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sábado, maio 09, 2015

DO TEMPO QUE PASSA

 
 Sempre gostei muito de ler. Houve um período na minha vida em que, além de minha mulher, a minha companheira favorita era a leitura. Não tínhamos vizinhos, vivíamos isolados em plena floresta tropical numa casa coberta com colmo e rodeada de seringueiras e cafezeiros.   
Do Mundo, as notícias chegavam-nos através da Rádio na banda das “ondas curtas” que por vezes se tornavam “curtíssimas”, pois a audição era péssima.…
Não tínhamos luz eléctrica e às seis da tarde a noite caía. Havia, por isso, necessidade de ocupar o tempo – as longas noites de África. A leitura era o nosso refúgio. À luz da “Coleman” ou da “Petromax”…
Em 1951 entrei para o «Clube do Livro» da Bélgica, e de mês a mês lá chegava o barco com os víveres, as cartas e os livros!
E, como costuma dizer-se, “devorava-os”! Tomava notas. Exprimia a minha opinião, a lápis, nos espaços em branco. Ora concordava com as ideias expressas, ora era contra. Já nesse tempo fazia parte dos que apadrinham o conceito de que um livro tem sempre dois autores: o que o escreve e aquele que o lê. Nalguns, as minhas notas quase faziam desaparecer algumas das frases do autor. Infelizmente, quase todos foram queimados aquando do despertar dessa onda de “liberdade” que varreu o Continente negro na década de sessenta. 
Há dias, encontrei na minha estante, um dos que escapou à fúria dessa turbamulta: «Les Saints vont en Enfer», de Gilbert Cesbron, escritor francês. Foi o primeiro que encomendei, e que motivou esta minha crónica de hoje. Um livro que gerou bastante polémica nesses longínquos tempos, mas que acabou por se afirmar e se tornar uma obra de referência do escritor.
E é, porque, o seu conteúdo tem muito a ver com o que penso e com a minha maneira de estar na vida, – sobretudo quando denuncio injustiças e defendo o povo do qual, honrosamente, faço parte, – que traduzi, à intenção dos leitores, um pequeno excerto, que é uma espécie de premonição dos tempos em que vivemos: «Eis um livro que vai desagradar a muita gente. Mas será que a prudência é, ainda, uma virtude? Num mundo em que aqueles que falam a mesma língua não se conseguem fazer perceber sem um intérprete; num tempo em que os mediadores são assassinados e a honra esquartejada, eu não quero ser de nenhum partido. O que vi entre os seus membros é mais do que suficiente para que tome esta decisão. Assim eu nunca deixarei a mão dos homens no meio dos quais eu cresci….»
Esses homens que, sozinhos, sem quaisquer ajudas, percorreram os escuros caminhos da vida, lutaram, enfrentaram ventos contrários, mas que são livres, porque não devem a ninguém, aquilo que são e o pouco que têm. 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANTÓNIMOS QUE SÃO SINÓNIMOS


 
Na semana passada, quando assistia a uma sessão no Parlamento em que os nossos “eleitos” se insultavam mutuamente, lembrei-me de um livro que li há muitos anos e que, salvo erro, foi escrito por um filólogo japonês.
Segundo ele, na origem da maioria dos conflitos ideológicos, estão a incerteza e a diversidade dos conceitos atribuídos por uns e por outros às palavras com que se exprimem.
Muitas vezes basta substituir uma palavra por outra, até por um sinónimo menos débil ou mais forte, para que os efeitos produzidos sejam diferentes e até mesmo opostos.
A propósito lembrei-me de dois pacatos e discretos substantivos que entraram no vocabulário de várias línguas com a humilde função de designar uma posição genericamente relativa a espaço: esquerda e direita.
No começo, situar-se à esquerda ou à direita não implicava qualquer significado especial, salvo num contexto de deferência em que ficar à direita da pessoa que recebe era prova de maior consideração. O que ainda é válido.
Mas veio depois a deturpação. E segundo consta, ela data de finais do século XVIII, das sessões da Convenção francesa em que na Sala da Pela, os Jacobinos (mais refilões) se sentavam à esquerda dos Girondinos (mais moderados) que se sentavam à direita. Daí parece ter surgido o significado político de direita e de esquerda. E foi a deturpação. Ou pior – a politização!
E como neste Mundo tudo gira à volta de convenções, lá se convencionou que na “esquerda” estavam os patifes e na “direita” os bonzinhos. A princípio a coisa parece ter resultado, mas com o rolar dos anos tudo mudou e apesar de a esquerda continuar a ser a mais caceteira e arrogante a direita, muitas vezes não lhe fica atrás. 
A máxima “todos diferentes, mas todos iguais” funciona a todo gás nas lides políticas e no Parlamento é indigna e desonesta a maneira como os nossos “eleitos” se engalfinham uns nos outros.
Foi o caso da sessão a que assisti e que motivou estes meus rabiscos de hoje. Confesso que me senti envergonhado e triste por ser tão baixo o nível dos que representam o País.
Numa altura em que tanto precisamos de bons exemplos para elevar a nossa escala de valores e fazer subir a nossa auto-estima, o que presenciamos é uma luta encarniçada entre gente irresponsável, mais preocupada em aumentar as suas contas bancárias do que, propriamente, em tentar resolver os graves problemas do País.
Politicamente falando, e radicalismos à parte, esquerda e direita são palavras sinónimas. Não há diferença entre elas. Ou entre eles – os que dizem ser de um ou do outro lado. Salvo raríssimas excepções, ambos defendem apenas e só os seus interesses pessoais. Desafio os leitores a provar o contrário…
 
 
 

quinta-feira, abril 02, 2015

O MEU GINÁSIO

 
Estou, como costuma dizer-se, “num molho”. E por quê?... - quererão saber os leitores mais curiosos. Eis a resposta: porque, hoje, sábado, 28 do mês de Março do ano da graça de dois mil e quinze, pela primeira vez, ‘fiz’ ginásio!
É verdade que é um ginásio diferente daqueles das cidades. É assim a modos que um ginásio rural. Não tem aqueles acessórios com nomes esquisitos e estrangeiros, mas nele também se pode tratar do físico da mesma maneira e usando processos naturais.
O único acessório que não é nacional, é uma máquina de cortar relva de marca inglesa, porque os restantes são todos feitos cá no rectângulo e alguns já os meus avós usavam para conservar o esqueleto em boa forma.
A forquilha, a pá, o ancinho, a barra de ferro, a picareta, a enxada, o machado, o sacho, o serrote, a tesoura da poda, o farpão, são alguns dos apetrechos que se perfilam aqui nesta minha área de manutenção. Esqueci-me de mencionar o carro de mão que é também, e ao mesmo tempo, um transporte e um instrumento de desporto.
Cerca das nove da matina eu e a minha alma gémea, vestidos a preceito, começámos o treino - eu exercitando os músculos dos braços puxando a máquina, e ela com o carro de mão, onde esvaziava a relva cortada, fazia flexões dos membros e tronco, e a seguir despejava os resíduos num monturo destinado ao processo de curtimenta.
De vez em quando interrompíamos este exercício e percorríamos a distância entre a parte relvada e o fundo do quintal, exercício este, que não só servia para descontrair, mas também para nos refrescarmos colhendo e comendo uma laranja do pomar.
Durante o ano, sobretudo a partir da Primavera, esta prática é semanal e todos os outros utensílios que atrás mencionei são utilizados noutros exercícios adequados ao seu desempenho.
Hoje, por exemplo, a pá e o sacho foram também utilizados num exercício de remoção de terras trazidas pela enxurrada o que obrigou, com várias insistências, a flexionar o tronco e a desenferrujar a “mola”.
De igual modo a tesoura da poda, ao ser utilizada para aparar alguns arbustos da sebe obrigou as falanges, falanginhas e falangetas a contorções que lhes avivaram a elasticidade.
O sol quis também associar-se e, acalorado, deu uma ajuda, fazendo com a transpiração escorresse esqueleto abaixo, deixando manchas no vestuário, ao extravasar as toxinas contidas no organismo.
E assim, durante algumas horas, fomos tratando do físico, terminando os meus exercícios com uma espécie de sessão de halteres erguendo e baixando o machado amiudando lenha para ajudar a acender o fogão nas manhãs e noites frias que ainda vamos ter…
Agora podem fazer uma ideia, ainda que ténue, de como me sinto. Dói-me tudo. E se estou a descrever a minha manhã de “exercício físico” é para demonstrar que na aldeia também podemos dar-nos ao luxo de “fazer ginásio”. É verdade que nos sai do corpo, mas poupamos na carteira e fazemos uma limpeza aos pulmões, inalando esta mistura de ar puro do campo e da serra.

 

  

 

 

   

 

 

 

 

 

NO COMEÇO DE MAIS UM DIA

 
Esta manhã, quando cortava a barba, vi, de repente, uma cara que eu conhecia de qualquer parte e que me fitava ainda com os olhos ensonados. - «Mas eu conheço-te...» - disse baixinho cá pra comigo não fosse minha mulher ouvir e pensar que eu começava a tresler logo no começo do dia. Depois, com calma, arregalei os olhos e surpreso, mas sorridente, fixei a imagem. E então o espelho reflectiu uma cara ensaboada, o braço no ar e a máquina de barbear parada junto ao nariz. Era eu!...
E sorri. E ao sorrir, as rugas do rosto fizeram-se mais notadas, e os olhos humedeceram-se levemente. E numa espécie de diálogo virtual com o espelho, interpelei a imagem. E como num rosário, - rosário da vida, com estações e mistérios – lá fomos desfiando as contas já puídas pela erosão do tempo, e já desbotadas pelos sóis que as alumiaram, e que depois as escureceram: - emoções, anseios, alegrias, tristezas, esperanças, desilusões, de todos os ingredientes de que é feita a vida, elas tudo guardam. São símbolos vivos de muita coisa que já morreu!
Perdido nesta divagação íntima e silenciosa, deixei que a lâmina penetrasse mais fundo na pele. E voltei à realidade, regressei ao Presente. A imagem que o espelho reflectia era já diferente. Era a actual. Uma cara enrugada e carrancuda. Apenas uma réstia de um sorriso antigo tinha ficado esquecido no canto do olho...
O tempo não pára! E é talvez por isso que a nossa convivência com ele nem sempre é pacífica. Por vezes o relacionamento torna-se mesmo difícil. Sobretudo, quando na esperança de o fazermos parar, o corpo nos atraiçoa, reavivando as marcas que a passagem dos anos deixou. 
Espelho meu, espelho meu... O tempo não pára! Os anos passaram a correr e, a certa altura, é preciso assumir, com coragem e resignação, os estragos que eles deixaram na sua passagem.
Envelhecer é uma arte. E, como todas as artes, é preciso cultivá-la. Gostar dela. Admitir as suas limitações e brincar com elas. Cada idade tem os seus encantos. O que acontece é que muitas vezes não os sabemos procurar. Sucede também que, ao afirmarmos tudo saber pela experiência adquirida, cavamos um fosso à nossa volta. E somos rejeitados. As novas gerações são avessas a conhecimentos baseados na prática e na experiência. É a teoria que impera. Não adianta remar contra a maré...  
Envelhecer é uma arte. E nesta sociedade materialista em que vivemos ou a cultivamos e a renovamos constantemente, evoluindo e adaptando-nos aos novos ventos que sopram ou corremos o risco de cair no isolamento - essa ilha perdida no mar imenso que é a indiferença!
A boa disposição e o bom humor são ajudas imprescindíveis. Não esqueçamos que o riso é como o limpa brisas do automóvel: - mesmo sem conseguir parar a chuva, ele permite que continuemos a viagem...

sábado, março 07, 2015

LEITURA E INTERPRETAÇÃO

 
 Como muitas vezes tenho dito, não é fácil escrever para o jornal ou melhor dizendo, não é fácil encontrar assunto que cative a atenção ou o interesse do leitor.
As novas tecnologias, ainda que sinal de progresso, diminuíram o número daqueles que liam para reflectir e dos que procuravam na leitura a sua fonte de ensinamentos.
Hoje o cidadão moderno vê as «gordas» e passa os olhos sobre os títulos sem se interessar pelo seu conteúdo.
Há, no entanto, excepções, mas grande parte dos leitores prefere o sensacionalismo bacoco a leituras que o obriguem a “mastigar” para compreender o que lêem. A leitura da palavra escrita impõe um modo de construir pensamento que é um pouco diferente das demais fontes de informação.
Além disso, a leitura é também uma evasão. Num bom livro podemos substituir o herói, viajar, conhecer outros países, vestir trajes doutras gentes e recuar a outras épocas e ver as coisas de forma diferente.
Podemos também, através de diversos autores, fazer comparações entre épocas, culturas e outras maneiras de viver.
Enfim, a leitura é uma espécie de conversação, um diálogo com um interlocutor desconhecido com o qual podemos partilhar segredos e adquirir conhecimentos que não conseguiríamos de outra maneira.
Infelizmente, nesta época que estamos a viver, o tipo de comunicação predominante é a televisiva que conduz, muitas vezes, à desfragmentação entre a realidade e a ilusão, entre o imediatismo e o mediatismo. Num mundo de gente a correr e em que se pretende fazer crer que os ponteiros dos relógios rodam cada vez mais depressa, não há tempo para ler um livro optando-se por essa via de conhecimento (por vezes duvidoso) pois não requere nem aprendizagem nem qualquer espécie de esforço.
Daí resulta que, tecnologicamente falando, não há dúvida que vivemos num mundo privilegiado, mas também é verdade que bombardeados de informações tão variadas quão duvidosas, não conseguimos assimilá-las e muito menos interpretá-las correctamente. Daí a minha convicção de que dessa falta de as poder assimilar e da incapacidade de as saber interpretar surja uma espécie de empobrecimento cultural que afecta não só a leitura da vida como a do Mundo.
O mundo moderno exige-nos inúmeras competências, uma delas é o conhecimento perfeito da nossa língua, e isso não se refere apenas a uma boa comunicação verbal, mas também à capacidade de entender aquilo que lemos. Ler e saber interpretar aquilo que lemos é essencial para compreendermos a realidade em que vivemos.
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, fevereiro 28, 2015

EU E OS MEUS BOTÕES

 
Sempre divididos entre trabalho e paixão vamos vivendo e morrendo em cada dia que passa. Somos peças de uma engrenagem que nos arrasta e à qual não podemos escapar. À medida que o tempo passa, que o progresso transforma e que a ciência não pára de nos surpreender, pigmeus impotentes que somos, resta-nos apenas esperar e acreditar na tal réstia de sonho que há-de vir iluminar a nossa vida. A esperança é sempre a última a morrer...
Embora calejado pelos anos, nem por isso deixo de ser vulnerável às investidas da solidão, do desespero e da angústia.
É difícil, nos tempos que correm, resistir a tanta inquietação e a tantas dúvidas. A multidão que nos rodeia e cuja linguagem gira à volta de competitividade e de ganância, onde tudo é jogo e espectáculo, obriga-me muitas vezes a escolher a solidão como porto de abrigo e espaço de reflexão. Convivemos uns com os outros, cruzamo-nos na rua quase sem nos saudarmos e de rostos carrancudos, olhar perdido e pensamento absorto, lá nos vamos movimentando nesta sociedade de sorrisos de circunstância e de aparências duvidosas. E inventamos conversas. E partilhamos as nossas vidas...Mas lá bem no fundo vivemos sós, abjurando dessa maneira a nossa autenticidade pessoal.
E é por isso que, por vezes, eu sinto necessidade de me esconder, de procurar a solidão para aí construir um mundo diferente... E é quase sempre à noite que o faço. Sobretudo, quando me confesso a mim próprio e estabeleço o diálogo com o outro. Aquele outro cuja imagem, embora desfocada, me chega através dos meus netos.
E a noite, talvez porque é escura, permite fazer viagens ao passado sem que ninguém veja; permite que as lágrimas deslizem sem que sejam vistas; e permite ainda incursões até à parte mais escondida e íntima do nosso ser, onde guardamos as mais ternas e saudosas recordações!
A noite é também como que um refúgio que serve para nos libertarmos das frustrações do dia e escaparmos, ainda que por instantes, ao ramerrão dessas multidões despreocupadas e solitárias...
Depois de um longo percurso cimentado com suor e lágrimas, não é fácil equilibrar os dois pratos da balança – passado e presente – e manter o fiel no devido lugar. É que, com tanta "conquista" e com o derrube de tanta barreira e de tantos tabus, é difícil compreender tanta insatisfação, tanta exigência, tanto desapego ao trabalho, tanta irresponsabilidade e tanta falta de humanismo! Há quem diga que o passado em vez de libertar e apontar o futuro, carimba, etiqueta, ajuíza, condena. Mas também como diz o poeta, “não há machado que corte a raiz ao pensamento...»
 
 

A BRIGADA DO CROQUETE


Muito se tem escrito e falado acerca de Confrarias disto, daquilo e daqueloutro, porém nada tenho lido sobre a “Brigada do Croquete”, que é também uma Instituição de cariz folclórico e relacionada com práticas pantagruélicas e libações báquicas.
Sem desprimor para as demais, esta é, no meu entender, a Instituição portuguesa mais democrática, portanto a mais popular e a mais aberta - a mais democrática porque a ela todos podem ter acesso, seja nobre ou plebeu, doutor ou analfabeto; mais popular, porque não há hierarquias, não há chefes nem vice-chefes; e a mais aberta, porque as suas mais importantes reuniões têm entrada grátis.
As “Brigadas do Croquete” existem de Norte a Sul do País e ao contrário do que acontece com outras associações do género, não são regidas por espartilhados estatutos ou quaisquer regulamentos.
No entanto isso não impede que os seus membros não cumpram determinadas regras. Por exemplo, a sua assiduidade é exemplar! 
A sua presença é mais frequente em acontecimentos de índole política, pois como sabemos, há muita gente que tem a barriga no cérebro e o Croquete desempenha um elevado poder sedutor e ao mesmo tempo anestesiante no que diz respeito à percepção instintiva da ciência política.
Assim, à mais pequena inauguração, à mais insignificante requalificação e até mesmo à reinauguração de um fontanário já inaugurado, os seus membros nunca faltam.
E mesmo quando o vento sopra do quadrante oposto, eles não falham, porque nos seus guarda-fatos há sempre fatiotas especiais a condizer com a cor da organização do acontecimento.
Os membros da “Brigada do Croquete” não são esquisitos. Em questões de paparoca eles são polivalentes - e tanto alinham no croquete como numa boa sardinhada ou numa feijoada ornamentada com fatias de porco no espeto.
Os membros da “Brigada do Croquete”, geralmente, não têm clube ou se o têm não usam emblema. Batem palmas em todos os “encontros”, porque no final são eles que ganham, pois vão comendo à custa do Orçamento e como diz o ditado,” ou comem todos ou não há moralidade”...
E por falar em moralidade, os membros da “Brigada do Croquete” não são de intrigas, pois nunca criticam nem os assuntos discutidos nem aqueles que os discutem...
E não o fazem, porque nunca ouvem patavina do que se diz durante a arenga. Uns, porque aparecem apenas na altura de dar ao dente e outros, porque estão já a pensar no croquete, na sardinhada ou no porco no espeto.
Chamem-lhes tolos...

O SEMPITERNO PROBLEMA


 
Lembro-me de que no tempo em que me começava a crescer a barba, portanto naquele tempo da dita dura (agora ela é mole!...) fazia parte, no começo da caça ao voto, a organização de grandes comezainas ou manifestações de homenagem onde se pedia aos Zés a recandidatura de venerandas figuras que, aliás, já estavam escolhidas.
Manda a verdade que vos diga que numa dessas acções preparatórias, fui também convidado e presenteado com uma viagem à cidade invicta onde um dos putativos candidatos fazia a sua campanha. Assisti a parte da arenga e tenho ainda presente a tónica dominante dos discursos inflamados que pediam esse “sacrifício “aos futuros eleitos de cujos serviços a Pátria não prescindia!
Muitas palmas, vivas a isto e àquilo e, por fim, os eternos candidatos lá aceitavam o “sacrifício” em nome dos superiores interesses da Nação e da vontade expressa por toda aquela gente que, espontaneamente viera de perto e de longe esperançada em melhores escolhas...
Nesta altura o estralejar das palmas era mais forte e prolongado, os “vivas” eram mais roucos, mais profundos, e os elogios andavam de boca em boca, qual deles o mais hipócrita.
Mas, como disse no começo, se tais práticas se passavam quando era ainda imberbe, hoje grande parte dos putativos candidatos não consegue libertar-se desses rituais
Reparem só como se repetem as mesmas manhas, as mesmas promessas, os mesmos cenários e como usam a barriga como chamariz para angariar votos e depois de toda essa fantochada, como eles aceitam esse “sacrifício” em nome do povo, da terra ou até da Pátria!
A diferença com o “antigamente” está nas benesses que auferem, desde o carro do Estado, passando pelo ordenado, pela reforma no fim de alguns mandatos, nos prémios de reintegração e nas somas astronómicas que gastam, e etc., etc.
Nas campanhas são milhares de euros na promoção da sua imagem, percorrem milhares de quilómetros nos seus carros topo de gama, organizam festas, contratam bandas, tudo isso embrulhado em promessas que jamais cumprem!
Na minha maneira de pensar classifico os políticos em três categorias: o político por ideal, o político por amor à terra e o político por interesse. Ainda segundo a minha avaliação, o político por ideal, escafedeu-se; o político por amor à terra está em vias de extinção e o político por interesse ou dinheiro, é o que mais abunda e prolifera cá no rectângulo.
Vem este meu escrito de hoje a propósito de um cartaz de 1949, data da viagem a que acima me refiro, que encontrei na minha velha arca, e que tem escrito em letra grande “ A República precisa de ti”.
Mais de meio século depois a República continua a precisar de alguém…Mas de alguém que a sirva e não se sirva dela.  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
     
 

 

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

EM NOITE DE INSÓNIA


Em noite de insónia
Li, há muitos anos, e tantos que já me não lembro do nome do autor, que «o sono é a antecâmara da morte....» E será então por isso que os velhos dormem pouco temendo que o tal “fantasma da gadanha” que incessantemente lhes ronda a porta, os apanhe desprevenidos e os ceife no meio de algum sonho cor-de-rosa?...
Não sei. Mas, a mim, não é o medo que me sobressalta, nem o pressentimento de qualquer coisa ruim que se aproxime e me possa fazer mal. Não é nada disso, porque a lei a que temos de obedecer tem a assinatura de Deus. E basta-me essa convicção para não ter medo...
Mas durmo pouco. Talvez porque o corpo já não precisa de tantas horas de repouso. Acordo muitas vezes a horas mortas, olho o relógio, e quando a manhã ainda vem longe e o sono teima em não voltar, parece que as horas se tornam ainda mais compridas... Lá fora tudo é silêncio e quietude!
Até o relógio da torre em que outrora a maçaneta martelava o sino, e as badaladas nos iam avisando da passagem do tempo, está agora calado, emudecido, porque na sociedade moderna a lei a isso obriga. São noites de insónia, de angústia, de temores.
De vez em quando, no sossego nocturno, até os estalidos da madeira dos móveis, lembram alguém que bate à porta, que quer entrar, que quer fugir da noite. Também a brisa fria que sopra lá fora, faz rodopiar as folhas que se deslocam, e cujo barulho se assemelha a passos de gente que se aproxima. E imagino a escuridão misteriosa e imprevisível. Ao longe, o uivo de um cão traz de volta crendices e medos de infância...
E é nessa espera infindável que invejo os santos! Invejo-os, porque no seu isolamento, todos os medos se diluem, e os altares servem de cama, pois é lá que adormecem as almas que estão em paz com Deus.
Noites longas, infindáveis, silenciosas...
Porém, quando esses silêncios trazem consigo recordações, então, de olhos fechados, deixo-me levar nas asas do pensamento. E como o sonho alimenta o gosto pela vida, ando às voltas dentro de mim, percorro caminhos já percorridos, visito locais já visitados, recordo, volto atrás, vou ao sótão, revolvo montanhas de pó, sempre na esperança de encurtar as horas. E continuo rodando pelos caminhos da vida, ora subindo, ora descendo, ajudado por um sorriso ou travado por um lamento.
De repente, no silêncio da noite, um galo cantou... Abro os olhos e por uma frincha da persiana, o espreguiçar da manhã anuncia-se por um fio de luz que beija a renda do lençol. Acabou-se a noite. Mais um dia...
Não obstante os defeitos que me pesam na alma e os pecados que antes de me penitenciar envenenam os dias de angústia, cada amanhecer reforça mais a minha fé, e faz de mim um homem verdadeiramente feliz!


EM NOITE DE INSÓNIA


Em noite de insónia
Li, há muitos anos, e tantos que já me não lembro do nome do autor, que «o sono é a antecâmara da morte....» E será então por isso que os velhos dormem pouco temendo que o tal “fantasma da gadanha” que incessantemente lhes ronda a porta, os apanhe desprevenidos e os ceife no meio de algum sonho cor-de-rosa?...
Não sei. Mas, a mim, não é o medo que me sobressalta, nem o pressentimento de qualquer coisa ruim que se aproxime e me possa fazer mal. Não é nada disso, porque a lei a que temos de obedecer tem a assinatura de Deus. E basta-me essa convicção para não ter medo...
Mas durmo pouco. Talvez porque o corpo já não precisa de tantas horas de repouso. Acordo muitas vezes a horas mortas, olho o relógio, e quando a manhã ainda vem longe e o sono teima em não voltar, parece que as horas se tornam ainda mais compridas... Lá fora tudo é silêncio e quietude!
Até o relógio da torre em que outrora a maçaneta martelava o sino, e as badaladas nos iam avisando da passagem do tempo, está agora calado, emudecido, porque na sociedade moderna a lei a isso obriga. São noites de insónia, de angústia, de temores.
De vez em quando, no sossego nocturno, até os estalidos da madeira dos móveis, lembram alguém que bate à porta, que quer entrar, que quer fugir da noite. Também a brisa fria que sopra lá fora, faz rodopiar as folhas que se deslocam, e cujo barulho se assemelha a passos de gente que se aproxima. E imagino a escuridão misteriosa e imprevisível. Ao longe, o uivo de um cão traz de volta crendices e medos de infância...
E é nessa espera infindável que invejo os santos! Invejo-os, porque no seu isolamento, todos os medos se diluem, e os altares servem de cama, pois é lá que adormecem as almas que estão em paz com Deus.
Noites longas, infindáveis, silenciosas...
Porém, quando esses silêncios trazem consigo recordações, então, de olhos fechados, deixo-me levar nas asas do pensamento. E como o sonho alimenta o gosto pela vida, ando às voltas dentro de mim, percorro caminhos já percorridos, visito locais já visitados, recordo, volto atrás, vou ao sótão, revolvo montanhas de pó, sempre na esperança de encurtar as horas. E continuo rodando pelos caminhos da vida, ora subindo, ora descendo, ajudado por um sorriso ou travado por um lamento.
De repente, no silêncio da noite, um galo cantou... Abro os olhos e por uma frincha da persiana, o espreguiçar da manhã anuncia-se por um fio de luz que beija a renda do lençol. Acabou-se a noite. Mais um dia...
Não obstante os defeitos que me pesam na alma e os pecados que antes de me penitenciar envenenam os dias de angústia, cada amanhecer reforça mais a minha fé, e faz de mim um homem verdadeiramente feliz!


VELHO?.... NÃO!...


Chegou-me pelo correio uma carta sem remetente e sem qualquer outra indicação. Em reforço, um telefonema anónimo indicando que uma cópia tinha sido enviada para a Redacção. Dentro do sobrescrito, apenas uns versos. Sem autor e sem data. Tenho por hábito e princípio dar um único destino às cartas anónimas – o cesto dos papéis.
No entanto, hoje, vou abrir uma excepção, e vou publicar o seu conteúdo. Por dois motivos. O primeiro relaciona-se com o facto de, ao publicá-lo, levar o seu autor a reivindicar a posse; o segundo  tem a ver com uma questão de identificação: se eu fosse poeta diria exactamente a mesma coisa. É o que penso e o que sinto. Sou eu a falar. É o meu pensamento vestido de letras…

«Não! Eu nunca serei um velho.
Por tudo aquilo que sinto,
E quando me vejo ao espelho,
Ele me diz que não minto.

Podem dizer: Que vaidoso!
Natural, a idade avança,
Acontece, quando o idoso
Se torna outra vez criança…

Não, não é gabarolice,
É forte disposição,
Pois não pode haver velhice,
Quando há paz no coração.

Vou saboreando este gosto,
Serenamente, com calma,
Conservando no meu rosto,
Esta paz que me vai na alma.

Quando a vida estiver finda,
Já dentro do meu caixão,
Eu direi sempre, sempre e ainda,
Morto, sim, mas velho, NÃO!...»

O título desta minha crónica de hoje foi roubado. Não o fiz deliberadamente e estou pronto a devolvê-lo a quem o escreveu. Mas por tão bem e por tão fielmente ter traduzido os meus sentimentos, e apesar de anónimo, para o autor, o meu bem-haja!



PREPOTÊNCIA E INFALIBILIDADE



Um dos traços de personalidade que sempre odiei e que está na minha lista-negra é a prepotência.
Tive sempre muita dificuldade em conviver ou trabalhar com pessoas prepotentes, mas infelizmente o que mais se vê por aí nestes tempos, são esses exemplares presunçosos, egoístas e geralmente mal formados.
O principal problema da prepotência é que ela parte de um princípio absolutamente improvável.
O prepotente julga-se sempre o mais apto, o melhor, o mais capacitado, o mais conhecedor seja qual for a área em que exerce a sua influência. Muitos deles conseguem até ser “mais” e “melhores” em várias áreas simultaneamente!
E isso é o que mais revolta me causa!
Um dos postulados mais básicos da filosofia já diz que, quanto mais se sabe, mais se sabe que não se sabe nada ou, dito de outra maneira, quanto mais conhecimento se adquire, mais se tem a noção de que ainda se tem muito que aprender.
Ultimamente tenho percebido que uma segunda característica da prepotência é tão ou mais danosa do que essa condição de “sabe-tudo”. É a infalibilidade. Os prepotentes acreditam que são infalíveis.
Eles nunca erram. Ou, se erram, nunca é culpa deles. E tenho notado que essa característica nem sempre vem acompanhada do tradicional “sabe-tudo” da prepotência.
Devo ter sido educado de forma errada mas, para mim, errar faz parte do processo de aprender.
Nenhuma criança começa a caminhar quando completa 9 meses de idade.
Tudo isso faz parte de um processo: a criança começa por gatinhar, por dar quedas, por se levantar, manter-se uns instantes de pé e só depois de algum tempo consegue manter o equilíbrio e, finalmente atingir o modo normal da locomoção.
Durante a minha já longa caminhada tenho notado que aqueles que querem aprender a correr depressa subestimando a marcha do companheiro do lado, geralmente acabam, de facto, por chegar primeiro, mas enchem-se de tanta sapiência e imprimem tanta velocidade aos seus passos que, terminam o “percurso” sozinhos, sem amigos que os aplaudam.  

Aprender a ser um cidadão de corpo inteiro é um processo contínuo de crescimento. E esse crescimento deve ser acompanhado de muita compreensão, de muito respeito pelos outros e sobretudo de muita humildade.

ENVELHECER A SORRIR



Na carruagem-restaurante, dois velhotes sentados face a face, tiram do bolso a mesma embalagem de remédio e dissolvem o pó nos respectivos copos de água. Depois, olham-se como dois cúmplices, e sorriem...
- Desculpe, mas não me diga que também sofre da coluna!...
- É verdade. E pelo que vejo, o senhor também.                   
- Exactamente. E não pode calcular o prazer que sinto...             
- Prazer? Olhe que a mim não me dá prazer nenhum.
- Perdão! Não me referia às dores, mas ao prazer de encontrar um colega...
- Pois foi o mesmo que pensei quando li o rótulo da sua embalagem!
- Artrose?                
- Acertou.
- Eu, bicos de papagaio...         
- Também tenho. Não sente de vez em quando uns estalidos?                           
- Ai que não sinto!... Se o comboio não fizesse tanto barulho até lhos fazia ouvir.        
- Eu, só p’ra médicos tem sido uma fortuna: chapas, análises e, por fim, receitaram-me estes pós.                           
- Exatamente o meu caso.                       
- Eu só senti melhoras uma vez. Estava deveras empenado e de tão desesperado fui a um armário que temos lá em casa, tirei uma caixa ao acaso... 
- E então?              
- Durante oito dias não soube o que eram dores. Depois, e ainda por acaso, voltei a ler a literatura e dei conta de que o papel estava trocado e que os supositórios eram para a gripe! Não lhe conto nada...                        
- Efeito psicossomático...                    
- Evidentemente!                        
- E quem sabe até se não seria a ginástica que fez ao pôr o supositório que lhe pôs a vértebra no lugar?                                   
- Também já pensei nisso...                                       
- Sabe, é que às vezes um gesto, uma posição diferente... E a propósito: para onde vai se não sou indiscreto?                                
- Olhe, vou fazer uma cura de lama, porque dizem que faz muito bem...              
- Tem graça. Eu também. Antigamente, quando o meu avô Marcelino ia muitas vezes ao médico e se queixava sempre da mesma coisa, o doutor mandava-o à merda! Agora, com todas estas modernices, mandam-nos fazer banhos de lama...                   
- A coisa não dá para rir, mas apetece dizer que nos tiraram da merda e nos meteram na lama...                                
- Coisas do progresso, Amigo! Antigamente era uma pobreza franciscana: sinapismos, papas de linhaça, ventosas, caldos de galinha... Até na morte éramos pobres! Hoje, morre-se rico... Veja a quantidade de Euros que um cristão engole em remédios antes de entregar a alma ao Criador!...                                  
- É verdade... Mas está na hora de tomarmos os nossos pozinhos...                                    
- Tem razão. Então à sua saúde!                  
- E à sua também!...


sexta-feira, dezembro 12, 2014

EM JEITO DE CONFISSÃO

Há muita gente que tem medo de envelhecer. No meu caso, confesso que me sinto feliz por ter chegado a esta fase da vida. Ela dá-me a oportunidade de prosseguir o meu desenvolvimento tanto no aspecto pessoal como social.
E quanto não vale este livro ilustrado que é a memória com todas as experiências vividas?!...
É por isso que aceito o envelhecimento como uma fase da existência terrena de cada ser humano – encaro-o assim como que uma espécie de prolongamento de um projecto inacabado!
Agora que os sonhos se esfumaram, que as paixões se esvaziaram e que à euforia de outrora sucede a crua realidade do dia-a-dia, o tempo tem outro encanto, outro sabor e cada amanhecer é uma dádiva que aviva o sentimento da maravilha do ser humano na terra com toda a sua riqueza e diversidade.
E é também uma outra maneira de interiorizar a vida com a alegria de poder participar nas iniciativas que povoam o curso fértil da humanidade através da solidariedade e do voluntariado. 
Mas nem sempre é fácil. Numa sociedade computorizada e consumista em que se passa o tempo a premir teclas e botões num ritmo alucinante imposto pela informática e pela cibernética, só com força de vontade e determinação se consegue aguentar a corrida desgastante que a maquiavélica máquina exige.
É uma sociedade traiçoeira, esta em que vivemos!...
Ela não se compadece com ninguém, nem mesmo com aqueles que são testemunhas vivas dos laços de família ao longo de várias gerações.
O conflito entre elas agudiza-se em cada dia que passa. O individualismo selvagem e cruel anda à solta; a afirmação pessoal agride; a competição social destrói e a solidariedade entre as pessoas tende a desaparecer.
Por isso são várias as dificuldades com que o idoso se debate e é necessária uma grande força de vontade e uma fé inquebrantável para fazer a integração nessa nova sociedade, sem que tenhamos de abdicar dos princípios básicos daquela em que fomos criados.
Apesar de estarmos na era da globalização, não podemos esquecer que a Família continua a ser a célula básica da sociedade.
Durante estes últimos vinte anos foi talvez o período da minha vida em que se desenvolveu mais esta opção individual de reforçar o meu optimismo perante a vida. O envelhecimento não é uma doença nem uma incapacidade, que nos impeça de ter uma vida produtiva e feliz.
O diálogo entre gerações é essencial para prevenir a solidão e a exclusão social. Só por volta dos meus 60 anos é que comecei a martelar as teclas do computador. E os meus primeiros professores foram os meus netos…
 
 
 

sábado, novembro 29, 2014

EM DIA DE REFLEXÃO


Domingo pardacento e frio. Dia de recordar os que já partiram. Muita gente no Campo Santo. Muitas flores, muitas velas, orações e algumas lágrimas – de saudade e de remorsos também.
Lágrimas verdadeiras e sentidas por aqueles que partiram reconfortados com o carinho dos que ficaram, e de remorsos daqueles que em vida lho negaram…
Refiro-me aos homens e mulheres que em vida viveram sepultados no coração dos familiares como que amortalhados antecipadamente na frieza, na indiferença, no abandono, sofrendo carências de toda a ordem!
A melhor forma de celebrar as pessoas amadas é estimando-as em vida e não através de objectos decorativos de cariz religioso. É na sua vivência do dia-a-dia que devemos tratar com carinho aqueles que amamos.
Infelizmente, na sociedade consumista em que vivemos, as pessoas, a partir de uma certa idade são relegadas para segundo plano e muitas vezes abandonadas pelos seus familiares.
Mas há de tudo nesta multidão que põe flores, que acende velas, que ajoelha junto de campas rasas ou contempla orgulhosamente ricos mausoléus de mármore encimados por doiradas e reluzentes cruzes!
Mas é assim o nosso mundo. Um mundo de fingidos e de hipócritas. De Judas e de falsos Samaritanos.
O que importa é parecer. Mesmo que não se seja nem se possa vir a ser. Não há regras, não há códigos de conduta, nem cartilha que sirva de orientação. Cada qual se rege pelas suas próprias “convicções”… Que não podemos criticar. A liberdade de pensamento e de acção são bens inalienáveis de qualquer cidadão.  
Porém, com o amontoar dos anos aprendi que há sentimentos tão íntimos e pessoais que por uma questão de respeito por nós próprios, devemos evitar de os exteriorizar, guardando-os dentro de nós como pertença só nossa, como é o caso das nossas angústias e das recordações dos que nos deixaram.
E no meio daquela multidão dei comigo a reflectir nas palavras de Santo Agostinho: ‘Flores e lágrimas são alívio dos vivos, mas não refrigério dos mortos…»
Muitas vezes esses arranjos florais não são mais do que manifestações hipócritas à intenção dos vivos. Os mortos não falam, não vêem e é neste dia que muitos tentam “reabilitar-se perante os que ficaram, ofertando flores e choros como compensação de tudo o que lhes negaram enquanto vivos. E a esses basta uma simples cruz para simbolizar como foi a vida… 

LEVAR A VIDA A SORRIR


Julgo que o ser humano é o único organismo vivo que possui a capacidade de rir. O riso implica uma consciência. Nada daquilo que o homem inventou até agora é capaz de gracejar. Já viram, por exemplo, algum computador por mais avançada técnica que possua, que, por si só, seja capaz de rir?

O riso, no meu entender, está intimamente ligado à inteligência, a essa faculdade que nos foi concedida para podermos manifestar de maneira inequívoca a nossa existência no planeta que habitamos. O humor está intimamente ligado ao coração e é um meio de comunicação quando o diálogo se torna impossível e somos ultrapassados pela amplitude de um problema ou de uma situação.

Rir dos outros é sempre fácil. Mas rir de nós próprios torna-se mais difícil e chega a ser, para muitos, tarefa impossível.

Porém a auto-ironia é uma das melhores terapias e ajuda-nos a ter consciência dos nossos próprios defeitos, permitindo-nos, assim, que os corrijamos mais facilmente.

O nosso ego puxa quase sempre para o sério, mas o humor na maior parte dos casos anula essa seriedade e dá-lhe mais sentido de vida, mais cordialidade ao mesmo tempo que reforça a convivência e a integração na sociedade.

Ainda não há muito tempo, era raro ver um militar, um ditador, ou até um chefe religioso ostentar um rosto sorridente. Nessa época, o semblante austero, em certas circunstâncias, era obrigatório ou quase de lei.

E ainda restam resquícios dessa época e não é raro verificar ainda hoje tal situação, especialmente em alguns locais de culto. Já viram o rosto austero e sorumbático de muitos dos participantes? Tudo parece morte num local onde é suposto vivificar a fé?!...

Rir de si próprio e das nossas situações ridículas é a melhor maneira de sermos nós próprios e de assumirmos, por inteiro, a nossa verdadeira identidade como seres humanos que somos.

O humor desdramatiza, ajudando-nos a olhar e a observar com bonomia os comportamentos humanos, demonstrando-nos que os outros têm sobre nós apenas a importância que nós lhes quisermos dar.

Como costuma dizer-se, a vida é uma peça de teatro em que cada um de nós tem um rol a desempenhar. Por isso, façamo-lo com humor e boa disposição…

Com estes apertos de cinto é impossível baixar as calças. Mas mesmos se nos obrigarem a fazê-lo, façamo-lo com classe, com diplomacia – exibindo com determinação o anverso, e não expondo demasiado o reverso.

terça-feira, novembro 11, 2014

PROPÓSITOS DE UM AVÔ

O conflito entre gerações foi, ao longo dos séculos, sempre difícil de gerir e quase sempre impossível de evitar. Hoje, os confrontos são diários e preocupantes. Reportando-nos aos meios rurais, que melhor conhecemos, assistimos, por vezes, a comportamentos que deitam por terra todos os conceitos tradicionais que durante muito tempo pautaram a convivência familiar.
Houve um tempo em que a educação adquirida no seio da família era uma espécie de carapaça que permitia resistir a quaisquer investidas externas, fosse qual fosse a sua força ou proveniência. A obediência e o respeito constituíam a base da sua formação. Em qualquer família, da mais rica à mais humilde, eram esses os principais ingredientes usados na preparação do futuro. Tudo mudou, e em cada dia que passa, os solavancos da mudança provocam cada vez mais safanões na sociedade.
E vezes sem conta, é difícil determinarmos, com certeza, o verdadeiro culpado. No entanto - embora, por vezes, vejamos um mau comportamento num filho de pais moralmente exemplares - continuo a pensar que muitos dos problemas com que se debate a juventude têm a sua origem na família.
Porque a "engrenagem" a isso obriga, desde a mais tenra idade, as crianças são separadas da célula familiar, do carinho dos pais e do lar, e entregues a Jardins-de-infância, Infantários ou a Colégios. E nem em todos esses locais existem as condições próprias e humanas para as formar... 
Há ainda a acrescentar a essa situação, o caso de certos pais modernos que, por falta de tempo, tentam conquistar a afectividade dos filhos, fazendo-lhes todas as vontades, satisfazendo-lhes todos os caprichos, comprando-lhes, (mesmo com grandes sacrifícios) tudo o que os meninos exigem. 
Do somatório de tudo isto, não admira que a agressividade, a indisciplina, a propensão para brigas e o desrespeito pelos mais velhos sejam muitas vezes tidos por comportamentos normais da juventude do nosso tempo!
Nesta correria desenfreada, nesta insatisfação constante e com este egoísmo exacerbado que tomou conta da nossa sociedade, o conflito de gerações está a transformar-se cada vez mais num fenómeno sociológico de consequências imprevisíveis. Há já aqueles que situam o "Avô" na área da arqueologia e o considerem como parte integrante de um arquivo histórico e poeirento. Para muitos jovens, o "Avô" defende ideias reaccionárias, segue princípios desactualizados, ignora as novas tecnologias e, por isso mesmo, emperra o progresso! A sabedoria dos mais velhos é hoje ridicularizada e os mais novos afirmam-se os exclusivos detentores de toda a sapiência. Que assim seja!...
No entanto, e mesmo correndo o risco de ser acoimado de reaccionário ou de saudosista, continuo convencido de que a Escola coadjuva, mas nunca pode remediar o que faltou em casa. É em casa, no seio da Família, que deve começar a orientação dos homens do futuro. O que parece é que há cada vez menos famílias preparadas para levar a cabo essa complexa missão.