sexta-feira, maio 30, 2008

Falando de mulheres




Para variar um pouco de tema, vou hoje contar-vos uma história. Antes, porém, queria pedir-lhe, minha senhora, que não veja nela qualquer afronta, qualquer insinuação, pois tenho pelas mulheres a maior admiração e respeito. Sou até daqueles que digo e penso que, tudo ou quase tudo o que fazemos, só tem graça e faz sentido por causa delas. Elas são a coisa melhor do mundo... embora alguns teimem em excluir a deles!
Mas vamos lá à história:
Rezam velhos manuscritos que São Miguel e o Diabo, num fim-de-semana prolongado quando conversavam acerca de um novo tratado de antropologia que tinha chegado clandestinamente à biblioteca celestial, ao abordarem o capítulo referente às diferenças entre o homem e a mulher, envolveram-se numa discussão. Enquanto o Diabo dizia que todas as mulheres eram linguareiras e diziam mal de tudo e de todos, São Miguel, pelo contrário, afirmava que devia, pelo menos, haver uma que não tivesse tais defeitos. Palavra puxa palavra e S. Miguel para fundamentar a sua afirmação, resolveu alugar uma nuvem e descer à Terra em busca de uma prova real.
Depois de calcorrear montes e vales, cidades e aldeias, o Santo cansou-se de tanto andar. E tão fatigado se sentiu que resolveu deitar-se à sombra de uma frondosa moita de madressilvas.
Sucedeu, porém, que do outro lado, estavam umas mulheres que, mal o lobrigaram por entre os ramos dos arbustos, começaram logo a sua sessão de maledicência:
Era com certeza um bêbado, porque tinha a cara muito vermelha. E devia ser um ladrão. A roupa que vestia de certeza que a que tinha roubado na Igreja, pois era exactamente a mesma do S. Miguel do altar da capela das Almas...Homem perigoso e de maus instintos...
Entre as mulheres que assim falavam, havia uma velhinha que não disse mal dele e que o fitava, sorrindo, com muito carinho no olhar. E o Santo viu-a. E retribuiu o sorriso. E a candura do seu olhar.
E depois, naquela noite, quando a velhinha dormia na sua cama, o Santo levantou-a com cautela, embrulhou-a num lençol, cobriu-lhe as madeixas brancas com as suas asas de Arcanjo e abalou com ela nos braços.
Ao chegar às portas do inferno, exausto, mas contente, gritou para o interior:
-Demónio de todos os demónios, anda cá! Aqui te trago, para que vejas, a única mulher que não é linguareira, não é intriguista, nem fala dos outros.
Ouvindo tais palavras, o Diabo que estava ocupado na manutenção das caldeiras do Inferno, veio à porta alagado em suor e, ao vê-los, desata a rir como possesso que era. E perante a perplexidade do Santo, sempre a rir, e troçando dele, o senhor dos Infernos, em tom diabólico, vomitando labaredas, disparou:
- Perdeste a aposta, pobre Arcanjo. Essa mulher eu conheço-a. É, de facto, uma excepção à regra... Mas é surda e muda de nascença!
Como vê, minha senhora, isto é apenas uma história tirada das milhentas que se contavam antigamente acerca da língua viperina das mulheres. Histórias do passado, de outras eras, de outros tempos. Desses tempos longínquos em que ainda não existia, como assunto de conversa, a actual casta de políticos tagarelas e maldizentes, nem a tribo desses arrogantes e mentirosos senhores da bola… e dos apitos!

domingo, maio 25, 2008

Os bois



Porque se trata de um “produto” que me entra em casa todos os dias, português refilão que sou, julgo-me no direito de protestar junto dos “fornecedores.” Com rótulos falsos, embalagens enganosas e conteúdos corrosivos, mal se roda o botão o “produto” é expelido pela caixinha mágica qual torrente de lava de cratera de vulcão. Sofrendo quase todos os canais do mesmo mal, convergentes e coniventes na corrida desenfreada para o primeiro lugar nas audiências, pouca diferença fazem uns dos outros. Seja qual for o canal que se sintonize quase não existem diferenças: política, politiqueiros, catástrofes, escândalos, tudo é parecido, tudo é chato, tudo é vulgar, tudo é tristemente igual.
Diz-se por aí que temos um canal público. Não acredito. Ou será que lhe chamam público só porque ele é suportado com o dinheiro dos contribuintes?
Fala-se muito em formação profissional, em mudança de mentalidades, em civismo, em educação… Fala-se. Só isso, pois ninguém parece interessado em passar das palavras aos actos e promover, por intermédio da “caixinha mágica”, campanhas de sensibilização abrangendo essas áreas.
Ninguém duvida que hoje a televisão é o melhor veículo da informação. Haveria, por isso, toda a vantagem em o aproveitar fazendo e transmitindo programas que ensinassem, educassem e formassem os homens de amanhã. Mas é justamente o contrário que se verifica. Grande parte dos programas desaprendem, deseducam e desinformam. Acho que o papel da televisão em cada dia que passa mais desvirtuado aparece e menos pedagógico se torna.
Nos capítulos do civismo e da educação dos jovens, o seu papel bem orientado traria resultados extraordinários. Não devemos esquecer que o Mundo de amanhã será o que a Escola fizer da juventude de hoje. E como a Televisão, também a Imprensa escrita e falada têm o seu quinhão de responsabilidade nessa falta de preparação cujas principais vítimas são as camadas jovens. Por caprichos da história o país teve a infelicidade de ter televisão antes de adquirir hábitos de leitura. E os políticos, por interesses inimagináveis fizeram dela o único instrumento de informação e cultura. Daí que hoje muita gente considere o que se vê e o que se diz na televisão como a verdade verdadeira. E não é assim. A sociedade portuguesa com todos os seus defeitos e atrasos não é aquilo que ela quase sempre mostra. Há por esse Portugal fora muita coisa boa que mereceria ser divulgada. Em vez disso dá-se ao povo a droga que ele pede, em vez da verdade de que ele tanto precisa. Por que não se ministram através do pequeno ecrã aulas de civismo, de educação e de boas maneiras? De toda esta situação, também todos nós somos culpados. Acomodamo-nos e fatalistas, resignamo-nos…E é assim com tudo. Já dizia o nosso Eça:«o povo é um boi que em Portugal se julga um animal muito livre, porque lhe não montam na anca; e o desgraçado não se lembra da canga!...»

sexta-feira, maio 09, 2008

Invocação



Sou, por natureza, optimista. No entanto, quando olho para trás e vejo o começo da caminhada tão distante que já quase se não enxerga, confesso que só com muita força de vontade consigo manter o optimismo.
Nasci nos começos do século passado. Comecei por me deitar em lençóis de linho, tive fatos de burel, estudei à luz do petróleo, dancei ao som da grafonola, cresci aos solavancos, dei marteladas nos próprios dedos, paguei as facturas das dívidas que fiz, aprendi com os erros que cometi, atravessei a vida sem atropelar ninguém e eis-me agora no começo de outro século.
Velho? Quem disse?!...
Bem sei que o tempo está contra mim e que através do calendário e do relógio vai cumprindo a sua missão, modificando-me o corpo. E o que ele já não fez!...
Ao longo dos anos, dos meses, dos dias, das horas, dos minutos e dos segundos ele não parou, e sem dó nem piedade foi fazendo o seu trabalho: com a sua aiveca transformou um jovem rosto rosado numa cara sulcada de rugas que mais parece aquele mapa antigo da minha escola onde estavam assinalados todos os rios portugueses e seus afluentes.
O vento dos Invernos levou-me os cabelos deixando apenas umas repas que circundam uma calva luzidia muito parecida com a do santo patrono da minha aldeia. As pernas, outrora prontas a transpor qualquer obstáculo, tornaram-se pesadas e arrastá-las é o mesmo que puxar uma zorra carregada de calhaus. Do resto do esqueleto não vale a pena fazer a descrição, pois pelo que atrás disse, todos imaginam o seu estado.
Mas o que fazer se é assim que determina a lei da vida?
Nasce-se, vive-se e morre-se. Todos nascemos, vivemos e morremos. Passado, Presente e Futuro. Ora se o Passado já lá vai, se o Futuro a Deus pertence, não será lógico gozar o “agora”, o Presente, aproveitando viver os dias, as horas, os minutos e até os segundos? A vida vem de muito longe, mas ela conhece apenas o presente. Para ela, ontem é morte, e amanhã é um mistério indesvendável.
A felicidade está aqui e agora. Aqueles a quem Deus contemplou com uma velhice saudável devem aproveitar esse bem como uma bênção e agradecer-Lhe sendo generosos e solidários na vida em sociedade, partilhar sacrifícios e responsabilidades, ajudar os que mais precisam e acreditar que mesmo com a nossa pequenez podemos contribuir para um mundo mais fraterno e mais justo.
Dizia meu avô materno, – um homem de bela estatura, nariz adunco, longas barbas, que fazia lembrar um mestre da lei judaica – que a velhice era a última estação antes da paragem final. Palavras sábias!...
Todos sabemos que é impossível voltar atrás, que a carruagem não pára e que qualquer ideia passadista ou conservadora é sempre uma ideia fatalista, inquisidora ou frustrada. Mas sonhar não faz mal. O sonho é o estabilizador da alma. E muitas vezes é o que resta para alimentar o gosto pela vida. De vez em quando invade-me uma espécie de vazio, uma mão cheia de coisa nenhuma. Mas acabo sempre por inventar uma certa arte de fuga substituindo o medo pela alma. E é então que a fé me lembra que há vida para além da morte. Apesar disso e contrariando o poeta que disse que viver sempre também cansa, eu espero que Deus me ajude a suportar esse cansaço ainda por mais algum tempo.

quinta-feira, abril 17, 2008

Insónias



Há cinquenta e sete anos que tenho a mesma cozinheira. De mútuo acordo, além de tratar da paparoca, ela também passa a roupa, cose as meias, pregas os botões, escolhe as camisas que devo vestir, as gravatas que devo enrolar ao pescoço e, como já devem ter adivinhado, com toda esta promiscuidade, também me dá ordens. É ela quem manda, ponto final, parágrafo!
Por mais que lhe diga que não quero comidas fortes à noite, ela insiste e ainda ontem às sete da noite lá estava, sobre a mesa, uma açorda de marisco a piscar-me o olho… Refilei e a resposta foi a do costume: «Ó homem, se te faz mal, não comas…» Mas, (maldita gula!...) comi. Resultado: voltas e mais voltas na cama e sono… nicles!
Experimentei todas as artimanhas para que as pálpebras se fechassem e mesmo o truque de contar carneiros não resultou. A certa altura tive até a sensação de que o quarto estava cheio dos ditos lanígeros! Não havia dúvidas, Morfeu estava zangado comigo.
Levantei-me, e pé ante pé dirigi-me ao quarto que me serve de escritório. Não sei se já alguma vez vos disse que o considero como uma espécie de “esconderijo”. Sob o pretexto de que estou a trabalhar, consigo fazer com que ninguém me incomode. Se de vez em quando me batem à porta, basta eu levantar o braço para ela se fechar de novo… Bem sei que nem sempre “a minha chefe” acredita que eu esteja de facto a trabalhar a sério, mas lá faz de contas e assim evitamos a troca de algumas palavras menos meigas… Mas é ali naquele cantinho que me sinto rei e senhor.
Mas voltando à minha “espertina”, mal abri a porta do meu refúgio deparei com um cenário deveras insólito: na pequena mesa, mesmo em frente ao computador, as letras do alfabeto, estavam todas reunidas.
Do A até ao Z lá estavam elas e um pouco mais longe o K , o W, e o Y , com ar desconfiado pareciam aguardar qualquer decisão… A princípio pensei que se tratava das letras do teclado. Mas não. Elas mexiam-se sozinhas e não precisavam de dedos para se movimentarem. Eram mesmo as do alfabeto. Havia também alguns acentos gráficos e sinais de pontuação, mas o mais empertigado e que me pareceu mais nervoso foi ponto de interrogação.
Dos acentos, o til, era o mais descontraído. Das letras, as mais revoltadas pareceram-me o “C “e o “P”. Não me contive e quis saber o que se passava. Respondeu-me o ponto de admiração: «Que se tratava de um plenário convocado a pedido de algumas letras do alfabeto revoltadas com a sua despromoção com a entrada do novo acordo ortográfico. As mais furiosas eram o “C” e o “P”. O “C” não se conformava por o terem suprimido da acção e o “P” reivindicava o seu lugar no baptismo…A entrada do “K” do “W” e do “Y” estava também a ser contestada…»
Instintivamente olhei para a estante dos dicionários e quando pensei na “revolução” que os esperava, perdi o sono de vez. E num acto de solidariedade para com as consoantes que foram suprimidas de certas palavras, comecei a “martelar” furiosamente o teclado do computador, expressando assim, acordado, o meu protesto contra o acordo.

sexta-feira, abril 11, 2008

Senhor Ministro




Excelência
Todos os anos, por ocasião do aumento das pensões, costumo escrever-lhe uma carta. E, apesar de até à data não ter recebido qualquer resposta, teimoso que sou, aí vai mais uma.
Ainda pensei em não lha mandar este ano. Mas quando vi e ouvi o seu secretário de Estado, um tal Pedro Marques, empoleirado no seu galho e acoitado sob o manto da irresponsabilidade pronunciar aquele chorrilho de patacoadas, então não me contive…Como quem atira rebuçados a miúdos, o fulanito queria, todos os meses e durante catorze, enviar 68 cêntimos aos idosos pensando que com isso estava a fazer uma obra de caridade! Com que então se pagassem o aumento extraordinário aos velhotes em Dezembro, eles gastavam-no todo de uma só vez?!...
É preciso não conhecer minimamente as condições de vida em que vivem os milhões de pobres do País para proferir tais insanidades!... Saberá o Senhor Marques que, nalguns casos, para muitos reformados o aumento se traduz nuns míseros cêntimos por dia? Saberá que a pensão de muitos idosos não chega para pagar a conta na farmácia? Saberá o Sr. Pedro que muitos deles trabalharam mais de meio século sem nunca se terem sentado à mesa do orçamento, pagando sempre os seus impostos e nunca “abicharam” um cargo apadrinhado, como é o seu caso?
Se alguns figurões conseguem um montão de notas em poucos anos sem nada fazer, é porque, como diz o ditado, “na terra de cegos quem tem olho é rei...” O nosso Camões morreu pobre talvez porque só tinha um, e em vez da política optou pelos “Lusíadas”. E lixou-se... Dizem que morreu à fome e, paradoxo dos paradoxos, muitos, agora, enchem a boca com o seu nome…
No meu caso e falando de aumentos, não sei ainda o que irei fazer com o meu e o de minha mulher. Mas sou capaz de aceitar a sugestão da patroa que é de constituir uma espécie de fundo de poupança que nos permitiria nas próximas eleições ter dinheiro suficiente para comprar uma lata de tinta preta e pincéis para nos deliciarmos a borrar, nos cartazes de propaganda, as “fuças” dos novos pretendentes ao trono.
Deixe-me também dizer-lhe, Excelência, e reforçando o que acima escrevi acerca do seu secretário, que não seria pior arranjar-lhe outro cargo, pois ele não tem sensibilidade para o que ocupa. Não acha que o que ele disse foi como que um ultraje aos pobres e aos velhos que recebem uma miséria?
Em contrapartida e apesar de a percentagem ser menor, os ricos, porque auferem pensões “astronómicas", agradecem-lhe. Mas não esqueça que os pobres são muito mais. E que o seu número não cessa de aumentar. Cuidado. Nunca ouviu dizer que a “fome não tem lei?...”
Todos nós sabemos que o mal vem de trás. Mas o exemplo deve vir de cima. E não vem... Os esbanjamentos não param. Disfarçados, é certo, mas continuam. Aos pequenitos já nem o cartão de eleitor lhes vale, pois por mais que escolham, menos acertam. É indiscutível que atravessamos uma crise muito grave. Porém, são sempre os que menos têm e que mais precisam, que a pagam... E o senhor Ministro, mais uma vez, exemplificou bem essa dolorosa, imoral e triste realidade!...

domingo, março 30, 2008

Sorria



Para mim, o remédio para andar sempre bem-humorado consiste em aceitarmos as coisas tal como elas se nos apresentam fingindo que era assim que nós as desejávamos. Penso também que se o homem das cavernas tivesse sabido rir, a História teria tomado um rumo muito diferente.
Até mesmo o nosso primeiro Rei se em vez das palavras feias que dizem ter dito à mãe soltasse uma estridente gargalhada, estou certo que a nossa gasolina não estaria tão cara e Zapatero teria tido mais votos nas últimas eleições!
Perante toda esta balbúrdia e insubordinação que alastra por todo o rectângulo só há uma única arma para lhe fazer face – o riso! Só com uma espontânea gargalhada se pode fazer frente a todas estas "criancices" da nossa gente graúda.
A antiga maneira de dividir a nossa fauna em bons e maus, sinceros e falsos, velhos e novos, sábios e analfabetos, passou à história. Agora, cá no cantinho instaurou-se uma nova era com quatro categorias de indivíduos: - os que mandam, os que fingem que trabalham, os que trabalham de verdade, e os "outros".
Na categoria dos que mandam podem incluir-se não só os donos do poder como também aqueles que por misteriosas artes e manhas se tornaram donos e senhores de fortunas incalculáveis. Na categoria dos que fingem trabalhar, estão aqueles cujos salários lhes "caem" na conta logo a partir do meio do mês; na dos que trabalham de verdade, a percentagem não pára de diminuir e segundo as estatísticas é uma classe em vias de extinção.
Restam os "tais outros", que são os mais felizes: - são alérgicos ao trabalho e não pagam impostos. Ou recebem o RMG, ou estão no desemprego. Ambos, normalmente, fazem uns biscates por fora o que lhes permite viver sem problemas. Criticam o governo em casa, batem palmas na rua, mas a sua ideologia tem mais a ver com dinheiro do que com ideias. Riem-se de todos: dos que mandam, dos que fingem trabalhar e dos que trabalham. Dos que mandam, porque lhes comem as papas na cabeça; dos que fazem de conta que trabalham, porque sabem fingir melhor, e dos que trabalham porque, sem nada fazer, recebem ordenado. Um autêntico reino do riso. Por isso ninguém de bom senso pode levar a sério tanto disparate. E como não podemos lutar contra tantos acomodados e tantos comodistas, resta-nos, como arma, o riso. Riamos, pois, e cultivemos o humor. É a única maneira de prevenir, além de outras doenças menores, as perigosas úlceras nervosas e as fatais doenças cardíacas. Em vez de dar murros na mesa, ria à gargalhada, caro leitor. Nem sempre é fácil, eu sei. Mas já pensou que se o dinheiro fosse só para os inteligentes, os bons lugares para os competentes, a popularidade para os honestos, acha que poderíamos continuar a existir como País?!... É a história da carteira e da consciência. Mas não se esqueça que carteira e consciência são coisas bem distintas. É preferível, por isso, sonhar de vez em quando do que ter pesadelos constantemente.

sexta-feira, março 21, 2008

L'Art de vieillir

Vieillir, se l'avouer à soi même et le dire
tout haut, non pas pour voir protester les amis,
mais pour y conformer ses goûts et s'interdire
ce que la veille encore on se croyait permis.

Avec sincérité, dès que l'aube se lève,
se bien persuader qu'on est plus vieux d'un jour ;
à chaque cheveu blanc, se séparer d'un rêve
et lui dire tout bas un adieu sans retour.

Aux appétits grossiers, imposer d'âpres jeunes,
et nourrir son esprit d'un solide savoir,
devenir bon, devenir doux, aimer les fleurs,
aimer les jeunes, comme on aima l'espoir.

Se résigner à vivre un peu sur le rivage,
tandis qu’ils vogueront sur les flots hasardeux,
craindre d'être importun sans devenir sauvage,
se laisser ignorer tout en restant près d'eux.

Vaquer sans bruit aux soins que tout départ réclame,
prier et faire un peu de bien autour de soi,
sans négliger son corps, parer surtout son âme,
chauffant l'un aux tisons, l'autre à l'antique Foi.
Puis un beau soir, discrètement, souffler la flamme
de sa lampe et mourir parce que c'est la loi.
Jean Fabié

sábado, março 15, 2008

Ave Maria

Ave Maria
Ave Maria
Ceux qui souffrent viennent à toi
Toi qui as tant souffert
Tu comprends leurs misères
Et les partages
Marie courage
Ave Maria
Ave Maria
Ceux qui pleurent sont tes enfants
Toi qui donnas le tien
Pour laver les humains
De leurs souillures
Marie la pure
Ave Maria
Ave Maria
Ceux qui doutent sont dans la nuit
Maria
Éclaire leur chemin
Et prends-les par la main
Ave Maria
Ave Maria, Ave Maria
Amen

Charles Aznavour

sexta-feira, março 07, 2008

Politicamente incorrecto



Politicamente incorrecto
É corrente ouvir dizer – quando alguém se refere à classe política – que cada povo tem os políticos que merece. Admitindo, por hipótese, que a afirmação é verdadeira, que pecado teríamos nós cometido para que Deus nosso Senhor, nos tivesse dado como penitência aturar as traquinices de alguns dos políticos que se sentam nas cadeiras do Parlamento?
Li não sei quando nem em que livro que “a política é como o haxixe que enriquece os que o vendem e embrutece os que o fumam...”
Acho que não pode haver melhor definição para essa “arte”. Os que a praticam percorrem os caminhos da vida em carruagem de primeira classe; os que têm de se sujeitar às suas normas ficam apáticos e embrutecidos devido às exageradas doses de demagogia que inalam sempre que ouvem suas excelências.
Aqueles que na sexta-feira passada viram através da televisão ou leram nos jornais a troca de “mimos” havida entre o Governo e a Oposição (?) devem ter ficado apalermados e ao mesmo tempo esclarecidos quanto à decência, respeito e educação de cada um dos intervenientes na “batalha”. Uma vergonha!...
O Parlamento é, como todos nós sabemos, o espelho da Nação. É ali que se devem discutir os destinos do País, os males de que enferma e os remédios a prescrever para erradicar ou atenuar tais doenças.
Mas o que ali se vê é simplesmente o contrário. Do País não se fala. E se, por acaso, isso acontece, em vez de procurar antídotos para a doença e alívios para o paciente, logo toda a “família” desvia o debate, abandona o interesse nacional e o hemiciclo transforma-se num um lavadouro público.
Insultos, insinuações maldosas, palavras e expressões pouco próprios para o local, enfim, uma falta de decoro tal que, quando vemos, lemos ou ouvimos tais disparates, logo nos assalta uma pergunta: - Com gente desta como pode o País sair do lodaçal em que se encontra?!...
Sem querer entrar pelos caminhos sinuosos e controversos das ideologias,
nem evocar ou elogiar o passado fazendo dele emblema, devo esclarecer que fui criado no tempo em que ainda éramos camponeses. Camponeses pobres, tementes a Deus e educados no respeito àqueles que também se faziam respeitar. E que se respeitavam uns aos outros. Tempos ingratos, esses. Tempos difíceis, de muito trabalho e pouco dinheiro. Mas talvez por isso, de mais respeito, de mais educação, de mais humildade e de menos vaidade e prepotência.
Como é sabido, não morro de amores pela classe política e, por isso, há quem tente, de vez em quando, colar-me nas costas, à sorrelfa, alguns rótulos: saudosista e velho resmungão são os mais frequentes. Podem continuar a chamar-me mais nomes, porque além de ter as costas largas, nem todas as vozes chegam ao Céu, como diz o ditado.

quinta-feira, março 06, 2008

Na velha capela

Em busca de ajuda

É aqui em silêncio profundo,
À luz da lâmpada cintilante,
Que sinto a força dum outro mundo
Que está longe e muito distante…

Além, dentro daquele Sacrário
Que a luz da lâmpada ilumina,
Está simbolizado um Calvário,
Uma força suprema, divina.

Sou indigno de ver-te tão perto
A Ti luz de bondade e amor.
Sou pecador, mas estou certo
Que tens o coração aberto
Para acalentar a minha dor!

13/12/1948

Para além da Morte...

A dor que lentamente vai minando
Este meu pobre corpo decadente,
É cada vez mais forte, mais pungente,
À medida que o tempo vai passando.

Pouco a pouco meu mal vai aumentando
Num constante minar de corpo doente
Até que o sofrimento me demente
E, pobre louco, a morte vá buscando.

Eu sei como acabar este tormento:
Bastava apenas um dor mais forte
E, logo após… eterno esquecimento!

Um veneno, uma bala, um simples corte...
Que bom morrer assim, em um momento,
Se não houvesse vida além da morte!...

Aveiro, 1948

Mulheres da rua






A horas mortas
Por ruas tortas
Elas bocejam…
Esperam confiantes,
Os seus amantes
Que depois as beijam.
Vendendo o seu corpo
Por preço vil
Habitam cabanas
Um triste covil.
Mostram-se se ao mundo
Com prazer
E num beco imundo
Fazem amor
A valer.
Almas tristes
Despedaçadas,
Elas vendem-se
Pelas estradas.
Um dia que passa
Não tem valor.
Despreocupadas
Nuca cansadas
-Tristeza das gentes!...
Brincam inocentes
Com o amor.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Provérbios



Enganam-se todos aqueles que pensam que tento, através dos meus rabiscos, dar lições de moral ou ministrar a catequese a quem quer que seja. Nada disso. Soube sempre, durante a vida, assumir com humildade a minha ignorância e tento sempre não pisar o risco do círculo que delimita o meu saber. Muitas vezes tropeço em assuntos que mereceriam ser "arejados", mas porque ultrapassam os meus conhecimentos, retiro-os com jeito do caminho, e passo à frente.
Serve, por isso, este preâmbulo, para pôr as coisas no seu devido lugar informando alguns leitores de que os meus escritos não passam de simples e despretensiosos desabafos. Diz o ditado que "quem não deve não teme" e, por tal facto, penso poder expressar o que sinto cá dentro.
Também não escrevo por vaidade ou em busca de protagonismo, pois como diz também outro ditado "se queres viver tranquilo não acendas muitas luzes no teu caminho"... E é o que faço. E como os tempos já não permitem que se use o pau de marmeleiro, remédio antigo, mas eficaz, resigno-me, e aconchego-me bem sossegado no meu cantinho e, de vez em quando, no silêncio da noite, sem incomodar ninguém, entretenho-me a deitar, borda fora, todo este meu inconformismo acumulado. E escrevo. E confio ao papel o que me vai na alma…
Hoje, por exemplo, ao ouvir as reacções dos vários partidos políticos às palavras proferidas pelo Bastonário da Ordem dos Advogados acerca da corrupção, – esse espécie de sarna que grassa pelo País – mais uma vez tive a confirmação, com bastante tristeza, de que caminhamos a largos passos para a decadência total. De uma forma ou de outra todos sacodem a água do capote. Reina a hipocrisia no reino da Papagália. Todos palram, todos se esquivam, e ninguém tem culpas no cartório, embora o "assunto" tenha sido ventilado vezes sem conta. Mas... todos unidos, todos inocentes. Uns santinhos…
Os nossos valores que assentavam nos princípios da Fé Cristã, do Patriotismo e da Família, pouco a pouco, vão desaparecendo. É o preço que temos de pagar pelo progresso, dizem os entendidos. É assim a Democracia, arengam os outros – aqueles que dela se servem para enriquecer sem esforço, servindo-se dos "buracos" nas leis, alguns deixados propositadamente para eventuais "fugas".
E já repararam que esta maneira de governar só defende os interesses do grande capital e vai retirando aos mais pequenos, não só o produto do seu próprio trabalho como também os direitos e regalias conquistados ao longo de séculos? O que será preciso acontecer para que os burocratas do Terreiro do Paço, abandonem os seus gabinetes climatizados onde se fecham para decretar medidas teóricas, e venham conhecer o verdadeiro País?
E por que não vêm?!... Não de fugida, como é hábito, para inaugurar ou reinaugurar uns quilómetros de betão, mas para ficar algum tempo e poderem inteirar-se das reais necessidades de quem vive longe de tudo...
Mas voltando às palavras do Bastonário da Ordem dos Advogados que motivaram este desabafo de hoje, estou certo de que à semelhança do que tem vindo a acontecer há anos com as inúmeras denúncias sobre o mesmo caso, tudo não passará de simples "fumaça", pois os lobos não se comem uns aos outros. E isso durará enquanto houver "caça" miúda que se apanha com facilidade. E já agora, para terminar, permitam-me que cite mais um provérbio, o da semana passada: «É preciso tirar o dinheiro aos pobres. Eles têm pouco, mas são muitos..."

domingo, fevereiro 17, 2008

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Chefes


Chefes
Não sei se conhecem a história. Ela é velhinha como eu, mas vou contá-la outra vez, mesmo que, ao fazê-lo, corra o risco de que muitos não lhe achem graça nenhuma. Mas não faz mal. Ela aí vai…
Era uma vez um homem que entrou numa loja de passarada para comprar um papagaio. Deu uma volta pelo estabelecimento, olhou os vários palradores expostos para venda e dirigiu-se ao encarregado:
- Quanto custa este pássaro aqui, ó amigo? - Esse, respondeu o interpelado, custa 500 Euros. - É caro o passaroco, respondeu o comprador. -E este aqui? - Esse custa 1.000 euros, freguês, retorquiu o vendedor. - Tanta diferença no preço – estranhou o hipotético adquirente. - É que esse tanto fala português, como francês, alemão ou inglês, explicou por sua vez o dono da passarada. - Então e aquele além? - Aquele vai prós 1.500 euros, mas além de falar várias línguas, sabe também atender o telemóvel…
- E o último lá ao fundo, à direita? - Ah! Esse é pássaro para 2.500 Euros!... Ena pá! E o que faz ele para custar assim tanto dinheiro? - Lá isso não lhe sei dizer, respondeu o vendedor. Mas logo explicou: - O que sei dizer é que aqui na loja todos os outros lhe chamam chefe…
Os que acharam graça podem continuar a ler. Os outros, deixem a leitura, mas não joguem o jornal para o chão. Ponham-no no papelão para ser reciclado.
Antigamente, os jornais, no fim de lidos, tinham vários préstimos: ou rasgavam-se em pedaços e levavam-se para a “casinha”onde serviam para aquilo que imaginam; ou guardavam-se para servir de esteira para pôr a fruta no sótão; ou as mulheres que vendiam sardinha de porta em porta serviam-se deles para embrulhar as ditas; ou os merceeiros poupavam o papel almaço e faziam cartuchos onde metiam o arroz que depois pesavam… e havia até quem os usasse para calafetar as portas e as janelas no Inverno. Vejam lá!...
Assim, o jornal, além da leitura e depois desta terminada, tinha ainda muitos outros préstimos, como atrás se exemplifica. Eram outros tempos e os jornais dessa época não traziam tantos “explosivos” escondidos nas suas páginas. Eram, se quiserem, jornais “biológicos”!
Mas voltemos à história que deu origem a este borrão de hoje. E volto aos papagaios e aos chefes, para vos dizer que somos de facto um País de chefes. Muitos chefes. Chefes como o papagaio da história que nada fazem, nada valem, mas que…por artes de berliques e berloques foram promovidos e colaram-lhe nas costas uma etiqueta de chefe. E ele há chefes por todo o lado. E são tantos que qualquer dia não há quem trabalhe, porque chefe é chefe, e chefe não trabalha. E se hoje me lembrei da história, é porque quando ouço os nossos “chefões” falar de produtividade, de profissionalismo, de competição, lembro-me sempre do papagaio do qual o vendedor nada sabia a não ser que lhe chamavam chefe!...

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Ladrões




Como já tenho escrito várias vezes, sou ainda do tempo em que os ladrões eram pobres. Se alguns dormiam debaixo de telha, a maior parte tinha de se acoitar sob o vão de uma escada, num canto de uma velha casa abandonada ou num palheiro distante do povoado onde dormitavam nos intervalos dos “trabalhinhos”.
Era difícil a sua vida naqueles tempos!...
Trabalhavam, sobretudo, a coberto da noite e usavam as mais rudimentares ferramentas, enfrentavam os mais variados perigos, não tinham sindicato que os defendesse e acabavam muitas vezes nas masmorras húmidas duma cadeia comarcã. Vida difícil!...
Todos lhes eram hostis e a sociedade desse tempo defendia ferozmente os interesses do roubado e estava-se marimbando com a sorte do autor do roubo.
E isso era uma injustiça flagrante, pois as proezas arriscadas e por vezes perigosas do ladrão em nada se comparavam com a pacatez e indolência do roubado. E injustiça tanto mais grave quanto era certo que o roubado tinha a seu favor, não só as Companhias de Seguros, como a acção da polícia e a cumplicidade dos magistrados. Acrescente-se ainda que os ladrões faziam parte de uma classe onde não existia a palavra “greve”, pois se a “propriedade é o roubo”, sem ladrões desapareceriam os proprietários, os tribunais, os magistrados e seria o crescimento incontrolável do desemprego, coisa de que não se falava então…
Mas, mudam-se os tempos… e tudo isso pertence ao passado. Foram-se os “pés de cabra”, as gazuas, os alicates e hoje basta uma esferográfica para fazer o “trabalhinho”!
O roubo entrou definitivamente nos nossos costumes com regras e até com estatuto de associação. Hoje é o “desporto” mais em voga e o mais lucrativo – os ladrões são ricos e a profissão estende-se a todas as classes. E quanto maior for o furto, mais importância adquire o seu autor. Há até alguns que possuem títulos nobiliárquicos, sem falar das “excelências” e de outros títulos honoríficos que precedem o nome de muitos desses novos profissionais da ladroagem.
E que ninguém tenha dúvidas, porque a este ritmo tudo leva a crer que graças ao avanço das ciências, da tecnologia e às mil interpretações da moral, só terá futuro quem tiver feito estágio ou adquirido um diploma dessa profissão!
Os velhos tempos acabaram… E volto a citar Almada Negreiros: «É tão indecente estar sóbrio no meio de bêbados, com é indecente estar bêbado no meio de gente sóbria…».
Perceberam?!... Se não perceberam, estou às vossas ordens para explicar.

sábado, dezembro 29, 2007

Fiquei triste, minha senhora!...


(Texto escrito e publicado em 16 de Julho de 2004)
A recente decisão do senhor Presidente da República de não convocar eleições antecipadas, para além do terramoto político que provocou, permitiu também que ficássemos com uma ideia, ainda que pálida, de algumas personalidades que gravitam nas altas esferas da vida política portuguesa.
Poderia citar várias, mas a que mais surpresa me causou pelo chorrilho de impropérios e pela agressividade como criticou o mais alto Magistrado da Nação, foi, sem dúvida a secretária nacional do PS, Ana Gomes.
Talvez pela maneira como desde pequeno me ensinaram e depois me habituei a admirar e louvar a sensibilidade feminina, confesso que me constrangeu ainda mais a maneira desbocada (perdoem o termo) como proferiu aquelas palavras à intenção do Presidente da Republica.
Daqueles olhos que eu vi há anos verter lágrimas de alegria aquando do processo da independência de Timor, brotaram agora autênticas chispas de raiva e de ódio não contidos.
Fiquei triste, minha senhora!...
Fiquei triste por ser obrigado a substituir aquela sua patriótica, afável, enérgica e humana imagem que guardava dentro de mim, por esta outra de agora – olhar desvairado, cara deformada pelo rancor e boca sequiosa de vingança.
Nas derrotas, e para os que não sabem perder, o orgulho pessoal e a convicção de superioridade, cerra-lhe os olhos e faz com que percam a noção de uma das mais nobres virtudes dos seres humanos – a humildade!
Ser humilde, saber enfrentar as contrariedades da vida, além de virtude é também uma característica das grandes personalidades. E eu sempre pensei que a senhora pertencia ao número delas. Mas enganei-me…
Quando a ideologia e o sereno juízo dos factos são substituídos por reacções puramente afectivas, facciosas e intolerantes, perde-se por completo a noção das coisas. E foi o que aconteceu…
Lá bem no fundo, e passada que foi a vaga de revolta que lhe tolheu o discernimento, deve ter reconhecido, minha senhora, que a sua atitude e o seu comportamento, não foram, minimamente, compatíveis com o lugar que ocupa.
Um democrata verdadeiro nunca perde o norte, quer quando a frustração lhe bate à porta quer quando a sorte lhe entra pela janela…
Fiquei triste, minha senhora!...
Fiquei triste, porque – e repito-me – dos olhos que vi brotar lágrimas de alegria, e da boca que ouvi palavras de grande elevação patriótica, vi agora sair fulminantes faíscas de ódio e palavras arrogantes, rancorosas, impregnadas de prepotência e de má educação…

Vaticínios




No fim de mais um ano que não nos deixa boas recordações, e no começo de outro que segundo já predizem os oráculos não vai ser nada melhor, não sei, francamente, o que hoje vos hei-de dizer quanto à maneira como se irá comportar o figurão que aí vem – o 2008…
Para já, e sem que isso constitua desrespeito ou concorrência desleal para com os nossos astrólogos oficiais, eu aventurar-me-ia a prever para 2008 um ano decisivo, isto é, um ano do “ vai ou racha”.
Dito por outras palavras: ou os nossos políticos começam a fazer uma espécie de recruta no país profundo para conhecer as suas verdadeiras necessidades dando, ao mesmo tempo, exemplos de trabalho aos indígenas ou então continuaremos na mesma cegarrega e arriscamo-nos a ser incorporados no país vizinho, como aliás, já o vaticinou o nosso Nobel.
Em qualquer dos casos, quer chova quer faça sol, os mandantes, esses, estão-se nas tintas. Quer a coisa vá bem quer não, nada perdem, porque há sempre dinheiro para eles. E por mais perigosas que sejam as suas piruetas no trapézio da governação, há sempre por baixo a rede do Zé que em caso de queda os catapulta para outros trampolins.
«É a vida! …» Como costumava dizer um dos nossos ex-mandantes, o tal das “paixões” que se escapuliu e se despediu à la française, mas que hoje está bem na dita cuja!
Mas foi sempre assim. Não julguem que por agora termos auto-estradas com portagens, “metro”, TV por cabo, telemóveis da 4.ª geração, Internet, brevemente TGV, um aeroporto ainda sem lugar certo, que as coisas mudaram!... Ora leiam, (mudem apenas as datas) o que escreveu em finais do século dezoito o nosso Fialho de Almeida:
«Na ratoeira do tempo ainda ignobilmente está a agonizar 1889, e já ao faro do queijo, o ratinho de 90 se prepara a esfuziar pela portinhola do cárcere, a sua cabeça aguda e chata de roedor. (…) - «Ele aí vem 1890!... Com o mesmo parlamento a esbarrondar de intrigas e ambiciúnculas corriqueiras, a mesma bobagem turva nas cumeeiras do Estado; a mesma inanidade nos tipos, a mesma falta da iniciativa nos caracteres, e esterilidade idêntica nos ventres das mulheres, nos cérebros dos homens, e na cornucópia sôfrega dos argentários. 1890, é mais um acto desta farsada da vida em que os homens se entrechocam como Polichinelos, sem o respeito que salvou a geração dos nossos Avós, e sem o desprezo que foi longos anos a grande força cívica dos nossos Pais. – Rato de esgoto passa depressa, e livra-nos de ti…»
Por isso, percam as esperanças os ingénuos, os que ainda acreditam nas palavras de políticos. De nada vale escrever, falar, barafustar, praguejar ou reivindicar. Eles não nos ouvem. Ergam as mãos ao Céu – aqueles que, como eu, acreditam – e peçam a Deus muita saúde, paz e alegria, porque cá em baixo ninguém nos ouve.

Feliz Natal


Feliz Natal
Neste mundo apressado e frenético em que vivemos, só as crianças, na sua inocência e simplicidade e com a pureza que brota dos seus corações, continuam a transmitir a mensagem de esperança, de solidariedade, de paz e de amor que há mais de dois mil anos, esse Menino veio trazer ao Mundo.
Os homens, numa luta contínua e ambiciosa, – primeiro na terra, depois nos mares, nos ares e agora nos espaços interplanetários, pouco a pouco, se foram esquecendo de si próprios.
E por mais paradoxal que isso pareça, quanto mais o homem avança e mais descobre, mais ele se apaga e mais a sua imagem original se desvanece nessa corrida vertiginosa que a vida lhe impõe. Preso na automatização que criou, ele tende cada vez mais a transformar-se numa simples peça de uma engrenagem maldita, da qual jamais poderá libertar-se.
Dei comigo a pensar em tudo isto num hipermercado rodeado pela multidão frenética, apressada e eufórica que por entre atraentes brinquedos, inúmeras iguarias, e tentadoras embalagens de prendas, se acotovelava ao som do "Jingle Bell" facturado em jeito de rock e lançado pelos alto-falantes espalhados por todos os cantos.
Um outro mundo, esse!... Um mundo mágico e fantasmagórico, tornado ainda mais quimérico e irreal pelo piscar intermitente de miríades de luzinhas coloridas. À música, juntava-se a algaraviada daquele formigueiro que, em longas filas, carrinhos a abarrotar, esperava a sua vez. Novos, menos novos e muitas crianças – um ror de gente!
Comparações com o Natal da minha infância? Impossíveis... Nem parecenças com aquele Natal tranquilo, quase sem brinquedos! Uma noite diferente envolta no perfume da resina das pinhas a aquecer junto à lareira para extrair os pinhões; os estalidos do troco que ardia; as panelas de ferro de três pés onde, conjuntamente, coziam as batatas, as couves e o bacalhau para a ceia; as filhós de farinha de trigo que minha Mãe tão bem fazia... e que tão bem sabiam lambuzadas com o mel das nossas colmeias!...
E o presépio, na velha capela, revestido com heras e musgo onde um menino gorducho, de faces rosadas, com um dos dedos do pé já partido, parecia sorrir? E a Missa, e depois a fila para beijar o Menino; e as ofertas que se depositavam num açafate de vime; e os cânticos, ainda sem instrumentos musicais; e depois o regresso a casa, agasalhados nas samarras, nas capuchas de burel ou nos xailes de merino? E aquele matraquear dos socos e dos tamancos nos degraus luzidios da escadaria de loisa...
Mas tudo mudou!... No entanto, e porque o Natal «é a festa de uma criança que acabou de nascer», ela pressupõe sempre um recomeço que muitas vezes é um reviver do passado. Um encontro com o presente. Com muitos sonhos à mistura. E muitas recordações. Nunca ouviram dizer que os velhos passam o tempo a recordar?!...
Um santo e feliz Natal para vós todos.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Peadelos


Pesadelos
Sem saber como nem porquê, dei comigo sentado numa cadeira da última fila da sala de aulas da minha neta mais nova…
O "sôtor" não tinha nada daqueles mestres do meu tempo que eram assim mais "pesadotes" na idade e mais escrupulosos no vestir. Este vestia calça de ganga, e oficiava em mangas de camisa. Por falta de um botão, via-se um peito cabeludo onde luzia um fio prateado, na extremidade do qual baloiçava um berloque. Calçava sapatos de ténis que deviam ter nascido brancos, mas que, agora, a idade ou os maus tratos, tinham transformado num arco-íris rastejante. Mas era, na linguagem da minha neta, um professor porreiraço...
Constava que a sua especialidade era a Agricultura, pois possuía uma licenciatura num desses novos cursos, – Ciências Agrárias, se não estou em erro – mas em face da crise nesse sector, virou-se para o ensino e lá conseguiu umas aulas...de português!...
Estava eu nestas conjecturas quando o mestre começou a aula:
«Como já por várias vezes tenho afirmado – começou ele dirigindo-se à turma – quanto a mim, para que o aproveitamento na disciplina de português seja o desejado, devemos acabar com essa parte da gramática a que chamam ortografia. Acabando com ela, suprimem-se os erros ortográficos..."
Engoli em seco, mas achei uma certa lógica no raciocínio, pois se cortarmos o pescoço a qualquer fulano, ele não sofrerá mais de dores de cabeça pensei eu cá p'ra mim.
"Os pequenos – continuou – não gostam da disciplina de português, porque a maior parte das palavras não se escrevem como se pronunciam, ou se pronunciam de maneira diferente da que se escrevem..."
Raciocínio foneticamente muito discutível, mas que deixei passar…
"A ortografia – insistiu – porque só uns tantos a praticam, é um elemento de segregação social. É até uma forma, camuflada, de racismo! Por isso, não só contribui para o empobrecimento cultural, pelo tempo que rouba e pelos sentimentos xenófobos que desperta, como também é responsável pelo enfraquecimento do espírito, tendo em conta o esforço que exige..."
Raciocínio de cariz político-partidário, que fingi não perceber…
"Porque – continuou, já vermelho e a transpirar – a ortografia é, nos nossos dias, uma coisa arcaica que cheira a mofo e não tem cabimento numa sociedade de tecnologias avançadas. Vivemos quase meio século no cárcere do obscurantismo. Há mais de duas décadas que dele nos libertaram!... Então por que esperamos para deitar no lixo as grilhetas que ainda nos prendem a esse passado, (que eu nem sequer conheci!...) mas que dizem ter sido sinistro e castrante, indolente e conservador?!..."
E foi então que me levantei e, revoltado, agarrei o ilustre “pedagogo” pelos colarinhos e expliquei-lhe em altos berros que no "tal passado que ele nem sequer tinha conhecido", a maior parte daqueles que faziam a quarta classe ficava a saber escrever correctamente o português, sem erros ortográficos!...
Entretanto apareceu um “segurança” – é assim que agora são designados os homens a que outrora, nos colégios, se chamavam “ prefeitos” – e sem mais aquelas, pegou-me por um braço e pôs-me na rua. Mas não parei de espernear e foi só quando minha mulher me deu um safanão que eu acordei…

sexta-feira, novembro 16, 2007

SOLILÓQUIOS...

No silêncio da noite
Na quietude da noite, tonalidade da música quase no zero, aqui estou a escrever sem saber bem por que o faço. Talvez pela necessidade de esvaziar esta arca velha, de desabafar, de fugir de mim mesmo, de me afastar daquilo que me rodeia, me incomoda, e criar à minha volta um mundo novo, tranquilo, sem pressas e sem competições.
Utopia?... Que o seja, mas sinto muitas vezes essa necessidade de reinventar esse outro mundo e esquecer aquele por que passei.
E nesse desejo, nessa ânsia, muitas vezes, sem me aperceber, esqueço-me de mim mesmo e invento outra personagem. Totalmente diferente. Uma silhueta, uma espécie de fantasma que pouco dura e que acaba por desaparecer submersa nas vagas da minha própria imaginação.
É difícil “fugir” da aparência, da fachada, da máscara com que disfarçamos uma felicidade que nunca atingimos. É sempre difícil se não impossível despir completamente a indumentária que vestimos ao longo de muitos anos.
E é também difícil localizarmos no nosso imaginário aquele momento mágico em que nos foi oferecida a ocasião de optar, de escolher o rumo certo, aquele que agora, depois desta longa distância percorrida, pensamos teria sido o ideal...
Mas será que alguma vez na nossa adolescência nos apercebemos desse momento enigmático, dessa encruzilhada de caminhos que a vida nos mostrou para podermos escolher o tal rumo certo?!...
É curioso como apesar de todos estes anos de peregrinação por este vale de lágrimas, esta ânsia de reinventar um outro caminho que não o percorrido, continue, de vez em quando, a atravessar-se no caminho dos meus pensamentos, colocando dúvidas e interrogações difíceis de satisfazer!
É curioso também que mesmo numa idade avançada se continue a sonhar e a ter pesadelos. Sobretudo pesadelos, porque os sonhos, quanto a mim, têm uma grande lógica interna e uma grande coerência interior. Eles permitem-nos, enquanto duram, alimentar esperanças e dão-nos também alento para reforçar a nossa auto-estima ainda que envoltos num manto diáfano e enganador....
É que todos nós temos virtudes e defeitos tornando-se por isso, e à medida que o tempo vai passando, mais importante consciencializarmo-nos da nossa imperfeição.
Bem sei que nesse turbilhão de ideias, nesse emaranhado de interrogações e sem possibilidade de voltar atrás, nos resta apenas dominar os sentimentos e substituir as tendências negativas pelas tendências positivas, lutando e, reeducando-nos para atingir a felicidade. Não a felicidade completa, mas aquele estado de alma que nos proporciona todos os dias a alegria de viver em paz connosco, sem ódios, sem remorsos, sem alimentar sentimentos de inveja pelo vizinho do lado, que é mais poderosos e rico.
Às vezes ando às voltas dentro de mim e, algum tempo depois, consciente de que por mais voltas que dê não encontro já a tal encruzilhada de que acima falei, tento recriar, baseado no passado, um caminho diferente. Porém, como o passado, não se refaz, não se recria, mas também não se pode abjurar, volto ao ponto de partida – às interrogações, às reticências e às vírgulas das várias situações por que passei. E é sempre com um sentimento de saudade que termino estas minhas incursões que muitas vezes faço a esse tempo longínquo embora por vezes me apareçam figuras monstruosas que se movem numa dança endiabrada como que atribuindo-me culpas de coisas de que já não me lembrava... Ou faço por não me lembrar.

domingo, novembro 04, 2007

Recordando meu pai

Duas datas numa lápide
De repente, sentimos que a noite se aproxima. O Sol desaparece por detrás da serra e os seus raios, de várias cores, pincelam o horizonte fazendo inveja aos mais célebres pintores!
A passarada procura os abrigos e, sopradas pela brisa fresca do anoitecer, as folhas rodopiam e caem das árvores formando no caminho um tapete de variadas cores.
É Outono!
Há ouriços no chão com castanhas a espreitar, há nozes escondidas nas ervas secas e aqui e além, no laranjal, um amarelo esverdeado de um fruto sobressai por entre as frondosas copas verdes. A groselheira, ramos vergados, carregados de frutos, em cachos, quase a tocarem na terra, parece querer rivalizar com o azevinho, também ele, mostrando os seus ramos crivados de bolinhas vermelhas.
É Outono!
Há um cheiro diferente no ar. O fumo das chaminés espalhadas pela aldeia anuncia que o frio já chegou. Abrandou a azáfama no povoado, fizeram-se as colheitas, descamisaram-se as espigas, secaram-se, guardaram-se nos espigueiros, cortaram-se as palhas, semearam-se as ervas, e agora é tempo de repouso.
É Outono!
Há magustos por todos os lados, começa a matança do porco, mas hoje foi um dia especial – dia de Todos os Santos, dia de romagem aos cemitérios. Velas, lamparinas modernas, coloridas, pois o progresso substituiu as vulgares velas de cera por canudos de cores diversas que deturpam um local que deveria ser de recolhimento e de simplicidade e o transformam numa feira de competições e vaidades.
Flores, muitas flores. Naturais, artificiais... mas quase todas compradas. As dos jardins próprios, juntos de casa, já não se usam e é de bom-tom dizer-se à vizinha o seu preço e quase sempre o local da compra.
E não há sepultura pobre, embora os restos mortais de muitos dos que nelas repousam o tivessem sido em vida. Pobres de tudo. Não só de comida, mas sobretudo de carinhos, atenções e de respeito.
E há lágrimas, muitas lágrimas. Umas de saudade, mas muitas também de remorsos do carinho que se poderia ter dado e não deu; do tempo que se poderia ter dispensado e não se dispensou; da paciência que se deveria ter tido, da companhia que se deveria ter feito, do simples sorriso que se não devolveu. E há também lágrimas fingidas…
Teríamos muitas surpresas se pudéssemos ler o que se passa no interior de muitos que no dia de hoje se alinham ao longo das pedras tumulares. Quantos não choram apenas e só para que os outros os vejam?
Quantos pensam que podem agora pagar, com flores, todas as faltas que tiveram para com os seus entes queridos, enquanto vivos?
“Flores e lágrimas são alívio dos vivos, mas não refrigério dos mortos” – disse Santo Agostinho.
E neste Outono, e neste dia, como é doloroso evocar alguém que não conhecemos em vida, mas cuja lembrança constantemente nos acompanha! É uma mistura de saudade tão pungente e de tristeza tão dorida que não se consegue explicar. Sente-se e connosco vive...até chegar também a nossa segunda data.

Porreiro, pá!...

“Porreiro, pá!...”
Continuo a acreditar que somos, de facto, um povo extraordinário. Somos pau para toda a colher. Temos uma pachorra incomensurável e um desmedido arcaboiço para encaixar os mais incríveis disparates.
Cá dentro, bem no fundo do nosso “eu”, somos de tudo um pouco: paternalistas, brincalhões, descomplexados, cultivadores acérrimos do nacional-porreirismo e, essencialmente, os descendentes directos de uma árvore genealógica com muitas e diferentes ramificações. Do seu vetusto tronco, saíram muitos e variados ramos de cores diferentes, formando frondosa e matizada copa. E, em País de ameno clima, de brandos costumes, à sua sombra e à socapa, uma diversificada e duvidosa casta vai-se acoitando das intempéries da vida, graças a uma cumplicidade bem disfarçada. Somos, por isso, um amálgama de gente bizarra – de homens ingénuos e perdulários, de heróis destemidos, de arrojados piratas, de intrépidos marinheiros, de refinados falsários, de rudes campónios, de ilustres fidalgos, de brasonados ilustres, de vigaristas inveterados, de exímios palhaços, de inimitáveis actores de comédia e também de gente piedosa, bem instalada na vida, que sob o manto da solidariedade e do bem comum vai tosquiando o gado miúdo – a ralé – que, resignada, vai lambiscando o pouco que o graúdo lhe deixou, mas sempre sorridente e acomodada, batendo palmas na rua e insultando os mandantes no conforto do lar, pantufas nos pés, e janelas fechadas. É que as paredes têm ouvidos e os bufos estão sempre de orelha atenta, pé ligeiro e língua pronta a esguichar o veneno da denúncia. Mas somos os maiores! Em tudo. Escutem o que dizem os mandantes, leiam os jornais, ouçam os comentadores da TV, atentem no que dizem os analistas encartados, os profetas em estágio, e logo verão que assim é.
Ainda agora, na Cimeira de Lisboa, como pomposamente chamaram à reunião dos 27, noticiaram os jornais, disseram os organizadores e completaram os noticiários na televisão que luxo assim, só em Portugal – conseguimos atrair a fina-flor da Europa, e fazer com que os melhores hotéis esgotassem a capacidade; que houvesse jantaradas que nem Pantagruel teria sido capaz de imaginar; que os carros topo de gama fizessem alterar o trânsito da capital; que em cada esquina houvesse um polícia... Enfim, um sucesso tão grande que os representantes dos países presentes renderam-se ao nosso engenho e arte e não tiveram outro remédio senão assinar o tal Tratado! Isto sem falar no efeito persuasor da mochila “uma ideia renovadora que aposta nas energias renováveis,” que deixou os visitantes de boca aberta! E dava gosto vê-los, mochila às costas, satisfeitos por terem assinado o “instrumento que ajuda a UE a sair de uma crise política que a atrofia”, como disse um eurodeputado português.
Custos da Cimeira? Migalhas! Vêm aí os “Fundos”... Já imaginaram uma “torneira” a debitar 10 milhões de euros por dia? Não é “porreiro pá”?...

segunda-feira, setembro 17, 2007

Os mamões

Mamã eu quero…
Já há alguns anos e neste mesmo espaço, me referi ao assunto. No entanto e porque cada vez há mais gente a mamar a repetição nunca é descabida.
Em 1900, na revista "A Paródia", e querendo estabelecer uma comparação entre a prática da política e a condição porcina, o nosso grande caricaturista Bordalo Pinheiro desenhou uma porca deitada com uma dúzia de leitões agarrados às suas tetas.
Em 1923, aparecia na mesma Revista, um desenho com uma porca já de pé, com os porquinhos mais crescidos a comerem do mesmo gamelão. Tanto num caso como noutro, os contribuintes perceberam. Mas ao compararem as duas caricaturas, ficaram pensativos: é que, enquanto na primeira, os bacorinhos estavam deitados e chupavam na teta, na segunda, já todos estavam de pé a comer com voracidade...
Nos anos cinquenta, G. Orwell, com o "Triunfo dos Porcos", actualizou o tema, colocando um "porco-líder" a dominar os seus súbditos com o autoritarismo próprio de todo o mandante que se preza.
Foi depois a vez da série televisiva "Os Simpsons" apresentar os políticos na figuração de porcos, mostrando senadores surpreendidos, no Senado, a comer hamburgers com recheio de dólares temperados com lobies, limpando depois as trombas à bandeira estrelada, como de um simples guardanapo se tratasse.
Esta lengalenga para vos dizer que apesar da caricatura inicial ter evoluído ao longo dos tempos, – passando de livro a filme e de filme, a desenho animado – a mensagem não se diluiu. Pelo contrário. Não só se manteve, como também se agigantou. E como se pode verificar, nunca foram tantos os "mamões", apesar de todas as artimanhas e camuflagens dos políticos que, com o auxílio da tecnologia moderna, tudo têm feito para esconder a porca e camuflar as tetas.
A modernização das instalações, (o luxo dos gabinetes) o constante apuramento da raça (a selecção de boys) e a galopante automatização das tetas (a criação de comissões e afins), tornaram a mama ainda mais apetecida. E os leitõezinhos continuam a engordar, não só com o líquido do úbere materno, (os nossos impostos) mas agora também com rações vindas directamente da estranja, etiquetadas pomposamente sob o nome de fundos e subsídios... É uma vergonha o que se passa por aí fora: a corrupção, o compadrio, as injustiças, os branqueamentos, os desperdícios, a incompetência, a ociosidade, tudo isso alastrou e transformou o País num lamaçal pestilento, onde proliferam os parasitas, os vermes rastejantes e os oportunistas. Cada vez são mais os que mamam e menos os que trabalham. A «epidemia» propagou-se a todas as forças partidárias. E é por isso que não há uma oposição válida. Enquanto a porca tiver leite, mesmo que as tetas não cheguem para todos, eles mamam por turnos. E lambuzados e contentes, ei-los cantando em coro:mamã eu quero, mamã eu quero mamar…

quinta-feira, agosto 30, 2007

África

Falar acerca de África
Nunca reconheci, a quem nunca viveu em África, autoridade e conhecimentos suficientes para dela falarem. E isso, porque é muito difícil, e para muitos até impossível entrar na mentalidade dos seus habitantes, mesmo até depois de uma convivência de anos.
Muitos dos que escrevem ou que falam esquecem-se (ou não sabem) que a descolonização tentou impor à nova África “um nacionalismo sem Nação”, quando é a tribo e não a nação que constitui a célula base da vida africana. Muitas vezes o que os jornais designam por uma guerra entre países é, na realidade, uma rixa entre tribos rivais. Não digo que sempre assim aconteça, mas na maior parte, esses conflitos, têm, na sua origem, a rivalidade tribal.
Todos sabemos que as fronteiras coloniais nunca foram fronteiras naturais e que foram estabelecidas pelo simples entendimento entre as nações europeias. E foi dessa maneira que se pretendeu fazer viver em comum, povos que nem a raça, nem a língua, nem a religião, nem os interesses predispunham a que pertencessem a um mesmo Estado. Houve fronteiras, ditas “naturais” que separaram os próprios irmãos. Lembro-me dos Somalis submetidos durante anos a cinco domínios: o italiano em Mogadíscio, o britânico em Berbera, o francês em Djibouti, o etíope em Ogaden e o queniano no Oeste!
Na República Democrática do Congo, País que melhor conheci, existiam cerca de 250 etnias com 221 línguas ou dialectos falados, e todos se lembram das convulsões por que passou. As questões tribais transmitidas de geração para geração e aproveitadas em momentos de convulsões interiores por elementos e interesses externos, quase chegaram a transformar o genocídio em prática comum. As independências dos povos africanos que deveriam ser de festa e alegria foram, salvo raras excepções, isso sim, o prólogo de ciclos de morte, miséria e desespero.
Propositado ou não, os diplomatas ocidentais desconheceram por completo a psicologia da maior parte dos africanos, baseando-se apenas em alguns deles mentalizados e educados à maneira europeia ou americana. E se virmos bem, foram apenas esses que se aproveitaram da independência dos seus povos em proveito próprio. Os exemplos estão à vista...
Agora menos, mas houve um tempo em que, desde o analfabeto primário ao mais pretensioso “intelectual”, a acusação era a mesma: os brancos em África limitaram-se apenas a escravizar o negro e a amassar fortunas. Ouvi algumas vezes essa afirmação, mas nunca tentei contradizê-la. Os que assim pensam, como digo no começo, nada conhecem sobre o Continente Negro, e por isso, o mais saudável é não retorquir. O que “ sabem” é através de livros ou de facciosas histórias contadas pelos “sabichões” de serviço. Nenhum deles será capaz de explicar a diferença entre colono e colonialista. Mesmo hoje, muitos doutores e engenheiros são capazes de não saberem fazer a destrinça entre um e o outro. Mas isso fica para outra crónica.

Boa viagem

Boa viagem
Pertenço ao grupo daqueles que não conseguem ler nem dormir quando viajam. Seja qual for o meio de transporte utilizado não consigo concentrar-me na leitura, e Morfeu também não consegue tomar conta de mim.
Foi o que aconteceu aqui há tempos numa viagem que fiz entre a capital e a estação mais próxima da minha aldeia. E quando tal acontece, divago, e de olhos fechados deixo o pensamento “correr” à rédea solta… E nesse dia comparei a vida a uma viagem…
Nascemos, subimos para o comboio, e começa a marcha. Nem sempre tranquila. Há, por vezes, acidentes durante o percurso; há paragens; há surpresas; há lágrimas…
Quando subimos, encontramos pessoas, e logo pensamos que elas ficarão connosco durante todo o trajecto – são os nossos familiares!
Porém, e infelizmente a verdade é outra. Eles podem descer em qualquer estação e deixar-nos sem o seu amor, a sua afeição, a sua amizade, a sua companhia. Mas há outras que sobem e que serão também importantes para nós: são os nossos irmãos e as nossas irmãs, os nossos amigos e todas as pessoas de quem gostamos – umas estão sempre presentes, sempre prontas a ajudar; outras permanentemente indiferentes ao que se passa à sua volta.
Algumas, quando descem, deixam uma tristeza que jamais se desvanece. Outros sobem e descem tão depressa que mal os conhecemos.
Às vezes admiramo-nos e ficamos intrigados quando passageiros de quem gostamos, vão sentar-se noutra carruagem e que nos deixam viajar sozinhos!
Evidentemente que ninguém nos impede de os procurar por todo o comboio até os encontrar. Porém, muitas vezes quando os encontramos não podemos sentar-nos a seu lado porque o lugar está já ocupado...
É assim a viagem, é assim a vida: feita de desafios, de sonhos, de esperança e de despedidas... muitas vezes para sempre.
Por tudo isso façamos por fazer a viagem da melhor maneira possível. Tentemos compreender os nossos vizinhos de carruagem e procuremos o melhor que há neles. Lembremo-nos de que num qualquer momento da viagem um dos nossos companheiros pode desmaiar e pode ter necessidade da nossa ajuda e da nossa compreensão. O mesmo nos poderá acontecer…
O grande mistério da viagem é que nós nunca sabemos quando desceremos. Nem nós, nem mesmo o companheiro que viaja sentado a nosso lado!
Imagino e sinto como será triste deixar o comboio! A separação de todos os amigos que encontrámos será dolorosa. E como será mais doloroso ainda deixar os mais próximos!...
Sinto-me no entanto contente por ter contribuído para ajudar a minimizar as incertezas e os maus momentos da viagem.
Aqui fica, por isso, um apelo a todos: façam o possível para que o percurso seja agradável e tentem tudo para que os passageiros que continuam no comboio da vida fiquem com uma boa recordação de vós quando, finalmente, vos apeardes.
A todos aqueles que continuam a viajar comigo, eu desejo boa viagem!

A minha companheira

A minha companheira
O que hoje vos vou contar passou-se há muito, muito tempo. Nessa altura ouvia os mais velhos que, em tom jocoso, me falavam da sua vinda como de coisa muito grave se tratasse. Alguns, os mais íntimos, de vez em quando, e mal a ocasião se proporcionava tentavam mentalizar-me. «Lá virá o tempo – diziam-me eles – que, sem dares conta, ela aparecerá...»
- E mais depressa do que julgas! - Acrescentavam com uma pitada de humor os mais crentes em oráculos.
Estava então na minha Primavera e nesses verdes anos não há tempo para reflectir, para pensar ou para ter medo. Era um tempo em que via sempre o céu azul, em que o Sol sorria todos os dias lá no alto, só cresciam flores à minha volta e eu fazia de todos os dias um “sábado à noite”!
Não havia futuro, só o “presente” contava. Era um tempo sem interrogações. Tudo deslizava em roda livre pela bonita e plana estrada da juventude sem que fosse preciso pedalar muito...
Era a época dos sonhos, dos contos de fada, do perfume do amor – “esse fogo que arde sem se ver”, no dizer do poeta.
Mas entretanto…
Entretanto os anos foram-se acumulando, acumulando, até que um dia, cedinho, numa manhã de Inverno em que estava só, ela chegou. Senti um bafo quente no meu pescoço e estremeci! Mas ela enlaçou-me carinhosamente, apertou-me contra o seu peito, e disse-me baixinho: «Cá estou!»
Levantei os olhos e vi um rosto no espelho. Olhos inchados, provavelmente atraentes no passado, mas agora escondidos por detrás de grossas lentes aprisionadas em aros de metal luzidio; da farta cabeleira de outrora restavam apenas, nas têmporas, cabelos brancos, dispersos, qual estriga de linho pronta a ser colocada na roca; na fronte e no pescoço, rugas, muitas rugas, sulcos por onde passaram, como em leito de rio, – em grosso caudal ou em passeio tranquilo – mágoas, alegrias... E as mãos? A pele enrugada, as veias salientes e os dedos trementes não conseguiam esconder toda uma vida de lutas, de canseiras, de incertezas, de lágrimas... e também de muitas alegrias. E como aquele rosto me fascinava!
O seu sorriso trocista, a ingenuidade do seu olhar infantil como que a pedir desculpa de pecado que não se cometeu, atraíam-me…
E como de feitiço se tratasse, ali fiquei por instantes, olhando o espelho. O tempo parecia não ter pressa. E, cúmplices, ali ficámos os dois, contemplando e tentando adivinhar a história daquele rosto. Um esboço de sorriso disfarçava as rugas e a vontade de viver adivinhava-se no luzir dos olhos papudos.
E tanta, tanta alegria naquele olhar cansado mas tão feliz!
Virei-me e olhei para trás. Baixei os olhos e vi-a tentando esconder-se timidamente como que a pedir desculpa pela sua intrusão na minha existência.
E sorrimos. E talvez com medo de me perder ou de que me zangasse, Dona Velhice abraçou-me com tanta força que desde esse dia nunca mais nos separámos. E desde então e como devem já ter notado, andamos sempre de braço dado.





domingo, agosto 05, 2007

Ser Feliz

Ser feliz

Se alguém não encontra a felicidade em si mesmo, é inútil que a procure noutro lugar
La Rochefoucauld

Todos nós sabemos que ser feliz é um dos mais antigos direitos da humanidade. E também sabemos que não há ninguém que não mereça auferi-lo. Há, no entanto, quem pense nunca poder alcançar esse dom.
E isso resulta de uma certa insatisfação e de um conceito errado do que é a felicidade. O homem foi criado para ser feliz e seria insensato imaginar um Deus cujo prazer consistisse em submetê-lo a contínuas desgraças.
Essa ideia seria demasiado humana para ser divina e, quando assim pensamos, estamos a fazer um Criador à imagem da nossa imbecilidade e à semelhança da nossa estupidez. Porém, a causa, é bem diferente.
Neste mundo estereotipado em que vivemos, a felicidade deixou de ser um ideal do indivíduo para ser uma aspiração das multidões. Todos querem ser felizes da mesma maneira. Convencionou-se que não há felicidade sem automóvel, sem uma casa repleta de electrodomésticos, de electrónica, de móveis de estilo, de livros caros (mas que nunca se lêem), de imitações de objectos e de quadros antigos (dos quais não se sabe falar), sem roupas e calçado de marcas badaladas... enfim e para resumir, sem todos esses sinais exteriores de riqueza que por aí se vêem. Quanto a boas maneiras, civilidade, educação ou cultura, tudo isso é secundário. O que é preciso é ter dinheiro. E como nem todos o podem ter para se fazerem passar por aquilo que não são, daí a "infelicidade" de muitos. Uma infelicidade que gera invejas, revoltas e que, infelizmente, está a transformar a sociedade num viveiro de insatisfeitos, de egoístas e de falsários. Há na terra milhões de pessoas a sonhar a mesma coisa e a desejar os mesmos bens. E é assim que os espíritos simples se asfixiam numa atmosfera de estupidez. E são cada vez mais os que não conseguem viver fora desse esquema. Cada vez se deseja possuir mais. Cresce dia a dia a inveja pelo vizinho. A ânsia de "também querer ser" aumenta no sentido inverso do "querer fazer". Atropelam-se os princípios mais sagrados para chegar mais depressa a um lugar que se cobiça, mas que não se merece. O que mais interessa é "parecer". É uma luta feroz e constante entre aquilo que se tenta aparentar e a verdadeira realidade daquilo que se é.
Parece que fica assim, mais ou menos, traçado, ainda que com pálidas pinceladas, o retrato daquele que quer ostentar coisas superiores aos seus recursos e à sua mentalidade. E é esse, de facto, o protótipo do verdadeiro infeliz. E é tão fácil ser feliz! Contentarmo-nos com o que temos e orgulharmo-nos de sermos, apenas, como somos, é já o começo da felicidade. Mas o que muitos procuram é ser mais do que os outros. E isso é impossível, porque os outros nunca são, na realidade, tão felizes como nós julgamos.



segunda-feira, julho 02, 2007

Memento, homo...

Lágrimas
O escritor francês Baudelaire, referindo-se à Morte, disse um dia, mais palavra, menos palavra “que em cada minuto que passa, essa ideia, essa sensação do fim, está sempre presente, esmagando e absorvendo o nosso pensamento…”
Esbarrei, por acaso, contra as palavras do autor de Flores do Mal, dias depois de ter sido confrontado com o desaparecimento de um Amigo.
Embora tal facto, na minha idade, não seja já uma obsessão, (é antes uma submissão resignada perante os desígnios de Deus) tais palavras, no entanto, levaram-me a uma reflexão sobre a Vida.
É que, como ninguém pode parar o tempo, também ninguém consegue parar o pensamento. O tempo, inexoravelmente, vai seguindo sempre em frente deixando marcas, delimitando épocas, gravando datas e enterrando recordações; o pensamento, num vaivém constante, vai-se ocupando a fazer visitas e a perpetuar esses lugares de culto.
E nesses momentos gosto de estar sozinho. E escrevo. Escrevo, porque escrevendo, falo sem que ninguém me interrompa…
E aqui estou eu debruçado na janela do tempo, folheando o livro de recordações – folhas amarelecidas pelo rodar dos anos, momentos de alegria, tristezas, sonhos, pesadelos, risos de crianças…
Todos morremos, mas poucos estão preparados para a coisa mais certa da vida. E é assistindo a essa "dança" que arrasta homens e mulheres de todas as idades e condições que vem ao de cima essa verdade incontestável de que um dia chegará também a nossa vez.
E como uma espécie de vingança, mas numa luta inglória, a vontade de viver sobrepõe-se a essa lei implacável, e é cada vez maior o desejo de aproveitar, de sorver todos os momentos.
E nesta época do ano como é bonita a Natureza!...
Nesta manhã de sol olho pela janela e vejo as gotas de água da orvalhada da noite que se desprendem das folhas da buganvília e recordo outras lágrimas de saudade, porque a Morte ao interromper os sonhos da vida de quem partiu, deixou uma sofrida saudade nos que ficaram.
«Devem chorar-se os homens à nascença e não quando morrem», escreveu alguém. Mas, muitas vezes, é difícil conter as lágrimas, mesmo sabendo que elas nada remedeiam, nada alteram. Mas elas são, nesses instantes, além de um desabafo, uma espécie de lenitivo, um bálsamo que suaviza essa dor pungente que rasga a alma, e que só o tempo faz desaparecer. Lágrimas – gotas de água que tantos significados podem ter!
Estou a lembrar-me, a propósito, daquela versão do conto popular, da criança morta que voltou à Terra para pedir à mãe que não chorasse mais para que a sua mortalha pudesse secar.

sábado, junho 23, 2007

O QUADRO

Um quadro só sobrevive graças àquele que o olha”
Pablo Picasso
Tinha já folheado quase todas as revistas que se encontravam sobre a pequena mesa e como geralmente acontece nestes locais, todas elas estavam fora de prazo. Todas antigas exceptuando a “Maria” que estava a ser lida e comentada em voz baixa por duas adolescentes. Éramos uns sete ou oito. Tentei meter conversa com o vizinho do lado, mas pelas respostas monossilábicas logo depreendi que era homem de poucas falas. E desisti.
A senhora encarregada das consultas que, a avaliar pela sua má disposição devia sofrer de disfunção hepática, anunciou, entretanto, que o senhor doutor estava atrasado e não sabia a que hora chegava… Sussurros na sala e uma adolescente que se entretinha a fazer bolinhas com uma pastilha elástica, enchendo-a e esvaziando-a com um frenesim danado, pegou na mochila, soltou um palavrão e ala moço…
E foi quando a seguia com os olhos que vi o quadro na parede. Grande. Talvez um metro de comprido por sessenta de altura. Bela moldura. Lá dentro muita flores que lembravam a Primavera. Um banco com dois velhinhos sentados separados por uma bengala. Num canto, fazendo sombra, uma árvore frondosa. E na árvore um ninho… e três biquitos amarelos, abertos, implorando comida. Atrás do banco uma espécie de fonte antiga – um sulco numa pedra por onde corria um fio de água.
O Sol espreitava no outro canto e um raio mais atrevido, como numa carícia, emprestava tons de prata aos cabelos brancos da velhinha.
Aqui e além pinceladas de azul. De um azul celeste, a contrastar com o verde das folhas. E flores, muitas flores – violetas, madressilvas, rosas vermelhas. E duas pombas, talvez um casal, a debicar à cata de alimento…
Apeteceu-me “entrar” no quadro e conversar com o casal, saber coisas das suas vidas e perguntar-lhes se aquele sorriso a transbordar de felicidade era mesmo deles…Não seria um “postiço” do pintor como acontecia com a ausência de rugas bem disfarçadas sob sábia combinação de tintas? E por que havia uma bengala a separá-los? Teriam tido filhos, netos?... Devaneio de pintor ou transposição colorida de uma realidade? Mistério que só autor saberia explicar… De repente, o quadro pareceu animar-se! Uma das pombas esvoaçou, a velhinha levantou-se, pegou na bengala e estendeu a mão ao companheiro para que se levantasse. Os passaritos continuavam de bico aberto esperando que os pais lhes trouxessem alimentos. A bica de água continuava a correr, o Sol nascente espreguiçava-se lá no canto e as flores pareciam tremular empurradas pela brisa branda e fresca de uma manhã de Primavera. O casal caminhava agora lentamente, e tive a sensação de que o velhinho, sorridente, me piscou o olho num mudo convite para os acompanhar… Só quando ouvi o meu nome “berrado” pela senhora que sofria do fígado é que dei conta de que estava só...
































sexta-feira, junho 08, 2007

segunda-feira, maio 28, 2007

O comprimido

O comprimido
Já muitas vezes aqui disse que é muito difícil encontrar assunto para estas minhas crónicas semanais. Não minto se vos disser que quando há temas pertinentes que desejo tratar mas que ultrapassam os meus parcos conhecimentos e requerem, por isso, apoio alheio, passo horas a folhear livros e a estudá-los procurando descrevê-los com a exactidão possível.
Acontece também que, algumas vezes, num percurso já avançado da pesquisa tenha de abandonar o assunto, porque a sua complexidade ultrapassa os limites do meu entendimento. Está assim explicado que quando não sei, a minha honestidade mental, aconselha-me a que não desperdice tempo e não ostente conhecimentos que não possuo.
Vem este intróito a propósito de uma mensagem que recebi há dias por correio electrónico com um nome de alguém que não conheço e que por isso não posso comprovar se quem a subscreve existe de facto.
Costumo, nestes casos, apagar e não me preocupar mais. Desta vez, porém, não aconteceu o mesmo e resolvi responder publicamente, na esperança de que quem a enviou, leia a resposta…
Entre muitas considerações em que os pontapés na gramática e os erros ortográficos, travam uma competição renhida em busca do primeiro lugar, e misturando graxa e ironia, “acusa-me” de algumas das minhas crónicas se assemelharem “às homilias do padre já velhote e antiquando” da aldeia onde nasceu “que no altar só fala em Deus e deixa o Diabo na sacristia…”
Acrescenta ainda irónico e em tom jocoso: “apesar de tudo gosto de o ler à noite, porque poupo um comprimido para dormir…”
Reli a mensagem, soletrei algumas palavras, pus ordem nalgumas frases, sentei-me e entretive-me a fazer, mentalmente, um retrato “robot” do fulaninho.
Não foi difícil chegar à conclusão de que deveria tratar-se de um desses doutores ou engenheiros de aviário, de um desses pseudo-intelectuais que esvoaçam por aí a abarrotar de empáfia e que vivem encaixilhados num desses lugares onde só têm assento os afilhados ou os protegidos da Nação.
Mas tem razão, o homem. Falo muito em Deus. E isso, porque vou buscar o que escrevo quase sempre à minha experiência da vida. E na vida vivida há sempre Deus por perto. Dêem-lhe o nome que quiserem, mas Ele está lá. Nos bons e nos maus momentos.
É curioso como passa despercebido falar-se de sexo, de obscenidades, de bacanais, e se é alérgico logo que se fala em Deus. E é também curioso que alguém se preocupe tanto com o que os outros pensam e se preocupe tão pouco do que Deus pensará a seu respeito!...
Mas gostei muito dessa do comprimido para dormir!... Espero que continue a tomá-lo. Não necessita de receita médica, não são conhecidos efeitos secundários e é ainda mais barato do que qualquer “genérico”.

domingo, março 04, 2007

Coisas da minha arca




No tempo em que o volfrâmio era explorado em força cá pelas nossas bandas, contavam-se várias anedotas acerca do rápido enriquecimento de alguns indígenas. De todas as que corriam de boca em boca, uma ficou-me gravada na mente e recordo-a com frequência. Esclareço que naquela altura e nos locais e proximidades dos lugares de extracção do minério, não só era moda como também conferia uma certa importância ostentar, pendurada no pequeno bolso exterior esquerdo do casaco, uma caneta-tinteiro ou caneta de tinta permanente, como vulgarmente se dizia. Havia mesmo quem pendurasse três ou quatro bem alinhadas!
Contava-se então que um desses ricaços se dirigiu um dia a uma papelaria em Viseu e pediu que lhe vendessem uma caneta de tinta permanente, mas das mais caras – uma Pelikan em ouro... Essa marca era, na época, uma das mais conhecidas e reluzentes.
O dono do estabelecimento lá veio com vários estojos, onde repousavam vários estilos de canetas. O homem pegou numa, pegou noutra, mirou, remirou, lá se decidiu e comprou duas... Puxou duma nota de conto e com a bazófia própria dos novos-ricos, atirou do alto da sua "importância": - «Pode ficar com o troco...» O vendedor, habituado já às características esbanjadoras de tais clientes, arrecadou a nota mas, cumpridor do seu dever e para descargo da sua consciência ainda balbuciou: - «Vossência tem aqui papel para experimentar o aparo...» Ao que, prontamente, o volframista retorquiu já com os dois objectos a enfeitarem o bolsinho: - «Não vale a pena. Eu até nem sei escrever...»
Dizia eu no começo que esta anedota me vem à mente muitas vezes. O motivo que hoje a fez "ressuscitar" foi o facto de verificar, há dias, que a quantidade de percursores, de obreiros, de heróis, de analistas e de comentaristas, não pára de aumentar de ano para ano. Não há bicho-careta que não discorra e faça comparações entre a escravatura do antigamente e as liberdades da democracia!
E o que, na minha opinião, é mais flagrante e comprometedor para o futuro, é que essa cultura inculta começa a enraizar-se nas camadas jovens fazendo com que a soma de "analfabetos históricos" no nosso espaço político-partidário atinja já números bastante significativos. Criados em aviários, com a luz acesa toda a noite, tremonhas a abarrotar, bebedouros a transbordar, papo cheio, que mais é preciso para anquilosar o raciocínio? Não é a realidade histórica – porque é humana – equívoca e inesgotável?!...
Aos volframistas de canetas reluzentes dos meus tempos de miúdo, sucedem agora os "garimpeiros", versão começo-de-século, pseudo-detentores de toda a sapiência, enfarpelados a rigor, encadernados em potentes "máquinas", alguns comendo ainda à custa dos pais!
A única diferença entre os bazófias de ontem e os de hoje, talvez resida no facto de os primeiros não saberem ler nem escrever e os segundos serem letrados, embora haja muitos doutores analfabetos pelo meio…
O que me leva a crer que o futuro do homem do século XXI será sapientemente civilizado. E humanamente bárbaro…

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Férias


Um belo recanto de uma casa bem perto do mar, nos arredores da capital...

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Resposta de Dom Afonso I


Cá recebi a carta... e em breve mandarei a resposta pelo meu aio Egas Moniz. Aqui não há selo, apesar de valer mais sê-lo do que parecê-lo...

Cartas...

CARTA A DOM AFONSO HENRIQUES
Peço desculpa por vir incomodar Vossa Majestade e acordá-lo do sono em que mergulhou há quase nove séculos, mas com acontecimentos tão graves no Condado, achei por bem pô-lo ao corrente da situação.
Não tivesse havido aquele precedente de terem querido arrombar o mausoléu em que repousa apenas para tentarem reconstituir o seu perfil biológico e o seu código genético e saberem “coisas” sobre a estatura, os hábitos, a força, a alimentação, a cor do cabelo e dos olhos de Vossa Majestade, eu não ousaria perturbá-lo. Mas já que isso aconteceu, eu também ousei…
Está a decorrer cá no rectângulo um concurso para apurar quem teria sido o maior português de todos os tempos. Consta que incluíram na lista de partida cerca de cem concorrentes, sendo Vossa Majestade um deles. A certa altura, e por arte de berliques e berloques, a centena de candidatos ao título, ficou reduzida a dez!
Nesses dez, de que Vossa Majestade faz parte, há de tudo: poetas, navegadores, reis, diplomatas, um ministro do seu colega D. José I, um ditador e um dos seus muitos e encarniçados opositores.
Sucede que ultimamente correm vários boatos e até se diz, à boca pequena, que está a ser urdida uma conspiração visando postergar o nome de Vossa Majestade pondo-o em último lugar. E perante tanto desprezo e ingratidão eu revoltei-me. Será justo atribuir tal lugar ao nosso mais prestigiado Mata-Mouros, vencedor de Ourique e Fundador da Nacionalidade?
Mas as injustiças não se ficam por aqui. Saiba Vossa Majestade que centraram a escolha entre dois controversos concorrentes – um tal de Salazar, um ditador, uma espécie de fantasma, uma assombração de que todos têm medo e a quem uma escritora já apelidou de “cromo”, e um tal de Cunhal, um resistente ao “consulado” do atrás citado, mas do qual também se dizem cobras e lagartos!...
E foi ontem ao ver a apresentação de um resumo póstumo do reinado de Vossa Majestade – resumo muito mal “amanhado”e excessivamente folclórico, diga-se de passagem!... – que incluía, entre muitos outros feitos, batalhas “ao vivo” com Mouros que caíam como tordos no dia da abertura da caça que resolvi escrever-lhe. Bem sei que isto não passa de um desabafo, pois sem código postal duvido que esta carta lhe chegue às mãos…
Fica no entanto o meu testemunho e a minha grande homenagem ao Homem que nos legou este espaço rectangular que se dilatou, que deu novos mundos ao Mundo, mas que, infelizmente, foi encolhendo, encolhendo, até se transformar numa espécie de arena onde quase diariamente se realizam combates de galos de bela plumagem… mas sem crista!
E termino citando os versos de um poeta, seu companheiro de lista, Fernando Pessoa: Ninguém sabe que coisa quer. / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem. / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Portugal, hoje és nevoeiro…

sábado, fevereiro 10, 2007

Que pena!...

Segundo um jornal inglês, uma equipa de neurocientistas teria inventado uma técnica que permitirá descodificar e ler tudo o que se passa no cérebro e assim ter conhecimento das intenções das pessoas antes que elas as ponham em execução.
Os cientistas usaram um “scaner” de alta resolução que lhes permitiu a interpretação dos pensamentos da pessoa visada de acordo com as zonas do cérebro em actividade nesse momento.
Calculem o que ganharia Portugal com a aplicação desse método se os nossos políticos tivessem cérebro!....

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quarta-feira, janeiro 10, 2007

Mentirosos

Por mais que tente, não consigo refrear esta onde de revolta que me invade, cada vez que a hipocrisia dos nossos governantes ultrapassa os limites e colide com os mais elementares princípios da moral. Parece haver um prazer mórbido em levar ostensivamente à prática actos que mais não são do que verdadeiros atentados contra os que mais sofrem.
Não sei como se pode ser feliz quando, a nosso lado, e a todo o instante deparamos com seres desfigurados pela miséria ou quando ao dobrar da esquina quase tropeçamos num montão de cartões e farrapos que escondem um ser humano enregelado e faminto!
Num momento em que a luta contra a miséria deveria passar por uma cultura responsável, solidária, fraterna e de partilha com os que mais precisam e menos têm, assistimos precisamente ao contrário – à atribuição de verbas faraónicas àqueles que menos fazem, menos merecem, e mais têm...
Esta minha crónica de hoje e esta revolta, a propósito dos dois assessores do ministro Paulo Portas que desde Janeiro auferem um ordenado líquido de mais de mil contos!
Afinal, se estamos em crise, e é preciso apertar o cinto, quem deve dar o exemplo? Os idosos com pensões de trinta ou quarenta contos a quem ultrajaram agora com um mísero aumento de mil escudos?... Os velhos doentes, cuja pensão não chega para pagar a conta na farmácia?... Os que perderam o emprego, porque as multinacionais estrangeiras com a cumplicidade do Governo encheram os bolsos e foram repetir a proeza para outros "paraísos"? Afinal, quem esfrangalhou o país?... Quem contribuiu para que nos atascássemos no "pântano" até ao pescoço? Quem esteve na origem de todos os esbanjamentos de dinheiro, de todos esses desvios de fundos, senão os governantes, directa ou indirectamente?
Não quero, por uma questão de ética, dar uma imagem deprimente do pulsar político deste país. Ademais, é dever de quem escreve sensibilizar para o respeito e dignificação das autoridades, das instituições e das personalidades responsáveis pelos destinos da Nação. Também não quero generalizar as acções cometidas injustamente por alguns políticos, nem usar linguagem menos correcta para exprimir a minha revolta... Mas confesso que é muito difícil ficar calado perante tanta injustiça, suportar tanta demagogia e aguentar com serenidade as traquinices de certos políticos que elegemos, confiados que estávamos na sua maturidade e na assunção responsável dos actos que iriam praticar!
É difícil conter tanta revolta... Basta fazer contas. O ordenado mensal de um só assessor seria suficiente para pagar o aumento da pensão a mil cidadãos!...
É assim que respeitam os princípios da solidariedade que tanto apregoam? Mentirosos...

segunda-feira, janeiro 01, 2007

1 de Janeiro de 2007

Hoje, do ventre do tempo, nasceu um novo ano ! Ninguém pode dizer, com certezas, o que ele nos reserva.
Para mim e minha família, que ele seja, se não melhor, pelo menos igual a este que ontem terminou.
Projectos?... Não faço. O que peço a Deus?... Saúde, união na família e muita compreensão… e a continuação do mesmo carinho e atenção que temos recebido dos que nos são mais queridos.

sábado, dezembro 30, 2006

AINDA A TEMPO

COMPLEMENTO

Complemento da crónica “Em dia de aniversário”de Julho de 2006, que se destina a elucidar os leitores que, por telefone ou e-mail, manifestaram o desejo de saber quantos Verões passaram por mim. Aqui fica, pois, o número
exacto.

80 - 75 - 60
Todos nós temos três idades: a idade que está no B. I., a idade que aparentamos e a idade que sentimos. Esta última é, sem dúvida, a mais verdadeira, aquela de que devemos servir-nos para continuar a caminhada. Seguindo esse raciocínio, são necessários três números para nos definir. Por exemplo, quanto a mim, considero-me um 80-75-60!
Descodificando: do primeiro número, atribuo metade a cada perna; o setenta e cinco, – que é geralmente o número com que os meus amigos me presenteiam de vez em quando – penduro-o no espelho só para me divertir com o outro “senhor” careca e de cara enrugada, que a lâmina de vidro polida reflecte; o último número, o sessenta, é o que se sobrepõe aos outros dois. É o “combatente” aquele que, sempre vigilante tenta impedir que o primeiro, o mais gordo, – o 80 – me esmague sob o seu peso!
E é assim com esta espécie de triângulo numérico às costas que continuo a fazer o meu dia-a-dia. Evidentemente que para pôr em prática esta “filosofia” é necessária a ajuda de vários factores: saúde, tolerância, paz interior, humildade, boa disposição e, sobretudo muita Fé!
Li há dias num texto de um escritor italiano que a velhice seria o calvário da vida. Concordei em parte, pois chegar a velho sem saúde, sem ninguém que olhe por nós e entregue apenas à solidão, deve ser, de facto, um enorme e triste calvário!
Pelo contrário, ter a sorte de envelhecer com saúde, com a família por perto e os amigos em redor, é um bênção de Deus.
É certo que quando olho os lugares vazios dos familiares ou dos amigos que partiram, há sempre uma dor pungente que me invade. O coração bate mais forte, mas apenas por uns momentos.
Depois, estranhamente, tranquiliza-se e parece conformar-se perante a inexorável lei da vida. À dor que me invade nesses instantes ora se sucedem recordações e saudade, ora me agitam sonhos de esperança que me transportam para longe – uma viagem em que o mistério do tempo tanto me acusa como me reconcilia com Deus.
E então é a Ele que me entrego. É a Ele que peço perdão pelos momentos em que a revolta me dominou e me fez esquecer a Sua infinita bondade. E é a Ele que agradeço tudo aquilo que me tem dado até hoje: alegrias, tristezas, sofrimentos e sobretudo o dom da fé – essa força invencível que faz cantar os mártires na morte…
Divaguei, e fugi do assunto. Vou parar por aqui, porque os dois últimos conjuntos de algarismos começam já a discutir e podem zangar-se, abalar, e deixar o 80 a falar sozinho….



quinta-feira, dezembro 21, 2006

Recordações

La bohème

«Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue…»
Charles Aznavour

sábado, dezembro 09, 2006

Chansons de ma jeunesse

LE PORNOGRAPHE
«Autrefois, quand j'étais marmot,
J'avais la phobie des gros mots
Et si j'pensais « merde » tout bas,
Je ne le disais pas
Mais, aujourd'hui que mon gagne-pain,
C'est d'parler comme un turlupin
Je n'pense plus « merde », pardi,
Mais je le dis
J'suis l'pornographe,
Du phonographe
Le polisson,
De la chanson…»

Georges Brassens

terça-feira, dezembro 05, 2006

O sermão

Un aumônier militaire s'adresse un jour à ses ouailles et leur tient un sermon sur le Paradis :Soko è kumi le temps du Jugement Dernier, Saint-Pierre accompagné na ba trompettes thébaines, "taratatââta, taratatââta, taratatââta..." , armé de machete monènè a ko loba na bango, les anges mabè, na matata mpenza : " Attatio ! Kenda à la gauche du Père, na kati-kati na ba les enfers. Enfer, azali moto mingui, azali fange boueuse na potopoto tÎÎî...". A ko loba na ba les anges malamu, na sourire monènè : " Kenda à la droite du Père, na kati-kati na ba le Paradis. Paradi azali félicité suprême...Mwasi kitoko ! Mossala azali tè !" .Bo oki nyonso ?- Hèèè...

domingo, dezembro 03, 2006

Manhã de Domingo

Nas asas do vento

Neste dia de chuva e vento
Deixei ir o meu pensamento
Em romagem de saudade…

Voltou com um saco de lembranças
Onde havia risos de crianças
E recordações da mocidade.

Abri meu saco com jeito
E depois contra meu peito
(Esquecendo o meu destino)
Acalentei as quimeras
Doutros tempos, doutras eras
Sonhando qu’ era menino!

sábado, dezembro 02, 2006

Sábado à tarde

Um sábado de Outono. Choram as nuvens e as gotas de água caem de mansinho. Não está muito frio, mas apetece acender a lareira, olhar a chama e ouvir o crepitar inconfundível dos troncos!
O chão do quintal está atapetado de folhas de várias cores, algumas já em decomposição, escorregadias, confundindo-se com a terra. As árvores, de braços erguidos, quase nuas, sem folhas, anunciam já o Inverno próximo.
As duas serras – a do Caramulo e a da Estrela olham-se como duas rivais – a primeira com os seus variados tons verdes; a segunda mostrando o seu manto branco que a neve lhe emprestou.
Aquém e além o fumo das chaminés mistura-se com pedaços de nuvens baixas que viajam no espaço. A aldeia parece dormir e não fosse a pequenez dos dias e o “comprimento” das noites, dir-se-ia que era por causa da sesta!...
Não há flores no jardim. Só o vermelho das bagas do azevinho contrasta com o cinzento-escuro do tapete do caminho. Silêncio! Nem a passarada se mostra. Desapareceram os melros, as rolas, e só os pardais, de vez em quando, cruzam o céu.
Subo ao terraço e olho em direcção à Estrela. Um manto branco já não deixa ver a neve. Sopra uma brisa fresca. Olho o tanque, em baixo, cheio de água, e aumenta a sensação de frio. A chuva cai agora com mais intensidade… Desço, e a resolução está tomada: a lareira…

No começo do mês

Continuo a ler Jean Guiton e não resisto a traduzir, para aqueles que, eventualmente, possam vir a ler, uma passagem que julgo conter uma mensagem que nos conduz a uma profunda meditação…
«(…) Hoje, o que está mais em perigo são as amarras que antigamente faziam a ligação do espírito às coisas, do homem à Natureza, do filho à mãe, do cidadão à Pátria, dos exercícios do espírito à verdadeira existência; o País, a terra, a religião adaptada aos tempos, enfim, a incarnação sob todas as espécies e formas. E as virtudes…
Não a virtude, essa palavra oca, muitas vezes hipócrita, mas todos os esforços em que o belo, o bem e o verdadeiro se juntam criando a harmonia entre os seres e as coisas. Tudo tem tendência a desaparecer: tudo o que é refúgio, íntimo, socorro, asilo, floresta, arvoredo… Não há paz, mas excessos que se sucedem e se compensam. O respeito, o pudor, a medida, a simplicidade, estão em vias de extinção… (…) Tudo mudou. Passámos da civilização escrita à da imagem, ainda que a escrita continua a ser a expressão fundamental do pensamento… (…)»