segunda-feira, agosto 31, 2009

P A U S A S



Como já muitas vezes aqui tenho escrito, somos um povo com uma mentalidade ímpar e com uma filosofia de vida difícil de igualar. Choramingas, trapaceiros, invejosos, fingidos, bazófias, manhosos, todos esses papéis sabemos desempenhar como nenhuma outra raça!
Dizem que somos um povo mandrião, mas isso não é verdade. Se mais não trabalhamos é porque o subsídio de desemprego e outros que tais, asseguram uma vida repimpada, sem que andemos a dar o corpo ao manifesto…Aliás, o que a malta quer é emprego, trabalho não...
Mas como já não bastasse a vida folgada de grande parte dos indígenas cá do rectângulo, acrescentou-se e legalizou-se esse tal “descanso” e pôs-se-lhe o nome de “férias”.
E há uns anos a esta parte, como de um preceito evangélico se tratasse, todos se tornaram cristãos, e adoptaram-no. Não tanto por convicção, mas porque parece ter-se convencionado que quem não fosse para fora, mesmo cá dentro, não era cidadão de corpo inteiro.
E então, mal se cumprimenta o amigo, a pergunta já está na câmara, pronta a disparar: - «Então que tal essas férias?!...»
Se o indígena responde que não, que é coisa que não faz ou que não pode fazer, logo o perguntador, armado em conselheiro, lhe explica a vantagem desses período de lazer: - «Olhe que as férias fazem bem à saúde, ao espírito; faz bem fugir de tudo isto, mudar de ambiente...»
É verdade que não só o corpo como o espírito necessitam de um repouso, de uma paragem, para retemperar forças e arejar ideias. Só que as férias de hoje, em muitos casos, em vez de descontraírem, aumentam ainda mais a tensão do dia-a-dia.
Salvo raras excepções, muitos regressam de férias mais fatigados do que quando foram... Mas como é moda e não se pode ficar atrás do vizinho, haja o que houver, fique o que ficar, haja ou não posses para o fazer, há que "fugir", fazer a trouxa e ir até qualquer parte. De preferência até à praia. As filas, o calor, nada disso conta, pois que férias são férias e é até de bom-tom e confere uma certa importância ir de férias. Há ainda quem goste de "emoldurar o estatuto"e atravesse mares, e rume a lugares paradisíacos e exóticos onde gastam pipas de massa e ingurgitam, toda a espécie de mixórdias, gabando-se depois de terem gozado à farta e de terem comido manjares divinais!...
Apesar de toda esta “má-língua” já devem ter percebido que eu não sou uma excepção à regra e que também vou de férias!
Quando Algarve se escrevia só com um L, costumava ir para a “Praia dos Tomates”, que na altura estava na moda, e era frequentada quase só pelos graúdos. Agora como já tem nome estrangeiro, fico-me pela “Praia dos Nabos”. É mais genuína, mais portuguesa… e mais barata.
Até ao meu regresso «façam o favor de serem felizes», como dizia o nosso saudoso e inesquecível Raul Solnado, que Deus haja…

domingo, agosto 30, 2009

MARCAS



No interior daqueles que chegaram a homens sem nunca terem sido meninos, há marcas do passado que jamais se diluirão e que acabam, mais tarde, por servir de lenitivo, de compensação e até de refúgio, sejam quais forem os sobressaltos e os desencontros das nossas vidas. Por mais que queiramos não conseguimos nunca apagar esses traços, essas pegadas que marcaram o começo da nossa existência.
Há sempre um episódio que perdura eternamente – uma vontade insatisfeita, uma aspiração que realizámos, um castigo injusto, uma paixão infantil, um sonho que se desfez e muitas esperanças também!
E é quando a caminhada já vai longa, quando a intensidade das paixões diminuiu, quando as horas deixaram de nos escravizar e as modernas encruzilhadas da vida nos confundem, é então que procuramos o tal refúgio. E nele reflectimos, meditamos, analisamos e, quase sem querer, voltamos atrás e recordamos...
E é nesses momentos mágicos, quando o silêncio impera e refreia o pensamento, que a imaginação, à rédea solta, viaja no tempo, segue as pegadas e perde-se no sótão poeirento das nossas memórias...
Mas nem sempre o reencontro com o passado é pacífico. A vida não volta à infância e muitas vezes as lutas que interiormente travamos por querermos adaptar a aiveca do arado à moderna charrua do tractor, só nos trazem desgostos e frustrações. São lutas inglórias...
É que a diferença entre os marcos de pedra do passado e as balizas electrónicas do presente é abismal. Incomensurável!...
Protagonista dessas pelejas, muitas vezes, mesmo antes de começar, deponho as armas, tão diferentes se me afiguram os métodos do combate e as armas do "inimigo"!
Ademais, não se pode parar o tempo. Temos de viver uns com os outros e é difícil escapar às atmosferas sociais do tempo que passa. Sem renunciar ao passado, tento ser homem do presente. Mas sempre com a aldeia de antigamente a pular-me no coração. Aquela aldeia de olhos postos em Deus, em que se fechava um negócio com um aperto de mão e uma palavra de honra. Foi nesse mundo que me fiz homem, que aprendi a partilhar, que aprendi a cumprir a doutrina da solidariedade, do respeito mútuo, da lei da honra. Ali interiorizei para sempre o valor da amizade e a cultura dos princípios da moral sem necessidade de folhear volumosos livros nem estudar complicados tratados de filosofia política ou outra.
Diz-se que a maior parte dos velhos vive de recordações. É natural que assim seja, pois quando já não se pode conservar a alegria da infância e a embarcação começa a desmantelar-se de tanta tempestade ter enfrentado, há que construir outra... Uma espécie de jangada feita com os pedaços mais resistentes que escaparam do naufrágio e vogam ao sabor das ondas traiçoeiras deste mar imenso que é a vida.

segunda-feira, agosto 24, 2009

OS MISSIONÁRIOS DA "MILL HILL" EM BASANKUSU



A Diocese de Basankusu foi criada em 28 de Julho de 1926 pelos missionários de Mill Hill, oficialmente denominada Sociedade Católica “São José para as Missões Estrangeiras”.
Era uma congregação de missionários, sacerdotes e leigos, que se dedicavam à propagação do Evangelho entre os povos não evangelizados.
Foi fundada em 1866 em Mill Hill, no noroeste de Londres, por H. Vaughan que desempenhou um papel importante no Uganda em 1894 quando se tornou um protectorado britânico.
Esta congregação espalhou-se por toda a África, sobretudo no ex-Congo Belga na província do Equador, situada a noroeste do país, confinando a noroeste com a República do Congo Brazaville, a oeste com a República Centro Africana. A capital da província do Equador é Mbandaka, ex – Coquilhatville.
Em Basankusu ergueram uma catedral da qual falarei mais à frente…

segunda-feira, agosto 17, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - A partida





A PARTIDA NO NAVIO MISTO “AMBOIM”

O Congo belga, na década de 1950, mercê do seu desenvolvimento devido à exportação dos seus produtos – marfim, borracha, café, cacau, óleo de palma, diamantes, cobre, cobalto, zinco, estanho, ouro, madeiras e outros produtos, era um dos países da África tropical com o mais elevado nível de vida.
A sua população, constituída por bantos, sudaneses, pigmeus e cerca de 200 grupos étnicos, na sua maioria pertencentes a crenças animistas, além de numerosos católicos e protestantes, rondava os 34 milhões e espalhava-se por uma superfície de cerca de 2.345.000 Km2.
Nessa altura o país gozava de uma tranquilidade absoluta e até 1959, podia viajar-se por todo o território, quer através de "estradas" de terra batida bem conservadas, transpondo pontes construídas em madeira, atravessando rios por intermédio de jangadas, quer pelos barcos da Otraco (Office des Transports Congolais) que chegavam aos sítios mais importantes, ou por avião. Não existia qualquer hostilidade para com o viajante e as populações autóctones recebiam-nos sempre com bastante carinho e alegria.
A bordo do navio misto Amboím, deixei Lisboa, numa tarde triste de Outubro. Rumámos ao porto de Leixões onde passámos uma noite com o mar tão agitado que não consegui pregar olho.
Partimos um dia depois, e durante 20 dias, até Luanda, não vimos terra! A bordo, quase todos os passageiros faziam a sua primeira viagem por mar. E, consequentemente, poucos foram os que não "deitarem a carga ao mar".
O apetite era pouco e a comida também não era famosa. Foi, pois, com grande alegria que acostámos ao porto de Luanda, onde me esperava o Duarte que fazia a tropa num quartel da capital angolana. Abracei-o com alegria, pois crescemos juntos, brincámos juntos, fizemos diabruras juntos e, além disso, éramos primos.
Desde que tinha saído de Lisboa, não mais tinha comido refeição que me soubesse! Por isso no dia do desembarque, na messe dos oficiais, para onde o Duarte me tinha convidado, o almoço foi divinal! Um ágape de deuses!... Foi a primeira vez que comi papaia! Que adorei...
Depois de ter passado alguns dias em Luanda à espera do dia em que o avião que fazia a ligação Luanda-Leopoldville chegasse, lá embarquei rumo à capital do Congo belga – Kinshasa.
No mesmo voo seguia Fernando Curado Ribeiro, que ia tomar conta dos programas em português emitidos então pela Rádio da capital. Recordo-me que trocámos impressões sobre várias coisas, mas o que mais nos preocupava eram os mosquitos!...
Nessa época, a febre da malária era muito temida e todos receavam a picada do famigerado mosquito anófele.
Recordo que nesse tempo todas as camas eram cobertas com um mosquiteiro para evitar os seus "ataques" nocturnos.
O avião aterrou no antigo aeródromo de Ndolo quase dentro da cidade. Ali me esperavam dois sócios da Companhia que me tinha contratado – a Macodibe.
Publicado no Jornal de Tondela, Edição 910 de 25-9-2008

domingo, agosto 16, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - Explicação aos leitores





A respeito das notas que temos vindo a publicar sobre África e porque convém conhecer, ainda que resumidamente, esse território africano de que se fala, segue-se um pequeno texto assinado por Elisée Bj’elongo e publicado em Esperanto na Revista holandesa “Kontakto”e traduzido pelo Clube de Esperanto de Campos (Brasil) sob o título “Como nasceu a República Democrática do Congo”:
«Tudo teve início no começo do século XIX, quando o mundo começou a interessar-se pela África. Por volta de 1850 o Congo independente atraiu o interesse de povos da raça branca, principalmente alemães, que vieram à procura de minerais e para fins comerciais. Durante a Conferência de Berlim em 1884/1885 o Congo foi doado à Bélgica, que explorou o país como quis. Os cidadãos deviam trabalhar à força. Pouco a pouco a coisa tomou outro rumo. O Congo tornou-se propriedade do rei Leopoldo II. Ele apropriou-se do Ruanda-Urundonusumburam, que veio a ser posteriormente Ruanda e Burundi. Essas duas últimas dependeram, principalmente, da cidade de Leopoldo (actual Kinshasa), para sua administração. Quanto mais a cidade de Leopoldo prosperava, mais o rei Leopoldo enriquecia. Felizmente, ele era muito trabalhador e construiu muitas cidades bonitas. A cidade de Leopoldo tornou-se uma das maiores e mais bonitas cidades da África daquela época. Construíram-se não só muitos apartamentos para missionários, mas também muitas escolas primárias e secundárias.
Como aconteceu a Independência
Até aos anos 50 do século XX o Congo tinha muitos intelectuais que se interessavam pela política do território. Emery Patrice Lumumba tornou-se primeiro-ministro do primeiro governo independente, cujo presidente era Joseph Kasavubu. Este último, também militar graduado, foi usado pelos brancos enquanto Lumumba lutava ao lado do partido MNC (Movimento Nacional Congolês) pregando o africanismo e exigindo a independência do país. Fundaram-se alguns outros partidos, como por exemplo, o ABACO. Entre outras coisas e pela acção desse famoso cidadão os brancos decidiram, finalmente, libertar o Congo. A 30 de Junho de 1960, foi proclamada a independência do país, que, posteriormente, foi denominado República Democrática do Congo.»
Os acontecimentos e relatos que têm vindo a ser publicados dizem respeito ao espaço compreendido entre 1950 e 1980, data a que deixamos aquele País africano. Embora já o tenhamos feito anteriormente, para uma melhor compreensão, socorremo-nos de notas colhidas em várias fontes, nomeadamente na Wilkipedia.
A região é ocupada na antiguidade por bantos da África Oriental e povos do rio Nilo, que ali fundam os reinos de Baluba e do Congo. Em 1878, o explorador Henry Stanley funda entrepostos comerciais no rio Congo, sob ordem do rei belga Leopoldo II. Na Conferência de Berlim, em 1885, que divide a África entre as potências europeias, Leopoldo II recebe o território como possessão pessoal. Em 1908, o Estado Livre do Congo deixa de ser propriedade da Coroa e torna-se colónia da Bélgica, chamada Congo Belga.
O movimento nacionalista tem início nos anos 50 sob liderança de Patrice Lumumba. Em 30 de Junho de 1960, o Congo conquista a independência com o nome de República do Congo – em 1964 é acrescentado o adjectivo "democrática". Lumumba assume o cargo de primeiro-ministro e Joseph Kasavubu, a Presidência. A maioria dos colonos europeus deixa o país. Em Julho de 1960 eclode uma rebelião contra Lumumba, liderada por Moïse Tshombe. Antes do final do ano, Kasavubu afasta Lumumba do cargo de primeiro-ministro num golpe de Estado. Lumumba é sequestrado e assassinado em Janeiro de 1961. Tropas de diversos países (incluindo o Brasil) são enviadas pela ONU para restabelecer a ordem, o que ocorre em 1963, com a fuga de Tshombe. As tropas da ONU retiram-se em Junho de 1964. Dias depois ocorre uma reviravolta: Tshombe regressa e assume a presidência com apoio da Bélgica e dos EUA. Em Novembro de 1965, ele é derrubado num golpe liderado por Mobutu Joseph Désiré.
Mobutu estabelece uma ditadura personalista, tornando o país um estratégico aliado das potências capitalistas na África. No início dos anos 70 lança sua política de "africanização", proibindo nomes ocidentais e cristãos. Como parte da campanha, muda em 1971 o nome do país para Zaire e da capital para Kinshasa (ex-Leopoldville). Ele próprio passa a se chamar Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu wa za Banga, que significa "o todo-poderoso guerreiro que, por sua resistência e inabalável vontade de vencer, vai de conquista em conquista.".
(Excerto do meu caderno “A minha África”)
Publicado no Jornal de Tondela – Edição 909 de 18-9-2008

sábado, agosto 15, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - A chegada do barco





A primeira coisa a retirar era o saco do correio. As notícias da terra distante: as cartas (quando vinham...) e os jornais e revistas que embora com atraso (às vezes de um mês!) vinham matar saudades e dizer-nos o que se passava pelo mundo. Era depois a vez de ir espreitar os géneros alimentícios que nos tinham mandado da Sede em Basankusu. Tudo enlatado: bacalhau em embalagens zincadas; farinha em tambores herméticos; latas de leite em pó; latas de várias conservas, sobretudo sardinhas portuguesas; batatas do Kivu numa espécie de cestos que faziam lembrar as folhas da piteira; garrafões de vinho português (nessa altura com a marca "Ródão") e também garrafas de cerveja, de origem belga ou holandesa e que vinham acondicionadas em caixas de madeira que continham 48 garrafas de 75 cl. Era a cerveja que nos refrescava "acudia" ao calor dos trópicos. Bebia-se muita e, muitas vezes, porque matava mais a sede, acompanhava a refeição. O uísque era uma bebida pouco usada no interior e, geralmente, só se bebia à noite após a última refeição.
Procedia-se depois à descarga da restante mercadoria e outros produtos empregados nas várias fabricações: tambores de 200 quilos de soda cáustica, garrafões de 50 litros de ácido fórmico, sacos de cimento, chapas de zinco, etc., etc.
O barco continuava depois a subida até ao seu último porto. Três dias depois voltava novamente para carregar os produtos destinados a consumo do país ou à exportação.
Muitas vezes, sobretudo quando as águas começavam a baixar a estadia do barco era abreviada e o carregamento tinha de ser feito de noite.
Com a caldeira sempre à pressão para fazer mover o gerador cujo holofote, de que já falei, iluminava a margem onde se desenrolavam os trabalhos com vista ao carregamento das barcaças, era grande a azáfama e, muitas vezes chegávamos a casa e só tinha tempo de tomar um duche antes de fazer a chamada do pessoal da extracção da borracha, que tinha lugar entre as 4 e 4 e meia da manhã. Houve um tempo em que o encarregado do sector comercial a residir temporariamente no N'gongo, o Grilo, me acompanhou nessas andanças e era quando acabávamos o carregamento ou descarregamento que levávamos uma garrafa de uísque quase até ao fim!...
Por tudo isso, o barco desempenhava papel importante na existência de todos aqueles que viviam no interior do Congo, um pouco isolados do Mundo. Entre 1950 e 1960, os comandantes dos barcos, todos eles de nacionalidade congolesa e formados por belgas, eram muito competentes e desempenhavam a sua missão com muito saber e honestidade.
Muitas vezes pedi a esses homens que me comprassem e trouxessem da capital livros ou outras coisas de que necessitava e eles sempre o fizeram sem reservas e com desinteresse, exprimindo sempre o seu contentamento por nos serem úteis!
Esqueci os seus nomes mas, pelo menos com dois deles, muitas vezes conversei acerca do futuro do país. Juntos, partilhávamos as mesmas dúvidas quanto à sua independência...
Excerto do caderno “A minha África”
Publicado no J. T. Edição n.º 907 de 04 de Setembro de 2008

sexta-feira, agosto 14, 2009

RECORDAÇÕES DE ÁFRICA - As ligações com o Mundo



Nos meus primeiros tempos de África, entre 1950 e 1953, o único traço de união com o Mundo era o barco da Otraco (Office des Transports Congolais) que, de quinze em quinze dias, fazia o percurso entre Leopoldville e Befori, local até onde o Maringa era navegável.
O barco saia de Leopoldville, escalava vários portos fluviais, entre eles Coquilhatville, Basankusu, Baringa, Samba, Ekukula, Mompono, Ngongo, seguindo depois para Befori.
Era por barco que recebíamos tudo: mercadorias, diversos produtos, alimentação e... correio! Pode imaginar-se, pois, a alegria com que esperávamos o barco. Muitas vezes ele chegava de noite, e se ouvíamos a sirene, era difícil conciliar mais o sono até de manhã, ansiosos que estávamos para saber notícias.
Importa dizer que os barcos eram movidos a vapor e em vez de hélices eram impulsionados por uma espécie de dobadoira feita de tábuas. Moviam-se lentamente e demoravam mais tempo a chegar pois navegavam contra a corrente que era forte. Todos os barcos possuíam dois quartos para passageiros com casas de banho e uma pequena sala. Quem neles viajava tinha que levar mantimentos para a viagem. Um cozinheiro do barco fazia a comida.
Tive ocasião de viajar num deles de N'gongo até Basankusu com minha mulher que se dirigia ao hospital de Basankusu para o nascimento do meu primeiro filho, o Jorge. Foi uma viagem de três dias. De noite e apesar de os barcos terem um gerador e um potente holofote que se acendia logo que começasse a fazer escuro, a navegação não era aconselhada. Então o comandante, um congolês, já com prática e conhecimento do trajecto, fazia a navegação de maneira a que chegássemos a um porto fluvial ao lusco-fusco e o barco ali permanecia durante a noite.
Atreladas ao barco havia duas enormes barcaças onde eram acondicionados os produtos com destino a Leopoldville: borracha, óleo de palma, coconote, café, cacau, copal, etc.
Por vezes, durante a noite acontecia que não conseguíamos dormir motivado pelo barulho dos habitantes das aldeias próximas, que vinham ao barco comprar diversas bugigangas e beber cerveja ou as bebidas tradicionais – o "lotoko", uma espécie de aguardente fortíssima feita a partir da fermentação do milho ou o vinho de palma, obtido através da fermentação do suco da palmeira.
A tripulação do barco fazia também comércio com artigos que traziam da capital e que constituíam novidade para as populações do interior: relógios, espelhos, isqueiros, tecidos, etc. etc.
A viagem no barco durante o dia era encantadora. A paisagem nas margens mudava constantemente e, além de várias aves, entre as quais papagaios, patos, galinholas, os macacos, com as suas piruetas nas árvores que bordejavam o rio, constituíam um espectáculo deslumbrante!
Algumas vezes avistavam-se crocodilos refastelados ao sol nos bancos de areia aqui e ali. Mas voltando à chegada do barco, ela constituía o único acontecimento que vinha quebrar a rotina dos dias que eram sempre iguais.
(Excerto do caderno “A minha África”)
Publicado no J.T. n.º 906 de 28 Agosto 2008

quarta-feira, agosto 12, 2009

OS FILHOS DA "CUNHA"


Os filhos da cunha
Os filhos da cunha são, geralmente, mal preparados, mandriões, e vaidosos. E mesmo quando protegidos por um “canudo” à guisa de bóia de salvação, nem assim conseguem flutuar e disfarçar a sua incompetência.
Os filhos da cunha têm acesso aos tachos mercê da influência de um amigo, de um compadre, de um condiscípulo ou até mesmo da amásia de um primo do presidente ou do director-geral.
Raramente entram por dinheiro, mas a sua entrada fica registada e mais tarde pode ser-lhes pedida uma contrapartida que varia conforme o sexo.
Os filhos da cunha vivem bem, não têm preocupações, dormem a sono solto, não têm necessidade de contar as moedas pretas e, no fim do mês, recebem um salário que não merecem, mas que lhes é devido pelo seu estatuto de funcionários do “Instituto da Cunha”.
Têm gabinete próprio, uma extensão telefónica, uma mesa a abarrotar de papéis que uma filha da cunha lhes traz diariamente. Mas que não consultam… Ali ficam até que os interessados os reclamem. Quando não, catrapus, lixo com eles!...
Os filhos da cunha têm um estatuto próprio e o seu protector ou protectora asseguram-lhes uma impunidade absoluta. Geralmente não entram em conflitos, não trabalham, mas também não têm opinião.
Os filhos da cunha são subservientes e bajuladores na presença do protector, mas críticos e mal-agradecidos na sua ausência.
Os filhos da cunha são, regra geral, adeptos de um clube de futebol da primeira divisão, mas em ambiente desconhecido nunca denunciam, por questões que lhes foram impostas, a sua verdadeira cor clubística – é de bom-tom agradar a gregos e troianos e nunca provocar discussões que conduzam a indagações sobre a maneira como entraram para a Instituição.
Os filhos da cunha, no capítulo da política, usam o método camaleónico: mudam de cor conforme mudam as ideologias – dizem com todos, quer seja com os que estão no Governo, quer com os que lhes fazem oposição. E é por isso que, geralmente, sobrevivem a todas as mudanças de regime embrulhados nas suas capas furta-cores.
Os filhos da cunha não são, no entanto, todos iguais. Uns são mais espertos do que outros. Enquanto uns se acomodam e se contentam com o lugar e vencimento que têm, outros tentam voar mais alto e chegam a atingir grandes altitudes….
Os filhos da cunha são cada vez mais e encontram-se por todo o lado, mas em maior número nas grandes empresas, nas autarquias, nos hospitais, nas direcções-gerais e até mesmo nos ministérios.
É uma “praga” difícil de exterminar, porque muitos deles, entretanto, vão procriando e, assim, os filhos da cunha nunca acabam…
















O EMIGRANTE...



Sosseguem os leitores que não vou falar do homem nu que numa das rotundas de Tondela simboliza o Emigrante. Nada disso...
Vou falar, isso sim, dum homem bem vestido, bem cuidado, bem-falante, bem acomodado na vida, e um contador de anedotas que não deve ter rival cá no rectângulo.
Sempre gostei muito de anedotas, mas com uma preferência especial para aquelas que se referem a alguns políticos.
Aliás, os políticos a que me refiro, são já em si uma anedota, pois qualquer dicionário nos diz que ela (a anedota) é a narração rápida dum facto jocoso ou uma particularidade divertida ou imaginária.
E eles (os tais políticos) não passam disso mesmo: são tão divertidos e, sobretudo, tão imaginativos que constroem um mundo à sua medida e maneira, e julgam-se os seus donos e senhores.
Vaidosos e narcisistas é vê-los e ouvi-los a arengar as multidões contando estórias do arco-da-velha...
Nesta espécie de pré campanha para as presidenciais – que até agora se tem centrado mais em ataques pessoais do que na preocupação de salvaguardar o futuro de Portugal – tenho ouvido várias anedotas e historietas, mas a que serviu de mote para esta minha divagação de hoje foi aquela em que o Dr. Soares, numa das suas rondas pelo país e interpelado por um emigrante disse ter sido também, ele, emigrante!...
Não disse onde nem o que fazia, nem se foi a salto ou se partiu apenas com uma mala em cartão.
E também não explicou a razão ou o motivo que o levou a “apoderar-se” de uma palavra cujo significado nada tem a ver com o seu exílio dourado em Paris, se foi esse o intuito que parece ter transparecido da sua afirmação.
Para muitos, o caso pode não ter grande importância. No entanto, para os verdadeiros emigrantes, para aqueles que emigraram por necessidade, que emigraram em busca de melhores dias, que trabalharam duramente para depois regressar e construir casa, e sobretudo para os que depois de muito trabalho dor e sofrimento, perderam tudo, para esses, as palavras do candidato à presidência foram deveras infelizes. E inoportunas…
Por mais sábio que se seja, há coisas com que se não deve brincar – os sentimentos dos nossos semelhantes.
Pessoalmente não gostei que o Dr. Mário Soares usurpasse a palavra. Não gostei da comparação. Talvez não tivesse a mesma reacção se fosse outro político a fazê-lo. Mas dita por ele…
Lembram-se do homem que disse que todos tínhamos o direito à indignação?!...

CARTAS SEM "SÊ-LO"...



Meu Caro Mário Alberto:

Permita-me que o trate assim. Familiarmente. Apesar de não termos andado juntos na escola somos aproximadamente da mesma idade. Penso que tal facto me autoriza a usar esse tratamento.
Resolvi escrever-lhe porque como o senhor disse uma vez “as pessoas têm direito à indignação”. E eu estou indignado com o que têm dito a seu respeito.
Então lá porque o bilhete de identidade está desbotado e as letras começam a sumir-se é caso para nos colocarem no sótão onde só temos por companhia o pó e as teias de aranha?
Anda um homem durante uma vida inteira a fugir das bruxas, a lutar pelo bem dos outros, a libertar os oprimidos, a viajar, a dar conferências pelo mundo fora, a dar lições de austeridade e aulas de política e de repente, querem que calcemos as pantufas e que de charuto na boca deixemos correr o marfim?
Isso é que era bom! Tá bem, tá!...
Por tudo isso, meu caro Mário, apesar de não jogarmos no mesmo clube sinto-me no dever de nesta altura do “campeonato” lhe manifestar a minha solidariedade, porque acho muito bem que prove que a “Brigada do Reumático” a que pertencemos, tem ainda muito para dar.
Andam por aí esses rapazotes a fazer asneiras e nós, os mais idosos e mais fixes, lá porque nos cresceu a barriga e os pés nos pesam, vamos deixar que eles continuem a esvaziar os cofres e a dar com tudo isto em pantanas?!...
Não queriam eles mais nada! A continuar este regabofe e com estes recrutas a esbanjarem tanto, onde iríamos buscar dinheiro para que os “nossos ex-qualquer coisa”continuassem a receber as chorudas reformas e a manter o seus “estatutos” de nababos?
Também o quero felicitar pelo seu sentido de antecipação e ter escavacado e feito em fanicos, alegremente, alguns dos seus compagnons de route e não só…Mas nisso eu duvido que não tivesse havido uma manobra de diversão e até uma certa marosca. Mas adiante!...
Nestas coisas da política conta mais o oportunismo do que propriamente a razão. E também conta muito a aventura!...
E a propósito de aventuras tenho lido quase tudo o que têm escrito a seu respeito e já ouvi até quem encontrasse alguma semelhança entre a sua corrida e alguns episódios do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha nomeadamente aquele do encontro com os dois “exércitos de ovelhas” que afinal não passavam de dois inofensivos rebanhos de caprinos, mas que mesmos assim foi sovado pelos seus pastores…
Enfim, factos que traduzem bem a inveja daqueles que a gente sabe… Mas isso não conta. Mesmo o Sancho, aquele do conto, do “Quadrado” é trova que o vento leva.
Continue a correr e se não ganhar o primeiro lugar no pódio, pode gabar-se de ter dado uma lição a esses fils à papa novatos e imberbes que andam por aí a fazer de contas que são políticos.
Sim, porque para dizer a verdade, continuamos a viver numa espécie de situacionismo anterior a 1974, embora o disfarcemos com pretensas reviravoltas. Eu pelo meu lado ainda não consegui ver nenhuma revolução moral ou cultural.
O que tenho visto é sempre a mesma coisa: o recrudescimento cada vez maior dos vira-casacas e dos oportunistas.
Consigo, e à terceira, será que isto muda como diz o provérbio?!...
Não voto em si, porque como acima disse, não somos do mesmo clube. Mas pode contar com a minha simpatia, porque fiquei contente por saber que, como eu, há outros velhotes que continuam a ter sonhos lindos…
Publicado no Jornal de Tondela em 03 de Agosto de 2005

CARTAS SEM "SÊ-LO"...



Senhor Governador:
Na impossibilidade de o fazer pessoalmente, porque V. Exa. não iria querer perder o seu precioso tempo com o Zé-ninguém que sou, e também porque apesar de se chamar Constâncio é, no meu entender, uma pessoa bastante “inconstante”, portanto difícil de saber em que “onda” está, resolvi enviar-lhe esta carta.
Sei de antemão que não se dará ao trabalho de a ler, mas o simples facto de a escrever, de extravasar o que me vai na alma, são como que uma espécie de lenitivo, um desabafo para esta mágoa que sinto ao ver desmoronar-se o Portugal que também ajudei a edificar e só Deus sabe com que sacrifícios!
Depois, senhor Governador, cheguei a um ponto que não sei em quem acreditar…
Será que os boateiros (o senhor incluído) têm razão quando dizem que isto de finanças vai mal, ou pelo contrário nadamos num “mar de rosas”, num mar de dinheiro, em que “uns tantos” se podem dar ao luxo de o gastar à tripa forra?
Este aperto do cinto, este sufoco em que a maior parte dos portugueses vive não será a consequência das vossas leviandades, das vossas faltas de escrúpulos, da vossa vaidade, da vossa incompetência e da vossa irresponsabilidade?
A ser verdade o que li nos jornais, admite-se que em ano e meio o Banco de Portugal tenha gasto com a frota de automóveis a quantia de 1,2 milhões de euros?
Será admissível que uma Instituição que deveria dar o exemplo de contenção desbarate tanto dinheiro com popós topo de gama, das mais variadas marcas e com os mais refinados extras para satisfazer a vaidade dos funcionários?
E é honesto também que passados três anos essas viaturas, de elevado preço possam ser adquiridas pelo seu utilizador apenas por dez por cento do custo inicial?!...
Apesar do meu calhambeque ser já do século passado, não foi a inveja que me levou a escrever.
Foi a revolta, a raiva e o desespero ao ver este velho Portugal a afundar-se devido a um punhado de sabotadores que não cessam de lhe fazer buracos no casco, sem que ninguém, com os pés bem assentes na terra, tenha coragem para estancar esta espécie de “hemorragia programada”!
Todos os dias e de todos os sectores o sangue jorra... É uma sangria constante. E ninguém acode ao moribundo. Pelo contrário. Todos tentam sugar até à última gota!
No Parlamento, na altura da apresentação do relatório anual do Banco de Portugal ao ser questionado acerca de ordenados da administração e quando respondeu dizendo «que trazer aspectos pessoais para a discussão seria ter uma visão errado do país», logo deu para ver que o significado do país a que se referiu não era Portugal, mas apenas e só o vosso país, o pais dos vossos interesses pessoais!
Bem sei que não é só nessa Instituição que há “atentados” à pobreza em que o dinheiro deitado pela porta fora, mataria a fome a muita gente. E o que ainda mais me revolta é que não tenho conhecimento de que nenhum desses senhores que quase todos os dias vêm à Televisão dizer que é preciso apertar o cinto, tenha dado o exemplo, prescindindo, em favor dos pobres, de parte do supérfluo que lhe entra pela porta dentro sem grande esforço.
O que digo nesta carta é o que muitos pensam, mas não ousam dizê-lo. Uns, por causa dos seus “rabos-de-palha”, outros porque poderiam prejudicar o filho, a filha, a nora, o genro, o neto, o compadre, eu sei lá que mais, que comem do mesmo gamelão.
E é por isso que há uns tempos a esta parte se têm vindo a formar, paralelamente, duas classes distintas, uma e outra a posicionarem-se nos dois extremos. Se folhearmos a História encontraremos casos semelhantes. Como alguém disse num discurso dos findos de 1832: “Na economia pública um povo não é feliz, ou desgraçado, na razão do muito que paga, mas sim na razão do bom ou mau uso que se faz do seu dinheiro…»
Publicado no Jornal de Tondela em 21-7-2005

CARTAS SEM "SÊ-LO"...



Senhor Professor:

Já uma vez me referi a V. Exa. aquando da inauguração, em Guimarães, da estátua do nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques.
Lembro-me de que na altura – e a propósito de o povo ter acusado Mestre Cutileiro de ter feito “um busto estilizado e não figurativo de um ser humano com uma espada e um escudo” –, fiquei admirado por não terem consultado o Professor, pois como seu biógrafo poderia dar uma ideia sobre as “parecenças” do Fundador.
Descrevi eu então o Professor como um homem multifacetado, polivalente e furta-cores.
Este episódio situa-se em meados de 2001, mas já nessa altura, mesmo que o tivesse adjectivado com o “furta-cores”, nunca pensei que as suas qualidades miméticas fossem assim tão poderosas.
É obra, Professor!...
Mudar de cor tão facilmente e com tanta descontracção, é façanha que não lembraria ao mais prestigiado e ousado camaleão! Mas “Ousar” faz também parte do seu curriculum, já que prefaciou o livro com o mesmo nome da autoria de Garcia Pereira do PCTP-MRPP. Nos primórdios do CDS acompanhei-o e assisti algumas vezes aos seus comícios que eram sempre baseados na democracia cristã – o alicerce do Partido que fundou.
E quem diria então, senhor Professor, que com esse peso e num movimento tão subtil e descontraído, conseguiria dar tamanho salto e mudar-se com armas e bagagem para o lado oposto da barricada?!...
Depois de ter abandonado sem quaisquer escrúpulos, morais ou políticos o Partido que fundou – e naquela sua outra cambalhota na corrida com Mário Soares para Belém, – parece que estou ainda a ver e a ouvi-lo exclamar, que quem não votasse em si era a mesma coisa que votar nos vermelhos!
Que desconcertante e incompreensível é toda esta série de mudança de convicções e de metamorfoses, Professor!
Talvez compreendesse esse mimetismo e essa facilidade de mudar de ideologia e de cor se se tratasse de um jovem ainda com a personalidade em fase de amadurecimento, perdido nesta barafunda de interesses, de vaidades e de ganâncias.
Agora que isso aconteça com uma personalidade que já ocupou altos cargos, inclusive, num Organismo internacional, confesso que nem com sais de frutas consigo “digerir” tão insólito procedimento.
É pena não haver na política uma espécie de “Olimpíadas” circenses onde fossem atribuídas medalhas de ouro aos melhores e mais meritórios e consagrados artistas – aos engolidores de espadas, aos acrobatas, aos contorcionistas, aos equilibristas, aos faquires, aos palhaços…
É pena, dizia eu, pois não faltariam concorrentes e o professor com certeza que não sairia do chapiteau com as mãos a abanar… Talvez até saísse com uma medalha de cada modalidade, quem sabe?!...
Mas falando agora mais a sério, Professor, entristece-me o facto de em cada dia que passa se avolumarem cada vez mais as minhas dúvidas quanto à reposição, no nosso Portugal, da lei da honra tradicional, viril e desinteressada, criadora de homens de um só rosto e de um só parecer, de antes quebrar que torcer…
Um País sem homens de carácter, sem ideal, e dominados apenas pela sede do lucro ou do protagonismo, não pode ter longa vida. Poderá até morrer. E com homens da sua estirpe, não faltarão coveiros para o enterrar.
P.S. Acabam de me informar de que foi nomeado para nos representar no estrangeiro. Um prémio pela cambalhota julgo eu. Será que agora, no novo posto, irá finalmente manter-se firme e hirto ou irá continuar as piruetas até “ousar” atingir o outro extremo?!...
Prudência Professor, pois como diz o ditado, o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro….
Publicado no Jornal de Tondela em 06 DE Março de 2005

quinta-feira, agosto 06, 2009

INJUSTIÇAS

Numa notícia publicada na Imprensa de 27 de Julho, passado, podia ler-se que três administradores executivos de uma empresa pública, a Parpública, responsável pela gestão do universo empresarial do Estado, foram contemplados com prémios de gestão referentes ao ano de 2007, no valor de 176,5 mil euros.
Por sete meses de trabalho o Sr. Pires – o presidente – teria recebido um prémio extra de 67.896 euros, enquanto que os senhores Albuquerque e Castel-Branco, foram “recompensados” com a bonita soma de 54.317 euros!
Acrescenta a notícia que a Parpública, que tinha apresentado em 2006 um lucro de 638 milhões de euros, em 2007, não foi além dos162 milhões. Pudera. É que o dinheirinho não é elástico. E com benesses dessa natureza e com outras que, com certeza, se lhes juntaram, não admira que os lucros encolhessem!
Mas lá que vale a pena ser gestor de uma empresa pública, lá isso vale!
E bem vistas as coisas não é preciso saber muita coisa, nem ser craque em matemática para ocupar um desses lugares de excelência. Nada disso. Se a passagem pelo elenco governativo é, muitas vezes, um trampolim para ocupar esse cargo, noutras basta uma cunhazita do ministro, de uma pessoa da sua família ou de um simples cartão da cor do “clube” para ter acesso a esses privilegiados lugares.
Também é necessário ter um coração especial, não ter grandes escrúpulos, nem ouvir muito a voz da consciência e não dar muita importância a essa gentinha que teima em viver com umas miseráveis centenas de euros por mês!
Os problemas desses milhões de gente anónima que trabalhou uma vida inteira, que nunca gozou férias, que enfrentou as inclemências da Natureza, que sobreviveu às ciladas da vida, que comeu o pão que o diabo amassou, não constam do imaginário desses senhores a quem nada falta, que nada fazem, que vivem de benesses e sempre protegidos e acoitados sob a manta do Governo.
Não admira, por isso, e no caso que nos ocupa, que o ministro das Finanças e da Economia, Sr. Teixeira dos Santos tivesse vindo em defesa dos “sortudos”, argumentando que “se o prémio lhes foi atribuído, é porque eles cumpriram as funções para que foram contratados, cumprindo os objectivos que estavam definidos no contrato. O Estado é uma pessoa de bem e respeita os contratos que celebra.”
Com o desemprego a aumentar, a pobreza a disparar, a recessão a espreitar, argumentos como estes põem a nu, de forma inequívoca, os sentimentos morais e solidários das gentes que nos governam!
Tais prémios ou regalias além do escândalo que representam são um insulto, uma ofensa grave, para àqueles que são obrigados a viver com duas ou três centenas de euros por mês.

sábado, agosto 01, 2009

QUEM FOI D. JOSÉ MANUEL DE CARVALHO?




D. José Manuel de Carvalho nasceu no Tourigo em 16 de Setembro de 1844. Fez o curso do Seminário em Viseu, onde se ordenou. Frequentou depois a Universidade de Coimbra onde se formou em direito. Em Viseu foi professor no Liceu e deu aulas de teologia no Seminário. Apresentado para o Bispado de Macau em 4 de Fevereiro de 1897, recebeu a confirmação papal em 19 de Abril e em 29 de Agosto embarcou para desempenhar o seu cargo na diocese de Macau-Timor.
Por motivo de saúde foi transferido para Angra em 1901, tomando posse da diocese em 1902.
Um dos últimos actos deste prelado foi uma provisão sobre o quinquagésimo aniversário da proclamação dogmática da Imaculada Conceição em 28-11-1904. Esse Ano Jubilar foi condignamente celebrado em 8 de Dezembro desse ano.
Em 24 de Fevereiro de 1904, faleceu repentinamente. Teve um funeral solene com a participação de uma força militar que deu as descargas do estilo, acompanhadas pelo troar das salvas da artilharia do Castelo de S. João Baptista.
Recorde-se que seu sobrinho, o Cónego Maximino Viegas de Matos Carvalho, foi seu secretário particular e seu testamenteiro. A propósito, diz-se que já D. José Manuel Carvalho sonhava com a criação da Freguesia de Tourigo e teria pedido a seu sobrinho que ajudasse na construção de uma Igreja e um cemitério para que esse sonho se pudesse concretizar.
Um outro pedido de D. José Manuel de Carvalho a seu sobrinho, teria sido a construção da actual Igreja em 1943. Só foi pena que a antiga capelinha a Stº. Amaro, um património do século XVII, tivesse sido destruída!...

A VISITA DE D. XIMENES



D. Ximenes Belo, bispo residente e administrador apostólico de diocese de Díli entre 1983 e 2002 e Prémio Nobel da Paz em 1996, esteve no passado dia 5 do corrente no Tourigo. Na véspera, no dia 4, proferiu em Tondela, no auditório da ACERT uma palestra sob o tema “Os Jovens e a solidariedade: razões para a praticar”, como foi já noticiado neste Jornal.
O motivo da passagem de tão ilustre personagem pela povoação relacionou-se com a vontade expressa por D. Ximenes de visitar o lugar onde nasceu D. José Manuel Carvalho, bispo de Macau e Timor e conhecer os seus eventuais familiares.
Acompanhado pelo director da Escola Profissional de Tondela, Dr. João Carlos Figueiredo, o bispo Emérito de Timor-Leste, chegou ao Tourigo cerca das 10h30 de sexta-feira, dia 5, dirigindo-se a seguir para a casa do falecido Cónego Maximino, hoje habitada por uma sobrinha-neta de D. José Manuel Carvalho, D. Maria da Conceição Matos Carvalho que ali vive com sua filha Maria Teresa e com a neta, Celine.
D. Ximenes Belo teve ocasião de trocar impressões com aquela descendente do Bispo de Macau e Timor, apreciar uma fotografia a óleo e ver vários objectos – o livro de curso, fotografias e peças de louça com o brasão -que foram pertença do seu colega que administrou a diocese de Macau e Timor entre 1897 e 1902, data em que foi nomeado para a diocese de Angra do Heroísmo, onde viria a falecer repentinamente na noite de 24 de Abril de 1904, com sessenta anos de idade.
D. Carlos Filipe Ximenes Belo visitou, a seguir, a Igreja paroquial, mostrando-se sensibilizado com o seu interior muito alegre, simples, mas muito convidativo ao recolhimento interior e à oração.
O almoço foi confeccionado e servido no Centro de Dia reunindo na mesma sala e num ambiente familiar, utentes, professoras e alunos da Escola que surpreenderam o Ilustre visitante agitando bandeirinhas dos dois países, Portugal e Timor, gritando, “Paz, sim, guerra não”.
Sentaram-se à mesa de D. Ximenes Belo, o Director da Escola Profissional de Tondela, João Carlos Figueiredo; o Engenheiro Dinis, em representação do Presidente da Câmara Municipal de Tondela; o Presidente e o Secretário da Junta de Freguesia do Tourigo, Amadeu Ventura, e Célio Viegas, respectivamente; o Presidente da Assembleia do Centro Social do Tourigo, IPSS, Nelson de Matos Almeida; os Senhores Padres Armando Costa e Alcides Vilarinho; a Assistente Social Rita Cardoso e o Presidente e Vice-Presidente do Centro Social, Manuel da Costa e António Costa Ventura, respectivamente.
No final da refeição, D. Ximenes Belo, usou da palavra para evocar a figura do seu colega, D. José Manuel Carvalho e agradecer a maneira simples, mas carinhosa como foi recebido, salientando a ornamentação da sala e o saboroso almoço confeccionado pelas colaboradoras do Centro Social.
O Presidente da Junta de Freguesia disse da honra e da satisfação que sentia por tão honrosa presença, agradeceu e desejou ao Bispo Emérito de Timor-Leste muita saúde e felicidades.

sexta-feira, julho 31, 2009

A SEGUNDA FUGA




( 1964)

À ATENÇÃO DOS POSSÍVEIS LEITORES
Este relato está a ser feito ao "correr da pena" e, por isso, a narração dos acontecimentos, às vezes, não obedece a uma sequência lógica. A descrição é muitas vezes interrompida por factos que se interpõem, embora se interligam. Daí uma espécie de "baralhada" difícil de destrinçar. No entanto, uma correcção final colocará os episódios nos seus devidos lugares, os capítulos bem definidos e a pontuação bem colocada. Até lá, vou continuar o meu regresso ao passado... Com um misto de revolta... e de saudade!
I
A situação complicava-se de dia para dia e era através do pequeno "transistors" que escutávamos as Rádios das plantações de uma Sociedade belga que ia informando os seus gerentes da movimentação dos rebeldes.
As "tropas" dos revoltosos avançavam a partir da fronteira Norte e depois de terem chegado à vila de Djolu, preparavam-se para continuar a marcha em direcção a Mompono donde seguiriam para Boende e daí para a capital da província do Equador, a cidade de Bandaka.
As populações denotavam evidentes sinais de nervosismo e era necessário mostrar o maior sangue frio para não desencadear reacções incontroláveis. Uma ordem que se pronunciasse num tom de voz acima do normal, bastava para que da parte dos trabalhadores houvesse uma reacção hostil, e o trabalho, embora executado, o fosse por entre frases pouco dignificantes, em relação ao "branco".
Se durante o dia, era difícil fazer frente a esse clima de insegurança e até, algumas vezes, de pânico, com o cair da noite, a tensão aumentava de tal maneira que era impossível conciliar o sono. O mais ligeiro estampido da madeira ou de qualquer barulho no exterior, causava um mau estar indescritível e uma sensação de insegurança difícil de descrever.
Há alguns dias de cama devido a um problema numa perna, motivado pela má circulação, esse estado de coisas mais contribuía para que o moral estivesse bastante baixo. O medico amigo que me tratava, - um italiano que trabalhava numa plantação de borracha de uma Sociedade belga - todos os dias, via rádio, me aconselhava a deixar a Plantação e embarcar para Kinshasa, pois o meu estado carecia de cuidados particulares. Apesar disso e arriscando também a vida de minha mulher que teimava em não me deixar, fui protelando a partida, até porque meu sócio fazia questão de não abandonar o seu posto. Os dois tínhamos vivido momentos difíceis e não seria honesto deixá-lo só, para enfrentar essa horda de malfeitores que se aproximava.
Entretanto, o meu estado de saúde agravou-se e o médico depois de me ter administrado um tratamento à base de cortisona, intimou-me a partir, caso contrário não tomaria qualquer responsabilidade pelo que acontecesse.
Era desaconselhado o percurso por estrada a partir do cruzamento para Boende, pois segundo as rádios da Sociedade Belga que interceptávamos através dos pequenos "transistors" acima referidos, era natural que os revoltosos tivessem já postos de controlo nesses caminhos.
Optou-se então pelo percurso por estrada até Bokoli e daí até Baringa por rio. E começou então a odisseia da nossa "fuga". Com os revoltosos quase a chegarem à nossa Plantação, planeámos a nossa saída, - eu, minha mulher e a mulher de meu sócio. Este, por questões pessoais que eu, por respeito e amizade, nunca procurei saber, recusou-se, terminantemente, a abandonar o seu posto.
Auxiliados pelo médico italiano e com o concurso do pessoal da gerência da Plantação belga, numa tarde de Setembro de 1964 abandonámos o N'gongo, numa carrinha Opel. No trajecto, ao passarmos pelas aldeias indígenas, éramos insultados e ameaçados pelas populações, já industriadas pelos revoltosos no ódio contra o branco. Percorremos assim cerca de 160 quilómetros até chegarmos a uma outra Plantação da mesma Sociedade. Conduziram-nos então a um pequeno porto nas margens do rio Maringa onde nos esperava o Jean Marie, um amigo francês, com uma pequena baleeira a motor. Devido às dimensões da embarcação e à tempestade tropical que se avizinhava, mas que já se fazia sentir nas águas do rio, só minha mulher e a do meu sócio partiram para Baringa. Com o médico e o director da Plantação, o Vandervelt, um holandês de quase dois metros de altura, fiquei à espera no pequeno ancoradoiro.
Entretanto, a tempestade abateu-se sobre a região e o vento e a chuva fustigavam o armazém onde nos encontrávamos. Os relâmpagos zebravam o céu e as águas do rio começaram a agitar-se assustadoramente. Ao lembrar-me da baleeira que partira, pedi a Deus que a fizesse chegar depressa ao porto de Baringa e a mandasse de regresso para que eu pudesse partir, pois as atitudes dos indígenas que chegavam não indiciavam nada de bom... Eram muitos os boatos e sussurrava-se até que os rebeldes tinham já assassinado alguns brancos e se dirigiam para Bukulikila, precisamente a Plantação que evacuava os seus produtos pelo "beach" onde nos encontrávamos. A chuva era cada vez mais forte, o tempo passava e a preocupação aumentava!... Teria a embarcação conseguido chegar? Teria combustível suficiente para o regresso? Teria sido interceptada por algum grupo de insurrectos?!... Horas de angústia e desespero difíceis de descrever... O desânimo começava a apoderar-se de mim e não fossem as palavras de encorajamento dos dois amigos holandeses, não sei com conseguiria superar tanta ansiedade, tanta angústia e tanto desespero!
Há três horas que a pequena barcaça tinha partido e por mais que tentasse apurar o ouvido nos intervalos das rajadas do vento, não se ouviam quaisquer ruídos que anunciassem a sua chegada. A noite tropical aproximava-se e o desespero aumentava... De repente, muito longe, um barulho diferente... e logo a seguir Jean Marie acenando e, por gestos, indicando que era preciso partir rapidamente... Sem parar o motor, a barcaça chegou-se mais à margem e eu subi, limpando ainda as lágrimas que a despedida fez brotar dos meus olhos cansados. E já a bordo, abraçado a Jean Marie, eu chorei! Perguntei, implorei... Tudo correu bem?... «Que sim. Estavam a salvo as duas. Fora difícil a viagem. Muita chuva, muito vento, forte trovoada, ondas enormes... Foram mesmo obrigados a parar numa cabana de pescadores, á beira rio, para se enxugarem e se aquecerem... mas chegaram!...»
E, graças a Deus, eu também cheguei. A rezar!... São intraduzíveis as sensações que experimentei nessa altura - alegria por ter chegado e encontrado minha mulher bem, e preocupado pensando no que poderia acontecer ao meu sócio que se tinha recusado a acompanhar-nos.
Depois de uma noite em que acordava ao mais ligeiro ruído, chegou a manhã tão desejada. Era tempo de procurar transporte para chegar pela estrada de terra batida a Basankusu, distante de 200 quilómetros, de onde poderíamos tomar o avião para Kinshasa. Eram poucos os veículos disponíveis, pois os que restavam corriam o risco de serem confiscados por elementos armados, à solta, um pouco por toda a parte.
Depois de algumas diligências e graças à boa vontade de amigos que decidiram ficar e não abandonar o que lhes pertencia, um deles prontificou-se a conduzir-nos a Basankusu, antes que a situação se deteriorasse mais, pois todo o pessoal da Missão Protestante onde funcionava um Hospital de leprosos, já tinha sido evacuada por ordens do seu Centro de Coordenação da capital. E isso era um mau presságio. Os Missionários, quer se tratasse de católicos quer de protestantes, eram os últimos a abandonar os seus postos de evangelização do interior. A esse respeito é bom sublinhar a influência da religião nas populações do interior do país. Os missionários dos dois credos, mas sobretudo os das Missões católicas - pese embora o aspecto negativo de alguns procedimentos, entre os quais aquele que consistia em ministrar os sacramentos (baptismo, comunhão, casamentos, etc.) a troco de mão de obra barata - contribuíram grandemente para a educação moral e cívica dessas populações perdidas nos confins da floresta tropical. Muitas Missões possuíam oficinas onde ministravam ensinamentos relacionados com várias artes e ofícios. Tive ocasião de conhecer verdadeiros artífices saídos dessas escolas!...
Saímos então de Baringa e ao passarmos pelas aldeias que ladeavam a "estrada", os insultos e vaias repetiam-se e a frase mais ouvida era "Kenda na ndako na yo. Tika boka na bisu..." ( vai-te embora, deixa a nossa terra...), sempre pronunciada em tom ameaçador. Depois de cerca de três hora de viagem, sempre debaixo de enorme tensão sem saber o que nos poderia acontecer ao dobrar da cada curva, chegamos, finalmente ao aeródromo de Basankuso. A pista era de terra batida e, curiosamente, nela tinha desembarcado vindo de Leopoldville a caminho do interior, há cerca de catorze anos. Recordo ainda esse tempo distante e os dias que permaneci na pequena vila, onde tinha nascido a mulher com quem viria a casar e posteriormente também os meus dois filhos. Curioso também o facto de eles terem nascido no mesmo Hospital em que nasceu a mãe. Era um Hospital com uma equipa médica constituída por médicos de várias nacionalidades e de quase todas as especialidades, incluindo uma equipa de cirurgia com fama granjeada ao longo de muitos anos. Estava agregado à Missão Católica de Mill Hill e o serviço de enfermagem era assegurado por freiras. Cobria em termos de saúde uma extensão cujo raio devia medir cerca de duzentos quilómetros! Esclareça-se que na área abrangida as deslocações faziam-se através de picadas ou por via fluvial, em barcos a vapor, com uma espécie de dobadoira a fazê-lo deslizar pelas águas turvas desses grandes rios interiores do Congo.
Voltando à pista de terra batida, recordo-me que ela me fez viver nesses longínquos tempos, momentos de verdadeira alegria. Durante o tempo que estive na Vila de Basankusu antes de partir para o interior, para ocupar o posto de estagiário nas Plantações de borracha, palmeirais, café e cacau, situadas nas margens do rio Maringa, o "aeroporto" era um lugar de peregrinação todas as sextas-feiras. De facto era nesse dia que todas as semanas chegava no avião, vindo de Leopoldville, no velho DC3, juntamente com o correio, os víveres frescos que nos traziam os sabores da terra natal lá tão longe...
Quase toda a população da pequena Vila, tanto indígena como estrangeira, se dirigia por volta das 10 da manhã ao aeroporto para assistir à chegado do avião. Logo que começava a ouvir-se, lá ao longe, o roncar dos motores, todos os olharas se viravam para o céu pardacento. Ao fundo, junto às palmeiras que faziam a divisão entre a terra cultivada e a floresta, uma coluna de fumo erguia-se no céu. Eram duas as suas funções: mostrar ao piloto o começo da pista e ao mesmo tempo indicar-lhe a direcção do vento. O avião aproximava-se, ronceiro, tomando o rio como referência, e descia sobre ele como que a querer mirar-se nas suas águas. A pouco e pouco ia perdendo altitude e fazia a aproximação à pista por entre duas palmeiras que lhe servia de balizas. Depois... a aterragem, com uma nuvem de poeira vermelha a escondê-lo de todos. Sempre pachorrento ( a velocidade máxima para levantar voo não passava dos 300 quilómetros!...) lá se dirigia para a aerogare, uma casa térrea, em tijolo, e coberta com zinco. Depois era a descarga dos passageiros, uns que vinham pela primeira vez, outros que regressavam da capital onde tinham ido em negócios; seguia-se a retirada do correio e de várias caixas de víveres e outras mercadorias... Era de facto um dia inesquecível!...
Porém, naquele dia da fuga, tudo era diferente...
Muita gente no aeroporto. Muitos indígenas, freiras, alguns padres das Missões vizinhas e um avião bojudo que acabava de se imobilizar junto à aerogare, agora já sem cobertura e com os muros degradados! O avião com a sigla da ONU pintada no bojo vinha buscar os religiosos que ainda restavam. Um oficial congolês não sei a que título presidia à escolha daqueles que deviam embarcar. Como havia muitos europeus, ele decidiu que só embarcariam as senhoras, pois a lotação do aparelho não comportava todos os que queriam partir... Um sacerdote opôs-se a essa discriminação e pediu que se desse prioridade a senhoras sim, mas também a outras pessoas independentemente do sexo ou profissão. Como estava doente colocaram-me na frente da fila com minha mulher, mas logo o graduado e seus adjuntos se opuseram, objectando que eu seguiria, mas minha mulher ficava... Nessa altura uma freira que já subia para o avião ao ouvir a ordem do militar, voltou atrás, e com uma voz que não admitia réplica ordenou: «Este senhor vai e sua mulher acompanha-o, porque eu cedo-lhe o meu lugar. E eu fico!...» Estupefacção do militar e dos seus sequazes! Finalmente, e depois de alguma discussão lá embarcámos todos rumo a Kinshasa...
O pequeno "Dakota" com os seus dois ronceiros motores e o interior a denunciar a sua avançada idade, ao descolar, utilizou quase toda a pista, pois a carga que levava exigia mais esforço e maior distância. Com os motores a toda a velocidade, lentamente, lá começou a subir e foi com alívio que vimos os avisos luminosos da descolagem apagarem-se. Recordo-me que não havia lugares sentados para todos e muitos dos passageiros iam sentados no chão e agarrados às cadeiras...
Já no ar, o pensamento teimava em voltar ao N'gongo, numa esforço impossível de tentar imaginar o que por lá se passava. A hostilidade dos habitantes das aldeias por onde tínhamos passado, faziam-nos temer o pior e fazia prever as mais diversas situações, tais como as que tínhamos vivido em 1960 aquando da independência do país...
Entretanto, o voo continuava, e depois dos safanões da praxe sempre que passávamos Mbandaka, situada na linha do Equador, o velho DC3 desceu um pouco e podíamos ver o fumo de algumas aldeias indígenas ao longo do rio. Para quem não conheceu o Congo, deve esclarecer-se que, em todos os voos para o interior, os pilotos orientavam-se pelos rios e por isso, seguiam o mais perto possível dos seus cursos. Não havia qualquer serviço de balizagem ou sinalização e a navegação aérea era assim feita. Os pilotos, quase todos de nacionalidade belga, tinham grande experiência e possuíam vastos conhecimentos sobre a hidrografia do pais. Durante os tumultos de 1960, logo após a independência, esses homens do ar, realizaram verdadeiros milagres aventurando-se, em voos rasantes, arriscando a própria vida para salvar pessoas isoladas!...
Voltando aos rios do Congo, eles eram todos navegáveis e os barcos percorriam-no de lés-a-lés, abastecendo as feitorias de mercadorias, e transportando para a capital, no regresso, os produtos ali produzidos ou fabricados, como por exemplo: borracha, óleo de palma, coconote, café, cacau, arroz, etc. De quinze em quinze dias, durante o dia, ou alta noite, lá silvava a sirene anunciando a sua chegada ao "beach", ou cais. Recordo os meus primeiros tempos de Congo, na década de 50, em que a chegada do barco, quer fosse de noite, quer de dia, era motivo de grande alegria: nele chegava o correio da terra distante, os mantimentos que nos enviavam da sede da Companhia e as mercadorias para as cantinas da Plantação!... Sozinho, perdido no mais recôndito "buraco" da floresta tropical, com 350 homens, repartidos por plantações de palmeiras, de borracha, de café e de cacau, a chegada do barco da Otraco (Office des Transports du Congo) era, para mim, como que um bálsamo que vinha amenizar a solidão. Juntavam-se os trabalhadores e, muitas vezes, éramos obrigado a fazer a descarga ou a carga, consoante ele vinha, ou regressava, de noite. Muitas vezes, à luz do potente projector do barco alimentado pelo gerador do mesmo, os carregamentos de produtos com destino à capital, terminavam já de madrugada. Como o barco só navegava de dia, havia que aproveitar a noite para outros serviços...
Todos os barcos, nessa altura, transportavam passageiros e tinham quartos para quem quisesse viajar neles. Havia um cozinheiro a bordo e bastava levar os ingredientes para que o cozinheiro preparasse as refeições que eram servidas numa sala de jantar com todo o asseio e educação. Quando minha mulher ficou grávida do primeiro filho, a conselho do médico que vivia a 160 quilómetros de distância, fizemos a viagem por barco até Basankusu. Foi uma viagem magnífica e inesquecível que durou três dias, Maringa a baixo... Era uma paisagem indescritível quando viajávamos durante o dia - nas margens, na densa floresta tropical, macacos, aves e outros animais habituados ao barulho da embarcação, deliciavam-nos com as suas traquinices!... Ao chegar da noite, o barco imobilizava-se nos ancoradoiros e esse espaço de tempo era aproveitado para carregar lenha que alimentava as caldeiras a vapor que faziam mover a tal dobadoira de que já falei. Às vezes era difícil dormir por causa do barulho dos carregadores e também por causa dos mosquitos que, mesmo com o mosquiteiro a cobrir o beliche, conseguiam chegar até nós e ferrarem... Os comandantes dos barcos eram congoleses e todos possuíam, não só conhecimentos da navegação fluvial, como também outros conhecimentos, a par de uma educação muito razoável, senão perfeita.
Voltando ao voo Bansankusu-Kinshasa, dizia eu que o avião tinha baixado e que era possível, lá do alto, distinguir as cabanas das aldeias e ver o fumo que delas saía. Entre os passageiros encontravam-se missionários, freiras e outros civis, homens e mulheres. Já quase a chegar ao destino, um dos motores começou a "tossir", fez-se silêncio no interior do aparelho e um padre, desapertou o cinto de segurança, ajoelhou-se e começou a rezar... Ao contrário do que acontece hoje em quase todos os voos, nesse tempo e nas linhas aéreas do interior do Congo, não havia hospedeiras. Geralmente eram três os membros da tripulação - o piloto, um co-piloto (às vezes) e um mecânico. Por isso nesse momento de inquietação, não houve ninguém que viesse tranquilizar ou explicar o que se passava. Cada qual podia fazer a sua avaliação pessoal. Assim aconteceu e quase poderia garantir que não houve propriamente pânico. Depois de sair do inferno... é difícil ter-se medo... Entretanto, e com a hélice do motor direito "em bandeira", o avião adernou um pouco e foi baixando, baixando... e de repente o asfalto da pista à vista! Dois ou três solavancos, uma pequena derrapagem, uns ziguezagues e, por fim o deslizar sereno do avião em direcção à aerogare.
Como já o disse os pilotos eram experientes, mas acrescente-se que durante a minha permanência de 30 anos não se registou qualquer acidente com os aviões apesar dos rudimentares, podíamos mesmo dizer "artesanais", meios de navegação aérea. Muitos sustos, é verdade, mas sem consequências de maior. Em viagens do interior para a capital ou vice-versa, quando passávamos a linha do Equador, raro era o voo em que não houvesse que contar. Muitas vezes era tal turbulência e os poços de ar, que todos os passageiros emudeciam. As trovoadas e as tempestades tropicais com chuvas intensas, eram tão fortes, que o comportamento do avião era o de uma cadeira de montanha russa!... Muitas vezes, a chuva, juntava-se a nós, entrando pelas minúsculas frinchas das velhas carlingas...
De vez em quando o avião era desviado da sua rota porque era necessário ir buscar um doente a uma Plantação perdida na floresta e então aterrávamos em pistas cobertas de capim e era um "espectáculo" estranho ver as asas do bimotor a ceifar as ervas que encontrava na pista. Sucedia que os passageiros não eram informados da alteração da rota e podem adivinhar a sensação de medo quando se acendiam as luzes para apertarmos os cintos e de repente, pelas janelas, víamos os arbustos a serem degolados e o avião a rolar envolto numa nuvem de pó!...
Aeroporto de Ngili. Estávamos, pois junto da aerogare. Calaram-se os motores e a pequena escada aproximou-se do avião...
O desembarque. Militares armados. Arrogantes, indisciplinados: - «As bagagens? Abram as malas...» Que bagagens, quais malas?!... Se não temos nada a não ser a roupa que temos vestida... Uma senhora da Cruz Vermelha interrompe o "assalto"... «Por aqui!...» - diz ela. Avançamos. Ninguém que conheçamos. E da nossa Embaixada em Kinshasa? Nem rasto... Aliás, já em 60 tinha acontecido a mesma coisa. Estávamos entregues a nós mesmos. Alguém se ofereceu para nos conduzir do aeroporto até à cidade. São cerca de 30 quilómetros e fizemos já o percurso de noite.
Não tínhamos notícias do que se passava no interior e eram tantas as contradições nas notícias ou nos boatos, que não sabíamos em quem acreditar. Tanto ouvíamos dizer que os rebeldes estavam de posse de toda a nossa Região, o Alto Congo, como se dizia que um grupo de mercenários os tinha rechaçado e eles fugiam em direcção a Gemena...
No dia seguinte e devido ao agravamento do meu estado de saúde, fui internado no Hospital da Universidade de Lovanium. Ali permaneci durante quinze dias. Registo aqui o facto de ter sido assistido por um médico angolano de apelido Andrade, formado pela Universidade de Coimbra, que tinha fugido de Portugal para Brazaville, e veio depois para Kinshasa, onde exercia a sua profissão no Hospital da Universidade. Evitei sempre abordar questões políticas, pois logo me apercebi que era um assunto que o incomodava, dada a sua condição de "foragido" à ditadura que então prevalecia em Portugal. Profissional competente senhor de um humanismo e de uma educação esmerada, foi o primeiro homem negro a convencer-me, - apesar de todos os efeitos negativos que dela possam advir - que a "colonização", quando feita como um verdadeiro sacerdócio, deixa marcas indeléveis da índole do povo colonizador.
No Hospital e por intermédio de minha mulher que diariamente me trazia notícias, eu ia sabendo o que se passava, ou o que se dizia lá fora. Mas eram muito vagas as informações que nos chegavam vindas do interior do país. No aeroporto vivia-se um clima de incerteza e desânimo. Os aviões que chegavam dos mais longínquos cantos do território eram "assaltados" por uma onda de pessoas, ávidas de saber notícias dos seus familiares que tinham ficado entregues a si próprios, só Deus sabia como!
Entretanto saí do Hospital e a realidade falou mais alto do que a doença: tinha perdido tudo pela segunda vez; tudo o que tinha resumia-se ao que tinha vestido!... Tudo o que possuía tinha ficado nas mãos dessa turbamulta industriada para destruir o que encontrava ela frente.
A certa altura correu o boato de que os rebeldes teriam feito reféns todos os europeus que se encontravam na nossa região, incluindo o meu sócio, e se dirigiam para a cidade de Kisangani. Com eles viria o médico italiano, o amigo que me tinha acompanhado na doença. E então começaram as viagens para o aeroporto sempre que constava que um avião chegava do interior. Um sentimento de esperança à chegada e um sentimento de desespero logo que do avião não saiam as pessoas esperadas! A presença da soldadesca era cada vez mais notada e como não era paga, todos os pretextos serviam para extorquir dinheiro... O aeroporto e instalações, que tínhamos conhecido com características aproximadas dos outras de então, no que diz respeito a pessoal especializado, - na torre de controlo, nos serviços da Alfândega e nos outros serviços subjacentes - estava transformado num acampamento de nómadas, em que as condições de higiene eram o primeiro sinal de que civilização nem sequer por ali tinha passado!...
Eu continuava sem emprego, acolhido em casa de amigos e sem dinheiro para poder comprar roupa, pois nada tinha trazido!
Um dia, num avião vindo de Kusangani, chegou, finalmente, o médico italiano. Mas sozinho!... Logo que soube fui visitá-lo à clínica da Sabena onde tinha sido internado. Chorámos nos braços um do outro! Eram más as notícias que me trazia... O Rodrigues, com outros seis europeus, tinham sido assassinados, pelas costas, com rajadas de metralhadora! Os rebeldes tinham-no poupado a ele por ser médico. Podiam precisar dele e, por isso, o levaram de Mompono para Kisangani. Uma viagem feita ao longo de cerca de um mês, ora de camião, ora a pé, conforme o estado das picadas o permitia. Comida, era a que encontravam ou roubavam aos habitantes das aldeias por onde passavam. Arroz, frutos e mandioca conjuntamente com peixe seco ou carne de antílope ou javali, constituíam a base das refeições, que não tinham horas nem locais certos. O mais difícil de suportar tinha sido a sede e, como não havia outra hipótese, bebiam a água dos rios, alguns com cadáveres a boiar!... Por vezes era chamado para acudir a algum mutilado e como não tinha nada para remediar a situação, limitava-se a estancar o sangue com tiras da camisa que vestia e a aconselhar a evacuação para o Hospital mais próximo... E onde é que havia hospitais? E os que ainda existiam, tinham apenas as paredes direitas. E não eram todos... porque muitos, depois de pilhados tinham sido destruídos a tiro de morteiro. Uma selvajaria difícil de imaginar!
Muitas vezes tinha sido ameaçado de morte, chegando a estar encostado ao muro para ser fuzilado! Sensação estranha e inenarrável! Ao ouvir a descrição recordei os momentos por que tinha passado em 1960, no Campo militar de Boende, também eu ameaçado de morte e por várias vezes obrigado a encostar-me ao muro para ser passado pelas armas...
A independência tinha sido proclamada no dia 30 de Junho de 1960 e logo durante a cerimónia, o episódio do roubo da espada do Rei Balduíno por um congolês, deixava no ar um prenúncio de presumíveis convulsões! E foi o que aconteceu. A rebelião nos quartéis à volta de Kinshasa em breve se espalhou por todo o país e a soldadesca, embriagada e drogada tomou conta do país. Os oficiais belgas e os seus colegas congoleses em breve viram que eram incapazes de dominar as suas tropas. Alguns oficiais belgas foram presos, outros espancados e em poucos dias o país era um verdadeiro caos...
E não pude evitar que a minha imaginação recuasse no tempo e recordasse...
Para aqueles que nunca deixaram a Europa, e que conhecem África apenas através dos livros, ela é uma terra privilegiada - a terra do dinheiro, das aventuras, da caça e do mistério. Manhãs encantadoras, dias quentes e as noites frescas. O branco é rei, o trabalho não existe e nada lhe falta...
E para quê destruir esse mito e mostrar-lhes a verdade nua? Para quê mostrar-lhes esta terra despida de ilusões e miragens, no seu verdadeiro aspecto? Para quê fazer-lhes sentir esta "febre dos trópicos" contra a qual nem o quinino nem o uísque são eficazes? Para quê fazer-lhes ver que esta terra rouba tudo ao homem que a ela se entrega confiado no futuro?
E mais difícil seria ainda fazer-lhes compreender que que apesar de tanto sofrimento, há homens que amam essa terra e que não mais querem separar-se dela. Amam-na, porque nela sofreram e, amando-a, não a podem deixar...
Transcrevo aqui, a propósito, o que escrevi no N'gongo, em 15 de Novembro de 1960 e que encontrei depois aqui num Jornal regional, É a história verídica do velho Silva, nessa altura com 78 anos de idade, 54 passados no Congo:
«Sentado numa cadeira de verga, o velho espreitava o Sol que desaparecia lá ao longe por de trás da floresta verdejante e pensava ainda na carta que acabara de receber dum parente afastado que vivia na Beira, a sua Beira Alta, que há tanto tempo deixara!
Maquinalmente tirou a carta do bolso e releu-a pela terceira vez. Queria ver se, à força de tanto a ler, acabaria por seguir os conselhos do primo Silvestre que lhe dizia para deixar a África e fosse repousar para a sua aldeia que, talvez, já não conhecesse...
- Que se deixasse de mais trabalhos e que fosse até Portugal. Se não quisesse viver na aldeia, que diabo, iria para a cidade e passaria o resto dos dias da sua vida tranquilo e sem nada lhe faltar. Já era tempo que voltasse à terra onde nascera. Ou queria ele morrer nessas terras longínquas, sem amigos, sem ninguém!... Que vendesse o que possuía, que segundo constava era bastante, e que fosse, que fosse embora...»
+++
O Sol tinha desaparecido completamente e a noite começava a cair. Além na estrada, os homens passavam de regresso da caça com arcos e flechas, mas sem qualquer produto do seu esforço. Amanhã recomeçariam sempre esperançados. As mulheres voltavam do rio onde tinham ido buscar água, com os filhos às costas e os baldes na mão.
Aos ruídos variados do dia, sucedia o silêncio da noite - esse silêncio das noites tropicais que põe o homem frente ao homem, que o faz meditar, querer, chorar e Ter esperança. Esse silêncio que lhe transporta o pensamento mais perto de Deus em busca de um apoio, de uma companhia...
+++
Duas lágrimas rolaram-lhe pelas faces já enrugadas. A aldeia onde nascera passara-lhe pela mente numa visão saudosa e fugidia. Cinquenta e quatro anos. Tanto tempo!... Como o tempo passa! E ele que viera a África apenas para arranjar o suficiente para construir uma casita e amealhar uns patacos para a velhice... Era assim que ele pensava quando embarcou e, afinal, viera e nunca mais voltou! Tudo esqueceu a pouco e pouco. Tudo, menos os Pais que, enquanto foram vivos não deixou que lhes faltasse coisa alguma. Tinha a consciência tranquila. Pobres Pais! Deus os tenha em descanso.
Os lábios mexeram - talvez uma prece a Deus pelos Pais que nunca mais voltara a ver.
As estrelas cintilavam no céu e o luar fazia brilhar as folhas dos cefezeiros ainda orvalhadas da chuva que tinha caído de tarde. Também o luar quisera mostrar-lhe a beleza da sua obra, dando-lhe assim mais força para não seguir os conselhos que lhe davam na carta. Não podia abandonar assim o que tanto lhe custara a fazer e que, afinal, era agora um pedaço do seu ser. A sua mocidade ali estava enterrada naquela terra. As ilusões da sua juventude dormiam à sombra daquelas plantas. Aquela terra viu-o chorar de saudades quando chegou. Viu-o depois lutar para esquecer, entregando-se ao trabalho, despreocupado do resto. Viu-o erguer as mão a Deus em preces ardentes, pedindo força e coragem. Viu-o, enfim, sorrir quando os primeiros frutos amadureceram...
E as frases da carta dançavam-lhe na mente: - «Sem amigos, sem ninguém...» Como se enganam aqueles que nunca lutaram sozinho! Nunca sentiram a emoção forte de ver nascer do esforço próprio uma obra que é nossa, pela qual sacrificámos tudo e que de tudo nos afastou, mas que prova que o homem soube ser homem e marcou a sua passagem neste mundo que foi criado para ele.
«Que vendesse o que tinha...» - Vender! Será possível que se possa vender uma parte do nosso ser? Depois de tanta canseira, tanta privação, abandona-se assim, num momento, o que tanto nos fez sofrer?
Não é agora que as ilusões se desvaneceram, que as pernas trôpegas se recusam a grandes esforços, que a vida nada mais nos pode dar, e que a terra mostra ao homem o fruto do trabalho de tantos anos que se abandona o campo da luta onde se travou a batalha e onde as plantas cresceram com o sangue derramado...
+++
A brisa fresca da noite brincava com a s folhas dos cafeeiros fazendo deslizar as gotas d'água, lentamente, pelas nervuras, como lágrimas por uma face enrugada...»

quarta-feira, julho 22, 2009

POEMA - Em dia de aniversário



A partir de certa idade parece que o tempo passa mais depressa, que passa a correr, sem quase nos apercebermos.
Parece que os anos, à semelhança dos bólides modernos, circulam a uma velocidade tal, que nem dá tempo para apreciar a paisagem.
É como se viajássemos numa cápsula com janelas de vidros foscos donde apenas se vê o desfilar de sombras, a passagem de objectos sem contornos definidos, a sucessão de imagens fantasmagóricas – tudo isso perpassando ao som do barulho infernal das preocupações do dia a dia que nos contagiam e se apossam das nossas mentes.
Nesta sociedade materialista que nos comanda e escraviza, nada podemos fazer para nos libertarmos desta engrenagem maldita a que por obra e graça do progresso fomos acorrentados. Elos da mesma cadeia, parte do mesmo todo, giramos à volta do mesmo eixo e sofremos a influência dos mesmos ventos.
Toda esta corrida desenfreada da vida moderna roubou-nos a paz de espírito, a religiosidade do silêncio de outrora e o sonho de sermos interiormente livres, o sonhos da criança que fomos!
E assim vai passando o tempo. Veloz, indiferente à nossa insatisfação, aos nossos desenganos, às nossas frustrações e aos nossos queixumes. É assim o jogo quotidiano da própria vida, feito de competições e indiferenças!
Mas mesmo assim todos os dias fazemos planos, todos os dias gizamos projectos, todos os dias acalentamos esperanças, mesmo correndo o risco de ver o sonho transformado em pesadelo!... Mas é a voz da esperança a incutir "alma" no vazio da crescente desumanização; é um convite para reforçar, – neste tempo sem tempo em que vivemos – o hino à vida, fazendo ressuscitar o sonho perdido por intermédio de uma poesia humanista e solidária...
Falo de poesia, mas não sou poeta. O poeta é aquele que sente de outra forma. O poeta não se faz, o poeta nasce. O verdadeiro poeta aprofunda sentimentos e vivências e faz descobrir nas pequenas coisas grandes coisas, mostrando-nos que, afinal, o que somos e o que fazemos tem uma razão de ser mais profunda do que aquilo que pensamos. Há quem diga que a poesia é o homem. E como o homem tem sempre uma paixão a construir, um sonho a desabrochar, um combate a travar ou uma felicidade a atingir, a poesia tudo isso contém: amor, emoção, luta, esperança – uma amálgama de religiosidade e de mistério que são, afinal, os ingredientes de que é feita a vida. O tempo voa. Foge... Mas não será o tempo um aliado que Deus nos deu? Não é ele que dá consistência e valor às coisas? Quanto mais tempo passa, menos doem os desgostos... Façamos então dele um poema. Aliás, como disse o poeta, «uma hora não é uma hora. É um vaso cheio de perfumes, de sons, de projectos, de alegrias e de esperanças...»

VIVÊNCIAS

Não há nada melhor para minorar a nossa ansiedade, para acalmar as nossas emoções e para simplificar a nossa vida do que aceitar com confiança e resignação as coisas que nos acontecem e para as quais não existem quaisquer soluções terrenas.
É certo que por vezes a vida nos põe perante situações angustiantes e de extrema complexidade que quase nos roubam a nossa capacidade de raciocinar. Mas é precisamente nessas alturas que é posta à prova a nossa força interior, aquela mola invisível que muitas vezes deixamos enferrujar por falta de uso.
Quando tudo nos corre de feição, esquecemo-la, não nos servimos dela diminuindo assim a sua elasticidade e subestimando a sua amplitude. Ao proceder dessa maneira, mais difícil se torna despertá-la para a distender e nos servirmos dela nos momentos de amargura. Por isso é necessário mantê-la sempre em bom estado de conservação, e isso só se consegue se acreditarmos em nós próprios e confiarmos nos dons com que Deus nos dotou para fazer face às adversidades.
Há também quem desconheça essa força interior e, menosprezando-a, procure ajuda exterior, mas que nunca é tão genuína e sincera como aquela que possuímos dentro de nós.
A resolução da maior parte dos nossos problemas reside na arte de saber acordar essa força que dorme no interior de nós mesmos. E a maneira mais eficaz para esse despertar consiste em estimular os nossos sentimentos.
Fui há dias visitar um amigo que se encontra no hospital. Ao percorrer os corredores, e numa espreitadela furtiva pelas camas alinhadas nas enfermarias, olhando os doentes, (alguns bastante mal) espontaneamente, uma prece silenciosa, rompeu a atmosfera de dor e sofrimento que me envolvia e subiu até Deus num agradecimento mudo, mas sincero.
Não há melhor bênção do que a saúde! Mas, distraídos que andamos, só nesses lugares é que lhe damos o real valor. Para quê tanto egoísmo, tanto ódio, tanta inveja e tanta revolta?
Com tudo isto queria eu dizer que se na vida de cada um de nós há situações verdadeiramente inevitáveis, outras há – a que poderíamos até chamar de facultativas – às quais podemos muito bem fugir ou evitar.
Todos sabemos que a vida é uma teia urdida com as mais variadas dificuldades. Mas para melhor a suportar, para melhor vivermos, para termos paz, tranquilidade, e um pouco de bem-estar, por que não procurar combater as nossas angústias, os nossos medos e as nossas contrariedades recorrendo a esse legado espiritual, esse dom que Deus nos concedeu? Não é a Fé um incomensurável poder que alimenta a vida? Ter Fé e procurar nela a humildade, a tolerância e o perdão – é como que renovar a vontade de viver em paz com nós mesmos. E é dessa paz interior que vem a força para enfrentar todos os desafios e transpor os obstáculos que a vida coloca no nosso caminho.

domingo, julho 19, 2009

TOUT LE MONDE Y A DROIT



Un couple une fin d'après-midi, dans une gare, à l'heure de pointe.
Ils étaient là, debout, enlacés, en osmose sur ce quai bondé. Ils s'étaient planqués un peu en retrait de la foule, derrière une colonne. De leurs regards éperdus, ils se dévoraient mutuellement, ils ne faisaient qu'un. Leurs corps épousés, les bras entremêlés, leurs baisers étaient passionnés, fougueux, énormes de tendresse. Un sentiment fusionnel, exprimé avec l'urgence des amants adultères qui doivent se quitter momentanément et pour qui la séparation est intolérable. A l'évidence, ils étaient en train de se dire "au revoir".
Rien que d'assez banal me direz-vous ?
Peut être ... si ce n'est qu'ils avaient dépassé la soixantaine.
C'était des caricatures de grands parents prolos et misérables, mal fagotés, gris et ternes. Elle avait ses cheveux gris et sales ramassés à la diable dans une barrette minable de prisunic, des bas à varice. Il avait une casquette ringarde, pied de poule, celle avec le bouton pression, des bretelles. Ils étaient laids. Ils auraient pu faire pitié.
Seulement, là on était loin de la pitié. Très loin, ils s'aimaient comme des adolescents, ça suintait la chaleur et la passion. Une si torride étreinte, chez des gens de cet âge, avait quelque chose d'obscène.
Mais j'ai passé outre le dégoût qu'ils m'avaient spontanément inspiré de prime abord. Je me suis forcée à les regarder sans cet a priori. Je commençais à imaginer leurs doubles vies compliquées, leurs parcours, leur histoire, cet amour anachronique ...
J'ai viré les préjugés.
Je les ai contemplé.
Je les ai enviés.
Je les ai trouvés beaux.
L'amour ? Tout le monde y a droit

quinta-feira, julho 16, 2009

BANDEIRA


16-7-09

Guerra Junqueiro, deputado, jornalista, escritor e poeta, que viveu entre 1850 e 1923, autor de várias obras, entre elas, Os Simples, era também senhor de uma admirável veia satírica que o levou a escrever vários panfletos de combate político.
Lembro-me, a propósito, de que na minha adolescência, uma das suas obras, A Velhice do Padre Eterno, figurava no catálogo dos livros cuja leitura era proibida pela autoridade pontifical.
Escusado será dizer que o livro passou de mãos em mãos e apesar de muito esfarrapado, quase todos os que comigo romperam os fundilhos das calças nos bancos do Colégio Tomás Ribeiro, o leram. Fruto proibido...
Se hoje evoco o poeta de Freixo de Espada à Cinta é porque li há dias, num excerto de um dos seus opúsculos políticos, uma frase que apesar de ter já sido escrita há muitos anos mantém ainda uma actualidade desconcertante. Escreveu ele que «a política é uma enxerga podre cheia de percevejos...»
Não acham que a mensagem que a frase encerra continua pertinente e actual?!...
A enxerga é a mesma. Pode não cheirar mal, mas a factura dos desodorizantes é elevada. Os percevejos, esses famigerados e fedorentos bichinhos que só atacavam de noite, foram substituídos por outros parasitas que atacam a qualquer hora e em qualquer sítio...
São os chamados doutores da política – esses pretensos defensores do povo que se arranham e insultam em público e que depois se juntam e se empanturram à volta de mesas recheadas dos mais requintados e exóticos manjares!
Os vergonhosos acontecimentos a que ultimamente temos assistido ao vivo e em directo, mostram-nos o que o futuro nos reserva se continuarmos a confiar em pessoas tão irresponsáveis, tão imaturas e tão incompetentes.
Não vale a pena entrar em pormenores, mas é bom que reflictamos um pouco naquele "sacudir da água do capote" por parte de quase todos os que deviam assumir a responsabilidade (ainda que indirecta) dos erros que têm sido cometidos.
Veja-se ainda o que se não tem dito e feito, corrido e saltado, para encontrar um bode expiatório para justificar uma falha que, afinal, poderão ter sido muitos a concorrer para que ela se verificasse!
Quanto a mim tudo isto não passa de uma constante e hipócrita encenação. E tanto os que nos governam como os que lhes fazem oposição não acreditam nem naquilo que dizem, nem naquilo que fazem. Vivem a sonhar. E, entretanto, o País, sem dono, parece estar à venda. Vem aí a liquidação total. E o trespasse...
Por isso não se admirem se daqui a uns anos, ao acordar, e ao olharem para a torre de menagem, depararem com um sujeito desconhecido, barrigudo, disfarçado de eurocrata, a hastear uma bandeira, que não a nossa!