira idade.
Infelizmente, um conceito simplista acordado pela maioria das pessoas inclui nessas duas palavras, indiscriminadamente, todos aqueles que ultrapassaram a barreira das seis dezenas de anos.
No Antigo Testamento o idoso era referido como o exemplo para os demais. Ele era o transmissor da sabedoria e a velhice era considerada uma bênção, uma riqueza que devia agradecer-se a Deus.
Mas os tempos foram mudando e hoje do homem sábio, do homem do bom conselho, do homem temente a Deus, passou-se ao velho marginalizado, ao homem desprezado, ao homem para quem a sociedade não encontra lugar...
São fáceis de encontrar as razões desta inversão: num mundo em que os valores económicos ultrapassaram e quase esmagaram os valores espirituais e culturais, não têm lugar aqueles que na escrita fria dos números deixaram de figurar na coluna do "Haver".
No nosso mundo civilizado, muitas vezes, a morte de um velho é alívio de novos… Ingénua ou propositadamente, esquecem, esses jovens e até alguns menos jovens que também eles são elos da mesma corrente!
Como na projecção de um filme antigo a preto e branco, com cenas por vezes desfocadas e aquele relampejar constante motivado pela antiguidade da película, as imagens da adolescência, perpassam-me fugazmente pela retina. Por detrás de uma neblina carregada de recordações surgem-me de quando em vez, rostos risonhos de companheiros de infância que jogam o pião, a bilharda e outras brincadeiras. Mas tudo mudou!...
Gentes, hábitos e mentalidades, foram evoluindo ao longo do tempo. Não! Ao contrário do que muitos possam pensar ao lerem este intróito, respeito o passado, mas não o desejaria nunca como futuro.
Também nunca senti o peso dos anos, pois considero (até este momento em que escrevo!...) que o seu somatório aritmético não corresponde, em muitos casos, à velhice real.
A velhice, hoje como ontem, e apesar de todos os avanços da ciência, abrange a decadência física e mental de todos os indivíduos, independentemente das suas idades.
O amontoar dos anos não significa senilidade ou falta de espírito. E como há jovens com sinais de decrepitude tão pronunciados que a velhice já tomou conta deles, também há idosos que, para além do seu saber e experiência, exibem ainda uma juventude saudável e contagiante.
É por isso que, em muitos casos, é difícil saber onde, exactamente, se situa a terceira idade.
Infelizmente, um conceito simplista acordado pela maioria das pessoas inclui nessas duas palavras, indiscriminadamente, todos aqueles que ultrapassaram a barreira das seis dezenas de anos.
No Antigo Testamento o idoso era referido como o exemplo para os demais. Ele era o transmissor da sabedoria e a velhice era considerada uma bênção, uma riqueza que devia agradecer-se a Deus.
Mas os tempos foram mudando e hoje do homem sábio, do homem do bom conselho, do homem temente a Deus, passou-se ao velho marginalizado, ao homem desprezado, ao homem para quem a sociedade não encontra lugar...
São fáceis de encontrar as razões desta inversão: num mundo em que os valores económicos ultrapassaram e quase esmagaram os valores espirituais e culturais, não têm lugar aqueles que na escrita fria dos números deixaram de figurar na coluna do "Haver".
No nosso mundo civilizado, muitas vezes, a morte de um velho é alívio de novos… Ingénua ou propositadamente, esquecem, esses jovens e até alguns menos jovens que também eles são elos da mesma corrente!
Frio

Estes dias de frio intenso têm-me feito lembrar aqueles do meu tempo de menino e moço em que logo que saíamos de casa a caminho da escola as calçadas da minha aldeia se encontravam brancas e escorregadias da geada que tinha caído durante a noite. A juntar a isso aquele vento de suão que geralmente soprava em Janeiro e vinha quase sempre por altura do Santo Amaro, santo que era e continua a ser o Padroeiro cá do burgo, emoldurava o ambiente frio de então…
Era no tempo em que, sobretudo nos meios rurais, se usava, como calçado, os socos, uma espécie de tamancos fechados. Eram feitos de uma madeira própria, se não me engano da faia, e tinham atacadores de couro. Os tamanqueiros, antecessores dos sapateiros, esmeravam-se na sua confecção e alguns fabricavam, manualmente, claro, autênticas “obras de arte” no sector da tamancaria.
Havia quem lhes pusesse no rasto umas tiras de borracha pregadas com pregos finos, para que tivessem mais aderência e não escorregassem.
Aqui e além, numa poça de água, o Sol fazia brilhar o gelo e então, ao mesmo tempo que caminhávamos, lá nos íamos entretendo a esmagar esses montículos de “cristal” que se espalhavam pela calçada.
Já não me recordo se nessa altura era tão sensível ao frio como agora, mas penso que não e do que me lembro é da sensação de desconforto quando em noites frias ia para a cama e me deitava entre lençóis de linho. Dava a impressão que estavam molhados. Ainda hoje me arrepio quando me lembro disso.
Também ainda não havia luz eléctrica e mal a noite chegava lá se acendia o candeeiro a petróleo, a candeia de azeite, as velas de cera ou o gasómetro a carbureto. Como aquecedores havia a lareira e nalgumas casas usavam-se as braseiras, um recipiente de cobre onde se colocavam brasas previamente tiradas da lareira e abafadas num pote de barro preto, que eram depois reacendidas e reutilizadas.
Lembro-me também da escalfeta da D. Aurora, a minha primeira professora. Era uma caixa rectangular de madeira, forrada a zinco e com a tampa crivada de buraquinhos por onde saia o calor. Geralmente íamos buscar as brasas a casa das vizinhas da escola ou então preparávamo-las nós com molhos de vides que queimávamos e depois enchíamos o recipiente.
Este intróito para vos dizer que este frio e ao contrário do desses tempos passados, me deixa completamente paralisado!
Seja a idade ou os trinta anos que vivi sob o calor tórrido dos trópicos, o certo é que desabituei-me de baixas temperaturas. Há dias em que nada me aquece e nada me apetece fazer. Já experimentei a cama, mas também não resulta, pois arrisco-me a morrer asfixiado sob o peso dos cobertores…
Enquanto a minha chefe me diz que eu sinto frio porque não trabalho como ela, outros dizem-me que o meu frio não é verdadeiro, que o meu frio é psicológico!
Tanto ela como eles podem ter razão. Mas o frio, quem o tem sou eu …
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Bom ano de 2009
Distraído que andava quase me esquecia de encerrar o meu blogue para "balanço"...
Já com meio pé em terreno do novo ano, tempo ainda para desejar a todos os que me visitam, um 2009 com muita saúde. Não vos desejo mais nada, porque com ela todo o resto se pode alcaçar.
Um conselho: Vive a tua vida "HOJE", porque o "AMANHÃ" não passa de uma esperança fugidia. que mesmo estendendo as mãos para a agarrar nunca temos a certeza de o conseguir.
Já com meio pé em terreno do novo ano, tempo ainda para desejar a todos os que me visitam, um 2009 com muita saúde. Não vos desejo mais nada, porque com ela todo o resto se pode alcaçar.
Um conselho: Vive a tua vida "HOJE", porque o "AMANHÃ" não passa de uma esperança fugidia. que mesmo estendendo as mãos para a agarrar nunca temos a certeza de o conseguir.
quinta-feira, dezembro 11, 2008
Paixões
Quando Deus nos concede a graça de percorrermos com saúde e lucidez uma considerável etapa da caminhada da vida, raro é o dia em que, ao acordar, não sintamos como que uma espécie de mola, um forte impulso que nos faz erguer as mãos ao céu e agradecer!
Acontece comigo e penso que acontecerá com todos aqueles que, como eu, desde muito novos, e apesar das muitas marteladas que levaram e deram nos próprios dedos, souberam sempre encarar a vida com optimismo, humildade, tolerância, esperança e muita fé.
O artista, o cientista, o poeta, o ourives da imaginação, o arquitecto do diálogo e até o modesto artesão, todos eles devem sentir, embora cada um à sua maneira, esse sentimento de gratidão, essa bênção que é, afinal, como que a comunhão do divino.
Quando, percorridos muitos quilómetros do percurso, experimentamos o sentimento do dever cumprido sem que durante a corrida nunca tenhamos tentado molestar o companheiro que seguia a nosso lado, confessamos, sem vaidade, que nos sentimos imensamente felizes e contentes. E por que não dizê-lo, orgulhosos, até!...
Nesta etapa da vida em que as paixões esfriaram, em que já não temos necessidade de nos deixarmos arrastar pelo favoritismo tendencioso das competições que se realizam à nossa volta, devemos apenas pedir forças e saúde para que possamos continuar a percorrer, até ao apito final, estes restantes quilómetros da maratona que Deus nos impôs.
Viver apaixonado pela vida, sem, contudo, nos deixarmos dominar pelas paixões do passado, pelas recordações de uma juventude que já passou, cuja assumpção nos poderá tornar ridículos aos olhos dos outros é, quanto a mim, o melhor remédio contra sentimentos de tédio e de desistência.
Bem sei que com os “atractivos”cada vez mais cativantes desta vida moderna a "Arte de Saber Envelhecer" se torna mais difícil de aprender.
E o que piora ainda mais a aprendizagem é que muita gente teima em tomar como ponto de referência esse rectângulo plastificado a que dão o nome de Bilhete de Identidade! Bem sei que é obrigatório trazê-lo connosco, mas daí a deixar que ele nos escravize...
Contava-me há dias um Amigo que na Universidade Sénior do Rotary Cube de Tondela, uma senhora com a bonita idade de 84 (oitenta e quatro) anos de idade tinha começado a frequentar as aulas de informática e que passado pouco tempo, muito contente e feliz exultava de alegria por já saber servir-se do computador!
Velho e idoso não é a mesma coisa: o idoso renova-se em cada dia que começa; o velho vai acabando noite após noite. O idoso, olha o sol que desponta, conserva ainda um clarão de esperança; o outro, o velho, contempla o dia que termina, a escuridão, o tempo que já lá vai….
Talvez o tempo passe mais depressa quando vivemos apaixonados pela vida. Mas, cá na minha, essa paixão faz com que a velhice demore mais tempo a chegar.
Acontece comigo e penso que acontecerá com todos aqueles que, como eu, desde muito novos, e apesar das muitas marteladas que levaram e deram nos próprios dedos, souberam sempre encarar a vida com optimismo, humildade, tolerância, esperança e muita fé.
O artista, o cientista, o poeta, o ourives da imaginação, o arquitecto do diálogo e até o modesto artesão, todos eles devem sentir, embora cada um à sua maneira, esse sentimento de gratidão, essa bênção que é, afinal, como que a comunhão do divino.
Quando, percorridos muitos quilómetros do percurso, experimentamos o sentimento do dever cumprido sem que durante a corrida nunca tenhamos tentado molestar o companheiro que seguia a nosso lado, confessamos, sem vaidade, que nos sentimos imensamente felizes e contentes. E por que não dizê-lo, orgulhosos, até!...
Nesta etapa da vida em que as paixões esfriaram, em que já não temos necessidade de nos deixarmos arrastar pelo favoritismo tendencioso das competições que se realizam à nossa volta, devemos apenas pedir forças e saúde para que possamos continuar a percorrer, até ao apito final, estes restantes quilómetros da maratona que Deus nos impôs.
Viver apaixonado pela vida, sem, contudo, nos deixarmos dominar pelas paixões do passado, pelas recordações de uma juventude que já passou, cuja assumpção nos poderá tornar ridículos aos olhos dos outros é, quanto a mim, o melhor remédio contra sentimentos de tédio e de desistência.
Bem sei que com os “atractivos”cada vez mais cativantes desta vida moderna a "Arte de Saber Envelhecer" se torna mais difícil de aprender.
E o que piora ainda mais a aprendizagem é que muita gente teima em tomar como ponto de referência esse rectângulo plastificado a que dão o nome de Bilhete de Identidade! Bem sei que é obrigatório trazê-lo connosco, mas daí a deixar que ele nos escravize...
Contava-me há dias um Amigo que na Universidade Sénior do Rotary Cube de Tondela, uma senhora com a bonita idade de 84 (oitenta e quatro) anos de idade tinha começado a frequentar as aulas de informática e que passado pouco tempo, muito contente e feliz exultava de alegria por já saber servir-se do computador!
Velho e idoso não é a mesma coisa: o idoso renova-se em cada dia que começa; o velho vai acabando noite após noite. O idoso, olha o sol que desponta, conserva ainda um clarão de esperança; o outro, o velho, contempla o dia que termina, a escuridão, o tempo que já lá vai….
Talvez o tempo passe mais depressa quando vivemos apaixonados pela vida. Mas, cá na minha, essa paixão faz com que a velhice demore mais tempo a chegar.
segunda-feira, dezembro 01, 2008
A Alternativa

Nunca fui um fanático da bola, nem nunca a paixão por qualquer clube me dominou ou escravizou ao ponto de perder o sono ou a tramontana. Desde tempos longínquos que tenho um “fraquito” pela “Briosa” que vem de 1939 quando a sua equipa de Futebol foi a vencedora da primeira edição da Taça de Portugal.
Era no tempo em que a maioria dos jogadores eram estudantes universitários e em que o futebol era pobre e não suscitava ainda tantos excessos e tanta polémica.
No entanto não quer isso dizer que não goste de ver um bom jogo de futebol e que não torça pela equipa lusa, mormente quando joga com outros Países.
Esclareço também que na minha tribo há várias tendências clubistas, mas o “dragão” é o que mais “ordena”, ou não fosse a minha chefe a detentora da batuta quando há “concertos!...”
E não imaginam os “mimos” com que ela presenteia o “onze”, o treinador ou até o homem do apito quando as bolas só entram na baliza dos azuis e brancos!
Vem este intróito a propósito da derrota da equipa portuguesa frente à equipa dos nossos irmãos brasileiros.
Cá na minha nem foi assim uma vergonha por aí fora. Humilhação? Qual quê? Se tivéssemos perdido frente ao Burkina Fasu, talvez…mas com os nossos irmãos brasileiros… ficou tudo em família.
Mas confesso que fiquei perplexo, não tanto com a derrota mas com a “insistência”... Seis “secos”contra dois!
Depois, como sempre acontece nessas andanças do futebol, vieram os pedidos de desculpas ao Povo português: pediu desculpas o seleccionador, os jogadores, o presidente da Federação e parece que até a estrela do onze português, o craque que sonha em ser o maior do mundo, não se mostrou à altura de merecer esse título. É tão bonita a humildade!
Mas voltando ao “desastre”, eu penso que tenho uma solução para evitar que uma nova hecatombe aconteça. Então é assim: O nosso Primeiro-Ministro à semelhança do que fez com as criancinhas das escolas oferece a toda a equipa, começando pelo Presidente da Federação e a acabando no homem que trata dos equipamentos, um Magalhães. Com o dito cujo entrega também um Kit com jogos de futebol para computador sem esquecer aquele do “Eu é que sou Burro?...”do Scolari. A seguir chama para formador o Manuel José que tem feito obra lá pelas terras dos Faraós. Seis meses depois nomeia uma comissão de avaliação presidida pelo camarada Chavez, emérito esquerdino e perito em jogadas duvidosas, e então veremos o resultado desse curso de formação profissional…
Caso este estratagema não resulte, resta-nos uma alternativa – mandar o Leixões representar Portugal.
sábado, novembro 01, 2008
Numa manhã de Outono

Desceu a temperatura, as noites começam a estar frias, os dias são mais pequenos e as noites mais longas. Chegou o Outono!
Ele vem – cumprindo o calendário de Deus que o homem ainda não conseguiu alterar completamente – ele vem, dizia eu, devolver à Terra as roupagens com que ela se vestiu no Verão…
Hoje é Domingo, a manhã está fria, mas o céu está azul. Todos os anos, nestes primeiros dias do Outono, gosto de passear pelo meu quintal e admirar todos estes mistérios da Natureza!
Como na vida, as estações do ano têm, também, cada uma, as suas belezas e os seus atractivos próprios. Como um pintor que mistura na sua paleta várias cores para fazer um belo quadro, assim o Outono pintalgou tudo isto com belos e variegados tons!...
E como agora está mais amena a temperatura, venham comigo e apreciem a beleza deste tapete colorido; vejam a beleza daquela mistura de cores das folhas das videiras, além, na parreira; apreciem este gigantesco porco-espinho que é o castanheiro, com os seus ouriços, alguns de boca aberta, rindo, mostrando os dentes – as castanhas!
Vejam aqui as romãs, coradas, macias, como a tez de um bebé recém-nascido!
Ali, à direita, a groselheira com os seus frutos vermelhos – o supermercado da passarada. Vejam aquele casal de rolas que esvoaçou mal me pressentiu, e que já vai de papinho cheio!
Lá ao fundo, o azevinho e as suas bolinhas: umas verdes, outras acastanhadas, outras cores do carmim; a nogueira, carregada de frutos, alguns com o invólucro ainda verde, outros já abertos com as nozes prestes a cair!
Aqui, a contrastar com o despontar de novos frutos das laranjeiras, o fim das rosas com a queda das pétalas que juncam o chão e fazem um tapete multicolor e viscoso. O princípio e o fim. Como na vida. Uns nascem e outros morrem!...
E este cheiro a mosto vindo da adega de algum vizinho onde o vinho ainda ferve e que ao misturar-se com esta fragrância que se exala da terra fecundada pela chuva que caiu há dias, produz em nós um sensação de tão indizível bem-estar e de tanta espiritualidade que se torna impossível descrever?!...
E a carícia deste brando vento vindo da Serra que faz estremecer as folhas das laranjeiras e desprender as gotas de água que caem na terra como lágrimas de alegria e de reconhecimento pela chuva – essa riqueza que veio do Céu!
Encham os pulmões com este ar puro e sorvam esta brisa fresca e saudável que tonifica o corpo e reconforta a alma!
É Outono, caem as folhas. Na Natureza como na Vida, há sempre Deus. Há fim, e há recomeço. Há sempre beleza. Há encanto, e há sempre um sonho que se desfaz, e uma esperança que renasce...
domingo, outubro 26, 2008
A alcateia

Fala-se muito em crise, mas poucos são aqueles que se interrogam e procuram saber quais os factores que contribuíram para que chegássemos a esta encruzilhada e ficássemos desorientados sem saber qual o caminho que devemos seguir.
A mim, simples e inculto cidadão deste País, o que mais me intriga é o facto de no meio de tantos especialistas, tantos intelectuais, tantos politólogos, tantas sumidades e tantos adivinhos não houvesse um que se apercebesse que, mais dia menos dia, isto ia acontecer!...
Era impossível que isto não desse o “estoiro”! Sem trabalho como seria possível aguentar o barco?!... Com tanta gente a viver à rica, a gastar à barba longa e a esbanjar “o nosso dinheiro”, o dinheiro dos que sempre trabalharam, que outro desfecho se poderia esperara que não este a que chegámos?
Diariamente os jornais e outros meios de comunicação trazem até nós casos flagrantes desta vida desregrada, destes gastos supérfluos que acontecem por esse Portugal fora. São cada vez menos os que trabalham e os que produzem, e cada vez mais os que estragam e comem à custa dos poucos que ainda vão trabalhando.
Infelizmente é na classe dirigente, nessa classe que deveria dar o exemplo, que surgem os maiores abusos, os maiores escândalos e a maior falta de vergonha e de honestidade.
Tenho à minha frente a notícia que nos dá conta de que três administradores da empresa da Câmara Municipal de Lisboa que gere os bairros sociais da capital gastaram só em restaurantes entre 2006 e 2007 um total de 64.413 mil euros em 621 refeições, pagando em média por cada uma 173 euros!...
Não há dúvidas de que grande parte dos que mandam tem a consciência na conta do Banco e a barriga no cérebro!...
Já em tempos éramos conhecidos por comilões e como escreveu Júlio Dantas, «somos um país de intoxicados. Não erraria muito quem fosse até ao extremo paradoxal de atribuir aos erros e às exuberâncias seculares da cozinha portuguesa todos os desastres seculares políticos que nos têm afligido. A nossa planturosa cozinha de artríticos, duma abundância monacal, com leitões e vitelas inteiras nadando em molho dentro de bandejas de prata, tem, pelo menos, graves responsabilidades nas grandes catástrofes nacionais…»
Todos os males que presentemente nos afligem têm origem em abusos. E o que me revolta e a muito mais gente é que apesar de não termos abusado, somos obrigados a pagar os abusos dos outros. E a revolta é ainda maior ao verificar que muitos dos membros dessa cambada de parasitas, saem quase sempre impunes das trafulhices que fazem. Mas como dizia meu Avô das barbas: “os lobos não se comem uns aos outros… “
Homónimos

O Outono tinha começado há dias. As folhas amarelecidas começavam já a fazer um tapete sob a parreira que dava acesso à casa. Nas videiras havia ainda alguns restos de cachos de uvas que tinham escapado à tesoura dos vindimadores.
O João, um petiz de oito anitos, mochila às costas e “Magalhães” pendurado na mão esquerda, de vez em quando parava e, em bicos de pés, lá ia depenicando os bagos dos moscatéis.
Tinha recebido o “Magalhães” naquele dia e estava ansioso por mostrar ao pai aquele brinquedo que lhe haviam oferecido na escola e que, segundo a professora, era “coisa” que tinha lá dentro tudo o que era preciso para fazer dele um verdadeiro homem…
Até o Anacleto que era pouco dotado para aprender, iria tornar-se um sábio, acrescentara a D. Matilde… Livros, borracha, calculadora, dicionários, tudo isso a máquina substituirá. Até o trabalho de pensar será aliviado. O “Magalhães” pensará por vós, acrescentara a professora.
O que é preciso é saber servir-se dele – tinha reforçado um senhor que, segundo a professora, devia ao “Magalhães” tudo o que era, e tudo o que tinha.” (O petiz não sabia que o fulano era comissionista no negócio do Tio Zé!...)
Mas, ingénuo ainda, o João, à medida que se ia aproximando de casa, mais eufórico se sentia pela surpresa que iria fazer. Sobretudo ao pai que estava desempregado e para afogar as mágoas passava os dias a beber, insultando e chamando aqueles nomes feios, que todos conhecemos, aos nossos digníssimos mandantes.
Pensava o petiz, na dele, que a “maquina,” segundo tudo o que ouvira, iria resolver todos os problemas incluindo o da falta de dinheiro lá em casa…
O pai, cigarro na mão e já bastante eufórico como geralmente acontece com os fiéis amantes do deus Baco, conversava na soleira da porta com dois amigos, também eles seguidores acérrimos dos preceitos do mesmo deus…
João, sorridente, nem se lembrou do «olá pai!» e disparou: Olha o meu “Magalhães!”…
E o pai, olhos esbugalhados: Não, eu não acredito! Não me digas que trazes nessa caixa esse safado do Magalhães que ainda me deve o dinheiro da junta de bois que lhe vendi há dois anos?!...
-Não, pai! Isto é um computador. Aquela caixa que agora dão na escola e que ensina tudo. É o Magalhães…
-Na escola disseram-te isso? Fia-te neles!... Eu também me fiei no Magalhães quando lhe vendi a os animais e até agora, nem bois nem dinheiro…
-Mas, ó pai, isto é uma máquina que nos ensina e tem, como diz a senhora professora, uma coisa que se chama tecnologia de ponta…
-Pois! Os bois também tinham pontas, mas agora não há ponta por onde eu lhes pegue. Raios partam o Magalhães…
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