Aqui há alguns meses, vesti um bibe e assim disfarçado de "puto", sentei-me numa velha mesa que é uma espécie de carteira daquelas que havia nas escolas do meu tempo, e escrevi uma carta ao sôr ministro pedindo-lhe um "Magalhães".
Durante dias fui esperar o carteiro junto à minha caixa do correio, na esperança de receber um aviso de chegada da "máquina"... A notícia não chegou pelo correio, mas via telemóvel por SMS: «Para procedermos à entrega do seu Magalhães na sua escola efectue nos próximos cinco dias o respectivo pagamento...»
Como não pude indicar o nome da escola pelas razões que todos conhecem, fechei-me em copas e não efectuei qualquer outra deligência. Felizmente, porque, como todos sabem, rebentou aquela bronca dos erros apareceram aqueles erros de português no 'software'
segunda-feira, março 16, 2009
sábado, fevereiro 21, 2009
Disfarces

On peut rire de tout, mais pas avec tout le monde.
Pierre Desproges
Era Domingo gordo. Tinha chegado o dia. Finalmente iria divertir-se à grande e à portuguesa!...
Primeiro pensou em mascarar-se de Ministro, mas a mãe dissuadiu-o do intento: - Nem penses nisso, filho. Já pensaste na figura ridícula que farias, qualquer que fosse a cara do que escolhesses?
Anacleto reflectiu, reconsiderou, e resolveu então disfarçar-se de ladrão. No meio de tantos, era mais fácil passar despercebido...
Muniu-se então de um velho saco de campismo, pôs dentro uma pistola-metralhadora em plástico, um velho alicate, um pé de cabra enferrujado, e ei-lo na rua.
Mas logo ao virar da esquina, eis que surge uma farda: - Em nome da Lei, abra lá o saco!... E, apalermado, Anacleto, obedeceu. Abriu, e não conseguiu convencer a "autoridade" de que se tratava apenas de um disfarce: - Com que então, nem aos Domingos!... Com todo este arsenal onde vais, ó velhinho?!... Vá, andor, p'rá esquadra... e já!
Pelo caminho, completamente transtornado, sem conseguir raciocinar, pensou ainda que tudo aquilo não passava de um pesadelo.
E já naquilo que ele julgou ser a esquadra, a voz rouca do homem fardado, voltou a ouvir-se: - Chefe, aqui tem um figurão que apanhei agora mesmo...
Anacleto tentou falar, mas logo o outro se adiantou: - Cala a boca. Só falas quando eu disser... E, então, aquele que dava pelo nome de Chefe, começou a tirar do saco o material: - Com toda esta sofisticada panóplia, com certeza que ias assaltar o Banco de Portugal, não?!... Anacleto julgou ver um sorriso irónico no rosto do inquiridor e arriscou: - Mas chefe, eu sou um homem honesto e fiz tudo isto por ser Carnaval...
E a resposta não se fez esperar: - Senhor agente chame aí o quebra-ossos que aqui o nosso amigo está a mangar com a tropa...Mas a ordem foi suspensa, porque a cara do "preso" inspirava, de facto, compaixão. E o Chefe deixou que ele falasse. E ele expôs, calmamente, o seu caso, a sua brincadeira... E o homem dos galões achou até piada e quando se preparava para repreender o seu subordinado pela sua falta de tacto, notou algo de estranho: - Ouça cá, ó soldado, o seu número de matrícula? Você não pertence a esta esquadra... E o homem, confuso: - Sabe, é que eu também não sou polícia... Como hoje é Domingo gordo... E o Chefe ameaçador: - Com que então a brincarem aos polícias e ladrões?!... Bonito. Muito grave. Muitíssimo grave. Abuso de autoridade...Isto vai custar-vos caro!...
Mas não conseguiu conter-se por mais tempo – e desatou a rir. Sem parar. E a chorar de tanto rir, lá conseguiu explicar: - Nenhum de nós os três é aquilo que parece. Eu também não sou Chefe. O uniforme que trago vestido, é alugado. Como é Domingo Gordo, e é Carnaval...
Claro que a crónica de hoje vem a propósito da quadra que atravessámos. Não quero, no entanto, deixar de lembrar que há muitas semelhanças entre a minha ficção e certas situações que quase diariamente presenciamos. É tão grande a confusão que reina actualmente cá no rectângulo que é muito difícil conseguirmos fazer a destrinça entre o que é falso e o que é verdadeiro.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Vivências
A maior parte dos habitantes cá do rectângulo não vive. Corre…
Andamos cheios de pressa e sempre rodeados de novos brinquedos saídos do incomensurável ventre dessa terrível e assustadora fábrica que dá pelo nome de tecnologia. Massacrados dia e noite pela propaganda sistemática, ludibriados pela publicidade e enganados pelos falsos fazedores de milagres, não paramos!
Nesta sociedade de compra e venda, sempre de mochila às costas, vamo-la enchendo de opiniões, de quiméricos conceitos de vida, de sonhos irrealizáveis e de falsas esperanças.
E sem quaisquer certezas no amanhã, à medida que os dias vão passando, o nosso sonho vai crescendo até que nos auto-convencemos de que estamos perante a realidade.
E só quando a vida nos troca as voltas, nos barra o caminho, nos traz uma contrariedade, nos toca com uma perda, uma doença, então, acordamos, descemos à terra e verificamos que de nada valem as correrias, de nada serve o que armazenámos na mochila.
Somos enganadores enganados, concorrentes uns dos outros, com a casa cheia de bugigangas e a cabeça repleta de nada!
É o mundo que criámos. Um mundo materialista, afastado de Deus, sem valores espirituais, apenas virado para o sucesso imediato, para o dinheiro, para a ostentação, para a vaidade e para o luxo.
Procuramos ter cada vez mais “coisas” para mostrar ao vizinho, para fazer ver que também “somos”, que também “temos”e assim transmitirmos uma ideia falsa de nós próprios.
E é sempre com o conceito utilitarista do materialismo prático que não paramos de correr na ânsia de possuir. É uma espécie de escravatura, uma dependência em relação aos objectos que o progresso e a tecnologia vão parindo…
Podem não acreditar, mas, às vezes, é tanta a confusão, que a minha cabeça transforma-se num verdadeiro «Inferno»! E para complicar, surgem dúvidas e, muitas vezes, pergunto a mim mesmo se esse «Inferno» é obra da minha imaginação, – arquitectado e construído com velhas tábuas do meu sótão – ou se é mesmo um «Inferno» a sério!
Não estou a referir-me àquele Inferno existencial de que nos falava a catequista quando éramos meninos, mas a este «Inferno» que nos rodeia – a toda esta balbúrdia, a toda esta confusão, a esta podridão que tomou conta da sociedade em que somos obrigados a viver. Uma sociedade comandada pelo dinheiro, onde prolifera a mentira, a inveja, a intriga e o egoísmo; uma sociedade donde desapareceram os valores tradicionais – a honra, a dignidade, a educação, a seriedade e o respeito. Uma sociedade onde tudo se mistura sem regras, sem cautelas, usando e abusando da ingenuidade dos que menos sabem, dos que menos podem, mas que acabam, finalmente, por serem sempre os “bombos” da festa.
Não haverá uma maneira, um processo para pôr a tecnologia ao serviço do bem-estar de todos sem discriminar pessoas, mas com um sistema que distinga as necessidades reais das supérfluas?
É que, na maior parte das vezes, temos tudo o que precisamos para viver bem, mas falta-nos um bocadinho de felicidade. E isso não se compra. Temos de ser nós a construí-la. Pedra por pedra. Sem pressas. Sem correrias. E com a forte convicção de que o “material” que temos, - o que possuímos - nos chega para a sua construção.
Andamos cheios de pressa e sempre rodeados de novos brinquedos saídos do incomensurável ventre dessa terrível e assustadora fábrica que dá pelo nome de tecnologia. Massacrados dia e noite pela propaganda sistemática, ludibriados pela publicidade e enganados pelos falsos fazedores de milagres, não paramos!
Nesta sociedade de compra e venda, sempre de mochila às costas, vamo-la enchendo de opiniões, de quiméricos conceitos de vida, de sonhos irrealizáveis e de falsas esperanças.
E sem quaisquer certezas no amanhã, à medida que os dias vão passando, o nosso sonho vai crescendo até que nos auto-convencemos de que estamos perante a realidade.
E só quando a vida nos troca as voltas, nos barra o caminho, nos traz uma contrariedade, nos toca com uma perda, uma doença, então, acordamos, descemos à terra e verificamos que de nada valem as correrias, de nada serve o que armazenámos na mochila.
Somos enganadores enganados, concorrentes uns dos outros, com a casa cheia de bugigangas e a cabeça repleta de nada!
É o mundo que criámos. Um mundo materialista, afastado de Deus, sem valores espirituais, apenas virado para o sucesso imediato, para o dinheiro, para a ostentação, para a vaidade e para o luxo.
Procuramos ter cada vez mais “coisas” para mostrar ao vizinho, para fazer ver que também “somos”, que também “temos”e assim transmitirmos uma ideia falsa de nós próprios.
E é sempre com o conceito utilitarista do materialismo prático que não paramos de correr na ânsia de possuir. É uma espécie de escravatura, uma dependência em relação aos objectos que o progresso e a tecnologia vão parindo…
Podem não acreditar, mas, às vezes, é tanta a confusão, que a minha cabeça transforma-se num verdadeiro «Inferno»! E para complicar, surgem dúvidas e, muitas vezes, pergunto a mim mesmo se esse «Inferno» é obra da minha imaginação, – arquitectado e construído com velhas tábuas do meu sótão – ou se é mesmo um «Inferno» a sério!
Não estou a referir-me àquele Inferno existencial de que nos falava a catequista quando éramos meninos, mas a este «Inferno» que nos rodeia – a toda esta balbúrdia, a toda esta confusão, a esta podridão que tomou conta da sociedade em que somos obrigados a viver. Uma sociedade comandada pelo dinheiro, onde prolifera a mentira, a inveja, a intriga e o egoísmo; uma sociedade donde desapareceram os valores tradicionais – a honra, a dignidade, a educação, a seriedade e o respeito. Uma sociedade onde tudo se mistura sem regras, sem cautelas, usando e abusando da ingenuidade dos que menos sabem, dos que menos podem, mas que acabam, finalmente, por serem sempre os “bombos” da festa.
Não haverá uma maneira, um processo para pôr a tecnologia ao serviço do bem-estar de todos sem discriminar pessoas, mas com um sistema que distinga as necessidades reais das supérfluas?
É que, na maior parte das vezes, temos tudo o que precisamos para viver bem, mas falta-nos um bocadinho de felicidade. E isso não se compra. Temos de ser nós a construí-la. Pedra por pedra. Sem pressas. Sem correrias. E com a forte convicção de que o “material” que temos, - o que possuímos - nos chega para a sua construção.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Carta ao Zé

Pois é, meu caro Zé pagante! Agora torces a orelha, mas já é tarde… Eu não te dizia que mais ano, menos ano, mais mês, menos mês, mais dia, menos dia, a coisa iria acontecer? Então julgavas que podíamos continuar nesta roubalheira descarada? Eu sei que quem paga as favas somos sempre nós, os pequenos, mas é dos livros: “o povo vota mas não manda…”
E não fosse esta crise mundial que pôs a nu muitos podres daquela gente que deveria ser a “nata” da nossa sociedade, (mas que não é!...) continuaríamos a alimentar esses pançudos até que a barriga, de tão cheia, lhes rebentasse o cós das calças.
Não te esqueças, Zé, que foste também tu que contribuíste para que esses proxenetas da política subissem aos lugares que ocupam. Pensavas que bastava o cheiro das rosas para transformar um laranjal moribundo, invadido pela cochonilha e pela ferrugem, numa nova mancha verde sem ervas daninhas, sem parasitas e sem podridão?!...
Ingénuo que és! Já Alexandre Herculano dizia “que a história política é uma série de desconchavos, de torpezas, de inépcias, de incoerências, ligadas a um pensamento constante que é o de enriquecerem os chefes de partido…”
E se nessa altura ele se referia apenas aos chefes, hoje há que incluir todos os seguidores de suas excelências: familiares, amigos, afilhados, recomendados, amásias e demais pessoal democraticamente ligado à “nobre causa” de enriquecer sem trabalhar.
Quanto a maneiras de pensar e agir nunca conseguirás entrar nessa linha de pensamento usada pelos tais proxenetas de que acima falei. Político é político e interpretar o que dizem ou explicar o porquê daquilo que fazem, é um segredo da classe, embora quase sempre haja um cheirinho a dinheiro que se escapa por uma frincha do testo da panela …ou do tacho!
Desemprego, miséria, exclusão social, insegurança, doença na Saúde, agitação no sistema educativo, tudo isso é triste, é verdade, mas acontece num mundo que não é o deles. Conheces algum político desempregado ou pobre? Conheces algum político que quando doente vá para as urgências e espere horas a fio para ser atendido? Podia citar mais exemplos, mas não vale a pena. Tu conhece-los e eles também, mas fazem de conta…
Estamos num País do “faz-de-conta”. Anda por aí muito ladrão disfarçado. Às vezes, zangam-se as comadres e sabem-se algumas verdades. Mas os “bombeiros de serviço” vêm logo com o extintor e nunca se sabe a verdadeira causa do “incêndio”.
Do que me dizes acerca do prejuízo das acções que tinhas na Bolsa, nada te sei dizer, pois, como sabes, em questões de Bolsa confiei sempre só na minha. Acerca do dinheiro que tinhas no tal Banco, também nada posso acrescentar. O meu está seguro. Continuo a guardá-lo no meu colchão…
Perguntas-me quando é que “isto” irá mudar. Não sei. Há um fosso enorme entre a vida real e aquela que vai na cabeça dos políticos. Além disso somos poucos e pequenos e estamos entre gente desonesta, sem vergonha, sem princípios e sem escrúpulos de qualquer espécie.
Há 34 anos que fizemos uma aposta. Como na lotaria. E o resultado aí está. Uma ligeira “aproximação”que mais parece uma continuação -uns a nascer na lama e outros nas nuvens; uns a morrer de fome e outros de fartura. Vem aí a próxima ou próximas extracções – uma europeia e duas nacionais. Habilita-te, Zé, mas não te queixes se mais uma vez apostares nos números errados…
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Realidades
Acontece quando estou muito tempo só. Abstraio-me de tudo o que me rodeia e, cautelosamente, levanto o véu dos meus espaços imaginários. E nem sempre a fantasia consegue apagar a realidade. Muitas vezes, atravessando-se no caminho do pensamento, a velhice interrompe projectos e sonhos. E é nesses momentos de reflexão que, ao descer a montanha, relembro pedaços do caminho percorrido na subida.
Como na projecção de um filme antigo a preto e branco, com cenas por vezes desfocadas e aquele relampejar constante motivado pela antiguidade da película, as imagens da adolescência, perpassam-me fugazmente pela retina. Por detrás de uma neblina carregada de recordações surgem-me de quando em vez, rostos risonhos de companheiros de infância que jogam o pião, a bilharda e outras brincadeiras. Mas tudo mudou!...
Gentes, hábitos e mentalidades, foram evoluindo ao longo do tempo. Não! Ao contrário do que muitos possam pensar ao lerem este intróito, respeito o passado, mas não o desejaria nunca como futuro.
Também nunca senti o peso dos anos, pois considero (até este momento em que escrevo!...) que o seu somatório aritmético não corresponde, em muitos casos, à velhice real.
A velhice, hoje como ontem, e apesar de todos os avanços da ciência, abrange a decadência física e mental de todos os indivíduos, independentemente das suas idades.
O amontoar dos anos não significa senilidade ou falta de espírito. E como há jovens com sinais de decrepitude tão pronunciados que a velhice já tomou conta deles, também há idosos que, para além do seu saber e experiência, exibem ainda uma juventude saudável e contagiante.
É por isso que, em muitos casos, é difícil saber onde, exactamente, se situa a terceira idade.
Infelizmente, um conceito simplista acordado pela maioria das pessoas inclui nessas duas palavras, indiscriminadamente, todos aqueles que ultrapassaram a barreira das seis dezenas de anos.
No Antigo Testamento o idoso era referido como o exemplo para os demais. Ele era o transmissor da sabedoria e a velhice era considerada uma bênção, uma riqueza que devia agradecer-se a Deus.
Mas os tempos foram mudando e hoje do homem sábio, do homem do bom conselho, do homem temente a Deus, passou-se ao velho marginalizado, ao homem desprezado, ao homem para quem a sociedade não encontra lugar...
São fáceis de encontrar as razões desta inversão: num mundo em que os valores económicos ultrapassaram e quase esmagaram os valores espirituais e culturais, não têm lugar aqueles que na escrita fria dos números deixaram de figurar na coluna do "Haver".
No nosso mundo civilizado, muitas vezes, a morte de um velho é alívio de novos… Ingénua ou propositadamente, esquecem, esses jovens e até alguns menos jovens que também eles são elos da mesma corrente!
Como na projecção de um filme antigo a preto e branco, com cenas por vezes desfocadas e aquele relampejar constante motivado pela antiguidade da película, as imagens da adolescência, perpassam-me fugazmente pela retina. Por detrás de uma neblina carregada de recordações surgem-me de quando em vez, rostos risonhos de companheiros de infância que jogam o pião, a bilharda e outras brincadeiras. Mas tudo mudou!...
Gentes, hábitos e mentalidades, foram evoluindo ao longo do tempo. Não! Ao contrário do que muitos possam pensar ao lerem este intróito, respeito o passado, mas não o desejaria nunca como futuro.
Também nunca senti o peso dos anos, pois considero (até este momento em que escrevo!...) que o seu somatório aritmético não corresponde, em muitos casos, à velhice real.
A velhice, hoje como ontem, e apesar de todos os avanços da ciência, abrange a decadência física e mental de todos os indivíduos, independentemente das suas idades.
O amontoar dos anos não significa senilidade ou falta de espírito. E como há jovens com sinais de decrepitude tão pronunciados que a velhice já tomou conta deles, também há idosos que, para além do seu saber e experiência, exibem ainda uma juventude saudável e contagiante.
É por isso que, em muitos casos, é difícil saber onde, exactamente, se situa a terceira idade.
Infelizmente, um conceito simplista acordado pela maioria das pessoas inclui nessas duas palavras, indiscriminadamente, todos aqueles que ultrapassaram a barreira das seis dezenas de anos.
No Antigo Testamento o idoso era referido como o exemplo para os demais. Ele era o transmissor da sabedoria e a velhice era considerada uma bênção, uma riqueza que devia agradecer-se a Deus.
Mas os tempos foram mudando e hoje do homem sábio, do homem do bom conselho, do homem temente a Deus, passou-se ao velho marginalizado, ao homem desprezado, ao homem para quem a sociedade não encontra lugar...
São fáceis de encontrar as razões desta inversão: num mundo em que os valores económicos ultrapassaram e quase esmagaram os valores espirituais e culturais, não têm lugar aqueles que na escrita fria dos números deixaram de figurar na coluna do "Haver".
No nosso mundo civilizado, muitas vezes, a morte de um velho é alívio de novos… Ingénua ou propositadamente, esquecem, esses jovens e até alguns menos jovens que também eles são elos da mesma corrente!
Frio

Estes dias de frio intenso têm-me feito lembrar aqueles do meu tempo de menino e moço em que logo que saíamos de casa a caminho da escola as calçadas da minha aldeia se encontravam brancas e escorregadias da geada que tinha caído durante a noite. A juntar a isso aquele vento de suão que geralmente soprava em Janeiro e vinha quase sempre por altura do Santo Amaro, santo que era e continua a ser o Padroeiro cá do burgo, emoldurava o ambiente frio de então…
Era no tempo em que, sobretudo nos meios rurais, se usava, como calçado, os socos, uma espécie de tamancos fechados. Eram feitos de uma madeira própria, se não me engano da faia, e tinham atacadores de couro. Os tamanqueiros, antecessores dos sapateiros, esmeravam-se na sua confecção e alguns fabricavam, manualmente, claro, autênticas “obras de arte” no sector da tamancaria.
Havia quem lhes pusesse no rasto umas tiras de borracha pregadas com pregos finos, para que tivessem mais aderência e não escorregassem.
Aqui e além, numa poça de água, o Sol fazia brilhar o gelo e então, ao mesmo tempo que caminhávamos, lá nos íamos entretendo a esmagar esses montículos de “cristal” que se espalhavam pela calçada.
Já não me recordo se nessa altura era tão sensível ao frio como agora, mas penso que não e do que me lembro é da sensação de desconforto quando em noites frias ia para a cama e me deitava entre lençóis de linho. Dava a impressão que estavam molhados. Ainda hoje me arrepio quando me lembro disso.
Também ainda não havia luz eléctrica e mal a noite chegava lá se acendia o candeeiro a petróleo, a candeia de azeite, as velas de cera ou o gasómetro a carbureto. Como aquecedores havia a lareira e nalgumas casas usavam-se as braseiras, um recipiente de cobre onde se colocavam brasas previamente tiradas da lareira e abafadas num pote de barro preto, que eram depois reacendidas e reutilizadas.
Lembro-me também da escalfeta da D. Aurora, a minha primeira professora. Era uma caixa rectangular de madeira, forrada a zinco e com a tampa crivada de buraquinhos por onde saia o calor. Geralmente íamos buscar as brasas a casa das vizinhas da escola ou então preparávamo-las nós com molhos de vides que queimávamos e depois enchíamos o recipiente.
Este intróito para vos dizer que este frio e ao contrário do desses tempos passados, me deixa completamente paralisado!
Seja a idade ou os trinta anos que vivi sob o calor tórrido dos trópicos, o certo é que desabituei-me de baixas temperaturas. Há dias em que nada me aquece e nada me apetece fazer. Já experimentei a cama, mas também não resulta, pois arrisco-me a morrer asfixiado sob o peso dos cobertores…
Enquanto a minha chefe me diz que eu sinto frio porque não trabalho como ela, outros dizem-me que o meu frio não é verdadeiro, que o meu frio é psicológico!
Tanto ela como eles podem ter razão. Mas o frio, quem o tem sou eu …
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Bom ano de 2009
Distraído que andava quase me esquecia de encerrar o meu blogue para "balanço"...
Já com meio pé em terreno do novo ano, tempo ainda para desejar a todos os que me visitam, um 2009 com muita saúde. Não vos desejo mais nada, porque com ela todo o resto se pode alcaçar.
Um conselho: Vive a tua vida "HOJE", porque o "AMANHÃ" não passa de uma esperança fugidia. que mesmo estendendo as mãos para a agarrar nunca temos a certeza de o conseguir.
Já com meio pé em terreno do novo ano, tempo ainda para desejar a todos os que me visitam, um 2009 com muita saúde. Não vos desejo mais nada, porque com ela todo o resto se pode alcaçar.
Um conselho: Vive a tua vida "HOJE", porque o "AMANHÃ" não passa de uma esperança fugidia. que mesmo estendendo as mãos para a agarrar nunca temos a certeza de o conseguir.
quinta-feira, dezembro 11, 2008
Paixões
Quando Deus nos concede a graça de percorrermos com saúde e lucidez uma considerável etapa da caminhada da vida, raro é o dia em que, ao acordar, não sintamos como que uma espécie de mola, um forte impulso que nos faz erguer as mãos ao céu e agradecer!
Acontece comigo e penso que acontecerá com todos aqueles que, como eu, desde muito novos, e apesar das muitas marteladas que levaram e deram nos próprios dedos, souberam sempre encarar a vida com optimismo, humildade, tolerância, esperança e muita fé.
O artista, o cientista, o poeta, o ourives da imaginação, o arquitecto do diálogo e até o modesto artesão, todos eles devem sentir, embora cada um à sua maneira, esse sentimento de gratidão, essa bênção que é, afinal, como que a comunhão do divino.
Quando, percorridos muitos quilómetros do percurso, experimentamos o sentimento do dever cumprido sem que durante a corrida nunca tenhamos tentado molestar o companheiro que seguia a nosso lado, confessamos, sem vaidade, que nos sentimos imensamente felizes e contentes. E por que não dizê-lo, orgulhosos, até!...
Nesta etapa da vida em que as paixões esfriaram, em que já não temos necessidade de nos deixarmos arrastar pelo favoritismo tendencioso das competições que se realizam à nossa volta, devemos apenas pedir forças e saúde para que possamos continuar a percorrer, até ao apito final, estes restantes quilómetros da maratona que Deus nos impôs.
Viver apaixonado pela vida, sem, contudo, nos deixarmos dominar pelas paixões do passado, pelas recordações de uma juventude que já passou, cuja assumpção nos poderá tornar ridículos aos olhos dos outros é, quanto a mim, o melhor remédio contra sentimentos de tédio e de desistência.
Bem sei que com os “atractivos”cada vez mais cativantes desta vida moderna a "Arte de Saber Envelhecer" se torna mais difícil de aprender.
E o que piora ainda mais a aprendizagem é que muita gente teima em tomar como ponto de referência esse rectângulo plastificado a que dão o nome de Bilhete de Identidade! Bem sei que é obrigatório trazê-lo connosco, mas daí a deixar que ele nos escravize...
Contava-me há dias um Amigo que na Universidade Sénior do Rotary Cube de Tondela, uma senhora com a bonita idade de 84 (oitenta e quatro) anos de idade tinha começado a frequentar as aulas de informática e que passado pouco tempo, muito contente e feliz exultava de alegria por já saber servir-se do computador!
Velho e idoso não é a mesma coisa: o idoso renova-se em cada dia que começa; o velho vai acabando noite após noite. O idoso, olha o sol que desponta, conserva ainda um clarão de esperança; o outro, o velho, contempla o dia que termina, a escuridão, o tempo que já lá vai….
Talvez o tempo passe mais depressa quando vivemos apaixonados pela vida. Mas, cá na minha, essa paixão faz com que a velhice demore mais tempo a chegar.
Acontece comigo e penso que acontecerá com todos aqueles que, como eu, desde muito novos, e apesar das muitas marteladas que levaram e deram nos próprios dedos, souberam sempre encarar a vida com optimismo, humildade, tolerância, esperança e muita fé.
O artista, o cientista, o poeta, o ourives da imaginação, o arquitecto do diálogo e até o modesto artesão, todos eles devem sentir, embora cada um à sua maneira, esse sentimento de gratidão, essa bênção que é, afinal, como que a comunhão do divino.
Quando, percorridos muitos quilómetros do percurso, experimentamos o sentimento do dever cumprido sem que durante a corrida nunca tenhamos tentado molestar o companheiro que seguia a nosso lado, confessamos, sem vaidade, que nos sentimos imensamente felizes e contentes. E por que não dizê-lo, orgulhosos, até!...
Nesta etapa da vida em que as paixões esfriaram, em que já não temos necessidade de nos deixarmos arrastar pelo favoritismo tendencioso das competições que se realizam à nossa volta, devemos apenas pedir forças e saúde para que possamos continuar a percorrer, até ao apito final, estes restantes quilómetros da maratona que Deus nos impôs.
Viver apaixonado pela vida, sem, contudo, nos deixarmos dominar pelas paixões do passado, pelas recordações de uma juventude que já passou, cuja assumpção nos poderá tornar ridículos aos olhos dos outros é, quanto a mim, o melhor remédio contra sentimentos de tédio e de desistência.
Bem sei que com os “atractivos”cada vez mais cativantes desta vida moderna a "Arte de Saber Envelhecer" se torna mais difícil de aprender.
E o que piora ainda mais a aprendizagem é que muita gente teima em tomar como ponto de referência esse rectângulo plastificado a que dão o nome de Bilhete de Identidade! Bem sei que é obrigatório trazê-lo connosco, mas daí a deixar que ele nos escravize...
Contava-me há dias um Amigo que na Universidade Sénior do Rotary Cube de Tondela, uma senhora com a bonita idade de 84 (oitenta e quatro) anos de idade tinha começado a frequentar as aulas de informática e que passado pouco tempo, muito contente e feliz exultava de alegria por já saber servir-se do computador!
Velho e idoso não é a mesma coisa: o idoso renova-se em cada dia que começa; o velho vai acabando noite após noite. O idoso, olha o sol que desponta, conserva ainda um clarão de esperança; o outro, o velho, contempla o dia que termina, a escuridão, o tempo que já lá vai….
Talvez o tempo passe mais depressa quando vivemos apaixonados pela vida. Mas, cá na minha, essa paixão faz com que a velhice demore mais tempo a chegar.
segunda-feira, dezembro 01, 2008
A Alternativa

Nunca fui um fanático da bola, nem nunca a paixão por qualquer clube me dominou ou escravizou ao ponto de perder o sono ou a tramontana. Desde tempos longínquos que tenho um “fraquito” pela “Briosa” que vem de 1939 quando a sua equipa de Futebol foi a vencedora da primeira edição da Taça de Portugal.
Era no tempo em que a maioria dos jogadores eram estudantes universitários e em que o futebol era pobre e não suscitava ainda tantos excessos e tanta polémica.
No entanto não quer isso dizer que não goste de ver um bom jogo de futebol e que não torça pela equipa lusa, mormente quando joga com outros Países.
Esclareço também que na minha tribo há várias tendências clubistas, mas o “dragão” é o que mais “ordena”, ou não fosse a minha chefe a detentora da batuta quando há “concertos!...”
E não imaginam os “mimos” com que ela presenteia o “onze”, o treinador ou até o homem do apito quando as bolas só entram na baliza dos azuis e brancos!
Vem este intróito a propósito da derrota da equipa portuguesa frente à equipa dos nossos irmãos brasileiros.
Cá na minha nem foi assim uma vergonha por aí fora. Humilhação? Qual quê? Se tivéssemos perdido frente ao Burkina Fasu, talvez…mas com os nossos irmãos brasileiros… ficou tudo em família.
Mas confesso que fiquei perplexo, não tanto com a derrota mas com a “insistência”... Seis “secos”contra dois!
Depois, como sempre acontece nessas andanças do futebol, vieram os pedidos de desculpas ao Povo português: pediu desculpas o seleccionador, os jogadores, o presidente da Federação e parece que até a estrela do onze português, o craque que sonha em ser o maior do mundo, não se mostrou à altura de merecer esse título. É tão bonita a humildade!
Mas voltando ao “desastre”, eu penso que tenho uma solução para evitar que uma nova hecatombe aconteça. Então é assim: O nosso Primeiro-Ministro à semelhança do que fez com as criancinhas das escolas oferece a toda a equipa, começando pelo Presidente da Federação e a acabando no homem que trata dos equipamentos, um Magalhães. Com o dito cujo entrega também um Kit com jogos de futebol para computador sem esquecer aquele do “Eu é que sou Burro?...”do Scolari. A seguir chama para formador o Manuel José que tem feito obra lá pelas terras dos Faraós. Seis meses depois nomeia uma comissão de avaliação presidida pelo camarada Chavez, emérito esquerdino e perito em jogadas duvidosas, e então veremos o resultado desse curso de formação profissional…
Caso este estratagema não resulte, resta-nos uma alternativa – mandar o Leixões representar Portugal.
sábado, novembro 01, 2008
Numa manhã de Outono

Desceu a temperatura, as noites começam a estar frias, os dias são mais pequenos e as noites mais longas. Chegou o Outono!
Ele vem – cumprindo o calendário de Deus que o homem ainda não conseguiu alterar completamente – ele vem, dizia eu, devolver à Terra as roupagens com que ela se vestiu no Verão…
Hoje é Domingo, a manhã está fria, mas o céu está azul. Todos os anos, nestes primeiros dias do Outono, gosto de passear pelo meu quintal e admirar todos estes mistérios da Natureza!
Como na vida, as estações do ano têm, também, cada uma, as suas belezas e os seus atractivos próprios. Como um pintor que mistura na sua paleta várias cores para fazer um belo quadro, assim o Outono pintalgou tudo isto com belos e variegados tons!...
E como agora está mais amena a temperatura, venham comigo e apreciem a beleza deste tapete colorido; vejam a beleza daquela mistura de cores das folhas das videiras, além, na parreira; apreciem este gigantesco porco-espinho que é o castanheiro, com os seus ouriços, alguns de boca aberta, rindo, mostrando os dentes – as castanhas!
Vejam aqui as romãs, coradas, macias, como a tez de um bebé recém-nascido!
Ali, à direita, a groselheira com os seus frutos vermelhos – o supermercado da passarada. Vejam aquele casal de rolas que esvoaçou mal me pressentiu, e que já vai de papinho cheio!
Lá ao fundo, o azevinho e as suas bolinhas: umas verdes, outras acastanhadas, outras cores do carmim; a nogueira, carregada de frutos, alguns com o invólucro ainda verde, outros já abertos com as nozes prestes a cair!
Aqui, a contrastar com o despontar de novos frutos das laranjeiras, o fim das rosas com a queda das pétalas que juncam o chão e fazem um tapete multicolor e viscoso. O princípio e o fim. Como na vida. Uns nascem e outros morrem!...
E este cheiro a mosto vindo da adega de algum vizinho onde o vinho ainda ferve e que ao misturar-se com esta fragrância que se exala da terra fecundada pela chuva que caiu há dias, produz em nós um sensação de tão indizível bem-estar e de tanta espiritualidade que se torna impossível descrever?!...
E a carícia deste brando vento vindo da Serra que faz estremecer as folhas das laranjeiras e desprender as gotas de água que caem na terra como lágrimas de alegria e de reconhecimento pela chuva – essa riqueza que veio do Céu!
Encham os pulmões com este ar puro e sorvam esta brisa fresca e saudável que tonifica o corpo e reconforta a alma!
É Outono, caem as folhas. Na Natureza como na Vida, há sempre Deus. Há fim, e há recomeço. Há sempre beleza. Há encanto, e há sempre um sonho que se desfaz, e uma esperança que renasce...
domingo, outubro 26, 2008
A alcateia

Fala-se muito em crise, mas poucos são aqueles que se interrogam e procuram saber quais os factores que contribuíram para que chegássemos a esta encruzilhada e ficássemos desorientados sem saber qual o caminho que devemos seguir.
A mim, simples e inculto cidadão deste País, o que mais me intriga é o facto de no meio de tantos especialistas, tantos intelectuais, tantos politólogos, tantas sumidades e tantos adivinhos não houvesse um que se apercebesse que, mais dia menos dia, isto ia acontecer!...
Era impossível que isto não desse o “estoiro”! Sem trabalho como seria possível aguentar o barco?!... Com tanta gente a viver à rica, a gastar à barba longa e a esbanjar “o nosso dinheiro”, o dinheiro dos que sempre trabalharam, que outro desfecho se poderia esperara que não este a que chegámos?
Diariamente os jornais e outros meios de comunicação trazem até nós casos flagrantes desta vida desregrada, destes gastos supérfluos que acontecem por esse Portugal fora. São cada vez menos os que trabalham e os que produzem, e cada vez mais os que estragam e comem à custa dos poucos que ainda vão trabalhando.
Infelizmente é na classe dirigente, nessa classe que deveria dar o exemplo, que surgem os maiores abusos, os maiores escândalos e a maior falta de vergonha e de honestidade.
Tenho à minha frente a notícia que nos dá conta de que três administradores da empresa da Câmara Municipal de Lisboa que gere os bairros sociais da capital gastaram só em restaurantes entre 2006 e 2007 um total de 64.413 mil euros em 621 refeições, pagando em média por cada uma 173 euros!...
Não há dúvidas de que grande parte dos que mandam tem a consciência na conta do Banco e a barriga no cérebro!...
Já em tempos éramos conhecidos por comilões e como escreveu Júlio Dantas, «somos um país de intoxicados. Não erraria muito quem fosse até ao extremo paradoxal de atribuir aos erros e às exuberâncias seculares da cozinha portuguesa todos os desastres seculares políticos que nos têm afligido. A nossa planturosa cozinha de artríticos, duma abundância monacal, com leitões e vitelas inteiras nadando em molho dentro de bandejas de prata, tem, pelo menos, graves responsabilidades nas grandes catástrofes nacionais…»
Todos os males que presentemente nos afligem têm origem em abusos. E o que me revolta e a muito mais gente é que apesar de não termos abusado, somos obrigados a pagar os abusos dos outros. E a revolta é ainda maior ao verificar que muitos dos membros dessa cambada de parasitas, saem quase sempre impunes das trafulhices que fazem. Mas como dizia meu Avô das barbas: “os lobos não se comem uns aos outros… “
Homónimos

O Outono tinha começado há dias. As folhas amarelecidas começavam já a fazer um tapete sob a parreira que dava acesso à casa. Nas videiras havia ainda alguns restos de cachos de uvas que tinham escapado à tesoura dos vindimadores.
O João, um petiz de oito anitos, mochila às costas e “Magalhães” pendurado na mão esquerda, de vez em quando parava e, em bicos de pés, lá ia depenicando os bagos dos moscatéis.
Tinha recebido o “Magalhães” naquele dia e estava ansioso por mostrar ao pai aquele brinquedo que lhe haviam oferecido na escola e que, segundo a professora, era “coisa” que tinha lá dentro tudo o que era preciso para fazer dele um verdadeiro homem…
Até o Anacleto que era pouco dotado para aprender, iria tornar-se um sábio, acrescentara a D. Matilde… Livros, borracha, calculadora, dicionários, tudo isso a máquina substituirá. Até o trabalho de pensar será aliviado. O “Magalhães” pensará por vós, acrescentara a professora.
O que é preciso é saber servir-se dele – tinha reforçado um senhor que, segundo a professora, devia ao “Magalhães” tudo o que era, e tudo o que tinha.” (O petiz não sabia que o fulano era comissionista no negócio do Tio Zé!...)
Mas, ingénuo ainda, o João, à medida que se ia aproximando de casa, mais eufórico se sentia pela surpresa que iria fazer. Sobretudo ao pai que estava desempregado e para afogar as mágoas passava os dias a beber, insultando e chamando aqueles nomes feios, que todos conhecemos, aos nossos digníssimos mandantes.
Pensava o petiz, na dele, que a “maquina,” segundo tudo o que ouvira, iria resolver todos os problemas incluindo o da falta de dinheiro lá em casa…
O pai, cigarro na mão e já bastante eufórico como geralmente acontece com os fiéis amantes do deus Baco, conversava na soleira da porta com dois amigos, também eles seguidores acérrimos dos preceitos do mesmo deus…
João, sorridente, nem se lembrou do «olá pai!» e disparou: Olha o meu “Magalhães!”…
E o pai, olhos esbugalhados: Não, eu não acredito! Não me digas que trazes nessa caixa esse safado do Magalhães que ainda me deve o dinheiro da junta de bois que lhe vendi há dois anos?!...
-Não, pai! Isto é um computador. Aquela caixa que agora dão na escola e que ensina tudo. É o Magalhães…
-Na escola disseram-te isso? Fia-te neles!... Eu também me fiei no Magalhães quando lhe vendi a os animais e até agora, nem bois nem dinheiro…
-Mas, ó pai, isto é uma máquina que nos ensina e tem, como diz a senhora professora, uma coisa que se chama tecnologia de ponta…
-Pois! Os bois também tinham pontas, mas agora não há ponta por onde eu lhes pegue. Raios partam o Magalhães…
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quinta-feira, agosto 14, 2008
Então e os velhos?...

Sempre que escrevo sobre as angústias, os medos e as incertezas ou sobre a falta de competência, de honestidade e de bom senso que caracterizam o actual momento em que vivemos, rara é a vez que não receba na volta uns “miminhos”, quer por palavras, quer por pérolas literárias, cuja transcrição a decência me impede de fazer.
Bem sei que de nada vale insurgir-me seja contra o que for, mas por mais que tente não consigo ficar indiferente perante tanta falta de justiça, tanta prepotência e, sobretudo tanto desprezo pelos mais velhos, pelos idosos.
É raro o dia em que através da Imprensa não surjam, promovidos pelas Autarquias, novos programas de lazer, culturais ou lúdicos destinados a jovens. Quanto a programas que ajudem os mais velhos a esquecer, ainda que por momentos, a sua condição de vulnerabilidades e carências, raramente se promovem… Os idosos são cada vez mais esquecidos e para além de um passeio anual ou um almoço em conjunto, pouco mais se faz para amenizar um pouco a sua solidão. Não! …
Não esqueço que os jovens são os homens de amanhã, mas seria bom que também os velhos não fossem esquecidos e lhes fosse dada, se não a mesma, pelo menos um pouco mais de atenção.
Os velhos – principalmente os anciãos – sempre foram peças essenciais da sociedade. Sempre, excepto na sociedade actual. Não vou falar das míseras pensões que auferem, porque por mais que se fale, de nada adianta.
Seria bom que os governantes em vez das visitas relâmpago que fazem para presidir a inaugurações onde por vezes se desbarata dinheiro em jantaradas e folclore, permanecessem alguns dias em Misericórdias e Lares para se inteirarem da situação dos utentes e ao mesmo tempo indagar da “ginástica financeira” que essas Instituições têm de fazer para proporcionar aos seus hóspedes um fim de vida com a dignidade e o carinho que merecem!
Em vez de um ritmo acelerado e desmedido, em vez de um crescimento anárquico, as autoridades deveriam apostar num desenvolvimento ponderado, colocando a pessoa humana sempre em primeiro plano. A economia do futuro deve ser um acto de solidariedade em todos os domínios da vida humana indo ao encontro das classes pobres e idosas, combatendo a desumanização e as injustiças existentes. Urge promover políticas solidárias e humanistas e redimensionar a prosperidade material com o fortalecimento espiritual. A cultura autárquica para ser posta ao serviço de todos os cidadãos tem de possuir uma dimensão humanista e social. Ela tem de apostar no envolvimento e na participação de todos – novos e velhos.
A verdadeira política é uma ciência que deve estar ao serviço das pessoas e do bem comum sem quaisquer excepções. Diz-me a experiência que em política não há amizades, há interesses. No entanto, tratando-se de idosos, de homens e mulheres que nos deram o ser, negar-lhes um sorriso no fim da caminhada, é negar a nossa própria condição de seres humanos.
sábado, julho 26, 2008
Dia dos Avós
Diz-nos a história antiga que um famoso esculápio de nome Cláudio Galeno que foi médico particular do imperador Marco Aurélio, teria afirmado algures num dos seus opúsculos que um País em que, pelo menos, oitenta por cento da sua população não ria a bom rir, poderia ser considerado uma necrópole de seres vivos!
Depois de ter reflectido um pouco sobre o assunto e apesar de todas as palhaçadas a que temos assistido, verifiquei que entre nós o riso está em queda livre. Dos trinta por cento que que ainda riem, grande parte é constituída por políticos, futebolistas e trafulhas…
Ora como dizem que a “crise” chegou a todos os sectores da vida nacional ao ponto de nenhum oferecer confiança, e como possuímos um autêntico alfobre de contadores de anedotas que são os políticos, sabem do que me lembrei? Isso mesmo… De contratar alguns deles e de investir no mercado do riso! Ainda isento de IVA, sem necessitar de receita médica, além de ser ainda mais barato que os “genéricos”é também a melhor arma para enfrentar o dia a dia que cada vez se torna mais difícil de gerir.
E a propósito, um amigo meu que, nas horas vagas, se dedica ao estudo das antigas formas de humorismo, lembrava-me há dias aquela antiga frase francesa: «Les portugais sont toujours gais!...»
Aqui está mais uma razão para não deixarmos cair por terra os nossos pergaminhos, a nossa fama de outrora. Aliás, não podemos também esquecer que, em cada página da nossa História antiga, é raro não aparecer um humorista!... Isto para já não falar da nossa História recente em que todas as páginas são democraticamente hilariantes!...
Posto isto, pensei na criação de mais um curso universitário, onde se ensinassem apenas as várias maneiras de fazer rir o pagode…uma espécie de terapia do riso. Com todo o pessoal a rir, muitas coisas mudariam no país, sobretudo no capítulo da saúde. Não dizem que «rir é o melhor remédio?»
Há tempos, dizia-me uma netinha, falando do seu Avô: «Meu Avô riu sempre muito. À aproximação dos cem anos, começou a rir mais, e ria por tudo e por nada. E como o riso é contagioso, todos nós ríamos com ele e divertíamo-nos muito. Num Domingo acordou ainda mais sorridente e não foi possível fazer-lhe a barba de tal maneira o seu corpo era sacudido por acessos de riso que impediam qualquer aproximação da navalha de barbear. De tanto rir as lágrimas deslizavam em catadupas pelo seu rosto enrugado. Depois, cerca do meio-dia, começou a olhar-nos de uma forma estranha rindo a bandeiras despregadas. De repente, notámos que ele não se mexia. Foi o fim!... O meu Avô conservava ainda um sorriso nos lábios, mas ia já a caminho dos anjinhos… E choraram?... – perguntei eu. - «Então acha que íamos chorar por uma homem que morreu a rir? Rimos todos, porque foi a melhor forma de homenagear na morte, quem sempre riu em vida…»
Eis um grande incentivo para a criação do tal curso de terapia do riso de que acima falei. Negócio lucrativo… Aceito sócios com capital. O riso forneço eu.
Depois de ter reflectido um pouco sobre o assunto e apesar de todas as palhaçadas a que temos assistido, verifiquei que entre nós o riso está em queda livre. Dos trinta por cento que que ainda riem, grande parte é constituída por políticos, futebolistas e trafulhas…
Ora como dizem que a “crise” chegou a todos os sectores da vida nacional ao ponto de nenhum oferecer confiança, e como possuímos um autêntico alfobre de contadores de anedotas que são os políticos, sabem do que me lembrei? Isso mesmo… De contratar alguns deles e de investir no mercado do riso! Ainda isento de IVA, sem necessitar de receita médica, além de ser ainda mais barato que os “genéricos”é também a melhor arma para enfrentar o dia a dia que cada vez se torna mais difícil de gerir.
E a propósito, um amigo meu que, nas horas vagas, se dedica ao estudo das antigas formas de humorismo, lembrava-me há dias aquela antiga frase francesa: «Les portugais sont toujours gais!...»
Aqui está mais uma razão para não deixarmos cair por terra os nossos pergaminhos, a nossa fama de outrora. Aliás, não podemos também esquecer que, em cada página da nossa História antiga, é raro não aparecer um humorista!... Isto para já não falar da nossa História recente em que todas as páginas são democraticamente hilariantes!...
Posto isto, pensei na criação de mais um curso universitário, onde se ensinassem apenas as várias maneiras de fazer rir o pagode…uma espécie de terapia do riso. Com todo o pessoal a rir, muitas coisas mudariam no país, sobretudo no capítulo da saúde. Não dizem que «rir é o melhor remédio?»
Há tempos, dizia-me uma netinha, falando do seu Avô: «Meu Avô riu sempre muito. À aproximação dos cem anos, começou a rir mais, e ria por tudo e por nada. E como o riso é contagioso, todos nós ríamos com ele e divertíamo-nos muito. Num Domingo acordou ainda mais sorridente e não foi possível fazer-lhe a barba de tal maneira o seu corpo era sacudido por acessos de riso que impediam qualquer aproximação da navalha de barbear. De tanto rir as lágrimas deslizavam em catadupas pelo seu rosto enrugado. Depois, cerca do meio-dia, começou a olhar-nos de uma forma estranha rindo a bandeiras despregadas. De repente, notámos que ele não se mexia. Foi o fim!... O meu Avô conservava ainda um sorriso nos lábios, mas ia já a caminho dos anjinhos… E choraram?... – perguntei eu. - «Então acha que íamos chorar por uma homem que morreu a rir? Rimos todos, porque foi a melhor forma de homenagear na morte, quem sempre riu em vida…»
Eis um grande incentivo para a criação do tal curso de terapia do riso de que acima falei. Negócio lucrativo… Aceito sócios com capital. O riso forneço eu.
terça-feira, julho 22, 2008
Obrigado
Permite, Senhor, que te dirija no dia em que completo mais um aniversário natalício este humilde, mas sentido agradecimento:
«Há mais de oito décadas que me concedeste o dom inestimável da vida. Desde que nasci nunca deixaste de me encher de graças e de me dar provas de amor infinito. Como acontece com toda a gente, estes anos foram anos em que muitas coisas se misturaram: alegrias, tristezas, sucessos, derrotas, pequenas faltas de saúde, desaparecimento de familiares…
Mas com a ajuda e o auxílio que me deste eu consegui transpor esses obstáculos e caminhar sempre em frente contigo ao lado.
Hoje sinto-me rico com a família que me deste e com a experiência que adquiri por sempre me teres protegido. Por isso e dentro de mim, numa religiosidade silenciosa, a minha alma canta o meu reconhecimento.
Todos os dias na minha roda de amigos encontro pessoas idosas que têm passado dolorosos momentos – homens que não podem andar, cegos, alguns estropiados que já não conseguem pedir-te qualquer coisa e outros que perderam as suas faculdades mentais. E eu olho essas gentes e pergunto-me: E se acontecesse comigo?!...
Perante isso, hoje mesmo, enquanto gozo de boa saúde e conservo todas as minhas faculdades mentais e motoras eu agradeço e ofereço-te antecipadamente toda a minha aceitação aos teus princípios e desde agora peço que se uma ou outra dessa situação me acontecer, eu a aceite resignadamente e ela possa servir e contribuir para a salvação de algumas almas.
Se um dia a doença invadir o meu cérebro e roubar a minha lucidez, desde já, Senhor, eu me ajoelho perante Vós e prometo uma humilde e silenciosa aceitação do que me reservares.
A partir de hoje peço também para protegeres todas as pessoas que, eventualmente, irão ter a ingrata missão de tratar de mim e de me ajudar em qualquer dessas enfermidades.
Perdoa-me e esquece os momentos em que blasfemei ou que não soube aceitar as provações por que me fizeste passar por não compreender os teus desígnios.
Se um estado de inconsciência prolongada tiver de me acontecer, eu quero que cada uma dessas horas que eu viver seja um seguimento ininterrupto de acção de graça, e que o meu último suspiro seja um suspiro de amor.
Faz então com que a minha alma guiada nesse momento pela mão de Maria, se apresente perante Vós para cantar e gozar das eternas graças.
Aos que ficarem dai-lhes coragem para suportar a minha ausência, pois um dia todos nos encontraremos de novo reunidos no milagre da ressurreição.
Obrigado, Senhor.»
«Há mais de oito décadas que me concedeste o dom inestimável da vida. Desde que nasci nunca deixaste de me encher de graças e de me dar provas de amor infinito. Como acontece com toda a gente, estes anos foram anos em que muitas coisas se misturaram: alegrias, tristezas, sucessos, derrotas, pequenas faltas de saúde, desaparecimento de familiares…
Mas com a ajuda e o auxílio que me deste eu consegui transpor esses obstáculos e caminhar sempre em frente contigo ao lado.
Hoje sinto-me rico com a família que me deste e com a experiência que adquiri por sempre me teres protegido. Por isso e dentro de mim, numa religiosidade silenciosa, a minha alma canta o meu reconhecimento.
Todos os dias na minha roda de amigos encontro pessoas idosas que têm passado dolorosos momentos – homens que não podem andar, cegos, alguns estropiados que já não conseguem pedir-te qualquer coisa e outros que perderam as suas faculdades mentais. E eu olho essas gentes e pergunto-me: E se acontecesse comigo?!...
Perante isso, hoje mesmo, enquanto gozo de boa saúde e conservo todas as minhas faculdades mentais e motoras eu agradeço e ofereço-te antecipadamente toda a minha aceitação aos teus princípios e desde agora peço que se uma ou outra dessa situação me acontecer, eu a aceite resignadamente e ela possa servir e contribuir para a salvação de algumas almas.
Se um dia a doença invadir o meu cérebro e roubar a minha lucidez, desde já, Senhor, eu me ajoelho perante Vós e prometo uma humilde e silenciosa aceitação do que me reservares.
A partir de hoje peço também para protegeres todas as pessoas que, eventualmente, irão ter a ingrata missão de tratar de mim e de me ajudar em qualquer dessas enfermidades.
Perdoa-me e esquece os momentos em que blasfemei ou que não soube aceitar as provações por que me fizeste passar por não compreender os teus desígnios.
Se um estado de inconsciência prolongada tiver de me acontecer, eu quero que cada uma dessas horas que eu viver seja um seguimento ininterrupto de acção de graça, e que o meu último suspiro seja um suspiro de amor.
Faz então com que a minha alma guiada nesse momento pela mão de Maria, se apresente perante Vós para cantar e gozar das eternas graças.
Aos que ficarem dai-lhes coragem para suportar a minha ausência, pois um dia todos nos encontraremos de novo reunidos no milagre da ressurreição.
Obrigado, Senhor.»
Quatre vingt deux ans!...
«À 20 ans, j'avais tout mon temps,
La vie était belle, puis j'étais content.
Rien n'était trop dur, rien n'était trop haut,
Aux défis de la vie je levais mon chapeau.
À 30 ans j'étais encore un gamin !
Ah ! C'était facile, j'avais du temps !
Puis je m'amusais, je voyageais beaucoup
Faut dire que j'ai passé des heures de fous…
Mais à 40 ans, j’ai fallu tomber !...
On m’a pris tout un passé !...
Et il a fallu courir, regarder en avant
Pour ne pas rester au dernier rang.
À 50 ans, j'étais encore capable,
Mais j'suis devenu plus raisonnable.
Mon corps ralentit, fit quelques soubresauts
Pas question de vouloir monter trop haut !
Suis-je encore bon, suis-je encore fort ?
Je fais le possible, même contre le sort…
Aux nouvelles de 22 heures parfois je m'endors,
Sans compter des moutons et ce, sans remords.
À quatre vingt deux ans je veux être élégant
Mais mes yeux sont faibles, mes gestes plus lents…
Mes cheveux sont partis lentement,
Et la même sort ont eu mes dents !...
À quatre vingt deux ans j'écoute mon cœur :
Et il est tranquille et plein de bonheur!...
À quatre vingt deux ans ce que j'ai compris,
C’est que quand on a fait tout ce chemin,
En ouvrant la fenêtre le matin,
On doit penser à Dieu… et dire MERCI !...
(Inspirado no poema de Jean Gabin « Maintenant Je Sais», com uns pontapés na métrica aqui e ali…)
20 de Julho de 2008
La vie était belle, puis j'étais content.
Rien n'était trop dur, rien n'était trop haut,
Aux défis de la vie je levais mon chapeau.
À 30 ans j'étais encore un gamin !
Ah ! C'était facile, j'avais du temps !
Puis je m'amusais, je voyageais beaucoup
Faut dire que j'ai passé des heures de fous…
Mais à 40 ans, j’ai fallu tomber !...
On m’a pris tout un passé !...
Et il a fallu courir, regarder en avant
Pour ne pas rester au dernier rang.
À 50 ans, j'étais encore capable,
Mais j'suis devenu plus raisonnable.
Mon corps ralentit, fit quelques soubresauts
Pas question de vouloir monter trop haut !
Suis-je encore bon, suis-je encore fort ?
Je fais le possible, même contre le sort…
Aux nouvelles de 22 heures parfois je m'endors,
Sans compter des moutons et ce, sans remords.
À quatre vingt deux ans je veux être élégant
Mais mes yeux sont faibles, mes gestes plus lents…
Mes cheveux sont partis lentement,
Et la même sort ont eu mes dents !...
À quatre vingt deux ans j'écoute mon cœur :
Et il est tranquille et plein de bonheur!...
À quatre vingt deux ans ce que j'ai compris,
C’est que quand on a fait tout ce chemin,
En ouvrant la fenêtre le matin,
On doit penser à Dieu… et dire MERCI !...
(Inspirado no poema de Jean Gabin « Maintenant Je Sais», com uns pontapés na métrica aqui e ali…)
20 de Julho de 2008
sábado, julho 12, 2008
Meditações
Sinto que em cada dia que passa, alguma coisa muda em mim: os anos sucedem-se, os gostos da última estação já não são os mesmos desta. E quanto a amizades, umas secam outras renovam-se, fortalecem...
Antes da morte final deste ser móvel que tem o mesmo nome que eu, quantos homens já morreram em mim?
Se porventura me leres, amigo leitor, não penses que estou somente a falar de mim. Pensa um pouco e vê se não trata também de ti!...
Antes da morte final deste ser móvel que tem o mesmo nome que eu, quantos homens já morreram em mim?
Se porventura me leres, amigo leitor, não penses que estou somente a falar de mim. Pensa um pouco e vê se não trata também de ti!...
domingo, julho 06, 2008
Metáfora

Quando sou confrontado com um problema numa das minhas máquinas e não sei resolvê-lo, para disfarçar a minha ignorância, coço a careca e com um franzir de sobrancelhas, solto a frase do costume: máquinas são máquinas!
E é justamente a propósito das ditas que hoje vou falar da minha. Da minha máquina. Da ambulante. É uma máquina antiga, não fora de moda, mas a pedir reciclagem... No tablier apenas o rádio lhe dá um tom de modernidade. Na capota são bem visíveis as falhas na pintura, embora a chapa seja resistente. No capítulo da condução o volante tem folgas, a alavanca das mudanças já não tem maçaneta, a tracção, às vezes, emperra; as ópticas são duplas e no capítulo das mudanças, a marcha-atrás não funciona. Como já tem muito uso os problemas aparecem com mais frequência. Sem anúncio. Foi o que aconteceu há dias. Devido a uma avaria no tubo de escape fiquei sem meio de locomoção e durante uma semana não pude sair dos meus domínios.
Máquinas são máquinas… Com o desgaste dos anos, de vez em quando lá me prega uma partida e obriga-me a fazer uma pausa. Pudesse eu comprar uma nova e outro galo cantaria!...
Mas, pensando melhor, talvez até nem comprasse. É que, mesmo assim, não tenho muitas queixas a fazer. Velhinha, velhinha, mas lá vai andando. Já não dá para fazer longos trajectos nem para entrar em competições, mas o que é certo é que até agora me tem levado sempre aonde quero.
Na garagem onde faço, por norma, a manutenção, o mecânico costuma dizer que máquinas destas, já não se fabricam. E ele sabe o que diz, pois tem uma registada dois anos antes da minha e apesar de alguns problemas que teve, está também bem contente com ela. E também não quer outra…
Cá p’ra mim e ao contrário do que muitos querem fazer crer não é uma questão de marca. É sorte… Há, é verdade, alguns cuidados a ter, mas nada de exagerar. No que diz respeito a velocidades e para evitar travagens bruscas ou derrapagens, é aconselhável respeitar distâncias e nada de prego a fundo. Condução regular, sem altos nem baixos. Isto é, e como dizia o outro, nem muito vinho, nem água de mais. E a propósito de líquidos é aconselhável ter cuidado com o combustível. Nada de mixórdias. Variar sim, mas evitar misturas que possam aumentar as octanas. Cuidado com os modernos aditivos que se vendem para aumentar a potência. Em máquinas muito usadas há depósitos que já não aguentam grande pressão e o aumento de volume pode provocar danos irreversíveis em todo o sistema electrónico…
Não sou mecânico. Os conselhos que acima deixo são fruto da experiência vivida durante os dias em que tive a máquina na garagem para reparação do tubo de escape…
Vaidades

Ser vaidoso não é um defeito. Ou se é, é um defeito universal, porque todos nós o somos. Uns mais do que outros, é certo, mas por mais modestos que queiramos parecer, lá bem no fundo do nosso "eu", embora cuidadosamente disfarçada, a presunção lá está a espicaçar-nos.
E se não soubermos dominá-la, ela extravasa, e a petulância, o ridículo e a futilidade fazem de nós uns bonecos animados, uns fantoches, uma simples e grotesca imitação do ser humano.
Para concluir o raciocínio podemos afirmar que a vaidade não é defeito quando sabemos delimitar o seu campo de acção e refrear o seu ímpeto. Ter vaidade naquilo que fazemos quando ela se traduz em esmero e perfeição, deixa de ser defeito para se tornar numa virtude.
Deixa de ser vaidade também a maneira como vestimos, como falamos ou como nos apresentamos perante os outros, quando essa forma de ser se coaduna com a nossa própria personalidade.
Exteriorizar o que somos interiormente, conscientes do que na realidade sabemos ou possuímos é, acima de tudo, a afirmação da nossa verdadeira identidade. Mas cautela!... É da má interpretação desse pressuposto que nascem as mais variadas situações de hipocrisia e de prepotência...
E isso porque raramente se faz uma introspecção para aquilatar das verdadeiras potencialidades da nossa vida interna. Tentar saber do que somos capazes e até onde podemos ir, é um exercício cada vez mais em desuso. Olha-se todos os dias, e logo de manhã, para o espelho – mais um cabelo branco, mais uma ruga, olhos papudos... e quantas vezes olhamos para dentro?!...
São inúmeros os exemplos de pessoas que não tendo conhecimento do que são, do que valem, nem das suas capacidades, desfilam pela "passerelle" da vida, tentando transmitir uma imagem muito forte em cores, mas pouco ou nada condizente com a realidade.
Infelizmente isso não acontece apenas nos extractos de menor cultura. E talvez porque a autopromoção está na moda, a vaidade alastrou também à classe daqueles que, supostamente, pelos seus estudos, deveriam saber fazer a destrinça entre fingimento e realidade.
E cá vamos vivendo num mundo cada vez mais cheio de velhacos, de barrigas grandes, mas também de muita gente com fome.
Entretanto, e paulatinamente, a vaidade, manifestada através de uma obsessão de se querer ir além do que somos, vai transformando a sociedade num enorme espaço de areia movediça que acabará por tudo engolir. Não será o fim do mundo. Mas será, com certeza, o fim de muita coisa boa.
Diz-se que o futuro a Deus pertence. Porém, se os homens não ajudarem na sua construção, será muito duvidoso que Ele, apesar da sua divina bondade, assuma, sozinho, essa responsabilidade!...
sexta-feira, junho 20, 2008
Mudanças

Vim ao mundo num tempo em que era necessário muito esforço, muito trabalho, persistência e força de vontade para levar a cabo trabalhos que hoje se concluem premindo apenas um simples botão ou ligando uma pequena alavanca.
Era um tempo sem tempo – um tempo em que havia tempo para se apreciar o tempo! Um tempo em que a vida desfilava natural e pacificamente, limitada que estava a horizontes reduzidos e a normas específicas que não podiam ser ultrapassadas.
Mas à medida que o tempo foi passando, as descobertas e as conquistas das ciências e das técnicas, têm-me feito assistir a transformações tão grandes e a progressos tão ousados que só na Natureza, posso ainda encontrar pontos de referência.
Ela continua indiferente e orgulhosa seguindo o seu caminho, sem alterar as leis imutáveis que lhe foram ditadas. Sem variações no seu tempo: os dias, as noites, os meses, os anos, como num desfiar de rosário puído, vão passando, compassadamente, indiferentes às velocidades vertiginosas dos homens, e às suas ousadas incursões pelos campos do desconhecido.
Esta manhã, e talvez porque a Primavera começou, olhando da minha janela, eu senti uma identificação interior com esse meu tempo sem tempo! As árvores floridas, o chilrear dos passaritos e até as gotículas de água das folhas das plantas que brilham com o Sol nascente, tudo isso é como que uma afirmação de que o homem nem tudo conseguiu mudar, ou desviar do seu rumo!
Mas, apesar de tudo isso, quão difícil se torna resistir à pressão do meio que nos cerca e não entrar neste labirinto infernal que a muitos cega e faz esquecer os próprios valores espirituais que enobrecem e nos distinguem dos animais?!...
À medida que os anos se vão amontoando, mais nítida se torna a ideia de que o progresso tecnológico só por si, além de não garantir o bem-estar da humanidade, pode até fazer perigar o seu futuro.
Tanto os homens como os Estados precisam urgentemente de um auto-domínio que, refreando as suas ambições, oriente as suas actividades pelos caminhos da razão e da justiça para que seja, não apenas apregoado, mas encontrado e construído, o verdadeiro bem-estar da Comunidade.
Tudo isso está na mão do homem.
Falta saber se há vontade e determinação para o concretizar. Mas parece que não!...
Vive-se para ganhar cada vez mais e para o gastar não só no necessário, mas sobretudo no desnecessário. E é esta ambição que impede que se viva o momento presente com tranquilidade e paz.
Hoje a causa da infelicidade de muitas pessoas reside na sua ambição desmesurada, no desejo incontido de ultrapassar o vizinho, de possuir mais e melhor, mesmo que para tal seja necessário espezinhar valores que lhes foram ensinados desde o berço.
A par disso as injustiças sociais crescem a um ritmo acelerado. Não há sentimento de partilha e a humildade é palavra que caiu em desuso. Os valores morais foram votados ao ostracismo, ninguém respeita ninguém. São mudanças cuja origem reside apenas e só no homem. Porém, o mesmo homem, apesar de todo o avanço das ciências em tecnologia não conseguiu, até hoje, mudar qualquer das leis que regem toda a Natureza. Quaisquer que sejam as nossas crenças filosóficas e religiosas que professemos as suas regras imutáveis conduzem-nos a uma profunda reflexão.
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