domingo, maio 17, 2009

É Domingo


É Domingo. Um Domingo triste...As nuvens não deixam que o Sol venha aquecer a Terra e amadurar os frutos. Fui há pouco colocar uma taramela no cocuruto da cerejeira, porque a passarada, sobretudo os melros, comem as cerejas que estão ainda verdes.
Todos os anos a árvore se transforma numa uma espécie de supermercado da passarada: melros, pardais, tentilhões, rolas, gaios, todos ali vão abastecer-se sem que lhes seja pedido nada em troca.
O mesmo acontece no velho tanque, cheio de água, onde as andorinhas, em voos rasantes, vão molhar o bico, levando um pingo para amolecer a “argamassa” com que constroem os seus ninhos.
Maio! O mês em que o meu quintal se veste com roupas de várias cores, e em que, no ar, há um cheiro diferente, difícil de explicar. É Primavera!... E como escreveu Miguel Torga:
“Depois do Inverno, morte figurada,
A Primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.”
Muitas andorinhas pousadas, além, num fio da luz eléctrica. Grande alarido. Gritos, bater de asas, mas como saber o que dizem?...
Se fossem melros eu diria que estavam a planear um ataque em massa às cerejas…
Numa inspecção que fiz há já muitos ramos em que resta apenas o pedúnculo e o caroço. A polpa já desapareceu!
Será que a taramela vai evitar que “a limpeza” atinja toda a árvore?...
Vamos ver…
É Domingo. Um Domingo triste...As nuvens não deixam que o Sol venha aquecer a Terra e amadurar os frutos.Fui há pouco colocar uma taramela no cocuruto da cerejeira

sexta-feira, maio 08, 2009

Canções



Não é fácil encontrar assunto para, semanalmente, preencher o espaço que me é concedido. Ou melhor dizendo: assuntos há, e muitos!.. Só que, escrever simplesmente para ajudar a encher a página, abordando temas que, por vezes, nem dominamos, é caminho pelo qual não gosto de enveredar. E foi por isso que recorri à minha velha arca de que já vos tenho falado. Velhinha, cheirando a naftalina, mas com muita coisa dentro!
Desta vez veio-me à mão um disco antigo ainda em vinil. Riscado já. Na capa um homem de forte estatura, enormes bigodes, empunhando uma viola – Georges Brassens. Um cantor compositor dos anos 50/60, muito contestado e cujas canções foram consideradas escandalosas pela burguesia francesa de então. Não sei se entre os meus leitores haverá quem se lembre de algumas delas e que escandalizaram a França: Le Gorille, Le Pornographe du Phonographe, Chanson pour l'Auvergnat, La Marche Nuptiale, Les amoreux qui ecrivent sur l'eau, La Mauvaise Herbe, etc. etc., são algumas das que deram muito que falar...
«Desmistifica, desintoxica, e é o inimigo de uma sociedade inimiga do homem. Quem não gosta dele, traiu ou participa. Viva Brassens!...» – diziam uns, «Tudo o que canta é absurdo ou imundo. O seu êxito é um desafio ao bom senso e ao bom gosto...», contrapunham outros.
E todos, afinal, tinham razão, porque de todas essas diferenças, nasceu o mito Brassens. As notas que tomei na altura, – já bastante desbotadas – dizem que a sua figura de lutador e as suas canções de revolta e sarcasmo, escondem um fundo de angústia e desilusão. A sua adesão ao movimento anarquista e a sua ânsia de se cultivar através de exaustivas leituras, explicam, talvez, as duas facetas do homem – um homem cada vez mais só. Família, credos políticos e religiosos, ele tudo despreza. Tudo recusa. E a violência da sua revolta é tal que a todos ataca. O mais violento vocabulário é para ele uma necessidade. É preciso chocar, testemunhar, escandalizar porque sem escândalos as pessoas conservam a sua pacatez e o agitador que as espicaça não teria razão de ser. Para conseguir dar um significado mais puro às palavras da tribo, é necessário desvendar o seu significado impuro. Brassens empenhou-se nessa tarefa e talvez sem o pensar operou uma revolução na arte, ao denunciar os falsos valores e as hipocrisias da sociedade escondidas sob uma canção.
Muito mais haveria a dizer, sobre esses homens da canção que pela sua irreverência, pelas suas "provocações", mas também pela sua ousadia e pelo desprezo por si próprios, enfrentaram os poderosos, fazendo com que muitas injustiças fossem atenuadas. Quedamo-nos no entanto por aqui, recordando as estrofes de uma das suas canções, cuja mensagem filosófica está ainda actualizada e merece reflexão:
Les hommes sont faits, nous dit-on, / Pour vivre en band' comm' les moutons. / Moi, j' vis seul e c'est pas demain / Que je suivrais leur droit chemin.

quarta-feira, abril 29, 2009

Eternos ingénuos!...




A corrupção e a violação dos mais elementares princípios da ética estão a perturbar cada vez mais aqueles que são obrigados a trabalhar honestamente para garantir a sua subsistência.
São tantos os atropelos à moral, ao bom senso e à honestidade que muita boa gente se interroga se realmente vale a pena continuar a respeitar e a pôr em prática os valores morais que em pequeno lhe ensinaram.
Muitas vezes, – em assomos de raiva e revolta por tantos abusos – pergunto a mim mesmo se onde todos roubam, não será anti-ético não roubar!...
Se todos os dias a maior parte daqueles que deveriam dar o exemplo exercendo o seu cargo com isenção e lisura nos mostram o contrário, prevaricando a torto e a direito, como resistir à tentação de não proceder da mesma maneira?
Se para eles é correcto servirem-se do que não lhes pertence para auferir lucros e terem direito a um lugar vitalício nas primeiras filas deste circo, por que motivo não haveremos nós de tentar também sonhar e lutar por iguais benesses?
Será porque fomos condenados a usar eternamente esta fatiota de autênticos palhaços andrajosos, subservientes e choramingas?
E assim é. Somos palhaços acoitados sob esta tenda de circo esburacada, segura por cordas que nos foram cedidas por Bruxelas mediante acordos nos quais predominou a super-facturação em nome de todos, mas cujo dinheiro reverteu só em benefício de alguns.
Palhaços, porque pagamos aquilo que nunca recebemos. Somos palhaços de um circo decadente, exposto às intempéries e à cobiça das aves de rapina vindas de outras paragens; somos palhaços de um circo onde não falta comida para os leões, mas que escasseia nos sectores onde vive a bicharada mais pequena, numa promiscuidade indecente.
É um circo falido, mas onde nada falta aos donos e senhores que zombam dos necessitados que se atropelam à procura de comida. Os palhaços mais velhos, teimosos, desafiam a vida comprando a saúde em troca da mísera reforma que recebem, e que deixam na totalidade na farmácia da aldeia!
Um circo que mais se assemelha a um cemitério onde foram impiamente enterrados em vala comum todos os valores que diferenciam o homem dos bichos: a honra, o respeito, a vergonha, a educação e até o patriotismo!
Entretanto assistimos ao aparecimento de riquezas misteriosas e à divulgação de lucros escandalosos de Bancos e de Empresas públicas, à atribuição de indemnizações faraónicas a senhores que deixam um lugar para ocupar outro cuja remuneração e mordomias são ainda maiores!
Alguém já viu algum desses nababos abrir a sua carteira para ajudar a minimizar a fome e a miséria que por aí vai? Esses donos de fortunas incalculáveis conseguidas através de artes e manhas pouco recomendáveis falam muito em solidariedade e ajuda, mas tudo isso não passa de simples figuras de retórica e de enfeites linguísticos para branquear uma conduta pouco digna e honesta.
O circo está falido, mas haverá sempre comida para os mais fortes, para os leões... E sob a lona esburacada, os serviçais e os arrumadores – essa nova espécie de escravos - continuam a olhar o céu através dos buracos, acreditando ainda num milagre…Não no milagre das rosas, mas num outro milagre – o dos papelinhos, que nos actos eleitorais que se aproximam, irá transformar o rectângulo, finalmente, numa terra da fraternidade, de bem-estar e de igualdade entre todos. Santa ingenuidade!...

Quem matou a esperança?...



Esta hora de crepúsculo em que nos encontramos é uma hora triste, uma hora simbólica. É uma hora silenciosa, indescritível e amargurada por não sabermos o que nos trará a manhã que vem a seguir.
É uma hora tão secreta e enigmática que até os heróis têm medo, e todo o homem se sente sozinho, receoso e incrédulo!...
E é por tudo isso que eu penso que chegou a hora de nos unirmos para pôr fim a esta progressiva degradação do país. Em cada dia que passa mais se acentua esta espécie de catalepsia em que parece termos mergulhado.
Como sonâmbulos, vagueamos um pouco por toda a parte, falamos de tudo e de nada e, de olhos fechados, movimentamo-nos indiferentes a tudo o que nos rodeia.
É a hora de acordarmos. É a hora de pôr cobro a este descalabro da Nação. É a hora de abrir os olhos, de reagir, de não acreditar na visão dos burocratas; nem no optimismo dos mercenários da política; nem na óptica desfocada desses senhoritos vaidosos; nem na "sapiência" desses bacharéis de cartilhas modernas, nem nessa seita de homens medíocres, bem falantes – todos eles egoístas, prepotentes e desconhecedores, em absoluto, da realidade da vida.
Não esqueçamos, porém, que é também a hora em que devemos pensar que nada está perdido, mas que tudo se pode perder. É a hora de fazer da resignação uma revolta pacífica e da indignação uma força íntima que não tema nada nem ninguém.
É a hora de denunciar as injustiças. É a hora de não pactuarmos com o compadrio; de restabelecer a confiança e, sobretudo, de reforçar, de cimentar o verdadeiro conceito da honra e da honestidade.
Julgamos, criticamos e culpamos sem nos lembrarmos que também somos cúmplices, porque muitas vezes, quer por comodismo, quer por interesses particulares ou outros, não denunciamos as ilegalidades para que seja feita justiça e punidos os infractores.
Durante mais de três décadas temos aceitado com indiferença e tolerância todos os abusos que têm sido cometidos em nome da democracia – uma democracia de funil a que urge pôr fim. E só conseguiremos acabar com esse circo de demagogia e de retórica quando, em vez de aplaudir e bater palmas, tivermos a coragem de denunciar e desmascarar os barões que se escondem atrás das cortinas do palco da governação, que exploram o povo na sua ignorância e credulidade e que têm delapidado impunemente enormes verbas, servindo-se em vez de servir.
Comemorou-se mais um aniversário da «Revolução dos Cravos». É tempo de perguntar: Quem matou a esperança que surgiu como redentora no dia 25 de Abril de 1974?...

sábado, abril 18, 2009

Temperaturas




«Em política, o absurdo não é um obstáculo».
Napoleão
Segundo um infiltrado que há anos mantenho no circuito político, os prestidigitadores da governança cá do rectângulo, preparavam-se, há dias, para lançar um novo imposto. Mais um… E agora calem-se os que andam por aí a dizer que os nossos políticos não têm ideias. Ai que não têm. Quando se trata de encontrar “fontes” de rendimento, são tantas as que fervilham naqueles iluminados crânios que nem lava a sair de cratera de vulcão!
É verdade. Baseando-se no nosso clima que é um dos melhores desta velhinha e decrépita Europa, os tosquiadores deste rebanho à beira mar tresmalhado, propunham-se criar um novo imposto, a que seria dado o nome de Imposto Meteorológico!
E vejam a astúcia dos pegureiros: calcularam uma temperatura média de base e por cada grau acima, cada um dos habitantes da região onde se verificasse uma subida pagaria uma taxa de 1 Euro equivalente ao “excesso calórico”.
Nas áreas que não atingissem a média estabelecida, por cada grau abaixo pagaria o indígena uma taxa da mesma importância, equivalente ao «desequilíbrio térmico».
Mesmo processo para os dias de chuva: cálculo da humidade média e taxa de higrometria aplicada aos «mais» e aos «menos» na mesma proporção.
No Inverno, o diploma referia-se também ao dispêndio com o aquecimento, surgindo neste capítulo a primeira desigualdade entre cidadãos do mesmo País. Com efeito o preço do gasóleo, do gás e da electricidade seria mais elevado no Sul e mais baixo no Centro e no Norte. Em Beja, por exemplo, o litro, o quilo ou o quilovátio, respectivamente, seriam mais caros do que em Viseu, na Guarda ou em Vila Real, pois os habitantes da cidade alentejana terão muito menos necessidade de aquecimento do que os indígenas das faldas do Caramulo, da Estrela ou do Marão!...
E esse imposto só não foi avante porque, logo que dele teve conhecimento, o Instituto de Meteorologia e Geofísica, que detém o monopólio das condições climatéricas para Portugal e Ilhas Adjacentes, ter-se ia oposto veementemente classificando-o de «um acto absolutamente inconcebível, porque maioria terráquea, não significa, de maneira alguma, maioria absoluta no que diz respeito aos Astros!»
Que as senhoras e os senhores que "fazem" a chuva e o bom tempo se cuidem. A vingança pode vir a caminho, porque "quem se mete com eles... leva!" E entre eles há quem goste muito de "malhar…"

Páscoa 2009




«SENHOR, DESCE DA CRUZ!...»
Há, na circulação dos anos, e sempre que olhamos o caminho percorrido, épocas, dias ou momentos da vida em que parece faltar qualquer coisa que preencha este vazio da crescente desumanização do mundo... Qualquer coisa que faça ressuscitar o sonho perdido e mantenha viva a esperança e a força para enfrentar os imprevisíveis combates que diariamente surgem na nossa vida. E só nos libertamos dessa angústia, dessa solidão, quando encaramos a vida através da fé na Ressurreição.
E é tempo agora, porque Cristo ressuscitou! É Primavera. E a Natureza que acordou florida associa-se também a esta passagem da Morte para a Vida.
A Ressurreição é o fundamento da nossa Fé e da nossa Esperança. A Páscoa é por isso a festa do Amor, da Alegria e da Fraternidade. Mas é também, e sobretudo, tempo de reflexão!
O sofrimento, as injustiças, as lágrimas dos pobres, a poesia, tudo isso é uma espécie de religiosidade e mistério que nos convida a reflectir enquanto percorremos esta caminhada da vida.
Que me perdoe a ilustre poetisa, Maria da Conceição, por lhe ter roubado o título e o poema desta minha crónica de hoje. Mas eu não sabia melhor dizer, melhor pedir... nem melhor fazer:

«Somos semente, pela mão de Deus
Lançada, à Terra, como grãos de trigo,
Que germinou; mas quantos filhos Seus
Já não vêem, no Pai, o grande Amigo!

Esp'rança e Fé, virtudes lá dos Céus,
Com Caridade, um manto, bom, de abrigo,
Destes três dons fez uso São Mateus
Por Fé, foi mártir, não temeu o perigo!

Teu coração, oh, Deus, Sagrada Oferta
Nos enviaste em Teu filho Jesus
Que devolvemos feito chaga aberta!

É para Ele que vai um grito rouco:
Perdão, Senhor, mas desce dessa Cruz,
Vem pôr, na ordem, este Mundo louco.»

Este Mundo louco onde a inovação ocupou o lugar da sabedoria, a segurança social substituiu a família e a arrogância nos matou a serenidade. Em nome do nosso bem-estar e sem nos apercebermos estamos a perder Deus, porque renegamos as Suas leis naturais!...
«Perdão, Senhor, mas desce dessa Cruz, vem pôr na ordem este Mundo louco...»

sábado, abril 04, 2009

Morra Marta, morra farta...


Edição n.º 937 de 02 de Abril de 2009

Embora nunca vos tenha dito declaradamente, já devem ter percebido pelos meus rabiscos, que já cá cantam uns bons anitos!
Imaginem que já venho de tão longe que os primeiros passos de dança que dei, foi ao som de uma grafonola!... Sou ainda do tempo das sardinhas em salmoura, dos feijões cozidos e temperados com azeite, do presunto curtido na salgadeira, da genuína broa de milho, das sopas de "cavalo cansado", do vinho tirado do tonel e tapado com o espicho, etc., etc.,... E sou também daquele tempo em que ainda não existiam esses locais a que puseram o nome de Centros de Saúde, mas onde só vão doentes… e de véspera para serem atendidos. Não é que nesse tempo não houvesse doenças. Havia, evidentemente, mas os doentes eram mais "sãos"!...
Há dias, quando ouvi dizer que o Governo ia tratar da saúde aos indígenas cá do rectângulo cortando no sal do pão, lembrei-me da conversa que o meu vizinho Agapito – um homem mais ou menos da minha idade, mas com muito medo de morrer – teve com um discípulo de Hipócrates, a quem agora chamam de médico de família. É ele a contar: «Logo à entrada, mal me sentei, ele disparou:
- «Então de que se queixa?» – «Olhe, Dr., praticamente de nada, mas como ouço dizer a toda a hora que é preciso fazer atenção com o que se come!... Agora, por exemplo, fala-se muito no sal...» – «O sal? É a pior droga existente sobre a terra. Veja os gordos, os cardíacos...» – «Mas Dr. uma omeleta sem sal... – «Omeleta! Nem fale em ovos, homem! Olhe o fígado, o aparelho digestivo...» – «Mas Dr.... digestões difíceis só quando como carne de porco...» – «O quê?!... Você come carne de porco? Você não sabe que os nitritos são tantos nessa carniça que podem levar um cristão directamente à cova sem passar pela Igreja?...» – «Nesse caso, Dr., um bife com batatas fritas...» – Abrenúncio! Ó homem você s'tá doido! Não ouve falar em hormonas, não se lembra das vacas loucas?!... Batatas fritas, disse você? E as gorduras saturadas, os pesticidas, os conservantes...» – «Resta-me então o frango...» – «Alto aí, amigo! Esse galináceo tem ainda mais química do que o animal; é como uma espoja a absorver os venenos que lhe põem nas tremonhas...» – «Quer dizer que só o peixe, Dr.?...» – «Qual quê? Nunca ouviu falar na poluição do mar pelos petroleiros, nos esgotos que para ele correm? E o mercúrio?!... Comer peixe é como suicidar-se trincando termómetros, homem!...» – «Ouça Dr.: Sabe o que vou fazer? Comer apenas pão com manteiga...» – «Então experimente e verá!... Com a farinha actual que é um pó indigesto e a manteiga que é colesterol no seu estado mais puro, você mal se precata, dá dois saltos e é um homem morto!...» – «Quer dizer que nesse caso só me resta o ar...» – «E mesmo assim só o ar do campo, meu caro amigo... O da cidade, com os gazes dos escapes dos carros, os fumos tóxicos das fábricas, o enxofre...» E aqui eu explodi: - «Vá p'ró raio que o parta seu esculápio de uma figa! Eu cá vou ingerir nitritos, hormonas, mercúrio e todos esses venenos que diz existirem em tudo o que sabe bem. Vou consolar – me ouviu?... Vou consolar – me. Passe bem. Levantei-me e deixei-o a esbracejar...»
Alguns dias depois deste desabafo encontrei o Agapito num restaurante, numa encarniçada "luta" com um valente cozido à portuguesa. Esqueceu os nitritos, as hormonas, e toda a química existente em tudo o que agora se come.
Aliás, como nós, os amantes da boa mesa, fazemos. Nada de comidas plastificadas. E isso na minha “insuspeita” opinião, porque morrer por morrer, antes com a barriga cheia. Morra Marta, morra farta, como diz a velha máxima.

Falta de chá




Muito embora tenham sido os ingleses os "inventores" do chá das cinco, o famigerado five o’clock tee, foram no entanto os portugueses que trouxeram a planta do Oriente e a introduziram na Europa.
Reza a História que por volta do século XVII, a filha do nosso rei D. João IV, ao contrair matrimónio com Carlos II de Inglaterra, levava como dote, além da cidade de Bombaim, na Índia, o hábito de tomar chá, coisa até aí desconhecida em terras de Sua Majestade britânica.
A princípio, a bebida, proveniente da infusão das folhas do arbusto, era só privilégio das casas mais abastadas cá do Reino. Tomar chá conferia assim um certo estatuto de nobreza que, ao longo dos tempos se foi divulgando até que a expressão "tomar chá" começou a ser sinónimo de educação e de boas maneiras...
Estou daqui a ver a cara de escárnio de alguns leitores que consideram essa coisa de etiqueta e boas maneiras como resquícios do passado, daquele passado que as suas fanatizadas mentes não admitem seja lembrado!
Bom proveito lhes faça tal interpretação, mas cá p'ra mim continuo a pensar que a vida social só faz sentido quando é regulada por princípios de conduta que permitam distinguir o homem civilizado do homem das cavernas. Não porque esse nosso antepassado não mereça o devido respeito, mas ou se evolui verdadeiramente em todos os sectores da sociedade ou se continua a comer com as mãos e a limpar o nariz à costa da mão. Seria um recuo, penso eu, em que ninguém está interessado...
Mas vem este prólogo a propósito do "vale tudo" que reina por aí, a começar pela classe dirigente que chega ao ponto de não saber comportar-se com frontalidade, nem conservar o aprumo e a compostura que o desempenho dos cargos que ocupa lhe impõe.
À mais pequena escaramuça, estala o verniz, e assistimos, por vezes, a situações deveras caricatas para não dizer vergonhosas. No Parlamento, os eleitos da Nação, são disso um exemplo flagrante!
O chá que se possa ter tomado em pequeno ajuda muito, mas não basta. É preciso, pela vida fora, continuar a aperfeiçoar o nosso comportamento e saber enfrentar, civilizadamente, todas as situações.
Para baralhar ainda mais e usando armadilhas sofisticadas, apareceu el-rei D. Dinheiro que sem escrúpulos nem preconceitos se infiltrou em todos os sectores e se tornou senhor absoluto. Os seus arautos, os euros, de trombeta em punho, abrem o caminho. E passa-se por cima de tudo e de todos se, previamente, no percurso que conduz ao objectivo for estendido um fofo tapete de notas.
Tudo se compra e tudo é permitido. Compram-se empregos, títulos, nobreza... e até consciências!
E tudo é permitido em nome do senhor deus Dinheiro. A afabilidade, a cortesia, o «bom dia», a «boa tarde», o «se faz favor», e outras formas de civilidade caíram em desuso. Nada disso interessa e a importância do ilustre cidadão passou a ser avaliada pela sua conta bancária. El-rei D. Dinheiro, passou a ser uma espécie de lixívia, um tira-nódoas cada vez mais usado... Muito cheque, mas tanta falta de chá!...

sexta-feira, abril 03, 2009

Eles são muitos...

Recordo-me de que há cerca de quase três décadas quando regressei ao país depois de uma ausência de trinta anos, – não como exilado político ou por outro qualquer motivo próprio da época – era de bom-tom e podia trazer grandes compensações, dizer-se de esquerda ou então afirmar ter sido perseguido pela ditadura.
Pelo contrário, qualquer indígena que se dissesse de direita, era logo conotado com o “antigamente”, com esse passado tenebroso, mas cujo ouro “ajudou” muito libertador a encher os bolsos… Já nesse tempo o dinheiro não tinha cheiro!
Hoje, quando se fala de política, a discussão à volta de esquerda/direita está completamente ultrapassada. Não há diferenças. Não há esquerdas, não há direitas. Há, isso sim, um conjunto de interesses cuja conquista se exerce de maneiras diferentes, consoante o modus operandi de cada um dos intervenientes na contenda.
As ideologias que faziam essa destrinça deixaram de existir e cederam o lugar a uma luta feroz em que os objectivos que estão em causa são apenas os interesses pessoais.
Hoje vale tudo: é-se de esquerda e governa-se à direita ou é-se de direita e governa-se à esquerda. Salvo raríssimas e honrosas excepções, são todos iguais. Não há que escolher. O que interessa são os lucros no fim do mês ou no fim do ano depois de se terem somado todos os proventos relativos aos “tachos”.
Há, no entanto, que salvar as aparências. Mas só para português ouvir…E ei-los arengando a arraia miúda, arvorados em defensores dos pobres, dos velhos, dos desprotegidos da sorte, dos sem abrigo, prometendo mundos e fundos, mas sem repartir com eles quaisquer sobras dos seus lautos banquetes!
Fala-se muito em moralizar o Estado. Fala-se… São palavras ditas, mas sem vontade de concretização, porque isso não interessa a nenhum dos partidos. Há que dizê-lo sem medo, porque é a verdade.
Quando os políticos confundem o seu papel com o dos grupos económicos e querem fazer dos partidos empresas privadas onde podem colocar quem bem lhes apetece e talhar os seus ordenados à medida da sua ganância, está visto que não podemos esperar melhores dias.
Num pequeno céu como é o nosso, não há lugar para tantos abutres! Com esta doutrina do dinheiro e com tantos e tão devotados praticantes, não há “água benta” que chegue. A injustiça e a impunidade passeiam ostensivamente perante a pobreza que vai aumentando assustadoramente. Há crianças que passam fome e idosos que deixam de comer para comprar medicamentos!
Porém, essas carências não existem no mundo daqueles que têm mais almoços que barriga. E nesse mundo há de tudo: Esquerda, direita, centro …
Depois das próximas eleições para o Parlamento Europeu e segundo o Novo Estatuto dos Deputados, os seus salários vão ser aumentados de 3.815 euros para 7.665 euros por mês! Será possível esta imoralidade em tempo de crise?
A ser verdade, não terão razão aqueles que dizem que o Estado rouba aos pobres nos impostos e nos serviços para criar novos-ricos? É verdade que os pobres têm pouco, mas são muitos…

Política, tolerância e ética

Assistimos, nestes últimos dias, a uma troca de palavras entre partidos políticos que em nada contribuem para a dignificação e o bom-nome da classe que nos governa.
Ainda recentemente e enquanto António Costa acusava o Bloco de Esquerda de ser «um partido oportunista que parasita a desgraça alheia e é incapaz de assumir responsabilidades», Francisco Loução, por seu turno, respondia em tom irónico, «que era uma honra para o BE ser transformado no principal adversário deste partido esponjoso», depois de ter esclarecido que «sabe quem são os parasitas, as ratices e as ratazanas…»
Poderia citar ainda mais alguns “mimos” proferidos pelos nossos mandantes desde o princípio deste ano, mas não vale a pena perder tempo com os desvarios de suas excelências…
Todo o homem tem o direito de pensar e de divergir, mas acima de tudo deve ser tolerante e cuidadoso nas suas afirmações. Todos sabemos que apesar de as ideias não serem sempre convergentes, é da sua discussão que brotam um sem número de pensamentos que poderão nortear a humanidade e abrir o caminho da verdade.
O homem distingue-se dos demais habitantes do universo pela sua capacidade inata de transformar a natureza e de criar bens culturais. No entanto essa criação só é genuína e verdadeira quando é feita em liberdade absoluta, independente de credos, imparcial e isenta, pois ela fica a pertencer a toda a humanidade. É património de todos.
Na sua luta pelo poder, os homens que o detêm, tudo fazem para o conservar enquanto os que se lhes opõem, tudo tentam para o conquistar. Não há regras, não há limites. E, assim, chegamos a uma espécie de “lei da selva” em que impera o mais forte.
Vivem-se situações indignas em quase todos os sectores da vida nacional -situações que há muito se julgavam sepultadas para sempre nas cinzas do passado.
Vivemos numa democracia disfarçada.
Hoje, como no crepúsculo de outros tempos passados, déspotas e fundamentalistas de todos os credos e opiniões, disfarçados de homens de bem, de democratas de fachada, tentam, sem vergonha e com um despudor nunca visto, transformar a mente daqueles que com o seu saber e trabalho contribuíram para o esplendor da civilização e marcaram rumos na construção de uma sociedade digna, fraterna e solidária.
Termino, citando, com a devida vénia, D. Carlos Azevedo, Bispo auxiliar de Lisboa: «São frequentes, nos nossos dias, os sucessivos atentados à norma, a repetição insistente e subtil da convicção de que não há normas universais na antropologia humana, a confusão entre o respeito pela diferença e a consideração objectiva e sem complexos do que é normativo. Em tempos de profunda crise económica, cada dia agravada, é hora para exame sério dos comportamentos de empresas, dos governantes, da Igreja Católica e da sociedade civil constituída por cada um de nós. A ética requer entidades reguladoras independentes do poder político e económico e autonomia responsável dos indivíduos ao serviço do bem comum…»

A irresponsabilidade remunerada

Aqui há tempos, num fim de semana, os deputados do PSD que na Assembleia da República representam, o Povo que os elegeu, resolveram sem mais aquelas, “pirar-se” do hemiciclo numa altura em que ia a votação uma Lei, creio eu, referente ao estatuto dos Professores.
Logo a seguir houve grande alarido, pois parece que se todos estivessem presentes a tal Lei não passaria, dado o facto de ter havido deputados da maioria, que ou se abstiveram ou votaram contra.
Este caso suscita várias interpretações e eu pergunto-me se o que aconteceu agora não se terá repetido noutras ocasiões em que “outras” leis foram aprovadas de igual forma, isto é, com tanta falta de responsabilidade e tão levianamente.
Mas o que ainda mais me indignou foi o facto de haver quem viesse a terreiro desculpar os faltosos, evocando a necessidade de se ausentarem para se dedicarem a outros trabalhos para sobreviverem, pois o ordenado que auferem no Parlamento não lhes permite viver desafogadamente!
Um desses defensores afirmou que “Os deputados têm a sua vida profissional, não se paga aos deputados o suficiente para eles serem todos apenas deputados, sobretudo quando são profissionais do Direito ou fora do Direito. Um advogado que tem um julgamento, não pode estar na Assembleia e no julgamento ao mesmo tempo. (…) Talvez esteja errado que as votações sejam à sexta-feira, é preciso arranjar horas para a votação que não sejam as horas em que, normalmente, é mais difícil e mais penoso estar na Assembleia da República. (…) No meu tempo não havia votações à sexta-feira, porque é a véspera do fim-de-semana. Os deputados são humanos, não são máquinas…”
Não faço comentários. No entanto como há muita gente neste país que não está informada da verdade verdadeira eis quanto ganham os defensores do Povo:
O salário base de um deputado é de 3.707 euros e 65 cêntimos. Por extenso para que percebam melhor: Três mil, setecentos e sete euros e sessenta e cinco cêntimos. Se o Sr. deputado estiver presente 22 dias, receberá por dia cerca de 168 euros!...
Agora, Ti António faça a comparação com a sua reforma mensal de 256 euros. Já fez as contas? Pois é…
Mais uma vez os políticos nos “dizem” através da aritmética que a “sua” Democracia não é a mesma que a que apregoam. Socialmente falando a sua conduta não só é vergonhosa como ultrajante! E perigosa…
A Democracia quando exercida sem ética nem moral, corre o risco de se transformar num bumerangue que no retorno pode ser fatal para o praticante.
A onda de individualismo que está a varrer o Mundo pode, a breve trecho, transformá-lo num autêntico campo de batalha, cujas consequências ninguém pode prever.

segunda-feira, março 16, 2009

Aqui há alguns meses, vesti um bibe e assim disfarçado de "puto", sentei-me numa velha mesa que é uma espécie de carteira daquelas que havia nas escolas do meu tempo, e escrevi uma carta ao sôr ministro pedindo-lhe um "Magalhães".
Durante dias fui esperar o carteiro junto à minha caixa do correio, na esperança de receber um aviso de chegada da "máquina"... A notícia não chegou pelo correio, mas via telemóvel por SMS: «Para procedermos à entrega do seu Magalhães na sua escola efectue nos próximos cinco dias o respectivo pagamento...»
Como não pude indicar o nome da escola pelas razões que todos conhecem, fechei-me em copas e não efectuei qualquer outra deligência. Felizmente, porque, como todos sabem, rebentou aquela bronca dos erros apareceram aqueles erros de português no 'software'

sábado, fevereiro 21, 2009

Disfarces




On peut rire de tout, mais pas avec tout le monde.
Pierre Desproges


Era Domingo gordo. Tinha chegado o dia. Finalmente iria divertir-se à grande e à portuguesa!...
Primeiro pensou em mascarar-se de Ministro, mas a mãe dissuadiu-o do intento: - Nem penses nisso, filho. Já pensaste na figura ridícula que farias, qualquer que fosse a cara do que escolhesses?
Anacleto reflectiu, reconsiderou, e resolveu então disfarçar-se de ladrão. No meio de tantos, era mais fácil passar despercebido...
Muniu-se então de um velho saco de campismo, pôs dentro uma pistola-metralhadora em plástico, um velho alicate, um pé de cabra enferrujado, e ei-lo na rua.
Mas logo ao virar da esquina, eis que surge uma farda: - Em nome da Lei, abra lá o saco!... E, apalermado, Anacleto, obedeceu. Abriu, e não conseguiu convencer a "autoridade" de que se tratava apenas de um disfarce: - Com que então, nem aos Domingos!... Com todo este arsenal onde vais, ó velhinho?!... Vá, andor, p'rá esquadra... e já!
Pelo caminho, completamente transtornado, sem conseguir raciocinar, pensou ainda que tudo aquilo não passava de um pesadelo.
E já naquilo que ele julgou ser a esquadra, a voz rouca do homem fardado, voltou a ouvir-se: - Chefe, aqui tem um figurão que apanhei agora mesmo...
Anacleto tentou falar, mas logo o outro se adiantou: - Cala a boca. Só falas quando eu disser... E, então, aquele que dava pelo nome de Chefe, começou a tirar do saco o material: - Com toda esta sofisticada panóplia, com certeza que ias assaltar o Banco de Portugal, não?!... Anacleto julgou ver um sorriso irónico no rosto do inquiridor e arriscou: - Mas chefe, eu sou um homem honesto e fiz tudo isto por ser Carnaval...
E a resposta não se fez esperar: - Senhor agente chame aí o quebra-ossos que aqui o nosso amigo está a mangar com a tropa...Mas a ordem foi suspensa, porque a cara do "preso" inspirava, de facto, compaixão. E o Chefe deixou que ele falasse. E ele expôs, calmamente, o seu caso, a sua brincadeira... E o homem dos galões achou até piada e quando se preparava para repreender o seu subordinado pela sua falta de tacto, notou algo de estranho: - Ouça cá, ó soldado, o seu número de matrícula? Você não pertence a esta esquadra... E o homem, confuso: - Sabe, é que eu também não sou polícia... Como hoje é Domingo gordo... E o Chefe ameaçador: - Com que então a brincarem aos polícias e ladrões?!... Bonito. Muito grave. Muitíssimo grave. Abuso de autoridade...Isto vai custar-vos caro!...
Mas não conseguiu conter-se por mais tempo – e desatou a rir. Sem parar. E a chorar de tanto rir, lá conseguiu explicar: - Nenhum de nós os três é aquilo que parece. Eu também não sou Chefe. O uniforme que trago vestido, é alugado. Como é Domingo Gordo, e é Carnaval...
Claro que a crónica de hoje vem a propósito da quadra que atravessámos. Não quero, no entanto, deixar de lembrar que há muitas semelhanças entre a minha ficção e certas situações que quase diariamente presenciamos. É tão grande a confusão que reina actualmente cá no rectângulo que é muito difícil conseguirmos fazer a destrinça entre o que é falso e o que é verdadeiro.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Vivências

A maior parte dos habitantes cá do rectângulo não vive. Corre…
Andamos cheios de pressa e sempre rodeados de novos brinquedos saídos do incomensurável ventre dessa terrível e assustadora fábrica que dá pelo nome de tecnologia. Massacrados dia e noite pela propaganda sistemática, ludibriados pela publicidade e enganados pelos falsos fazedores de milagres, não paramos!
Nesta sociedade de compra e venda, sempre de mochila às costas, vamo-la enchendo de opiniões, de quiméricos conceitos de vida, de sonhos irrealizáveis e de falsas esperanças.
E sem quaisquer certezas no amanhã, à medida que os dias vão passando, o nosso sonho vai crescendo até que nos auto-convencemos de que estamos perante a realidade.
E só quando a vida nos troca as voltas, nos barra o caminho, nos traz uma contrariedade, nos toca com uma perda, uma doença, então, acordamos, descemos à terra e verificamos que de nada valem as correrias, de nada serve o que armazenámos na mochila.
Somos enganadores enganados, concorrentes uns dos outros, com a casa cheia de bugigangas e a cabeça repleta de nada!
É o mundo que criámos. Um mundo materialista, afastado de Deus, sem valores espirituais, apenas virado para o sucesso imediato, para o dinheiro, para a ostentação, para a vaidade e para o luxo.
Procuramos ter cada vez mais “coisas” para mostrar ao vizinho, para fazer ver que também “somos”, que também “temos”e assim transmitirmos uma ideia falsa de nós próprios.
E é sempre com o conceito utilitarista do materialismo prático que não paramos de correr na ânsia de possuir. É uma espécie de escravatura, uma dependência em relação aos objectos que o progresso e a tecnologia vão parindo…
Podem não acreditar, mas, às vezes, é tanta a confusão, que a minha cabeça transforma-se num verdadeiro «Inferno»! E para complicar, surgem dúvidas e, muitas vezes, pergunto a mim mesmo se esse «Inferno» é obra da minha imaginação, – arquitectado e construído com velhas tábuas do meu sótão – ou se é mesmo um «Inferno» a sério!
Não estou a referir-me àquele Inferno existencial de que nos falava a catequista quando éramos meninos, mas a este «Inferno» que nos rodeia – a toda esta balbúrdia, a toda esta confusão, a esta podridão que tomou conta da sociedade em que somos obrigados a viver. Uma sociedade comandada pelo dinheiro, onde prolifera a mentira, a inveja, a intriga e o egoísmo; uma sociedade donde desapareceram os valores tradicionais – a honra, a dignidade, a educação, a seriedade e o respeito. Uma sociedade onde tudo se mistura sem regras, sem cautelas, usando e abusando da ingenuidade dos que menos sabem, dos que menos podem, mas que acabam, finalmente, por serem sempre os “bombos” da festa.
Não haverá uma maneira, um processo para pôr a tecnologia ao serviço do bem-estar de todos sem discriminar pessoas, mas com um sistema que distinga as necessidades reais das supérfluas?
É que, na maior parte das vezes, temos tudo o que precisamos para viver bem, mas falta-nos um bocadinho de felicidade. E isso não se compra. Temos de ser nós a construí-la. Pedra por pedra. Sem pressas. Sem correrias. E com a forte convicção de que o “material” que temos, - o que possuímos - nos chega para a sua construção.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Carta ao Zé




Pois é, meu caro Zé pagante! Agora torces a orelha, mas já é tarde… Eu não te dizia que mais ano, menos ano, mais mês, menos mês, mais dia, menos dia, a coisa iria acontecer? Então julgavas que podíamos continuar nesta roubalheira descarada? Eu sei que quem paga as favas somos sempre nós, os pequenos, mas é dos livros: “o povo vota mas não manda…”
E não fosse esta crise mundial que pôs a nu muitos podres daquela gente que deveria ser a “nata” da nossa sociedade, (mas que não é!...) continuaríamos a alimentar esses pançudos até que a barriga, de tão cheia, lhes rebentasse o cós das calças.
Não te esqueças, Zé, que foste também tu que contribuíste para que esses proxenetas da política subissem aos lugares que ocupam. Pensavas que bastava o cheiro das rosas para transformar um laranjal moribundo, invadido pela cochonilha e pela ferrugem, numa nova mancha verde sem ervas daninhas, sem parasitas e sem podridão?!...
Ingénuo que és! Já Alexandre Herculano dizia “que a história política é uma série de desconchavos, de torpezas, de inépcias, de incoerências, ligadas a um pensamento constante que é o de enriquecerem os chefes de partido…”
E se nessa altura ele se referia apenas aos chefes, hoje há que incluir todos os seguidores de suas excelências: familiares, amigos, afilhados, recomendados, amásias e demais pessoal democraticamente ligado à “nobre causa” de enriquecer sem trabalhar.
Quanto a maneiras de pensar e agir nunca conseguirás entrar nessa linha de pensamento usada pelos tais proxenetas de que acima falei. Político é político e interpretar o que dizem ou explicar o porquê daquilo que fazem, é um segredo da classe, embora quase sempre haja um cheirinho a dinheiro que se escapa por uma frincha do testo da panela …ou do tacho!
Desemprego, miséria, exclusão social, insegurança, doença na Saúde, agitação no sistema educativo, tudo isso é triste, é verdade, mas acontece num mundo que não é o deles. Conheces algum político desempregado ou pobre? Conheces algum político que quando doente vá para as urgências e espere horas a fio para ser atendido? Podia citar mais exemplos, mas não vale a pena. Tu conhece-los e eles também, mas fazem de conta…
Estamos num País do “faz-de-conta”. Anda por aí muito ladrão disfarçado. Às vezes, zangam-se as comadres e sabem-se algumas verdades. Mas os “bombeiros de serviço” vêm logo com o extintor e nunca se sabe a verdadeira causa do “incêndio”.
Do que me dizes acerca do prejuízo das acções que tinhas na Bolsa, nada te sei dizer, pois, como sabes, em questões de Bolsa confiei sempre só na minha. Acerca do dinheiro que tinhas no tal Banco, também nada posso acrescentar. O meu está seguro. Continuo a guardá-lo no meu colchão…
Perguntas-me quando é que “isto” irá mudar. Não sei. Há um fosso enorme entre a vida real e aquela que vai na cabeça dos políticos. Além disso somos poucos e pequenos e estamos entre gente desonesta, sem vergonha, sem princípios e sem escrúpulos de qualquer espécie.
Há 34 anos que fizemos uma aposta. Como na lotaria. E o resultado aí está. Uma ligeira “aproximação”que mais parece uma continuação -uns a nascer na lama e outros nas nuvens; uns a morrer de fome e outros de fartura. Vem aí a próxima ou próximas extracções – uma europeia e duas nacionais. Habilita-te, Zé, mas não te queixes se mais uma vez apostares nos números errados…

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Realidades

Acontece quando estou muito tempo só. Abstraio-me de tudo o que me rodeia e, cautelosamente, levanto o véu dos meus espaços imaginários. E nem sempre a fantasia consegue apagar a realidade. Muitas vezes, atravessando-se no caminho do pensamento, a velhice interrompe projectos e sonhos. E é nesses momentos de reflexão que, ao descer a montanha, relembro pedaços do caminho percorrido na subida.
Como na projecção de um filme antigo a preto e branco, com cenas por vezes desfocadas e aquele relampejar constante motivado pela antiguidade da película, as imagens da adolescência, perpassam-me fugazmente pela retina. Por detrás de uma neblina carregada de recordações surgem-me de quando em vez, rostos risonhos de companheiros de infância que jogam o pião, a bilharda e outras brincadeiras. Mas tudo mudou!...
Gentes, hábitos e mentalidades, foram evoluindo ao longo do tempo. Não! Ao contrário do que muitos possam pensar ao lerem este intróito, respeito o passado, mas não o desejaria nunca como futuro.
Também nunca senti o peso dos anos, pois considero (até este momento em que escrevo!...) que o seu somatório aritmético não corresponde, em muitos casos, à velhice real.
A velhice, hoje como ontem, e apesar de todos os avanços da ciência, abrange a decadência física e mental de todos os indivíduos, independentemente das suas idades.
O amontoar dos anos não significa senilidade ou falta de espírito. E como há jovens com sinais de decrepitude tão pronunciados que a velhice já tomou conta deles, também há idosos que, para além do seu saber e experiência, exibem ainda uma juventude saudável e contagiante.
É por isso que, em muitos casos, é difícil saber onde, exactamente, se situa a terceira idade.
Infelizmente, um conceito simplista acordado pela maioria das pessoas inclui nessas duas palavras, indiscriminadamente, todos aqueles que ultrapassaram a barreira das seis dezenas de anos.
No Antigo Testamento o idoso era referido como o exemplo para os demais. Ele era o transmissor da sabedoria e a velhice era considerada uma bênção, uma riqueza que devia agradecer-se a Deus.
Mas os tempos foram mudando e hoje do homem sábio, do homem do bom conselho, do homem temente a Deus, passou-se ao velho marginalizado, ao homem desprezado, ao homem para quem a sociedade não encontra lugar...
São fáceis de encontrar as razões desta inversão: num mundo em que os valores económicos ultrapassaram e quase esmagaram os valores espirituais e culturais, não têm lugar aqueles que na escrita fria dos números deixaram de figurar na coluna do "Haver".
No nosso mundo civilizado, muitas vezes, a morte de um velho é alívio de novos… Ingénua ou propositadamente, esquecem, esses jovens e até alguns menos jovens que também eles são elos da mesma corrente!

Frio




Estes dias de frio intenso têm-me feito lembrar aqueles do meu tempo de menino e moço em que logo que saíamos de casa a caminho da escola as calçadas da minha aldeia se encontravam brancas e escorregadias da geada que tinha caído durante a noite. A juntar a isso aquele vento de suão que geralmente soprava em Janeiro e vinha quase sempre por altura do Santo Amaro, santo que era e continua a ser o Padroeiro cá do burgo, emoldurava o ambiente frio de então…
Era no tempo em que, sobretudo nos meios rurais, se usava, como calçado, os socos, uma espécie de tamancos fechados. Eram feitos de uma madeira própria, se não me engano da faia, e tinham atacadores de couro. Os tamanqueiros, antecessores dos sapateiros, esmeravam-se na sua confecção e alguns fabricavam, manualmente, claro, autênticas “obras de arte” no sector da tamancaria.
Havia quem lhes pusesse no rasto umas tiras de borracha pregadas com pregos finos, para que tivessem mais aderência e não escorregassem.
Aqui e além, numa poça de água, o Sol fazia brilhar o gelo e então, ao mesmo tempo que caminhávamos, lá nos íamos entretendo a esmagar esses montículos de “cristal” que se espalhavam pela calçada.
Já não me recordo se nessa altura era tão sensível ao frio como agora, mas penso que não e do que me lembro é da sensação de desconforto quando em noites frias ia para a cama e me deitava entre lençóis de linho. Dava a impressão que estavam molhados. Ainda hoje me arrepio quando me lembro disso.
Também ainda não havia luz eléctrica e mal a noite chegava lá se acendia o candeeiro a petróleo, a candeia de azeite, as velas de cera ou o gasómetro a carbureto. Como aquecedores havia a lareira e nalgumas casas usavam-se as braseiras, um recipiente de cobre onde se colocavam brasas previamente tiradas da lareira e abafadas num pote de barro preto, que eram depois reacendidas e reutilizadas.
Lembro-me também da escalfeta da D. Aurora, a minha primeira professora. Era uma caixa rectangular de madeira, forrada a zinco e com a tampa crivada de buraquinhos por onde saia o calor. Geralmente íamos buscar as brasas a casa das vizinhas da escola ou então preparávamo-las nós com molhos de vides que queimávamos e depois enchíamos o recipiente.
Este intróito para vos dizer que este frio e ao contrário do desses tempos passados, me deixa completamente paralisado!
Seja a idade ou os trinta anos que vivi sob o calor tórrido dos trópicos, o certo é que desabituei-me de baixas temperaturas. Há dias em que nada me aquece e nada me apetece fazer. Já experimentei a cama, mas também não resulta, pois arrisco-me a morrer asfixiado sob o peso dos cobertores…
Enquanto a minha chefe me diz que eu sinto frio porque não trabalho como ela, outros dizem-me que o meu frio não é verdadeiro, que o meu frio é psicológico!
Tanto ela como eles podem ter razão. Mas o frio, quem o tem sou eu …

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Bom ano de 2009

Distraído que andava quase me esquecia de encerrar o meu blogue para "balanço"...
Já com meio pé em terreno do novo ano, tempo ainda para desejar a todos os que me visitam, um 2009 com muita saúde. Não vos desejo mais nada, porque com ela todo o resto se pode alcaçar.
Um conselho: Vive a tua vida "HOJE", porque o "AMANHÃ" não passa de uma esperança fugidia. que mesmo estendendo as mãos para a agarrar nunca temos a certeza de o conseguir.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Paixões

Quando Deus nos concede a graça de percorrermos com saúde e lucidez uma considerável etapa da caminhada da vida, raro é o dia em que, ao acordar, não sintamos como que uma espécie de mola, um forte impulso que nos faz erguer as mãos ao céu e agradecer!
Acontece comigo e penso que acontecerá com todos aqueles que, como eu, desde muito novos, e apesar das muitas marteladas que levaram e deram nos próprios dedos, souberam sempre encarar a vida com optimismo, humildade, tolerância, esperança e muita fé.
O artista, o cientista, o poeta, o ourives da imaginação, o arquitecto do diálogo e até o modesto artesão, todos eles devem sentir, embora cada um à sua maneira, esse sentimento de gratidão, essa bênção que é, afinal, como que a comunhão do divino.
Quando, percorridos muitos quilómetros do percurso, experimentamos o sentimento do dever cumprido sem que durante a corrida nunca tenhamos tentado molestar o companheiro que seguia a nosso lado, confessamos, sem vaidade, que nos sentimos imensamente felizes e contentes. E por que não dizê-lo, orgulhosos, até!...
Nesta etapa da vida em que as paixões esfriaram, em que já não temos necessidade de nos deixarmos arrastar pelo favoritismo tendencioso das competições que se realizam à nossa volta, devemos apenas pedir forças e saúde para que possamos continuar a percorrer, até ao apito final, estes restantes quilómetros da maratona que Deus nos impôs.
Viver apaixonado pela vida, sem, contudo, nos deixarmos dominar pelas paixões do passado, pelas recordações de uma juventude que já passou, cuja assumpção nos poderá tornar ridículos aos olhos dos outros é, quanto a mim, o melhor remédio contra sentimentos de tédio e de desistência.
Bem sei que com os “atractivos”cada vez mais cativantes desta vida moderna a "Arte de Saber Envelhecer" se torna mais difícil de aprender.
E o que piora ainda mais a aprendizagem é que muita gente teima em tomar como ponto de referência esse rectângulo plastificado a que dão o nome de Bilhete de Identidade! Bem sei que é obrigatório trazê-lo connosco, mas daí a deixar que ele nos escravize...
Contava-me há dias um Amigo que na Universidade Sénior do Rotary Cube de Tondela, uma senhora com a bonita idade de 84 (oitenta e quatro) anos de idade tinha começado a frequentar as aulas de informática e que passado pouco tempo, muito contente e feliz exultava de alegria por já saber servir-se do computador!
Velho e idoso não é a mesma coisa: o idoso renova-se em cada dia que começa; o velho vai acabando noite após noite. O idoso, olha o sol que desponta, conserva ainda um clarão de esperança; o outro, o velho, contempla o dia que termina, a escuridão, o tempo que já lá vai….
Talvez o tempo passe mais depressa quando vivemos apaixonados pela vida. Mas, cá na minha, essa paixão faz com que a velhice demore mais tempo a chegar.