domingo, janeiro 17, 2010

É Domingo e chove...


Da minha janela...
É Domingo. Chove. Continua a chover… Um Inverno com muita chuva, dias pardacentos, uns frios outros mornos, mas sempre com esta humidade peganhenta, que nos afecta psicologicamente e nos torna ainda mais deprimidos.
Lembro-me dos Invernos da minha infância e recordo os homens que mesmo com chuva e frio, à força da enxada, preparavam a terra para semear o pão. Homens que com as próprias mãos moldavam a paisagem, reflectindo no quadro vivo da Natureza a sombra da sua presença.
Esses homens sem nome, e as mulheres fiéis e submissas que lhes davam os filhos – filhos lavradores, soldados, marinheiros, pastores, operários e, de vez em quando, um médico, um advogado, um juiz, um engenheiro e um padre que os baptizava, casava, acompanhava, e os absolvia de todos os pecados na hora da morte.
Esses homens que com as próprias mãos, ergueram as suas casas para abrigar e proteger a família dos frios de Inverno e construíram as suas capelinhas onde entronizavam os seus santos.
Esses homens dos quais hoje apenas resta a memória e que enfrentaram com coragem as tempestades da vida da mesma forma que ajoelhava humildemente na capela que construíram.
Esses homens que praguejavam ou rezavam com a mesma naturalidade com que semeavam ou colhiam; que festejavam o nascimento de um filho, que transportavam o andor do Padroeiro, que enterrava os seus mortos com a mesma angústia com que viam as suas colheitas destruídas pelas forças da Natureza!
Hoje, perante todo o progresso, toda a maquinaria moderna, mais admiro essa gente, compreendo a sua gesta heróica, e curvo-me perante todos os seus sacrifícios. Revivo com ela os seus momentos de alegria e de tristeza, porque essa é a herança sagrada que nos legou e com ela a sua presença continua viva em cada parede que lhe sobreviveu, em cada palmo de terra que amanhou e se transformou no pão que a alimentou.
São todos esses homens de então, de todas as madrugadas, de todas as chuvas, de todas as neves, que fizeram do desconhecido a aldeia que hoje habito, que abriram a pulso os caminhos que hoje percorro, ou percorremos todos, nesta aldeia que é Portugal.
É quase meio-dia e continua a chover. Nesta ronda pela infância e adolescência muita coisa ficou por dizer, mas uma vez por outra gosto de revisitar o passado…
Servindo-me das palavras de Margarite Yourcenar: “Quando amamos a vida, amamos o passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana…”

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Coincidências


Sexta-feira, dia quinze, 21 horas, chove lá fora, está frio, mas aqui onde estou, o mercúrio do termómetro estacionou nos 20 graus!
Foi há pouco, aqui neste quente cantinho, que assisti a mais uma sessão de circo. Que me desculpem os verdadeiros palhaços aqueles que são obrigados a fazer palhaçadas para sobreviver.
Estes que acabo de ver e ouvir, são “palhaços” ricos, bem vestidos, estômagos bem aconchegados, contas bancárias bem recheadas, não têm necessidades. Nada lhes falta! Ou melhor, falta-lhe o melhor: falta-lhes o sentido da responsabilidade, da honra, da solidariedade, da honestidade, enfim, faltam-lhes todos os predicados que distinguem os racionais dos irracionais!
A discussão tinha como tema a discussão para a viabilização do Orçamento do Estado. E como é vergonhosa, baixa, reles, manhosa, hipócrita, a maneira como se comportaram os homens (?) que nós, ou melhor, que alguns cidadãos cá deste rectângulo, deste antro de podridão, elegeram para nos representar!
Como escrevi há dias, estamos rodeados de gente sem escrúpulos, desonesta, traiçoeira, egoísta e corrupta. Estamos a envelhecer sem fé, sem amor, sem garra, sem vontade própria, acreditando apenas em números e estatísticas.
Estamos nas mãos dessa gente manhosa, dessa gente que tem mais jantares que barriga, mais dinheiro que o necessário, enquanto dois milhões de portugueses vivem com uma mísera quantia de 300 euros!
Lembram-se de George Orwell e da “Democracia dos Porcos”?... Vamos recordar um pouco, em sinopse:
“O Estado controlava o pensamento dos cidadãos, entre muitos outros meios, pela manipulação da língua. Os especialistas do Ministério da Verdade criaram a Novilíngua, uma língua ainda em construção, que quando estivesse finalmente completa impediria a expressão de qualquer opinião contrária ao regime. Uma das mais curiosas palavras da Novilíngua é a palavra duplipensar que corresponde a um conceito segundo o qual é possível ao indivíduo conviver simultaneamente com duas crenças diametralmente opostas e aceitar ambas. Os nomes dos Ministérios em 1984 são exemplos do duplipensar. O Ministério da Verdade, ao rectificar as notícias, na verdade estava mentindo. Porém, para o Partido, aquela era a verdade. Assim, o conceito de duplipensar é plausível a um cidadão da Oceânia.
Outra palavra da Novilíngua era Teletela, nome dado a um dispositivo através do qual o Estado vigiava cada cidadão. A Teletela era como que um televisor bidirecional, isto é, que permitia tanto ver quanto ser visto. Nele, o "papel de parede" (ou seja, quando nenhum programa estava sendo exibido) era a figura inanimada do líder máximo, o Grande Irmão.
No livro, Orwell expõe uma teoria da Guerra. Segundo ele, o objectivo da guerra não é vencer o inimigo nem lutar por uma causa. O objectivo da guerra é manter o poder das classes altas, limitando o acesso à educação, à cultura e aos bens materiais das classes baixas. A guerra serve para destruir os bens materiais produzidos pelos pobres e para impedir que eles acumulem cultura e riqueza e se tornem uma ameaça aos poderosos…”
Qualquer semelhança com o que se está a passar cá no rectângulo, não é pura coincidência…

domingo, janeiro 10, 2010

Cai neve no meu quintal


Há muitos anos que não via cair neve no meu quintal. De manhã, quando fui à janela, havia neve no chão e os flocos caíam, e vinham juntar-se ao tapete branco que cobria a relva.
Espectáculo deslumbrante!...

Fomos até à Serra do Caramulo, mas só conseguimos ir até Pedronhe. Era tanta a neve, e havia tanto gelo na estrada que demos meia volta e regressámos à base… em 1.ª, sem tocar no travão!
Mas chegámos sãos e salvos!...
Aqui ficam duas fotos do lindo cenário que a Natureza nos ofereceu…

sábado, janeiro 09, 2010

Manhã de geada


Sábado, dia nove de Janeiro de 2010.
São nove horas da manhã e há cerca de meia hora que deixei “Vale de Lençóis”. Quando abri a torneira para as abluções matinais, da torneira, nem pinga de água corria!
Abri a janela e, friorento que sou, quase me ia dando uma coisa… Um manto branco cobria todo o quintal e um vento frio, cortante, entrou pela janela. Estava dada a explicação. A água tinha gelado na canalização!
Vesti o roupão de Inverno, pus o gorro na cabeça e fui espreitar o termómetro que tenho no exterior, à entrada da porta, debaixo de telha – três graus negativos!
O céu está limpo, o Sol brilha, mas não há movimento na estrada. A aldeia parece ainda adormecida. Até mesmo a passarada ainda não apareceu.
Mas é bonito o espectáculo! De alguns ramos do castanheiro soltam-se gotas de água que brilham com os raios solares. É a geada que derrete.
No tanque, sobre a água, há um espelho enorme que reflecte a armação de ferro onde os ramos das videiras “choram” com o frio ou talvez porque a poda foi feita na véspera.
A relva está branquinha, e das árvores, só o azevinho, mostra cara alegra com as bolinhas vermelhas a brilharem com o Sol, contrastando com o amarelo das laranjas, que sobressaem das folhas húmidas e luzidias das laranjeiras.
São agora dez e meia, o Sol já aquece, a aldeia acordou, há movimento nas ruas, as aves saltitam de ramo em ramo. Rolas, melros e pardais cruzam-se no ar, saltitam de ramo em ramo ou escavam o chão em busca de alimento.

O Sol agora bem acordado aumenta o relevo da mancha escura que se perfila não muito longe da janela do meu quarto - a bonita Serra do Caramulo.
E como a água já corre das torneiras, vou deixar a escrita, cortar a barba e preparar-me para mais um dia frio deste mês de Janeiro de 2010.

Manhã de geada


Diário
Sábado, dia nove de Janeiro de 2010.
São nove horas da manhã e há cerca de meia hora que deixei “Vale de Lençóis”. Quando abri a torneira para as abluções matinais, da torneira, nem pinga de água corria!
Abri a janela e, friorento que sou, quase me ia dando uma coisa… Um manto branco cobria todo o quintal e um vento frio, cortante, entrou pela janela. Estava dada a explicação. A água tinha gelado na canalização!
Vesti o roupão de Inverno, pus o gorro na cabeça e fui espreitar o termómetro que tenho no exterior, à entrada da porta, debaixo de telha – três graus negativos!
O céu está limpo, o Sol brilha, mas não há movimento na estrada. A aldeia parece ainda adormecida. Até mesmo a passarada ainda não apareceu.
Mas é bonito o espectáculo! De alguns ramos do castanheiro soltam-se gotas de água que brilham com os raios solares. É a geada que derrete.
No tanque, sobre a água, há um espelho enorme que reflecte a armação de ferro onde os ramos das videiras “choram” com o frio ou talvez porque a poda foi feita na véspera.
A relva está branquinha, e das árvores, só o azevinho, mostra cara alegra com as bolinhas vermelhas a brilharem com o Sol, contrastando com o amarelo das laranjas, que sobressaem das folhas húmidas e luzidias das laranjeiras.
São agora dez e meia, o Sol já aquece, a aldeia acordou, há movimento nas ruas, as aves saltitam de ramo em ramo. Rolas, melros e pardais cruzam-se no ar, saltitam de ramo em ramo ou escavam o chão em busca de alimento.
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Manhã de geada






O Sol agora bem acordado aumenta o relevo da mancha escura que se perfila não muito longe da janela do meu quarto - a bonita Serra do Caramulo.
E como a água já corre das torneiras, vou deixar a escrita, cortar a barba e preparar-me para mais um dia frio deste mês de Janeiro de 2010.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

A NOITE DA CONSOADA

Noite de Natal. Chove. Está frio lá fora. Acabei de abastecer de lenha o fogão da cozinha. Na lareira da sala, as faíscas ressaltam dos trocos incendiados e as chamas desenham no vidro do resguardo, figuras fantasmagóricas.
Reina grande azáfama na cozinha. Prepara-se a consoada. Toda a gente trabalha. Até os mais preguiçosos…que segundo a “chefe”, são dois: tal pai, tal filho!
Descascam-se as batatas, escolhem-se as couves, cozem-se os ovos enquanto o fiel amigo, o bacalhau, jaz esparramado no fundo de uma bacia cheia de água.
Mesmo ao lado, fritam-se os sonhos, corta-se o pão para as rabanadas. Os bilharacos, alinhados numa travessa, polvilhados com açúcar e canela, já cheiram!
- É preciso descascar os alhos para a consoada, toca a andar…Cortem a broa, ponham o pão nos cestos, vejam se há azeite nos galheteiros, ponham uma cavaca no fogão e a lareira, tem lenha?!... – É a chefe a dar ordens. E ordens não se discutem…
E toda a gente gira, rodopia, e num vaivém constante entre a sala e a cozinha, a mesa vai ficando cheia.
- Falta uma travessa para as batatas, as couves estão quase cozidas e daqui a pouco vou meter o bacalhau…Não há ninguém que me ofereça um aperitivo?... – É de novo a voz de comando da Avó…

Entretanto, chega a hora de nos sentarmos à mesa: batatas com couves, ovos cozidos, bacalhau regado com bom azeite, bom vinho, e começa a ceia!
As luzes cintilam no pinheiro num dos cantos da sala e até o “menino de Jesus”, pequenino, parece espantado com tanto alarido. Há embrulhos e caixas junto ao pinheiro, mas uma ordem dada através de um telemóvel impede que os presentes de Natal sejam abertos antes do meio-dia do próprio dia de Natal! A avó não consegue calar a sua decepção e, espicaçada pela curiosidade que cultiva há décadas, faz ainda algumas tentativas para não respeitar a decisão das netas. Mas em vão…
E, a muito custo, é cumprido o pedido. Só no dia de Natal serão abertos os presentes que o Menino Jesus pôs nos sapatinhos, à sombra do pinheiro.
Come-se, bebe-se, conversa-se. A alegria é contagiante. Um ambiente totalmente natalício, que faz lembrar o meu Natal de menino… E leio o “Natal” de Miguel Torga:
“Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste Inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens presépio
Mais agasalhado.
Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te lembrar.”

sábado, janeiro 02, 2010

Natal de 2009

Noite fria. Chuvosa. O vento soprava lá fora. Dentro, a juntar ao calor da lareira, um outro calor, o da família, aquecia a casa e a alma.
Foi um Natal diferente – tanto na noite com no próprio dia. Há muito tempo que não sentia esta sensação de bem-estar, de alegria, uma espécie de magia, de paz interior que só a união da família sabe transmitir!

Quando os anos se amontoam, os movimentos se tornam mais difíceis e sentimos à nossa volta o cuidado e o carinho de todos os que nos rodeiam, é muito difícil, às vezes, suster uma lágrima atrevida a denunciar o que tentamos esconder dentro de nós!
Não sei como exprimir em palavras o sentimento de felicidade que me envolveu nessa noite e, sobretudo, nesse dia, o dia de Natal de 2009…
Servindo-me das palavras de Pedro Homem de Melo:
“Descalço venho dos confins da infância,
E a minha infância ainda não morreu...
Em face e atrás de mim ainda há distância.
Ó Menino Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho (e nada tenho!) é Teu!”

domingo, dezembro 20, 2009

Mas as crianças, Senhor...

Cheguei agora a casa e em complemento do que escrevi de manhã e porque vi na rua da cidade crianças famintas e tiritando de frio, lembrei-me de um poema de Augusto Gil,de 1909, em "Luar de Janeiro" que transcrevo pela sua oportunidade:

A NEVE

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim...

É talvez a ventania;
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudade, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
de uns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
- depois em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos... enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza...
– E cai no meu coração.

Augusto Gil – Luar de Janeiro, 1909

Desabafo

Nesta manhã fria de Domingo, 20 de Dezembro de 2009, com a temperatura a rondar os dois graus positivos no termómetro que tenho à entrada da porta, aqui estou, bem quentinho, a pensar em todos aqueles que a esta hora enfrentam esta onda de frio. E penso, sobretudo nos que dormem na rua, nos que não têm agasalhos suficientes ou naqueles que são obrigados a suportar estas baixas temperaturas para ganharem o seu sustento. Sempre fui muito sensível ao frio e, por vezes, o simples facto de abrir a janela e ver o manto branco da geada que cobre o meu quintal, faz com que me sinta completamente tolhido nos meus movimentos!...
Nesta altura do Natal são muitos os apelos à solidariedade, à angariação de bens e roupas para os mais carenciados. Porém, a maior parte desses apelos são feitos, mais porque se tornou um hábito desta quadra natalícia do que por verdadeira convicção.
Há, nestas época de Natal, muita hipocrisia misturada nestas acções de pretensa ajuda aos necessitados.
E é por isso que eu me revolto contra aqueles que se dizem humildes, mas que praticam conscientemente a injustiça. Revolto-me contra aqueles que falam em Deus com devoção, mas que no fundo, elegeram como ídolos a ganância, a soberba e a inveja.
E revolto-me, sobretudo, contra aqueles que, podendo, não são capazes de praticar o bem, mas estão sempre a criticar o bem que outros fazem!
E que dizer dos que dão esmolas na rua para que todos vejam e espalham aos quatro ventos essa “caridade”hipócrita?!...
Por tudo isso urge dizer não à injustiça, à falsa compaixão, a toda essa fingida solidariedade que por aí se apregoa.

sábado, dezembro 19, 2009


Esta fotografia foi tirada em 1943 no Colégio Tomás Ribeiro em Tondela. Fizemos vários jogos com outras equipas, nomeadamente de outros estabelecimentos de ensino – Colégios de Oliveira do Hospital, Mangualde, Liceu Alves Martins – e outras equipas da época.
O Professor Pimenta, ex-jogador da Académica de Coimbra orientou-nos durante algum tempo nos treinos.
A equipa era constituída, da esquerda para a direita e de pé: Reis, Vicente, Manuel, Aureliano (Espanhol), Fausto Lobo, Almeida. De joelhos: Dionísio, Palinho, José Brás (mais tarde jogador da Académica de Coimbra) Filipe e Humberto.
Pelo que sei, o Reis, o Vicente, o Espanhol, o Lobo, o Dionísio, o José Brás, e o Humberto já faleceram. Tenho estado com o Palinho e do Almeida e do Filipe, perdi-lhes o rasto…
O Reis, encontrei-o em Kinshasa, trinta anos depois, em 1973 e só pela fotografia confirmámos que éramos nós, de tal maneira tínhamos mudado de feições!... Os anos não perdoam…

O Palinho e eu fizemos também parte da equipa de Voleibol do Colégio Tomás Ribeiro, que ficou em 2.º lugar no campeonato nacional da Mocidade Portuguesa em 1945.
Na foto:
Da esquerda para a direita: Henrique F. Marques, Amadeu Viegas, Aureliano (Espanhol), Manuel V. Costa, Jorge Amaral e António Gomes (Palinho).
O Amadeu e o Espanhol já faleceram. Há ainda (Dezembro de 2009) quatro “sobreviventes”: o Henrique, o Manuel, o Amaral e o Palinho.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Um crime perfeito

Viviam numa casa empoleirada lá bem no alto da serra e lá iam sobrevivendo sem sequer receberem o tal famigerado Rendimento Social de Inserção. O Francisco tinha ouvido na rádio que era preciso assinar uns papéis, mas como era complicado, desistiu. Tudo tinha mudado e quase tudo era proibido. A última novidade que soubera por um sobrinho que habitava na cidade é que nem animais da própria criação se podiam matar. Só no matadouro…
Desconfiado de todas as modernices, evitava descer à cidade e lá se entretinha a cultivar a terra ingrata que lhe dava o sustento para a mulher e dois filhos e ainda para a criação: galinhas, porcos, patos, um chibo e duas cabras que lhe davam o leite prós miúdos.
Na semana passada a sogra viera viver com eles e era mais uma boca a sustentar, o que complicava ainda mais as coisas. Vida ingrata! De cada vez que ouvia notícias acerca do ordenado e da vida airada dos políticos e afins, tinha ganas de lhes apertar os gasganetes!.. Vão pró raio que os parta!... E cada vez se agigantava mais a ideia que o perseguia há algum tempo. Estava decidido. Ia fazê-lo! A mulher sempre temente às leis dos homens e a Deus, tentava dissuadi-lo:
-Ó Francisco, tu já pensaste no que vais fazer?
-É evidente que sim. Há outra maneira de resolver a situação para dar de comer a todos?
- Não sei, mas matar assim…E se descobrirem?
- Se descobrirem, descobriram e então? Está tudo preparado e já não se pode recuar. O compadre Barnabé vai ajudar-me e vais ver que tudo há-de correr bem. Lembra-te que é para bem dos nossos filhos e até da tua mãe. Ninguém vai descobrir…
Entretanto bateram à porta. A mulher espreitou pela janela. Era a carrinha do compadre Barnabé. O Francisco deu um pulo na cadeira, pegou na enorme faca que tinha afiado há pouco, e saiu porta fora…
De manhã os filhos notaram a falta do pai. «Foi trabalhar e só vem noite dentro», disse-lhes a mãe.
E era já alta noite quando a porta se abriu de mansinho. Era o regresso. Entrou o seu homem seguido de compadre Barnabé, sorridentes, camisas ensanguentadas e cada um com seu saco às costas. O saco do Francisco estava roto e pelo rasgão saia uma perna da vítima.
A mãe, aflita, perguntou: Têm a certeza de que ninguém vos viu?!... Foi o compadre Barnabé já habituado, pois não era o primeiro que liquidava, que respondeu:
-Calma! Não esteja nervosa. O servicinho foi feito como manda a praxe. Mas que belo bicho, comadre! E criado com batatas e hortaliça cá destas nossas courelas – carne sem corantes nem conservantes, esse tradicional e genuíno produto que ainda se encontra nos lugares mais desconhecidos deste nosso Portugal!...
Nem os do Alentejo, criados com bolota, têm assim esta carninha gostosa… ASAE?... Qual ASAE?... Esses “iconoclastas” que andam a tentar acabar com as nossas tradições gastronómicas?! Eles sabem lá o que é bom?...

sábado, novembro 21, 2009

Quando os ladrões eram pobres

Julgo que não há ninguém que, de vez em quando, consiga resistir ao desejo de revisitar o passado e recordar factos e figuras que dele fizeram parte e que partilharam esses saudosos tempos da adolescência!...
Fiz há dias uma dessas viagens e fui parar à minha antiga aldeia. Lá estava tudo: o casario da minha infância; os antigos caminhos por onde transitavam a chiar, os carros de bois; os campos verdejantes que percorri correndo à procura de ninhos e em brincadeiras de miúdo e, de repente, ao virar de uma esquina, quem me aparece?... O Bernardino!
O Bernardino era mais ou menos da minha idade. Só que mais forte. Corpulento, sempre risonho, ele era – usando a linguagem de hoje – um gajo porreiro.
Porém, naquela altura, a sua profissão já não era nada bem vista e o mais simples trabalho que fizesse lhe trazia complicações. E ele, como todos nós, tinha de trabalhar para comer. E trabalhava dia e noite. Mas mais de noite…
Nos intervalos, nos momentos livres, dormia em qualquer sítio: no vão de uma escada, numa casa abandonada ou num palheiro. Todos esses lugares lhe serviam, logo que estivessem situados longe dos povoados. Não gostava do barulho. Adorava o silêncio e era um acérrimo defensor do escuro.
Para executar as suas tarefas, usava as mais rudimentares ferramentas, arrostava os maiores perigos, não tinha sindicato que o defendesse, não tinha direito a férias, e nessa altura também ainda não existia o subsídio do malandro – o Rendimento Mínimo Garantido.

Por vezes eram todos contra ele, a população, os polícias… e até a Justiça, já naquela altura nada tinha de imparcial. Defendia ferozmente os “clientes” visitados e condenava sempre o visitante – o Bernardino. E foi a pensar nele, com um pé no começo do século vinte, (altura em que ele exerceu a sua actividade) e outro neste, em que estamos, tentei imaginar como seria o Bernardino de hoje, o Bernardino versão moderna, século vinte e um!...
E então, imaginei-o sentado ao volante de um “topo de gama”, bem vestido, rolando pela auto-estrada, telemóvel colado ao ouvido e sorriso nos lábios…Um Bernardino à la page – sem gazua, sem pé-de-cabra, sem escada de corda e servindo-se apenas da ferramenta que usam agora os da sua profissão – uma simples esferográfica!...
Como as coisas mudaram, como os métodos evoluíram e quão bonito é o progresso! Que diria o Bernardino se fosse possível ressuscitá-lo?!
Ah!...Esquecia-me de vos dizer que num dia em que o “trabalhinho” não correu bem, o Bernardino foi preso e condenado a muitos anos de prisão que teve de cumprir integralmente numa enxovia húmida e sem luz. Como eram pobres os ladrões desses tempos!...

quinta-feira, outubro 22, 2009

Reflexões de Outono


Uma das vantagens que o amontoar dos anos nos confere é podermos estabelecer uma comparação entre passado e presente e pôr em confronto épocas, gentes, formas de viver e até maneiras de pensar.
Muitos dos equívocos da história residem no facto de se avaliarem situações ou pessoas, sem que previamente haja um conhecimento sério dos factores inerentes à época em causa. Todos nós somos o produto de um determinado tempo, de um determinado meio, de um determinado lugar e de uma determinada condição. Por isso, quando se fala de passado, e antes de criticar, há que ter em conta todos esses factores.
Hoje em dia, nomeadamente no que diz respeito à política, é moda criticar-se tudo e todos. Desde o passado remoto, até ao passado recente. E as críticas vêm dos mais variados quadrantes!
A mim, o que mais me impressiona é o descaramento com que, pessoas cuja idade não lhes permite ir mais para atrás do que as três ou quatro últimas décadas; que nem sequer estão habilitadas a falar do presente, porque não participam nele, (alguém o faz por eles!...) emitem opiniões depreciativas ou tentam apagar da História pessoas ou factos que a marcaram e que são dela indissociáveis. A esses indivíduos, costumo eu chamar "pequenos homens". Ou "crianças grandes", vestidas a rigor, de fato e gravata, mas com a cara lambuzada de guloseimas.
O homem verdadeiro e completo só se constrói pela luta que mantém ao longo dos sucessivos e variados confrontos com os obstáculos que a vida coloca no seu caminho.
Mostra-nos a experiência que a falta de esforço e de treino para ultrapassar essas barreira, conduz a um amolecimento prematuro e também à erupção de sentimentos egoístas e mesquinhos que se traduzem geralmente por exigências desmedidas, facilitismo ostensivo e, até, por vezes, ultrajante! Essa espécie de homens não tem quaisquer noções da realidade do dia-a-dia. Tudo lhes caiu do Céu. A vida é um pronto-a-vestir, uma feira de vaidades, onde encontram tudo. É chegar, escolher e usar, porque alguém há-de pagar!...
E é daí que resulta a proliferação dos inúteis e dos parasitas que vão vivendo acoitados sob as asas de uma sociedade super-protectora que os leva pela mão, que lhe remove as pedras e lhes alcatifa o caminho.
E como é fácil viver nesse mundo irreal, fechando os olhos à miséria e fazendo orelhas moucas aos gemidos dos que sofrem! Mas mal o dinheiro escasseia...
O resultado, ilustrado com retratos nem sempre muito claros, entra-nos todos os dias pela porta dentro em letras gordas e cores berrantes, por intermédio dos Jornais; com entoações dramáticas através da Rádio, ou em imagens sugestivas e apropriadas via televisão. Subornos, corrupções, e negócios escuros vão alimentando essa cáfila de barriguistas militantes.
Podem dizer-me que também já havia barrigas grandes nesse tempo que agora tanto se critica. É verdade. E volto ao princípio, às tais vantagens da idade e das comparações. Já havia, sim! Só que, e ao contrário do que acontece hoje, era fácil contá-las. E era simples saber como se enchiam…

segunda-feira, outubro 05, 2009

RCORDAÇÕES DE ÁFRICA - AS PLANTAÇOES DE N'GONGO



Árvores da borracha
Passados dois dias fiquei sozinho com cerca de trezentos trabalhadores que se dividiam pela exploração da borracha, extracção do óleo de palma e outros trabalhos. Havia pedreiros, carpinteiros, trabalhadores de limpeza da plantação, caçadores, pescadores e vários outros sem trabalho certo.
Muitos viviam nas senzalas vizinhas e cerca de metade habitava na plantação, em casas construídas com blocos de terra secos ao sol e tijolo feitos manualmente no local ou ainda em palhotas cobertas com folhas secas, uma espécie de colmo.
Os pescadores e caçadores tinham por missão pescar e caçar e trazer a caça que era distribuída gratuitamente pelos trabalhadores. O rio Maringa era muito rico em peixe. As espécies eram muitas e desde o peixe pequeno, passando pelo médio e terminando no crocodilo, havia sempre pescado com abundância. Da caça pode dizer-se o mesmo. Desde o pequeno antílope, passando pelo macaco, pela galinhola e terminando no boi selvagem, havia quase sempre carne para distribuir. Quando, por ventura, víamos que era de mais, mandávamos secar e, assim, ficávamos com uma reserva... Uma vez até se distribuiu pelos trabalhadores um hipopótamo! Mas isso vou contar mais à frente.
A plantação de borracha tinha uma extensão de 300 hectares e estava dividida em vários talhões, cada qual com cerca de 300 árvores e que eram atribuídas a cada "sangrador" para, todos os dias, fazerem a colheita do látex.
Como atrás disse, a chamada era feita cedo e os homens entravam na plantação logo que a manhã rompia. A incisão nas árvores tinha que ser feita por essa altura, pois mal o sol começasse a aquecer, o látex ia coagulando lentamente até que uma fina película acabava por tapar a ferida interrompendo assim a sangria. Entretanto os capatazes iam percorrendo os vários talhões para verificar se o trabalho tinha sido feito convenientemente. Isso para evitar que os "sangradores" – o que era muito frequente – por preguiça, deixassem algumas árvores sem fazerem a respectiva incisão.
Cerca das dez horas, o encarregado de tocar a "ngonga" (um tronco oco, feito a propósito e que produzia um som que se ouvia longe) batendo com as duas maçanetas, indicava que podiam recolher o látex que tinha escorrido para uns pequenos copos redondos de alumínio.
Os "sangradores" despejavam então os copos para um recipiente de 30 litros, em alumínio e, por fim uma camioneta transportava-os para a fábrica que estava situada junto ao rio.
Um grande hangar coberto com folhas de zinco abrigava as máquinas e os tanques onde se tratava o látex. O conteúdo dos recipientes, – depois de pesado e o seu peso ter sido posto num registo geral e em cada um dos livros de cada trabalhador para o prémio de rendimento no fim do mês – era dividido pelos vários tanques de cimento revestidos com azulejos. Adicionava-se então uma quantidade de água proporcional aos litros ou quilos de látex vazados, mexia-se e adicionava-se, misturado com água, uma quantidade previamente calculada de ácido fórmico para acelerar a coagulação. Logo a seguir e nas ranhuras existentes nos tanques colocavam-se placas de alumínio o que dava origem a que a mistura coagulasse e ficasse em placas finas com cerca de 2 cm de espessura. Cerca de três horas depois, retiravam-se as placas de alumínio e tínhamos então folhas espessas. Essas folhas eram passadas por várias calandras ou prensas que as achatavam e ao mesmo tempo lhes tiravam a água que traziam. Por último passavam por uma outra calandra de cilindros estriados que fazia nas folhas uns opérculos como nos favos de mel das abelhas. Esta operação tinha como finalidade ajudar a fazer uma secagem mais rápida.
As folhas eram então levadas para um secador a lenha e aí ficavam penduradas por um período entre os 4 e 8 dias. Depois de bem secas, as folhas apresentavam uma cor amarelada e já não se colavam.
Eram então transportadas para a secção de embalagem onde eram escolhidas e embaladas para exportação. A escolha obedecia a certos requisitos e conforme as características assim eram classificadas em: "Sheets I, Sheets II, Sheets lll, Lumps e Scraps, e embaladas em fardos de 50 quilos e expedidas por barco para a Bélgica, Inglaterra ou Angola, via Leopoldville.

Plantação de palmeiras
Havia também, mesmo junto ao rio, a fábrica do óleo de palma. Era composta por uma autoclave para cozer os frutos da palmeira, (dendê) um malaxador para separar a polpa da noz do fruto de palma, uma centrifugadora para extrair o óleo, um triturador para partir a noz e extrair o coconote e uma caldeira a vapor para fazer girar tudo isso.
A concessão de 50 hectares era pouco produtiva e dois camiões percorriam os arredores para comprar fruto aos indígenas. Todos os dias eles saíam e percorriam o mesmo percurso de cerca de 100 quilómetros ida e volta. Havia também uma baleeira que subia o rio e ia comprando fruto de palma aos indígenas que habitavam nas margens. Levava sempre sal, fósforos, espelhos e catanas, pois os homens da beira-rio, preferiam a permuta ao dinheiro.
O óleo era, depois de filtrado, metido em tambores de 200 litros e expedido também por barco para Bruxelas ou Luanda, via Leopoldville. O coconote seguia o mesmo caminho.
As borras do óleo serviam depois para fazer sabão que era vendido nas cantinas e nos arredores.

sábado, outubro 03, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - Testemunhos

Mapa da viagem
«O viajante que percorre a África, ao chegar ao Congo Belga, fica impressionado com o trabalho deveras notável que ali se realizou em tão pouco tempo.
Não pretendemos, num trabalho desta natureza, apreciar afundo tudo o que ali tem sido feito em pouco mais de meio século. Vejamos, por exemplo, como é concedida a assistência sanitária ao indígena: cada distrito possui seis a oito hospitais. Visitámos um hospital-tipo, igual a todos os outros, que faria corar de inveja muitos hospitais de cidades europeias, provido de pavilhões separados para homens e mulheres, instalações de Raio X, dois laboratórios, uma bem apetrechada sala de operações, uma sala para partos e diversos anexos.
Suponhamos, por exemplo, que um indígena se encontra doente a cem quilómetros do hospital mais próximo: recebido o apelo, imediatamente uma ambulância se desloca a recolhê-lo, hospitalizá-lo, tratá-lo fornecendo-lhe os alimentos e remédios, operá-lo, se necessário for, tudo isso sem despender um centavo. Na hipótese de o indígena ser empregado, a firma empregadora pagará uma taxa insignificante.
Vejamos agora alguns números que me foram fornecidos gentilmente pelo director desse estabelecimento hospitalar: leitos, 250; intervenções cirúrgicas, 350 por ano; partos 1.200 por ano.
O Governo belga constrói activamente em pedra casas para os indígenas destinadas a substituir as pitorescas mas anti-higiénicas palhotas. Leis são promulgadas destinadas a proteger o indígena, muitas vezes – diga-se de passagem em detrimento do colono branco… Isto e muito mais no que diz respeito à assistência ao indígena.
Tem sido notabilíssima a obra de aproveitamento do solo, desenvolvimento industrial, exploração do subsolo, etc. Tudo isto tem sido possível m virtude das enormes facilidades concedidas pelo Governo belga os colonos de todas as nacionalidades Créditos bancários são igualmente concedidos com a maior facilidade. Esta é, na realidade, a verdadeira razão da prosperidade no Congo Belga: facilidades, sempre facilidades em tudo. Um colono deseja abrir um estabelecimento? Muito bem…Abre o estabelecimento e tem um mês ou dois para tratar das respectivas autorizações, com a s formalidades reduzidas ao mínimo. Deseja uma audiência de alguma alta individualidade? Muito bem… Apresenta-se com o seu traje de trabalho, em mangas de camisa, sem gravata e é imediatamente recebido.
Eis em poucas linhas o que tem sido o belíssimo trabalho de colonização executado pelos belgas em sessenta anos.
Porém, atrás desse, há outro que talvez lhe não seja inferior: o trabalho executado pelos portugueses.
Falando correctamente a língua dos indígenas, os portugueses, em meados do século passado foram os primeiros comerciantes a estabelecer-se no Congo.
Conversei com alguns velhos comerciantes que, com risco da sua vida, entraram em contacto com indígenas que nunca tinham visto um branco, algumas tribos com reputação de antropofagia, estabelecendo feitorias portuguesas por todo o Congo, encontrando-se compatriotas nossos nas regiões mais remotas, onde num raio de cem quilómetros não se encontra um branco. (…) A colónia portuguesa do Congo Belga goza hoje de um grande prestígio, que muito honra o País…»
Do “Roteiro Africano”( 1955), um livro de Fernando Laidley, primeiro a efectuar a nível mundial a primeira volta à África em automóvel ( um “carocha”),páginas 153/4:

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - A Ngonga


Um pouco atrás referi-me a este instrumento, mas penso que vale a pena determo-nos um pouco e falarmos sobre esse tradicional instrumento de comunicação africano.
Aqueles que viveram as emoções das duas grandes “caçadas aos brancos”em 1960 e 1964 conhecem bem o papel desempenhado por ele nesse período.
Num tronco de árvore, um especialista, uma espécie de marceneiro, retira o miolo abrindo um corte longitudinal. Deixa que o tronco seque e vai depois, batendo com duas maçanetas de madeira, abrindo o corte, procurando obter o som desejado. Alcançado esse objectivo, está a "ngonga" pronta a entrar ao serviço...
Esse instrumento de percussão era usado na plantação para anunciar a chamada dos trabalhadores, a recolha do látex ou fora destes dois casos para reunir todo o pessoal para qualquer comunicação.
No entanto não era qualquer um que podia fazê-lo, pois há toques diferentes e muitas vezes ouvíamos a “ngonga” de uma aldeia vizinha, cujo toque (para os indígenas) significava que tinha morrido alguém ou que qualquer outro facto importante tinha acontecido…
Havia uma espécie de escala musical que era interpretada consoante o respectivo acontecimento.
Era uma maneira de comunicação entre aldeias. Na plantação e para que o som chegasse mais longe, a ngonga
estava colocada no cimo de uma termiteira com cerca de três metros de altura.
Como acima já disse, aquando das rebeliões, tanto da de 1960 como da de 1964, a ngonga foi um dos meios de comunicação que, sobretudo nas regiões do interior onde me encontrava, facilitou muito o “trabalho”dos rebeldes, dando-lhes indicações da movimentação dos europeus, o que levou às atrocidades de que todos tiveram conhecimento.

quarta-feira, setembro 30, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - Mbandaka, a capital da Província do Equador


Aqui passe a linha do Equador
Situada na confluência do Ruki com o rio Zaire a capital do distrito do Equador, Mbandaka, anteriormente Coquilhatville, é, na altura em que alinhavo estas linhas uma cidade com cerca de 150.000 habitantes. Um marco no jardim da residência do Governador simboliza a linha do Equador que atravessa a cidade. Porém contrariamente ao que se poderia prever da geografia, o clima é suportável. De Janeiro a Março e de Junho a Agosto, o tempo é magnífico. A magnífica massa de água do rio Zaire neste local talvez tenha influenciado os Europeus para ali instalarem a capital do distrito do Equador.
Em 1883, quando Stanley subia o rio em direcção a Stanleyville, hoje Kisangani, o explorador parou a seis quilómetros a Sul, em Wangata e baptizou o local onde pernoitou – uma aldeia indígena – de «Equateur”onde pouco depois os Belgas fundaram o seu primeiro posto avançado.
Em 1891, abandonaram Wangata e instalaram-se em Coquilhatville, hoje, Mbandaka.
Entretanto a sede de distrito cresceu e é hoje uma das mais belas cidades do país, com um plano de urbanização ditada pelo rio e seus afluentes. O Palácio e o edifício da Administração, parecem reinar sobre a floresta vizinha. As largas estradas de Mbandaka estão entre as mais e melhores conservadas das cidades zairenses. A avenida Mobutu que se estende do aeroporto à Câmara, a avenida Bonsomi, o centro comercial, a avenida Bolengé, em forma de cornija à beira do rio, são lugares de excelência para passeios.

Placa Jardim Botânico
Ladeada de palmeiras reais com o branco tronco, bem iluminadas de noite, são o ponto de encontro privilegiado dos citadinos. As pracetas são também de uma beleza rara. A da Braderie, o Parque da Revolução são lugares magníficos onde têm lugar manifestações culturais, políticas e passeios de repouso inigualáveis.
Mesmo o bairro popular, a “Cite”, separada da cidade administrativa e comercial pela avenida Bayookéli, não tem nada de comparável ao espectáculo desolante, promíscuo e miserável de outras aglomerações urbanas. Entre estas duas partes da cidade os Belgas tinham instalado em tempos um quartel militar. Este antigo campo não desapareceu, mas o espaço, como aliás indica o nome da avenida, é o local onde se encontram as escolas, uma delas a que frequentou em tempos passados, o general Mobutu.
Mbandaka é também um grande porto fluvial. Os barcos provenientes de Kinshasa ali fazem escala para se abastecerem antes de continuar viagem para Kisangani ou para Boende, Mompono, Ngongo, etc. Tudo isto suscita uma actividade febril ao longo do cais sobre a margem esquerda do rio, onde permanentemente há barcos ancorados.

Casa no Jardim Botânico
Não podemos deixar Mbandaka sem visitar o Museu do Equador. É um edifício pequeno, de estilo barroco a dois passos do porto. Ali está exposta uma rica colecção de objectos antigos: artigos de caça, de pesca, armas de guerra, máscaras, tantãs de todas as formas e feitios, amuletos, e curiosos sarcófagos em madeira chamados “Efombe”, onde, como os Egípcios da Antiguidade, os Wangata, que são a etnia maioritária, colocavam os corpos dos grandes chefes antes de os enterrarem.

O aeroporto de Mbandaka
A principal atracção nos arredores de Mbandaka encontra-se a sete quilómetros da cidade. É um bonito jardim botânico com muitas árvores onde se encontram espécies que atingem proporções impressionantes. Uma vasta gama de plantas alimentares, medicinais, industriais e de ornamentação ali crescem com extraordinária vitalidade. Cerca de 3.200 espécies botânicas ali são estudadas a maior parte no seu habitat natural. Outras mil estão catalogadas nos arredores. O principal ponto de interesse do jardim é a cultura de orquídeas. Nos arredores da capital do distrito existe outra curiosidade – a aldeia de Basoko, construída parcialmente sobre estacas.

terça-feira, setembro 29, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - A minha nova casa


No meio dos cafeeiros, construí uma casa de habitação. Moderna!... Os materiais foram pedidos a Basankusu e por barco lá chegaram. E, facto curioso, a planta dessa casa, talvez porque ficasse gravada no meu subconsciente, ajudou a gizar esta que hoje habito!...
A mão-de-obra foi-me cedida pela Missão Católica de Mompono – pedreiros, carpinteiros e pintores. Formados nas suas oficinas por frades especializados – oriundos da Bélgica, da Holanda ou da Inglaterra – esses homens eram muito competentes nas respectivas especialidades. Nos alicerces já entrou o ferro e o cimento, materiais que nessa data e na aldeia, nunca tinham sido utilizados na construção.
Faço aqui uma pausa para explicar que no interior do Congo e mais especificamente em plena floresta tropical, para construir uma casa, – sempre casas térreas – não eram necessários quaisquer materiais usados nos nossos países de origem: delimitado o terreno, iniciava-se a construção. Em primeiro lugar, calcava-se bem a terra para fazer o piso. Depois, espetavam-se paus à volta da área previamente estabelecida e entre eles eram entrelaçadas folhas, amarradas com o auxílio de lianas de arbustos próprios para o efeito. Era feita a seguir uma estrutura com os mesmos paus e folhas, estrutura essa que era, posteriormente, coberta com a ramada de um arbusto que dava a ideia do colmo das nossas aldeias serranas – estava assim feito o "esqueleto" da casa... Para as divisões interiores procedia-se de igual forma como para os "muros" de fora. Seguia-se a impermeabilização ou caiação: cavava-se um buraco, punha-se água, amassava-se, e estava pronta a argamassa. Atirava-se a mistura com a mão contra o tapume e estavam feitas as paredes – uma espécie do nosso estuque antigo...
Não havia que ter preocupações a dividir a casa e tanto podia haver duas como três separações no interior. Não havia preconceitos quanto a promiscuidade e, geralmente, a cozinha, um espaço de terra com duas pedras para segurar os tachos, era o aposento mais utilizado. As portas eram construídas da mesma forma. A latrina era feita ao ar livre e resumia-se (nem sempre!..) a uma espécie de fossa árabe. Para se lavar o indígena não tem necessidade de casa de banho, utilizando os rios e os riachos e, contrariamente ao que se possa imaginar, o negro, regra geral, toma banho várias vezes ao dia!

Resumindo: a casa era feita apenas com material local. Nem um prego... ou qualquer outro objecto que fizesse lembrar a "civilização"!... Em conversas com idosos, muitos me fizeram notar que não tinham tido quaisquer vantagens na vinda dos brancos. Pelo contrário! O branco só tinha vindo para complicar...
Mais à frente explicarei, acerca disso, e por experiência própria, as razões em que se fundamentam tais afirmações...

Mas retomando o fio à meada, a minha casa do N'gongo, apesar de manter ainda um pouco da arquitectura colonial em que a varanda se impunha, fugia já ao protótipo da casa tradicional do colonizador. A cozinha e a casa de banho revestidas a azulejos e o amplo espaço com um bar a separar a sala de jantar, do salão, davam-lhe já um toque mais europeu...
Um gerador, movido por um motor a gasóleo, fornecia a energia eléctrica que utilizávamos apenas de noite. O frigorífico era ainda a petróleo, pois a potência não dava para a alimentar.
Rodeada de cafeeiros, com vários arbustos, bananeiras, goiabas e outras árvores tropicais a servir de fronteira, o "meu palácio" era como que a compensação de todo o meu trabalho e de todas as minhas privações...

Nas asas da brisa fresca da manhã vinha até nós o perfume inconfundível da flor dos cafeeiros e o bulício das manhãs tropicais com o clarão vermelho do sol nascente a fazer reluzir as folhas verdes das plantas ainda orvalhadas, é um cenário inesquecível!
Em frente da minha casa havia uma pequena plantação de palmeiras e, muitas vezes, de manhã, quando tomávamos o pequeno-almoço na varanda, bandos de macacos deliciavam-se também comendo os seus frutos.
A casa estava situada no começo da plantação de café e à tarde, depois de se ter feito a pulverização, bandos de aves coalhavam o céu em busca de insectos que fugiam dos insecticidas. Muitas vezes pegava na espingarda, carregava-a com cartuchos de escumilha e era só virar o cano para o ar e disparar sem fazer pontaria. Era uma “chuva” de bicharocos!... Depois, era só grelhá-los e estava pronta a refeição da noite!

Ao lado da casa havia um campo de ténis em terra batida que tinha construído, no qual, aos fins-de-semana, jogava com amigos, belgas, holandeses ou italianos vindos de outras plantações. Algum tempo depois, aquando dos incidentes motivados pela independência, estive em vias de ser preso, acusado de o ter construído para a aterragem de helicópteros dos “comandos belgas”!...

sábado, setembro 26, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - O dia-a dia


Colheita do café

Como já dissemos anteriormente, as Plantações de N'gongo situavam-se na margem direita do Rio Maringa, a montante de Mompono, a sede da área administrativa, e estendiam-se por uma grande extensão de terreno: trezentos hectares de árvores-da-borracha, as seringueiras; cinquenta hectares de palmeiras, uma pequena área de cacau e cem hectares de café. Uma fábrica de extracção de óleo de palma, uma fábrica onde era coagulado o látex e transformado em folhas. Dois enormes secadores com fornalhas a lenha onde essas folhas eram secas antes de serem expedidas para a Bélgica ou para Angola e uma fábrica de descasque de café.
Trezentos e cinquenta homens, grande parte a viver com suas famílias em casas de adobes de terra cozida e cobertas com chapa de zinco e construídas para o efeito, constituíam a mão-de-obra e ocupavam-se dos diversos serviços.
O dia começava cedo para os que trabalhavam na plantação de borracha. A chegada dos "sangradores" (os homens formados para fazer a sangria das árvores) começava cerca das 4 horas da manha. O pessoal convergia para um grande terreiro em frente de uma casa coberta com uma espécie de colmo, o "ndele". Uma hora depois e à luz de uma lanterna Petromax, começava a chamada. As várias equipas constituídas por vinte homens cada, e comandadas por um capataz, entravam na plantação onde cada homem tinha a sua área bem demarcada, contando cerca de 350 árvores que ele tinha de "sangrar" antes que o Sol começasse a aquecer. Isto porque mal a intensidade dos raios do Sol aumentava, logo uma película formada pelo látex coagulava e impedia que a seiva escorresse para o pequeno copo de alumínio, previamente colocado, e preso à árvore por uma cinta de arame.
Se bem que, normalmente, a hora da recolha do líquido estivesse marcada para as dez, era o calor que mandava. Assim, se o Sol "apertasse", a Ngonga (um tronco oco, onde um especialista em transmissões de mensagens batia com duas maçanetas, fazendo chegar o som a quilómetros de distância) dava o sinal convencionado e os "sangradores" começavam a recolher o látex em vasilhas de alumínio que podiam conter cerca de 20 litros. Uma camioneta percorria então as ruas da plantação recolhendo as vasilhas e levando-as para a fábrica. Uma vez ali, o líquido leitoso era despejado em tanques de cimento, onde lhe era adicionada uma determinada quantidade de água. A essa mistura, depois de bem mexida, eram adicionados, numa proporção adequada, alguns cm3 de ácido fórmico que ajudavam a coagulação e a tornavam mais homogénea. Com o auxílio de placas de alumínio e depois da coagulação, as folhas eram retiradas, passadas nas máquinas apropriadas que as achatavam, adelgaçavam e por fim lhes faziam opérculos para facilitar a secagem. Transportadas depois para os secadores, ali permaneciam cerca de 20 dias sendo depois retiradas e embaladas em malotes, segundo a sua classificação: folhas de 1.ª, de 2.ª, de 3,ª e, finalmente os "scrapes" (raspas, pequenos bocados). Finalmente eram expedidas para Leopoldville e dali para os destinos habituais – Luanda, para a Fábrica Imperial de Borracha, ou para a Bélgica.
Os frutos das palmeiras da concessão, juntamente com outros que se compravam aos autóctones num raio de 50 quilómetro eram cozidos e em seguida postos na máquina extractora, obtendo-se, da operação, o óleo de palma. Depois de decantado, era transvazado para tambores de 200 litros e expedido nos barcos para Kinshasa. Com as borras do óleo e soda cáustica fazíamos sabão que se vendia nas diversas cantinas instaladas na plantação e arredores.
Enquanto na plantação de árvores da borracha e de palmeiras, nos limitávamos apenas a substituir as que morriam com plantas novas que possuíamos em viveiros, a do café fomos nós (o meu irmão Alberto também colaborou durante um tempo) que cortámos a floresta, preparámos o terreno e colocámos as plantas na terra!

Secagem do café
Daí que houvesse uma certa tendência para eu gostar mais da plantação do café. Era a minha "obra"! Desbravámos a floresta, por vezes com grande dificuldade, pois tínhamos de fazer uma espécie de estrado acima do solo por não haver, rente ao chão, espaço para fazer circular o serrote... Serrote porque nesse tempo não havia motosserras e era tudo feito a braços com grandes serrotes como os que havia em Portugal antigamente. Fazia-se o estrado a cerca de 4 ou 5 metros de altura onde havia menos vegetação e começava-se o corte. Após a queda da árvore, cortavam-se as outras à volta e assim se procedeu ao longo de meses...
As plantas vieram da Estação Agrícola de Yangambi, um viveiro do Estado onde se iam buscar todas as árvores, já seleccionadas, para plantar. As plantas vinham envasadas e durante muitos dias procedemos à sua plantação. Acompanhei o seu crescimento até que um dia as bagas vermelhas começaram a aparecer – como cerejas pequenas!...
Seguia-se depois a secagem ou não, pois o descasque podia fazer-se quer com elas verdes, quer secas, usando o processo por via húmida ou seca.

Descasque do café
A colheita do café era feita pelo pessoal da plantação, posto a secar e depois de tratado nas máquinas, descascado e escolhido, era enviado, sempre por barco, para Leopoldville e daí li transaccionado e vendido para vários países.
A qualidade que cultivávamos era a “ROBUSTA”, havendo alguns pés de “ARÁBICA” para uso próprio, isto é, como tomávamos café do nosso, fazíamos uma mistura das duas qualidades, obtendo um café excelente!