quarta-feira, janeiro 16, 2008

Ladrões




Como já tenho escrito várias vezes, sou ainda do tempo em que os ladrões eram pobres. Se alguns dormiam debaixo de telha, a maior parte tinha de se acoitar sob o vão de uma escada, num canto de uma velha casa abandonada ou num palheiro distante do povoado onde dormitavam nos intervalos dos “trabalhinhos”.
Era difícil a sua vida naqueles tempos!...
Trabalhavam, sobretudo, a coberto da noite e usavam as mais rudimentares ferramentas, enfrentavam os mais variados perigos, não tinham sindicato que os defendesse e acabavam muitas vezes nas masmorras húmidas duma cadeia comarcã. Vida difícil!...
Todos lhes eram hostis e a sociedade desse tempo defendia ferozmente os interesses do roubado e estava-se marimbando com a sorte do autor do roubo.
E isso era uma injustiça flagrante, pois as proezas arriscadas e por vezes perigosas do ladrão em nada se comparavam com a pacatez e indolência do roubado. E injustiça tanto mais grave quanto era certo que o roubado tinha a seu favor, não só as Companhias de Seguros, como a acção da polícia e a cumplicidade dos magistrados. Acrescente-se ainda que os ladrões faziam parte de uma classe onde não existia a palavra “greve”, pois se a “propriedade é o roubo”, sem ladrões desapareceriam os proprietários, os tribunais, os magistrados e seria o crescimento incontrolável do desemprego, coisa de que não se falava então…
Mas, mudam-se os tempos… e tudo isso pertence ao passado. Foram-se os “pés de cabra”, as gazuas, os alicates e hoje basta uma esferográfica para fazer o “trabalhinho”!
O roubo entrou definitivamente nos nossos costumes com regras e até com estatuto de associação. Hoje é o “desporto” mais em voga e o mais lucrativo – os ladrões são ricos e a profissão estende-se a todas as classes. E quanto maior for o furto, mais importância adquire o seu autor. Há até alguns que possuem títulos nobiliárquicos, sem falar das “excelências” e de outros títulos honoríficos que precedem o nome de muitos desses novos profissionais da ladroagem.
E que ninguém tenha dúvidas, porque a este ritmo tudo leva a crer que graças ao avanço das ciências, da tecnologia e às mil interpretações da moral, só terá futuro quem tiver feito estágio ou adquirido um diploma dessa profissão!
Os velhos tempos acabaram… E volto a citar Almada Negreiros: «É tão indecente estar sóbrio no meio de bêbados, com é indecente estar bêbado no meio de gente sóbria…».
Perceberam?!... Se não perceberam, estou às vossas ordens para explicar.

sábado, dezembro 29, 2007

Fiquei triste, minha senhora!...


(Texto escrito e publicado em 16 de Julho de 2004)
A recente decisão do senhor Presidente da República de não convocar eleições antecipadas, para além do terramoto político que provocou, permitiu também que ficássemos com uma ideia, ainda que pálida, de algumas personalidades que gravitam nas altas esferas da vida política portuguesa.
Poderia citar várias, mas a que mais surpresa me causou pelo chorrilho de impropérios e pela agressividade como criticou o mais alto Magistrado da Nação, foi, sem dúvida a secretária nacional do PS, Ana Gomes.
Talvez pela maneira como desde pequeno me ensinaram e depois me habituei a admirar e louvar a sensibilidade feminina, confesso que me constrangeu ainda mais a maneira desbocada (perdoem o termo) como proferiu aquelas palavras à intenção do Presidente da Republica.
Daqueles olhos que eu vi há anos verter lágrimas de alegria aquando do processo da independência de Timor, brotaram agora autênticas chispas de raiva e de ódio não contidos.
Fiquei triste, minha senhora!...
Fiquei triste por ser obrigado a substituir aquela sua patriótica, afável, enérgica e humana imagem que guardava dentro de mim, por esta outra de agora – olhar desvairado, cara deformada pelo rancor e boca sequiosa de vingança.
Nas derrotas, e para os que não sabem perder, o orgulho pessoal e a convicção de superioridade, cerra-lhe os olhos e faz com que percam a noção de uma das mais nobres virtudes dos seres humanos – a humildade!
Ser humilde, saber enfrentar as contrariedades da vida, além de virtude é também uma característica das grandes personalidades. E eu sempre pensei que a senhora pertencia ao número delas. Mas enganei-me…
Quando a ideologia e o sereno juízo dos factos são substituídos por reacções puramente afectivas, facciosas e intolerantes, perde-se por completo a noção das coisas. E foi o que aconteceu…
Lá bem no fundo, e passada que foi a vaga de revolta que lhe tolheu o discernimento, deve ter reconhecido, minha senhora, que a sua atitude e o seu comportamento, não foram, minimamente, compatíveis com o lugar que ocupa.
Um democrata verdadeiro nunca perde o norte, quer quando a frustração lhe bate à porta quer quando a sorte lhe entra pela janela…
Fiquei triste, minha senhora!...
Fiquei triste, porque – e repito-me – dos olhos que vi brotar lágrimas de alegria, e da boca que ouvi palavras de grande elevação patriótica, vi agora sair fulminantes faíscas de ódio e palavras arrogantes, rancorosas, impregnadas de prepotência e de má educação…

Vaticínios




No fim de mais um ano que não nos deixa boas recordações, e no começo de outro que segundo já predizem os oráculos não vai ser nada melhor, não sei, francamente, o que hoje vos hei-de dizer quanto à maneira como se irá comportar o figurão que aí vem – o 2008…
Para já, e sem que isso constitua desrespeito ou concorrência desleal para com os nossos astrólogos oficiais, eu aventurar-me-ia a prever para 2008 um ano decisivo, isto é, um ano do “ vai ou racha”.
Dito por outras palavras: ou os nossos políticos começam a fazer uma espécie de recruta no país profundo para conhecer as suas verdadeiras necessidades dando, ao mesmo tempo, exemplos de trabalho aos indígenas ou então continuaremos na mesma cegarrega e arriscamo-nos a ser incorporados no país vizinho, como aliás, já o vaticinou o nosso Nobel.
Em qualquer dos casos, quer chova quer faça sol, os mandantes, esses, estão-se nas tintas. Quer a coisa vá bem quer não, nada perdem, porque há sempre dinheiro para eles. E por mais perigosas que sejam as suas piruetas no trapézio da governação, há sempre por baixo a rede do Zé que em caso de queda os catapulta para outros trampolins.
«É a vida! …» Como costumava dizer um dos nossos ex-mandantes, o tal das “paixões” que se escapuliu e se despediu à la française, mas que hoje está bem na dita cuja!
Mas foi sempre assim. Não julguem que por agora termos auto-estradas com portagens, “metro”, TV por cabo, telemóveis da 4.ª geração, Internet, brevemente TGV, um aeroporto ainda sem lugar certo, que as coisas mudaram!... Ora leiam, (mudem apenas as datas) o que escreveu em finais do século dezoito o nosso Fialho de Almeida:
«Na ratoeira do tempo ainda ignobilmente está a agonizar 1889, e já ao faro do queijo, o ratinho de 90 se prepara a esfuziar pela portinhola do cárcere, a sua cabeça aguda e chata de roedor. (…) - «Ele aí vem 1890!... Com o mesmo parlamento a esbarrondar de intrigas e ambiciúnculas corriqueiras, a mesma bobagem turva nas cumeeiras do Estado; a mesma inanidade nos tipos, a mesma falta da iniciativa nos caracteres, e esterilidade idêntica nos ventres das mulheres, nos cérebros dos homens, e na cornucópia sôfrega dos argentários. 1890, é mais um acto desta farsada da vida em que os homens se entrechocam como Polichinelos, sem o respeito que salvou a geração dos nossos Avós, e sem o desprezo que foi longos anos a grande força cívica dos nossos Pais. – Rato de esgoto passa depressa, e livra-nos de ti…»
Por isso, percam as esperanças os ingénuos, os que ainda acreditam nas palavras de políticos. De nada vale escrever, falar, barafustar, praguejar ou reivindicar. Eles não nos ouvem. Ergam as mãos ao Céu – aqueles que, como eu, acreditam – e peçam a Deus muita saúde, paz e alegria, porque cá em baixo ninguém nos ouve.

Feliz Natal


Feliz Natal
Neste mundo apressado e frenético em que vivemos, só as crianças, na sua inocência e simplicidade e com a pureza que brota dos seus corações, continuam a transmitir a mensagem de esperança, de solidariedade, de paz e de amor que há mais de dois mil anos, esse Menino veio trazer ao Mundo.
Os homens, numa luta contínua e ambiciosa, – primeiro na terra, depois nos mares, nos ares e agora nos espaços interplanetários, pouco a pouco, se foram esquecendo de si próprios.
E por mais paradoxal que isso pareça, quanto mais o homem avança e mais descobre, mais ele se apaga e mais a sua imagem original se desvanece nessa corrida vertiginosa que a vida lhe impõe. Preso na automatização que criou, ele tende cada vez mais a transformar-se numa simples peça de uma engrenagem maldita, da qual jamais poderá libertar-se.
Dei comigo a pensar em tudo isto num hipermercado rodeado pela multidão frenética, apressada e eufórica que por entre atraentes brinquedos, inúmeras iguarias, e tentadoras embalagens de prendas, se acotovelava ao som do "Jingle Bell" facturado em jeito de rock e lançado pelos alto-falantes espalhados por todos os cantos.
Um outro mundo, esse!... Um mundo mágico e fantasmagórico, tornado ainda mais quimérico e irreal pelo piscar intermitente de miríades de luzinhas coloridas. À música, juntava-se a algaraviada daquele formigueiro que, em longas filas, carrinhos a abarrotar, esperava a sua vez. Novos, menos novos e muitas crianças – um ror de gente!
Comparações com o Natal da minha infância? Impossíveis... Nem parecenças com aquele Natal tranquilo, quase sem brinquedos! Uma noite diferente envolta no perfume da resina das pinhas a aquecer junto à lareira para extrair os pinhões; os estalidos do troco que ardia; as panelas de ferro de três pés onde, conjuntamente, coziam as batatas, as couves e o bacalhau para a ceia; as filhós de farinha de trigo que minha Mãe tão bem fazia... e que tão bem sabiam lambuzadas com o mel das nossas colmeias!...
E o presépio, na velha capela, revestido com heras e musgo onde um menino gorducho, de faces rosadas, com um dos dedos do pé já partido, parecia sorrir? E a Missa, e depois a fila para beijar o Menino; e as ofertas que se depositavam num açafate de vime; e os cânticos, ainda sem instrumentos musicais; e depois o regresso a casa, agasalhados nas samarras, nas capuchas de burel ou nos xailes de merino? E aquele matraquear dos socos e dos tamancos nos degraus luzidios da escadaria de loisa...
Mas tudo mudou!... No entanto, e porque o Natal «é a festa de uma criança que acabou de nascer», ela pressupõe sempre um recomeço que muitas vezes é um reviver do passado. Um encontro com o presente. Com muitos sonhos à mistura. E muitas recordações. Nunca ouviram dizer que os velhos passam o tempo a recordar?!...
Um santo e feliz Natal para vós todos.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Peadelos


Pesadelos
Sem saber como nem porquê, dei comigo sentado numa cadeira da última fila da sala de aulas da minha neta mais nova…
O "sôtor" não tinha nada daqueles mestres do meu tempo que eram assim mais "pesadotes" na idade e mais escrupulosos no vestir. Este vestia calça de ganga, e oficiava em mangas de camisa. Por falta de um botão, via-se um peito cabeludo onde luzia um fio prateado, na extremidade do qual baloiçava um berloque. Calçava sapatos de ténis que deviam ter nascido brancos, mas que, agora, a idade ou os maus tratos, tinham transformado num arco-íris rastejante. Mas era, na linguagem da minha neta, um professor porreiraço...
Constava que a sua especialidade era a Agricultura, pois possuía uma licenciatura num desses novos cursos, – Ciências Agrárias, se não estou em erro – mas em face da crise nesse sector, virou-se para o ensino e lá conseguiu umas aulas...de português!...
Estava eu nestas conjecturas quando o mestre começou a aula:
«Como já por várias vezes tenho afirmado – começou ele dirigindo-se à turma – quanto a mim, para que o aproveitamento na disciplina de português seja o desejado, devemos acabar com essa parte da gramática a que chamam ortografia. Acabando com ela, suprimem-se os erros ortográficos..."
Engoli em seco, mas achei uma certa lógica no raciocínio, pois se cortarmos o pescoço a qualquer fulano, ele não sofrerá mais de dores de cabeça pensei eu cá p'ra mim.
"Os pequenos – continuou – não gostam da disciplina de português, porque a maior parte das palavras não se escrevem como se pronunciam, ou se pronunciam de maneira diferente da que se escrevem..."
Raciocínio foneticamente muito discutível, mas que deixei passar…
"A ortografia – insistiu – porque só uns tantos a praticam, é um elemento de segregação social. É até uma forma, camuflada, de racismo! Por isso, não só contribui para o empobrecimento cultural, pelo tempo que rouba e pelos sentimentos xenófobos que desperta, como também é responsável pelo enfraquecimento do espírito, tendo em conta o esforço que exige..."
Raciocínio de cariz político-partidário, que fingi não perceber…
"Porque – continuou, já vermelho e a transpirar – a ortografia é, nos nossos dias, uma coisa arcaica que cheira a mofo e não tem cabimento numa sociedade de tecnologias avançadas. Vivemos quase meio século no cárcere do obscurantismo. Há mais de duas décadas que dele nos libertaram!... Então por que esperamos para deitar no lixo as grilhetas que ainda nos prendem a esse passado, (que eu nem sequer conheci!...) mas que dizem ter sido sinistro e castrante, indolente e conservador?!..."
E foi então que me levantei e, revoltado, agarrei o ilustre “pedagogo” pelos colarinhos e expliquei-lhe em altos berros que no "tal passado que ele nem sequer tinha conhecido", a maior parte daqueles que faziam a quarta classe ficava a saber escrever correctamente o português, sem erros ortográficos!...
Entretanto apareceu um “segurança” – é assim que agora são designados os homens a que outrora, nos colégios, se chamavam “ prefeitos” – e sem mais aquelas, pegou-me por um braço e pôs-me na rua. Mas não parei de espernear e foi só quando minha mulher me deu um safanão que eu acordei…

sexta-feira, novembro 16, 2007

SOLILÓQUIOS...

No silêncio da noite
Na quietude da noite, tonalidade da música quase no zero, aqui estou a escrever sem saber bem por que o faço. Talvez pela necessidade de esvaziar esta arca velha, de desabafar, de fugir de mim mesmo, de me afastar daquilo que me rodeia, me incomoda, e criar à minha volta um mundo novo, tranquilo, sem pressas e sem competições.
Utopia?... Que o seja, mas sinto muitas vezes essa necessidade de reinventar esse outro mundo e esquecer aquele por que passei.
E nesse desejo, nessa ânsia, muitas vezes, sem me aperceber, esqueço-me de mim mesmo e invento outra personagem. Totalmente diferente. Uma silhueta, uma espécie de fantasma que pouco dura e que acaba por desaparecer submersa nas vagas da minha própria imaginação.
É difícil “fugir” da aparência, da fachada, da máscara com que disfarçamos uma felicidade que nunca atingimos. É sempre difícil se não impossível despir completamente a indumentária que vestimos ao longo de muitos anos.
E é também difícil localizarmos no nosso imaginário aquele momento mágico em que nos foi oferecida a ocasião de optar, de escolher o rumo certo, aquele que agora, depois desta longa distância percorrida, pensamos teria sido o ideal...
Mas será que alguma vez na nossa adolescência nos apercebemos desse momento enigmático, dessa encruzilhada de caminhos que a vida nos mostrou para podermos escolher o tal rumo certo?!...
É curioso como apesar de todos estes anos de peregrinação por este vale de lágrimas, esta ânsia de reinventar um outro caminho que não o percorrido, continue, de vez em quando, a atravessar-se no caminho dos meus pensamentos, colocando dúvidas e interrogações difíceis de satisfazer!
É curioso também que mesmo numa idade avançada se continue a sonhar e a ter pesadelos. Sobretudo pesadelos, porque os sonhos, quanto a mim, têm uma grande lógica interna e uma grande coerência interior. Eles permitem-nos, enquanto duram, alimentar esperanças e dão-nos também alento para reforçar a nossa auto-estima ainda que envoltos num manto diáfano e enganador....
É que todos nós temos virtudes e defeitos tornando-se por isso, e à medida que o tempo vai passando, mais importante consciencializarmo-nos da nossa imperfeição.
Bem sei que nesse turbilhão de ideias, nesse emaranhado de interrogações e sem possibilidade de voltar atrás, nos resta apenas dominar os sentimentos e substituir as tendências negativas pelas tendências positivas, lutando e, reeducando-nos para atingir a felicidade. Não a felicidade completa, mas aquele estado de alma que nos proporciona todos os dias a alegria de viver em paz connosco, sem ódios, sem remorsos, sem alimentar sentimentos de inveja pelo vizinho do lado, que é mais poderosos e rico.
Às vezes ando às voltas dentro de mim e, algum tempo depois, consciente de que por mais voltas que dê não encontro já a tal encruzilhada de que acima falei, tento recriar, baseado no passado, um caminho diferente. Porém, como o passado, não se refaz, não se recria, mas também não se pode abjurar, volto ao ponto de partida – às interrogações, às reticências e às vírgulas das várias situações por que passei. E é sempre com um sentimento de saudade que termino estas minhas incursões que muitas vezes faço a esse tempo longínquo embora por vezes me apareçam figuras monstruosas que se movem numa dança endiabrada como que atribuindo-me culpas de coisas de que já não me lembrava... Ou faço por não me lembrar.

domingo, novembro 04, 2007

Recordando meu pai

Duas datas numa lápide
De repente, sentimos que a noite se aproxima. O Sol desaparece por detrás da serra e os seus raios, de várias cores, pincelam o horizonte fazendo inveja aos mais célebres pintores!
A passarada procura os abrigos e, sopradas pela brisa fresca do anoitecer, as folhas rodopiam e caem das árvores formando no caminho um tapete de variadas cores.
É Outono!
Há ouriços no chão com castanhas a espreitar, há nozes escondidas nas ervas secas e aqui e além, no laranjal, um amarelo esverdeado de um fruto sobressai por entre as frondosas copas verdes. A groselheira, ramos vergados, carregados de frutos, em cachos, quase a tocarem na terra, parece querer rivalizar com o azevinho, também ele, mostrando os seus ramos crivados de bolinhas vermelhas.
É Outono!
Há um cheiro diferente no ar. O fumo das chaminés espalhadas pela aldeia anuncia que o frio já chegou. Abrandou a azáfama no povoado, fizeram-se as colheitas, descamisaram-se as espigas, secaram-se, guardaram-se nos espigueiros, cortaram-se as palhas, semearam-se as ervas, e agora é tempo de repouso.
É Outono!
Há magustos por todos os lados, começa a matança do porco, mas hoje foi um dia especial – dia de Todos os Santos, dia de romagem aos cemitérios. Velas, lamparinas modernas, coloridas, pois o progresso substituiu as vulgares velas de cera por canudos de cores diversas que deturpam um local que deveria ser de recolhimento e de simplicidade e o transformam numa feira de competições e vaidades.
Flores, muitas flores. Naturais, artificiais... mas quase todas compradas. As dos jardins próprios, juntos de casa, já não se usam e é de bom-tom dizer-se à vizinha o seu preço e quase sempre o local da compra.
E não há sepultura pobre, embora os restos mortais de muitos dos que nelas repousam o tivessem sido em vida. Pobres de tudo. Não só de comida, mas sobretudo de carinhos, atenções e de respeito.
E há lágrimas, muitas lágrimas. Umas de saudade, mas muitas também de remorsos do carinho que se poderia ter dado e não deu; do tempo que se poderia ter dispensado e não se dispensou; da paciência que se deveria ter tido, da companhia que se deveria ter feito, do simples sorriso que se não devolveu. E há também lágrimas fingidas…
Teríamos muitas surpresas se pudéssemos ler o que se passa no interior de muitos que no dia de hoje se alinham ao longo das pedras tumulares. Quantos não choram apenas e só para que os outros os vejam?
Quantos pensam que podem agora pagar, com flores, todas as faltas que tiveram para com os seus entes queridos, enquanto vivos?
“Flores e lágrimas são alívio dos vivos, mas não refrigério dos mortos” – disse Santo Agostinho.
E neste Outono, e neste dia, como é doloroso evocar alguém que não conhecemos em vida, mas cuja lembrança constantemente nos acompanha! É uma mistura de saudade tão pungente e de tristeza tão dorida que não se consegue explicar. Sente-se e connosco vive...até chegar também a nossa segunda data.

Porreiro, pá!...

“Porreiro, pá!...”
Continuo a acreditar que somos, de facto, um povo extraordinário. Somos pau para toda a colher. Temos uma pachorra incomensurável e um desmedido arcaboiço para encaixar os mais incríveis disparates.
Cá dentro, bem no fundo do nosso “eu”, somos de tudo um pouco: paternalistas, brincalhões, descomplexados, cultivadores acérrimos do nacional-porreirismo e, essencialmente, os descendentes directos de uma árvore genealógica com muitas e diferentes ramificações. Do seu vetusto tronco, saíram muitos e variados ramos de cores diferentes, formando frondosa e matizada copa. E, em País de ameno clima, de brandos costumes, à sua sombra e à socapa, uma diversificada e duvidosa casta vai-se acoitando das intempéries da vida, graças a uma cumplicidade bem disfarçada. Somos, por isso, um amálgama de gente bizarra – de homens ingénuos e perdulários, de heróis destemidos, de arrojados piratas, de intrépidos marinheiros, de refinados falsários, de rudes campónios, de ilustres fidalgos, de brasonados ilustres, de vigaristas inveterados, de exímios palhaços, de inimitáveis actores de comédia e também de gente piedosa, bem instalada na vida, que sob o manto da solidariedade e do bem comum vai tosquiando o gado miúdo – a ralé – que, resignada, vai lambiscando o pouco que o graúdo lhe deixou, mas sempre sorridente e acomodada, batendo palmas na rua e insultando os mandantes no conforto do lar, pantufas nos pés, e janelas fechadas. É que as paredes têm ouvidos e os bufos estão sempre de orelha atenta, pé ligeiro e língua pronta a esguichar o veneno da denúncia. Mas somos os maiores! Em tudo. Escutem o que dizem os mandantes, leiam os jornais, ouçam os comentadores da TV, atentem no que dizem os analistas encartados, os profetas em estágio, e logo verão que assim é.
Ainda agora, na Cimeira de Lisboa, como pomposamente chamaram à reunião dos 27, noticiaram os jornais, disseram os organizadores e completaram os noticiários na televisão que luxo assim, só em Portugal – conseguimos atrair a fina-flor da Europa, e fazer com que os melhores hotéis esgotassem a capacidade; que houvesse jantaradas que nem Pantagruel teria sido capaz de imaginar; que os carros topo de gama fizessem alterar o trânsito da capital; que em cada esquina houvesse um polícia... Enfim, um sucesso tão grande que os representantes dos países presentes renderam-se ao nosso engenho e arte e não tiveram outro remédio senão assinar o tal Tratado! Isto sem falar no efeito persuasor da mochila “uma ideia renovadora que aposta nas energias renováveis,” que deixou os visitantes de boca aberta! E dava gosto vê-los, mochila às costas, satisfeitos por terem assinado o “instrumento que ajuda a UE a sair de uma crise política que a atrofia”, como disse um eurodeputado português.
Custos da Cimeira? Migalhas! Vêm aí os “Fundos”... Já imaginaram uma “torneira” a debitar 10 milhões de euros por dia? Não é “porreiro pá”?...

segunda-feira, setembro 17, 2007

Os mamões

Mamã eu quero…
Já há alguns anos e neste mesmo espaço, me referi ao assunto. No entanto e porque cada vez há mais gente a mamar a repetição nunca é descabida.
Em 1900, na revista "A Paródia", e querendo estabelecer uma comparação entre a prática da política e a condição porcina, o nosso grande caricaturista Bordalo Pinheiro desenhou uma porca deitada com uma dúzia de leitões agarrados às suas tetas.
Em 1923, aparecia na mesma Revista, um desenho com uma porca já de pé, com os porquinhos mais crescidos a comerem do mesmo gamelão. Tanto num caso como noutro, os contribuintes perceberam. Mas ao compararem as duas caricaturas, ficaram pensativos: é que, enquanto na primeira, os bacorinhos estavam deitados e chupavam na teta, na segunda, já todos estavam de pé a comer com voracidade...
Nos anos cinquenta, G. Orwell, com o "Triunfo dos Porcos", actualizou o tema, colocando um "porco-líder" a dominar os seus súbditos com o autoritarismo próprio de todo o mandante que se preza.
Foi depois a vez da série televisiva "Os Simpsons" apresentar os políticos na figuração de porcos, mostrando senadores surpreendidos, no Senado, a comer hamburgers com recheio de dólares temperados com lobies, limpando depois as trombas à bandeira estrelada, como de um simples guardanapo se tratasse.
Esta lengalenga para vos dizer que apesar da caricatura inicial ter evoluído ao longo dos tempos, – passando de livro a filme e de filme, a desenho animado – a mensagem não se diluiu. Pelo contrário. Não só se manteve, como também se agigantou. E como se pode verificar, nunca foram tantos os "mamões", apesar de todas as artimanhas e camuflagens dos políticos que, com o auxílio da tecnologia moderna, tudo têm feito para esconder a porca e camuflar as tetas.
A modernização das instalações, (o luxo dos gabinetes) o constante apuramento da raça (a selecção de boys) e a galopante automatização das tetas (a criação de comissões e afins), tornaram a mama ainda mais apetecida. E os leitõezinhos continuam a engordar, não só com o líquido do úbere materno, (os nossos impostos) mas agora também com rações vindas directamente da estranja, etiquetadas pomposamente sob o nome de fundos e subsídios... É uma vergonha o que se passa por aí fora: a corrupção, o compadrio, as injustiças, os branqueamentos, os desperdícios, a incompetência, a ociosidade, tudo isso alastrou e transformou o País num lamaçal pestilento, onde proliferam os parasitas, os vermes rastejantes e os oportunistas. Cada vez são mais os que mamam e menos os que trabalham. A «epidemia» propagou-se a todas as forças partidárias. E é por isso que não há uma oposição válida. Enquanto a porca tiver leite, mesmo que as tetas não cheguem para todos, eles mamam por turnos. E lambuzados e contentes, ei-los cantando em coro:mamã eu quero, mamã eu quero mamar…

quinta-feira, agosto 30, 2007

África

Falar acerca de África
Nunca reconheci, a quem nunca viveu em África, autoridade e conhecimentos suficientes para dela falarem. E isso, porque é muito difícil, e para muitos até impossível entrar na mentalidade dos seus habitantes, mesmo até depois de uma convivência de anos.
Muitos dos que escrevem ou que falam esquecem-se (ou não sabem) que a descolonização tentou impor à nova África “um nacionalismo sem Nação”, quando é a tribo e não a nação que constitui a célula base da vida africana. Muitas vezes o que os jornais designam por uma guerra entre países é, na realidade, uma rixa entre tribos rivais. Não digo que sempre assim aconteça, mas na maior parte, esses conflitos, têm, na sua origem, a rivalidade tribal.
Todos sabemos que as fronteiras coloniais nunca foram fronteiras naturais e que foram estabelecidas pelo simples entendimento entre as nações europeias. E foi dessa maneira que se pretendeu fazer viver em comum, povos que nem a raça, nem a língua, nem a religião, nem os interesses predispunham a que pertencessem a um mesmo Estado. Houve fronteiras, ditas “naturais” que separaram os próprios irmãos. Lembro-me dos Somalis submetidos durante anos a cinco domínios: o italiano em Mogadíscio, o britânico em Berbera, o francês em Djibouti, o etíope em Ogaden e o queniano no Oeste!
Na República Democrática do Congo, País que melhor conheci, existiam cerca de 250 etnias com 221 línguas ou dialectos falados, e todos se lembram das convulsões por que passou. As questões tribais transmitidas de geração para geração e aproveitadas em momentos de convulsões interiores por elementos e interesses externos, quase chegaram a transformar o genocídio em prática comum. As independências dos povos africanos que deveriam ser de festa e alegria foram, salvo raras excepções, isso sim, o prólogo de ciclos de morte, miséria e desespero.
Propositado ou não, os diplomatas ocidentais desconheceram por completo a psicologia da maior parte dos africanos, baseando-se apenas em alguns deles mentalizados e educados à maneira europeia ou americana. E se virmos bem, foram apenas esses que se aproveitaram da independência dos seus povos em proveito próprio. Os exemplos estão à vista...
Agora menos, mas houve um tempo em que, desde o analfabeto primário ao mais pretensioso “intelectual”, a acusação era a mesma: os brancos em África limitaram-se apenas a escravizar o negro e a amassar fortunas. Ouvi algumas vezes essa afirmação, mas nunca tentei contradizê-la. Os que assim pensam, como digo no começo, nada conhecem sobre o Continente Negro, e por isso, o mais saudável é não retorquir. O que “ sabem” é através de livros ou de facciosas histórias contadas pelos “sabichões” de serviço. Nenhum deles será capaz de explicar a diferença entre colono e colonialista. Mesmo hoje, muitos doutores e engenheiros são capazes de não saberem fazer a destrinça entre um e o outro. Mas isso fica para outra crónica.

Boa viagem

Boa viagem
Pertenço ao grupo daqueles que não conseguem ler nem dormir quando viajam. Seja qual for o meio de transporte utilizado não consigo concentrar-me na leitura, e Morfeu também não consegue tomar conta de mim.
Foi o que aconteceu aqui há tempos numa viagem que fiz entre a capital e a estação mais próxima da minha aldeia. E quando tal acontece, divago, e de olhos fechados deixo o pensamento “correr” à rédea solta… E nesse dia comparei a vida a uma viagem…
Nascemos, subimos para o comboio, e começa a marcha. Nem sempre tranquila. Há, por vezes, acidentes durante o percurso; há paragens; há surpresas; há lágrimas…
Quando subimos, encontramos pessoas, e logo pensamos que elas ficarão connosco durante todo o trajecto – são os nossos familiares!
Porém, e infelizmente a verdade é outra. Eles podem descer em qualquer estação e deixar-nos sem o seu amor, a sua afeição, a sua amizade, a sua companhia. Mas há outras que sobem e que serão também importantes para nós: são os nossos irmãos e as nossas irmãs, os nossos amigos e todas as pessoas de quem gostamos – umas estão sempre presentes, sempre prontas a ajudar; outras permanentemente indiferentes ao que se passa à sua volta.
Algumas, quando descem, deixam uma tristeza que jamais se desvanece. Outros sobem e descem tão depressa que mal os conhecemos.
Às vezes admiramo-nos e ficamos intrigados quando passageiros de quem gostamos, vão sentar-se noutra carruagem e que nos deixam viajar sozinhos!
Evidentemente que ninguém nos impede de os procurar por todo o comboio até os encontrar. Porém, muitas vezes quando os encontramos não podemos sentar-nos a seu lado porque o lugar está já ocupado...
É assim a viagem, é assim a vida: feita de desafios, de sonhos, de esperança e de despedidas... muitas vezes para sempre.
Por tudo isso façamos por fazer a viagem da melhor maneira possível. Tentemos compreender os nossos vizinhos de carruagem e procuremos o melhor que há neles. Lembremo-nos de que num qualquer momento da viagem um dos nossos companheiros pode desmaiar e pode ter necessidade da nossa ajuda e da nossa compreensão. O mesmo nos poderá acontecer…
O grande mistério da viagem é que nós nunca sabemos quando desceremos. Nem nós, nem mesmo o companheiro que viaja sentado a nosso lado!
Imagino e sinto como será triste deixar o comboio! A separação de todos os amigos que encontrámos será dolorosa. E como será mais doloroso ainda deixar os mais próximos!...
Sinto-me no entanto contente por ter contribuído para ajudar a minimizar as incertezas e os maus momentos da viagem.
Aqui fica, por isso, um apelo a todos: façam o possível para que o percurso seja agradável e tentem tudo para que os passageiros que continuam no comboio da vida fiquem com uma boa recordação de vós quando, finalmente, vos apeardes.
A todos aqueles que continuam a viajar comigo, eu desejo boa viagem!

A minha companheira

A minha companheira
O que hoje vos vou contar passou-se há muito, muito tempo. Nessa altura ouvia os mais velhos que, em tom jocoso, me falavam da sua vinda como de coisa muito grave se tratasse. Alguns, os mais íntimos, de vez em quando, e mal a ocasião se proporcionava tentavam mentalizar-me. «Lá virá o tempo – diziam-me eles – que, sem dares conta, ela aparecerá...»
- E mais depressa do que julgas! - Acrescentavam com uma pitada de humor os mais crentes em oráculos.
Estava então na minha Primavera e nesses verdes anos não há tempo para reflectir, para pensar ou para ter medo. Era um tempo em que via sempre o céu azul, em que o Sol sorria todos os dias lá no alto, só cresciam flores à minha volta e eu fazia de todos os dias um “sábado à noite”!
Não havia futuro, só o “presente” contava. Era um tempo sem interrogações. Tudo deslizava em roda livre pela bonita e plana estrada da juventude sem que fosse preciso pedalar muito...
Era a época dos sonhos, dos contos de fada, do perfume do amor – “esse fogo que arde sem se ver”, no dizer do poeta.
Mas entretanto…
Entretanto os anos foram-se acumulando, acumulando, até que um dia, cedinho, numa manhã de Inverno em que estava só, ela chegou. Senti um bafo quente no meu pescoço e estremeci! Mas ela enlaçou-me carinhosamente, apertou-me contra o seu peito, e disse-me baixinho: «Cá estou!»
Levantei os olhos e vi um rosto no espelho. Olhos inchados, provavelmente atraentes no passado, mas agora escondidos por detrás de grossas lentes aprisionadas em aros de metal luzidio; da farta cabeleira de outrora restavam apenas, nas têmporas, cabelos brancos, dispersos, qual estriga de linho pronta a ser colocada na roca; na fronte e no pescoço, rugas, muitas rugas, sulcos por onde passaram, como em leito de rio, – em grosso caudal ou em passeio tranquilo – mágoas, alegrias... E as mãos? A pele enrugada, as veias salientes e os dedos trementes não conseguiam esconder toda uma vida de lutas, de canseiras, de incertezas, de lágrimas... e também de muitas alegrias. E como aquele rosto me fascinava!
O seu sorriso trocista, a ingenuidade do seu olhar infantil como que a pedir desculpa de pecado que não se cometeu, atraíam-me…
E como de feitiço se tratasse, ali fiquei por instantes, olhando o espelho. O tempo parecia não ter pressa. E, cúmplices, ali ficámos os dois, contemplando e tentando adivinhar a história daquele rosto. Um esboço de sorriso disfarçava as rugas e a vontade de viver adivinhava-se no luzir dos olhos papudos.
E tanta, tanta alegria naquele olhar cansado mas tão feliz!
Virei-me e olhei para trás. Baixei os olhos e vi-a tentando esconder-se timidamente como que a pedir desculpa pela sua intrusão na minha existência.
E sorrimos. E talvez com medo de me perder ou de que me zangasse, Dona Velhice abraçou-me com tanta força que desde esse dia nunca mais nos separámos. E desde então e como devem já ter notado, andamos sempre de braço dado.





domingo, agosto 05, 2007

Ser Feliz

Ser feliz

Se alguém não encontra a felicidade em si mesmo, é inútil que a procure noutro lugar
La Rochefoucauld

Todos nós sabemos que ser feliz é um dos mais antigos direitos da humanidade. E também sabemos que não há ninguém que não mereça auferi-lo. Há, no entanto, quem pense nunca poder alcançar esse dom.
E isso resulta de uma certa insatisfação e de um conceito errado do que é a felicidade. O homem foi criado para ser feliz e seria insensato imaginar um Deus cujo prazer consistisse em submetê-lo a contínuas desgraças.
Essa ideia seria demasiado humana para ser divina e, quando assim pensamos, estamos a fazer um Criador à imagem da nossa imbecilidade e à semelhança da nossa estupidez. Porém, a causa, é bem diferente.
Neste mundo estereotipado em que vivemos, a felicidade deixou de ser um ideal do indivíduo para ser uma aspiração das multidões. Todos querem ser felizes da mesma maneira. Convencionou-se que não há felicidade sem automóvel, sem uma casa repleta de electrodomésticos, de electrónica, de móveis de estilo, de livros caros (mas que nunca se lêem), de imitações de objectos e de quadros antigos (dos quais não se sabe falar), sem roupas e calçado de marcas badaladas... enfim e para resumir, sem todos esses sinais exteriores de riqueza que por aí se vêem. Quanto a boas maneiras, civilidade, educação ou cultura, tudo isso é secundário. O que é preciso é ter dinheiro. E como nem todos o podem ter para se fazerem passar por aquilo que não são, daí a "infelicidade" de muitos. Uma infelicidade que gera invejas, revoltas e que, infelizmente, está a transformar a sociedade num viveiro de insatisfeitos, de egoístas e de falsários. Há na terra milhões de pessoas a sonhar a mesma coisa e a desejar os mesmos bens. E é assim que os espíritos simples se asfixiam numa atmosfera de estupidez. E são cada vez mais os que não conseguem viver fora desse esquema. Cada vez se deseja possuir mais. Cresce dia a dia a inveja pelo vizinho. A ânsia de "também querer ser" aumenta no sentido inverso do "querer fazer". Atropelam-se os princípios mais sagrados para chegar mais depressa a um lugar que se cobiça, mas que não se merece. O que mais interessa é "parecer". É uma luta feroz e constante entre aquilo que se tenta aparentar e a verdadeira realidade daquilo que se é.
Parece que fica assim, mais ou menos, traçado, ainda que com pálidas pinceladas, o retrato daquele que quer ostentar coisas superiores aos seus recursos e à sua mentalidade. E é esse, de facto, o protótipo do verdadeiro infeliz. E é tão fácil ser feliz! Contentarmo-nos com o que temos e orgulharmo-nos de sermos, apenas, como somos, é já o começo da felicidade. Mas o que muitos procuram é ser mais do que os outros. E isso é impossível, porque os outros nunca são, na realidade, tão felizes como nós julgamos.



segunda-feira, julho 02, 2007

Memento, homo...

Lágrimas
O escritor francês Baudelaire, referindo-se à Morte, disse um dia, mais palavra, menos palavra “que em cada minuto que passa, essa ideia, essa sensação do fim, está sempre presente, esmagando e absorvendo o nosso pensamento…”
Esbarrei, por acaso, contra as palavras do autor de Flores do Mal, dias depois de ter sido confrontado com o desaparecimento de um Amigo.
Embora tal facto, na minha idade, não seja já uma obsessão, (é antes uma submissão resignada perante os desígnios de Deus) tais palavras, no entanto, levaram-me a uma reflexão sobre a Vida.
É que, como ninguém pode parar o tempo, também ninguém consegue parar o pensamento. O tempo, inexoravelmente, vai seguindo sempre em frente deixando marcas, delimitando épocas, gravando datas e enterrando recordações; o pensamento, num vaivém constante, vai-se ocupando a fazer visitas e a perpetuar esses lugares de culto.
E nesses momentos gosto de estar sozinho. E escrevo. Escrevo, porque escrevendo, falo sem que ninguém me interrompa…
E aqui estou eu debruçado na janela do tempo, folheando o livro de recordações – folhas amarelecidas pelo rodar dos anos, momentos de alegria, tristezas, sonhos, pesadelos, risos de crianças…
Todos morremos, mas poucos estão preparados para a coisa mais certa da vida. E é assistindo a essa "dança" que arrasta homens e mulheres de todas as idades e condições que vem ao de cima essa verdade incontestável de que um dia chegará também a nossa vez.
E como uma espécie de vingança, mas numa luta inglória, a vontade de viver sobrepõe-se a essa lei implacável, e é cada vez maior o desejo de aproveitar, de sorver todos os momentos.
E nesta época do ano como é bonita a Natureza!...
Nesta manhã de sol olho pela janela e vejo as gotas de água da orvalhada da noite que se desprendem das folhas da buganvília e recordo outras lágrimas de saudade, porque a Morte ao interromper os sonhos da vida de quem partiu, deixou uma sofrida saudade nos que ficaram.
«Devem chorar-se os homens à nascença e não quando morrem», escreveu alguém. Mas, muitas vezes, é difícil conter as lágrimas, mesmo sabendo que elas nada remedeiam, nada alteram. Mas elas são, nesses instantes, além de um desabafo, uma espécie de lenitivo, um bálsamo que suaviza essa dor pungente que rasga a alma, e que só o tempo faz desaparecer. Lágrimas – gotas de água que tantos significados podem ter!
Estou a lembrar-me, a propósito, daquela versão do conto popular, da criança morta que voltou à Terra para pedir à mãe que não chorasse mais para que a sua mortalha pudesse secar.

sábado, junho 23, 2007

O QUADRO

Um quadro só sobrevive graças àquele que o olha”
Pablo Picasso
Tinha já folheado quase todas as revistas que se encontravam sobre a pequena mesa e como geralmente acontece nestes locais, todas elas estavam fora de prazo. Todas antigas exceptuando a “Maria” que estava a ser lida e comentada em voz baixa por duas adolescentes. Éramos uns sete ou oito. Tentei meter conversa com o vizinho do lado, mas pelas respostas monossilábicas logo depreendi que era homem de poucas falas. E desisti.
A senhora encarregada das consultas que, a avaliar pela sua má disposição devia sofrer de disfunção hepática, anunciou, entretanto, que o senhor doutor estava atrasado e não sabia a que hora chegava… Sussurros na sala e uma adolescente que se entretinha a fazer bolinhas com uma pastilha elástica, enchendo-a e esvaziando-a com um frenesim danado, pegou na mochila, soltou um palavrão e ala moço…
E foi quando a seguia com os olhos que vi o quadro na parede. Grande. Talvez um metro de comprido por sessenta de altura. Bela moldura. Lá dentro muita flores que lembravam a Primavera. Um banco com dois velhinhos sentados separados por uma bengala. Num canto, fazendo sombra, uma árvore frondosa. E na árvore um ninho… e três biquitos amarelos, abertos, implorando comida. Atrás do banco uma espécie de fonte antiga – um sulco numa pedra por onde corria um fio de água.
O Sol espreitava no outro canto e um raio mais atrevido, como numa carícia, emprestava tons de prata aos cabelos brancos da velhinha.
Aqui e além pinceladas de azul. De um azul celeste, a contrastar com o verde das folhas. E flores, muitas flores – violetas, madressilvas, rosas vermelhas. E duas pombas, talvez um casal, a debicar à cata de alimento…
Apeteceu-me “entrar” no quadro e conversar com o casal, saber coisas das suas vidas e perguntar-lhes se aquele sorriso a transbordar de felicidade era mesmo deles…Não seria um “postiço” do pintor como acontecia com a ausência de rugas bem disfarçadas sob sábia combinação de tintas? E por que havia uma bengala a separá-los? Teriam tido filhos, netos?... Devaneio de pintor ou transposição colorida de uma realidade? Mistério que só autor saberia explicar… De repente, o quadro pareceu animar-se! Uma das pombas esvoaçou, a velhinha levantou-se, pegou na bengala e estendeu a mão ao companheiro para que se levantasse. Os passaritos continuavam de bico aberto esperando que os pais lhes trouxessem alimentos. A bica de água continuava a correr, o Sol nascente espreguiçava-se lá no canto e as flores pareciam tremular empurradas pela brisa branda e fresca de uma manhã de Primavera. O casal caminhava agora lentamente, e tive a sensação de que o velhinho, sorridente, me piscou o olho num mudo convite para os acompanhar… Só quando ouvi o meu nome “berrado” pela senhora que sofria do fígado é que dei conta de que estava só...
































sexta-feira, junho 08, 2007

segunda-feira, maio 28, 2007

O comprimido

O comprimido
Já muitas vezes aqui disse que é muito difícil encontrar assunto para estas minhas crónicas semanais. Não minto se vos disser que quando há temas pertinentes que desejo tratar mas que ultrapassam os meus parcos conhecimentos e requerem, por isso, apoio alheio, passo horas a folhear livros e a estudá-los procurando descrevê-los com a exactidão possível.
Acontece também que, algumas vezes, num percurso já avançado da pesquisa tenha de abandonar o assunto, porque a sua complexidade ultrapassa os limites do meu entendimento. Está assim explicado que quando não sei, a minha honestidade mental, aconselha-me a que não desperdice tempo e não ostente conhecimentos que não possuo.
Vem este intróito a propósito de uma mensagem que recebi há dias por correio electrónico com um nome de alguém que não conheço e que por isso não posso comprovar se quem a subscreve existe de facto.
Costumo, nestes casos, apagar e não me preocupar mais. Desta vez, porém, não aconteceu o mesmo e resolvi responder publicamente, na esperança de que quem a enviou, leia a resposta…
Entre muitas considerações em que os pontapés na gramática e os erros ortográficos, travam uma competição renhida em busca do primeiro lugar, e misturando graxa e ironia, “acusa-me” de algumas das minhas crónicas se assemelharem “às homilias do padre já velhote e antiquando” da aldeia onde nasceu “que no altar só fala em Deus e deixa o Diabo na sacristia…”
Acrescenta ainda irónico e em tom jocoso: “apesar de tudo gosto de o ler à noite, porque poupo um comprimido para dormir…”
Reli a mensagem, soletrei algumas palavras, pus ordem nalgumas frases, sentei-me e entretive-me a fazer, mentalmente, um retrato “robot” do fulaninho.
Não foi difícil chegar à conclusão de que deveria tratar-se de um desses doutores ou engenheiros de aviário, de um desses pseudo-intelectuais que esvoaçam por aí a abarrotar de empáfia e que vivem encaixilhados num desses lugares onde só têm assento os afilhados ou os protegidos da Nação.
Mas tem razão, o homem. Falo muito em Deus. E isso, porque vou buscar o que escrevo quase sempre à minha experiência da vida. E na vida vivida há sempre Deus por perto. Dêem-lhe o nome que quiserem, mas Ele está lá. Nos bons e nos maus momentos.
É curioso como passa despercebido falar-se de sexo, de obscenidades, de bacanais, e se é alérgico logo que se fala em Deus. E é também curioso que alguém se preocupe tanto com o que os outros pensam e se preocupe tão pouco do que Deus pensará a seu respeito!...
Mas gostei muito dessa do comprimido para dormir!... Espero que continue a tomá-lo. Não necessita de receita médica, não são conhecidos efeitos secundários e é ainda mais barato do que qualquer “genérico”.

domingo, março 04, 2007

Coisas da minha arca




No tempo em que o volfrâmio era explorado em força cá pelas nossas bandas, contavam-se várias anedotas acerca do rápido enriquecimento de alguns indígenas. De todas as que corriam de boca em boca, uma ficou-me gravada na mente e recordo-a com frequência. Esclareço que naquela altura e nos locais e proximidades dos lugares de extracção do minério, não só era moda como também conferia uma certa importância ostentar, pendurada no pequeno bolso exterior esquerdo do casaco, uma caneta-tinteiro ou caneta de tinta permanente, como vulgarmente se dizia. Havia mesmo quem pendurasse três ou quatro bem alinhadas!
Contava-se então que um desses ricaços se dirigiu um dia a uma papelaria em Viseu e pediu que lhe vendessem uma caneta de tinta permanente, mas das mais caras – uma Pelikan em ouro... Essa marca era, na época, uma das mais conhecidas e reluzentes.
O dono do estabelecimento lá veio com vários estojos, onde repousavam vários estilos de canetas. O homem pegou numa, pegou noutra, mirou, remirou, lá se decidiu e comprou duas... Puxou duma nota de conto e com a bazófia própria dos novos-ricos, atirou do alto da sua "importância": - «Pode ficar com o troco...» O vendedor, habituado já às características esbanjadoras de tais clientes, arrecadou a nota mas, cumpridor do seu dever e para descargo da sua consciência ainda balbuciou: - «Vossência tem aqui papel para experimentar o aparo...» Ao que, prontamente, o volframista retorquiu já com os dois objectos a enfeitarem o bolsinho: - «Não vale a pena. Eu até nem sei escrever...»
Dizia eu no começo que esta anedota me vem à mente muitas vezes. O motivo que hoje a fez "ressuscitar" foi o facto de verificar, há dias, que a quantidade de percursores, de obreiros, de heróis, de analistas e de comentaristas, não pára de aumentar de ano para ano. Não há bicho-careta que não discorra e faça comparações entre a escravatura do antigamente e as liberdades da democracia!
E o que, na minha opinião, é mais flagrante e comprometedor para o futuro, é que essa cultura inculta começa a enraizar-se nas camadas jovens fazendo com que a soma de "analfabetos históricos" no nosso espaço político-partidário atinja já números bastante significativos. Criados em aviários, com a luz acesa toda a noite, tremonhas a abarrotar, bebedouros a transbordar, papo cheio, que mais é preciso para anquilosar o raciocínio? Não é a realidade histórica – porque é humana – equívoca e inesgotável?!...
Aos volframistas de canetas reluzentes dos meus tempos de miúdo, sucedem agora os "garimpeiros", versão começo-de-século, pseudo-detentores de toda a sapiência, enfarpelados a rigor, encadernados em potentes "máquinas", alguns comendo ainda à custa dos pais!
A única diferença entre os bazófias de ontem e os de hoje, talvez resida no facto de os primeiros não saberem ler nem escrever e os segundos serem letrados, embora haja muitos doutores analfabetos pelo meio…
O que me leva a crer que o futuro do homem do século XXI será sapientemente civilizado. E humanamente bárbaro…

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Férias


Um belo recanto de uma casa bem perto do mar, nos arredores da capital...

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Resposta de Dom Afonso I


Cá recebi a carta... e em breve mandarei a resposta pelo meu aio Egas Moniz. Aqui não há selo, apesar de valer mais sê-lo do que parecê-lo...

Cartas...

CARTA A DOM AFONSO HENRIQUES
Peço desculpa por vir incomodar Vossa Majestade e acordá-lo do sono em que mergulhou há quase nove séculos, mas com acontecimentos tão graves no Condado, achei por bem pô-lo ao corrente da situação.
Não tivesse havido aquele precedente de terem querido arrombar o mausoléu em que repousa apenas para tentarem reconstituir o seu perfil biológico e o seu código genético e saberem “coisas” sobre a estatura, os hábitos, a força, a alimentação, a cor do cabelo e dos olhos de Vossa Majestade, eu não ousaria perturbá-lo. Mas já que isso aconteceu, eu também ousei…
Está a decorrer cá no rectângulo um concurso para apurar quem teria sido o maior português de todos os tempos. Consta que incluíram na lista de partida cerca de cem concorrentes, sendo Vossa Majestade um deles. A certa altura, e por arte de berliques e berloques, a centena de candidatos ao título, ficou reduzida a dez!
Nesses dez, de que Vossa Majestade faz parte, há de tudo: poetas, navegadores, reis, diplomatas, um ministro do seu colega D. José I, um ditador e um dos seus muitos e encarniçados opositores.
Sucede que ultimamente correm vários boatos e até se diz, à boca pequena, que está a ser urdida uma conspiração visando postergar o nome de Vossa Majestade pondo-o em último lugar. E perante tanto desprezo e ingratidão eu revoltei-me. Será justo atribuir tal lugar ao nosso mais prestigiado Mata-Mouros, vencedor de Ourique e Fundador da Nacionalidade?
Mas as injustiças não se ficam por aqui. Saiba Vossa Majestade que centraram a escolha entre dois controversos concorrentes – um tal de Salazar, um ditador, uma espécie de fantasma, uma assombração de que todos têm medo e a quem uma escritora já apelidou de “cromo”, e um tal de Cunhal, um resistente ao “consulado” do atrás citado, mas do qual também se dizem cobras e lagartos!...
E foi ontem ao ver a apresentação de um resumo póstumo do reinado de Vossa Majestade – resumo muito mal “amanhado”e excessivamente folclórico, diga-se de passagem!... – que incluía, entre muitos outros feitos, batalhas “ao vivo” com Mouros que caíam como tordos no dia da abertura da caça que resolvi escrever-lhe. Bem sei que isto não passa de um desabafo, pois sem código postal duvido que esta carta lhe chegue às mãos…
Fica no entanto o meu testemunho e a minha grande homenagem ao Homem que nos legou este espaço rectangular que se dilatou, que deu novos mundos ao Mundo, mas que, infelizmente, foi encolhendo, encolhendo, até se transformar numa espécie de arena onde quase diariamente se realizam combates de galos de bela plumagem… mas sem crista!
E termino citando os versos de um poeta, seu companheiro de lista, Fernando Pessoa: Ninguém sabe que coisa quer. / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem. / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Portugal, hoje és nevoeiro…

sábado, fevereiro 10, 2007

Que pena!...

Segundo um jornal inglês, uma equipa de neurocientistas teria inventado uma técnica que permitirá descodificar e ler tudo o que se passa no cérebro e assim ter conhecimento das intenções das pessoas antes que elas as ponham em execução.
Os cientistas usaram um “scaner” de alta resolução que lhes permitiu a interpretação dos pensamentos da pessoa visada de acordo com as zonas do cérebro em actividade nesse momento.
Calculem o que ganharia Portugal com a aplicação desse método se os nossos políticos tivessem cérebro!....

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quarta-feira, janeiro 10, 2007

Mentirosos

Por mais que tente, não consigo refrear esta onde de revolta que me invade, cada vez que a hipocrisia dos nossos governantes ultrapassa os limites e colide com os mais elementares princípios da moral. Parece haver um prazer mórbido em levar ostensivamente à prática actos que mais não são do que verdadeiros atentados contra os que mais sofrem.
Não sei como se pode ser feliz quando, a nosso lado, e a todo o instante deparamos com seres desfigurados pela miséria ou quando ao dobrar da esquina quase tropeçamos num montão de cartões e farrapos que escondem um ser humano enregelado e faminto!
Num momento em que a luta contra a miséria deveria passar por uma cultura responsável, solidária, fraterna e de partilha com os que mais precisam e menos têm, assistimos precisamente ao contrário – à atribuição de verbas faraónicas àqueles que menos fazem, menos merecem, e mais têm...
Esta minha crónica de hoje e esta revolta, a propósito dos dois assessores do ministro Paulo Portas que desde Janeiro auferem um ordenado líquido de mais de mil contos!
Afinal, se estamos em crise, e é preciso apertar o cinto, quem deve dar o exemplo? Os idosos com pensões de trinta ou quarenta contos a quem ultrajaram agora com um mísero aumento de mil escudos?... Os velhos doentes, cuja pensão não chega para pagar a conta na farmácia?... Os que perderam o emprego, porque as multinacionais estrangeiras com a cumplicidade do Governo encheram os bolsos e foram repetir a proeza para outros "paraísos"? Afinal, quem esfrangalhou o país?... Quem contribuiu para que nos atascássemos no "pântano" até ao pescoço? Quem esteve na origem de todos os esbanjamentos de dinheiro, de todos esses desvios de fundos, senão os governantes, directa ou indirectamente?
Não quero, por uma questão de ética, dar uma imagem deprimente do pulsar político deste país. Ademais, é dever de quem escreve sensibilizar para o respeito e dignificação das autoridades, das instituições e das personalidades responsáveis pelos destinos da Nação. Também não quero generalizar as acções cometidas injustamente por alguns políticos, nem usar linguagem menos correcta para exprimir a minha revolta... Mas confesso que é muito difícil ficar calado perante tanta injustiça, suportar tanta demagogia e aguentar com serenidade as traquinices de certos políticos que elegemos, confiados que estávamos na sua maturidade e na assunção responsável dos actos que iriam praticar!
É difícil conter tanta revolta... Basta fazer contas. O ordenado mensal de um só assessor seria suficiente para pagar o aumento da pensão a mil cidadãos!...
É assim que respeitam os princípios da solidariedade que tanto apregoam? Mentirosos...

segunda-feira, janeiro 01, 2007

1 de Janeiro de 2007

Hoje, do ventre do tempo, nasceu um novo ano ! Ninguém pode dizer, com certezas, o que ele nos reserva.
Para mim e minha família, que ele seja, se não melhor, pelo menos igual a este que ontem terminou.
Projectos?... Não faço. O que peço a Deus?... Saúde, união na família e muita compreensão… e a continuação do mesmo carinho e atenção que temos recebido dos que nos são mais queridos.

sábado, dezembro 30, 2006

AINDA A TEMPO

COMPLEMENTO

Complemento da crónica “Em dia de aniversário”de Julho de 2006, que se destina a elucidar os leitores que, por telefone ou e-mail, manifestaram o desejo de saber quantos Verões passaram por mim. Aqui fica, pois, o número
exacto.

80 - 75 - 60
Todos nós temos três idades: a idade que está no B. I., a idade que aparentamos e a idade que sentimos. Esta última é, sem dúvida, a mais verdadeira, aquela de que devemos servir-nos para continuar a caminhada. Seguindo esse raciocínio, são necessários três números para nos definir. Por exemplo, quanto a mim, considero-me um 80-75-60!
Descodificando: do primeiro número, atribuo metade a cada perna; o setenta e cinco, – que é geralmente o número com que os meus amigos me presenteiam de vez em quando – penduro-o no espelho só para me divertir com o outro “senhor” careca e de cara enrugada, que a lâmina de vidro polida reflecte; o último número, o sessenta, é o que se sobrepõe aos outros dois. É o “combatente” aquele que, sempre vigilante tenta impedir que o primeiro, o mais gordo, – o 80 – me esmague sob o seu peso!
E é assim com esta espécie de triângulo numérico às costas que continuo a fazer o meu dia-a-dia. Evidentemente que para pôr em prática esta “filosofia” é necessária a ajuda de vários factores: saúde, tolerância, paz interior, humildade, boa disposição e, sobretudo muita Fé!
Li há dias num texto de um escritor italiano que a velhice seria o calvário da vida. Concordei em parte, pois chegar a velho sem saúde, sem ninguém que olhe por nós e entregue apenas à solidão, deve ser, de facto, um enorme e triste calvário!
Pelo contrário, ter a sorte de envelhecer com saúde, com a família por perto e os amigos em redor, é um bênção de Deus.
É certo que quando olho os lugares vazios dos familiares ou dos amigos que partiram, há sempre uma dor pungente que me invade. O coração bate mais forte, mas apenas por uns momentos.
Depois, estranhamente, tranquiliza-se e parece conformar-se perante a inexorável lei da vida. À dor que me invade nesses instantes ora se sucedem recordações e saudade, ora me agitam sonhos de esperança que me transportam para longe – uma viagem em que o mistério do tempo tanto me acusa como me reconcilia com Deus.
E então é a Ele que me entrego. É a Ele que peço perdão pelos momentos em que a revolta me dominou e me fez esquecer a Sua infinita bondade. E é a Ele que agradeço tudo aquilo que me tem dado até hoje: alegrias, tristezas, sofrimentos e sobretudo o dom da fé – essa força invencível que faz cantar os mártires na morte…
Divaguei, e fugi do assunto. Vou parar por aqui, porque os dois últimos conjuntos de algarismos começam já a discutir e podem zangar-se, abalar, e deixar o 80 a falar sozinho….



quinta-feira, dezembro 21, 2006

Recordações

La bohème

«Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue…»
Charles Aznavour

sábado, dezembro 09, 2006

Chansons de ma jeunesse

LE PORNOGRAPHE
«Autrefois, quand j'étais marmot,
J'avais la phobie des gros mots
Et si j'pensais « merde » tout bas,
Je ne le disais pas
Mais, aujourd'hui que mon gagne-pain,
C'est d'parler comme un turlupin
Je n'pense plus « merde », pardi,
Mais je le dis
J'suis l'pornographe,
Du phonographe
Le polisson,
De la chanson…»

Georges Brassens

terça-feira, dezembro 05, 2006

O sermão

Un aumônier militaire s'adresse un jour à ses ouailles et leur tient un sermon sur le Paradis :Soko è kumi le temps du Jugement Dernier, Saint-Pierre accompagné na ba trompettes thébaines, "taratatââta, taratatââta, taratatââta..." , armé de machete monènè a ko loba na bango, les anges mabè, na matata mpenza : " Attatio ! Kenda à la gauche du Père, na kati-kati na ba les enfers. Enfer, azali moto mingui, azali fange boueuse na potopoto tÎÎî...". A ko loba na ba les anges malamu, na sourire monènè : " Kenda à la droite du Père, na kati-kati na ba le Paradis. Paradi azali félicité suprême...Mwasi kitoko ! Mossala azali tè !" .Bo oki nyonso ?- Hèèè...

domingo, dezembro 03, 2006

Manhã de Domingo

Nas asas do vento

Neste dia de chuva e vento
Deixei ir o meu pensamento
Em romagem de saudade…

Voltou com um saco de lembranças
Onde havia risos de crianças
E recordações da mocidade.

Abri meu saco com jeito
E depois contra meu peito
(Esquecendo o meu destino)
Acalentei as quimeras
Doutros tempos, doutras eras
Sonhando qu’ era menino!

sábado, dezembro 02, 2006

Sábado à tarde

Um sábado de Outono. Choram as nuvens e as gotas de água caem de mansinho. Não está muito frio, mas apetece acender a lareira, olhar a chama e ouvir o crepitar inconfundível dos troncos!
O chão do quintal está atapetado de folhas de várias cores, algumas já em decomposição, escorregadias, confundindo-se com a terra. As árvores, de braços erguidos, quase nuas, sem folhas, anunciam já o Inverno próximo.
As duas serras – a do Caramulo e a da Estrela olham-se como duas rivais – a primeira com os seus variados tons verdes; a segunda mostrando o seu manto branco que a neve lhe emprestou.
Aquém e além o fumo das chaminés mistura-se com pedaços de nuvens baixas que viajam no espaço. A aldeia parece dormir e não fosse a pequenez dos dias e o “comprimento” das noites, dir-se-ia que era por causa da sesta!...
Não há flores no jardim. Só o vermelho das bagas do azevinho contrasta com o cinzento-escuro do tapete do caminho. Silêncio! Nem a passarada se mostra. Desapareceram os melros, as rolas, e só os pardais, de vez em quando, cruzam o céu.
Subo ao terraço e olho em direcção à Estrela. Um manto branco já não deixa ver a neve. Sopra uma brisa fresca. Olho o tanque, em baixo, cheio de água, e aumenta a sensação de frio. A chuva cai agora com mais intensidade… Desço, e a resolução está tomada: a lareira…

No começo do mês

Continuo a ler Jean Guiton e não resisto a traduzir, para aqueles que, eventualmente, possam vir a ler, uma passagem que julgo conter uma mensagem que nos conduz a uma profunda meditação…
«(…) Hoje, o que está mais em perigo são as amarras que antigamente faziam a ligação do espírito às coisas, do homem à Natureza, do filho à mãe, do cidadão à Pátria, dos exercícios do espírito à verdadeira existência; o País, a terra, a religião adaptada aos tempos, enfim, a incarnação sob todas as espécies e formas. E as virtudes…
Não a virtude, essa palavra oca, muitas vezes hipócrita, mas todos os esforços em que o belo, o bem e o verdadeiro se juntam criando a harmonia entre os seres e as coisas. Tudo tem tendência a desaparecer: tudo o que é refúgio, íntimo, socorro, asilo, floresta, arvoredo… Não há paz, mas excessos que se sucedem e se compensam. O respeito, o pudor, a medida, a simplicidade, estão em vias de extinção… (…) Tudo mudou. Passámos da civilização escrita à da imagem, ainda que a escrita continua a ser a expressão fundamental do pensamento… (…)»

quinta-feira, novembro 23, 2006

A MINHA ÁFRICA

Ao recomeçar pela terceira vez
(1966)

Homem que cresceste
Sem nunca seres menino,
- Porque já nasceste
Com esse destino –
Não deixes morrer
Agora,
Ao anoitecer,
A esp’rança d’outrora!

Homem que cresceste
Sozinho
E nunca tiveste
Carinho,
Não percas agora,
No fim da viagem,
A tua coragem!

Homem que cresceste
A labutar.
Homem que soubeste
Esperar com alento,
(Sem um queixume,
Sem um lamento)
Que a vida te sorrisse…

Se foste homem já em pequenino
Continua a sê-lo até à morte
Continua sozinho
Mesmo velhinho,
A desafiar a tua sorte!

Se sorriste sempre na tormenta
Que dentro de ti sempre ecoou
E se teu coração ainda acalenta
A espr’ança que sempre o habitou,
Tem confiança,
Porque em criança,
Foi ela sempre que te guiou!...

Kinshasa 1966

quarta-feira, novembro 22, 2006

A MINHA ÁFRICA -(excerto4)

A segunda fuga

(...) Voltando ao voo Bansankusu-Kinshasa, dizia eu que o avião tinha baixado e que era possível, lá do alto, distinguir as cabanas das aldeias e ver o fumo que delas saía. Entre os passageiros encontravam-se missionários, freiras e outros civis, homens e mulheres. Já quase a chegar ao destino, um dos motores começou a "tossir", fez-se silêncio no interior do aparelho e um padre, desapertou o cinto de segurança, ajoelhou-se e começou a rezar... Ao contrário do que acontece hoje em quase todos os voos, nesse tempo e nas linhas aéreas do interior do Congo, não havia hospedeiras. Geralmente eram três os membros da tripulação – o piloto, um co-piloto (às vezes) e um mecânico. Por isso nesse momento de inquietação, não houve ninguém que viesse tranquilizar ou explicar o que se passava. Cada qual podia fazer a sua avaliação pessoal. Assim aconteceu e quase poderia garantir que não houve propriamente pânico. Depois de sair do inferno... é difícil ter-se medo... Entretanto, e com a hélice do motor direito "em bandeira", o avião adernou um pouco e foi baixando, baixando... e de repente o asfalto da pista à vista! Dois ou três solavancos, uma pequena derrapagem, uns ziguezagues e, por fim o deslizar sereno do avião em direcção à aerogare.
Como já o disse os pilotos eram experientes, mas acrescente-se que durante a minha permanência de 30 anos não se registou qualquer acidente com os aviões apesar dos rudimentares, podíamos mesmo dizer "artesanais", meios de navegação aérea. Muitos sustos é verdade, mas sem consequências de maior. Em viagens do interior para a capital ou vice-versa, quando passávamos a linha do Equador, raro era o voo em que não houvesse que contar. Muitas vezes era tal turbulência e os poços de ar, que todos os passageiros emudeciam. As trovoadas e as tempestades tropicais com chuvas intensas eram tão fortes, que o comportamento do avião era o de uma cadeira de montanha russa!... Muitas vezes, a chuva, juntava-se a nós, entrando pelas minúsculas frinchas das velhas carlingas...
De vez em quando o avião era desviado da sua rota porque era necessário ir buscar um doente a uma Plantação perdida na floresta e então aterrávamos em pistas cobertas de capim e era um "espectáculo" estranho ver as asas do bimotor a ceifar as ervas que encontrava na pista. Sucedia que os passageiros não eram informados da alteração da rota e podem adivinhar a sensação de medo quando se acendiam as luzes para apertarmos os cintos e de repente, pelas janelas, víamos os arbustos a serem degolados e o avião a rolar envolto numa nuvem de pó!... (...)

segunda-feira, novembro 20, 2006

A MINHA ÁFRICA -(excerto) - 3 -

12

A LIGAÇÃO COM O MUNDO

Nos primeiros tempos, entre 1950 e 1953, o único traço de união com o Mundo era o barco da Otraco (Office des Transports Congolais) que, de quinze em quinze dias, fazia o percurso entre Leopoldville e Befori, local até onde o Maringa era navegável. O barco saia de Leopoldville, escalava vários portos fluviais, entre eles Coquilhatville, Basankusu, Baringa, Samba, Ekukula, Mompono, Ngongo, seguindo depois para Befori.
Era por barco que recebíamos tudo: mercadorias, diversos produtos, alimentação e... correio! Pode imaginar-se, pois, a alegria com que esperávamos o barco. Muitas vezes ele chegava de noite, e se ouvíamos a sirene, era difícil conciliar mais o sono até de manhã, ansiosos que estávamos para saber notícias.
Importa dizer que os barcos eram movidos a vapor e em vez de hélices eram impulsionados por uma espécie de dobadoira feita de tábuas. Moviam-se lentamente e demoravam mais tempo a chegar pois navegavam contra a corrente que era forte. Todos os barcos possuíam dois quartos para passageiros com casas de banho e uma pequena sala. Quem neles viajava tinha que levar mantimentos para a viagem. Um cozinheiro do barco fazia a comida. Tive ocasião de viajar num deles de N'gongo até Basankusu com minha mulher que se dirigia ao hospital de Basankusu para o nascimento do meu primeiro filho, o Jorge. Foi uma viagem de três dias. De noite e apesar de os barcos terem um gerador e um potente holofote que se acendia logo que começasse a fazer escuro, a navegação não era aconselhada. Então o comandante, um congolês, já com prática e conhecimento do trajecto, fazia a navegação de maneira a que chegássemos a um porto fluvial ao lusco-fusco e o barco ali permanecia durante a noite. Atreladas ao barco havia duas enormes barcaças onde eram acondicionados os produtos com destino a Leopoldville: borracha, óleo de palma, coconote, café, cacau, copal, etc.
Por vezes, durante a noite acontecia que não conseguíamos dormir motivado pelo barulho dos habitantes das aldeias próximas, que vinham ao barco comprar diversas bugigangas e beber cerveja ou as bebidas tradicionais – o "lotoko", uma espécie de aguardente fortíssima feita a partir da fermentação do milho ou o vinho de palma, obtido através da fermentação do suco da palmeira. A tripulação do barco fazia também comércio com artigos que traziam da capital e que constituíam novidade para as populações do interior: relógios, espelhos, isqueiros, tecidos, etc. etc.
A viagem no barco durante o dia era encantadora. A paisagem nas margens mudava constantemente e, além de várias aves, entre as quais papagaios, patos, galinholas, os macacos, com as suas piruetas nas árvores que bordejavam o rio, constituíam um espectáculo deslumbrante. Algumas vezes avistavam-se crocodilos refastelados ao sol nos bancos de areia aqui e ali.
Voltando à chegada do barco, ela constituía o único acontecimento que vinha quebrar a rotina dos dias que eram sempre iguais.

domingo, novembro 19, 2006

A DANÇA

A DANÇA
Senhoras e Senhores
Eu vos saúdo!
Vão Vossências ouvir antes de tudo
O que venho anunciar neste momento.
É possível que em vosso pensamento
Surja a ideia horrível dum monólogo.
Mas não! Eu sou o prólogo!...
Vão ouvir música, só música,
Ritmos variados, diferentes,
Endiabrados,
Dolentes…
Ides esquecer por momentos
Tristezas, aborrecimentos
Tudo o que vida tem de mau:
O custo da vida elevado,
O calor exagerado
E o preço do bacalhau!
Várias danças ides ouvir:
Valsas, boleros, cha-cha-cha,
Os tangos sentimentais,
Rumbas, foxes, twistes
E a dança dos canibais.
Danças modernas
Com contorções
Que fatigam as pernas
E os corações…
Um, dois, três
Pé esquerdo à frente
Meia volta p’ra direita
Bate as palmas uma vez
Tudo dança minha gente!
Dança o rico, dança o pobre
E tudo anda contente.
Esta vida é uma dança
Que gira sempre e não se cansa
Ora altiva, ora indiferente.
Dançam velhos, dançam novos
P’ra dançar não há idade
A velhice
Não existe
O que conta é a mocidade.
Vou-vos deixar
A orquestra vai tocar
Executando música a primor
A dança é vida, a vida é dança
Maestro!... Faça favor!...

sábado, novembro 18, 2006

A MINHA ÁFRICA - (extracto)

A casa de banho

(…) A casa de banho situava-se no exterior da casa e vale a pena fazer a sua descrição: Imaginem um pequeno espaço redondo com um raio de dois metros com uma vedação de paus entrelaçados e folhas a tapar a vista; uma fossa árabe que servia para satisfazer as necessidades fisiológicas e, lá no alto um balde de zinco com um crivo no fundo e um cordão que tinha a função de abrir uma válvula e fazer com que a água saísse – era o chuveiro!...
Na casa, a mobília, era a mínima necessária: nos quartos uma cama tosca com o imprescindível mosquiteiro, janelas todas com rede, sem portadas e nada mais; no salão uma mesa, algumas cadeiras muito puídas e dois maples aos quais era impossível atribuir idade; na varanda uma mesa rudimentar e três ou quatro cadeiras de verga. Na parte de trás da casa e logo na pequena escada que dava para a "casa de banho", uma bacia de zinco sobre um cavalete de madeira, uma encardida concha onde repousava um pedaço de sabão azul e uma toalha pendurado num prego...
Havia ainda um pequeno compartimento que servia de despensa e onde eu arrumei logo os alimentos que tinha comprado, enlatados claro: manteiga (holandesa, muito boa); queijo (holandês também) conservas (portuguesas) bacalhau (ido de Portugal em caixas de alumínio); azeite (português, Galo d'Ouro); sardinhas, carapau e atum, também embalados em Portugal e...um garrafão de vinho tinto "Nabão", além de outras coisas... (…)

A MINHA ÁFRICA - (extracto)

A chegada do barco
A primeira coisa a retirar era o saco do correio. As notícias da terra distante: as cartas (quando vinham...) e os jornais e revistas que embora com atraso (às vezes de um mês!) vinham matar saudades e dizer-nos o que se passava pelo mundo. Era depois a vez de ir espreitar os géneros alimentícios que nos tinham mandado da Sede em Basankusu. Tudo enlatado: bacalhau em embalagens zincadas; farinha em tambores herméticos; latas de leite em pó; latas de várias conservas, sobretudo sardinhas portuguesas; batatas do Kivu numa espécie de cestos que faziam lembrar as folhas da piteira; garrafões de vinho português (nessa altura com a marca "Ródão") e também garrafas de cerveja, de origem belga ou holandesa e que vinham acondicionadas em caixas de madeira que continham 48 garrafas de 75 cl. Era a cerveja que nos refrescava "acudia" ao calor dos trópicos. Bebia-se muita e, muitas vezes, porque matava mais a sede, acompanhava a refeição. O uísque era uma bebida pouco usada no interior e, geralmente, só se bebia à noite após a última refeição.
Procedia-se depois à descarga da restante mercadoria e outros produtos empregados nas várias fabricações: tambores de 200 quilos de soda cáustica, garrafões de 50 litros de ácido fórmico, sacos de cimento, chapas de zinco, etc., etc.
O barco continuava depois a subida até ao seu último porto. Três dias depois voltava novamente para carregar os produtos destinados a consumo do país ou à exportação.
Muitas vezes, sobretudo quando as águas começavam a baixar a estadia do barco era abreviada e o carregamento tinha de ser feito de noite.
Com a caldeira sempre à pressão para fazer mover o gerador cujo holofote, de que já falei, iluminava a margem onde se desenrolavam os trabalhos com vista ao carregamento das barcaças, era grande a azáfama e, muitas vezes chegávamos a casa e só tinha tempo de tomar um duche antes de fazer a chamada do pessoal da extracção da borracha, que tinha lugar entre as 4 e 4 e meia da manhã. Houve um tempo em que o encarregado do sector comercial a residir temporariamente no N'gongo, o Ângelo Grilo, me acompanhou nessas andanças e era quando acabávamos o carregamento ou descarregamento que levámos uma garrafa de uísque quase até ao fim!...
Por tudo isso, o barco desempenhava papel importante na existência de todos aqueles que viviam no interior do Congo, um pouco isolados do Mundo. Entre 1950 e 1960, os comandantes dos barcos, todos eles de nacionalidade congolesa e formados por belgas, eram muito competentes e desempenhavam a sua missão com muito saber e honestidade.
Muitas vezes pedi a esses homens que me comprassem e trouxessem da capital livros ou outras coisas de que necessitava e eles sempre o fizeram sem reservas e com desinteresse, exprimindo sempre o seu contentamento por nos serem úteis!
Esqueci os seus nomes mas, pelo menos com dois deles, muitas vezes conversei acerca do futuro do país. Juntos, partilhávamos as mesmas dúvidas quanto à independência...

sexta-feira, novembro 17, 2006

Imitando os poetas

Passaram as horas,
Os dias,
E os anos!...
As alegrias,
Os desenganos
E a amargura,
Como água mole
Em pedra dura
Fizeram do meu rosto
Enrugado
Um sol-posto
Antecipado!...
Dedos deformados
Olhos esbugalhados,
De tantas aflições!...
E os anos vão passando,
Indiferentes,
Enquanto lágrimas ardentes
Em triste bailado,
Meu rosto tisnado
Vão sulcando!...
São bailarinas cansadas
Que em danças desusadas
Rindo e chorando,
Se vão arrastando,
Sempre calmas
Até que cessem as palmas!...

quinta-feira, novembro 16, 2006

Reflexão

Reflexão num dia chuvoso e triste

De uma maneira ou de outra todos nós temos as nossas conversas com Deus. Aqueles que dizem que não, fazem-no, penso eu, por uma questão de diferenciação que nem sempre existe.
Podemos ser diferentes na raça, na cor ou no dinheiro, mas todos temos uma enorme necessidade de ser felizes.
E ser feliz é estar bem consigo, com os seus semelhantes, estar agradecido por estar vivo e, portanto, estar grato pela obra do Criador. Por isso ao procurar a felicidade, mesmo que muitos o não queiram admitir, estamos a conversar com Deus.
Sabemos que nem sempre Deus ouve os nossos pedidos. Mas – só para os que acreditam – já repararam que muitas vezes, há pedidos que não foram atendidos e que mais tarde verificamos que foi melhor assim?...
Comigo já aconteceu…
Para mim, a maior de todas as artes é aquela que nos conduz à felicidade de espírito. Ela dá força e intensidade a toda a nossa vida e tem o condão de se propagar e contagiar aqueles de quem gostamos, que nos são queridos.
Nesta manhã chuvosa e triste eu continuo a acreditar no Sol, mesmo que ele não ilumine; acredito no amor, mesmo quando o não sinto; e acredito em Deus mesmo quando Ele permanece calado…

terça-feira, novembro 07, 2006

A uma Avó

Sei que faz hoje anos. Felicito-a, e ao mesmo tempo aqui lhe testemunho a minha admiração pela maneira corajosa e abnegada como tem enfrentado as “tempestades” que o tempo, na sua correria desordenada, tem escurecido dias que deveriam ser de sol radiante.
Mas… como muito bem faz, não se pode lutar contra a adversidade que não seja através da Fé.
Simone de Beauvoir escreveu que uma noite desafiou Deus e pediu-lhe que se Ele de facto existisse, que lhe aparecesse. Como Ele não apareceu, ela nunca mais lhe falou…
Não é o seu caso. Tanto quanto eu imagino – e para citar Saint-Exupéry – a Senhora tenta sempre «que o seu sonho estrague a sua vida, para que a vida não estrague o seu sonho…»
Coragem! Até para o ano, se Deus quiser.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Pintos de aviário

Criticava-me hoje uma senhora por eu não aproveitar o espaço que tenho no jornal para denunciar a indisciplina que vai nas escolas. Dizia-me ela que os professores não sabem impor-se e que os “miúdos” não aprendem nada…
Respondi que não conhecia bem a situação, mas pelo que ouço dizer se os professores se impõem, os pais dos “rebentos”ameaçam-nos e até tem havido agressões…
«Que não! – retorquiu a senhora. Os meus netos dizem que os professores não sabem nada e que os obrigam a estudar de mais…»
Sabem qual foi a minha resposta?...
- Pois é, minha senhora. Os professores não prestam, mas os pais e os avós não lhes ficam atrás…
Encolheu os ombros e virou-me as costas. Estamos assim. Com uma sociedade que é uma autêntica mãe galinha a proteger os seus “super pintainhos” fazendo-lhes todas as vontades para que eles não fiquem traumatizados… o amanhã será constituído por homens que serão verdadeiros pintos de aviário que, como se diz cá na aldeia, nem cantam, nem galam!...

domingo, novembro 05, 2006

Um domingo na aldeia

Oito horas da manhã. Abro a janela do meu quarto. O dia acordou carrancudo. Nuvens pardacentas, prenhes de água, movimentam-se lá em cima. A serra está vestida com uma túnica branca, rasgada aqui e além, e que deixa ver, à transparência, o verde dos pinheirais. Ninguém na rua. É ainda cedo. As badaladas do sino ecoaram há pouco anunciando a missa. Um casal de rolas toma a dejejua além, no pequeno tanque do jardim. Tudo é silêncio. Um cheiro a azedo entra no quarto proveniente das uvas que apodrecem na parreira. É a agricultura dos pequenos a soltar os últimos suspiros…
As moscas começam a entrar…fecho a janela.
Pequeno-almoço. Ultimar trabalhos da edição 812. Leitura dos jornais via Internet. Nada sobre o que se passa em França!... A França é tão longe…Censura? Isso era no tempo da ditadura e fazia-se com lápis azul, hoje faz-se com dinheiro. Já ouviram falar no “choque tecnológico”?
Por cá, pão e circo, ou mais honestamente, apenas circo. O pão começa a rarear… na mesa dos pobres. O circo tem cada vez mais artistas. Palhaços, sobretudo!
Mau tempo em alguns locais do País. Prejuízos avultados. Queixas. «Ninguém vem ajudar-nos. Nem ministros, nem secretários de Estado, ninguém…», dizem os habitantes. E suas excelências em almoçaradas e passeatas…
A propósito, vou almoçar também…
Às 14,30 fomos à “Feira das Castanhas”. Há anos que o fazemos. É aqui perto a cerca de 4 quilómetros. Uma feira de castanhas onde, além das ditas cujas, há de tudo: maçãs, nozes, avelãs, peras, cebolas, alhos, mel, compotas tudo produtos sem corantes nem conservantes, isto é, sem pesticidas, produtos biológicos, produtos da aldeia. Comprámos maçãs bravo de esmolfe, rosadas e que têm um cheiro que nem imaginam!
Há também pequenas tendas onde se vende de tudo: sapatos, louça de barro preto e outro, roupas, mercearia, eu sei lá!...
Um grupo de bombos inicia a festa. Depois, no palco improvisado actuou um grupo de cavaquinhos e a seguir o Rancho folclórico da aldeia. Tudo genuíno, tudo como há anos se fazia! Ah! Esquecia-me de dizer que também há comes e bebes. Há umas senhoras que levam um forno e fazem uns petiscos de truz! Pão com chouriço, bola de sardinha, bola de bacalhau, etc. etc. Ao lado…a respectiva pinga. Um pipo com vinho ao copo. Do Dão!...
Muita gente, toda conhecida e entre ela, o meu ex-colega de liceu e velho amigo – um advogado reformado, agora passando o tempo na “ingrícola”.
Falador, macaco velho, advogado matreiro quando exercia, que só deixámos porque a chuva veio dizer-nos que eram horas de regressar…
São 22 horas. Chove, mas não está frio. Vou ainda ler um pouco para terminar mais um domingo…na aldeia.

sexta-feira, novembro 03, 2006

A mensagem do Velho

Dizia-me há dias um velho agricultor, apontado o céu, que «os astros andam envenenados».
Habituado a ler nos astros o sol e a chuva, os dias propícios às sementeiras ou às colheitas, com aquele desabafo apenas queria dizer que tudo se vai degradando: os rios, as fontes, o ar, os alimentos, tudo está contaminado e daí poderão advir novas e perigosas doenças.
É um homem do tempo em que as perdizes quase vinham comer à sua porta, os coelhos comiam da sua horta e as pescarias nas águas límpidas dos rios enchiam vários cestos de vime!
Na sua imensa sabedoria, nos seus noventa anos de vida, aquele agricultor transmite-nos uma importante mensagem: o futuro não é de quem erigir mais chaminés, ou mais torres de cimento. O futuro é apenas de quem preservar o meio ambiente, defender o que resta da tão degradada e muitas vezes esquecida Natureza.
Os «astros andam envenenados» e os homens estão loucos, mas vão pagar com altíssimos juros as suas repetidas asneiras.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Resposta a "Quem sabe?"

Quem se passou foste tu, ó meu!... Então não sabes distinguir prosa de poesia?
Não vês que eu apenas quis explicar o significado (para mim) das letras que compõem a palavra VELHO?...
Ai esta iliteracia!...E a propósito de berlindes: sabes a etimologia dessa palavra?
Fico à espera...

sábado, outubro 28, 2006

Lendo Jean Guiton

Estou a ler “Dialogues avec Paul VI” de Jean Guiton, na sua versão original, isto é, em francês.
Vale a pena ler. Este intróito só para vos dizer que entre muitas frases que nos fazem reflectir, encontrei uma que vos deixo como amostra: « Dans l’art des sons, une des notes est le silence et il faut savoir jouer du silence, s’exprimer aussi par les silences».
Na arte dos sons, uma das notas é o silêncio e é preciso saber tocá-lo e saber exprimir-se através dele.
De facto devemos aprender a interpretar o vazio do tempo, a ausência de respostas, através da sinfonia do silêncio…
Bonito, não acham?

quinta-feira, outubro 26, 2006

VELHO?...

Não sei por quê , mas a palavra VELHO está a perder, qunto a mim, o seu verdadeiro significado. Na maior parte das vezes (será por campaixão?...) é susbtituída por IDOSO. Será assim a palavra VELHO tão "ofensiva" e preconceituosa que seja preciso, em nome de uma "caridade" farisaica, pintá-la de uma "côr" que não é a sua?
As letras que a compõem só por si são duma beleza ímpar:
V de vida, (que nem sempre foi a que gostávamos...)
E de experiência, (que teimam em não a aproveitar...)
L de loucura, (que todos temos um pouco...)
H de horizonte, (com que todos sonhamos...)
O de olhar, (de tanta coisa ver, de olhar a rir, a chorar...)
Não importam as palavras. Importa, isso sim, o amor, o carinho, o respeito... porque afinal fomos nós, OS VELHOS, a origem do vosso ser.
Alguém discorda?!...

terça-feira, outubro 24, 2006

Arejar os neurónios

São 16 horas. Tenho estado a corrigir provas e tenho a sensação de que tudo o que tenho na cachimónia chocalha!...Passou-me há pouco pelas mãos um trabalho de um dos nossos jornalistas na qual descreve um novo desporto que começou aqui há pouco e que dá pelo nome de “paintball”.
Não que queira entravar a marcha do progresso - porque já não tenho pernas para o fazer - mas confesso que me assustam estas formas de divertimento que contém mais de agressividade do que propriamente uma forma de descontracção e lazer.
Dizem-me que são novas técnicas e que são boas para fazer subir a adrenalina!... Seja. Mas eu fico na minha. E sou contra tudo aquilo que contribua para despertar no homem sentimentos bélicos, ainda que sejam tidos por inofensivos...
E como já descontraí um pouco, vou continuar o trabalho...

sábado, outubro 07, 2006

Ainda as minhas férias

As férias são para descansar, mas não conseguimos alhearmo-nos do que se passa no mundo. Há sempre aquela tendência própria, aquela curiosidade que nos leva a querer saber, pelo menos, o que dizem os jornais. Foi o que aconteceu comigo. Depois de ter visto, antes de partir, a reportagem sobre a residência de Cavaco Silva na sua recente visita a Espanha em que era mostrada a residência de Franco onde tudo foi conservado, até a cadeira onde se sentava o caudilho, esbarrei com uma notícia num jornal espanhol “La Razón” de 28 de Setembro, em que se dizia que há em Espanha 360 ruas que mantêm uma relação com o regime franquista!
Não foi por isso, no entanto, que a Espanha deixou de progredir ao contrário de Portugal que começou por rebaptizar pontes, ruas, praças, etc., relacionadas com o regime salazarista, e apesar disso está na situação que todos onhecemos.
Não se pode apagar a História por mais negra que ela tenha sido.
Entre nós impera a hipocrisia do lucro que não hesita em renegar as suas origens e o seu passado para atingir os fins em vista. A propósito, li num semanário logo à chegada de férias, que Salazar ia ter um museu em Santa Comba Dão, mas o autarca responsável logo sacudiu a água do capote ao afirmar que “não era uma homenagem a Salazar, mas uma forma de passar aos mais novos a nossa memória colectiva. O que está aqui em causa é um abordagem meramente científica…»
Esta falta de coragem em assumir a responsabilidade histórica tem muito a ver com o estado a que Portugal chegou….É como que envergonharmo-nos dos pais que tivemos. Metaforizando, eles podem ter sido tudo: ladrões, bêbados, malandros, assassinos, mas não deixam de pertencer à nossa origem ao nosso passado. Muitos não devem fazer este raciocínio, porque hoje conta mais o que “somos” do que a maneira como aqui chegámos…

sexta-feira, outubro 06, 2006

Continuação de ontem, 5 de Outubro

Elogio à preguiça
Cá estou de novo para contar como foi o meu dia de ontem, feriado, dia da comemoração da implantação da República e dia do corte da relva da frente e dos lados. Às 16 já estava estafado. Depois da relva, fui apanhar nozes! Conhecem o provérbio que diz que Deus as dá a quem não tem dentes? O provérbio concretizou-se… e as costas pagaram a factura. Com a mola já gasta e enferrujada, imaginem como fiquei!... Partido, esbodegado, empenado, eu sei lá…
Ah! Ainda apanhei umas castanhas de um ouriço que se lembrou de parir mesmo quando eu passava por baixo do castanheiro. Por pouco não me caía na careca…
Finalmente ás 18 horas sentei-me no escritório a ler e por coincidência um texto que fala de ócio… e eu vou transcrever uma passagem:
«Há uma quantidade de gente que é amadora de fazer aquilo que a nós, por exemplo, custaria. Mas eles gostam…Conheci um homem, que tinha sido Governador de Macau, que já estava aposentado de vários cargos, tinha andado também na política e depois da Ditadura tinha sido afastado de tudo, esse sujeito levava um dia inteiro, numa quinta onde morava, montando e desmontando motores. Era o gosto dele! Montava e desmontava… Aparecia sempre ao almoço, ao jantar não, porque tomava banho antes, mas ao almoço aparecia sempre com as mãos imundas por ter andado a apertar válvulas por tudo quanto era motor e a desapertar no dia seguinte. Ele gostava daquilo! Há sujeitos que não gostam de fazer coisa nenhuma senão de estar a olhar para uma nuvem. Eu considero esses tipos utilíssimos, porque ninguém sabe o que sairá dali. Não se conta aquela história de que a lei da gravitação apareceu por ter caído uma maçã na cabeça do Newton? Não era obrigatório que o Newton estivesse a estudar Matemática na altura em que lhe caiu a maçã na cabeça…podia estar a dormir debaixo da árvore, ou ter acordado naquele momento, ou qualquer coisa assim, eu sei lá! Quem me diz que a um homem, cujo ideal é de estar de papo para o ar olhando para as nuvens, de repente se lhe atravessa na cabeça uma ideia?»
O texto é do nosso saudoso professor, escritor e filósofo Agostinho da Silva, um dos meus preferidos. Então esta última frase do texto é “o máximo”!...
Um dia destes vou pôr-me de papo para o ar (não debaixo do castanheiro!...)
e depois contar-vos-ei a ideia que ma atravessou a mona…
Olha!... Já são 23 e 45… o dia já está de pijama. E eu vou fazer o mesmo…Ai as minhas costas…

quinta-feira, outubro 05, 2006

Como passei o feriado da República

Levantei-me tarde, isto é, cerca das oito da matina. Digo tarde, porque costumo levantar-me às 7. Questão de hábito!... Depos do pequeno almoço "a chefe" atribuiu-me uma tarefa - descascar marmelos! Vejam lá se isto é coisa que se faça num dia em que se festejam as bananas (ver república das) compris?.. Descascámos 15 quilos! Temos marmelada até ao fim dos nossos dias...Eh lá...
nada de confusões.Mamelada daquela que se come, não da que se lambe...
Almoço, e quando pensava que a seguir ia ter folga, " a chefe" impõeme nova tarefa - cortar a relva!...
continuação amanhã...

terça-feira, outubro 03, 2006

Férias

Cinco dias em Maiorca! Dias inesquecíveis. Nunca me tinha passado pela ideia que a maior das Baleares oferecesse tantos e tão variados encantos! Além da visita à capital, Palma, fui também à Serra de Tramuntana. Saída em autocarro, uma parte de comboio, depois de eléctrico até Soller e depois em barco, catamarim, até Sa Colobra. Subida da Serra de autocarro, precipícios terríveis que me obrigaram a fechar os olhos...e regresso de novo a Palma em autocarro.
O passeio marítimo, o porto com inúmeros iates ancorados, trasatlânticos num vaivém constante, o aeroporto com saídas e chegadas de aviões de cinco em cinco minutos... Impressionante a vida da cidade!
Gastronomia variada e sempre à base de legumes, peixe e carne fazem de Maiorca um lugar que deve ser visitado.
A catedral gótica construida em calcáreo dourado junto ao mar cuja construção foi iniciada em 1380 e acabada em 1587, é uma visita obrigatória. O seu interior é deslumbrante e riquíssimo!
Belas férias que será difícil esquecer....
Palma à noite e ainda as praias em redor de Palma: Palma Nova, Megalufe, etc...

domingo, setembro 24, 2006

É domingo e chove

Começou o Outono...É domingo, chove, e eu estou triste por dentro. Não sei se já experimentaram essa sensação. É uma espécie de angústia, uma dor sem doer, uma tristeza sem estar triste. É dificil explicar...mas aqui estou tentando dominar esse sentimento...
A chuva abrandou e eu aproveito para ir até ao quintal ver as árvores que choram e espreitar os pardais que se refugiam debaixo da densa folhagem da buganvília...

domingo, setembro 10, 2006

Hoje é Domingo-Errata

Onde se lê «lendemai», deve ler-se «lendemain»

Hoje é Domingo

O dia acordou carrancudo com núvens a esconder o sol. Algumas folhas começam já a perder a cor verde, outras já se desprenderam dos ramos e atapetam o chão. Já cheira a Outono... para mim, a estação mais triste do ano!
Hoje também não estou a 100%. Estou naqueles dias a que os franceses designam por «le lendemain de la veuille» e que numa tradução livre poderemos traduzir por «ressaca». Não, propriamente aquela ressaca que provém de uns copos a mais, mas aquela disposição que nos diz que saímos fora do habitual e que por isso nos faz molengões.
Casamento simples, familiar, sem salamaleques. E vim hoje aqui apenas para registar um cântico entoado durante a celebração e que julgo digno de registo. Perguntei o autor, mas parece ser já muito antigo. Mas é muito bonito...

Se procuras em vão,ser feliz,
Ouve o que diz esta canção:
Se deveras tu queres ser feliz
Hás-de servir teu irmão.

Todo o homem é um jardim ,
Onde se pode colher uma flor.
Todo o homem é nosso irmão.
E se deve tratar com amor.

Tudo te sorrirá, se tu sorrires;
Tudo te cantará, se tu cantares;
Tudo, tudo, tudo te amará,
Se tu servires, se tu amares.

Se te queixas que o mundo vai mal,
Pensa que o Mundo és tu e eu;
Só de pende de nós, afinal
Que o mundo seja melhor.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Anedota

Há anedotas e anedotas... Algumas têm, de facto, umaoportunidade e um humor tão subtil que nos deixam bem disposto. Ora leiam esta que acabei de encontrar:
Há dias quando vinha de Lisboa, sentei-me ao lado de um jovem com os cabelos compridos e com mechas verdes, azuis e vermelhas. Achei estranho, mas nada disse, pois cada um tem o direito de usar o cabelo da maneira que quer.
Pouco depois o comboio parou numa estação e entrou para o mesmo compartimento um velhote de cabelos brancos. Como vi que ele se movia com dificuldade, ajudei-o a subir e dei-lhe o meu lugar.
Ele sentou-se, agradeceu e começou a olhar insistentemente para o moço de cabelos coloridos. E tanto olhou que o rapaz perguntou:
Ouça cá ó avozinho, você quando era jovem nunca fez uma extravagância?
E então o velhinho respondeu calmamente:
-Fiz, sim, meu rapaz. Quando era jovem tive relações sexuais com uma arara e agora ao olhar para o seu cabelo estava pensando com os meus botões: Será que este filho da puta é meu filho?

quarta-feira, setembro 06, 2006

Vida rural

Quarta-feira, dia 6 de Setembro
São 14 horas, o termómetro lá fora, à sombra, marca 34.º Estou a descansar, se é que escrever, é uma maneira de o fazer! Mas para mim é... Perguntarão vossências o que fiz para estar assim esbodegado. Ora vejam o que fiz até agora:
Levantei-me às 7 da matina. Barba, banho, pequeno almço...e às oito, ginásio!
O "ginásio" aqui na aldeia não tem nada a ver com o "ginásio" que vossências frequentam aí nas cidades. Eu explico os exercícios que fiz, ou fizemos hoje, porque a minha cara-metade participa também: Enquanto eu cortei as relvas que circundam a minha casa, ela, a cara-metade, limpou, com sacho, os regos que conduzem as águas de rega. Tempo: 3 horas. Debaixo de uma temperatura respeitável! Às 11 horas, poda de arbustos e de hastes de roseiras que ornamentam as entradas, mas que me arranhavam a careca...
Entretanto, ela, a cara-metade, interrompeu para tomar banho e fazer o almoço... Eu continuo a limpar a máquina e a arrumar as ferramentas... 12 horas, hora do meu banho de água fria. Que bom...
Almoço às 12h30. Ementa? Arroz de bacalhau a correr e salada de tomates que foram apanhados, fresquinhos, aqui ao lado. E que saborosos! Os tomates da aldeia são muito mais saborosos do que os da cidade ( Honni soit qui mal y pense!). E agora, como a jibóia, com o calor que faz lá fora, aqui estou a desmoer...sentado!
É assim a vida de aldeia. Mais monótona, menos trepidante, com vantagens e desvantagens... e com "ginásios" onde se podem fortalecer ou desenferrujar os músculos por pouco dinheiro...
Há tempos que procuro alguém para se encarregar dos trabalhos do quintal. Até agora só recebi uma oferta de um candidato lá das bandas da capital, mas que se ofereceu, apenas, para "capataz". Ora para capataz cá estou eu...Portanto cá vamos "gerindo" isto conforme podemos. E basta por agora. A cara-metade lá está no puzzle e como a água do poço está a correr para o tanque,tenho que ir...porque à tarde é preciso regar. É assim a vida de um aldeão!...

domingo, setembro 03, 2006

Lobos-desabafo

Hoje de manhã vieram pedir-me para escrever qualquer coisa acerca dos prejuizos que os javalis estão a causar nos milharais e em outras culturas.Já escrevi sobre isso e até juntei fotografias que tirei num desses locais por onde os bichos passaram. Tudo destruído... mas ninguém tomou providências. Nem tomam. Hoje os animais irracionais "merecem" mais do que os homens...
A propósito lembro-me do desvio da A24 entre Viseu e Chaves que foi feito para não "invadir" a área de um alcateia de sete lobos. Esse desvio, segundo os jornais, custou ao Estado entre 100 a 150 milhões de euros!
Perante isto, será que as autoridades (?) deste nosso País se preocuparão com os estragos dos javalis causados aos pobres que ainda tentam sobreviver grangeando o necessário para a sua subsistência?...
Chegámos a uma situção tal que é difícil imaginar qual será o fim de tudo isto...
O certo é que os pequenos estão condenados...Até os bichos estão em primeiro lugar!...

sexta-feira, setembro 01, 2006

Começo de mês

Sexta-feira, 1 de Setembro
Começou hoje mais um mês...o tempo foge! Tenho à minha frente o diário do ano passado aberto na página do dia 1 - uma quinta-feira. O Jorge, a Ana e a Mariana estavam cá nesse dia. Tempo quente, escrevi eu. Mais à frente a anotação dos anos da Isabel e da Lurdes do Couto de Mosteiro.Por curiosidade fui buscar o diário de 2004. Nada de anormal a não ser o tempo que, segundo escrevi, estava fosco e fresco...
Hoje está calor. O termómetro marca 30 graus. Telefonámos à Isabel e à Lurdes.
Agora aqui estamos os dois: um no puzzle, outro a matar o tempo, escrevendo nada...
E, assim sendo, vou parar por aqui.