quarta-feira, dezembro 31, 2008

Bom ano de 2009

Distraído que andava quase me esquecia de encerrar o meu blogue para "balanço"...
Já com meio pé em terreno do novo ano, tempo ainda para desejar a todos os que me visitam, um 2009 com muita saúde. Não vos desejo mais nada, porque com ela todo o resto se pode alcaçar.
Um conselho: Vive a tua vida "HOJE", porque o "AMANHÃ" não passa de uma esperança fugidia. que mesmo estendendo as mãos para a agarrar nunca temos a certeza de o conseguir.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Paixões

Quando Deus nos concede a graça de percorrermos com saúde e lucidez uma considerável etapa da caminhada da vida, raro é o dia em que, ao acordar, não sintamos como que uma espécie de mola, um forte impulso que nos faz erguer as mãos ao céu e agradecer!
Acontece comigo e penso que acontecerá com todos aqueles que, como eu, desde muito novos, e apesar das muitas marteladas que levaram e deram nos próprios dedos, souberam sempre encarar a vida com optimismo, humildade, tolerância, esperança e muita fé.
O artista, o cientista, o poeta, o ourives da imaginação, o arquitecto do diálogo e até o modesto artesão, todos eles devem sentir, embora cada um à sua maneira, esse sentimento de gratidão, essa bênção que é, afinal, como que a comunhão do divino.
Quando, percorridos muitos quilómetros do percurso, experimentamos o sentimento do dever cumprido sem que durante a corrida nunca tenhamos tentado molestar o companheiro que seguia a nosso lado, confessamos, sem vaidade, que nos sentimos imensamente felizes e contentes. E por que não dizê-lo, orgulhosos, até!...
Nesta etapa da vida em que as paixões esfriaram, em que já não temos necessidade de nos deixarmos arrastar pelo favoritismo tendencioso das competições que se realizam à nossa volta, devemos apenas pedir forças e saúde para que possamos continuar a percorrer, até ao apito final, estes restantes quilómetros da maratona que Deus nos impôs.
Viver apaixonado pela vida, sem, contudo, nos deixarmos dominar pelas paixões do passado, pelas recordações de uma juventude que já passou, cuja assumpção nos poderá tornar ridículos aos olhos dos outros é, quanto a mim, o melhor remédio contra sentimentos de tédio e de desistência.
Bem sei que com os “atractivos”cada vez mais cativantes desta vida moderna a "Arte de Saber Envelhecer" se torna mais difícil de aprender.
E o que piora ainda mais a aprendizagem é que muita gente teima em tomar como ponto de referência esse rectângulo plastificado a que dão o nome de Bilhete de Identidade! Bem sei que é obrigatório trazê-lo connosco, mas daí a deixar que ele nos escravize...
Contava-me há dias um Amigo que na Universidade Sénior do Rotary Cube de Tondela, uma senhora com a bonita idade de 84 (oitenta e quatro) anos de idade tinha começado a frequentar as aulas de informática e que passado pouco tempo, muito contente e feliz exultava de alegria por já saber servir-se do computador!
Velho e idoso não é a mesma coisa: o idoso renova-se em cada dia que começa; o velho vai acabando noite após noite. O idoso, olha o sol que desponta, conserva ainda um clarão de esperança; o outro, o velho, contempla o dia que termina, a escuridão, o tempo que já lá vai….
Talvez o tempo passe mais depressa quando vivemos apaixonados pela vida. Mas, cá na minha, essa paixão faz com que a velhice demore mais tempo a chegar.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

A Alternativa




Nunca fui um fanático da bola, nem nunca a paixão por qualquer clube me dominou ou escravizou ao ponto de perder o sono ou a tramontana. Desde tempos longínquos que tenho um “fraquito” pela “Briosa” que vem de 1939 quando a sua equipa de Futebol foi a vencedora da primeira edição da Taça de Portugal.
Era no tempo em que a maioria dos jogadores eram estudantes universitários e em que o futebol era pobre e não suscitava ainda tantos excessos e tanta polémica.
No entanto não quer isso dizer que não goste de ver um bom jogo de futebol e que não torça pela equipa lusa, mormente quando joga com outros Países.
Esclareço também que na minha tribo há várias tendências clubistas, mas o “dragão” é o que mais “ordena”, ou não fosse a minha chefe a detentora da batuta quando há “concertos!...”
E não imaginam os “mimos” com que ela presenteia o “onze”, o treinador ou até o homem do apito quando as bolas só entram na baliza dos azuis e brancos!
Vem este intróito a propósito da derrota da equipa portuguesa frente à equipa dos nossos irmãos brasileiros.
Cá na minha nem foi assim uma vergonha por aí fora. Humilhação? Qual quê? Se tivéssemos perdido frente ao Burkina Fasu, talvez…mas com os nossos irmãos brasileiros… ficou tudo em família.
Mas confesso que fiquei perplexo, não tanto com a derrota mas com a “insistência”... Seis “secos”contra dois!
Depois, como sempre acontece nessas andanças do futebol, vieram os pedidos de desculpas ao Povo português: pediu desculpas o seleccionador, os jogadores, o presidente da Federação e parece que até a estrela do onze português, o craque que sonha em ser o maior do mundo, não se mostrou à altura de merecer esse título. É tão bonita a humildade!
Mas voltando ao “desastre”, eu penso que tenho uma solução para evitar que uma nova hecatombe aconteça. Então é assim: O nosso Primeiro-Ministro à semelhança do que fez com as criancinhas das escolas oferece a toda a equipa, começando pelo Presidente da Federação e a acabando no homem que trata dos equipamentos, um Magalhães. Com o dito cujo entrega também um Kit com jogos de futebol para computador sem esquecer aquele do “Eu é que sou Burro?...”do Scolari. A seguir chama para formador o Manuel José que tem feito obra lá pelas terras dos Faraós. Seis meses depois nomeia uma comissão de avaliação presidida pelo camarada Chavez, emérito esquerdino e perito em jogadas duvidosas, e então veremos o resultado desse curso de formação profissional…
Caso este estratagema não resulte, resta-nos uma alternativa – mandar o Leixões representar Portugal.

sábado, novembro 01, 2008

Numa manhã de Outono



Desceu a temperatura, as noites começam a estar frias, os dias são mais pequenos e as noites mais longas. Chegou o Outono!
Ele vem – cumprindo o calendário de Deus que o homem ainda não conseguiu alterar completamente – ele vem, dizia eu, devolver à Terra as roupagens com que ela se vestiu no Verão…
Hoje é Domingo, a manhã está fria, mas o céu está azul. Todos os anos, nestes primeiros dias do Outono, gosto de passear pelo meu quintal e admirar todos estes mistérios da Natureza!
Como na vida, as estações do ano têm, também, cada uma, as suas belezas e os seus atractivos próprios. Como um pintor que mistura na sua paleta várias cores para fazer um belo quadro, assim o Outono pintalgou tudo isto com belos e variegados tons!...
E como agora está mais amena a temperatura, venham comigo e apreciem a beleza deste tapete colorido; vejam a beleza daquela mistura de cores das folhas das videiras, além, na parreira; apreciem este gigantesco porco-espinho que é o castanheiro, com os seus ouriços, alguns de boca aberta, rindo, mostrando os dentes – as castanhas!
Vejam aqui as romãs, coradas, macias, como a tez de um bebé recém-nascido!
Ali, à direita, a groselheira com os seus frutos vermelhos – o supermercado da passarada. Vejam aquele casal de rolas que esvoaçou mal me pressentiu, e que já vai de papinho cheio!
Lá ao fundo, o azevinho e as suas bolinhas: umas verdes, outras acastanhadas, outras cores do carmim; a nogueira, carregada de frutos, alguns com o invólucro ainda verde, outros já abertos com as nozes prestes a cair!
Aqui, a contrastar com o despontar de novos frutos das laranjeiras, o fim das rosas com a queda das pétalas que juncam o chão e fazem um tapete multicolor e viscoso. O princípio e o fim. Como na vida. Uns nascem e outros morrem!...
E este cheiro a mosto vindo da adega de algum vizinho onde o vinho ainda ferve e que ao misturar-se com esta fragrância que se exala da terra fecundada pela chuva que caiu há dias, produz em nós um sensação de tão indizível bem-estar e de tanta espiritualidade que se torna impossível descrever?!...
E a carícia deste brando vento vindo da Serra que faz estremecer as folhas das laranjeiras e desprender as gotas de água que caem na terra como lágrimas de alegria e de reconhecimento pela chuva – essa riqueza que veio do Céu!
Encham os pulmões com este ar puro e sorvam esta brisa fresca e saudável que tonifica o corpo e reconforta a alma!
É Outono, caem as folhas. Na Natureza como na Vida, há sempre Deus. Há fim, e há recomeço. Há sempre beleza. Há encanto, e há sempre um sonho que se desfaz, e uma esperança que renasce...

domingo, outubro 26, 2008

A alcateia




Fala-se muito em crise, mas poucos são aqueles que se interrogam e procuram saber quais os factores que contribuíram para que chegássemos a esta encruzilhada e ficássemos desorientados sem saber qual o caminho que devemos seguir.
A mim, simples e inculto cidadão deste País, o que mais me intriga é o facto de no meio de tantos especialistas, tantos intelectuais, tantos politólogos, tantas sumidades e tantos adivinhos não houvesse um que se apercebesse que, mais dia menos dia, isto ia acontecer!...
Era impossível que isto não desse o “estoiro”! Sem trabalho como seria possível aguentar o barco?!... Com tanta gente a viver à rica, a gastar à barba longa e a esbanjar “o nosso dinheiro”, o dinheiro dos que sempre trabalharam, que outro desfecho se poderia esperara que não este a que chegámos?
Diariamente os jornais e outros meios de comunicação trazem até nós casos flagrantes desta vida desregrada, destes gastos supérfluos que acontecem por esse Portugal fora. São cada vez menos os que trabalham e os que produzem, e cada vez mais os que estragam e comem à custa dos poucos que ainda vão trabalhando.
Infelizmente é na classe dirigente, nessa classe que deveria dar o exemplo, que surgem os maiores abusos, os maiores escândalos e a maior falta de vergonha e de honestidade.
Tenho à minha frente a notícia que nos dá conta de que três administradores da empresa da Câmara Municipal de Lisboa que gere os bairros sociais da capital gastaram só em restaurantes entre 2006 e 2007 um total de 64.413 mil euros em 621 refeições, pagando em média por cada uma 173 euros!...
Não há dúvidas de que grande parte dos que mandam tem a consciência na conta do Banco e a barriga no cérebro!...
Já em tempos éramos conhecidos por comilões e como escreveu Júlio Dantas, «somos um país de intoxicados. Não erraria muito quem fosse até ao extremo paradoxal de atribuir aos erros e às exuberâncias seculares da cozinha portuguesa todos os desastres seculares políticos que nos têm afligido. A nossa planturosa cozinha de artríticos, duma abundância monacal, com leitões e vitelas inteiras nadando em molho dentro de bandejas de prata, tem, pelo menos, graves responsabilidades nas grandes catástrofes nacionais…»
Todos os males que presentemente nos afligem têm origem em abusos. E o que me revolta e a muito mais gente é que apesar de não termos abusado, somos obrigados a pagar os abusos dos outros. E a revolta é ainda maior ao verificar que muitos dos membros dessa cambada de parasitas, saem quase sempre impunes das trafulhices que fazem. Mas como dizia meu Avô das barbas: “os lobos não se comem uns aos outros… “

Homónimos



O Outono tinha começado há dias. As folhas amarelecidas começavam já a fazer um tapete sob a parreira que dava acesso à casa. Nas videiras havia ainda alguns restos de cachos de uvas que tinham escapado à tesoura dos vindimadores.
O João, um petiz de oito anitos, mochila às costas e “Magalhães” pendurado na mão esquerda, de vez em quando parava e, em bicos de pés, lá ia depenicando os bagos dos moscatéis.
Tinha recebido o “Magalhães” naquele dia e estava ansioso por mostrar ao pai aquele brinquedo que lhe haviam oferecido na escola e que, segundo a professora, era “coisa” que tinha lá dentro tudo o que era preciso para fazer dele um verdadeiro homem…
Até o Anacleto que era pouco dotado para aprender, iria tornar-se um sábio, acrescentara a D. Matilde… Livros, borracha, calculadora, dicionários, tudo isso a máquina substituirá. Até o trabalho de pensar será aliviado. O “Magalhães” pensará por vós, acrescentara a professora.
O que é preciso é saber servir-se dele – tinha reforçado um senhor que, segundo a professora, devia ao “Magalhães” tudo o que era, e tudo o que tinha.” (O petiz não sabia que o fulano era comissionista no negócio do Tio Zé!...)
Mas, ingénuo ainda, o João, à medida que se ia aproximando de casa, mais eufórico se sentia pela surpresa que iria fazer. Sobretudo ao pai que estava desempregado e para afogar as mágoas passava os dias a beber, insultando e chamando aqueles nomes feios, que todos conhecemos, aos nossos digníssimos mandantes.
Pensava o petiz, na dele, que a “maquina,” segundo tudo o que ouvira, iria resolver todos os problemas incluindo o da falta de dinheiro lá em casa…
O pai, cigarro na mão e já bastante eufórico como geralmente acontece com os fiéis amantes do deus Baco, conversava na soleira da porta com dois amigos, também eles seguidores acérrimos dos preceitos do mesmo deus…
João, sorridente, nem se lembrou do «olá pai!» e disparou: Olha o meu “Magalhães!”…
E o pai, olhos esbugalhados: Não, eu não acredito! Não me digas que trazes nessa caixa esse safado do Magalhães que ainda me deve o dinheiro da junta de bois que lhe vendi há dois anos?!...
-Não, pai! Isto é um computador. Aquela caixa que agora dão na escola e que ensina tudo. É o Magalhães…
-Na escola disseram-te isso? Fia-te neles!... Eu também me fiei no Magalhães quando lhe vendi a os animais e até agora, nem bois nem dinheiro…
-Mas, ó pai, isto é uma máquina que nos ensina e tem, como diz a senhora professora, uma coisa que se chama tecnologia de ponta…
-Pois! Os bois também tinham pontas, mas agora não há ponta por onde eu lhes pegue. Raios partam o Magalhães…





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quinta-feira, agosto 14, 2008

Então e os velhos?...



Sempre que escrevo sobre as angústias, os medos e as incertezas ou sobre a falta de competência, de honestidade e de bom senso que caracterizam o actual momento em que vivemos, rara é a vez que não receba na volta uns “miminhos”, quer por palavras, quer por pérolas literárias, cuja transcrição a decência me impede de fazer.
Bem sei que de nada vale insurgir-me seja contra o que for, mas por mais que tente não consigo ficar indiferente perante tanta falta de justiça, tanta prepotência e, sobretudo tanto desprezo pelos mais velhos, pelos idosos.
É raro o dia em que através da Imprensa não surjam, promovidos pelas Autarquias, novos programas de lazer, culturais ou lúdicos destinados a jovens. Quanto a programas que ajudem os mais velhos a esquecer, ainda que por momentos, a sua condição de vulnerabilidades e carências, raramente se promovem… Os idosos são cada vez mais esquecidos e para além de um passeio anual ou um almoço em conjunto, pouco mais se faz para amenizar um pouco a sua solidão. Não! …
Não esqueço que os jovens são os homens de amanhã, mas seria bom que também os velhos não fossem esquecidos e lhes fosse dada, se não a mesma, pelo menos um pouco mais de atenção.
Os velhos – principalmente os anciãos – sempre foram peças essenciais da sociedade. Sempre, excepto na sociedade actual. Não vou falar das míseras pensões que auferem, porque por mais que se fale, de nada adianta.
Seria bom que os governantes em vez das visitas relâmpago que fazem para presidir a inaugurações onde por vezes se desbarata dinheiro em jantaradas e folclore, permanecessem alguns dias em Misericórdias e Lares para se inteirarem da situação dos utentes e ao mesmo tempo indagar da “ginástica financeira” que essas Instituições têm de fazer para proporcionar aos seus hóspedes um fim de vida com a dignidade e o carinho que merecem!
Em vez de um ritmo acelerado e desmedido, em vez de um crescimento anárquico, as autoridades deveriam apostar num desenvolvimento ponderado, colocando a pessoa humana sempre em primeiro plano. A economia do futuro deve ser um acto de solidariedade em todos os domínios da vida humana indo ao encontro das classes pobres e idosas, combatendo a desumanização e as injustiças existentes. Urge promover políticas solidárias e humanistas e redimensionar a prosperidade material com o fortalecimento espiritual. A cultura autárquica para ser posta ao serviço de todos os cidadãos tem de possuir uma dimensão humanista e social. Ela tem de apostar no envolvimento e na participação de todos – novos e velhos.
A verdadeira política é uma ciência que deve estar ao serviço das pessoas e do bem comum sem quaisquer excepções. Diz-me a experiência que em política não há amizades, há interesses. No entanto, tratando-se de idosos, de homens e mulheres que nos deram o ser, negar-lhes um sorriso no fim da caminhada, é negar a nossa própria condição de seres humanos.

sábado, julho 26, 2008

Dia dos Avós

Diz-nos a história antiga que um famoso esculápio de nome Cláudio Galeno que foi médico particular do imperador Marco Aurélio, teria afirmado algures num dos seus opúsculos que um País em que, pelo menos, oitenta por cento da sua população não ria a bom rir, poderia ser considerado uma necrópole de seres vivos!
Depois de ter reflectido um pouco sobre o assunto e apesar de todas as palhaçadas a que temos assistido, verifiquei que entre nós o riso está em queda livre. Dos trinta por cento que que ainda riem, grande parte é constituída por políticos, futebolistas e trafulhas…
Ora como dizem que a “crise” chegou a todos os sectores da vida nacional ao ponto de nenhum oferecer confiança, e como possuímos um autêntico alfobre de contadores de anedotas que são os políticos, sabem do que me lembrei? Isso mesmo… De contratar alguns deles e de investir no mercado do riso! Ainda isento de IVA, sem necessitar de receita médica, além de ser ainda mais barato que os “genéricos”é também a melhor arma para enfrentar o dia a dia que cada vez se torna mais difícil de gerir.
E a propósito, um amigo meu que, nas horas vagas, se dedica ao estudo das antigas formas de humorismo, lembrava-me há dias aquela antiga frase francesa: «Les portugais sont toujours gais!...»
Aqui está mais uma razão para não deixarmos cair por terra os nossos pergaminhos, a nossa fama de outrora. Aliás, não podemos também esquecer que, em cada página da nossa História antiga, é raro não aparecer um humorista!... Isto para já não falar da nossa História recente em que todas as páginas são democraticamente hilariantes!...
Posto isto, pensei na criação de mais um curso universitário, onde se ensinassem apenas as várias maneiras de fazer rir o pagode…uma espécie de terapia do riso. Com todo o pessoal a rir, muitas coisas mudariam no país, sobretudo no capítulo da saúde. Não dizem que «rir é o melhor remédio?»
Há tempos, dizia-me uma netinha, falando do seu Avô: «Meu Avô riu sempre muito. À aproximação dos cem anos, começou a rir mais, e ria por tudo e por nada. E como o riso é contagioso, todos nós ríamos com ele e divertíamo-nos muito. Num Domingo acordou ainda mais sorridente e não foi possível fazer-lhe a barba de tal maneira o seu corpo era sacudido por acessos de riso que impediam qualquer aproximação da navalha de barbear. De tanto rir as lágrimas deslizavam em catadupas pelo seu rosto enrugado. Depois, cerca do meio-dia, começou a olhar-nos de uma forma estranha rindo a bandeiras despregadas. De repente, notámos que ele não se mexia. Foi o fim!... O meu Avô conservava ainda um sorriso nos lábios, mas ia já a caminho dos anjinhos… E choraram?... – perguntei eu. - «Então acha que íamos chorar por uma homem que morreu a rir? Rimos todos, porque foi a melhor forma de homenagear na morte, quem sempre riu em vida…»
Eis um grande incentivo para a criação do tal curso de terapia do riso de que acima falei. Negócio lucrativo… Aceito sócios com capital. O riso forneço eu.

terça-feira, julho 22, 2008

Obrigado

Permite, Senhor, que te dirija no dia em que completo mais um aniversário natalício este humilde, mas sentido agradecimento:
«Há mais de oito décadas que me concedeste o dom inestimável da vida. Desde que nasci nunca deixaste de me encher de graças e de me dar provas de amor infinito. Como acontece com toda a gente, estes anos foram anos em que muitas coisas se misturaram: alegrias, tristezas, sucessos, derrotas, pequenas faltas de saúde, desaparecimento de familiares…
Mas com a ajuda e o auxílio que me deste eu consegui transpor esses obstáculos e caminhar sempre em frente contigo ao lado.
Hoje sinto-me rico com a família que me deste e com a experiência que adquiri por sempre me teres protegido. Por isso e dentro de mim, numa religiosidade silenciosa, a minha alma canta o meu reconhecimento.
Todos os dias na minha roda de amigos encontro pessoas idosas que têm passado dolorosos momentos – homens que não podem andar, cegos, alguns estropiados que já não conseguem pedir-te qualquer coisa e outros que perderam as suas faculdades mentais. E eu olho essas gentes e pergunto-me: E se acontecesse comigo?!...
Perante isso, hoje mesmo, enquanto gozo de boa saúde e conservo todas as minhas faculdades mentais e motoras eu agradeço e ofereço-te antecipadamente toda a minha aceitação aos teus princípios e desde agora peço que se uma ou outra dessa situação me acontecer, eu a aceite resignadamente e ela possa servir e contribuir para a salvação de algumas almas.
Se um dia a doença invadir o meu cérebro e roubar a minha lucidez, desde já, Senhor, eu me ajoelho perante Vós e prometo uma humilde e silenciosa aceitação do que me reservares.
A partir de hoje peço também para protegeres todas as pessoas que, eventualmente, irão ter a ingrata missão de tratar de mim e de me ajudar em qualquer dessas enfermidades.
Perdoa-me e esquece os momentos em que blasfemei ou que não soube aceitar as provações por que me fizeste passar por não compreender os teus desígnios.
Se um estado de inconsciência prolongada tiver de me acontecer, eu quero que cada uma dessas horas que eu viver seja um seguimento ininterrupto de acção de graça, e que o meu último suspiro seja um suspiro de amor.
Faz então com que a minha alma guiada nesse momento pela mão de Maria, se apresente perante Vós para cantar e gozar das eternas graças.
Aos que ficarem dai-lhes coragem para suportar a minha ausência, pois um dia todos nos encontraremos de novo reunidos no milagre da ressurreição.
Obrigado, Senhor.»

Quatre vingt deux ans!...

«À 20 ans, j'avais tout mon temps,
La vie était belle, puis j'étais content.
Rien n'était trop dur, rien n'était trop haut,
Aux défis de la vie je levais mon chapeau.

À 30 ans j'étais encore un gamin !
Ah ! C'était facile, j'avais du temps !
Puis je m'amusais, je voyageais beaucoup
Faut dire que j'ai passé des heures de fous…

Mais à 40 ans, j’ai fallu tomber !...
On m’a pris tout un passé !...
Et il a fallu courir, regarder en avant
Pour ne pas rester au dernier rang.

À 50 ans, j'étais encore capable,
Mais j'suis devenu plus raisonnable.
Mon corps ralentit, fit quelques soubresauts
Pas question de vouloir monter trop haut !

Suis-je encore bon, suis-je encore fort ?
Je fais le possible, même contre le sort…
Aux nouvelles de 22 heures parfois je m'endors,
Sans compter des moutons et ce, sans remords.

À quatre vingt deux ans je veux être élégant
Mais mes yeux sont faibles, mes gestes plus lents…
Mes cheveux sont partis lentement,
Et la même sort ont eu mes dents !...

À quatre vingt deux ans j'écoute mon cœur :
Et il est tranquille et plein de bonheur!...
À quatre vingt deux ans ce que j'ai compris,
C’est que quand on a fait tout ce chemin,
En ouvrant la fenêtre le matin,
On doit penser à Dieu… et dire MERCI !...

(Inspirado no poema de Jean Gabin « Maintenant Je Sais», com uns pontapés na métrica aqui e ali…)
20 de Julho de 2008

sábado, julho 12, 2008

Meditações

Sinto que em cada dia que passa, alguma coisa muda em mim: os anos sucedem-se, os gostos da última estação já não são os mesmos desta. E quanto a amizades, umas secam outras renovam-se, fortalecem...
Antes da morte final deste ser móvel que tem o mesmo nome que eu, quantos homens já morreram em mim?
Se porventura me leres, amigo leitor, não penses que estou somente a falar de mim. Pensa um pouco e vê se não trata também de ti!...

domingo, julho 06, 2008

Metáfora




Quando sou confrontado com um problema numa das minhas máquinas e não sei resolvê-lo, para disfarçar a minha ignorância, coço a careca e com um franzir de sobrancelhas, solto a frase do costume: máquinas são máquinas!
E é justamente a propósito das ditas que hoje vou falar da minha. Da minha máquina. Da ambulante. É uma máquina antiga, não fora de moda, mas a pedir reciclagem... No tablier apenas o rádio lhe dá um tom de modernidade. Na capota são bem visíveis as falhas na pintura, embora a chapa seja resistente. No capítulo da condução o volante tem folgas, a alavanca das mudanças já não tem maçaneta, a tracção, às vezes, emperra; as ópticas são duplas e no capítulo das mudanças, a marcha-atrás não funciona. Como já tem muito uso os problemas aparecem com mais frequência. Sem anúncio. Foi o que aconteceu há dias. Devido a uma avaria no tubo de escape fiquei sem meio de locomoção e durante uma semana não pude sair dos meus domínios.
Máquinas são máquinas… Com o desgaste dos anos, de vez em quando lá me prega uma partida e obriga-me a fazer uma pausa. Pudesse eu comprar uma nova e outro galo cantaria!...
Mas, pensando melhor, talvez até nem comprasse. É que, mesmo assim, não tenho muitas queixas a fazer. Velhinha, velhinha, mas lá vai andando. Já não dá para fazer longos trajectos nem para entrar em competições, mas o que é certo é que até agora me tem levado sempre aonde quero.
Na garagem onde faço, por norma, a manutenção, o mecânico costuma dizer que máquinas destas, já não se fabricam. E ele sabe o que diz, pois tem uma registada dois anos antes da minha e apesar de alguns problemas que teve, está também bem contente com ela. E também não quer outra…
Cá p’ra mim e ao contrário do que muitos querem fazer crer não é uma questão de marca. É sorte… Há, é verdade, alguns cuidados a ter, mas nada de exagerar. No que diz respeito a velocidades e para evitar travagens bruscas ou derrapagens, é aconselhável respeitar distâncias e nada de prego a fundo. Condução regular, sem altos nem baixos. Isto é, e como dizia o outro, nem muito vinho, nem água de mais. E a propósito de líquidos é aconselhável ter cuidado com o combustível. Nada de mixórdias. Variar sim, mas evitar misturas que possam aumentar as octanas. Cuidado com os modernos aditivos que se vendem para aumentar a potência. Em máquinas muito usadas há depósitos que já não aguentam grande pressão e o aumento de volume pode provocar danos irreversíveis em todo o sistema electrónico…
Não sou mecânico. Os conselhos que acima deixo são fruto da experiência vivida durante os dias em que tive a máquina na garagem para reparação do tubo de escape…

Vaidades




Ser vaidoso não é um defeito. Ou se é, é um defeito universal, porque todos nós o somos. Uns mais do que outros, é certo, mas por mais modestos que queiramos parecer, lá bem no fundo do nosso "eu", embora cuidadosamente disfarçada, a presunção lá está a espicaçar-nos.
E se não soubermos dominá-la, ela extravasa, e a petulância, o ridículo e a futilidade fazem de nós uns bonecos animados, uns fantoches, uma simples e grotesca imitação do ser humano.
Para concluir o raciocínio podemos afirmar que a vaidade não é defeito quando sabemos delimitar o seu campo de acção e refrear o seu ímpeto. Ter vaidade naquilo que fazemos quando ela se traduz em esmero e perfeição, deixa de ser defeito para se tornar numa virtude.
Deixa de ser vaidade também a maneira como vestimos, como falamos ou como nos apresentamos perante os outros, quando essa forma de ser se coaduna com a nossa própria personalidade.
Exteriorizar o que somos interiormente, conscientes do que na realidade sabemos ou possuímos é, acima de tudo, a afirmação da nossa verdadeira identidade. Mas cautela!... É da má interpretação desse pressuposto que nascem as mais variadas situações de hipocrisia e de prepotência...
E isso porque raramente se faz uma introspecção para aquilatar das verdadeiras potencialidades da nossa vida interna. Tentar saber do que somos capazes e até onde podemos ir, é um exercício cada vez mais em desuso. Olha-se todos os dias, e logo de manhã, para o espelho – mais um cabelo branco, mais uma ruga, olhos papudos... e quantas vezes olhamos para dentro?!...
São inúmeros os exemplos de pessoas que não tendo conhecimento do que são, do que valem, nem das suas capacidades, desfilam pela "passerelle" da vida, tentando transmitir uma imagem muito forte em cores, mas pouco ou nada condizente com a realidade.
Infelizmente isso não acontece apenas nos extractos de menor cultura. E talvez porque a autopromoção está na moda, a vaidade alastrou também à classe daqueles que, supostamente, pelos seus estudos, deveriam saber fazer a destrinça entre fingimento e realidade.
E cá vamos vivendo num mundo cada vez mais cheio de velhacos, de barrigas grandes, mas também de muita gente com fome.
Entretanto, e paulatinamente, a vaidade, manifestada através de uma obsessão de se querer ir além do que somos, vai transformando a sociedade num enorme espaço de areia movediça que acabará por tudo engolir. Não será o fim do mundo. Mas será, com certeza, o fim de muita coisa boa.
Diz-se que o futuro a Deus pertence. Porém, se os homens não ajudarem na sua construção, será muito duvidoso que Ele, apesar da sua divina bondade, assuma, sozinho, essa responsabilidade!...

sexta-feira, junho 20, 2008

Mudanças



Vim ao mundo num tempo em que era necessário muito esforço, muito trabalho, persistência e força de vontade para levar a cabo trabalhos que hoje se concluem premindo apenas um simples botão ou ligando uma pequena alavanca.
Era um tempo sem tempo – um tempo em que havia tempo para se apreciar o tempo! Um tempo em que a vida desfilava natural e pacificamente, limitada que estava a horizontes reduzidos e a normas específicas que não podiam ser ultrapassadas.
Mas à medida que o tempo foi passando, as descobertas e as conquistas das ciências e das técnicas, têm-me feito assistir a transformações tão grandes e a progressos tão ousados que só na Natureza, posso ainda encontrar pontos de referência.
Ela continua indiferente e orgulhosa seguindo o seu caminho, sem alterar as leis imutáveis que lhe foram ditadas. Sem variações no seu tempo: os dias, as noites, os meses, os anos, como num desfiar de rosário puído, vão passando, compassadamente, indiferentes às velocidades vertiginosas dos homens, e às suas ousadas incursões pelos campos do desconhecido.
Esta manhã, e talvez porque a Primavera começou, olhando da minha janela, eu senti uma identificação interior com esse meu tempo sem tempo! As árvores floridas, o chilrear dos passaritos e até as gotículas de água das folhas das plantas que brilham com o Sol nascente, tudo isso é como que uma afirmação de que o homem nem tudo conseguiu mudar, ou desviar do seu rumo!
Mas, apesar de tudo isso, quão difícil se torna resistir à pressão do meio que nos cerca e não entrar neste labirinto infernal que a muitos cega e faz esquecer os próprios valores espirituais que enobrecem e nos distinguem dos animais?!...
À medida que os anos se vão amontoando, mais nítida se torna a ideia de que o progresso tecnológico só por si, além de não garantir o bem-estar da humanidade, pode até fazer perigar o seu futuro.
Tanto os homens como os Estados precisam urgentemente de um auto-domínio que, refreando as suas ambições, oriente as suas actividades pelos caminhos da razão e da justiça para que seja, não apenas apregoado, mas encontrado e construído, o verdadeiro bem-estar da Comunidade.
Tudo isso está na mão do homem.
Falta saber se há vontade e determinação para o concretizar. Mas parece que não!...
Vive-se para ganhar cada vez mais e para o gastar não só no necessário, mas sobretudo no desnecessário. E é esta ambição que impede que se viva o momento presente com tranquilidade e paz.
Hoje a causa da infelicidade de muitas pessoas reside na sua ambição desmesurada, no desejo incontido de ultrapassar o vizinho, de possuir mais e melhor, mesmo que para tal seja necessário espezinhar valores que lhes foram ensinados desde o berço.
A par disso as injustiças sociais crescem a um ritmo acelerado. Não há sentimento de partilha e a humildade é palavra que caiu em desuso. Os valores morais foram votados ao ostracismo, ninguém respeita ninguém. São mudanças cuja origem reside apenas e só no homem. Porém, o mesmo homem, apesar de todo o avanço das ciências em tecnologia não conseguiu, até hoje, mudar qualquer das leis que regem toda a Natureza. Quaisquer que sejam as nossas crenças filosóficas e religiosas que professemos as suas regras imutáveis conduzem-nos a uma profunda reflexão.

quarta-feira, junho 04, 2008

Pontapés




Um estudo recente feito pelo Centro Europeu de Pesquisa de Assuntos Sociais sobre “As paixões do futebol” concluiu que, na Europa, os portugueses são mais viciados no sexo do que na bola e que quatro em cada cinco indígenas preferem o sexo a um bom jogo de futebol!...
Nunca acreditei muito nos resultados dessas consultas de opinião e, então neste caso, são muitas as minhas reservas e dúvidas quanto às conclusões do referido estudo.
A euforia que se viveu aquando do Euro 2004 e a que agora se está a viver com a próxima disputa do Europeu 2008, bem condimentada com a moda do “casa – descasa”, reforça ainda mais a minha certeza de que os portugueses, tanto no sexo como na bola são os maiores!
Só quem não lê revistas cor-de-rosa , não vê, em cada esquina, o entusiasmo dos namorados ou não assiste a certos programas de alguns dos nossos canais televisivos é que pode duvidar da minha afirmação…
Mas falando agora apenas de bola, não há dúvidas de que não há melhor narcótico para adormecer o Zé do que o futebol. Há dias, na cidade aonde trabalho e no dia em que a Selecção veio fazer apenas um treino, tudo parou, todos saíram à rua para ver passar a camioneta dos craques. Os sortudos que conseguiram um bilhete para assistir ao treino, mostravam-no como se tivessem na mão a chave da entrada para o Paraíso!
Mas vem de longe este fenómeno. Se fizermos uma digressão através dos tempos, encontramos em todas as épocas exemplos das reacções dessas multidões desportivas. Desde a antiguidade, passando pela Idade-Média até aos nossos dias, o fenómeno repete-se embora com roupagens diferentes. O comportamento psicológico dos adeptos pouco tem variado e a síntese do especialista brasileiro Inezil Marinho é bem elucidativa: «O torcedor é em geral um indivíduo habitualmente morigerado, que trabalha durante toda a semana, cumpre fielmente as suas obrigações, obedece às ordens dos seus superiores e é incapaz de ofender ou agredir alguém (…) Mas quando na multidão, como um dos integrantes da claque, sofre transformação radical. É capaz de dirigir os maiores insultos ao árbitro ou aos jogadores da equipa adversária, atirar-lhes garrafas ou pedras e é até capaz de agredi-los (…) Não raciocina com lucidez e é vítima de grande número de erros de percepção pela paixão que o domina, pelo partidarismo que o impede de analisar os factos como são…»
Com esta citação não quero, evidentemente, “vestir” toda aquela gente que ontem vi quase em êxtase, boca aberta e olhos esbugalhados, seguindo embevecidos os chutos dos seus deuses.
Devo dizer, no entanto, que me alegra o facto de ver que há cada vez mais adeptos do pontapé!
Pena é que eles (os pontapés) se fiquem apenas pela bola…

domingo, junho 01, 2008

Domingo


Hoje é domingo, é o dia do Criador, o dia em que parece querermos fugir do tempo: repousar, deixar de pensar nas obrigações que nos apoquentam ao longo da semana. Viver o domingo em paz, sem pressas, interiorizando o seu verdadeiro sentido é uma virtude, vivê-lo com humildade, olhar mais para nós e para os outros, praticar a solidariedade e tomar um banho espiritual. Domingo é o dia do Senhor! Mas…Escravo de hábitos antigos, de África, onde tudo ficava longe, mas ao mesmo tempo “perto”, habituei-me a participar na missa de sábado, na missa vespertina, porque me permite uma melhor interiorização dos mistérios de Deus, não só porque não há aquela ostentação de Domingo, mas também porque me parece mais humilde e propícia a um recolhimento mais verdadeiro.
No entanto, aqui estou, hoje, Domingo, e permitam que partilhe convosco uma oração de S. Francisco de Assis que traduzi para vós:

«Senhor, faz de mim um instrumento de paz:

E onde estiver o ódio, ajuda-me a pôr o amor
Onde estiver a ofensa, ajuda-me a pôr perdão
Onde estiver a discórdia, ajuda-me a pôr a união
Onde estiver o erro, ajuda-me a pôr a verdade
Onde estiver a dúvida, ajuda-me a pôr a fé
Onde estiver o desespero, ajuda-me a pôr a esperança
Onde estiver a escuridão, ajuda-me a pôr a luz
E onde estiver a tristeza, ajuda-me a pôr a alegria.»

Bom domingo para todos!

sexta-feira, maio 30, 2008

Falando de mulheres




Para variar um pouco de tema, vou hoje contar-vos uma história. Antes, porém, queria pedir-lhe, minha senhora, que não veja nela qualquer afronta, qualquer insinuação, pois tenho pelas mulheres a maior admiração e respeito. Sou até daqueles que digo e penso que, tudo ou quase tudo o que fazemos, só tem graça e faz sentido por causa delas. Elas são a coisa melhor do mundo... embora alguns teimem em excluir a deles!
Mas vamos lá à história:
Rezam velhos manuscritos que São Miguel e o Diabo, num fim-de-semana prolongado quando conversavam acerca de um novo tratado de antropologia que tinha chegado clandestinamente à biblioteca celestial, ao abordarem o capítulo referente às diferenças entre o homem e a mulher, envolveram-se numa discussão. Enquanto o Diabo dizia que todas as mulheres eram linguareiras e diziam mal de tudo e de todos, São Miguel, pelo contrário, afirmava que devia, pelo menos, haver uma que não tivesse tais defeitos. Palavra puxa palavra e S. Miguel para fundamentar a sua afirmação, resolveu alugar uma nuvem e descer à Terra em busca de uma prova real.
Depois de calcorrear montes e vales, cidades e aldeias, o Santo cansou-se de tanto andar. E tão fatigado se sentiu que resolveu deitar-se à sombra de uma frondosa moita de madressilvas.
Sucedeu, porém, que do outro lado, estavam umas mulheres que, mal o lobrigaram por entre os ramos dos arbustos, começaram logo a sua sessão de maledicência:
Era com certeza um bêbado, porque tinha a cara muito vermelha. E devia ser um ladrão. A roupa que vestia de certeza que a que tinha roubado na Igreja, pois era exactamente a mesma do S. Miguel do altar da capela das Almas...Homem perigoso e de maus instintos...
Entre as mulheres que assim falavam, havia uma velhinha que não disse mal dele e que o fitava, sorrindo, com muito carinho no olhar. E o Santo viu-a. E retribuiu o sorriso. E a candura do seu olhar.
E depois, naquela noite, quando a velhinha dormia na sua cama, o Santo levantou-a com cautela, embrulhou-a num lençol, cobriu-lhe as madeixas brancas com as suas asas de Arcanjo e abalou com ela nos braços.
Ao chegar às portas do inferno, exausto, mas contente, gritou para o interior:
-Demónio de todos os demónios, anda cá! Aqui te trago, para que vejas, a única mulher que não é linguareira, não é intriguista, nem fala dos outros.
Ouvindo tais palavras, o Diabo que estava ocupado na manutenção das caldeiras do Inferno, veio à porta alagado em suor e, ao vê-los, desata a rir como possesso que era. E perante a perplexidade do Santo, sempre a rir, e troçando dele, o senhor dos Infernos, em tom diabólico, vomitando labaredas, disparou:
- Perdeste a aposta, pobre Arcanjo. Essa mulher eu conheço-a. É, de facto, uma excepção à regra... Mas é surda e muda de nascença!
Como vê, minha senhora, isto é apenas uma história tirada das milhentas que se contavam antigamente acerca da língua viperina das mulheres. Histórias do passado, de outras eras, de outros tempos. Desses tempos longínquos em que ainda não existia, como assunto de conversa, a actual casta de políticos tagarelas e maldizentes, nem a tribo desses arrogantes e mentirosos senhores da bola… e dos apitos!

domingo, maio 25, 2008

Os bois



Porque se trata de um “produto” que me entra em casa todos os dias, português refilão que sou, julgo-me no direito de protestar junto dos “fornecedores.” Com rótulos falsos, embalagens enganosas e conteúdos corrosivos, mal se roda o botão o “produto” é expelido pela caixinha mágica qual torrente de lava de cratera de vulcão. Sofrendo quase todos os canais do mesmo mal, convergentes e coniventes na corrida desenfreada para o primeiro lugar nas audiências, pouca diferença fazem uns dos outros. Seja qual for o canal que se sintonize quase não existem diferenças: política, politiqueiros, catástrofes, escândalos, tudo é parecido, tudo é chato, tudo é vulgar, tudo é tristemente igual.
Diz-se por aí que temos um canal público. Não acredito. Ou será que lhe chamam público só porque ele é suportado com o dinheiro dos contribuintes?
Fala-se muito em formação profissional, em mudança de mentalidades, em civismo, em educação… Fala-se. Só isso, pois ninguém parece interessado em passar das palavras aos actos e promover, por intermédio da “caixinha mágica”, campanhas de sensibilização abrangendo essas áreas.
Ninguém duvida que hoje a televisão é o melhor veículo da informação. Haveria, por isso, toda a vantagem em o aproveitar fazendo e transmitindo programas que ensinassem, educassem e formassem os homens de amanhã. Mas é justamente o contrário que se verifica. Grande parte dos programas desaprendem, deseducam e desinformam. Acho que o papel da televisão em cada dia que passa mais desvirtuado aparece e menos pedagógico se torna.
Nos capítulos do civismo e da educação dos jovens, o seu papel bem orientado traria resultados extraordinários. Não devemos esquecer que o Mundo de amanhã será o que a Escola fizer da juventude de hoje. E como a Televisão, também a Imprensa escrita e falada têm o seu quinhão de responsabilidade nessa falta de preparação cujas principais vítimas são as camadas jovens. Por caprichos da história o país teve a infelicidade de ter televisão antes de adquirir hábitos de leitura. E os políticos, por interesses inimagináveis fizeram dela o único instrumento de informação e cultura. Daí que hoje muita gente considere o que se vê e o que se diz na televisão como a verdade verdadeira. E não é assim. A sociedade portuguesa com todos os seus defeitos e atrasos não é aquilo que ela quase sempre mostra. Há por esse Portugal fora muita coisa boa que mereceria ser divulgada. Em vez disso dá-se ao povo a droga que ele pede, em vez da verdade de que ele tanto precisa. Por que não se ministram através do pequeno ecrã aulas de civismo, de educação e de boas maneiras? De toda esta situação, também todos nós somos culpados. Acomodamo-nos e fatalistas, resignamo-nos…E é assim com tudo. Já dizia o nosso Eça:«o povo é um boi que em Portugal se julga um animal muito livre, porque lhe não montam na anca; e o desgraçado não se lembra da canga!...»

sexta-feira, maio 09, 2008

Invocação



Sou, por natureza, optimista. No entanto, quando olho para trás e vejo o começo da caminhada tão distante que já quase se não enxerga, confesso que só com muita força de vontade consigo manter o optimismo.
Nasci nos começos do século passado. Comecei por me deitar em lençóis de linho, tive fatos de burel, estudei à luz do petróleo, dancei ao som da grafonola, cresci aos solavancos, dei marteladas nos próprios dedos, paguei as facturas das dívidas que fiz, aprendi com os erros que cometi, atravessei a vida sem atropelar ninguém e eis-me agora no começo de outro século.
Velho? Quem disse?!...
Bem sei que o tempo está contra mim e que através do calendário e do relógio vai cumprindo a sua missão, modificando-me o corpo. E o que ele já não fez!...
Ao longo dos anos, dos meses, dos dias, das horas, dos minutos e dos segundos ele não parou, e sem dó nem piedade foi fazendo o seu trabalho: com a sua aiveca transformou um jovem rosto rosado numa cara sulcada de rugas que mais parece aquele mapa antigo da minha escola onde estavam assinalados todos os rios portugueses e seus afluentes.
O vento dos Invernos levou-me os cabelos deixando apenas umas repas que circundam uma calva luzidia muito parecida com a do santo patrono da minha aldeia. As pernas, outrora prontas a transpor qualquer obstáculo, tornaram-se pesadas e arrastá-las é o mesmo que puxar uma zorra carregada de calhaus. Do resto do esqueleto não vale a pena fazer a descrição, pois pelo que atrás disse, todos imaginam o seu estado.
Mas o que fazer se é assim que determina a lei da vida?
Nasce-se, vive-se e morre-se. Todos nascemos, vivemos e morremos. Passado, Presente e Futuro. Ora se o Passado já lá vai, se o Futuro a Deus pertence, não será lógico gozar o “agora”, o Presente, aproveitando viver os dias, as horas, os minutos e até os segundos? A vida vem de muito longe, mas ela conhece apenas o presente. Para ela, ontem é morte, e amanhã é um mistério indesvendável.
A felicidade está aqui e agora. Aqueles a quem Deus contemplou com uma velhice saudável devem aproveitar esse bem como uma bênção e agradecer-Lhe sendo generosos e solidários na vida em sociedade, partilhar sacrifícios e responsabilidades, ajudar os que mais precisam e acreditar que mesmo com a nossa pequenez podemos contribuir para um mundo mais fraterno e mais justo.
Dizia meu avô materno, – um homem de bela estatura, nariz adunco, longas barbas, que fazia lembrar um mestre da lei judaica – que a velhice era a última estação antes da paragem final. Palavras sábias!...
Todos sabemos que é impossível voltar atrás, que a carruagem não pára e que qualquer ideia passadista ou conservadora é sempre uma ideia fatalista, inquisidora ou frustrada. Mas sonhar não faz mal. O sonho é o estabilizador da alma. E muitas vezes é o que resta para alimentar o gosto pela vida. De vez em quando invade-me uma espécie de vazio, uma mão cheia de coisa nenhuma. Mas acabo sempre por inventar uma certa arte de fuga substituindo o medo pela alma. E é então que a fé me lembra que há vida para além da morte. Apesar disso e contrariando o poeta que disse que viver sempre também cansa, eu espero que Deus me ajude a suportar esse cansaço ainda por mais algum tempo.

quinta-feira, abril 17, 2008

Insónias



Há cinquenta e sete anos que tenho a mesma cozinheira. De mútuo acordo, além de tratar da paparoca, ela também passa a roupa, cose as meias, pregas os botões, escolhe as camisas que devo vestir, as gravatas que devo enrolar ao pescoço e, como já devem ter adivinhado, com toda esta promiscuidade, também me dá ordens. É ela quem manda, ponto final, parágrafo!
Por mais que lhe diga que não quero comidas fortes à noite, ela insiste e ainda ontem às sete da noite lá estava, sobre a mesa, uma açorda de marisco a piscar-me o olho… Refilei e a resposta foi a do costume: «Ó homem, se te faz mal, não comas…» Mas, (maldita gula!...) comi. Resultado: voltas e mais voltas na cama e sono… nicles!
Experimentei todas as artimanhas para que as pálpebras se fechassem e mesmo o truque de contar carneiros não resultou. A certa altura tive até a sensação de que o quarto estava cheio dos ditos lanígeros! Não havia dúvidas, Morfeu estava zangado comigo.
Levantei-me, e pé ante pé dirigi-me ao quarto que me serve de escritório. Não sei se já alguma vez vos disse que o considero como uma espécie de “esconderijo”. Sob o pretexto de que estou a trabalhar, consigo fazer com que ninguém me incomode. Se de vez em quando me batem à porta, basta eu levantar o braço para ela se fechar de novo… Bem sei que nem sempre “a minha chefe” acredita que eu esteja de facto a trabalhar a sério, mas lá faz de contas e assim evitamos a troca de algumas palavras menos meigas… Mas é ali naquele cantinho que me sinto rei e senhor.
Mas voltando à minha “espertina”, mal abri a porta do meu refúgio deparei com um cenário deveras insólito: na pequena mesa, mesmo em frente ao computador, as letras do alfabeto, estavam todas reunidas.
Do A até ao Z lá estavam elas e um pouco mais longe o K , o W, e o Y , com ar desconfiado pareciam aguardar qualquer decisão… A princípio pensei que se tratava das letras do teclado. Mas não. Elas mexiam-se sozinhas e não precisavam de dedos para se movimentarem. Eram mesmo as do alfabeto. Havia também alguns acentos gráficos e sinais de pontuação, mas o mais empertigado e que me pareceu mais nervoso foi ponto de interrogação.
Dos acentos, o til, era o mais descontraído. Das letras, as mais revoltadas pareceram-me o “C “e o “P”. Não me contive e quis saber o que se passava. Respondeu-me o ponto de admiração: «Que se tratava de um plenário convocado a pedido de algumas letras do alfabeto revoltadas com a sua despromoção com a entrada do novo acordo ortográfico. As mais furiosas eram o “C” e o “P”. O “C” não se conformava por o terem suprimido da acção e o “P” reivindicava o seu lugar no baptismo…A entrada do “K” do “W” e do “Y” estava também a ser contestada…»
Instintivamente olhei para a estante dos dicionários e quando pensei na “revolução” que os esperava, perdi o sono de vez. E num acto de solidariedade para com as consoantes que foram suprimidas de certas palavras, comecei a “martelar” furiosamente o teclado do computador, expressando assim, acordado, o meu protesto contra o acordo.