segunda-feira, maio 28, 2007

O comprimido

O comprimido
Já muitas vezes aqui disse que é muito difícil encontrar assunto para estas minhas crónicas semanais. Não minto se vos disser que quando há temas pertinentes que desejo tratar mas que ultrapassam os meus parcos conhecimentos e requerem, por isso, apoio alheio, passo horas a folhear livros e a estudá-los procurando descrevê-los com a exactidão possível.
Acontece também que, algumas vezes, num percurso já avançado da pesquisa tenha de abandonar o assunto, porque a sua complexidade ultrapassa os limites do meu entendimento. Está assim explicado que quando não sei, a minha honestidade mental, aconselha-me a que não desperdice tempo e não ostente conhecimentos que não possuo.
Vem este intróito a propósito de uma mensagem que recebi há dias por correio electrónico com um nome de alguém que não conheço e que por isso não posso comprovar se quem a subscreve existe de facto.
Costumo, nestes casos, apagar e não me preocupar mais. Desta vez, porém, não aconteceu o mesmo e resolvi responder publicamente, na esperança de que quem a enviou, leia a resposta…
Entre muitas considerações em que os pontapés na gramática e os erros ortográficos, travam uma competição renhida em busca do primeiro lugar, e misturando graxa e ironia, “acusa-me” de algumas das minhas crónicas se assemelharem “às homilias do padre já velhote e antiquando” da aldeia onde nasceu “que no altar só fala em Deus e deixa o Diabo na sacristia…”
Acrescenta ainda irónico e em tom jocoso: “apesar de tudo gosto de o ler à noite, porque poupo um comprimido para dormir…”
Reli a mensagem, soletrei algumas palavras, pus ordem nalgumas frases, sentei-me e entretive-me a fazer, mentalmente, um retrato “robot” do fulaninho.
Não foi difícil chegar à conclusão de que deveria tratar-se de um desses doutores ou engenheiros de aviário, de um desses pseudo-intelectuais que esvoaçam por aí a abarrotar de empáfia e que vivem encaixilhados num desses lugares onde só têm assento os afilhados ou os protegidos da Nação.
Mas tem razão, o homem. Falo muito em Deus. E isso, porque vou buscar o que escrevo quase sempre à minha experiência da vida. E na vida vivida há sempre Deus por perto. Dêem-lhe o nome que quiserem, mas Ele está lá. Nos bons e nos maus momentos.
É curioso como passa despercebido falar-se de sexo, de obscenidades, de bacanais, e se é alérgico logo que se fala em Deus. E é também curioso que alguém se preocupe tanto com o que os outros pensam e se preocupe tão pouco do que Deus pensará a seu respeito!...
Mas gostei muito dessa do comprimido para dormir!... Espero que continue a tomá-lo. Não necessita de receita médica, não são conhecidos efeitos secundários e é ainda mais barato do que qualquer “genérico”.

domingo, março 04, 2007

Coisas da minha arca




No tempo em que o volfrâmio era explorado em força cá pelas nossas bandas, contavam-se várias anedotas acerca do rápido enriquecimento de alguns indígenas. De todas as que corriam de boca em boca, uma ficou-me gravada na mente e recordo-a com frequência. Esclareço que naquela altura e nos locais e proximidades dos lugares de extracção do minério, não só era moda como também conferia uma certa importância ostentar, pendurada no pequeno bolso exterior esquerdo do casaco, uma caneta-tinteiro ou caneta de tinta permanente, como vulgarmente se dizia. Havia mesmo quem pendurasse três ou quatro bem alinhadas!
Contava-se então que um desses ricaços se dirigiu um dia a uma papelaria em Viseu e pediu que lhe vendessem uma caneta de tinta permanente, mas das mais caras – uma Pelikan em ouro... Essa marca era, na época, uma das mais conhecidas e reluzentes.
O dono do estabelecimento lá veio com vários estojos, onde repousavam vários estilos de canetas. O homem pegou numa, pegou noutra, mirou, remirou, lá se decidiu e comprou duas... Puxou duma nota de conto e com a bazófia própria dos novos-ricos, atirou do alto da sua "importância": - «Pode ficar com o troco...» O vendedor, habituado já às características esbanjadoras de tais clientes, arrecadou a nota mas, cumpridor do seu dever e para descargo da sua consciência ainda balbuciou: - «Vossência tem aqui papel para experimentar o aparo...» Ao que, prontamente, o volframista retorquiu já com os dois objectos a enfeitarem o bolsinho: - «Não vale a pena. Eu até nem sei escrever...»
Dizia eu no começo que esta anedota me vem à mente muitas vezes. O motivo que hoje a fez "ressuscitar" foi o facto de verificar, há dias, que a quantidade de percursores, de obreiros, de heróis, de analistas e de comentaristas, não pára de aumentar de ano para ano. Não há bicho-careta que não discorra e faça comparações entre a escravatura do antigamente e as liberdades da democracia!
E o que, na minha opinião, é mais flagrante e comprometedor para o futuro, é que essa cultura inculta começa a enraizar-se nas camadas jovens fazendo com que a soma de "analfabetos históricos" no nosso espaço político-partidário atinja já números bastante significativos. Criados em aviários, com a luz acesa toda a noite, tremonhas a abarrotar, bebedouros a transbordar, papo cheio, que mais é preciso para anquilosar o raciocínio? Não é a realidade histórica – porque é humana – equívoca e inesgotável?!...
Aos volframistas de canetas reluzentes dos meus tempos de miúdo, sucedem agora os "garimpeiros", versão começo-de-século, pseudo-detentores de toda a sapiência, enfarpelados a rigor, encadernados em potentes "máquinas", alguns comendo ainda à custa dos pais!
A única diferença entre os bazófias de ontem e os de hoje, talvez resida no facto de os primeiros não saberem ler nem escrever e os segundos serem letrados, embora haja muitos doutores analfabetos pelo meio…
O que me leva a crer que o futuro do homem do século XXI será sapientemente civilizado. E humanamente bárbaro…

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Férias


Um belo recanto de uma casa bem perto do mar, nos arredores da capital...

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Resposta de Dom Afonso I


Cá recebi a carta... e em breve mandarei a resposta pelo meu aio Egas Moniz. Aqui não há selo, apesar de valer mais sê-lo do que parecê-lo...

Cartas...

CARTA A DOM AFONSO HENRIQUES
Peço desculpa por vir incomodar Vossa Majestade e acordá-lo do sono em que mergulhou há quase nove séculos, mas com acontecimentos tão graves no Condado, achei por bem pô-lo ao corrente da situação.
Não tivesse havido aquele precedente de terem querido arrombar o mausoléu em que repousa apenas para tentarem reconstituir o seu perfil biológico e o seu código genético e saberem “coisas” sobre a estatura, os hábitos, a força, a alimentação, a cor do cabelo e dos olhos de Vossa Majestade, eu não ousaria perturbá-lo. Mas já que isso aconteceu, eu também ousei…
Está a decorrer cá no rectângulo um concurso para apurar quem teria sido o maior português de todos os tempos. Consta que incluíram na lista de partida cerca de cem concorrentes, sendo Vossa Majestade um deles. A certa altura, e por arte de berliques e berloques, a centena de candidatos ao título, ficou reduzida a dez!
Nesses dez, de que Vossa Majestade faz parte, há de tudo: poetas, navegadores, reis, diplomatas, um ministro do seu colega D. José I, um ditador e um dos seus muitos e encarniçados opositores.
Sucede que ultimamente correm vários boatos e até se diz, à boca pequena, que está a ser urdida uma conspiração visando postergar o nome de Vossa Majestade pondo-o em último lugar. E perante tanto desprezo e ingratidão eu revoltei-me. Será justo atribuir tal lugar ao nosso mais prestigiado Mata-Mouros, vencedor de Ourique e Fundador da Nacionalidade?
Mas as injustiças não se ficam por aqui. Saiba Vossa Majestade que centraram a escolha entre dois controversos concorrentes – um tal de Salazar, um ditador, uma espécie de fantasma, uma assombração de que todos têm medo e a quem uma escritora já apelidou de “cromo”, e um tal de Cunhal, um resistente ao “consulado” do atrás citado, mas do qual também se dizem cobras e lagartos!...
E foi ontem ao ver a apresentação de um resumo póstumo do reinado de Vossa Majestade – resumo muito mal “amanhado”e excessivamente folclórico, diga-se de passagem!... – que incluía, entre muitos outros feitos, batalhas “ao vivo” com Mouros que caíam como tordos no dia da abertura da caça que resolvi escrever-lhe. Bem sei que isto não passa de um desabafo, pois sem código postal duvido que esta carta lhe chegue às mãos…
Fica no entanto o meu testemunho e a minha grande homenagem ao Homem que nos legou este espaço rectangular que se dilatou, que deu novos mundos ao Mundo, mas que, infelizmente, foi encolhendo, encolhendo, até se transformar numa espécie de arena onde quase diariamente se realizam combates de galos de bela plumagem… mas sem crista!
E termino citando os versos de um poeta, seu companheiro de lista, Fernando Pessoa: Ninguém sabe que coisa quer. / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem. / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Portugal, hoje és nevoeiro…

sábado, fevereiro 10, 2007

Que pena!...

Segundo um jornal inglês, uma equipa de neurocientistas teria inventado uma técnica que permitirá descodificar e ler tudo o que se passa no cérebro e assim ter conhecimento das intenções das pessoas antes que elas as ponham em execução.
Os cientistas usaram um “scaner” de alta resolução que lhes permitiu a interpretação dos pensamentos da pessoa visada de acordo com as zonas do cérebro em actividade nesse momento.
Calculem o que ganharia Portugal com a aplicação desse método se os nossos políticos tivessem cérebro!....

.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Mentirosos

Por mais que tente, não consigo refrear esta onde de revolta que me invade, cada vez que a hipocrisia dos nossos governantes ultrapassa os limites e colide com os mais elementares princípios da moral. Parece haver um prazer mórbido em levar ostensivamente à prática actos que mais não são do que verdadeiros atentados contra os que mais sofrem.
Não sei como se pode ser feliz quando, a nosso lado, e a todo o instante deparamos com seres desfigurados pela miséria ou quando ao dobrar da esquina quase tropeçamos num montão de cartões e farrapos que escondem um ser humano enregelado e faminto!
Num momento em que a luta contra a miséria deveria passar por uma cultura responsável, solidária, fraterna e de partilha com os que mais precisam e menos têm, assistimos precisamente ao contrário – à atribuição de verbas faraónicas àqueles que menos fazem, menos merecem, e mais têm...
Esta minha crónica de hoje e esta revolta, a propósito dos dois assessores do ministro Paulo Portas que desde Janeiro auferem um ordenado líquido de mais de mil contos!
Afinal, se estamos em crise, e é preciso apertar o cinto, quem deve dar o exemplo? Os idosos com pensões de trinta ou quarenta contos a quem ultrajaram agora com um mísero aumento de mil escudos?... Os velhos doentes, cuja pensão não chega para pagar a conta na farmácia?... Os que perderam o emprego, porque as multinacionais estrangeiras com a cumplicidade do Governo encheram os bolsos e foram repetir a proeza para outros "paraísos"? Afinal, quem esfrangalhou o país?... Quem contribuiu para que nos atascássemos no "pântano" até ao pescoço? Quem esteve na origem de todos os esbanjamentos de dinheiro, de todos esses desvios de fundos, senão os governantes, directa ou indirectamente?
Não quero, por uma questão de ética, dar uma imagem deprimente do pulsar político deste país. Ademais, é dever de quem escreve sensibilizar para o respeito e dignificação das autoridades, das instituições e das personalidades responsáveis pelos destinos da Nação. Também não quero generalizar as acções cometidas injustamente por alguns políticos, nem usar linguagem menos correcta para exprimir a minha revolta... Mas confesso que é muito difícil ficar calado perante tanta injustiça, suportar tanta demagogia e aguentar com serenidade as traquinices de certos políticos que elegemos, confiados que estávamos na sua maturidade e na assunção responsável dos actos que iriam praticar!
É difícil conter tanta revolta... Basta fazer contas. O ordenado mensal de um só assessor seria suficiente para pagar o aumento da pensão a mil cidadãos!...
É assim que respeitam os princípios da solidariedade que tanto apregoam? Mentirosos...

segunda-feira, janeiro 01, 2007

1 de Janeiro de 2007

Hoje, do ventre do tempo, nasceu um novo ano ! Ninguém pode dizer, com certezas, o que ele nos reserva.
Para mim e minha família, que ele seja, se não melhor, pelo menos igual a este que ontem terminou.
Projectos?... Não faço. O que peço a Deus?... Saúde, união na família e muita compreensão… e a continuação do mesmo carinho e atenção que temos recebido dos que nos são mais queridos.

sábado, dezembro 30, 2006

AINDA A TEMPO

COMPLEMENTO

Complemento da crónica “Em dia de aniversário”de Julho de 2006, que se destina a elucidar os leitores que, por telefone ou e-mail, manifestaram o desejo de saber quantos Verões passaram por mim. Aqui fica, pois, o número
exacto.

80 - 75 - 60
Todos nós temos três idades: a idade que está no B. I., a idade que aparentamos e a idade que sentimos. Esta última é, sem dúvida, a mais verdadeira, aquela de que devemos servir-nos para continuar a caminhada. Seguindo esse raciocínio, são necessários três números para nos definir. Por exemplo, quanto a mim, considero-me um 80-75-60!
Descodificando: do primeiro número, atribuo metade a cada perna; o setenta e cinco, – que é geralmente o número com que os meus amigos me presenteiam de vez em quando – penduro-o no espelho só para me divertir com o outro “senhor” careca e de cara enrugada, que a lâmina de vidro polida reflecte; o último número, o sessenta, é o que se sobrepõe aos outros dois. É o “combatente” aquele que, sempre vigilante tenta impedir que o primeiro, o mais gordo, – o 80 – me esmague sob o seu peso!
E é assim com esta espécie de triângulo numérico às costas que continuo a fazer o meu dia-a-dia. Evidentemente que para pôr em prática esta “filosofia” é necessária a ajuda de vários factores: saúde, tolerância, paz interior, humildade, boa disposição e, sobretudo muita Fé!
Li há dias num texto de um escritor italiano que a velhice seria o calvário da vida. Concordei em parte, pois chegar a velho sem saúde, sem ninguém que olhe por nós e entregue apenas à solidão, deve ser, de facto, um enorme e triste calvário!
Pelo contrário, ter a sorte de envelhecer com saúde, com a família por perto e os amigos em redor, é um bênção de Deus.
É certo que quando olho os lugares vazios dos familiares ou dos amigos que partiram, há sempre uma dor pungente que me invade. O coração bate mais forte, mas apenas por uns momentos.
Depois, estranhamente, tranquiliza-se e parece conformar-se perante a inexorável lei da vida. À dor que me invade nesses instantes ora se sucedem recordações e saudade, ora me agitam sonhos de esperança que me transportam para longe – uma viagem em que o mistério do tempo tanto me acusa como me reconcilia com Deus.
E então é a Ele que me entrego. É a Ele que peço perdão pelos momentos em que a revolta me dominou e me fez esquecer a Sua infinita bondade. E é a Ele que agradeço tudo aquilo que me tem dado até hoje: alegrias, tristezas, sofrimentos e sobretudo o dom da fé – essa força invencível que faz cantar os mártires na morte…
Divaguei, e fugi do assunto. Vou parar por aqui, porque os dois últimos conjuntos de algarismos começam já a discutir e podem zangar-se, abalar, e deixar o 80 a falar sozinho….



quinta-feira, dezembro 21, 2006

Recordações

La bohème

«Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue…»
Charles Aznavour

sábado, dezembro 09, 2006

Chansons de ma jeunesse

LE PORNOGRAPHE
«Autrefois, quand j'étais marmot,
J'avais la phobie des gros mots
Et si j'pensais « merde » tout bas,
Je ne le disais pas
Mais, aujourd'hui que mon gagne-pain,
C'est d'parler comme un turlupin
Je n'pense plus « merde », pardi,
Mais je le dis
J'suis l'pornographe,
Du phonographe
Le polisson,
De la chanson…»

Georges Brassens

terça-feira, dezembro 05, 2006

O sermão

Un aumônier militaire s'adresse un jour à ses ouailles et leur tient un sermon sur le Paradis :Soko è kumi le temps du Jugement Dernier, Saint-Pierre accompagné na ba trompettes thébaines, "taratatââta, taratatââta, taratatââta..." , armé de machete monènè a ko loba na bango, les anges mabè, na matata mpenza : " Attatio ! Kenda à la gauche du Père, na kati-kati na ba les enfers. Enfer, azali moto mingui, azali fange boueuse na potopoto tÎÎî...". A ko loba na ba les anges malamu, na sourire monènè : " Kenda à la droite du Père, na kati-kati na ba le Paradis. Paradi azali félicité suprême...Mwasi kitoko ! Mossala azali tè !" .Bo oki nyonso ?- Hèèè...

domingo, dezembro 03, 2006

Manhã de Domingo

Nas asas do vento

Neste dia de chuva e vento
Deixei ir o meu pensamento
Em romagem de saudade…

Voltou com um saco de lembranças
Onde havia risos de crianças
E recordações da mocidade.

Abri meu saco com jeito
E depois contra meu peito
(Esquecendo o meu destino)
Acalentei as quimeras
Doutros tempos, doutras eras
Sonhando qu’ era menino!

sábado, dezembro 02, 2006

Sábado à tarde

Um sábado de Outono. Choram as nuvens e as gotas de água caem de mansinho. Não está muito frio, mas apetece acender a lareira, olhar a chama e ouvir o crepitar inconfundível dos troncos!
O chão do quintal está atapetado de folhas de várias cores, algumas já em decomposição, escorregadias, confundindo-se com a terra. As árvores, de braços erguidos, quase nuas, sem folhas, anunciam já o Inverno próximo.
As duas serras – a do Caramulo e a da Estrela olham-se como duas rivais – a primeira com os seus variados tons verdes; a segunda mostrando o seu manto branco que a neve lhe emprestou.
Aquém e além o fumo das chaminés mistura-se com pedaços de nuvens baixas que viajam no espaço. A aldeia parece dormir e não fosse a pequenez dos dias e o “comprimento” das noites, dir-se-ia que era por causa da sesta!...
Não há flores no jardim. Só o vermelho das bagas do azevinho contrasta com o cinzento-escuro do tapete do caminho. Silêncio! Nem a passarada se mostra. Desapareceram os melros, as rolas, e só os pardais, de vez em quando, cruzam o céu.
Subo ao terraço e olho em direcção à Estrela. Um manto branco já não deixa ver a neve. Sopra uma brisa fresca. Olho o tanque, em baixo, cheio de água, e aumenta a sensação de frio. A chuva cai agora com mais intensidade… Desço, e a resolução está tomada: a lareira…

No começo do mês

Continuo a ler Jean Guiton e não resisto a traduzir, para aqueles que, eventualmente, possam vir a ler, uma passagem que julgo conter uma mensagem que nos conduz a uma profunda meditação…
«(…) Hoje, o que está mais em perigo são as amarras que antigamente faziam a ligação do espírito às coisas, do homem à Natureza, do filho à mãe, do cidadão à Pátria, dos exercícios do espírito à verdadeira existência; o País, a terra, a religião adaptada aos tempos, enfim, a incarnação sob todas as espécies e formas. E as virtudes…
Não a virtude, essa palavra oca, muitas vezes hipócrita, mas todos os esforços em que o belo, o bem e o verdadeiro se juntam criando a harmonia entre os seres e as coisas. Tudo tem tendência a desaparecer: tudo o que é refúgio, íntimo, socorro, asilo, floresta, arvoredo… Não há paz, mas excessos que se sucedem e se compensam. O respeito, o pudor, a medida, a simplicidade, estão em vias de extinção… (…) Tudo mudou. Passámos da civilização escrita à da imagem, ainda que a escrita continua a ser a expressão fundamental do pensamento… (…)»

quinta-feira, novembro 23, 2006

A MINHA ÁFRICA

Ao recomeçar pela terceira vez
(1966)

Homem que cresceste
Sem nunca seres menino,
- Porque já nasceste
Com esse destino –
Não deixes morrer
Agora,
Ao anoitecer,
A esp’rança d’outrora!

Homem que cresceste
Sozinho
E nunca tiveste
Carinho,
Não percas agora,
No fim da viagem,
A tua coragem!

Homem que cresceste
A labutar.
Homem que soubeste
Esperar com alento,
(Sem um queixume,
Sem um lamento)
Que a vida te sorrisse…

Se foste homem já em pequenino
Continua a sê-lo até à morte
Continua sozinho
Mesmo velhinho,
A desafiar a tua sorte!

Se sorriste sempre na tormenta
Que dentro de ti sempre ecoou
E se teu coração ainda acalenta
A espr’ança que sempre o habitou,
Tem confiança,
Porque em criança,
Foi ela sempre que te guiou!...

Kinshasa 1966

quarta-feira, novembro 22, 2006

A MINHA ÁFRICA -(excerto4)

A segunda fuga

(...) Voltando ao voo Bansankusu-Kinshasa, dizia eu que o avião tinha baixado e que era possível, lá do alto, distinguir as cabanas das aldeias e ver o fumo que delas saía. Entre os passageiros encontravam-se missionários, freiras e outros civis, homens e mulheres. Já quase a chegar ao destino, um dos motores começou a "tossir", fez-se silêncio no interior do aparelho e um padre, desapertou o cinto de segurança, ajoelhou-se e começou a rezar... Ao contrário do que acontece hoje em quase todos os voos, nesse tempo e nas linhas aéreas do interior do Congo, não havia hospedeiras. Geralmente eram três os membros da tripulação – o piloto, um co-piloto (às vezes) e um mecânico. Por isso nesse momento de inquietação, não houve ninguém que viesse tranquilizar ou explicar o que se passava. Cada qual podia fazer a sua avaliação pessoal. Assim aconteceu e quase poderia garantir que não houve propriamente pânico. Depois de sair do inferno... é difícil ter-se medo... Entretanto, e com a hélice do motor direito "em bandeira", o avião adernou um pouco e foi baixando, baixando... e de repente o asfalto da pista à vista! Dois ou três solavancos, uma pequena derrapagem, uns ziguezagues e, por fim o deslizar sereno do avião em direcção à aerogare.
Como já o disse os pilotos eram experientes, mas acrescente-se que durante a minha permanência de 30 anos não se registou qualquer acidente com os aviões apesar dos rudimentares, podíamos mesmo dizer "artesanais", meios de navegação aérea. Muitos sustos é verdade, mas sem consequências de maior. Em viagens do interior para a capital ou vice-versa, quando passávamos a linha do Equador, raro era o voo em que não houvesse que contar. Muitas vezes era tal turbulência e os poços de ar, que todos os passageiros emudeciam. As trovoadas e as tempestades tropicais com chuvas intensas eram tão fortes, que o comportamento do avião era o de uma cadeira de montanha russa!... Muitas vezes, a chuva, juntava-se a nós, entrando pelas minúsculas frinchas das velhas carlingas...
De vez em quando o avião era desviado da sua rota porque era necessário ir buscar um doente a uma Plantação perdida na floresta e então aterrávamos em pistas cobertas de capim e era um "espectáculo" estranho ver as asas do bimotor a ceifar as ervas que encontrava na pista. Sucedia que os passageiros não eram informados da alteração da rota e podem adivinhar a sensação de medo quando se acendiam as luzes para apertarmos os cintos e de repente, pelas janelas, víamos os arbustos a serem degolados e o avião a rolar envolto numa nuvem de pó!... (...)

segunda-feira, novembro 20, 2006

A MINHA ÁFRICA -(excerto) - 3 -

12

A LIGAÇÃO COM O MUNDO

Nos primeiros tempos, entre 1950 e 1953, o único traço de união com o Mundo era o barco da Otraco (Office des Transports Congolais) que, de quinze em quinze dias, fazia o percurso entre Leopoldville e Befori, local até onde o Maringa era navegável. O barco saia de Leopoldville, escalava vários portos fluviais, entre eles Coquilhatville, Basankusu, Baringa, Samba, Ekukula, Mompono, Ngongo, seguindo depois para Befori.
Era por barco que recebíamos tudo: mercadorias, diversos produtos, alimentação e... correio! Pode imaginar-se, pois, a alegria com que esperávamos o barco. Muitas vezes ele chegava de noite, e se ouvíamos a sirene, era difícil conciliar mais o sono até de manhã, ansiosos que estávamos para saber notícias.
Importa dizer que os barcos eram movidos a vapor e em vez de hélices eram impulsionados por uma espécie de dobadoira feita de tábuas. Moviam-se lentamente e demoravam mais tempo a chegar pois navegavam contra a corrente que era forte. Todos os barcos possuíam dois quartos para passageiros com casas de banho e uma pequena sala. Quem neles viajava tinha que levar mantimentos para a viagem. Um cozinheiro do barco fazia a comida. Tive ocasião de viajar num deles de N'gongo até Basankusu com minha mulher que se dirigia ao hospital de Basankusu para o nascimento do meu primeiro filho, o Jorge. Foi uma viagem de três dias. De noite e apesar de os barcos terem um gerador e um potente holofote que se acendia logo que começasse a fazer escuro, a navegação não era aconselhada. Então o comandante, um congolês, já com prática e conhecimento do trajecto, fazia a navegação de maneira a que chegássemos a um porto fluvial ao lusco-fusco e o barco ali permanecia durante a noite. Atreladas ao barco havia duas enormes barcaças onde eram acondicionados os produtos com destino a Leopoldville: borracha, óleo de palma, coconote, café, cacau, copal, etc.
Por vezes, durante a noite acontecia que não conseguíamos dormir motivado pelo barulho dos habitantes das aldeias próximas, que vinham ao barco comprar diversas bugigangas e beber cerveja ou as bebidas tradicionais – o "lotoko", uma espécie de aguardente fortíssima feita a partir da fermentação do milho ou o vinho de palma, obtido através da fermentação do suco da palmeira. A tripulação do barco fazia também comércio com artigos que traziam da capital e que constituíam novidade para as populações do interior: relógios, espelhos, isqueiros, tecidos, etc. etc.
A viagem no barco durante o dia era encantadora. A paisagem nas margens mudava constantemente e, além de várias aves, entre as quais papagaios, patos, galinholas, os macacos, com as suas piruetas nas árvores que bordejavam o rio, constituíam um espectáculo deslumbrante. Algumas vezes avistavam-se crocodilos refastelados ao sol nos bancos de areia aqui e ali.
Voltando à chegada do barco, ela constituía o único acontecimento que vinha quebrar a rotina dos dias que eram sempre iguais.

domingo, novembro 19, 2006

A DANÇA

A DANÇA
Senhoras e Senhores
Eu vos saúdo!
Vão Vossências ouvir antes de tudo
O que venho anunciar neste momento.
É possível que em vosso pensamento
Surja a ideia horrível dum monólogo.
Mas não! Eu sou o prólogo!...
Vão ouvir música, só música,
Ritmos variados, diferentes,
Endiabrados,
Dolentes…
Ides esquecer por momentos
Tristezas, aborrecimentos
Tudo o que vida tem de mau:
O custo da vida elevado,
O calor exagerado
E o preço do bacalhau!
Várias danças ides ouvir:
Valsas, boleros, cha-cha-cha,
Os tangos sentimentais,
Rumbas, foxes, twistes
E a dança dos canibais.
Danças modernas
Com contorções
Que fatigam as pernas
E os corações…
Um, dois, três
Pé esquerdo à frente
Meia volta p’ra direita
Bate as palmas uma vez
Tudo dança minha gente!
Dança o rico, dança o pobre
E tudo anda contente.
Esta vida é uma dança
Que gira sempre e não se cansa
Ora altiva, ora indiferente.
Dançam velhos, dançam novos
P’ra dançar não há idade
A velhice
Não existe
O que conta é a mocidade.
Vou-vos deixar
A orquestra vai tocar
Executando música a primor
A dança é vida, a vida é dança
Maestro!... Faça favor!...

sábado, novembro 18, 2006

A MINHA ÁFRICA - (extracto)

A casa de banho

(…) A casa de banho situava-se no exterior da casa e vale a pena fazer a sua descrição: Imaginem um pequeno espaço redondo com um raio de dois metros com uma vedação de paus entrelaçados e folhas a tapar a vista; uma fossa árabe que servia para satisfazer as necessidades fisiológicas e, lá no alto um balde de zinco com um crivo no fundo e um cordão que tinha a função de abrir uma válvula e fazer com que a água saísse – era o chuveiro!...
Na casa, a mobília, era a mínima necessária: nos quartos uma cama tosca com o imprescindível mosquiteiro, janelas todas com rede, sem portadas e nada mais; no salão uma mesa, algumas cadeiras muito puídas e dois maples aos quais era impossível atribuir idade; na varanda uma mesa rudimentar e três ou quatro cadeiras de verga. Na parte de trás da casa e logo na pequena escada que dava para a "casa de banho", uma bacia de zinco sobre um cavalete de madeira, uma encardida concha onde repousava um pedaço de sabão azul e uma toalha pendurado num prego...
Havia ainda um pequeno compartimento que servia de despensa e onde eu arrumei logo os alimentos que tinha comprado, enlatados claro: manteiga (holandesa, muito boa); queijo (holandês também) conservas (portuguesas) bacalhau (ido de Portugal em caixas de alumínio); azeite (português, Galo d'Ouro); sardinhas, carapau e atum, também embalados em Portugal e...um garrafão de vinho tinto "Nabão", além de outras coisas... (…)